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CAPÍTULO I

CONCEPÇÕES DE LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA E SUA APLICAÇÃO NO CAMPO DA SURDEZ

Wanilda Maria Alves Cavalvanti

De acordo com os parâmetros curriculares nacionais (PCNs) o domínio da língua tem estreita relação com a possibilidade de plena participação social, pois é por meio dela que o homem se comunica, tem acesso à informação, expressa e defende pontos de vista, partilha ou constrói visões de mundo, produz conhecimento.

CAPÍTULO I CONCEPÇÕES DE LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA E SUA APLICAÇÃO NO CAMPO DA SURDEZ Wanilda
CAPÍTULO I CONCEPÇÕES DE LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA E SUA APLICAÇÃO NO CAMPO DA SURDEZ Wanilda

Assim, um projeto educativo comprometido com a democratização social e cultural atribui à escola a função e a responsabilidade de garantir a todos os seus alunos o acesso aos saberes linguísticos necessários para o exercício da cidadania, um direito de todos.

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CAPÍTULO I CONCEPÇÕES DE LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA E SUA APLICAÇÃO NO CAMPO DA SURDEZ Wanilda
Dento dessa ótica, trazemos concepções que norteiam as práticas que esperamos trabalhar nessa disciplina, portanto, o

Dento dessa ótica, trazemos concepções que norteiam as práticas que esperamos trabalhar nessa disciplina, portanto, o início de nossas reflexões gira em torno de concepções sobre de língua, linguagem e fala.

Língua parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-

la, nem modificá-la. Como afirma Marcuschi (2008, p. 61) “[ sociais e cognitivas historicamente situadas”.

...

]

língua é um conjunto de práticas

Dento dessa ótica, trazemos concepções que norteiam as práticas que esperamos trabalhar nessa disciplina, portanto, o

A língua de sinais é uma língua natural e, estudos de aquisição da linguagem revelam uma grande semelhança no processo de aquisição dos sinais comparados com a aquisição da fala nas línguas orais. Linguagem é a capacidade comunicativa que tem os seres humanos de usar intencionalmente qualquer sistema de sinais significativos para comunicar seus pensamentos,

Dento dessa ótica, trazemos concepções que norteiam as práticas que esperamos trabalhar nessa disciplina, portanto, o

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ideias, sentimentos e experiências. É todo sistema de sinais convencionais que nos permite realizar atos de comunicação, ou, todo e qualquer sistema serve de meio de comunicação entre os indivíduos. Ou ainda, segundo Corrêa (2002, p. 22) o termo linguagem designaria a faculdade, própria do ser humano, de produzir sentido, tendo, portanto, uma abrangência universal. A linguagem seria, portanto, todas as formas de comunicação, incluindo as verbais (cujos sinais são as palavras) e as não-verbais (utiliza outros sinais que não as palavras).

ideias, sentimentos e experiências. É todo sistema de sinais convencionais que nos permite realizar atos de
ideias, sentimentos e experiências. É todo sistema de sinais convencionais que nos permite realizar atos de

Fala é a realização concreta de uma língua, feita por um indivíduo de uma comunidade num determinado ato de comunicar. Para que um indivíduo se torne um comunicador eficaz, são necessárias, duas competências essenciais: Competência linguística: conjunto de saberes sobre a língua e sua potencialidade, incluindo a os seus diferentes registros (culto, coloquial, falado, escrito, técnico, especializado). Competência discursiva: representa a capacidade de um indivíduo de atualizar a língua em diferentes situações de comunicação (familiar, profissional, acadêmica, etc.)

A linguagem prova clara da inteligência do homem, tem sido objeto de pesquisa e discussões, tais como a aptidão linguística, tendo em vista a discussão sobre questões decorrentes de danos cerebrais ou limitações sensoriais, como a surdez. Produzir linguagem significa produzir discursos. Significa dizer alguma coisa para alguém, de uma determinada forma, num determinado contexto histórico. Isso significa que as escolhas feitas ao produzir um discurso, não são aleatórias ainda que possam ser inconscientes mas decorrentes das condições em que esse discurso é realizado.

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ideias, sentimentos e experiências. É todo sistema de sinais convencionais que nos permite realizar atos de

A surdez congênita e pré-verbal pode bloquear o desenvolvimento da linguagem verbal, mas não impede o desenvolvimento de processos não verbais. As crianças ouvintes e surdas apresentam um processo de aquisição da linguagem muito semelhante ao do ouvinte, até uma determinada fase, ocasião em que os surdos poderão apresentar dificuldades, principalmente, no que se refere à percepção e à discriminação auditiva, repercutindo na compreensão da linguagem. Segundo Karnopp (1999) as investigações em relação à aquisição da linguagem de crianças surdas mostram duas categorias que são estabelecidas considerando o ambiente linguístico da criança seja ele composto de crianças surdas filhas de pais ouvintes e outro no qual as crianças surdas são filhas de pais surdos (ou somente um deles). O ponto central da questão é saber se a criança surda esteve exposta à língua de sinais. Considerando os aspectos pré-linguísticos e linguísticos, segundo essa autora, a aquisição da linguagem da criança surda, do nascimento aos cinco anos de idade, mostram o enunciado de um sinal, de dois sinais e estágios posteriores. É evidente que para melhor entendimento do que estamos falando é importante que conheçamos os períodos da aquisição da linguagem do surdo.

