Um internacionalismo do século XXI, contra o capitalismo e o nacionalismo (3

)

Uma vez que o capitalismo vem dispensando as nações, é tempo de
dispensar o capitalismo, de construir redes rizomáticas globais, com
alicerces locais, assentes no conhecimento mútuo e em práticas
democráticas de decisão. Tempo de praticar a escalada que começa na
indignação, passa pelo protesto, pela mobilização, pela organização, pela
desobediência até se chegar à revolta.

Sumário

1 - Uma (des)ordem económica e política
2 - A globalização é um processo
2.1 - Como o capitalismo vem cavalgando a globalização
2.2 - A instituição de um estado de excepção generalizado
3 - Os grandes promotores do desastre
3.1 - As ameaças vindas das classes políticas
4 – A leitura do contexto.
4.1 - As alternativas possíveis e as desejáveis
4.2 – O desenvolvimento do espirito do fascismo
4.3 – Um novo internacionalismo, precisa-se!

(primeira parte deste texto aqui e a segunda, aqui)

4 – Leitura do contexto

4.1 - As alternativas possíveis e as desejáveis

A contestação social, dos trabalhadores e da multidão em geral, acompanhou o
desenvolvimento do capitalismo desde o seu alvor.

Em meados do século XIX, na Grã-Bretanha, a instalação do sistema de fábrica animou
os industriais a querer sobreviver com a desqualificação do trabalho, com reduções
salariais, utilizando de modo massivo, mulheres e crianças. O movimento cartista
conduziu à substituição no aparelho de estado, dos aristocratas pelos capitalistas

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industriais, ao fim das leis protecionistas que encareciam os cereais para benefício dos
donos de terras com prejuízo para a maioria da população, sobretudo dos
trabalhadores; e conduziu ainda à proteção e regulamentação do trabalho infantil e
feminino, à instauração das dez horas de trabalho e à criação de associações políticas.

Centrada na década de 1870, a crise financeira e a grande depressão de 1873/86 é
acompanhada com a criação de cartéis e monopólios, divisão de mercados,
protecionismo e controlo dos preços, desencadeando-se ainda um verdadeiro assalto
às regiões do mundo ainda não colonizadas. O forte desenvolvimento da automação
provoca um ataque aos salários dos operários especializados da indústria, enquanto
uma grande massa de camponeses empobrecidos e imigrantes surgia nas cidades.
Neste contexto, geraram-se as primeiras grandes movimentações de trabalhadores, a
multiplicação de sindicatos e greves, (na Grã-Bretanha, em 1867/75 aceita-se a
existência de sindicatos e o direito à greve) e surgiu a Comuna de Paris.

Acontece ainda a criação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), que
acentuando o caráter federal e a solidariedade entre os trabalhadores, viria a
distinguir-se pela demarcação total face aos sistemas políticos, pelo repúdio do Estado
e da autoridade.

Depois da I Guerra, as dificuldades do capitalismo impuseram-se e reduziu-se a
interação com o movimento sindical nas suas adaptações; essas dificuldades
apontaram mais para um aumento do papel do Estado em geral - na URSS1 e na
Alemanha em particular - incorporando os sindicatos nas derivas nacionalistas e
fascistas (Alemanha2, Itália3, Portugal4). O abandono do padrão-ouro contribui para os

1
Mesmo sem atribuir dignidade ao patronato e à iniciativa privada, na URSS, o modelo corporativo de
subordinação dos trabalhadores aos interesses do Estado (o grande patrão, de facto) já havia sido
aplicado, antes da sua formalização na Itália fascista. Na realidade se o “socialismo” correspondia ao
controlo estatal da economia, os trabalhadores e todos os cidadãos deveriam funcionar como
contratados pelo Estado, não sendo concebíveis conflitos entre esse sui generis patrão e os
trabalhadores ou a população em geral.
2
Em maio de 1933, Hitler, já chanceler, apropria-se dos fundos sindicais e cria o DAF – Deutsche
Arbeitsfront, no qual todos os trabalhadores eram obrigados a pertencer e que fornecia apoios
significativos no lazer, no desporto, na cultura, na educação, no sentido de gerar uma unidade entre os
alemães baseada na raça, na luta e no… führer ( a Volksgemeinschaft).
3
Em 1925/26 surge a organização sindical fascista baseada na colaboração de classes e dirigida por
fascistas, sob controlo estatal, sendo proibidas as greves e qualquer agitação social,. A Carta del Lavoro
surgiu em 1927 para regular as relações entre Estado, patronato e trabalhadores, num modelo que se
veio chamar de corporativismo.
4
Em Portugal, o Estatuto do Trabalho Nacional publicado em 1933 é uma cópia muito fiel da Carta del
Lavoro italiana havendo também réplicas da mesma no Brasil de Getúlio Vargas e na Turquia de Ataturk.
Em Portugal a sua publicação implicou a ilegalização dos sindicatos existentes, cujo esmagamento tem
como símbolo de resistência, a revolta dos trabalhadores na Marinha Grande, em 18 janeiro de 1934,
entre outros lugares.
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encerramentos nacionalistas, as ditaduras fascistas e promoveu a construção de
infraestruturas para redução do desemprego nos EUA (New Deal) ou na Alemanha, no
âmbito do que se viria a chamar as políticas keynesianas. A repressão salarial mostra
não ser suficiente para gerar novo ciclo ascendente, apesar das divisões entre os
trabalhadores e do recurso ao trabalho forçado na URSS, na Alemanha hitleriana5 e nas
colónias europeias de África. Na verdade, é a preparação para a guerra com a
produção massiva de armamento, que permite um alívio na conjuntura depressiva.

