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Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 1

Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 2

EDITORIAL

Revista Cultural Esta página seria atravessada de um lado ao outro por uma
tarja preta, em sinal de luto pelos dois grandes escritores falecidos
Novitas durante o mês de junho: o português José Saramago e o mexicano
Ano I Número VI
Julho de 2010
Carlos Monsivais. Cheguei mesmo a fazer a arte, letras garrafais
em branco contra o fundo negro e as datas de nascimento e morte.
“Ah, não é de mau gosto nada, acredito que todos entenderão como
sinal de respeito, etc e tal” — pensava eu enquanto acertava os
finalmentes. Aí, nesse ponto, empaquei. Como colocar o símbolo de
morte na data de Saramago? Por convenção, todos usamos uma cruz
(U). Mas como fazer isso com alguém que era declaradamente anti-
católico?
Esta é uma publicação da Editora Novitas em Assim, preferi alterar este texto, explicando a tarja negra ali
periodicidade bimestral, distribuída em forma acima, na diagonal. O respeito por ambos é o mesmo, a homenagem
eletrônica e gratuita. permanece e tenho certeza que esta foi mais uma peça pregada por
Todos os textos, imagens ou qualquer
Saramago... Se Mosivais não gostou, que cobre do português, estejam
outra forma de manifestação aqui publicados
foram devidamente solicitados a seus autores, que
onde estiverem.
autorizaram sua utilização por meio de mensagem Chegamos à edição de número seis. Por conta de um
eletrônica. contratempo que tivemos durante o ano que passou, o aniversário de
Imagens não creditadas a outros são um ano que seria nesta edição, será comemorado em agosto, mês de
de autoria de David Nobrega, excluindo-se aquelas lançamento da Revista no ano de 2009. Para podermos comemorar
que sejam relativas aos autores de artigos e de
( e sim, temos motivos suficientes para uma festinha), faremos uma
alguma maneira ligada aos entrevistados (imagens
pessoais ou de suas obras).
Revista especial para o mês que vem, com as melhores matérias já
publicadas. Será um número extra, permanecendo a bimestralidade
a partir de setembro.

Esta Revista que você tem “nas mãos” está absolutamente
prenhe de ideias e vivências: de Xico Sá a Silvio Alvarez, de Abilio
Manoel a Eduardo Braga, passando por contistas, articulistas,
poetas... Enfim, se o seu interesse é cultura, temos aqui material para
lhe abastecer por um tempinho e, quem sabe, lhe presentear com
aquele estalo pré projeto, que o fará arregaçar as mangas e pôr-se ao
trabalho de criar, parindo novos frutos, para nosso bem.

Gostem ou não, comentem. Critiquem construtivamente.


Deem seus palpites e nos sugiram pessoas que fazem por merecer
Editores: um maior destaque, mesmo que a fama ainda não tenha batido às
portas desses fulanos e sicranos esparramados pelo pais. Basta nos
Letícia Losekann Coelho escrever (contato@editoranovitas.com.br), que toda dica será lida e
bem-vinda.
David Fordiani Nóbrega

Um grande abraço,

@David_Nobrega
Isento de registro ISBN, conforme instrução

da Biblioteca Nacional.
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Jornalista, compositor que apresenta


até videoclipe, escritor, apreciador
das boas — e más desde que no bom
sentido — coisas da vida. Esse é o
Xico Sá, um nordestino radicado em
São Paulo e que fala todas as línguas
brasileiras e que você pode conhecer
um pouco mais na entrevista abaixo
por Letícia Losekann Coelho

Editora Novitas: Ainda existe determinado tipo de


Xico: Tudo baseado em histórias e pessoas reais.
pessoa que ao ler autores que escrevem com um linguajar São episódios passados na vida de amigos ou observados
direto, popular fazendo uso dos bons palavrões de nosso por ai, principalmente nos bares, nos papos, no testemunho
cotidiano, se benzem. O politicamente correto vence? de garçons, no banheiro masculino... Como sou conselheiro
sentimental de muitas amigas, muitos casos me chegam
Xico Sá: Tem reação de tudo que é jeito: uns se com facilidade ao ouvido. Como hiperbólico de nascença,
benzem sim e nos excomungam, acham que literatura claro que dou uma mão de tinta a mais no exagero, para
não pode ter palavrão, entendem como um perigo para a ganhar um tom mais dramático e clima de folhetim.
sociedade.
Eu acho o palavrão, além de “(...) não existiria EN: O estilo Xico Sá já é referência
necessário no cotidiano, libertário. O minha pobre escrita na literatura e alguns escritores se
Politicamente correto nunca encheu sem a leitura baseiam na tua maneira de escrever.
tanto o saco mesmo, mas vamos manter a Essa situação te incomoda ou te dá
resistência.
permanente que satisfação?
faço do Nelson
EN - Tu és um dos autores, que Rodrigues,do Antônio Xico: Não sabia disso,mas se
escreve o que muitos gostariam de acontece eu tenho mais é que ficar
Maria, do João do
escrever, mas poucos tem coragem de orgulhoso. Eu também sou muito
fazer. Na tua opinião, o que falta na Rio, do Veríssimo, influenciado — não existiria minha pobre
literatura: coragem, cara-de-pau ou para citar um vivo, escrita sem a leitura permanente que
reinvenção de estilos? vivíssimo e cada vez faço do Nelson Rodrigues,do Antônio
Maria, do João do Rio, do Veríssimo,
Xico: Além de cara-de-pau, óbvio,
melhor.” para citar um vivo, vivíssimo e cada vez
o que me ajuda é a auto-ironia, a arte de melhor. Sem se falar nas letras do Chico
fazer troça da minha própria tragicomédia de macho. Não Buarque,na dor-de-cotovelo do Lupicínio e da dor-de-corno
acredito em que se leva a sério nessa vida. A literatura precisa dos bregas que fazem parte da minha educação sentimental.
perder o ar solene que ainda tem e ganhar a capacidade de
auto-esculhambaçao. Eu tento. EN: O estilo de escrita tem mais a ver com o cenário
ou com o estado de espírito?
EN: Teu novo livro, “Chabadabadá - aventuras e
desventuras do macho perdido e fêmea que se acha”, fala Xico: Tem muito mais de treino, de exercício, de
sobre essa época de “homem frouxo” e descreve o que repetição, de obrigação de escrever uma crônica por dia.
aflinge o homem moderno. Os contos e crônicas do teu Nesse ritmo você vai pegando um jeito seu, nem diria estilo.
livro são inspirados em pessoas reais que vivenciam coisas Estilo é coisa para os mestres,os gênios. O estado de espírito
que não contariam a ninguém, mas foram flagrados por é importante na definição dos temas dos textos, mas não na
teu “olho clínico”? escrita.
I
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EN: Tu tens horário


para escrever, ou
escreve quando tem

Concurso
vontade?

Xico: Faço crônica


para vários jornais,
portais e revistas,
isso me obriga a cumprir horários sim de

Novitas
entrega dos textos, mas gosto mais de escrever à noite,
principalmente na madrugada de São Paulo.

EN: Escritor antigo, principalmente os poetas,


escreviam em guadanapos de alguma mesa de bar. Hoje
parece que querem aboliar a intectualidade alcóolica,

de Contos
movida a vinho, cachaça, cerveja ou whisky. Entre nós,
que sabemos dos benefícios da “marvada”, que é bom
de beber quando se escreve?

Xico: A “marvada” é boa para inspirar, motivar,

e Crônicas
provocar o estalo de temas, personagens, frases de efeito.
Na hora de escrever, se for em excesso, provoca um baita
engano: você se acha gênio, aí quando acorda no dia
seguinte, de ressaca, vai ver que o que escreveu não vale
um tostão furado, vai ver que é podre de ruim. Claro que
uma cervejinha de leve ou umas taças de vinho em nada
prejudicam a literatura.

EN: Com a quantidade de modalidades culturais


sempre há algo de novo a mostrar. Algum projeto para

Resultado Final
breve?

Xico: Ih, sou um verdadeiro


homem-projeto, como diz um Depois de meses de avalização, onde
dos personagens do meu livro. foram avaliados uma a um todos os inscritos
Estou terminando de escrever
em nosso primeiro concurso literário,
um romance, meio ficção
meio memorialístico, e informamos que o grande vencedor foi
editando, possivelmente Maurício Martins de Oliveira, com seu
para um novo livro
livro “Contos de Varanda”.
também, as minhas
reportagens mais
na linha “jornalismo A todos participantes nossos parabéns
literário”. pela qualidade das letras enviadas. Isso nos dá
a certeza de que a literatura nacional avança,
EN: Deixa um recado para os autores iniciantes.
apesar de todos os pesares.


