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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DA AMAZÔNIA INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL E DOS RECURSOS HÍDRICOS (ISARH) DISCIPLINA: LEGISLAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DA AMAZÔNIA INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL E DOS RECURSOS HÍDRICOS (ISARH) DISCIPLINA: LEGISLAÇÃO AMBIENTAL

TEXTO BASE Nº 2 UNIDADE I: FUNDAMENTOS DO DIREITO AMBIENTAL

1. Direito Ambiental Brasileiro: Evolução Histórica

O Direito Ambiental constitui um conjunto de regras jurídicas de direito público

que norteiam as atividades humanas com o objetivo de garantir que essas atividades

não causem danos ao meio ambiente. Tem a característica de ser uma disciplina

jurídica autônoma e ao mesmo tempo transversal (horizontal), pois se relaciona com

outros ramos do direito (penal, administrativo, urbanístico, civil, econômico,

internacional, etc), assim como, com disciplinas externas ao mundo jurídico, como:

geografia, ecologia, biologia, química, engenharia, etc.

2. Retrospectiva Histórica do Direito Ambiental

Para Rodrigues (2013), por se tratar de um processo evolutivo, não é possível

identificar com precisão quando e onde terminaram ou se iniciaram as diversas fases

representativas da maneira como o ser humano encara a proteção ao meio ambiente.

Para o autor, essa tentativa pode ser metaforicamente descrita como uma mudança

do ângulo de visão com que o ser humano enxerga o meio ambiente.

2.1 PRIMEIRA FASE: A tutela economica do meio ambiente

Compreende-se o periodo do descobrimento, em 1500, até aproximadamente a

metade do Século XX, que a proteção ambiental no Brasil recebeu pouca atenção, à

exceção de umas poucas normas isoladas. Nessa primeira fase, a proteção ao meio

ambiente tinha uma preocupação meramente econômica. O ambiente era tutelado

como um bem privado, pertencente ao individuo, sob o crivo do direito de

propriedade e tendo em vista o interesse econômico que tal bem representava para o

homem (Código Civil, 1916). Período caracterizado pelo meio ambiente tutelado na

medida em que se relacionavam às preocupaçoes egoísticas do proprio ser humano,

ou seja, com caracteristicas fortemente antropocêntricas.

Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas (Brasil - Colônia) versavam

sobre as sesmarias que incentivavam o povoamento do território (capitanias

hereditárias); estipulavam como crime “o corte de árvores frutíferas”, tendo como

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punição a quem praticasse, o banimento do Brasil; a caça de determinados animais

(coelhos, lebres). Previram ainda a proibição de poluir rios para não matar os peixes. Consta ainda a proteção do ambiente cultural e em consequência o ambiente paisagístico. Posteriormente evidenciado no Brasil, com a criação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1808).

A primeira norma referente à proteção da Flora brasileira remonta à época

colonial. Trata-se do Regimento do Pau-Brasil (1605), que regulamentava a exploração do pau-brasil em terras brasileiras. De caráter utilitarista, tal norma não

visava proteger o pau-brasil por seu valor intrínseco ou ecológico, mas controlar a extração da madeira que aprovisionava a metrópole Portugal. Já o primeiro Código Florestal (1934), ainda influenciado pelo caráter quase absoluto do direito à propriedade, substituído posteriormente pelo Código Florestal de 1965, marcado ao contrário pelo caráter intervencionista do Estado na propriedade privada (como a criação de áreas de preservação permanente e o instituto da reserva legal) dando vazão ao princípio da limitação do direito à propriedade.

2.2 SEGUNDA FASE: A tutela sanitária do meio ambiente Compreende-se o período entre 1950 e 1980. Esse período também é marcado pela ideologia egoística e antropocêntrica pura. Contudo, a diferença está relacionada a uma preocupação maior com a saúde e a qualidade de vida humana.

