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É possível uma filosofia engajada?

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964

Esta questão de filosofia engajada é uma expressão muito moderna, que tem
muitos sentidos. Em primeiro lugar, na verdade não há filosofias, só há a Filosofia.
As divergências humanas surgem porque não se estuda devidamente a filosofia,
porque se partirmos de um princípio fundamental na filosofia de que a verdadeira
autoridade é a demonstração, e não “a” nem “b” nem “c”, e a demonstração deve ser
a mais rigorosa possível, consequentemente a demonstração apodítica, isto é, o juízo
necessário, o juízo quoad se, juízo válido quoad se, por si mesmo, o juízo que
esplende a sua verdade por si mesmo, estabelecemos este juízo, e os procuramos, e
os construímos e temos capacidade de alcançá-los, nós só temos uma filosofia, porque
toda aquela que se afastar disto é erro, tudo aquilo que se opuser e contradizer ao que
está estabelecido nos princípios, é erro.
Há aquelas questões que ainda são disputáveis, aquelas questões em que nós
ainda não podemos colocá-las dentro destas demonstrações, estas podem se disputar,
mas são questões praticamente acidentais, de forma que as diversas posições da
filosofia que surgiram são mais produtos da ignorância do que verdadeiramente do
saber.
O que surgiu na filosofia grega que perdeu-se numa série de escolas foi a má
compreensão dos fundadores da filosofia. Se tivessem seguido genuinamente o
método de Pitágoras, não tivessem se afastado dele, não aparecessem discípulos
incapazes que começaram a tomar outros caminhos, não teria havido aquela luta
tremenda que há entre atomistas e eleatas e outros que foram surgindo na filosofia e
que só serviram para dividir.
Tudo isso tem um valor, não sou contra, foi bom, porque tudo isso provocou
grandes investigações e permitiu solucionar melhor os problemas filosóficos.
Assim como o cepticismo foi um grande bem, os cépticos gregos trouxeram um
grande benefício, porque colocaram a questão da verdade em cheque, obrigaram a
formação da lógica formal.
O trabalho tremendo dos estóicos, e a grande dialética dos platônicos não se
teria se construído se não tivesse havido aquelas divergências. O erro também é
benéfico, também deve aparecer, mas apenas com este sentido, para estimular a
prestarem atenção melhor a pontos que julgamos já definitivos, acabados, já
solucionados, e que podiam ser melhor, mais robustecidamente defendidos.
Essas dissenções que aparecem são necessárias, mas filosofia só há uma, assim
como só há uma ciência.
Podem achar estranho o meu modo de falar, mas aqueles que seguem as
minhas aulas sabem perfeitamente como já demonstrei e já provei que é assim, pois
todas estas divergências surgem da má compreensão.
Na filosofia moderna coloca-se uma grande problemática, uma problemática já
ultrapassada, são questões que já foram suficientemente resolvidas, mas como muitos
não estão preparados pensam que são grandes novidades.
Os gregos, sobretudo os atenienses no período de decadência, quiseram
estudar as causas desta decadência, porque Atenas que havia brilhado através dos
séculos tinha chegado aquele estado, e quando este processo foi feito houve uma
grande discussão.
Chegou-se a conclusão de que os culpados eram os sofistas. Eles é que haviam
levado Atenas aquela situação de desintegração intelectual,. Procuraram um sofista
para ser um “bode expiatório” e o escolhido foi Sócrates, que não era sofista, mas o
havia sido na sua juventude.
Mas o povo ignorante e a juventude sobretudo ignorante, pôs-se a acusar
Sócrates, a gritar nas ruas, a exigir a morte do filósofo como culpado da
degenerescência do povo de Atenas. Sócrates foi julgado e é interessante que naquele
julgamento perdeu por um voto e foi condenado a morte, caindo sobre ele a culpa de
toda a degenerescência.
Realmente aquele processo estava certo, porque o que degenerou Atenas foram
os sofistas, porque criaram toda aquela divergência de idéias, criaram a dialética de
persuasão, a dialética era a retórica, e facilitava para que se discutissem todas as
idéias e consequentemente se tomassem todos os rumos e Atenas perdeu a sua
unidade, porque quando a elite intelectual de um povo é dominada por homens que
estão divergindo uns dos outros, este povo está perdido.