As esperanças do internacionalismo ficaram circunscritas ao apoio militante à
República espanhola enquanto as “democracias” ocidentais olhavam para o lado,
alheando-se da intervenção nazi e fascista em Espanha, que ficou dependente do
apoio soviético. Os campos de concentração, a emigração de militantes, a extensiva
repressão, anunciavam a catástrofe iniciada em 1939.

A seguir à II Guerra, a violência das destruições de equipamentos e vidas durante o
conflito exigiu a grande mobilização de trabalhadores para a reconstrução, criando-se
nos países desenvolvidos, como contrapartida, o estado-providência (garantias face a
desemprego, férias pagas, acesso a sistemas universais de saúde, educação
massificada), como forma de pacificação social, visando o abandono de lógicas
anticapitalistas, aceitando-se reivindicações económicas, normalmente defensivas e
conservadoras, no âmbito da ligação dos sindicatos a partidos políticos.

Os EUA, através do plano Marshall, financiaram as suas exportações para a Europa,
procurando manter os níveis de crescimento após a redução do esforço de guerra;
como procuraram com esses financiamentos coartar as hipóteses de reprodução do
modelo soviético, então com muitas simpatias, dado o contributo da URSS para a
derrota nazi.

Neste contexto de potencial concórdia e concertação social, no chamado mundo
ocidental, a realidade foi entendida como imutável, com altas taxas de crescimento,
ancoradas em aparelhos de estado seguidoras de políticas keynesianas, de produção
de infraestruturas e gastos sociais.

A fragilidade política e económica das velhas potências coloniais promoveu a
descolonização e o desmembramento dos impérios coloniais, com o surgimento de
numerosos países “não alinhados”, fora dos sistemas de alianças que aglutinavam os
ocidentais (NATO) e os países de regime soviético (Pacto de Varsóvia); e entre os quais
figuravam países de enorme população (China, Índia ou Indonésia) e figuras de relevo,
como Chu-en-Lai, Nehru, Nasser ou Tito.

5
Na Alemanha, para além de 15 campos de concentração principais havia mais 400 e os gastarbeiter
(imigrantes) - cerca de 9 milhões em 1942 - acabaram por ser trabalhadores forçados, tal como os
prisioneiros de guerra. Em Portugal, felizmente, o ruralismo saloio de Salazar evitou aos presos políticos
o trabalho forçado.

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A reabertura do comércio internacional, a regularização do mercado monetário
(Bretton Woods), o impacto da reconstrução do pós-guerra, com um grande
crescimento dos rendimentos do trabalho, permitiu o auge do keynesianismo, o
período dos “trinta gloriosos anos”, findos em 1973.

A primeira experiência neoliberal aconteceu no Chile, com Pinochet ao volante,
parecendo uma ditadura militar, típica do Terceiro Mundo e da América Latina em
particular. Mas não era. Pinochet não era um general latino-americano tradicional,
cabeça de um grupo de oligarcas agrupados como uma pequena minoria de ricos,
tendo do outro lado, enormes massas de pobres e classes médias muito reduzidas. O
Chile em 1973 era uma sociedade com uma já longa tradição de democracia de
mercado, com eleições e partidos, incluindo um PC e partidos de extrema-esquerda,
como acontecia na Europa. Pinochet era o executante da aplicação de uma nova forma
de capitalismo, o neoliberal, com o empenhado aconselhamento dos Chicago Boys e
do seu chefe de fila, Milton Friedman6; este, que pelo seu desempenho recebeu o
“nobel da economia”, em 1976. O neoliberalismo estreou-se através de uma ditadura
fascista.

É a partir de Thatcher e Reagan, no início da década de 80 que o modelo neoliberal
tomou o poder, se consolidou, espalhando-se como mancha de óleo, quebrando a
relativa concertação entre o patronato e os trabalhadores – o chamado pacto social-
democrata – através da total intolerância para com as reivindicações dos mineiros
britânicos e dos controladores aéreos norte-americanos.

