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REPERCUSSOES DO TRATADO DE TORDESILHAS NA EPOCA CONTEMPORANEA* A. de Oliveira Ramos por Li O que significou o Tratado de Tordesilhas para os portugueses, nos séculos XIX e XX, mais exactamente, no perfodo compreendido entre 0 fim do absolutismo ¢ os nossos dias? Como descobrir 0 sinal dos seus estados de espirito? Como hipétese, porque nao utilizar a produgao historiografica para 0 saber! E, nesta marcha talvez seja esclarecedor comegar 0 percurso analitico no sentido inverso, ou seja a partir de pressupostos do nosso tempo. Desde 1986, as comemoragées dos descobrimentos, em Portugal, desenham-se metodicamente quando se acelera, por forga da adesao ao Mercado Comum, 0 rumo no sentido da Uniao Europeia. Por outro lado, essas comemoragées tém como pano de fundo, que aguilhoa, os fraternos e universais preparativos para os festejos do centenario da descoberta da América, por Crist6vao Colombo. Quando decalcada no mundo das superpoténcias, apandgio de tais anos, a data maior a invocar no plano diplomatico, por ser a mais ibérica e universal, conexa com 0 movimento dos descobrimentos, parecia consubstanciar-se no Tratado de Tordesilhas. Com efeito, no seguimento de decisées régias e papais sobre dreas de influéncia colonial atlanticas de Portugal c Espanha, pela primeira vez, one publicar também nas Actas do Congresso Internacional «O Tratado de Tordesilhas e a sua Epoca». 174 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS nos tempos modernos, dois estados procedem, em Junho de 1494, & partilha do mundo entre os respectivos povos, hoje irmanados na Comunidade Europeia. Na Comunidade, aparecem, de resto, congregados em posi¢ao bem diferente do cume que outrora o Papado, autoridade de mediacio supranacional, acatada pelos principes cat6licos, reservara as duas nagoes peninsulares. Posteriormente, julgo sintomatico, coincidindo, aproximativamente, com o Ano de Colémbo, os Estados Unidos tornam-se a tinica superpoténcia, tal qual aconteceu coma Espanha dos Habsburgos, menos de um século depois do Tratado de Tordesilhas. Hoje, passo a passo, a Espanha procura nao ficar longe do grupo influente da Comunidade Europeia. Portugal, como tantas vezes no pretérito, quer erguer-se entre as pequenas poténcias, usando da irradiacaio de que ainda agora frui em virtude da fulgurante difusao da sua linguaem varios continentes e dos caminhos que 0 incessante pendor’ para a emigragio e para o tréfego dos seus implica. Sem embargo, no processo em curso, falta-Lhe 0 aliado grande (ou 0s aliados?) que ao longo dos tempos modernos muitas vezes o ajudou e ndo menos vezes 0 explorou. Por outro lado, ao reflectirmos, de um modo ou de outro, sobre Tordesilhas, estudamos um dos eventos simbélicos da histéria e do patriménioibérico. Assim, o inculcam os termos do Tratado de Maastricht, visto que, ao fazé-lo, o Portugal democratico tonifica a sua identidade, o mesmo acontecendo com a Espanha. Segundo o artigo 128, do tratado em questio: «A comunidade contribuird para o desenvolvimento das culturas dos Estados membros, respeitando a sua diversidade nacional e regio- nal, e pondo simultaneamente em evidéncia o patriménio cultural comum. A acgéo da Comunidade tem por objectivo incentivaracooperacdo entre Estados membros e, se necessdrio, apoiar a sua acgdo... na: — melhoria do conhecimento e da divulgagdo da cultura e da hist6ria dos povos europeus»; Nestes parametros, a recordagao do evento afigura-se-me normal, a nao ser que saudosismos xenGfobos ¢ nacionalismos serédios, na actualidade geradores de tensdes nefastas, pelo divisionismo e pela turbuléncia, odesvirtuemecoloquem os dois paises