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DESIGN &

TECNOLOGIA

Revista Tecnológica e Científica

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v. 3 n. 1 Janeiro/Junho 2016

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© Copyright 2016 Design & Tecnologia – Revista Tecnológica e Científica é um periódico semestral que publica artigos nas áreas de automação, design, eletrônica, informática, mecânica e tecnologia aplicada a diversas áreas. Qualquer parte desta publicação pode ser reproduzida, desde que citada a fonte.

Reitoria: Prof. Dr. Ester Regina Vitale Chancelaria: Dr. Clovis Eduardo Pinto Ludovice Pró-Reitoria de Pesquisa: Prof. Dr.ª Kátia Jorge Ciuffi Pró-Reitoria de Ensino: Prof. M.e Arnaldo Nicolella Filho Pró-Reitoria de Extensão: Prof. M.ª Elisabete Ferro de Sousa Touso

Revisão

Fabiana Parpinelli Gonçalves Fernandes

Projeto Gráfico e Diagramação Núcleo de Projetos e Pesquisas de Design

Coordenação:

Ana Márcia Zago

Supervisão:

Rodrigo Aparecido de Souza

Execução:

Rodolfo Tótoli Domenegueti

Catalogação na fonte - Biblioteca Central da Universidade de Franca

CDU - 74:62

DESIGN & TECNOLOGIA: revista tecnológica e científica / Fabiana

Parpinelli Gonçalves Fernandes, organizadora.

v.3, n.1, 2016. Franca, SP: Universidade de Franca, 2016

210 p. ; online

ISSN: 2358-1026

1. Design. 2. Tecnologia. I. Universidade de Franca

1. Design. 2. Tecnologia. I. Universidade de Franca Universidade de Franca Parque Universitário Av. Dr. Armando

Universidade de Franca Parque Universitário

de Franca Universidade de Franca Parque Universitário Av. Dr. Armando Salles de Oliveira, 201 CEP 14.404-600

Av. Dr. Armando Salles de Oliveira, 201 CEP 14.404-600 Franca - SP

PABX (16) 3711-8888/FAX (16) 3711-8886 fabiana.fernandes@unifran.edu.br

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EDITORA Fabiana Parpinelli Gonçalves Fernandes

CONSELHO EDITORIAL Ana Márcia Zago Antônio Carlos Marangoni Carlos Alberto Cordeiro de Sá Filho Fernando Ferreira Del Monte Henrique José da Silva Mamoru Carlos Yamada Maurício Garcia Chiarello Raimundo Nonato da Rocha Filho Ricardo David Vivian Karina Bianchini

Rev. Des. e Tecnol., Franca, v. 3, n. 1, p. 1 - 210, J a n - J u n . 2016

APRESENTAÇÃO

Design & Tecnologia - Revista Tecnológica e Científica é uma revista online da Universidade de Franca que publica artigos nas áreas de automação, design, eletrônica, informática, mecânica e tecnologia aplicada a diversas áreas de autores brasileiros ou estrangeiros com artigos escritos em Língua Portuguesa ou Língua Inglesa. O periódico é semestral e dedica-se à publicação de artigos resultantes de trabalhos de pesquisa científica ou de artigos técnicos que sejam de real interesse às áreas de publicação desta revista. Os trabalhos enviados para a publicação devem ser inéditos, não sendo permitida a sua apresentação simultânea em outros periódicos. O conteúdo dos trabalhos é de total responsabilidade do(s) autor(es).

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PREFÁCIO

A INTERNET DO EU, TU, ELE

DE TODOS NÓS E AS COISAS

André Márcio de Lima Curvello

Se você ainda não ouviu falar da expressão Internet das Coisas, com certeza ainda ouvirá falar dela, e muito. A começar por esse prefácio, quando senão em notícias pela televisão, mídias sociais, e em novos produtos eletrônicos. Esse termo descreve a tendência de que todas as coisas ficarão conectadas à internet, o que inclui a coleira do cachorro ao avião que corta o céu. E, além disso, as pessoas também.

Kevin Ashton não imaginava que o termo que cunhava em sua apresentação na Procter & Gamble no ano de 1999 teria tanto impacto num futuro tão próximo. Inicialmente projetada como uma forma de rastrear itens numa cadeia de suprimentos utilizando identificação por rádio-frequência

(RFID), a Internet das Coisas acabou indo além, fomentando toda uma estrutura de informação capaz de captar dados que vão desde os passos de um atleta até

o status de uma usina nuclear. Tudo conectado, tudo interligado.

Todavia, a conexão das coisas pela internet não é uma aplicação nova.

A conexão por si só já surgiu com a própria internet, quando ainda se chamava

DARPA nos meados da década de 60, e assim em diante prosseguiu. Hoje, muito facilmente você conseguirá adquirir kit que irá lhe permitir controlar lâmpadas da sua casa e saber a temperatura e umidade da sua residência. Entretanto, isso não é Internet das Coisas, isso é telemetria.