Xico: Leiam, leiam, leiam!!! Só se aprende assim.
Para maiores informações, acesse nosso
website:
Leia mais do Xico Sá em seu Blog
O Carapuceiro www.editoranovitas.com.br
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História, Arte E Cultura

Nos Esportes: Futebol!


Futebol é arte? Para muitos, a resposta a essa pergunta é simples: sim, com certeza. Para outros, a arte
deu lugar aos negócios, rolando milhões de dólares pelos gramados mundo afora.
Porém, é necessário aceitarmos que por trás de cada partida existem vibrantes sentimentos para milhares
— milhões — de pessoas, torcedores de seus clubes e defensores de suas cores. A cultura popular interativa e
dinâmica, orquestrada pelos gritos das torcidas e apitos dos juízes.
Este artigo trás uma questão discutida há muito tempo: quem trouxe o futebol para o Brasil? Charles
Miller é a aposta mais correta, mas ao ler o texto que segue você poderá notar que existem diferenças de
critérios quanto a paternidade do esporte mais praticado no Brasil. Aí entra o nome de Johannes Minnemann,
um alemão radicado no Rio Grande do Sul. E partidas oficiais. E campeonatos. E muita história a ser contada.

Vamos a este match, em ótimo artigo de Denise Veiga, assessora de imprensa do Sport Club Rio Grande,
oficialmente o mais antigo clube do país.

Foi no berço da civilização que destruiu o Pavilhão em 1934 orgulho para o Sport Club Rio Grande.
gaúcha, em meio a portugueses, não destruiu o sonho. Pelo contrário, Na condição de ter se mantido
espanhóis, alemães e italianos, que foi um impulso para a melhoria atuante ao longo dos últimos 110
o esporte mais popular do Brasil deu das condições físicas do clube. No anos, o Sport Club Rio Grande é
seus primeiros chutes. mesmo local, um novo Pavilhão, o clube de futebol mais antigo do
O alemão Johannes Christian agora de material, passou a abrigar Brasil. Surgido no final do século XIX,
Moritz Minnemann trouxe em sua foi fundado em 19 de julho de 1900,
bagagem a idéia de difundir na cidade tendo papel decisivo para sua criação
a modalidade esportiva sensação na o alemão Johannes Christian Moritz
Europa: o futebol. Minnemann.
Junto à euforia da novidade, toda O Sport Club Rio Grande teve papel
uma estrutura foi montada, a fim de histórico de divulgar o futebol no
popularizar o esporte. Rio Grande do Sul, difundindo
A partir de infindáveis e contribuindo através de suas
reuniões, foi-se aos poucos definindo apresentações públicas, a nova arte
as cores do clube (uma homenagem esportiva que era o futebol. Uma
ao Rio Grande do Sul,estado que apresentação em Porto Alegre levou
acolhia tantos estrangeiros), a ao surgimento do Grêmio de Football
captação de recursos, os jogos de Portoalegrense no ano de 1903.
Johannes Christian Moritz Minnemann
exibição, entre outras decisões Fundação
práticas. os torcedores, que desde o início Através de uma nota redigida
Em 1911, erguia-se o apoiavam e lotavam o Estádio para em alemão que os moradores de Rio
primeiro Pavilhão, no Estádio das assistir as exibições do Tricolor rio- Grande, pelo menos os da colônia
Oliveiras, palco dos belos jogos e de grandino. germânica, souberam da existência
vitórias significativas. O Dentre as conquistas daquele esporte novo, em que 22
Estádio foi construído significativas, cabe ressaltar a Taça homens tentavam chutar uma bola
com a colaboração Centenário da Independência, de couro. Assinada pelo alemão
dos sócios e com conquistada em 1922, a conquista Johannes Minnemann, o convite
o apoio de toda do Campeonato Gaúcho de 1936 e anunciava que haveria um jogo de
a sociedade rio- dos vice-campeonatos estaduais em futebol às 9h30min do dia 14 de julho
grandina. O fogo 1941 e 1951, todos esses motivos de de 1900, no campo do Clube de Tiro
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Alemão. Havia ainda um aviso, após Grande venceu o segundo pelo da própria cidade. No trem, levaram
a partida, seria discutida a criação de placar de 2 a 1. Nesse jogo, osbolas, uniformes e até as traves e
um clube em Rio Grande. atletas do Rio Grande utilizaram
redes, usadas em uma partida de
pela primeira vez caneleiras e exibição.
Primeiro jogo oficial colocaram redes nas traves. Foi no berço da civilização gaúcha,
em meio a portugueses, espanhóis,
O primeiro jogo oficial do Regras do primeiro jogo alemães e italianos, que o esporte
Sport Club Rio Grande aconteceu no mais popular do Brasil deu seus
mesmo ano de sua fundação. No dia O tempo de algumas partidas primeiros chutes.
7 de outubro de 1900, as equipes B era de 110 minutos. Pênalti era
e A do clube se enfrentaram em um considerado uma covardia e só era Nesse mais de um século, o clube
campo atrás do Cemitério enfrentou todas as
Católico, em Rio Grande. mazelas e glórias que se
Não há registro do placar enfrenta numa caminhada
da partida, mas o convite longa. Criou ídolos, mudou
que listava titulares e conceitos, foi e é parte da
reservas de cada time vida de várias gerações
encontra-se nos arquivos de pessoas. O resgate
do Memorial do clube. e a manutenção dessa
Em outro domingo, 4 de memória fazem parte do
novembro de 1900, houve trabalho do Memorial.
o segundo jogo do ano. De Nossa preocupação é
lembrança dessa partida, manter vivo o espírito
ficou um documento da daqueles pioneiros que
Intendência Municipal, O time do Sport Club Rio Grande, em 1900 acreditaram num sonho e
autorizando a realização de um marcado quando algum jogador se dedicaram na construção de uma
torneio no terreno. colocava a mão na bola. Se um time realidade que viria a tomar conta do
estava vencendo, cobrava o pênalti país: o futebol.
Primeiro amistoso internacional para fora. Era proibido reclamar das
marcações do juiz. Atualidade
O primeiro amistoso
Internacional de um time Primeiro jogo fora de casa Desde 2007 que o presidente
brasileiro, apesar de não ser Alexandre Duarte Lindenmeyer
reconhecido pela CBF, foi entre o Foi em um clima de festa desenvolve um trabalho de resgate de
Sport Club Rio Grande e o time que o futebol gaúcho deu os passos identidade do torcedor rio-grandino,
da canhoneira inglesa Nymph. iniciais para fora de Rio Grande. Em 4 que paralelamente também contribui
Foram disputados dois jogos, de outubro de 1901, os jogadores do para resgatar a história do futebol no
sendo que o primeiro acabou clube mais antigo do Brasil viajaram município.
empatado em 2 a 2, e o Rio a Pelotas para o primeiro jogo longe

Informações e histórias sobre o Rio Grande podem ser conhecidas no site www.sportclubriogrande.com.br .
Há um programa dos Detetives da História, no History Channel, que trata sobre o assunto. Vídeo não disponível.

apenas o necessário

Um e-book onde o pouco pode dizer muito...

Os autores deste projeto, baseado em frases colhidas


entre os seguidores da Editora Novitas no twitter, já
foram selecionados.