Os instrumentos do neoliberalismo podem resumir-se assim:

 O caráter antissocial do neoliberalismo conduz à domesticação das organizações de
trabalhadores, já muito marcadas pela burocracia, pela rotina reivindicativa e sem
perspetivas políticas; essa domesticação visa o embaratecimento dos custos do
trabalho e a adequada atomização dos trabalhadores que os torne como manejável
custo empresarial, essencial no âmbito de uma concorrência globalizada;

 A segmentação da produção, a distribuição da produção dos seus componentes por
vários pontos do planeta (deslocalização), tem como principal objetivo a
minimização dos custos do trabalho; dentro desta lógica, sobressaem as
dificuldades dos trabalhadores em se concertarem, uma vez dispersos pelo planeta
e como produtores de componentes que, isolados não colocam em causa a
continuidade do processo produtivo;

6
Friedman foi dos primeiros neoliberais a ser premiado com o “nobel”; não porque introduzem
aprofundamentos teóricos de compreensão da realidade mas porque contribuem para o apuro da lógica
neoliberal ou apresentam meras técnicas que interessam aos “mercados”, mormente financeiros; e que
muitas vezes se revelam como perfeitas falsidades. Sobre este tema, veja-se:
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/10/economia-capitalismo-e-revolta-1.html
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/03/neoliberalismo-e-keynesianismo-dois.html
https://rwer.wordpress.com/2016/10/02/the-nobel-factor-the-prize-in-economics-that-spearheaded-the-neoliberal-revolution/

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 Por outro lado, promove-se a desregulamentação dos movimentos de capital, o
primado do capital financeiro, protagonizado pelos grandes fundos de pensões,
pouco interessados na tradicional existência de grupos económicos com ligações
consolidadas a instituições financeiras (herdadas do último quartel do século XIX) e,
bastante mais, em atividades especulativas, downsizings, segmentação de ativos,
com simples perspetivas de rendabilidade a curto prazo.

 Daqui resulta uma internacionalização do capital, coexistindo, colaborando ou
competindo, dentro da cada fronteira, empresas e capitais de origem nacional com
capitais das mais variadas origens, perdendo-se, sobretudo nos pequenos ou
médios países, a relevância organizativa das burguesias autóctones, tornando-se as
fronteiras, simples pontos de passagem, irrelevantes, para as redes globais de
capitais, de mercadorias e trabalhadores;

 O neoliberalismo investe também na universidade, inserindo fórmulas de mercado
no seu funcionamento, favorecendo as áreas mais ligadas aos negócios, incutindo a
ideia do empreendedorismo e da concorrência, como elementos de vulgarização da
autoridade (praticada pelos emplumados catedráticos), da precariedade, da
tecnocracia e da anomia política; sem que se prescinda, contudo, da mobilização de
fundos públicos, onde os níveis gerais de riqueza não permitam propinas de valor
astronómico;

 Os grandes setores públicos tradicionais, nas áreas da saúde, da educação, dos
transportes, da energia, são privatizados ou constituídos como elementos de
canalização de fundos públicos para a viabilização de grupos privadas. Como as
taxas de lucro, numa lógica de mercado são baixas, o Estado institui crescentes
impostos sobre o trabalho e o consumo, para as elevar;

 Finalmente, refiram-se os enormes impactos ambientais desta gestão da produção
global, dominada pelas multinacionais; negados pelos mais fundamentalistas
neoliberais que, no âmbito das ciências só conhecem o mercado.

O neoliberalismo foi sendo adoptado gradualmente pelas duas alas dos partidos-
estado. Os primeiros foram os partidos ditos conservadores e liberais, seguidores de
Thatcher e Reagan; depois, por duvidosos sociais-democratas ou socialistas como Blair,
Schroeder ou os sucessivos chefes do PS português, depois de descobrirem o lado de
onde sopra o dinheiro. Essa adesão foi particularmente notória, radical e mesmo
divertida se se observar o fervor da reconversão dos apparatchiks do Leste em
dedicados neoliberais.

A implosão da URSS deu um grande impulso ao domínio do neoliberalismo. Esse facto
foi apresentado, durante algum tempo, como produto das vantagens do capitalismo
neoliberal sobre o capitalismo de estado. O entusiasmo foi grande, defendendo-se a
chegada ao fim da História, com a vitória do neoliberalismo e da democracia de
mercado; a chegada do modelo perfeito, entretanto desembocou na crise financeira de

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2008 e anos seguintes, que apresenta taxas de crescimento anémicas e guerras em
várias frentes, calamidades climáticas, milhões de deslocados e refugiados e… Trump.

Por outro lado, o impacto da atuação das multinacionais, do sistema financeiro
conluiados com oligarcas do finado modelo soviético, consistiu na privatização e saque
dos setores públicos naqueles países do Leste, lançando uma ideia de modernidade
que disfarçava mal as quedas de nível de vida, a precariedade e o desemprego. Em
Portugal, sucedeu um processo semelhante ao aplicado sobre os despojos da URSS, se
bem que o saque dos bens públicos se tivesse iniciado com Cavaco como primeiro-
ministro, não tivesse estancado durante os governos PS, tendo pelo contrário,
acelerado com Passos, o mainato da troika.