em campos diferentes de identidade civica. Demais, 0 facto afigura-se-me positivo, como REPERCUSSOES DO TRATADO DE TORDESILHAS NA EPOCA CONTEMPORANEA 175 experiéncia do passado a meditar no presente, quer se pense nos ardis que © acompanham, quer se atenda aos seus resultados palpaveis e alheios & imaginagao. Por isso, boa forma de lembrar 0 Tratado de Tordesilhas para, com a objectividade possivel, destacar a sua singular «ambiguidade», no tempo e noespago, para outrossim exorcisar negrumes comemoracionais resulta, com certeza, da metédica revisio dos modos comoahistoriografia portuguesa analisou e explicou 0 convénio durante dois séculos. Ao fazé-lo, verificamos que autores existem que 0 glorificam, enquanto outros o ignoram pura e simplesmente. Também conhecemos quem, deraspao, omencione e quem de forma miltipla, mas aproximativa a respeito de conclusdes, o refira. De inicio, numa trajectéria ziguezagueante, tomemos como ponto de arranque 0 século XIX, quando, diversificados, os liberalismos se afirmam ¢ a democracia desponta, quando a expansao colonial e os nacionalismos progridem. Como ponto de descolagem, escolho Frei Francisco de S. Luis Saraiva (1766-1845), um universitario e politico liberal, dado A pesquisa hist6rica, na qual agrega ocarinho pela patria das descobertas como amor 4 verdade, no seu tempo posta em causa por historiadores estrangeiros sectarios, nacionalistas ou mal preparados. Formado a luz do movimento da «ilustragao», e exigente na reconstituigao do passado, como vé tal personagem 0 Tratado de Tordesilhas nas paginas que sobre o mesmo deu aestampa? No Indice Cronolégico das Navegacdes Portuguesas, estampado nos anos 30 do século passado, reeditado nos anos 40 e ultimamente em 1875, Frei Francisco aponta, «mui sumariamente, os factos que the Pareceram mais importantes» da gesta expansionista, «colocando-os na sua ordem puramente cronolégica... para... servirem de guia» aos estudiosos empenhados em mais vasta pesquisa. Nesse conspecto, atribui um item especial, com nove linhas, ao Tratado, o qual sucede ao item de 1493, consagrado ao «genovés» Colombo, a quem nfo quer roubar, por causa de hipotéticas viagens anteriores dos portugueses, «um sé ponto da honrosa fama e nome ilustre que tdo justamente adquiriu ea historia lhe conserva». O item em questio precisa assim a matéria: , «Ano de 1494 A sete de Junho deste ano, se assinou o célebre Tratado de Tordesilhas entre el Rei de Portugal e os Reis Catélicos, pelo qual se 176 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS ajustou que, contando 370 léguas desde as ilhas de Cabo Verde para o Ocidente, e tirando por esse ponto uma linha imagindria que passasse pelos polos da Terra, ¢ dividisse 0 globo em dois hemisféricos, ficasse oocidental pertencendo aos Reis Catélicos, ¢ 0 oriental aos portugueses, para neles continuarem livremente os seus descobrimentos»'. Quer dizer, o historiador refere-se ao convénio chamando-lhe «célebre», pois estabelece, no 4mbito das navegagées, as zonas de influéncia onde as duas monarquias podiam expandir-se a seu grado. Um século depois, em 1934, Alfredo Pimenta, académico e historiador tao arguto como sujeito a paixdes, em cerca de duas paginas de um controverso manual, apouca o Tratado de Tordesilhas de forma singular. Na aurora do salazarismo, lembra o teor do pacto e que ele foi confirmado, a pedido de D. Manuel I, pela bula — Ea, quae pro bono pacis (1506). Depois pergunta: «para qué?» E alvitra: «O Tratado de Tordesilhas parece que foi feito mais para evitar momentaneamente um conflito entre as duas coroas, do que para estabelecer regras para o futuro». ‘Anos antes, na sua sempre titil, algo facciosa, mas