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Manifesto ao Silêncio.

Túlio Madson de Oliveira Galvão

Eu entendo bem essa mentalidade classe média jovem de nossa geração, somos
meio que abortados pela história, sem nenhum referencial, nenhuma tradição milenar,
temos aqueles parentes que vem do interior nos borrifar com velhas heranças coloniais,
mas aonde mesmo reside nossa identidade cultural?
Fui como alguns felizardos dos meus, criado meio que largado, solto no mundo,
desde a malícia do menino de rua, até o rigor intelectual exigido em uma discussão
acerca de como passar naquele stage do game.
Íamos as nossas aulas, nos enquadrávamos naquele modelo de menino
americanizado meio “Esqueceram de mim”, que se alucinam pelos sons e efeitos
lisérgicos de “The Mario World” e desde cedo já se acham preparados para o mundo.
Em todos os nossos recreios religiosamente, como um ato doutrinário, íamos discutir e
criar mitologias que mesclavam cinema, videogame e publicidade.
Eis que aqui então, neste momento mais sublime, nos deparamos com a
problemática acerca do contexto em o qual estamos inseridos, e o nosso papel e
contribuição para a formação deste contexto. Em onde ao certo estar à importância desta
minúscula fuligem da engrenagem que se deparam serem nossas cidades.
E somos ainda obrigados a responder?
Querem mesmo que eu em plenas vertigens de Mario World respondam-lhes
acerca de contextos regionais? Venderam-nos a um modelo de geração como a um carro
da moda e em nisto vocês apostaram! E enfim... Eis que somos a isto, o que somos! Não
me cubram com estes trapos fúnebres, deixe-me mostrar-me em minha mais terrível
putrefação.
Sem nenhuma culpa, não temos remorsos dessa genealogia. Apenas nos pedimos
respeito, não sei em qual contexto estamos inseridos, nem reconheço as suas credenciais
para julgá-las.
Só quero o direito de desfrutar a esta autenticidade importada que soubemos
tecer como ninguém, desde o nipônicos e ao mesmo tempo helênico “Os Cavaleiros do
Zodíaco”, ao rigoroso clima combativo nórdico-europeu do americano Street Fighter.
Reconheço o direito e importância ao espaço que temos, por isso estou
demasiado ocupado com ele para indagar-me acerca do contexto em o qual ele está
inserido. Porque terei eu que contextualizá-lo? Deixe-nos com nosso espaço, não
queremos enquadrá-los em nenhuma realidade cientificista a la Jurassic World. Já
recebemos doses suficientes de ‘World’s. Ao menos até o ponto de percebermos o quão
fantasioso são estas fantasias que vós utilizais para nos questionar.
O quão são sem fundamento e sentido histórico estas tuas pomposas
vestimentas. O quão inútil foi preciso ostentar, justificar e enobrecer sistemas findados a
ruína. O quão humilhante foi vê-lo ruir, implodir-se em suas contradições! O como foi
inútil uma geração anterior unir-se em um ideal, em um modelo de Paz e Amor, para
nos vomitarem em um mundo de horror? Nos lecionaram em uma paidéia anárquica,
guiados pelos idéias dos anúncios da televisão, “assim como se não tivessem mais nada
de interessante o que fazer”. Aqui estamos então, sem nenhum norte, nenhum
referencial, nenhuma moral, nenhuma definição, entregues a nós mesmos.
E com os peitos plenos de coragem para afirmar o nosso espaço, sem
necessidade de contextualização, toda contextualização se apóia em um referencial, e se
temos algum, esqueceram de nos contar. Em casa aprendemos que devemos lavar
sempre as mãos antes de comer, na rua nos ensinaram que o mundo nos aguardava.
Queremos nos mostrar sem pedir licença, sem oferecer ou exigir credenciais,
ficamos na boa. E agradecemos se não nos importunarem mais, se não nos exigirem
mais do que nosso silêncio. Não seremos nós, nem nossos filhos que daremos respostas
ao mundo. Ao inferno com estas respostas! Não temos mais perguntas as quais
responder! E não impomos nenhuma a nossos filhos. Esse foi o maravilhoso momento
em nossa história, o qual por abdicar-nos de nossa identidade ilusória, nos achamos!
Radicalmente perdido por entre esta imensidão globalizada. Mas viva! Com plena
coragem de não fazer nada, assim “por não haver nada melhor o que fazer”. E temos
pleno direito de empunhar a bandeira de nossa autenticidade, logo nós que desfrutamos
dos resultados de nossa própria pilhagem, bebemos até com certa naturalidade nosso
sangue nos seus próprios cálices dourados, ficamos bem ao ostentar o dinheiro pelo qual
vocês nos venderam. Que problema há nisso?
Somos a potência daquilo em que vocês investiram, estamos fazendo valer agora
o país tupiniquim que vocês levaram com a barriga por todos esses séculos, e querem
mesmo nos indagar sobre nosso contexto? Ou melhor, querem mesmo nos fazer sermos
ansiosos por um contexto? Tão verdadeiro – creio - quanto os outros ‘World´s ?