Na realidade, o modelo neoliberal gerado no Ocidente, abriu uma nova fronteira de
desenvolvimento, alargou e densificou o chamado mercado global. No leste da Europa,
gerou-se uma nova periferia que veio a concorrer com a única periferia europeia então
existente - a periferia Sul - no seio de uma UE substancialmente alargada. E a Rússia
voltou, depois do consulado de Ieltsin, a restabelecer com Putin, um regime autoritário,
nacionalista, com uma coroa de estados em seu redor – os que não foram integrados
na UE e na NATO – construindo com muitos desses, com a China e outras potências
asiáticas a Organização para a Cooperação de Xangai, de onde está a surgir o
adversário geopolítico do Ocidente.

Porém, a deslocalização das indústrias e depois, de muitos dos serviços, assim como a
precarização e a quebra dos salários reais - mesmo que em paralelo com aumentos de
produtividade trazidos por novas tecnologias - não alicerçam, naturalmente, o
conveniente crescimento económico e o consumo de massas. O crescimento de que o
capitalismo se nutre fica cativo, por um lado, das cascatas de dívida, pública ou
privada, como formas expeditas de valorização do capital-dinheiro; e, por outro, da
produção material que se concentra na China e nos “tigres asiáticos”, com capacidades
tecnológicas, financeiras e de competências laborais próprias, a que se devem juntar a
Alemanha e o Japão, como grandes potências exportadoras.

Há uns vinte anos o comércio na bacia do Pacífico superou as transações no Atlântico
no que foi um primeiro marco na perda da hegemonia ocidental. Hoje, com a evidente
decadência política e económica dos EUA e da Europa, num contexto de fraca dinâmica
global, continua a Ásia a mostrar-se mais dinâmica. O mapa (mais acima) sobre as
posições da China e dos EUA no campo das exportações mostra bem a dinâmica
chinesa em regiões como a África e o Leste europeu ou mesmo, da América Latina.

A despeito da crise financeira que rebentou em 2008, reveladora dos limites intrínsecos
do capitalismo de hoje, não se observam, nas últimas décadas, movimentos relevantes
e continuados de trabalhadores e da multidão em geral, com uma perspetiva
antissistémica. A segmentação da produção e a precariedade desligaram os
trabalhadores uns dos outros e dos seus camaradas já reformados e não se
constituíram redes de apoio aos desempregados; estes, relegados à condição de
números estatísticos e às humilhações vindas dos IEFP’s nacionais. Os sindicatos são

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burocracias fechadas e alheias às alterações no âmbito da prestação de trabalho. Por
seu turno, as redes sociais criam enormes matrizes de contactos mas, são impessoais e
só raramente conduzem a movimentos efetivos, como aconteceu no caso do 15 M
espanhol; que parcialmente foi adulterado com o surgimento do institucionalista
Podemos e da sua estrela, o iluminado Iglésias.

As sequelas das falências e burlas bancárias, as recapitalizações de bancos à custa do
erário público, a dívida que compromete várias gerações, o rearmamento, o caráter
invasivo de leis restritivas dos movimentos e da privacidade, a espionagem global das
nossas vidas, tudo isso sucede, sem polarizar em seu torno a animosidade adequada à
gravidade da situação. As dificuldades marcadas por perdas de poder de compra, pelo
desemprego, pela precariedade de vida, de guerras e terrorismo, são demasiadas vezes
transfiguradas como resultantes da presença de imigrantes, de refugiados, da
coexistência com grupos étnicos ou religiosos distintos, tomados como ameaçadores,
desrespeitadores da identidade grupal, comunitária ou nacional. Desta cultura
dominante na Europa resulta a relativa estabilidade e aceitação do sistema capitalista e
das suas instituições políticas, com repetidas promessas de crescimento e mais
emprego a que se sucedem, por rotina, parcos resultados.

Desse enquadramento resultou o referendo favorável ao Brexit, contra as posições dos
tories, próximos da City ou do Labour, protagonizada por gente assustada perante a
constante chegada de novos imigrantes ou com o receio de esvaziamento dos fundos
públicos de pensões. A incerteza quanto ao futuro, a descrença face aos burocratas
europeus, demagogos, ineptos e autoritários, desenvolveu uma pulsão xenófoba
encabeçada por Nigel Farage e Boris Johnson. A concretizar-se e em moldes que se
mantêm muito nebulosos, não parece que a Grã-Bretanha, no seio de um novo
enquadramento, receba facilidades da UE-27, que quererá aproveitar o ensejo para
avisar quaisquer novos candidatos à utilização do artº 50º.