Em breve estará a sua disposição, para ler e


aproveitar, gratuitamente!
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Abilio Manuel Robalo Pedro, ou Abilio Manoel, como é


conhecido em nossa música, é multitarefa: Músico, compositor
— de várias canções a trilhas sonoras e jingles —, intérprete,
radialista, publicitário, diretor de cinema, operador de áudio. E é
um ícone de nossa MPB, que continua trabalhando ativamente.
Na entrevista abaixo, concedida de maneira extremamente simpática,
Abilio nos conta de sua vida e de seus projetos. Para aqueles que vivenciaram
grandes sucessos como “Pena Verde”, hora de matar saudade. Para os mais
novos, que não tiveram o prazer de poder ouvir nas rádios Música de boa
qualidade, Abilio é a grande dica desta edição.
Editora Novitas: Temos muitos leitores jovens que Festival Latino-Americano de la Canción Universitaria, no
infelizmente não conhecem a Música Popular Brasileira e Chile, em 1967. Ainda como estudante fui para o México,
nem os grandes nomes que a fizeram ser o que a lembrança onde gravei dois discos e participei de programas de
nos diz o ela que realmente seja. Pode nos contar um pouco TV... E tive um importante contato com o folclore latino-
do Abílio ao estilo “por ele mesmo” e em quais projetos americano, que seria a inspiração para outros rumos que
está envolvido no momento? tomei em meados dos anos 70, tanto como autor, como
pesquisador e apresentador de um programa de rádio,
Abilio Manoel: Começaria por na Band FM — o programa América do Sol
falar da MPB, que anda realmente num
estágio de estagnação incomparável e a
A globalização —, que seria pioneiro no impulso à musica
latino-americana no Brasil. Gravei 8 LPs, 25
consequência natural é que todos os nomes tornou a Compactos-Simples e dois CDs.
que marcaram algumas gerações e décadas identidade A derivação para outras áreas da cultura
sejam igualmente esquecidos, pouco a
pouco. Imagino que pra muitos de nós que
um cartão de foi a forma que acabei encontrando para
sobreviver diante do fechamento de muitas
fizemos canções que chegaram aos ouvidos plástico. Quanto à portas aos artistas como eu, como expliquei
de tantos, com algumas centenas de
milhares de discos vendidos, executados em
qualidade... antes. Daí fui produtor de festivais, radialista
(Band FM e USP FM), Engenheiro de som
todas as rádios de norte a sul do país, seja Bem, o que (Mais de 1000 eventos), cineasta e roteirista,
difícil manter a carreira, com tão poucos
espaços que o rádio e tv deixaram para
esperar? criador de jingles e trilhas e atualmente
proprietário de uma editora musical e um
divulgar a música popular. Sobreviver como artista é uma estúdio de produção de áudio. Tenho projetos de vários
tarefa realmente hercúlea. livros na área de ficção, escrevo para cinco blogs na internet
Sobre mim: para quem não sabia, sou português e pretendo ainda filmar alguns roteiros em cinema, além de
nascido em Lisboa, e vim para o Brasil quando tinha sete um próximo CD para breve.
anos de idade. Ganhei meu primeiro violão aos 15 anos de
idade. Comecei compondo casualmente no final dos anos EN: “Pena Verde” foi o maior hit, seguido por tantos
60, ainda como estudante universitário, cursando Física na outros, como “Luiza Manequim”, “Cavaleiro Andante”,
USP, num ambiente onde essa elite musical toda surgiu. “Andrea”, “Bom Dia Amigo”, etc. Pelo que sei, quando
Os festivais de MPB pipocavam por todos os a música estourou, você nem estava no Brasil. Como foi
lados, das TV’s às pequenas cidades do interior do Brasil. administrar isso?
Foi por aí que me tornei conhecido ao vencer, em 1969, o
Festival Universitário da TV Tupi. Antes já havia ganho o I Abilio: Isso é uma verdade. Como disse, estive
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morando no México em 1970, quando o que lhe garante


acabara de gravar o disco com a música também o papel de
“Pena Verde”, que ganhara o festival observador de nossa
universitário, em 1969. Quando lá estava a cultura. A pergunta
música estourava por aqui e o desespero da é: A Cultura Nacional
gravadora era me trazer de volta ao Brasil perdeu os trilhos ou
para gravar um LP, que acabei fazendo em o freio?
meados de 1970, onde a música “Andréa”
(que havia composto em espanhol, lá Abilio: Acho
gravado e acabei por fazer a versão dela que a cultura popular nunca deve ter freio, ela tem de ser
para o português) seria meu próximo dinâmica e transformista, mas os valores essenciais devem
sucesso naquele ano, também chegando ser mais preservados e respeitados. Não há como fazer
ao primeiro lugar das paradas, a exemplo de o trem andar nos trilhos sem que se saiba como azeitar
“Pena Verde”. as rodas da locomotiva, colocar mais lenha na caldeira,
e encaixar os vagões na ordem correta. Querer pegar o
EN: Em entrevista há alguns anos atrás, trem em movimento é um risco muito grande, porque a
você diz que não gosta da rotina, da possibilidade de cair dele rapidamente é grande. É o que
mesmice, por isso não aparece mais como acontece com a maioria dos artistas emergentes... A maioria
cantor (Seu último CD é de 1998). Mesmo deles é fruto de alguma máquina que mais se importa em
assim, pode-se ainda esperar disco novo ou quanto vai cobrar pela passagem, mas não com a qualidade
realmente são águas passadas? da paisagem que se haveria de ter no trajeto.

Abilio: Realmente eu gosto muito de EN: Há sempre uma pergunta que gostamos de
inventar, criar, diversificar minhas atividades, fazer a nossos entrevistados e acredito que seja pertinente:
sempre ligado ao que sei fazer, ou seja, A MPB mudou, tornando-se underground e elitista ou
compor, escrever, roteirizar. É natural que o gosto popular foi desviado para o consumo fácil e de
tenha inúmeras músicas espalhadas pelas qualidade duvidosa?
gavetas — e que acabo por esquecê-las
completamente — mas, fazendo uma boa Abilio: Acho que o rótulo de “MPB” não é mais
triagem, teria material razoável para lançar talvez uns 4 adequado e nem deveria ser mesmo. A musica poderia ter
CDs, com o nível que exijo para chegar a um outro rótulo hoje mas com as características que fariam
um público, que seria semelhante ao que com que a MPB se tornasse uma referência para os novos
me acompanhou e que lembra meu estilo talentos e rumos que a música popular deveria ter. Ela não
de compor, onde prezo, além da melodia, é elitista por não representa elite nenhuma, ou seja, não
a letra, os versos, como importantes existem talentos na praça... Existem bandas em lugar de
instrumentos de comunicação, hoje em dia grupos musicais, existem teclados em lugar de orquestras,
um tanto desprezada, eu diria. há genéricos e não ícones, tudo tende a ser descartável.
O mundo está assim. A globalização tornou a identidade
EN: Suas atividades como cantor e um cartão de plástico. Quanto à qualidade... Bem, o que
compositor lhe renderam sucesso e esperar?
transformaram-no em ícone de nossa MPB.
Hoje, o bastidor lhe proporciona maior EN: Antes, os Festivais eram uma forma de
liberdade em criar? conhecermos novos talentos e muitos deles estão por aí
até hoje, e mesmo havendo exceções, muitos sobrevivem
Abilio: Tenho toda a liberdade de criar. de shows eventuais pois não há mais grandes gravadoras
Agora mais do que nunca, porque nem tenho a quem dar que invistam em suas carreiras. Não crê que a internet
satisfações, pelo que já disse anteriormente. Mas também possa ser usada como resgate desses grandes nomes,
tive toda a liberdade enquanto estive nas popularizando-os novamente?
quatro das maiores gravadoras da época,
Odeon (EMI), RCA, Som Livre e Continental. Abilio: Realmente dos festivais é que foram extraídos
Sempre cuidei de toda a produção dos meus os grandes nomes que ainda podem ser reverenciados com
discos, desde a escolha de arranjadores, algum orgulho por tudo que a música brasileira representa
músicos e até mesmo da arte final das capas internacionalmente até os dias de hoje. O que se ouve no
dos discos. Isso nunca foi problema pra mim, felizmente. O rádio e TV, de uma forma geral no Brasil, é uma canção
problema hoje é não ter a quem mostrar as m[usicas ou as desqualificada e sem qualquer chance de sobreviver a
ideias que venho desenvolvendo. alguns dias. A internet possibilita o sucesso
de um dia apenas, os tais ‘5 minutos de
EN: Você tem uma gravadora e uma fama’; todo mundo pode ser sucesso, se
editora, além de inúmeras outras atividades, tomarmos o sucesso por algo tão efêmero
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i a
assim. Por outro lado, a internet também resgatou muita

r
gente que andava morta ou se pensou que estavam. Isso é o

Críticar á
melhor que ela nos pode trazer. Ou seja, mostrar para todo

e
mundo que um dia existimos e até mesmo eternizar muitos

i t
dos nomes que andavam esquecidos. Afinal não podemos

L
esquecer que podemos ser representantes do chamado
movimento ‘cult’ para muitos jovens mais atentos. por Andrea Barros*

