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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS UFMG

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas FAFICH

Programa de Pós-Graduação em História

Disciplina: Identidades e Alteridades: o debate sobre a diversidade nas Américas

Prof.ª Dra. Kátia Gerab Baggio

Aluno: João Batista Teófilo Silva

Doutorado 2016.2

A construção do outro como projeto político de dominação: alguns apontamentos sobre o presente

Belo Horizonte MG

Janeiro de 2017

A construção do outro como projeto político de dominação: alguns apontamentos sobre o presente

João Batista Teófilo Silva 1

A construção de representações acerca do outro não constitui novidade, seja

historicamente, ao longo dos tempos e sociedades, seja no meio científico, tomando esse

outro como objeto de estudo. Mais que um debate entre o que é civilização e o que é

barbárie, é possível perceber, no cerne dessa construção, a existência de projetos

políticos de dominação, sejam eles de ordem macro ou micro, mais ou menos

complexos.

Sintomático neste debate são os chamados projetos civilizatórios, que, em nome de um

modelo ideal de civilização, dizimaram sociedades, alteraram passagens, solaparam

culturas, escravizaram contingentes de pessoas, extraíram riquezas; enfim, se construiu

e se executou um complexo projeto de dominação que, a exemplo do que ocorrera na

América do Sul, pode-se dizer vitorioso, como tão bem nos mostrou Eduardo Galeano

no clássico “As veias abertas da América Latina”. 2

Essas estratégias e projetos políticos de dominação, pode-se dizer, são permeados por

representações visuais, simbólicas, verbais etc. que ainda hoje integram repertórios

culturais dos mais variados, que vão desde exemplos mais remotos, voltados para as

figuras do afrodescendente e do índio, até exemplos mais recentes, de migrantes

nordestinos que habitam as regiões Sul e Sudeste do Brasil.

Não pretendo, contudo, fazer uma ampla e complexa discussão acerca do tema da

alteridade e a dimensão crucial que ele ocupa nos chamados projetos civilizatórios,

tampouco esboçar releituras ou novas discussões sobre o que foi debatido ao longo da

disciplina “Identidades e Alteridades”. Não obstante o caráter limitado da natureza deste

trabalho, me sinto instigado a trazer para esta discussão aquilo que quero chamar de os

1 Doutorando em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É membro do grupo de pesquisa História Política Culturas Políticas e bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). 2 GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

outros do tempo presente. Sendo eu um historiador que lida com essa temporalidade e, ao mesmo tempo, pouco familiarizado com os debates que integraram o programa da referida disciplina, opto por trafegar em terreno mais recente, discutindo, ainda que pontualmente, sobre questões que foram sendo gestadas ao longo das inúmeras leituras e debates feitos até então durante “Identidades e Alteridades”.

Contudo, entendo ser preciso pontuar alguns debates até então feitos em sala de aula para melhor se compreender o tema proposto, buscando articular questões passadas e presentes, a fim de elucidar alguns pontos.

Como bem vimos, a construção do outro é algo remoto, como demonstrou François Hartog em “O espelho de Heródoto”. 3 A reflexão feita por Hartog pontua distintas maneiras para se representar aquilo que nos é estranho, elaborando uma retórica da alteridade que, pelo menos desde a Grécia Antiga, evidencia a complexidade de um universo repleto de imagens, símbolos e práticas essenciais à compreensão das relações de poder e dominação entre sociedades nos mais diversos tempos históricos.

Creio que a reflexão feita por Francis Wolff 4 acerca do que seria civilização e do que seria barbárie, constitui importante precedente para o debate aqui proposto, pois permeia o ponto central deste texto que é exatamente a natureza das representações que se constroem sobre o outro, aqui entendo representação em seu sentido mais amplo, como sendo um conjunto complexo que inclui ideologia, linguagem, memória, imaginário e iconografia, implicando a mobilização de mitos, símbolos, discursos, vocabulários e diversificada cultura visual. 5 Ou seja, atentando para a complexidade do conceito e suas implicações em práticas sociais concretas que norteiam ações políticas, mobilizam ódios e, tantas vezes, estiveram atreladas a projetos políticos de dominação sustentados pelo status do cientificismo e por dogmas religiosos, notadamente cristãos, legitimando hierarquizações sociais que acabaram por alicerçar projetos de dominação

3 HARTOG, François. O espelho de Heródoto: ensaio sobre a representação do outro. Belo Horizonte:

Editora UFMG, 1999.

