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Mais sonhos

Acabei de assistir a uma missa pela


Televisão. Ficaram-me duas ideias durante
e depois delas. A primeira foi a de Fátima,
Fátima como aparição de Nossa Senhora. A
segunda foi a do Mar, porque acabo sempre
lá chegando, qualquer que seja o caminho.
Acreditei em Fátima da forma em que me
ensinaram a acreditar. Mais tarde, e
segundo Mateus, não o evangelista, mas o
Mateus Cabrita, aquilo terá sido um
aproveitamento da Igreja, o que penso hoje
fazer todo o sentido. Duas das crianças a
quem a Virgem terá aparecido morreram cedo e vítimas de doença, alguém me disse que
talvez de tuberculose, o que traz febres altíssimas e delírios, e o milagre pode não ter
sido mais do que isso. A terceira e mais velha, Lúcia como eu, foi enclausurada, fechada
viva para o mundo: para mais tarde desvendar segredos, que me parece que eram de
Polichinelo. Ou tê-lo-á sido porque era conveniente, para a Igreja e também para o
sistema da época, que queria o povo ocupado, não pensante, e este seria mais um dos
seus ópios? De qualquer das formas, o milagre é hoje, para mim, duvidoso. Aquilo de
que mais gostei foi dos cravos que rodeavam a imagem e que, ao contrário dos
vermelhos, cor do Amor, eram brancos, cor da Pureza. Também é uma cor que gosto
muito de vestir. A imagem trouxe-me outra, a de quando passou por Silves, era eu muito
pequena, andava ela em romagem pelo País. Mais outro truque da Igreja e do Estado? O
povo tem que se manter ocupado para não pensar. E o povo era crente. Era-o muito mais
do que agora. A imagem, aquela que usa a nossa coroa, que foi perdida muito antes do
fim da monarquia, porque um dos nossos reis lha ofereceu, passou à que é hoje a minha
rua, que não tem o mar ao fundo, como a do Poeta António Pereira, mas os montes e o
céu azul.

A outra ideia foi a do mar. Como é que ela me surgiu? Vi desfilar o nosso povo, parte do
meu querido povo português, com os seus trajes típicos: desde as mulheres do Minho
com seus lenços e arrecadas, às da Nazaré, em que me fixei. Não só porque lembram o
mar. Foi o seu chapéu que me chamou a atenção. Porque a única vez em que me vest
iram de Carnaval, foi de varina, varina da Nazaré. A Emília e a Alexandrina, duas
vizinhas da Rua dos Operários, que me fizeram muitas vestes, arranjaram-me mais esta.
E o chapéu, redondo, achatado em cima, feito de cartão recoberto de cetim preto, com
elástico a passar por baixo do queixo, para não fugir com o vento, ficou-me numa
memória quase esquecida, que agora veio ao cimo. E associada a esta ideia surgiu-me a
de que foi com elas que pela primeira vez vi o mar. Costuraram o meu primeiro fato de
banho: de fundo em tom cru, parece-me, com flores vermelhas, garridas. Era um calção
tufado, com elástico na cintura e em volta das pernas, mesmo junto das virilhas. A ele
pegava o peitilho, em forma de coração, com em folhinho em volta e duas alças
cruzadas nas costas, para não caírem. Foi assim vestida, e talvez com um grande chapéu
de empreita na cabeça, com um laço, porque a minha mãe era cuidadosa em me proteger
a cabeça, que pela primeira vez vi o mar. Na véspera à noite lembro-me de que ainda
tive mais dificuldade em adormecer do que de costume. E sonhei. Talvez seja o sonho
mais antigo de que tenho recordação: sonhei que havia
umas casas altas e escuras, junto às paredes onde batia
uma água muito preta, que era o mar. E este mar
assustou-me. No dia seguinte foi o grande dia, o primeiro
em que desvendei o meu mar por conhecer. Não me
lembro se fomos de comboio ou no autocarro do
Monteiro. Mas fomos. E quando lá cheguei, uma grande
quantidade de água azul e linda, batendo na areia
amarela, e desfazendo-se em espuma branca, com um
horizonte de que eu desconhecia o nome, mas que se
confundia com o céu, apareceu na minha frente,
surpreendeu-me por ser lindo, como que a correcção do
sonho, não pela negativa, porque o negativo, a preto, e
não me lembro se também branco, apagou-se durante
muito tempo, e revelou-se a cores, das mais lindas da
terra. O azul é uma das minhas cores preferidas.
Disseram-me que é uma cor positiva. Talvez seja. Que interessa a classificação, se eu
gosto tanto dele?
Vou oferecer a todos o que talvez tenha sido o meu mais antigo sonho, porque penso
que há outro que se confundiu sempre com a realidade: era de dia, e no lugar onde o
meu pai teve a sua primeira pequena caldeira, clandestina, como tanta coisa na época,
onde cozia um só fardo de cortiça de cada vez, eu vi um homem. Só me lembro que
vestia camisa branca, desabotoada em cima, e tinha com ele uma bolsa também branca,
atada com um cordão e borlas nas pontas, que me olhou de uma maneira de que não
gostei, e me assustou. Este sustou e este sonho perseguiram-me por muito tempo, até
que este cumpriu a sua função, e eles foram quase apagados. Fui contar ao meu pai que
tinha visto o homem e que tinha medo dele. Então, levou-me pela sua mão direita ao
local e disse-me, mostrou-me, que não estava lá homem nenhum, que não deixaria que
ele me fizesse mal, e que eu deveria ter sonhado.
Perseguem-me os sonhos desde criança. Uns ainda me assustam, outros não, mas são
parte de mim. É a eles que me agarro por vezes, como forma de sobrevivência. Ou
vivência, sei lá!

P. S.: Em todas as noites futuras, de véspera de ida à praia, eu continuei a ter, durante
muitos anos, mais dificuldade ainda em adormecer, porque no dia seguinte ia ver o meu
mar!

Maria Lúcia
27/04/2008