Também nos EUA, a desvalorização interna e a entrada de imigrantes alimenta as
posições de ultra-direita, nacionalistas, xenófobas e economicamente delirantes pouco
inclinada a apoiar o duopólio político entre democratas e republicanos; mas a aceitar
um outsider Trump, que se impôs ao aparelho republicano e derrotou o establishment
democrata, prometendo um (pouco provável) retorno da indústria, entretanto
deslocalizada, às cidades norte-americanas, com o ressurgimento de empregos
estáveis e bem pagos. O mesmo vem sucedendo com Orban na Hungria que colocou
barreiras na fronteira com a Sérvia e promulgou legislação genocida contra os sem-
abrigo ou os ciganos. Na Europa Ocidental o nacionalismo e o fascismo (as classes
políticas e os media preferem usar a branda designação de “populistas”) recolhe os
seus apoios nas cinturas das grandes cidades, preenchidas por desempregados,
trabalhadores pobres e precários, pensionistas em dificuldades, que encontram em
imigrantes ou nos seus descendentes, igualmente desprezados, catalisadores dos seus
medos e dificuldades. Por seu turno, a continuidade de Rajoy deve-se ao apoio dos
assustados com o desmembramento de uma Espanha imperial e descrentes de que o
PSOE seja eficaz nesse desiderato, se voltar a ser o vértice do regime.

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Na Europa, cada atentado cometido ou cada refugiado que chega, não são factos
encarados como essencialmente resultantes das intervenções militares ocidentais, em
África ou no Médio Oriente; aqui, na continuidade da desestruturação e da partilha
desenhada por Sykes e Picot, há quase cem anos. Na Líbia, as destruições promovidas
pelo nobel da paz Barack Obama visaram a libertação ds líbios e não a apropriação dos
seus recursos energéticos, como é… óbvio para quem acredite no pai natal.

Os povos daquelas regiões, em grande maioria muçulmanos, são apresentados como
portadores de uma violência própria, endémica, crescendo o medo e a irracionalidade
em quantos compram a ideia idiota de que aqueles se tornarão maioria na Europa.
Curiosamente, há duas décadas, no contexto da campanha de desmembramento da
Jugoslávia e de diabolização dos sérvios, os bons do filme, os protegidos do Ocidente,
na Bósnia7, eram… os muçulmanos. Quem também beneficia disto é a entidade
israelita, genocida e racista, visceralmente anti-árabe, que assiste deliciada às lutas e
destruições no Médio Oriente, intervindo discretamente nas mesmas, para manter o
fogo vivo; e agora confortada pelo demente Trump.

Em todas essas derivas nacionalistas parece ficar esquecido que não há memória de
tratamento preferencial e amigável dos trabalhadores e do povo às mãos das
burguesias nacionais acantonadas atrás das suas fronteiras. Os fascismos ocidentais
como o capitalismo de estado soviético souberam arregimentar os sindicatos
nacionais, anular os que mantinham uma perspetiva de classe, independente ou
adversa ao poder, com o auxílio das polícias políticas. Os trabalhadores isolados e
desorganizados, fechados dentro das fronteiras, submetidos às necessidades dos seus
capitalistas não podem esperar nada de bom.

Por exemplo, no Portugal salazarista, nem sequer aos trabalhadores era concedido o
direito de emigrar, tinham de o fazer a “salto” pagando a passadores e não isentos de
riscos até cruzarem dos Pirinéus; o seu dever era o de servir os toscos capitalistas
nacionais. Recentemente, pelo contrário, o famoso Passos – implicitamente
reconhecendo a tosquice do empresariato luso, aconselhou os portugueses a emigrar
para ganharem empreendedorismo fora, regressando depois para desenvolverem a
madrasta Pátria; para quem trabalha em hospitais ingleses ou na construção civil na
Suiça, o desejo de empreendedorismo claramente se… sobrepõe ao da sobrevivência.

No atrasado capitalismo português de Salazar entendia-se não ser necessária grande
escolaridade para as mulheres, pois aproveitar-se-iam desses conhecimentos para
“escreverem bilhetinhos aos namorados” (Salazar dixit). Assim, em 19708, 31% das
mulheres eram analfabetas e só 0.5% tinham formação superior (20% e 1.4% para os
homens, respetivamente). A situação melhorou bastante desde então, como evoluiu
também nos outros países da Europa o que, contudo, não coloca Portugal melhor do
que ostentar o mais baixo perfil educacional da UE.

7
A Bósnia foi o primeiro cenário europeu para o jihadismo, abençoado pelos EUA e pela NATO
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/11/o-jihadismo-os-semeadores-de-ventos-e_24.html
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Visão, 17/4/2014
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Os EUA, como a maioria dos países europeias pouco ou nada fizeram para criar ou
manter uma matriz de relações inter-industriais densa, como aconteceu com a
Alemanha, o Japão, a Coreia do Sul e, mais recentemente a China; perderam a sua base
industrial - excepto no complexo militar-industrial - e criaram empregos pouco
qualificados na Walmart e na restauração, nos centros degradados das cidades onde
antes havia uma classe média que…votava no burro (Partido Democrata).