4 WOLFF, Francis. “Quem é bárbaro?” In: NOVAES, Adauto (Org.). Civilização e barbárie. São Paulo:

Companhia das Letras, 2004, pp. 19-43.

5 Baseio-me em Roger Chartier em sua discussão acerca do conceito de representação presente em:

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Trad. Maria Manuela Galhardo. Portugal: DIFEL, 2002.

cuja incidência sobre as relações sociais atualmente é indiscutível, imprescindíveis, aliás, para se compreender as persistentes relações de exploração entre alguns países.

Retomando Wolff, cabe destacar o papel central que a Europa ocidental ocupa não apenas como o modelo de civilização, mas, na mesma medida, responsável por inúmeras empreitadas de exploração a partir de um projeto imperialista, que não podem ser compreendidas em sua inteireza e complexidade se dissociadas da questão da alteridade e das representações e práticas construídas em torno das sociedades nativas que foram exploradas e conquistadas.

Como bem sabemos, não se tratou, apenas, de representações do outro atreladas às noções clássicas, por assim dizer, de civilização e barbárie. A questão da alteridade representa a existência de relações concretas em torno daquilo que significa o outro, o “bárbaro”, para o “civilizador” e, em consequência, daquilo que legitima ações que podem ser resumidas em escravidão, genocídios, etnocídio etc. advindos de uma hierarquização social que estabelece relações reais de força.

Tzvetan Todorov, na Apresentação da obra “Nós e os outros”, 6 chama atenção para a força dos discursos, ao nos lembrar de que estes são motores da história e não pura e simples representações. Ou seja, as ideias permitem que os atos sejam possíveis e aceitos, sendo, portanto, atos decisivos.

Além da discussão sobre civilização e barbárie, outro tema me parece pertinente para introduzir a discussão em tela e, embora nos pareça óbvio, acredito ser indispensável: o etnocentrismo. A normatização da vida social, a patologização de hábitos de vida, enfim, a universalização de valores a partir do particular, igualmente, estão atrelados a projetos políticos de dominação e exploração, e também são constituintes do outro e das representações que dele se forjam.

O etnocentrismo, cabe lembrar, teve suas bases construídas não apenas naquilo que

podemos chamar de senso comum, mas, também, teve na ciência um espaço de

legitimação. O racialismo, idem. Isso demonstra, pois, o uso da ciência para projetos políticos expansionistas, justificando hierarquizações sociais que permitiram forjar para

o outro seu lugar na base de uma pirâmide social que muito nos diz sobre as

6 TODOROV, Tzvetan. Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Rio de Janeiro:

Jorge Zahar, 1993.

configurações sociais do presente, bem como sobre a persistência de certos elementos num imaginário social relativo a índios, latinos e negros, citando aqui apenas alguns exemplos.

Oportuno lembrar da referência que Todorov faz à Buffon, intelectual francês do século XVIII, que justificou a escravidão de negros como algo natural, pois se tratavam de “seres inferiores”. A formulação de julgamentos de valor sobre povos, como sabemos, não constitui um problema do passado. Temos assistido em contextos históricos mais recentes a inferiorização de povos e comunidades minoritárias politicamente. Se hoje a ciência não mais sustenta teses absurdas, o mesmo não podemos dizer de partidos políticos, organizações da sociedade civil e setores da imprensa, por exemplo.

Mas, retomando os autores aqui elencados, é válido lembrar da importância que teve a ciência para o fundamento de ideologias racistas e etnocentristas, sem as quais, pode-se dizer, os projetos imperialistas de séculos passados não teriam sido possíveis. Ernest Renan, igualmente citado por Todorov, defendera que raças e países superiores tinham como destino se expandir; raças e países inferiores, por sua vez, estavam predestinados a um papel secundário.

