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Entrevista de Lady Gaga na Bizz 

 
Nua e Crua 
Em uma entrevista mais reveladora que suas roupas, a cantora admite 
que é controladora, acha que não é entendida nos EUA e diz que suas 
inspirações vão de Bowie a Brecht 

Por: Kim Bornstein/The Interview People 

Você começou a tocar piano cedo, aos 4 anos. Já sonhava em se 
tornar uma estrela naquela época? 

Não sei o quanto você pensa quando em apenas 4 anos… Você 
simplesmente faz as coisas. Sempre senti uma inclinação natural pela 
música, por criar e contar histórias. Acho que talvez possa dizer que 
sempre foi meu destino tornar‐me uma artista. Só não sabia ainda que 
tipo de artista. 
 
Quem foram seus grandes ídolos? 

Minha mãe. Amo minha mãe. Ela é inteligente, bonita e muito 
poderosa, mas ainda assim respeita as pessoas. Ela é um bom exemplo 
pra mim. 

Mas e na música e nas artes? 

Amava tantas pessoas quando era pequena, desde [a atriz] Judy 
Garland até [a cantora dos anos 70] Carole King, David Bowie e 
Madonna. 

Você alguma vez já sentiu que nasceu tarde demais, por causa de 
todos os artistas que não pôde conhecer Gente como Freddie 
Mercury? 

Acho que, de certa maneira, eu conheço, sim. É interessante você 
mencionar isso, porque só recentemente na minha vida comecei a me 
envolver com pessoas que conheceram esses artistas. Então acho que 
dá para dizer que achei um jeito de conhecê‐los da minha própria 
maneira. 

Já se encontrou com Bowie? 

Não, ainda não. Bowie… Ele é cool. È tão inteligente. Se, quando chegar 
aos 50, eu souber metade do que ele sabe, estarei feliz. Ele é bom 
demais. 

E [a cantora experimental e artista multimídia] Laurie Anderson? 

Ah, sim, amo a Laurie Anderson. Eu era fascinada com artistas mais 
antigos, não muito com os modernos. Na verdade, minha escola ficava 
cinco quarteirões do [museu] Guggenheim e do Metropolitan Museum. 
Então eu ia direto lá e via [obras dos artistas] Pollock, Warhol, 
Lichtenstein e Brancusi. Vi a exibição de Picasso/Matisse quando ela 
veio para Nova York. Eu simplesmente amo arte, sou uma nova‐
iorquina genuína. 

Então você cresceu na região do Central Park East…  

Não, West. Cresci do lado oeste do parque, mas minha escola ficava do 
lado leste, então eu meio que aproveitava o melhor de ambos os 
bairros. Os museus do lado oeste eram os de história natural, falavam 
de estrelas, ossos, dinossauros. E do lado leste ficavam as artes 
clássicas e moderna. É uma região muito cultural. 

O que você aprecia no trabalho do [escultor romeno vanguardista 
Constantin] Brancusi? 

Ele é incrível. É um excelente exemplo de como você pode evocar uma 
idéia com algo muito abstrato. Adoro os pássaros que ele fez. São tão 
frágeis. E mas ao mesmo tempo pesados. E alguns dos materiais que 
ele usou não têm nada a ver com aves. São feitos de mármore, algo 
pesado, mas, de alguma maneira, alçam vôo quando você olha para 
eles. 

Acha que esse é o princípio do seu trabalho: mostrar fragilidade, 
mas também poder? 

Acho que sim. Tenho uma ambição muito forte. Mas eu gosto de dizer 
que, no núcleo de todo verdadeiro artista, há um coração partido. 

O nome da sua equipe criativa é Haus Of GaGa. Isso é uma 
referência à [revolucionária escola de design alemã] Bauhaus?  

Ah, sim, a escola de arte. É quase uma piada, de certa maneira – o fato 
de sermos jovens, porém muito mandões, seguros de nós mesmos. 
Temos reuniões com aqueles diretores superpoderosos de em 
Hollywood, gente que já fez clipes gigantescos para superestrelas ], aí 
chegamos e dizemos: “É assim que nós queremos que seja feito”. 

Esse jeito controlador explica por que você gosta de escrever suas 
próprias músicas? 

Quando estou compondo, tenho um processo bastante crítico. Algumas 
letras são mais intricadas do que outras. E o mesmo vale, visualmente, 
para o meu show. Eu abordo tudo com um olho conceitual artístico 
crítico. Da mesma maneira que falo de Brancusi, lido com as decisões a 
respeito da minha turnê. 

Qual é sua obra de arte favorita?  