EN: Grandes arranjos, letras afiadas, vozes Loveland: A Casa dos Quatro Jardins
afinadas, um estilo de vida. Vivenciar aquilo deve ter sido
maravilhosamente louco... Autor(a) - Iara de Avellar
Categoria - Romance
Abilio: Os grandes arranjadores: José Briamonte, ISBN - 978-85-62442-06-3
Luiz Arruda Paes, Gaya, Erlon Chaves. Número de páginas - 200
Grandes arranjos: Disparada (Quarteto Novo),
Universo do teu corpo (Gaya), Ponteio (Edu Lobo) Um romance bem escrito sempre faz a
Letras: Bandolins (Osvaldo Montenegro), Modinha diferença. No caso de Loveland, essa premissa é
(Chico e Vinícius), Roda-Viva (Chico), Se (Djavan)
verdadeira. Dividido em três partes, o livro constrói
Vozes: Emilio Santiago, Marisa Monte, Maysa,
Márcia
a história de Caroli, uma jovem professora que tem
Estilo de vida: a bossa-nova... Rio de Janeiro, anos como novo emprego ensinar um menino de sete anos.
60 Ao chegar na casa ela se depara com uma família
desestruturada, um pai amargurado pela morte da
EN: Um recado final aos que estão iniciando em esposa e dois filhos perdidos sem o amparo materno.
suas carreiras? A descrição das personagens e das cenas são
muito bem elaboradas. A autora consegue levar o
Abilio: Um recado que deixaria.... seria dizer que o leitor ao interior do Rio Grande do Sul e mostrar a
novo pode ser algo que foi esquecido. Que tal? Outra coisa: ele como as coisas realmente são em uma pequena
todos somos um pouco de onde nascemos... e muito do que comunidade do estado. Contudo, o principal ponto
vivemos.
da obra é a transformação que, inclusive, leva o
nome das três partes que dividem a história. É claro
que muito não pode e não deve ser dito, mas com
Pena Verde delicadeza, Iara leva ao imaginário do leitor as mais
Odeon, 1970
diversas imagens.
Pus Um Cravo na Lapela, Pode-se dizer que os personagens são mutantes,
Sou Escravo, Eu Sou Dos Olhos Dela pois se modificam no transcorrer da narrativa. Aliás,
Pena Verde no Chapéu... a narrativa é excelente e consegue prender o leitor.
Me Deu Sorte, Ela Caiu do Céu. É possível terminar a leitura em menos de um dia.
Porém, quando iniciá-la é preciso ter em mente que
Tenho Agora Quem Me Quer
haverá muitas mudanças, não apenas na história, mas
Dou o Meu Cravo Pra Quem Quiser
no todo. É justamente aqui que está a beleza desse
Mas Pena Verde Eu Não Abro Mão
Pois Desconfio do Seu Coração. romance.

Não Adianta Fugir do Feitiço, (*)Andrea Lucia Barros é formada em jornalismo e direito,
No Fundo Você é Toda Sorriso com especialização em crítica literária.
Agora Sim Não Há Mais Problema
Tenho Você e Sei Que Vale a Pena... Adquira já o seu exemplar.
Acesse nossa loja virtual ou entre
em contato através de nosso
Para saber mais sobre e adquirir os endereço eletrônico:
discos do Abilio, alguns links:
contato@editoranovitas.com.br
Site Oficial MySpace
Studio America
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Altercação

Guilherme Noronha Leminski


A moral está manchada de café, Evandro Marques de
acontece quando se deixa a xícara parada Souza Gomes
sobre papéis importantes,
até mesmo rabiscos jogados ao nada
No ringue
Falso conforto Leminski
Falso aspecto A poesia
Do quem se opõe a conceitos banais E o drinque
E se contrasta ao seu meio
Outra dose
Pior ainda é a desavença consigo mesmo De uísque
Onde a mente e coração discrepam E o quimono
Resta a escolha natural e verdadeira Nos trinques
Assim como espontânea
Overdose
Tempo não é remédio Ou nocaute
O silêncio é revelador No primeiro
E o diferente não deve ser valorizado Round do poema
Apenas por ser diferente
Leminski
Se eu fechar meus olhos Poeta iso
O compromisso e as cores Abre o trinco
Sumirão como pássaros no céu Do paraíso
Que poderiam viajar para o mundo inteiro

Mas escolhem ficar...


1014

Letícia L Coelho

A arrogância vende
Quando as pessoas querem tapas...
São muitas, eu vejo,
De quatro esperando a garfada.
Vida engraçada...
Sentidos invertidos
Ele vende humildade
Como se fizesse caridade,
E tu compras...
Como se estivesse adquirindo algo de valor,
Catalisa...CatalisaDor.
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Ode (io) à métrica


um sentimento de samba
Minhas vontades, meus desejos
Monica Saraiva
Suzana Martins
Te desejei poema livre
Eu queria que todas as noites fossem sábado, Sopro de letra ou canção
todos os dias fossem chuvosos, Rascunho do qual se vive
todas as tardes fossem ensolaradas, Suspiro solto, sem pretensão.
que todo pôr-do-sol fosse à beira mar
e que todos os mares fossem meus. Mas nesse instante não tenho o mote
Eu queria que todas as estrelas fossem luas, Vai ver que agora me falta é sorte
que toda lua fosse sol, Pra me desprender da tua imagem
que todo sol tocasse um samba, Pra ver revelar outra paisagem
que todo samba tocasse um reggae, Pra poder somente falar de mim
que todo reggae tocasse uma bossa
e que toda bossa fosse nova! Sim
Não!
Eu não queria nada disso! Vai ver minha veia de samba é fraca
eu QUERO tudo isso... Não sei como aproveitar ressaca
Eu quero caminhar no mar, Pra compor tão bonitos versos
ouvir o barulho do areia, Pra seguir caminhos mais certos
sentir o sol cair em meu corpo Pra encontrar outra estação
e deixar a chuva me secar...
Quero ser Primavera, Não
quero ter cheiro de outono,
quero o calor do inverno Quem sabe isso é coisa de despacho
e o frescor do verão! Aquilo que procuro, sempre acho
Quero sonhos verdadeiros, Não sei onde foi que tudo deu er-
amores realizados, rado
sentimentalidades às avessas, Me empreste seu lenço, muito
amigos eternos. obrigado
Quero poder querer sempre, Acho que fui triste dessa vez
quero ter, sentir, quero conseguir!
E contudo, Talvez
quero apenas ser EU:
simples e complicada, Melhor compartilhar do teu calar
alegre e saltitante, Melhor sentir fundo esse meu penar
menina e mulher. E sonhar com dias coloridos
Com os olhares proibidos
Nossos desejos distraídos

Quem sabe...

Não Ofereça Flores a Fantasmas

Alessandro de Paula

esvazie as gavetas de memórias carcomidas pelas traças


recuse à trágica dama Mentira o direito da última valsa
máscaras de ontem já não servem e não protegem mais

dirija sem temor para outro lugar que queria ter visitado
a direção oposta lhe convida e pode ser muito atraente
há tanta gente nova que aguarda ansiosa um novo você

agora que já sabe que o engano era imaginar-se certo


destrone o absoluto imperador da ilusão que alimentava
pois como era o mundo antes, nunca mais poderá ser

não tenha piedade alguma de quem pode lhe sangrar


não ouça os sussurros de quem lhe implora a voltar
não ofereça flores aos fantasmas que habitam ao redor

eles não podem sentir o odor


Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 12

Ali, na esquina

Álisson da Hora

estamos todos entregues


todos
à sorte dos tolos à aventura
dos céticos
todos
soltos no espaço
num mar de sargaços
entre o delirar e o perder-se
o contar moedas
enumerar fileiras de livros
de recomeços
somos os adjetivos caducos Perigo
o vício estrelado de viajar nós mesmos
velas ao mar, sem rumo, e o retorno Katia Mota
é um trapézio de bebedeiras
re-correntes a amarrar mastros Sou o pensamento póstumo.
e dores O fim da linha.
estamos todos na esquina da Saudade Sou o porto seguro
aboletados num bar sem nome e o limite da perdição.
ao longe, a Torre, após a ponte, ao largo Sou seu eu escondido.
as vidas, nos copos Seu elo com o infinito.
reflexos de olhos embaçados Eu.
nos marcos zeros de nossos passos Eu sou o que rejeita.
dedos enregelados E sou o que almeja.
engelhados nas bordas das mesas encharcadas Sou o que te espera no fim da fuga.
ao final do ir e vir O que procura no fundo do abismo.
tontos os santos Sou o caos dos sentimentos.
exorcizados os demônios O que te impulsiona nos desafios.
que voltam de ventre inchado Sou o diabo que te tenta;
dúvidas traidoras nas asas das falenas E o anjo que te estende os braços.
que rebatem nas luzes que devagar Sou o outro lado da ponte.
se vão Sou a dúvida do amanhã.
somos as cabeças avoadas Busque onde buscar.
de deuses sem ardis Negue o que negar.
olá vidros, olá gotas Sou sempre o que vai encontrar.
do vinho mais vagabundo a sorte mais lançada
que não apregoa vitórias e ainda relaciona
incompreensões de esquinas e outros logra-
douros
logrados estamos nos semáforos apagados
com os cães internos de nossa ressaca
apaziguada
rimas infantis, trezentos desejos que voam
e não voltam
enquanto, à esquina
olhamos tudo
fechamos as bíblias de nossa esquizofrenia
e sentimos
o ir e vir
Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 13

Volte

Anderson Mattozinhos

Então estais: Tu!