A representação do outro, sua invenção, criação e deformação, estiveram atreladas a projetos de dominação mais ou menos estruturados, mais ou menos duradouros, cuja complexidade, discutida pelos autores estudados, nos ajudam a compreender, ainda que de maneira pontual, onde estariam e quais seriam os outros do presente, bem como os meios e estratégias que determinam e direcionam a construção de representações, reforçando estereótipos, símbolos e imaginários. Se, em séculos passados, as figuras do negro e do índio estiveram, por assim dizer, no cerne da problemática do outro vale mencionar também o Orientalismo como uma invenção do Oriente pelo Ocidente, conforme vimos em Edward Said 7 vale o esforço para buscar elencar, ainda que o risco de ser sucinto seja iminente, os outros do presente e o lugar que ocupam.

As reflexões a seguir foram estimuladas a partir dos debates em sala de aula, cujos autores aqui citados foram determinantes para se pensar noutros sujeitos que ocupam o lugar desse outro. Sujeitos que, invariavelmente, estão à margem nos processos

7 SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

históricos, sendo subjugados à situações que nos levam a crer que passado e presente

guardam entre si semelhanças, expondo as fragilidades de um discurso ético feito hoje no presente sobre os outros de outrora, mas que é, por assim dizer, inexistente quando

se trata, muitas vezes, de olhar para os outros do presente.

Tomemos como exemplo os horrores cometidos contra judeus e outras minorias durante

a Segunda Guerra Mundial. Se o exemplo em tela causa indignação perante uma

comunidade internacional, o mesmo nem sempre ocorre em relação aos refugiados atingidos pelos conflitos atuais na Síria e mesmo os mulçumanos de um modo geral,

invariavelmente estigmatizados após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Que tipo de relação podemos estabelecer entre os milhares de casos de judeus que foram denunciados em países da Europa durante a Guerra, e o caso da cinegrafista de TV húngara que, enquanto filmava vários refugiados correndo da polícia, passou uma rasteira em um pai que corria com seu filho nos braços? 8 A repulsa ao outro que permeia a onda xenofóbica que assistimos atualmente, evidencia a existência e uma permanente construção de representações acerca de figuras como os refugiados, imigrantes e mulçumanos.

Três fatores que temos presenciado atualmente evidenciam uma crescente onda de xenofobia, em cujo cerne há uma série de representações, não raro alimentadas por um discurso midiático que pode ser constado cotidianamente nos mais diversos veículos: a crise dos refugiados, a ascensão de partidos de extrema direita na Europa e a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. São eventos, vale lembrar, com conexões entre si, reforçando uma onda xenofóbica, nacionalista e ultranacionalista claramente perceptível.

O caso de Trump chega a ser grotesco, uma vez que se utiliza de lugares-comuns de

certo imaginário xenofóbico. Em seus discursos durante a campanha presidencial, o candidato republicano acusou mexicanos de serem os responsáveis pelo envio de drogas aos EUA, além de serem estupradores. Não obstante, defendeu a construção de um

8 Segundo o jornal britânico “Guardian”, a emissora húngara N1TV teria ligação com o partido de extrema direita Jobbik. Após o episódio e de sua repercussão internacional, a cinegrafista foi demitida. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/video-mostra-reporter-hungara-chutando-e- dando-rasteira-em-refugiados.html

muro de 3.000 quilômetros na fronteira. 9 Outros inúmeros exemplos relacionados a Trump são igualmente sintomáticos de uma onda xenofóbica em ascensão, que, para além de um discurso visto como populista, representa uma plataforma de governo concreta e com expressivo respaldo popular.

Não apenas os mexicanos representam este outro no discurso de Trump. Os mulçumanos, igualmente, são alvos de discriminação. Vale lembrar, entretanto, que a islamofobia é algo concreto e em ascensão nos EUA pelo menos desde os atentados de 11 de setembro. Em um comunicado de campanha no qual se defendeu a proibição total de mulçumanos nos EUA, inclusive turistas, há um discurso explicitamente xenofóbico, que chega a assustar pela falta de constrangimento com a qual esse tipo de discurso ganha a cena pública: "Até que sejamos capazes de determinar e entender esse problema e o perigo que ele representa, nosso país não pode ser vítima desses ataques horrendos de pessoas que acreditam apenas na jihad, e que não tem nenhum senso de razão ou respeito pela vida humana". 10

Tal qual a generalização já feita sobre povos colonizados e judeus, por exemplo, os mulçumanos são retratados como aqueles que não têm senso de razão, tampouco respeito pela vida. Essa afirmação nos lembra da discussão outrora feita sobre os modelos de civilização e barbárie, cuja pertinência para problematizar o caso em tela me parece ser evidente.