A vitória de Trump com a sua promessa de América para os americanos, com repúdio
ou expulsão de latinos ou muçulmanos, para garantir o emprego e salários
compensadores aos brancos pobres, é uma verdadeira burla política. Os capitalistas
americanos, mormente as suas grandes multinacionais que transferiram indústrias para
a Ásia, mormente para a China, não vão voltar atrás só porque Trump incluiu esse
retorno na campanha eleitoral; e as multinacionais tecnológicas também não estão
dispostas a perder os imigrados de alta qualificação que trabalham nos EUA, só porque
são latinos, muçulmanos...

Trump, como os nacionalistas europeus, ainda não percebeu que a produção mundial
está globalizada e já não repartida por países; e que o regresso dos EUA ao modelo
antigo, corresponderia a grandes aumentos de preços dos bens, tornando-os
inacessíveis para os salários americanos de hoje, estagnados em termos reais há longos
anos. Admitindo que Trump saiba o que é o keynesianismo não saberá que num
mundo globalizado, os efeitos de multiplicador, visíveis no tempo do New Deal, têm
uma eficácia muito menor porque se esvaem substancialmente através de fronteiras
porosas, sob a forma de importações de bens, serviços, juros, lucros, royalties. Os fãs
lusos da LePen ignoram isto ou ocultam essa realidade para manterem a sua clientela;
tal como Salazar precisam de se rodear de ignorância para se sentirem os sábios da
aldeia.

4.2 – O desenvolvimento do espirito do fascismo

Há alguns anos atrás debruçámo-nos sobre uma nova era fascista e genocida que
estaria em curso, com incidência inscrita no terreno da paróquia lusa e ainda antes da
crise da dívida e da intervenção da troika. Esse renovado fascismo não tem
forçosamente de apresentar o aspeto sinistro da figura seguinte. A História só se

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repete enquanto farsa9.

Essa nova escala da produção de bens e serviços inerente à globalização tende a
reduzir o papel das pequenas e médias potências, uma vez que não mais será possível
o estabelecimento de protecionismos nacionais a favor dos capitalistas autóctones,
sobretudo dos de menor gabarito, conhecidos por PME’s; a Comissão Europeia zela
para que isso não aconteça. Estas empresas, encontram-se submetidas a uma pressão
financeira asfixiante ou, pura e simplesmente com crédito inacessível, seja para
procederem a investimentos, seja para fazerem face aos ciclos dos gastos correntes.
Por outro lado, têm dificuldades para sobreviver face ao poder das multinacionais e
dos grandes grupos nacionais, estes, maiores beneficiários das deslocalizações, de
economias de escala, subvenções públicas e fiscalidade mais doce, dadas as suas fortes
ligações às classes políticas. Em países mais desestruturados, como Portugal, o não
pagamento de impostos ou de encargos sociais constitui um recurso muito utilizado,
“normal” que, depaupera o orçamento, alimentando maior agressividade fiscal sobre o
trabalho e o consumo.

Nesse contexto, as tais PME’s incidem os seus esforços em tudo o que pode baratear os
custos do trabalho, como horas de labor não pagas, horários extensos, baixos salários,
fórmulas de obviarem a descontos para a segurança social e a precariedade
conveniente que facilite o despedimento e a sujeição.

Como muitas dessas empresas dependem, para sobreviver, dos níveis de consumo da
população remediada ou pobre, não tendo poder para influenciar o partido-estado, ao
serviço dos altos escalões do capital, mostram-se desavindos com a democracia dita
representativa que, de facto, não as têm na devida consideração. Assim, entendem-se
melhor defendidos com o regresso de fronteiras, barreiras alfandegárias,
desvalorizações de moeda, maior disciplina no trabalho, favorecendo o nacionalismo, o
etnicismo, a cultura pátria, as identidades, elementos que funcionam como excelentes
antecâmaras do fascismo. Não admira pois que, na Europa, a existência de liberdade de
comércio, com a anemia económica persistente, promova o surgimento e a relevância
de partidos nacionalistas, xenófobos e fascistas.

Como é evidente, estes capitalistas pequenos e médios, que não se ancorem em
capacidades tecnológicas, financeiras ou da dimensão adequada, não querem o fim do
capitalismo; querem a sua continuidade, assente na continuidade da existência de
trabalhadores atomizados, precários e mal pagos. Muitos sonham tornar-se grandes
capitalistas, realizar a conhecida lenda do self-made man que, em geral repousa em
desenfreada exploração laboral e vigarices, embora isso não seja evidenciado naquele
romance. Por detrás de uma grande fortuna há sempre um grande roubo.