O legislador claramete reconhecia a insustentabilidade do meio ambiente e a sua

incapacidade de assimilar a poluição produzida pelas atividades humanas, fincando claro que o desenvolvimento humano desregrado era nefasto à existencia de uma ambiente sadio. Assim, impôs controles legais às atividades exploratórias. O autor lembra que, mesmo com a preocupação com o aspecto da saúde, esse período ainda guarda o aspecto economico utilitário do bem ambiental. Esse período caracteriza-se também por apresentar normas que tratam do meio ambiente de forma dispersa, indireta, específica, compartimentada ou setorial, ou seja, sob o ângulo de diferentes elementos do meio ambiente (fauna, flora, recursos hídricos). Prevaleceu o entendimento de que os recursos naturais ainda não eram considerados sob o ângulo de sua função ecológica, mas como bens ambientais cujo

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uso e exploração deviam ser racionalizados, para responder às necessidades de desenvolvimento econômico do país. São desse período, por exemplo, o Código Florestal (Lei nº 4.771/1965), o Código de Caça (Lei nº 5.197/1967), o Código de Pesca (Decreto-Lei 221/67), o Código de Mineração (Decreto-Lei nº 227/1967), A Lei de Responsabilidade Civil por Danos Nucleares (1977).

2.3 TERCEIRA FASE: Tutela autônoma do meio ambiente e o surgimento do direito ambiental Nas duas fases anteriores a preocupação maior das leis ambientais era sempre

o ser humano. A partir de 1980 houve uma mudança de paradigma, onde o homem

não seria mais o centro das atenções, mas sim o meio ambiente e suas interações. A concepção de meio ambiente passa a ser ecocêntrica. Esse período foi fortemente influenciado pelas experiências internacionais, principalmente pela reunião de Estocolmo em 1972 (Suécia) e pelas experiências legislativas dos EUA na década de 1970, que na ocasião iniciou a regulamentação de proteção do ar, da água e criou a obrigatoriedade dos estudos de impacto ambiental. A edição da Lei nº 6.938/1981 que institui a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), e a Constituição Federal de 1988 deflagram o início a fase holística do Direito Ambiental onde o ambiente passa a ser protegido de maneira integral, ou seja, como

sistema ecológico integrado. Esse período caracteriza-se por normas que tratam o meio ambiente de forma integrada, sistemática ou sob o ângulo de sua função ecológica. A Política Nacional do Meio Ambiente preconiza a proteção do meio ambiente como um todo (sistema ecológico integrado). Os bens ambientais (fauna, flora, recursos hídricos) não são mais vistos unicamente por sua utilidade imediata, valor de uso, mas passam também

a ser considerados como bens de uso e interesse comum a todos, por seu valor

intrínseco, valor de existência, que é essencial a qualidade de vida das gerações

presentes e futuras. A partir da Lei nº6.938/1981 (PNMA) foram estabelecidas as condições necessárias para que o direito ambiental se tornasse um ramo autônomo da ciência

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jurídica brasileira estabelecendo uma política ambiental, com diretrizes, objetivos e

fins para a proteção ambiental, inclusive contendo um microssistema de proteção

ambiental por meio de mecanismos de tutela civil, administrativa e penal.

Está em curso um processo legislativo em matéria de meio ambiente que pode

resultar em uma nova classificação histórica do Direito Ambiental brasileiro, marcado

pelo surgimento de importantes leis nacionais de proteção do meio ambiente, inclusive

no âmbito das cidades e que têm o mérito de reintroduzir a questão urbana na pauta

das políticas públicas. Diz respeito sobretudo aos municípios e demonstra a importância

destes na gestão do meio ambiente urbano.

São desse período, por exemplo, a Lei de Zoneamento Industrial (1980); a Lei

dos Agrotóxicos (1989); o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da

Natureza (Lei nº 9.985/2000), a Lei de Crimes Ambientais ( Lei nº 9.605/1998), o

Estatuto da Cidade (Lei 10.2572001): Ex. Plano Diretor dos Municípios, Estudo de

Impacto de Vizinhança, etc.; a Política Nacional de Saneamento Básico (Lei

11.445/2007): Ex. Abastecimento de água potável, drenagem e esgotamento sanitário;

a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010): Ex. Limpeza urbana,

manejo, coleta e destinação de resíduos sólidos e fim dos lixões a céu aberto; a Política

Nacional de Mobilidade Urbana (Lei 12.587/2012): Ex. Transportes e mobilidade

urbana em geral.

Referências Bibliográficas

FIORILLO, Celso A. Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. São Paulo:

Saraiva, 2010.

SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de direito ambiental. 8ª d. São Paulo: Saraiva,

2010.

RODRIGUES, Marcelo Abelha. Direito ambiental esquematizado. 1ª ed. São Paulo:

Saraiva, 2013. WAINER, Ann Helen. Legislação ambiental brasileira: evolução histórica do direito ambiental. Revista de Informações Legislativas. Brasília. a.30. n. 118. abr./jun. 1993. p. 191-206.