De todos os tempos? Putz. Para ter, para comprar, não sei se há muitas 
realmentes boas. Adoro aquela Pietá que [o fotógrafo] David 
LaChapelle fez com Courtney Love. Realmente amo aquele quadro. 
Também adoro os silk‐screens de Andy Warhol. Seria uma honra ter 
qualquer um deles. Mas também gosto muito de arte clássica. Amo a 
Odalisca, do [pintor francês Jean‐Auguste] Ingres. Lembro que, quando 
a vi pela primeira vez, chorei. Acho que senti uma certa relação com a 
mulher naquela quadro. Ela está com suas costas voltadas para o 
público. Ela é meio tímida, mas ainda assim está muito exposta. Ela é 
uma prostituta e, para mim, havia uma certa relação entre a minha vida 
e essa figura. Alguém considerada a provocadora e inapropriada, mas 
imortalizada como um ícone. Acho interessante que artistas sempre 
sejam aqueles que têm um verdadeiro olhar para identificar o que é 
luminoso. Eles apreciam coisas que são lindas e que talvez outras 
pessoas simplesmente não enxergam. 

Você abandonou a [escola de arte] Tisch School porque achou que 
não conseguiria se formar ou porque acho que já estava muito 
além do que poderia aprender lá? 

Eu fui embora porque…[pausa] achei que talvez não conseguiria me 
dar bem se permanecesse lá. 

Como assim? 

Acho que você não pode repousar nos louros do seu ambiente pela vida 
toda. Você não pode ser uma vítima, um produto do seu ambiente. É 
preciso saber o que é certo para si. Eu já estava pronta para fazer arte, 
não aprender sobre ela. Sentia que, em todas as aulas, sempre tinha 
mais a dizer sobre cada peça exposta do que meus colegas. Sempre 
conseguia enxergar mais longe que qualquer um. Não digo isso para 
ser arrogante, eu simplesmente tinha uma intuição, então segui em 
frente. 

É por isso que você gosta de trocar regularmente os membros de 
sua equipe criativa?  

Faço isso ás vezes. Depende. Há pessoas que são peças fixas, vão ficar 
comigo para sempre. E há algumas que a gente vai trazendo e 
avaliando… Para mim, não há um limite, um parâmetro. Posso ficar 
acordada por dias e dias, e o trabalho me mantém viva. E gosto de estar 
ao redor de colaboradores que também são assim. Gente que que vive 
e respira o projeto. Se o cara não é desse jeito, então tchau. 

A atriz Bette Midler reclamou recentemente que o movimento 
feminista está em decadência. Você concorda? 
Amo Bette Midler. Mas, o movimento feminista em decadência? Não 
diria isso. É só um reflexo do que está acontecendo agora. Lido com 
isso o tempo inteiro na minha carreira. Sou criticada por motivos que 
jamais são criticados em artistas do sexo masculino. São exigências 
completamente diferentes para cada gênero. 

Como o quê, por exemplo? 

O que eu visto. Ou ser critica por ser talentosa. Ou por não ser 
talentosa, e ser arrogante. Se você é uma mulher que tem 
autoconfiança, dizem que é arrogante. Ou uma vaca. Enquanto que, se 
fosse um homem, diriam que você é forte, confiante. É engraçado que 
você tenha mencionado isso, porque sofro muitas comparações. 
Pessoas próximas de mim vêem o tipo de relação que tenho que com 
meu público. É muito teatral, engraçada. Tenho um espírito alegre, 
meio cabaré. Nos EUA e na Inglaterra, onde o cabaré não e uma forma 
de arte reconhecida, quando canto desse jeito, as pessoas não 
entendem. É um pouco confuso. 

Onde você costuma escrever suas canções? Tem um ritual 
específico?  

Não. Ela surgem em todo lugar. Às vezes, estou no chuveiro. Às vezes, 
ouvindo música ou tocando piano. Ou posso estar almoçando e ouço 
alguém dizer algo e penso “hum, isso daria uma boa letra!” A 
inspiração vem de tantas formas. A coisa mais poderosa que aprendi ao 
longo dos anos é como criar a vida para mim mesma, de modo que, 
quando bate a inspiração, posso agarrá‐la com unhas e dentes, 
trabalhar naquilo sem deixá‐la escapar. 

Você escreveu para as bandas New Kids on the Block e Pussycat 
Dolls. Obviamente você tem experiência em compor. 

É preciso se comprometer. Para mim, canções como Just Dance ou 
Poker Face são fáceis de escrever. Mas tive que realmente sentar e 
escrêve‐las.Não aacho que dá para compor um hit preguiçosamente. É 
preciso pensar e se dedicar. Por exemplo, se vou falar sobre o amor 
com uma aposta, o que isso te a ver com… roleta? Roleta lembra roleta‐
russ, que lembra morte… Oras, isso é dramático, então vou escrever 
sobre isso” Sei lá, é todo um processo [risos]. 

No passado, você compôs para Fergie e Britney Spears. Elas foram 
exemplos para você? 
Não. Não costumo me espelhar em artistas contemporâneos. Prefiro os 
antigos. Porque, quando você foca muito um cantor atual, se torna igual 
a ele. É preciso encontrar a si mesmo. Sempre fui fascinada pela idéia 
de reviver um senso de nostalgia. Não acho que seja como uma artista 
do passado, mas fui, sim, influenciada por eles. 