  • 1.1. Período pré-linguístico

Este período tem início quando a criança nasce e finaliza com o aparecimento dos primeiros sinais. Nesse período como já afirmamos anteriormente, os bebês surdos e ouvintes apresentam muita semelhança nas formas de comunicação empregadas tais como o balbucio oral e o gestual (RINALDI & QUADROS 1997). Segundo Karnopp (2005), o desenvolvimento pré-linguístico apresenta não apenas a

produção gestual, mas traz informações a respeito da percepção visual da criança e a interação entre o adulto e o bebê no processo de aquisição da língua de sinais. Aspectos como o contato visual entre os interlocutores, o uso de expressões faciais, a atenção ao meio visual, a produção de

um complexo balbucio manual, de gestos sociais e do “apontar” são aspectos observados nessa

fase.

Sabemos que surdos e ouvintes produzem sons e gestos manuais muito similares durante o primeiro ano, tornando-se difícil a distinção entre o balbucio manual e o oral compartilhado entre bebês surdos e ouvintes, e as produções manuais que são específicas dos bebês surdos.

A surdez congênita e pré-verbal pode bloquear o desenvolvimento da linguagem verbal, mas não impede o

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Há situações em que as crianças surdas e ouvintes produzem gestos que representam ou se referem a algum objeto ou evento, tais como abrir e fechar a mão para pedir algo, mover os braços para indicar um pássaro. Esse fato torna complexa a distinção entre sinais e gestos, pois ambos são referenciais, comunicativos e produzidos manualmente. Por isso, a distinção desses dois tipos de atividade manual e o status simbólico dos gestos iniciais na aquisição da linguagem é uma questão que recentemente, tem recebido mais atenção.

1.2. Período linguístico (produção de enunciados de um sinal, enunciados de dois sinais e estágios posteriores)

O termo aquisição da palavra (sinal) pode ser entendido de diversas maneiras, ou seja, pode se referir a qualquer gesto produzido e usado pelo bebê em um contexto consistente, ou pode se referir a um sinal da linguagem adulta que é entendido e usado como tal. Em analogia com a definição que Ingram (1989, p. 139) adota para as línguas orais, utilizamos aqui a definição

de

que

[

]

o primeiro sinal é um sinal da linguagem adulta e que é entendido com algum

significado.

 

1.2.1. Enunciados de um sinal

Os resultados do estudo de Schlesinger e Meadow (1972), na (língua de sinais americana) ASL, fornecem dados importantes sobre o tamanho do vocabulário e sobre o período em que o primeiro sinal foi produzido. Os autores relatam que as crianças inicialmente produzem enunciados com um só sinal e posteriormente começam a produzir dois ou mais sinais em combinação. As pesquisas desses autores mostraram que uma das crianças pesquisadas, A. tinha um amplo vocabulário em sinais aos 19 meses, se comparado ao vocabulário de crianças ouvintes. Em diários da aquisição da linguagem de duas crianças ouvintes, expostas ao inglês e à ASL, eles verificaram que o primeiro sinal surgiu antes da primeira palavra. A hipótese de que a aquisição da língua dos sinais se iniciaria mais cedo do que a aquisição das línguas orais gerou discussões entre alguns pesquisadores sobre a questão da iconicidade nas línguas de sinais, sobre o desenvolvimento motor das mãos, sobre a questão da visibilidade dos articuladores e a interferência dos pais na produção dos sinais.

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Há situações em que as crianças surdas e ouvintes produzem gestos que representam ou se referem

Das discussões realizadas sobre essas questões do vocabulário da criança e sobre as possíveis implicações da iconicidade na aquisição de sinais, pode-se concluir que, apesar das diferenças individuais dos informantes, das diferenças entre as línguas e entre as modalidades de línguas, há um certo paralelo no processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem que independe da distinção língua gestual-visual ou oral-auditiva. Em termos gerais, pode-se dizer que os primeiros sinais ou as primeiras palavras aparecem entre os 10 meses e o 1º ano de idade. Estudos de aquisição da linguagem de crianças surdas com pais surdos têm mostrado que elas inicialmente balbuciam com as mãos, começam então a produzir enunciados com um único sinal e, em seguida, combinam sinais formando sentenças simples. O acompanhamento da aquisição da linguagem de um sujeito por Karnopp (1999) mostrou que dos 8 aos 30 meses de idade ela inicialmente produziu balbucio manual, começou então a produzir enunciados com um único sinal e, em seguida, combinou sinais formando sentenças simples.