A crise dos refugiados e a ascensão de partidos de extrema direita na Europa constituem outro problema do presente, colocando mais uma vez o continente europeu no centro de uma disputa que mobiliza medos e, em alguns casos, nos fazem lembrar de situações semelhantes ao que ocorrera na Segunda Guerra, como as imagens de trens transportando milhares de refugiados, ou tantos outros que aparecem confinados em campos, não raro em situações de fome e frio.

Evidente que tais imagens e o problema em si despertam sentimentos de compaixão e indignação, mas a crise dos refugiados, somada à islamofobia, têm sido terreno fértil para a legitimação de projetos políticos de cunho xenofóbico, alimentando um caldeirão

10

Disponível

em:

de ódios cujos efeitos práticos são visíveis e não seria exagero afirmar que, cotidianamente, nos deparamos com casos concretos na imprensa.

É importante lembrar que, em um contexto de desemprego em grandes proporções e de

grave conflito social, a xenofobia ganha força através de um discurso que representa os

imigrantes e refugiados como principais responsáveis pelos problemas em matéria de empregos, serviços sociais e direitos. Vemos isso não apenas nos EUA, com Trump, mas também em países da Europa, cuja crise econômica igualmente afeta e para onde sobretudo tem se dirigido as massas de refugiados.

O caso do menino Aylan Kurdi, encontrado morto em uma praia turca enquanto tentava

chegar à Europa através do Mediterrâneo, fugindo da guerra na Síria, acabou por comover o mundo inteiro quando teve sua foto divulgada. A foto chocante de uma criança caída de bruços à beira da praia fez pressão às autoridades europeias para o problema dos refugiados, como também, por assim dizer, contribuiu para mostrar ao mundo o que está para além dos números que costumeiramente são usados para falar sobre o assunto.

Entretanto, no extremo oposto, o mesmo episódio serviu para trazer à tona manifestações xenofóbicas. O semanário satírico francês “Charlie Hebdo”, que em 2015 foi alvo de um ataque terrorista em represália às charges feitas sobre Maomé, publicou uma charge intitulada “Migrants”, seguida do questionamento “Que serait devenu le petit Aylan s’il avait grandi?” 11 . A peça retrata o menino Aylan, já adulto, correndo atrás de uma mulher; abaixo, o semanário trata ele próprio de responder à questão:

“Tripoteur de fesses en Allemangne” 12 .

O caso se deu no contexto da onda de denúncias contra imigrantes na Alemanha, durante as celebrações de Ano Novo em Colônia, dentre outras cidades alemãs, acusados de agressões físicas e sexuais contra mulheres. A representação do imigrante como estuprador, sobretudo a partir de uma tragédia que representa apenas um caso dentre tantos 13 , atenta para um problema crescente: a crise dos refugiados não apenas

11 “O que o pequeno Aylan seria se ele se tornasse adulto?”.

12 “Apalpador de bundas na Alemanha”. 13 De acordo com a ONG “Save The Children”, ao menos 423 menores morreram afogados no Mediterrâneo, tentando chegar à Europa. Dados de setembro de 2016. Disponível em:

vem acompanhada de fronteiras fechadas ou parcialmente abertas, mas de discursos de ódio que não se restringem, apenas, ao âmbito do cidadão médio que vê o refugiado como uma ameaça a seus valores, seu emprego e seu bem estar social; a ação do Charlie Hebdo nos faz pensar a partir de quais maneiras essa representação do outro é construída e alimentada, e como ela atinge os mais vulneráveis politicamente, cuja marginalização precisa ser pensada a partir de projetos políticos mais amplos e não apenas a partir do medo. Ou seja, o processo de construção desse medo e os outros sentimentos que ele mobiliza, reforçado em um cenário de crise, se dá através de agentes e seus vetores que precisam ser igualmente questionados.

A questão da islamofobia, cuja urgência e evidência parece-me representar um problema com desdobramentos preocupantes diante da conjuntura atual, sobretudo quando a maior potência capitalista está sendo capitaneada por alguém com um posicionamento claramente islamofóbico e xenofóbico.