informativa Hist6ria de Portugal (1924). Fortunato de Almeida concebera que o Tratado, quando negociado e subscrito pelas partes envolvidas, escassa importancia Ihes merecia. Diz: «Parecia que ninguém tinha fé na (sua) execugdo... e que os negociadores... procuravam apenas chegar a uma formula com a qual dessem o negécio como arrumado». Para documentar o seu ponto de vista, chama a atengdo para a imprecisdo do clausulado e para 0 pouco caso que se Ihe atribuiu no futuro, de parte a parte. Fé-lo arrimado a rica documentagao, nem sempre consequente, sublinhe-se. De facto, nota, o tratado: 1 —nunca «foi observado» e nao chegou a ser determinadoo ponto por onde devia passar a linha a 370 Iéguas de Cabo Verde; 2 — nfio valeu quando se tratou do caso das Molucas; ' Cf. FRANCISCO DE SAO LU{S SARAIVA, Obras Completas, V, Lisboa, 1875, p. 87. 2 Cf. ALFREDO PIMENTA, Elementos de Historia de Portugal, Lisboa, 1934, pp. 156-157 REPERCUSSOES DO TRATADO DE TORDESILHAS NA EPOCA CONTEMPORANEA 177 3 —em 1514, nas Américas, segundo um documento portugués, a Carta de Estebao Frois a D. Manuel, 0 Equador funcionava como divisdria dos dominios das duas monarquias, pois ao pacto ninguém se dispunha a cumpri-lo, matéria a cuja exemplificagao se devota. Como se vé, Fortunato desvaloriza o convénio talvez mais do que Pimenta’, que nele lobriga um instrumento urdido em nome da paz necesséria. Em posicao diametralmente oposta, Jaime Cortesio, um dos maiores historiadores portugueses deste século, explicao seguinte, no volume Os Descobrimentos Pré-Colombinos dos Portugueses: «De 1492 a 1494 se arrastaram, com efeito, as complicadas e maquiavélicas negociagées com os Reis Catdlicos, das quais resultaria 0 futuro império colonial portugués, e que terminaram com o mais famoso de todos os tratados internacionais, 0 de Tordesilhas»*. Pensa ele, na sequéncia da Crénica quinhentista de D. Jodo Il, de Garcia de Resende, que 0 rei tudo sabia das intengdes dos diplomatas espanhéis no curso das negociacoes, gracas a espléndidos espides seus. Defende, sobretudo, a existéncia de expedigdes maritimas coevas para Oeste a mando de D. Joao II, durante os tratos. «Provavelmente, acres- centa, os navegadores teriam vindo uma ou duas vezes a Portugal dar conta do resultado da empresa que prosseguiram durante trés anos, tamanho era o interesse de D. Jodo I em saber como conduzir as negociagées na partilha do mundo e que relag&o poderia haver entre aquellas terras e a Asia»’. De par, assinala, 0 génio de Colombo teria devassado o suposto sigilo, to ciosamente guardado pelo nao menos genial D. Joao II, quanto A crenca ou noticia acerca de terras a Ocidente. E verifica que «Colombo estava convencido de que o rei conhecia terras naquela direcedo». Dajo interesse evidente manifestado pelo monarca durante as negociagdes, a ponto dos conselheiros dos Reis Catélicos terem suspeita andloga, desde 1493°, Nenhum outro historiador, julgo, vai tao longe nos seus concebimentos. Sem embargo, e como € habitual em matéria histérica, 3 Cf. FORTUNATO DE ALMEIDA, Hist6ria de Portugal, 11, Lisboa, 1924, p. 193. O autor refere-se & Carta de Estevao Froes a D. Manuel, de 30 de Julho de 1514. * Cf. JAIME CORTESAO, Os Descobrimentos Pré-Colombinos dos Portugueses, Lisboa, 1967, p. 80-81. 5 Cf. JAIME CORTESAO, ob. cit., p. 339. ® Cf. JAIME CORTESAO, ob. cit., pp. 350-354. 