Linda, cheirosa, carinhosa…
És Tu.
Meiga, doce, deslumbrante.
És Tu.
Reconheço.
Tímida, inteligente, capaz…
És Tu.
Reconheço?
Implicante, arrogante, triste…
Sinto, percebo, discordo.
Discordo!
Presunçosa, altiva, distante…
És Tu?
Recuso-te.
Vou para longe, fujo.
Eu covarde.
És Tu?
Hoje não te reconheci.
Meu mundo tornara-se diferente. Mudanças não autorizadas!
Tornara-se diferente em segundos.
Diferente.
Diferente você…
Onde está você?
Volte.

Incógnito Anelo

Bruno Bossolan

Outrora resolvi levantar da cama


Para testar a medicina psicológica,
Que decepção, não há nenhuma lógica
Curar as feridas abertas de quem ama.

O íntimo atormentado pelo motivo banal,


Destroçado e inutilizado sem compreensão,
Forçado a cortar os pulsos, jurar redenção
A este descaso que sugou minha moral.

E o sangue linfático que descia pelos pulsos


Escorrendo até a esquina, entrando no bueiro,
Sou agora como um escravo no navio negreiro
Sem autopsia para desvendar os meus impulsos.

Vou esperar sentado e faminto


Em sua casa, em seu portão,
Pensando num motivo que traga você junto.

Quero desvendar o labirinto


Que alucina meu coração,
Chegar ao fim sendo apenas um defunto.
Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 14

Artista plástico paulistano, autodidata, dedica-se à colagem desde 1989. Com


bom humor, retrata o cotidiano das grandes cidades sem, contudo, deixar de lado
uma análise crítica da sociedade. O artista costuma dizer que a principal matéria-
prima de seu trabalho, ainda mais importante do que o papel, é a paciência. Silvio
recorta, uma a uma, imagens de revistas ou de folhetos publicitários para compor
um mundo todo seu, mágico e surreal. Segue a entrevista:
Editora Novitas: Cultura aliada a projetos crianças e jovens que participavam dos meus workshops
sustentáveis. De onde saiu a idéia de trabalhar com poderiam, através de uma experiência lúdica, sair
material reciclado? dali e imediatamente atuar e propagar o conceito de
reciclagem, de forma prática e eficaz. Penso que ao
Silvio Alvarez: Eu ouço falar de preservação do introduzirmos este novo conceito de vida na cachola
meio ambiente, de reciclagem, desde minha meninice da garotada, de verdade, mudaremos o mundo.
(e olha que faz tempo). Quando comecei a dedicar mais As novas gerações verão o lixo de uma forma
tempo à colagem, meus amigos e vizinhos passaram totalmente diferente. Mesmo porque não há outro
a doar revistas. Ao constatar que a matéria-prima da caminho. A Humanidade resolveu tomar uma atitude
minha arte era “lixo”, as fichas caíram. Percebi que a respeito da preservação “tarde demais”. Daqui para
minha arte estaria para sempre associada à reciclagem frente só nos resta remediar.
e à preservação ambiental. Não temos que reciclar os materiais apenas,
Outra experiência que desencadeou este meu mas as nossas idéias, nosso comportamento cotidiano,
despertar ecológico foi ter conhecido Dona Nêga, nossa maneira de enxergar a vida como um todo.
uma senhora de 70 anos, natural aqui da cidade em Será que a Arte não é a forma ideal de
que hoje resido, Joanópolis, perto de São Paulo. Dona chamarmos a atenção para esta nobre e vital causa?
Nêga complementa sua aposentadoria recolhendo
papelão, revistas e outros materiais para vendê-los à EN: Teus trabalhos de colagem tem um
reciclagem. Tudo o que sobra de minha produção vai certo “Q” de mosaicos, outro de quebra-cabeças. Se
para ela. Vê-la, com o vigor de um jovem, alterar toda comparararmos teus trabalhos com determinadas
uma realidade de vida difícil, a partir da reciclagem, “instalações vanguardistas”, nem todo lixo vira arte...
fez-me pensar muito. Se ela, sozinha, pode... Por que o
mundo não pode? Silvio: Costumo brincar que meu trabalho é um
quebra-cabeça, a diferença é que eu preciso recortar
EN: Em uma entrevista, dizes que teu trabalho as peças antes de montar e o resultado a ser alcançado
utiliza o lixo da sociedade. Lixo que vira arte. Arte que está em minha mente, e não impresso na caixa.
vem do lixo. Está na hora de repensarmos a palavra Todas as formas de expressão artística têm o
lixo, mudando nossos hábitos e nossas perspectivas? seu valor. Trabalho, como uma formiguinha arteira que
sou, com o objetivo de que um dia, a colagem, como
Silvio: Passei a atuar mais efetivamente na técnica, a que teve início no século passado com Pablo
área de conscientização ambiental ao perceber que as Picasso e Georges Braque, entre outros, alcance tanto

Acima, detalhes do quadro “Amigos da Onça” (Colagem sobre MDF – 85 x 64 cm – 2010)


Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 15

Todos nós temos a nossa criança interior


guardadinha, quase sempre bem quietinha. A
Arte, seja ela qual for, liberta esta criança arteira
afoita por colocar a mão na massa.

EN: Teu trabalho chega à maioridade e em


nossa opinião merecia um maior reconhecimento
e divulgação, tanto pela cultura quanto pela
contribuição ao ecologicamente correto. Esse
reconhecimento não ajudaria na realização de
novos projetos?
s e u d a
sto no M
u Pode nos falar do
re” , qu e está expo a, SP que vem por aí?
el “Árvo tor Civit
e seu pain ade da Praça Vic
O artista bilid
Sustenta
reconhecimento quanto Silvio: Eu
os trabalhos de pintura. Arte é arte! E ponto. costumo brincar
que o tamanho do
EN: As oficinas que ministra coopta gente reconhecimento
de todos os níveis sociais, idades, gostos. A é diretamente
participação é maior em algum grupo específico? proporcional
ao que você Silvio com alunos, em uma das oficinas
Silvio: A criançada curte mais porque consegue comprar de colagem que ministra.
a colagem já faz parte do seu dia-a-dia. Desde de comida com
sempre a colagem é utilizada como ferramenta o dinheiro ganho com o teu trabalho. Graças
didática informal nas escolas. Mas todas as faixas a Deus não me falta o pão de cada dia, mas a
etárias adoram. minha despensa não anda lá tão cheia quanto eu
Quando folheamos revistas atrás de gostaria. Por enquanto, ainda não percebi este
imagens para um trabalho artístico, a meu ver, reconhecimento que mencionou.
estamos folheando o catálogo universal referência Estou trabalhando muito justamente para
da sociedade. Tudo o que queremos ser e ter, conseguir um pouco de estabilidade financeira e,
em geral, está ali impresso. Este fato traz certo paralelamente a esta correria pela subsistência,
encantamento e é independente da faixa etária. preparo minha próxima exposição para 2011.

Quer saber mais sobre


Silvio Alvarez, contratar
uma de suas oficinas ou
adquirir suas obras?
Fácil!