Deixe-nos em nossa enebriação fantasiosa, nos divertindo desse tosco passado
histórico o qual dividimos, e sem a menor intenção de modificá-lo. Estamos fazendo
ruir a última lasca do muro da moral, viemos reivindicar nosso direito ao Silêncio! O
último dos direitos ainda não “moralmente” assegurados. Nos impõem as mais nobres
tarefas, e nos entregam um mundo corroído?
Queremos o direito de não justificar, e não nos inserir em um modelo forjado,
nos inserimos muito bem, em nenhum e em todos os modelos que vocês nos deram,
agora deixem-nos explorá-los, tirar dele o seu melhor. E não venha a nos tirar o Direito
ao Silêncio.
Pegamos um mundo sem justificação e assim iremos e estamos o entregando a
quem nos suceder, se vós investirdes em nós ao longo deste tempo, para achardes
alguma resposta, então sim, lhes direi o quão fracassado foi este investimento. Mas se
ao invés disso, avaliares a finalidade de vossos investimentos, em um mundo
globalizado e multifacetado, em uma sociedade tolerante e que cultua entre artigos
esportivos um secreto prazer pela vida, e por este mundo que está ai dado, da forma
como ele o é, te direi que entre infindáveis gerações que nos precederam, não se
colhiam frutos tão brilhantes de um investimento tão importante e inédito quanto este,
que a sociedade do Paz e Amor realmente “viajaram”, pelo erro de perspectiva, por
estarem por demais distantes de si mesmos para se encontrarem, só quando seus filhos
nasceram calados, que eles passaram a se questionar de suas utopias.
Somos a geração computacional e virtual, sem porta voz, sem identidade, sem
fundamento, existimos apenas em estado cibernético, letárgico, estamos eternamente
submersos em “banho maria”, nossa presença neste mundo é letárgica, mas nossa
existência é um impulso ao virtual, nos definimos nas infinitas possibilidades do
Google, a nossa grande Bíblia, aonde sempre buscamos respostas as tão manjadas
perguntas, e acreditem! Como temos respostas! Encontramos no virtual nossos consolos
e nos projetamos e o estruturamos a fim de reproduzir, o mesmo modelo de sistema
consumista, e livre que vocês maravilhosamente nos fizeram herdar.
Entendem agora o porquê não devem nos contextualizar? Nem exigir de nós
nada além do nosso saboroso e sábio Silêncio. Que nem queremos nem iremos lhes
projetar um modelo fixo, estabelecido conceitualmente, único e globalmente inserido?
Cada um de nós tem mais respostas que a totalidade da sua geração, cada um de nós
carrega dentro de si respostas que nenhum de vocês ousariam admitir, como então em
meio a este universo ainda pretendes estabelecer uma convenção? Como unir em um
harmonioso coro um Estádio em fúria? O único coro que lhe damos é o granir
contagiante e visceral do hino da moda, aquele furor que eriça os pelos de nossas nucas,
quando gritamos gol ou ofendemos o juiz, nestes momentos estaremos em completo
uníssono, mas não nos exijam mais fundamentações do que a um torcedor bêbado, que
ofende inocentes senhoras mães de juízes.
É apenas e tudo o que somos, e somos felizes e gratos por isso! E somos assim
mesmo, nos impomos nesse grito mudo, berramos a plenos pulmões nosso silêncio
aterrador. Mostramos o quão barulhento é este silenciar, que desemboca em uma
infinidade de barulhos, que mudo e ligados em nossas teias virtuais aprendemos a viver,
aprendemos a apenas amar e cuidar daqueles que estão próximos, e que merecem nosso
apreço. Insistimos em cativar e cultivar as pessoas que nos são agradáveis, assim
mesmo, “por não haver nada melhor o que fazer”, buscamos os outros por não nos
acharmos em lugar algum, ou porque sabemos tanto o que somos, e nos achamos tanto,
que o outro faz parte mesma do nosso eu. Em nossa infância, aprendemos que jamais
adiantaria conseguir tal pontuação em um jogo ao longo de incontáveis dias, se não
podermos nos gabar e provocar nossos amigos por isto, de nada adiantaria treinar
coreograficamente nossas estratégias, se não tivermos o outro para desafiar, seja no
completo encaixe dos dedos à malícia da língua na mão para virar as cartas do “bafo”,
ou as complexas estratégias de substituições e esquemas táticos em uma partida de
“International Super Star Soccer”.
Somos mesmo embutidos daquele espírito de Blanka do “Street Fighter”, aquela
coisa bizarra brasileira, meio monstro de experiência de laboratório mal sucedida. Mal
sucedida do ponto de vista de seus criadores, pois a criatura sempre insiste em sua razão
de ser, por mais grotesca que ela seja.
Sem causas, ideologias, bandeiras, nem lutas, sem definições, nem ativismos,
nos reservamos e exigimos o direito ao Silêncio.