178 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS Cortesdo tem uma nogao ampla da relevancia dos interesses em jogo, independentemente do que o tratado poder guardar e implicar para a diplomacia régia portuguesa. Mais tarde, este historiador ampliou e precisou, com alteragées, a sua doutrina nos materiais preparados paraos inacabados Descobrimentos Portugueses, onde, conferiu complexidade imaginosa a problematica, sem Ihe dar maior forga, mesmo sopesando o valor de Areas orientais supostamente presentes nas lucubragdes de D. Joao I’. Conforme, em 1952, alvitra, com ponderagdo, Damiio Peres, depois das bulas papais de 1493, roboradas por Alexandre VI, que cindiu o mundo nas duas fatias que sabemos, em acto favordvel 4 Espanha, sua patria, D. Joao II, ameagando com o recurso forga, negoceia, em directo com os reis espanhéis, eles também prontos para a peleja no mar, em ordem a obter uma partilha util aos seus objectivos maiores. Encetadas as negociagGes, a fim de evitar a guerra e porque o monarca portugués estava convicto, desde a sua conversacom Colombo, em 1793, de que as terras por ele achadas ficavam na zona de influéncia portuguesa prevista no tratado de Alcdgovas, as duas partes encontram uma solugo. A 7 de Junho de 1494, assinam um acordo mediante 0 qual «se dividia 0 mundo... em dois hemisférios separados por um meridiano tragado a 370 léguas» de Cabo Verde. Ao defender esta posigao, ainda segundo Damiao Peres, «D. Jodo I reduzia, correlativamente, 0 campo da ac¢ao portuguesa no Extremo- -Oriente, obtendo como compensagao dessa rentinciao simples dominio de dguas do Atlantico»®. Seriam as 4guas da rota de Vasco da Gama para dobrar, pelo largo, o Cabo da Boa Esperanga e as 4guas que banham o amplo territério brasileiro onde, de futuro, se perpetuara a lingua portuguesa. Historiadores da actualidade, esses pouco espago consagram ao Tratado. Assim, o Prof. Romero de Magalhaes, na recentissima Historia de Portugal, (1993), dirigida por José Mattoso, alinha em pardgrafo 7 Cf. JAIME CORTESAO, Descobrimentos Portugueses, III, pp. 306-317. * Cf. DAMIAOPERES, Histéria de Portugal, Il, Porto, 1952, p. 159-165. Nem na sua breve Historia dos Descobrimentos Portugueses, (Lisboa, 1961), nem na segunda ¢ tiltima edig&o do tratado, Histdria dos Descobrimentos Portugueses, Barcelos, 1961 este consagrado especialista altera os seus pontos de vista quanto a0 essencial. Assim, embora explicite que D. Jodo II ja pensava nas Molucas sitas dentro do hemisférico portugués no Extremo Oriente, acentua: «D. Joao Il... mostrou no acordo realizado, um veemente desejo de nio abrir mio do Allantico meridional...» (p. 355). boa, 1992, REPERCUSSOES DO TRATADO DE TORDESILHAS NA EPOCA CONTEMPORANEA = individualizado, os seus prolegémenos e contetido, reproduz, foto- graficamente, a sua Ultima folha, para concluir, em comentério aquela fotografia, que os seus contetidos «foram um bom triunfo diplomdtico para Portugal, tendo assegurado a expansdo para a Africa e (por acaso?) para o Brasil». «Um bom triunfo diplomdtico», com expresso nas duas cost: Atlantico Sul, eis como ele classifica 0 pacto®. E qual a posigao do Prof. Oliveira Marques? Na Histéria de Portugal, mostra-se breve. Tal como as bulas papais, o Tratado de Tordesilhas concretiza a divisio do mundo em dois hemisférios de posse exclusiva de Portugal e de Espanha, a revelia de qualquer outra nagao". Sébrio e mais extenso, o Prof. Verissimo Serrao usa tao s6 0 adjectivo «valioso», quando trata do convénio, na sua Histéria de Portugal. Este professor aborda o tema em secedo propria, da conta de coevos dados cronisticos, alinha opinides pré e contra a relagao com 0 Brasiladescobrir, vincando, por tiltimo, que a «defesa danavegacdo lusa no Atlntico Sul patenteia-se nos objectivos que acoroa buscou, afimde proteger as frotas portuguesas e obstar 4 ac¢ao armada de Castela nas linhas de Africay"'. A sua conta, José Hermano Saraiva, na Histéria Concisa de Portugal narra as proveniéncias do tratado, com 