9
Embora o apoio de Trump na deslocação da representação dos EUA na sua fortaleza sionista, de Tel-
Aviv para Jerusalém, possa constituir um sinal de um regresso ao passado; tal como o retomar da
diabolização do Irão ou a cruzada anti-imigrantes e anti-muçulmanos, provavelmente inspirada pelo
genro Jared, sionista encartado.
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No fundo da escala social, apresenta-se um vasto leque de trabalhadores, alternando
períodos de desemprego com funções laborais precárias, com casas por pagar ou com
salários há longo tempo congelados, gente com trabalho mas, no limiar da
sobrevivência, submetida a uma punção fiscal agressiva, confrontando serviços
públicos degradados ou restringidos, preços de bens essenciais elevados, com filhos
adultos ou progenitores a seu cargo, abandonados ou estranhos à ação sindical,
atomizados, entregues à incerteza do dia seguinte. Há também a contar com
pensionistas com retribuições parcas ou congeladas, muitas vezes depois de uma saída
antecipada do trabalho, aliciados por patrões e governos, competindo depois na
procura de biscatos. E ainda, jovens, pouco crentes nas virtudes da escola como forma
de atingir uma habilitação conducente a um emprego digno e que se entregam à
situação de nem-nem (nem escola, nem trabalho), com passagens, mais ou menos
regulares, pelo consumo de drogas.

Muita desta gente é enormemente despolitizada; mesmo os mais jovens, habilidosos
utilizadores de telemóveis, tablets e computadores. As televisões – o entretenimento
dos pobres – intercalam-lhes novelas com futebol, opinion-makers, publicidade e
espetáculo político, um conjunto que é mais tóxico que uma dieta de Big Mac’s.
Querem atenção, contentam-se de afetos e sorrisos de um qualquer mandarim de
verbo fácil e, portanto, são facilmente manipuláveis, aderindo a qualquer ladainha que
lhes reconstitua um passado idílico, onde o capitalismo era mais suave. Querem ser
explorados, ma non tropo.

Como vítimas do neoliberalismo, das grandes empresas globalizadas e dos bancos,
aqueles pequenos e médios empresários tornam-se aliados próximos e objetivos das
vítimas do desemprego, da redução dos salários reais, das deslocalizações, coincidindo
na defesa da soberania nacional, dos capitais nacionais, do retorno a mercados
nacionais protegidos da concorrência, como aconteceu nos anos 30 do século passado,
com a retração das relações comerciais globais. No chamado mundo ocidental e neste
contexto de potencial concórdia e concertação implícita, a realidade é desejável se
imutável, com altas taxas de crescimento, ancoradas na intervenção de aparelhos de
estado como ativos executantes de políticas keynesianas de construção de
infraestruturas e de elevados gastos sociais.

É o tipo de pessoas que votou no Brexit, pensando na segurança vivida nos tempos
vitorianos em que no império britânico o sol nunca se punha e incapaz de perceber
que a Grã-Bretanha é apenas uma potência de médio gabarito, cuja moeda esteve
presente em 12.8% das transações cambiais em 2016, num total de 200%, uma vez que
cada transação envolve um par de divisas. Resta saber se, a concretizar-se o Brexit, a
saída ou a redução da atividade financeira a partir de Londres permitirá à libra manter
essa posição. E a posse da bomba atómica de pouco lhes serve sobretudo quando se
enganam na direção em que enviam os seus mísseis nos treinos dos submarinos
Trident.

Algumas gerações atrás, na Europa foi encorajada a imigração de trabalhadores da
periferia, da margem sul do Mediterrâneo e da África profunda, para as funções
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tomadas como menos nobres que os trabalhadores de raiz europeia não preenchiam
devido à desfavorável relação entre penosidade e remuneração. Milhões dessas
pessoas constituíram famílias, os seus filhos e netos nasceram na Europa, receberam
uma cultura europeia e sofrem do anátema que surge a propósito da cor da pele ou do
apelido, reveladores das suas origens. Em tempos de escassez de trabalho e de
condições saudáveis de vida, a concentração dessas pessoas em áreas guetizadas
torna-os alvos fáceis de repúdio e ódio, sobretudo quando há atentados. Quando, por
razões completamente estúpidas, se gera concorrência e divisões entre os pobres, está
bem de ver que são os ricos e os poderosos a beneficiar.

O neoliberalismo gerou todo este quadro de desintegração social, de individualismo e
concorrência entre as pessoas, menosprezando atitudes solidárias ou coletivas o que,
frequentemente as leva ostracizar o Outro, seja pela cor da pele, pela origem nacional,
pela cultura, porque é muito novo ou demasiado velho; porque sim. Assim se forma
um quadro de decadência e abandono, com poucos vencedores e uma grande maioria
de vencidos que se digladiam entre si; um espetáculo que diverte capitalistas e
mandarins. Um caldo de desespero, pobreza e insegurança propício ao pulular de
demagogos, gurus e fascistas que, com rótulos de direita ou de esquerda, defendem o
retorno ao encerramento patriótico, à preferência pelos capitalistas nacionais, unidos
todos, patrões e trabalhadores na contemplação da bandeira, a cantar o hino e a
contar as notas de moeda nacional que faltam na carteira. Arbeit macht frei.

4.3 – Um novo internacionalismo, precisa-se !

A globalização, cavalgada pelo capitalismo, com as suas formas de domínio da
multidão, pelas armas, pela repressão, pelo estado de excepção, alargados muito para
além dos vários espaços nacionais, em evidente e acelerada perda de poderes, exigem
uma forma de luta dos povos num patamar bem acima do plano nacional. O que
recoloca a questão do internacionalismo, popular há uns cem anos.