Site Oficial

Flickr

Ou escreva diretamente,
enviando mensagem para:

silvioalvarez@uol.com.br
O produto final: “Amigos da Onça”
(Colagem sobre MDF – 85 x 64 cm – 2010)
Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 16

Prenda Da Madrugada(*) Equilíbrio


Luis Bento Rodolfo Lima

Por mais que ele puxasse as bainhas à memória não Não sou de aceites nem mesmo de acordos. Nem
encontrava a costura onde se perdera da paixão. Fosse por sei mesmo onde este tal equilíbrio adormece. Vivo pelas
míngua de alimento, fosse por ausência de palavra, o certo
é que, escudado na sabedoria paterna que bastas vezes lhe etapas que a vida propôs e eu, inteligentemente, não quis.
zurzira, com firmeza, ser a poesia um bálsamo para a alma, Foi imposição, podem crer, dela sobre este, meu sobre o
mas fraco aconchego para o estômago, a deixara morrer ‘não’ concordar.
em lume brando acabando por lhe fazer o funeral ao longo Sim, eu lutei porque a vida não tem este direito
de uma vida de trabalho árduo e de apetites saciados em todo. Só porque me deu o sopro acha que pode reter
relações sem corda ou baraço de tamanho suficiente para minhas vontades e impor este equilíbrio tosco? Não, eu
o compromisso. Ganhara o estômago numa luta desigual juro, não tem mesmo! Nem que tenha pedido-a numa
com o dicionário dos afectos… noite de embriaguez juvenil.
Ela, por sua vez, adormecida numa quietude morna Eu que procure procurar. Eu que chore por chorar.
e constante, sem sobressaltos, habituada ao quotidiano Eu que regurgite estas ordens. Somente assim dou a
novelesco iniciado, bem cedo, à porta de casa e a terminar
já com o sol entretido a desenhar geometria na sombra dos entender quem sou. O ser que originalmente equilibra-se
muros de reboco mal acabado, doce, sensível, embrulhada nas suas próprias vitórias, injúrias e quedas. Eis o meu, e só
numa aparente fragilidade, de olhar a um tempo sereno e meu, ponto.
forte, buscava uma melodia afinada no seio da paixão que, Olho de peixe
ao invés de pernoitar, residisse em permanência naquela
assoalhada vaga no coração. Eloy Nunes
Magnânimo e omnipresente, talvez por distracção
ou experiência, o destino dera-lhes uma prenda.
Aquele copo de bolinhas amarelas me lembrou
Tropeçaram um no outro numa química em efeverscência
e sem manual de instruções. Os corpos, nus, moldados a catapora que nunca tive e o sarampo que sarou até
numa forma única, consumiam-se num movimento na memória. Recipiente duvidoso, de plástico fajuto e
lânguido e lento , através dos cabelos dela escorregando arranhado, porém, de conteúdo inigualável. Sede alguma
teimosamente por entre os dedos dele que, de olhos se aplaca sem ela. Água esbanja, apropria, penetra o mais
bem abertos, se deliciara com o gemido rouco e profundo seco, o mais árido; molha. À agua, avidamente sorvida, até
com que ela lhe acariciara os lábios . A lua a estender- a minha própria imagem refletida se foi. Que estranho,
se pelo céu com uma dormência dolente e preguiçosa sedento, bebi a mim mesmo. Frágil, débil a cena de olhos
e o relógio a encher-se de horas e eles, de mãos dadas, trêmulos, fixados em água fluida, fluídica, fluidificante...
experimentando num último estertor de prazer, um sorriso Olhos que se olharam de volta. Espelho algum, duro e
amplo e afogueado a iluminar a face de ambos.
seco, nunca me oferecera a mim assim tão próximo, tão
Ele, cogitando de olhos no tecto, percebera que
não precisava mais de puxar as baínhas à memória. Ela, íntimo. Da água, úmida, em fim e começo, surjo; torno. Um
estranhando-lhe o silêncio, não resistiu à pergunta: singelo conceber que foi engolido, à seco, à água; água que
— E tu? Em que pensas? regurgito em suór, urina, choro, vômito. Exagero de água,
Dominado ainda por uma réstea de calor, fez uma exagero em água, sempre. O transbordante é o suportável.
pausa, inspirou fundo e, de sorriso nos lábios, perguntou- Afogo-me, não morro. Viro peixe e, nela, vivo.
lhe por sua vez: Ausência Salgada
— E tu? Sabes o que é amar?
Ela, sem ponta de espanto, sorriu, recordou as
palavras doces da mãe que, com uma paciência ilimitada Du
lhe saciava a curiosidade desconcertante da idade dos
porquês, aninhou-se-lhe no peito, atirando-lhe num Uma parte tua ficou comigo e me acorda toda
sussurro: madrugada.Olho no espelho procurando onde terás
— Amar? Amar…É gostar de ti com muita força… permanecido. Estás sutil, no círculo castanho dos meus
* Originalmente escrito em português de Portugal olhos.
Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 17

Mas não apenas lá. uma vítima ou um inimigo. Mesmo com o fedor nauseante
Tiro minhas roupas e te procuro. Onde estás? e onipresente, qualquer corpo quente, pulsante, seria
Minhas mãos deslizam seguindo o teu rastro percebido por mim em segundos.
impresso no meu corpo. Mesmo tendo sido criado dentro dos padrões
Estás sob minha pele, secreto, oculto, íntimo. normais da fina educação de minha classe social, estes
Caminho na trilha onde ficaram tuas pegadas meus sentidos altamente desenvolvidos fazem a diferença
e quase percebo os ecos da tua voz e os murmúrios do de minha personalidade, alterando a todo instante meus
tempo em que gravaste no meu ser os teus sinais. Abaixo rumos pela vida.
da pele, onde os outros não vêem, perto o bastante para Meus pais, ao me expulsarem de sua casa ainda um
tirar meu sono e me guiar na busca. garoto, imaginaram talvez que eu encontrasse a morte nas
Avanço em minhas próprias planícies, atravesso ruas, livrando assim a sociedade do empecilho que eles
meus quilômetros seguindo tua pista, e então estás aqui. mesmos haviam gerado.
Te alcanço e toco o que, sendo parte tua, mora em mim. O primeiro corpo que tomei como alimento foi
Cansada e suada, finalmente entendo: a parte que deplorável. Um bêbado imundo, com todos os gostos
ficou comigo foi tua ausência. de todos os vícios humanos, me fez sentir uma variação
E tua ausência salgada vaza pelos meus olhos... enlouquecida de sabores. Sabores que odiei e que me
Doce Obsessão fizeram pensar que talvez esse não fosse o alimento
necessário para minha vida.
Luisa Aranha Noites após, zonzo de fome e necessidade, uma
prostituta jovem e recém-saída de seu apartamento da
A ideia de querer e não ter assombrava sua zona do meretrício, tão criança que me parecia sentir
alma. Como uma criança mimada, passava dias e noites ainda o cheiro do leite de sua mãe, fora a melhor refeição
imaginando que artimanhas poderia fazer para conquistar que já houvera conseguido. Tenra, com um sangue doce e
aquele coração. Nem gostava tanto assim. Sabia que não suave como se fosse vinho das melhores safras. Me servi
era amor de verdade. Um flerte talvez. Um desejo quem de seu sangue aos goles. Banquete ensandecido de carne
sabe. Uma doce obsessão. De tão obcecada não percebia crua e quente.
que outras coisas aconteciam na sua vida. Aquela conquista Fiz muitas vítimas desde então. Brancos ou negros,
era um capricho. Um mimo para sua auto estima e nada mulheres ou crianças, católicos ou judeus. Experimentei de
tinha a ver com sentimentos. Talvez só com o sentimento todos e por cada um deles tenho uma preferência distinta.
de posse. Como se o que cada um comesse por hábito, afetasse o
Possuir ele. Poder pensar que tinha conseguido. sabor de suas carnes.
Sentir o sabor da conquista. O cheiro da vitória e depois Mas hoje não busco ser um gourmet. Quero apenas
relaxar. Sim. Aquele tinha virado seu único objetivo na vida carne em forma de fast-food. Tenho fome e quando fico
e não havia um minuto se quer que ela não pensasse nisso. neste estado não ouso escolher.
A crueldade de seus devaneios era tamanha. Pensava na Perdido em meus pensamentos, quase perco a
conquista e no golpe final depois dela: o grande pé na chance de uma vítima. Ela andava apressada, coberta por
bunda que daria nele. um sobretudo que lhe escondia totalmente o corpo. A
Não era uma mulher fria e calculista. Era impulsiva. chuva que começara naquele instante, cobria meu corpo
Agia pelo prazer. Ele era calculista e por causa disso pensava nu com uma gelada camada de vapores.
em como magoá-lo tanto como em como conquista-lo. Ataquei-a pelas costas, buscando quebrar seu
Queria devolver o veneno que ele mesmo tinha colocado pescoço. Desequilibrada mas ainda consciente ela gritou,
em sua corrente sanguínea. O amor não correspondido. um grito mudo que ficou guardado em sua garganta que
Os olhares não retribuídos. Os beijos imaginados e não iria estraçalhar. Em seus lábios vi claramente se formar um
trocados. O desejo não saciado. nome que não ouvia há muito tempo. O meu nome.
Não pensava em mais nada. Não queria mais Sim, eu a reconheci e ela me reconheceu. Minha
nada. Só aquele coração. E ia vivendo assim. Imaginando, mãe humana estava ali, esperando por mim como um
desejando, querendo e procurando formas de conseguir. prato de velhas recordações.
Poder dizer que era seu. Sabia que não iria se vingar. Apenas Sem esperar mais, mordi e rasguei seu corpo até
sentir, amar e ser feliz. Até o dia em que encontrasse uma o momento em que ouvi a última batida de seu fraco
nova obsessão. coração. Ela não deveria ter usado meu antigo nome, pois
hoje me chamo Lobo.
Lobo(*) Me alimento de pobres humanos desaviasados
que insistem em passar em meu caminho. Mas posso me
David Nobrega chamar Misericórdia, mamãe, e assim livro inúteis como a
senhora dessa vida inútil.
Comi tudo mamãe. Não sobrou nada. Só não
Por mais habituados ao escuro que estejam meus consegui comer seus olhos, que insitem em me fitar,
olhos, este beco imundo me oprime em sua total ausência mudos.
de luz. *Do livro “Uns & Outros” - 2009
Estou aqui escondido, aguardando por quem sabe
Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 18