0 teor que se conhece, exalta categoricamente 0 saber portugués e a ignorancia colombina: «De acordo com as estimativas de Colombo, proclama, todo 0 oceano Indico e, com ele, a cobigada regiéo das especiarias ficariam dentro do hemisférico espanhol. Segundo o saber dos cosmégrafos portugueses, 0 meio mundo que comegava nas Antilhas acabava antes dos mares da India, e portanto esta ficava inteiramente na zona de expansdo portuguesa.» Conclui que estava garantido o exclusivo portugués do mar Oriental, razao por que, de imediato, se preparou a expedigao & india’, Numa palavra, este autor pensa 0 tratado em funcdo do espago maritimo oriental. ° Cf. ROMERO DE MAGALHAES, Histéria de Portugal (dirigida por José Mattoso), Vol. III, Lisboa, 1993, p. 518-519. "° Cf. A.H. de OLIVEIRA MARQUES, Histéria de Portugal, Lisboa, I, 1980, p. 365. "Cf. J. VERISSIMO SERRAO, Hist6ria de Portugal (1415-1495), Il, Lisboa, 1978, pp. 190-191. "Cf. JOSE HERMANO SARAIVA, Histdria de Portugal, Lisboa, 1978, pp. 124-128, 180 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS Em sintese abrangente, editada em 1987, 0 Prof. Borges de Macedo, esse raciocina sobre a vigilanciae defesa meridional do dominio atlantico portugués, explicitando: «sao... as zonas africanas e indicas, assim como a seguranga do regresso, que se pretende sejam garantidas no Tratado de Tordesithas (1494)», cujo teor «mais ndo faz do que ampliar a novas Greas, os direitos que portugueses e espanhdis jd, mutuamente, se reconheciam, no tratado das Alcdgovas, em 1479». Tendo em conta os demais antecedentes, vé em D. Joao II «a expressdo superior desta diplomacia de fora e equilibrio peninsular, assente numa poderosa base atlantica de apoio»,'* fundamentalmente porque, informa noutro texto, este de 1989, «depois da viagem de Bartolomeu Dias, o empreen- dimento do caminho maritimo para a India tornava-se urgentissimo» & dai a direccao imprimida as negociagées', Essas negociagdes, para além do que é normalmente aduzido, terio determinado pazes entre D. Jodo e o imperador Maximiliano no dito ano, numa ocasiao em que este principe desconhecia o que estava em dis- cuss&o com os reis de Espanha, pazes que a Portugal serviram de argu- mento para forgar os Reis Catlicos a tomar uma decisao, opina a Prof.* Manuela Mendonga'®. A recente Breve Hist6ria Diplomdtica de Portugal, redigida pelo embaixador Calvet de Magalhies, destaca, como é 6bvio o tratado de Tordesilhas, no capitulo sobre «A politica externa e os descobrimentos maritimos». Fé-lo, com rigor factual, preso a lig3o dos documentos'®. Decénios atrds, no volume Coisas de Varia Historia (1941), Duarte Leite escreveu um singular artigo sobre implicagées, a seu ver orbitais do convénio que nos ocupa, intitulado, «O Tratado de Tordesilhas». _ Para o exigente Duarte Leite, «os ... anelos de D. Joao Il eram a India e 0 comércio exclusivo da especiaria: as terras ocidentais ligava valor secunddrio, mas simulou-o grande para distrair atengdes dos seus verdadeiros objectivos», outrossim peitando generosamente os cortesios espanhéis que espiavam a seu favor. Descrito 0 pacto, acha-o Cf. JORGE BORGES DE MACEDO, «Histéria Diplomdtica Portuguesa Constantes ¢ linhas de fora — Estudo de geopolitica», Lisboa, 1987, pp. 68-69. “Cf. JORGE BORGES DE MACEDO, «A politica de D. Jodo Il e 0 Mediterraneo», in Actas do Congresso Internacional Bartolomeu Dias e a sua Epoca, Vol. I, Porto, p. 402. 