Os efeitos de um discurso islamofóbico são visíveis, inclusive em países como o Brasil. 14 A construção representacional do mulçumano e mesmo do Islã como algo essencialmente terrorista, significa apenas a ponta de um problema ainda maior que, evidentemente, é potencializado com as ações terroristas do grupo Estado Islâmico que têm colocado o mundo em alerta nos últimos anos.

As ações islamofóbicas se dão mesmo em aspectos essenciais do universo dos mulçumanos, como o véu que encobre o rosto de mulheres. 15 A despeito das conotações repressivas e machistas que o véu representa, a proibição de seu uso é uma atitude ultrajante, pois busca tolher aspectos identitários e culturais do universo deste outro, buscando, por assim dizer, uma ocidentalização da vestimenta, ainda que questões de segurança tenham sido alegadas para tal proibição. No meio desse debate, há quem tenha perguntado: as freiras, cristãs, também se enquadrariam em tal lei? 16

14 Em algumas ocasiões, tive conhecimento, através de postagens do Facebook, de mulheres que foram agredidas por usar véus nas ruas de São Paulo e outras cidades do país.

16 Vale lembrar que existem vários tipos de véu usados por mulheres islâmicas. O Hijab e o Xador apenas

cobrem

a

cabeça,

deixando

o

rosto

a

mostra.

Ver

mais

em:

Para termos uma ideia dos efeitos práticos deste discurso islamofóbico, reconhece-se a existência de mais de 20 ações de islamofobia diária em um país como a Alemanha. 17 Vale lembrar aqui, também, que atos de islamofobia triplicaram na França em 2015 18 , constituindo, assim, uma verdadeira onda islamofóbica e não apenas a existência de atos pontuais e isolados.

Profanação de locais de culto puseram cabeças de porcos diante das mesquitas -, agressões físicas e verbais, pichações com discurso de ódio e tentativas de incêndio, são alguns exemplos desta onda islamofóbica. Políticos como o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy e a candidata de extrema direita Marine Le Pen, foram acusados de demonizar o islã para ganhar votos. 19 É preciso compreender uma estratégia que coloca os mulçumanos no lugar do outro que precisa ser combatido, estratégia que ganha força com a criação do Estado Islâmico. Com a crescente onda de partidos de extremas direita com expressivo apoio popular, os mulçumanos transformam-se, por assim dizer, em um perfeito bode expiatório, mobilizando medos e reforçando a noção de uma guerra contra

o terror e em defesa da civilização europeia. Vale endossar, claro, que a crise dos refugiados constitui um elemento a mais nessa preocupante conjuntura.

Entendo que os outros do presente são muitos e, igualmente, sofrem com as hierarquizações sociais e suas representações excludentes. Negros, LGBT’s, índios e

outras minorias são os outros não apenas do presente, mas também do passado. Entretanto, por questões práticas, limitei-me a outros sujeitos igualmente estigmatizados

e que estão no cerne de uma crise que parece se agravar a cada dia. Reconheço que,

mesmo sobre estes que tratei aqui, a discussão foi pontual perante uma complexidade que demandaria páginas e mais páginas para melhor entendê-la. Tentei ater-me àquilo que me pareceu essencial para um trabalho desta natureza.

Os debates travados ao longo de “Identidades e Alteridades”, muitas vezes acompanhados do tema aqui proposto, me fizeram perceber não apenas que aqueles outros do passado sofrem no presente o peso secular de um forte processo de exclusão e discriminação, mas, como há também a permanente construção de novos outros. Ou

seja, essa construção é persistente, se renova, e mesmo os tempos históricos mais

recentes não cessam de forjar os seus “bárbaros”.

Referências

Bibliografia:

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Trad. Maria Manuela Galhardo. Portugal: DIFEL, 2002

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra,

1979.

HARTOG, François. O espelho de Heródoto: ensaio sobre a representação do outro.

Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo:

Companhia das Letras, 1990

TODOROV, Tzvetan. Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993

WOLFF, Francis. “Quem é bárbaro?” In: NOVAES, Adauto (Org.). Civilização e

barbárie. São Paulo: Companhia das Letras, 2004

Internet:

BBC

El Pais

G1

O Globo

Opera Mundi