Catarse, corpo, ritual e cerimônia na arte contemporânea



Dr. Eduardo Cardoso Braga

dessa interpretação de caráter mais objetivista. Para


É pois a tragédia imitação de uma ação de ele, o processo catártico acontece fisicamente na
caráter elevado, completa e de certa extensão, cena e não na psique dos espectadores. A catarse é
em linguagem ornamentada e com as várias exibida e não somente experimentada, ou melhor, o
espécies de ornamentos distribuídas pelas fato de experimentá-la subjetivamente é somente uma
diversas partes [do drama], [imitação se conseqüência do fato de tê-la exibido claramente na
efetua] não por narrativa, mas mediante atores, cena. Assim, a catarse acontece na cena, o que implica
e que, suscitando o terror e a piedade, tem por uma concepção arquitetônica da tragédia que termina
efeito a purificação [catarse] dessas emoções. por assumir uma unidade própria, independente da
(Aristóteles, Poética, 1449b21-29) resposta emotiva do espectador. A essência da tragédia
consiste, precisamente, no fato de conter sua própria
Quando Aristóteles escreveu o texto acima resolução.
em sua Poética, criou uma enorme fortuna crítica Assim, a exibição da catarse na cena, possibilita
com interpretações polêmicas e influências diversas ao espectador atingir um estado interno “alterado”,
nas práticas artísticas de todos os tempos. Mesmo o qual mostraria nossa própria natureza e condição
contemporaneamente, podemos nos deparar nos humana. Assim como um relâmpago ilumina uma
discursos dos teóricos e dos artistas com o conceito de paisagem, as emoções mostrariam a nós mesmos
catarse (purificação) interpretado de uma forma ou de nossa própria natureza.
outro a partir de Aristóteles. A concepção e prática da catarse são
Um dos problemas conceituais que Aristóteles exemplificadas de forma clara e dramática pelos
encontra no tratamento da tragédia é a natureza trabalhos de Body-Art e Performance de finais da
quimérica do “prazer estético”. Isto porque, a tragédia década de 60 e inícios dos anos 70. Só como exemplo,
realiza-se por meio de cenas de homicídios, infanticídios, poderíamos cita alguns artistas praticantes dessa
incestos, traições, sacrifícios humanos e toda espécie tendência: Hélio Oiticica, Lígia Clark, Gina Pane, Jaume
de violência. Apesar disso, a platéia está formada por Xifra, Michel Journiac, Hermann Nitsch, Otto Muehl,
um público numeroso, atento, que sente um “prazer Gunter Brus e Rudolf Schwarzkogler.
estético” diante desse espetáculo sanguinário. Sem São tendências inseridas na tradição das
dúvida, estamos diante de uma situação ambígua. poéticas visuais cuja centralidade de objeto se
Segundo Aristóteles, a razão deste extraordinário fato encontra na corporeidade do próprio artista. Este
consiste na instauração de um processo psicológico toma o seu corpo como objeto central de sua reflexão,
no espectador, que finalmente é conduzido, por meio fazendo-a integrar-se ao conjunto do que se chama
de uma série de horrores, a um estado de purificação, hoje incorporação (embodiment). Para materializar
precisamente uma catarse, que elimina as sombras da a catarse na cena, o trabalho deveria tornar-se um
angústia e ilumina a consciência com uma nova e pura acontecimento, algo com um valor-em-si, longe das
luz. manipulações instrumentais da mercadoria. Deveria
Porém, a passagem na qual Aristóteles formula se afastar do teatro clássico, já totalmente codificado
o conceito de catarse, exemplificada em nossa e instrumentalizado em diversão para as massas, em
epígrafe, possui na verdade enormes ambigüidades, indústria cultural.
sendo, segundo os eruditos, de difícil tradução e O acontecimento, que materializa a catarse,
gerando, devido a este fato, várias e controvertidas é uma tentativa de atingir, por meio do corpo, certos
interpretações. Por exemplo, um tipo de interpretação ritmos temporais e vivê-los como uma experiência
focou o centro da catarse na mente do espectador, primeira, originária. Daí a presença do ritual como
gerando uma estética de base subjetivista, cuja meta suporte possível desse contato com o fluxo e o caos,
é o estudo da recepção da arte. Outro tipo abordou com o tempo “esquecido”. O ritual caracteriza a
a catarse como algo que acontece na cena e, por estrutura de linguagem de vários desses trabalhos
isso, atinge o espectador. O foco aqui é na obra e sua contemporâneos. Ele fala da luta de construir o futuro
construção ou sua poética. Goethe é a principal origem por meio de um mergulho no passado, o qual se torna
Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 19

a esperança de uma libertação das máculas do presente. morte de um estado presente, posto em questão, e
Somente o mergulho na memória, atualizada no corpo o nascimento de um estado conseqüente sugerido.
e o contato com o fluxo caótico possibilitaria regenerar Enfim, a presença de uma catarse na própria estrutura
a existência, salvando o homem da presença maciça da obra, entendida como acontecimento, possibilita
do clichê e do automatismo motor e psíquico. Essa uma purificação emocional no fruidor desse trabalho.
reatualização mítica do passado, do ato cosmogônico Assim, Catarse, corpo, ritual e cerimônia se unem
é a característica comum de muitos artistas dessa na criação de uma obra crítica e transformadora
tendência. Seus trabalhos pertencem a diferentes que ilumina a consciência e desvela a realidade da
correntes da arte atual, mas todos apontam para condição humana, purificando-a por meio de uma nova
uma nova atitude corporal diante da temporalidade, consciência crítica, alteradora dos comportamentos e
implicando o surgimento de um homo novus. Se as valores.
atitudes referentes à temporalidade são semelhantes,
a elaboração de seus vocabulários e os aspectos da
realidade, que eles manipulam, diferem sensivelmente. Referências:
A cerimônia, por outro lado, manifesta-se igualmente
no trabalho de vários desses artistas, visando, pelo Sites:
caráter solene que comporta, a produzir uma afecção Gina Pane no Facebook & Hermann Nitsch
de natureza perceptiva e corporal. O corpo é o
mediador que regula e acentua o valor dos dispositivos, Livros:
para tornar a intenção da experiência desses rituais Aristóteles:: Poética.
mais perceptíveis. Pela cerimônia, a função dos Tradução Eudoro de Souza. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
símbolos, objetos, gestos e atividades corporais, nos Braga, Eduardo C.:: “A mímese e o outro lado da tela do computador”.
faz pressentir mais ainda a intenção subversiva dos In: Revista Art&, número 4, Outubro de 2005.
artistas, em relação à ordem estabelecida e aos clichês, Else, Gerald F.:: Aristotle’s Poetics: The Argument.
os quais não pertencem à ordem do ritual. Sendo Cambridge, MA: Harvard University Press, 1968.
anti-establishment crítico, esses trabalhos assumem
o papel iniciático de preparar as consciências para a
Edurado C. Braga possui graduação em Educação Artística, graduação em Filosofia, mestrado em Filosofia
pela Universidade de São Paulo. Doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Professor do Centro
Universitário SENAC. É natural da Vila Madalena, São Paulo, Brazil
E:mail: duar.braga@gmail.com

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Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 20