1.2.2. Enunciados de dois sinais e estágios posteriores do desenvolvimento linguístico

Ao final do período caracterizado pelos enunciados de um sinal (mais ou menos aos dois anos de idade, variando de criança para criança), começam a aparecer enunciados formados por dois sinais. Eles consistem, basicamente, no agrupamento de dois sinais que apresentam algum tipo de relação semântica. Estudos realizados por Bonvillian et al. (1983) constataram que a média de idade na produção dos enunciados de dois sinais é de 17 meses (variando entre 12 e 22 meses), enquanto que nas línguas orais os enunciados de duas palavras ocorrem entre os 18 e 21 meses. Para tais autores, isto sugere que tanto a fala quanto o sinal são restritos por fatores cognitivos ou linguísticos e não por fatores superficiais relacionados à modalidade (articulação motora). Como na aquisição das línguas orais, o início do estágio de dois sinais ocorre com a produção de enunciados de duas palavras. De um modo geral, o período do desenvolvimento de dois sinais apresenta as seguintes características, conforme Newport & Meier (1986) e Deuchar

(1984):

Das discussões realizadas sobre essas questões do vocabulário da criança e sobre as possíveis implicações da

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  • - emergência de relações semânticas entre os elementos (sinais), em uma mesma ordem.

Os tipos de relações semânticas entre os elementos dos enunciados são os seguintes: agente +

ação; ação + objeto; agente + objeto; ação + lugar; demonstrativo + entidade; entre outros;

  • - os enunciados consistem tipicamente de itens lexicais que são produzidos através de formas de citação não-flexionadas;

    • - o uso da ordem (por exemplo, Sujeito-Verbo, Verbo-Objeto, Sujeito-Verbo-Objeto)

funciona como uma estratégia sintática para marcar e atribuir função aos elementos do enunciado. Tal estratégia sintática é adquirida antes das flexões a nível morfológico. Após a fase de dois sinais, surgem enunciados com maior número de sinais que, aos poucos, vão se aproximando da linguagem do adulto. O período de maior desenvolvimento linguístico vai mais ou menos até os cinco anos, quando acriança já tem uma capacidade Linguística bem próxima à do adulto. Supõe-se que, como nas línguas orais, as aquisições posteriores nas línguas de sinais estejam relacionados à complexidade sintática e semântica da língua em questão. Ainda neste sentido Karnopp (2001) afirma que quando investigou o desenvolvimento fonológico em crianças surdas, filhas de pais surdos, analisando a aquisição de sinais foi surpreendente constatar que tal língua não é ensinada, mas adquirida naturalmente. É praticamente impossível ao surdo falar de forma natural, tendo em vista o bloqueio sensorial em relação ao input linguístico sonoro que o circunda, embora possa ser ensinado a falar uma língua, dificilmente será capaz de compreender a fala tão bem como uma pessoa ouvinte. Por outro lado, crianças surdas, expostas à língua de sinais, adquirem essa língua de forma natural, da mesma forma que as crianças ouvintes adquirem uma língua oral, espontaneamente. Assim, crianças surdas adquirem a língua de sinais que está à sua volta sem nenhuma instrução especial. Essas crianças começam a produzir sinais, mais ou menos na mesma idade em que as crianças ouvintes começam a falar, e atravessam os mesmos estágios de desenvolvimento linguístico das línguas naturais. Portanto, se a linguagem humana é universal no sentido de que todos os seres humanos possuem a capacidade para adquirir uma língua, não é surpreendente que as línguas de sinais se desenvolvam entre pessoas surdas. E, considerando os aspectos universais das línguas humanas é natural que surdos, expostos à língua de sinais, apresentem um paralelo em relação aos estágios de aquisição das línguas orais. Crianças surdas inicialmente balbuciam com as mãos, começam então a produzir enunciados com

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- emergência de relações semânticas entre os elementos (sinais), em uma mesma ordem. Os tipos de

um único sinal, enunciados de dois sinais e, em seguida, combinam sinais, formando sentenças simples.

um único sinal, enunciados de dois sinais e, em seguida, combinam sinais, formando sentenças simples. NestaEstrutura Linguística da LIBRAS. In: BRASIL. Educação Especial Deficiência Auditiva : Série Atualidades Pedagógicas. Brasília: MEC/SEESP, 1997. ______. LETRAS LIBRAS|18 " id="pdf-obj-7-4" src="pdf-obj-7-4.jpg">

Nesta última década a oficialização da LIBRAS pela Lei 10.436 de 24/04/2002, a Lei 12.319/10 que regulamentou a profissão do intérprete de Libras, além do desenvolvimento de pesquisas na área da educação, Linguística, psicologia, entre outras, determinaram uma nova fase na vida e participação dos surdos. Por outro lado tais conquistas necessitam ser mantidas e ainda ampliadas no sentido de envolver mais surdos a fim de garantir a língua de sinais na educação surdos em diferentes regiões do país, legendas e intérpretes na televisão, ensino da LIBRAS para ouvintes, formação de profissionais e professores surdos.

REFERÊNCIAS

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Integração social & educação de surdos . Rio de Janeiro: Babel. GOLDFELD, M. A criança surda.