No passado, essas pulsões de libertação promoveram entre os trabalhadores o
internacionalismo como arma de defesa contra as rivalidades entre as potências e as
suas classes dominantes e que os mobilizavam para as guerras, sem os isentarem das
destruições provocadas pelas mesmas. O internacionalismo estava, no primeiro quartel
do século XX, intimamente ligado à construção de sociedades igualitárias, sem
capitalistas, sem autoridade, sem Estado; o que se designou por anarquismo.

A revolução russa de 1917 que inicialmente gerou muitas esperanças de libertação dos
trabalhadores face ao domínio do capital, rapidamente evoluiu para uma oligarquia de
partido único, de gestores, militarizada e repressiva, que construiu um capitalismo de
estado, com forte recurso a trabalho forçado. As réplicas à revolução de 1917 que
surgiram por todo o lado, tenderam a constituir-se sob a forma de partidos comunistas
como produtos derivados da URSS, vocacionados para a defesa dos seus interesses
estratégicos nacionais, enquanto “pátria do socialismo”. Esta designação, no seu
âmago, contempla uma contradição, pois o socialismo ainda era encarado como algo
de credível e antagónico face às pátrias, como prisões de povos. Quando sobreveio a II

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Guerra, o internacionalismo que teve forte presença nos campos de batalha na guerra
anterior, de 1914/18 e, mais tarde, na defesa da República espanhola contra o
fascismo, estava diluído na luta antifascista desenvolvida em planos nacionais e
dirigida de Moscovo, na qual também se dissolvia a luta contra o capitalismo.

Herdeiras da tradição de ligação à URSS como farol e exemplo do que se designou por
socialismo, as esquerdas europeias após o final da II Guerra apostaram num
gradualismo político e em práticas burocráticas de apoio à reconstrução dos
capitalismos nacionais, integrando-se completamente no jogo partidário, sem
perspetivas de mobilização popular e de ruptura sistémica.

Sofreram um abalo forte na sua hegemonia ideológica nos finais dos anos 60, quando
lutas sociais em França, Itália e Alemanha colocaram no terreno abordagens
anticapitalistas e críticas do modelo soviético, com o seu economicismo e
autoritarismo, tal como o modelo ocidental, produtivista, repressivo e puritano.
Quando o derrube do Muro e a desagregação da URSS evidenciaram o fracasso do
chamado socialismo, os partidos comunistas afundaram-se, assumiram-se, na menos
má das hipóteses em formações sociais-democratas, quando não assumidamente
neoliberais, com a verve típica dos conversos recentes. Cederam o lugar a outras
formações sociais-democratas ou ecologistas identicamente sem teoria ou práticas de
ruptura, com apoios sociais próximos dos apoiantes dos partidos-estado (como nos
casos do BE, do Die Linke e, recentemente do Podemos); mas, mantêm-se num figurino
tradicional, fechado, autoritário e nacionalista, nos casos de Portugal, Grécia, Chipre ou
República Checa.

A globalização, acelerada pela ideologia neoliberal iniciada nos anos 70, depois do fim
da convertibilidade do dólar, da grande subida do preço dos combustíveis e atingidos
os limites do keynesianismo, correspondeu a um género de internacionalismo do
capital, disposto a anular as barreiras nacionais e a integrar ou a destruir as burguesias
nacionais, que não tivessem capacidade para se imporem como atores nessas redes
que enformam a globalização, para agirem numa escala muito mais vasta do que os
seus estritos territórios e populações. Dessa situação, na Europa surgiram os diversos
alargamentos da então CEE, com a agregação de pequenas e médias nações, num
quadro subalterno adequado à valia dos respetivos e autóctones conjuntos de
capitalistas.

À internacionalização do capital globalizado, à mundialização da produção de bens e
serviços, à dominância de um sistema financeiro predador, à acelerada destruição do
planeta, tem de corresponder uma imprescindível oposição que atualmente não existe
no seio dos regimes políticos instituídos. É obrigatório dar-lhe resposta através do
desenho e da construção de uma lógica integrada de atuação dos povos, sob a forma
de redes rizomáticas, sem chefias carismáticas e imunes à repressão, por essas mesmas
caraterísticas, tirando partido das tecnologias que, hoje, já integram os trabalhadores,
os despojados, os abandonados. É preciso construir um internacionalismo do século
XXI, como instrumento para a destruição do capitalismo.

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Carlos Taibo sintetiza a questão que se nos coloca, hoje. Ou ganhamos a consciência
de que temos de sair urgentemente do capitalismo, regressando a lógicas de
cooperação, solidariedade e apoio mútuo; ou entra-se num caminho de salve-se quem
puder, com guerras, pobreza acentuada, desdém para com as alterações climáticas
(como anunciado por Trump) e regimes fascistas e genocidas.

Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

https://pt.scribd.com/uploads

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