O Esquecimento Proposital
por Letícia Losekann Coelho*

Vi esses dias uma deletam da sua mente toda contas, andar sempre nos
ex-usuária de maconha a merda que fizeram, como trilhos é para poucos e admiro
criticar um fumante de se atualizassem uma página uma pessoa incrível assim.
tabaco de forma xiita. Na com texto novo no blog, Incrível no sentido fantástico e
hora pensei em elucidar a fazendo parecer tão simples fodástico da palavra!
pessoa, dizendo: “Oi, você como deletar uma poesia Vejo muito pouco um
tem um passado, lembra?”, ridícula do bloco de notas do alguém qualquer fazer uma
mas fiquei fria -- gelada computador. autocritica com sucesso. Na
para falar a verdade. Cada É aquela lógica, maioria dos casos a autocritica
um mostra para o mundo o que faz do “vizinho” estar vira uma mania que todos em
que é oportuno; o que nos redondamente enganado. volta devem suportar. Logo,
desabona, escondemos. O “vizinho” é um estúpido o tabaco do cidadão ao lado
Sabe, essa coisa de que tira o lixo um dia antes vai sempre incomodar um ex-
estar quase nos trinta me do lixeiro passar. O “vizinho” fumante de maconha. Ele vai
pega às vezes. Vejo várias também está errado por reclamar, discursar seguindo
pessoas de 30 e poucos ou brigar com a esposa aos a máxima política, onde
muitos, “garganteando” berros e me fazer roubar a gritando primeiro as merdas
exemplos furados e sim, briga e escrever um conto. O dos outros faz com que as
esquecendo de seu próprio “vizinho” é burro por gastar nossas pareçam menores.
passado. Claro, o importante dinheiro comprando pinga no “Uma coisa é uma
é se perdoar -- foda - se bar da esquina .O “vizinho” coisa e outra coisa é outra
a opinião alheia --, afinal também é um sem coração coisa?” Não, isso vai depender
de contas os erros surgem que some e não dá notícias. O da nossa disposição em
justamente para que possa seu “vizinho” é tão errado que olhar para dentro e fazer
existir o arrependimento, um o desafio a se colocar como a autocritica funcionar ou
aprendizado. O normal é fugir exemplo de vida e de conduta. continuar condenando o
do que nos prejudica e mudar. Esses que criticam tanto tabaco do
Sim, mudar para melhor! seus “vizinhos” deveriam “vizinho”,
Agora o que incomoda são mostrar ao mundo sua fugaz esse sim um
os que se colocam como diferença, sua história de horror!
exemplo e simplesmente sucesso pessoal. Afinal de

(*) Letícia Losekann Coelho é pedagoga, escritora e editora da Novitas


Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 21

Marcelo Soriano (@EuHoje e @euFRASE)

@euFRASE Tem homens que, de tão públicos, acabam se


transformando em banheiro.

@EuHoje Ela saiu sem se despedir. Não. Pior. Ela saiu sem se
despir.

@euFRASE Pai! Fazei de mim termo inteiro ou termo nenhum.


Meio termo é mortificação.

@EuHoje POESIA NÃO É TEXTO, É TRANSFUSÃO.

@euFRASE Para o mau-humor, bom-humor é terrorismo.

@EuHoje Ter certeza não deixa de ser uma forma de dissimular inseguranças.

@euFRASE A minha raiva de amor é datilográfica.

(M)ínimo (D)iálogo (C)omum


Denison Mendes (@Denisonmendes) & Giuliana (@jakutingas)

Ele: Cada qual com sua nômade nuvem...

Ela: Sua solidão na imensidão.

Ele: Cada qual com seus teoremas absurdos de teores mínimos...

Ela: Teoremas infinitos, sem solução, sem equação.

Ele: Se pedes que eu seja um outro, diverso do que sou, é porque não me amas.

Ela: Se pensa que não te amo é porque não sabe quem sou.

Ele: Saberias, se me revelasse teus mais secretos olhares sobre mim.

Ela: Meus olhares mais secretos não mais pertencem a mim, são teus desde o primeiro momento
que te vi.

Ele: Falemos então a mesma língua, dá-me tua boca.

Ela: É sua, toda sua, como meus dedos, que a despeito do medo, desejam te tocar.

Ele: Não temas, depois do toque te traduzirei em braile.

Ela: Não temo, peço, decifre meus códigos, leia o calor da minha pele.

Ele: Eu me rendo, prendendo-me a ti.


Revista Cultural Nº 6 — Julho de 2010 — 22

Versando Arte em CORES por Suzana Martins


Tintas, pincéis, telas, músicas, poesias, azulejos... A Seja em qualquer região do país, entre
arte e suas formas, todas as formas! maranhenses e baianos, onde os extremos do
As nossas expressões culturais descrevem Nordeste se dissipam, encontrando-se com São
momentos, sentimentos e histórias que foram e são Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiânia,
registrados ao longo da vida entre as linhas da arte e ou seja, com todo o território nacional e vai
da literatura. Cada um de nós possuímos uma cultura percorrendo além dos oceanos. Pois lusos estão presentes
diferenciada, mas quando expressamos em telas ou letras também no portal Arte e Cultura, tanto nas artes plásticas
as nossas emoções, extraímos de nós a arte da criatividade. de Ricardo Campos como na poesia de César Gonçalves. É
Ser criativo é desprender-se sem medo de qualquer rótulo a troca cultural entre os povos. Um pouco do mundo de lá
impresso ou questionado. É deixar a arte livre e expressar-se que mescla com o mundo de cá, falando de poesias, músicas


em emoções e sentimentos. É pintar um quadro em letras e palavras...
que traduz cores ou um verso colorido que brinca entre as
tintas de Renoir ou Tarsila do Amaral. Ou seja, a criatividade “Escrever, para mim, é rasgar plenamente o avesso
artística está em deixar a arte livre, e essa liberdade carrega da vida. Depois a gente pode até costurá-lo. E, mesmo que o


em si traços culturais daquele que versa ou pinta. sangue se esvaia, ainda podemos encontrar a cura!”


(Rita Schultz – Corpo Cindido)
“A arte não se negocia, é autêntica e tem estilo
próprio, mas sempre temos um referencial de alguém na “Poesia, é uma arte em palavras / Bem regadas de
estrada da vida. Nessa vida, aprendi que quase nada se emoção / No meu peito jamais serão caladas / São essência
cria; se copia, porém cada um tem o seu estilo pessoal e de alma e coração!”
intransferível.” (Cesar Gonçalves – Gritos da Alma)
(Sandra Cajado – Coluna: Arte Sem Rodeios)
Deixe escorrer os versos em forma de arte e vamos

Nessa edição iremos expor um pouco dessa brincar de sonhos, fantasiando sorrisos e expandido culturas
diversidade artística trazendo a cultura versada de alguns em suas mais variadas formas. Pois assim enriquecemos
poetas e artistas do portal SC Arte e Cultura. É a tal mistura e transformamos nosso mundo, nosso eu com essa arte
cultural que brinca em artes quando várias culturas se sensacional, apaixonante, encantadora, que é a união
encontram e tentam falar do mesmo assunto, porém com cultural. Apaixonante também é a nossa intergaláctica


olhares diferentes. Rádio Sandra Cajado Arte e Cultura que sempre apresenta
programas da série Curtindo o Som sobre o comando do DJ
“Rir, chorar. Arte, o que é arte para você? A arte Mynno, trazendo a arte do sorriso e da diversão, pois a arte
desperta inúmeros sentimentos, ah – a arte! Pra mim a arte está para divertir e celebrar mundos.
é respiração! É ar, é desejo, é segredo, é medo vencido, é Enfim, aqui, ali, acolá, não importa onde, todos nós
brilho. Brilho? Quem brilha mais? Quem são os artistas? apreciamos arte seja ela como for. É cultural conhecer novos
Aonde é o palco? Quem tira as máscaras e tem coragem de mundos e apreciar novas canções, pois quando passamos a
se mostrar de alma nua, não se importando se vão gostar? olhar em outras direções descobrimos que as pessoas vivem
Quem sobe lá no palco da vida e sem medida resolve amar?” e pensam diferentes, porém a arte nos une. Cada cultura,
(Si Meneguinni – Coluna: Pelo Olhar Profundo da Vida) sua voz, cada arte traz um pouco de nós!
Até a próxima!
São essas culturas ai que se chocam, porém se
mesclam tornando-as homogêneas e logo assim externando
a brasilidade autêntica no sangue e na veia, na veia poética


desses artistas e daqueles que leem.

“É essa a essência – sentir-se especial! Porque a arte


nos dá esse poder de nos sentir únicos, sublimes!”
(Carmen Eugênio – Celebração das Cores)