's CE. MARIA MANUELA MENDONGA MATOS FERNANDES, «Alguns aspectos das relagdes externas de Portugal», in Actas do Congreso Internacional Bartolomeu Dias e a sua Epoca, Vol. 1, Porto, pp. 353-358. © Cf. JOSE CALVET DE MAGALHAES, Breve Histéria Diplomdtica de Portugal, Lisboa, 1990, pp. 46-47. REPERCUSSOES DO TRATADO DE TORDESILHAS NA EPOCA CONTEMPORANEA 181 «magistralmente concebido e negociado», por implicar «duas consequéncias de alta importancia...: incluiu no quinhéo portugués nao 86 todas as regides da especiaria até as ilhas Molucas, de que ao tempo apenas havia vagas indicagées, mas também uma larga parte de terras situadas no Austro, ainda nao descobertas mas de cuja a existéncia D. Joao tinha suficientes indicios». A finalizar, refere as implicagées do convénio jé nas discussées pela posse das Molucas, j4 nas disputas de soberania em terras da América meridional. E conclui, insistindo na perspectiva valorizadora. «A sua vigéncia durou 283 anos, terminados pelo tratado de S. Ildefonso em 1777, e durante este longo lapso a linha divisdria protegeu eficazmente o Brasil da invasdo espanhola, sem entravar a sua prodigiosa expansdo territorial»"’. eek Se nos reportamos aos grandes diciondrios ¢ enciclopédias, verificamos a falta de artigo sobre o tratado na obra de Esteves Pereira, Portugal —Diciondrio Historico, Chorographico, Biographico..."*, que se vangloria de inserir a «indicagao de todos os factos notdveis da historia portuguesa». ‘A sua conta, a Encyclopedia, do Prof. Maximiano de Lemos, em pouquissimo espaco, comega por anotar a existéncia desta povoagio espanhola e s6 depois alude, com toque critico, a um tratado sobre «os limites ideais» que define, as «aquisigdes coloniais dos dois patses ibéricos, confirmado pelo papa Jiilio II», Bem diversa é a orientacao da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, onde figura um substancioso escrito com 0 escatocolo do pacto. Na bibliografia, indica apenas Peréz Embid, Los descubrimientos enel Atlantico y la rivalidad castelhano-portuguesa hasta el tratado de Tordesilhas, Sevilha, 1948, ignorando Damiio Peres”. Neste autor espanhol, em Damiao Peres e nas crénicas coevas, baseia-se sobretudo o Padre Domingos Mauricio em texto constante da Enciclopédia Verbo. Zarpa das quest6es canérias ¢ da costa ocidental da "Cf, DUARTE LEITE, Coisas de varia Histéria, Lisboa, 1941, pp. 181-188. 8 Cf, JOSE ESTEVES PEREIRA e GUILHERME RODRIGUES, Portugal, Dicciondrio Hist6rico, Chorogrdphico, Biogrdphico... Vil, Lisboa, 1915. "Cf, MAXIMIANO DE LEMOS, «Tordesilhas», in Encyclopedia Universal Mustrada, Lisboa, VII, 8.4. % «Tordesilhas— Tratado de Tordesilhas», in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, XXXII, Lisboa, 1945, pp. 101-102. 182 REVISTA DA FACULDADE DE LETRAS Africa para as bulas alexandrinas. Diz entdo que D. Joao II recusou a Inter Coetara por «ter noticias da posigdo geogrdfica do Brasil e da necessidade destas terras, a Oriente, para garantir a liberdade das carreiras da India. S6 assim evitava os ventos gerais contrarios e as calmas do equador para atingir com ventos favordveis 0 cabo da Boa Esperanca». Ao findar, o Padre Mauricio nota: «embora a linha divisoria nunca se concretizasse definitivamente, 0 tratado assinalou, para D. Jodo Il € as suas técnicas maritimas, um evidente triunfo»™. Numa palavra: préximo das doutrinas de Cortesao e de Damiaio Peres, mostra- -se afirmativo relativamente ao conhecimento do Brasil e a vantagem de controlo do Atlantico meridional por parte de D. Joao IL, cujas «técnicas maritimas» — sio as palavras utilizadas — encarece. De qualidade, é 0 estudo do Prof. Luis de Albuquerque, no Diciondrio de Histéria de Portugal, estudo completado pelo teor do tratado que aquele especialista dedicou aos descobrimentos portugueses nos anos 80 c ainda por uma observago constante das suas Crénicas de Historia de Portugal”. Albuquerque assinala que com os acordos de Tordesilhas «