Livros a inspiram? 

Adoro [o dramaturgo alemão] Bertolt Brecht. É muito exposto. Tenho 
até uma piada nos ensaios… se não temos muito espaço nos bastidores 
e precisamos deixar algo no placo o tempo todo, digo “tudo bem, isso é 
muito brechtiano”. 

Houve alguma canção especificamente inspirada por algum livro?  

Toda a minha música foi inspirada pelo [poeta checo Rainer Maria] 
Rilke, porque ele dizia que você não deve pedir conselhos a outras 
pessoas sobre sua arte, sua música, sua poesia. Fiquei muito boa nisso. 
Quando escrevo algo e digo “vai ser um hit”, e as pessoas dizem “ não, 
não vai ser”, eu insisto. “Estou  dizendo: eu entendo de música, e essa aí 
é uma faixa de sucesso.” É preciso ter certeza sobre o seu próprio 
trabalho. 

É verdade que você tingiu seu cabelo para não ser confundida com 
Amy Winehouse? 

Sim… Meu nariz se aparece com o dela… bem. Não é uma coisa ruim. 
Acho Amy linda. Não a conheço, mas gosto muito dela. O problema é 
que, quando você está tentando criar sua própria imagem para o 
mundo, precisa de diferenciar. Eu nem havia sido contratada por uma 
gravadora ainda, estava cantando em bares… E aí Amy estourou e, de 
repente, bum, todo mundo estava usando cabelo escuro. E eu 
costumava ter um cabelão e usava muito lápis de olho. Até antes de ela 
fazer sucesso. Mas aí ela bombou e pense “merda”. Fui e tingi meu 
cabelo. 

Uma pena o que aconteceu com ela, os problemas com drogas… 

Não sei. Eu sou muito focada no que faço, mas não tenho nenhuma 
opinião sobre o que as outras pessoas fazem ou deixam de fazer. 

Onde você mora? 

Estou vivendo bem aqui neste momento. Eu moro no palco. 
Você não tem uma casa? 

Não, não gasto meu dinheiro com essas coisas. Vivo a partir da minha 
mala. Faço música e arte e gasto todo dólar que ganho no palco. 

Qual é a imagem mais nítida que você tem da sua infância? 

Comida na mesa da cozinha, meu pai e minha mãe, água Perrier, 
limões, molho vermelho, vinho e muito Andrea Bocelli. 

Você ouvia Andrea Bocelli?  

Sim. Bocelli, [Frank] Sinatra, La Bohéme… Meus pais eram bastante 
tradicionais. No bom sentido. Acho que isso acabou me dando um 
senso muito forte de valores familiares. 

Você pensa em ter sua famíllia? 

Eu ainda não anseio por seu mãe. Mas acho que sou uma pessoa muito 
sensível, e para mim, família é muito importante. Conforme eu vou 
alcançando o sucesso na minha vida, penso em como posso incluir 
minha própria família. Meus valores são muito italianos [risos]. 

O que você faz para relaxar? 

Eu simplesmente durmo. 

não viaja? 

Às vezes. Mas não recentemente. Quer dizer, eu viajo o mundo, mas a 
trabalho. Para relaxar, durmo ou vou a museus. Acabei de ir ao Museu 
Warhol [em Pittsburthg, EUA] semana passada. 

Mas o que você gosta de fazer em seus dias de folga? 

Bom, não tenho muitos dias assim. Os domingos sempre foram os dias 
em que minha família fazia comida fresquinha. Então, às vezes, gosto 
de me permitir comer o que quiser aos domingos. No resto da semana, 
estou em uma dieta de estrela, bem rígida 

Pouco carboidrato?  

É. Não como pão, por exemplo. Só salada e peixe, que é bem saudável. É 
muito melhor para mim. 
Tira uma soneca depois? 

Não… Não tenho tempo para isso! 

Mas e quando você está em casa? 

Não fico em casa faz mais de um ano e meio! [risos] 

Isso é terrível? 

Não, não é! Amo o que faço. Trabalhei a vida inteira para que pudesse 
viver esse momento. 

De onde você tira essa energia? 

Da alegria, e do amor pela arte. E das minhas visões. O que me faz feliz 
é quando visualizo algo novo. Quando vejo algo na minha mente, é 
como se fosse um “uau, isso vai ser ótimo! Nossa, vai ser incrível”. 
Estou contente com o que faço. Minha solidão me faz feliz. 

Sua solidão? 

Sim. Tenho uma equipe incrível que me ajuda. Não faço nada sozinha, 
não é isso que eu quis dizer. Só quis dizer que escolho estar feliz com a 
minha companhia. Tenho fé em minha mesma.