A Internet das Coisas como fundamento de toda uma transformação da nossa sociedade conectada reside na forma com que iremos tratar as informações captadas pelos elementos conectados – incluindo humanos. A existência de equipamentos eletrônicos diversos conectados à internet já é uma realidade. Veja seu smartphone, sua smartTV, pulseiras inteligentes, carros inteligentes e até tênis inteligentes. Essas e outras “coisas” geram dados. Numa das primeiras estimativas feitas pela Oracle, será um fluxo de dados ocasionado por cerca de mais de 50 bilhões de dispositivos conectados à internet, gerando

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mais de 40 trilhões de gigabytes de dados em fluxo na rede.

O que são esses dados? Podem ser dados tais como sua pulsação, sua localização no planeta, sua velocidade, suas preferências por músicas, filmes, produtos, fotos, sua forma de andar, força ao pisar, seu trajeto de trabalho, etc. No contexto da Internet das Coisas os dados ganham sentido quando se transformam em informações. Quando esses dados ganham algum sentido.

Ou seja, sua pulseira inteligente pode monitorar sua pulsação, e cruzando com uma base de dados na nuvem – internet – ela é capaz de dizer, com respaldo na sua faixa etária e índice de massa corporal, se seus batimentos estão OK ou não, ou no pior dos cenários, se é preciso um atendimento médico.

Seu carro pode monitorar a forma como que você usa os pedais e o trajeto que você percorre todos os dias, e cruzando com uma base de dados na nuvem frente aos dados de outros motoristas, se adaptar para eletronicamente controlar os recursos do carro de forma a obter a maior eficiência no seu percurso diário, e assim economizar combustível, mesmo sem você notar.

Percebem que nestes exemplos as “coisas” captaram dados do meio, processaram esses dados, obtiveram informações com relação a esses dados, e automaticamente, tomaram alguma ação? Essa é a Internet das Coisas.

Essa

tomada

de

ação

inteligente

com

dados

obtidos

de “coisas”

conectadas à internet é o grande feito que chama a atenção para a Internet das Coisas. É este o ponto de convergência para novas oportunidades de negócio, novas oportunidades de idéias, de produtos, de inovação.

Por exemplo, fazer uma cafeteira ser comandada pelo celular usando a

Internet não é algo tão diferente assim

com o despertador, que por sua vez traçou o seu perfil de sono e com esses dados chegou à informação que você não dormiu bem, e assim é capaz de

fazer um café mais forte no ponto certo pra te “acordar” para mais um dia de

trabalho

Infelizmente nem tudo são flores. Com tanta informação assim circulando pela internet a segurança torna-se um pilar indispensavelmente fundamental no sustento desse novo ecossistema integrado. É interessante imaginar que dentro em breve seu médico seja capaz de acompanhar seus sinais vitais remotamente, mas já pensou no risco dessas informações caírem nas mãos erradas e um terceiro descobrir e expor eventuais problemas de saúde? É interessante imaginar o cálculo inteligente de rotas de trânsito, mas já

Mas uma cafeteira que está integrada

Aí está a novidade!

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pensou no risco de um terceiro facilmente descobrir suas rotas diárias?

Esses e demais pontos mostram que há duas faces na Internet das Coisas: a beleza dos serviços e a tragédia da exposição. A segurança, aqui, não está para brincadeira. A sociedade já está passando por uma transformação no seu cerne rumo ao estabelecimento de leis e incorporação de novas culturas quanto ao uso da Internet das Coisas – vide os impactos causados pelas mídias sociais e o uso crescente de dispositivos conectados, brinquedos, videogames, celulares, óculos, etc.

Por fim, a Internet das Coisas remete então ao uso da inteligência no uso das informações com base nos dados coletados de elementos diversos ao nosso redor. Já é realidade, novidade para alguns, presente para poucos, futuro de todos. O que você vai fazer com ela? Pode ser um usuário, comprando produtos conectados. Ou um empreendedor, criando os novos produtos e aplicações. Ou até mesmo um agente, participando das leis, ideias, propostas para fundamentar o seu saudável uso. Mas ela está aí, e veio pra ficar.

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SUMÁRIO

EDITORIAL

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DESENVOLVIMENTO DE ANTENAS IMPRESSAS: ANTENA RETANGULAR SIMPLES Antônio Carlos Marangoni; Henrique José da Silva; André Márcio de Lima Curvello; Daniel Aparecido Pires

13

SISTEMA DE AUTOMAÇÃO DE HORTAS HIDROPÔNICAS Luiz Antonio Pereira Junior; André Márcio de Lima Curvello

25

DESIGN INCLUSIVO: UMA TRANSIÇÃO ENTRE A ALFABETIZAÇÃO VISUAL PARA A SENSORIAL Marlon Cleber Trovão; Claudio Ari Ciacon

48

TRATAMENTO TÉRMICO DOS AÇOS: MÉTODOS E OBJETIVOS

68

Paulo Roberto Quiudini Júnior; André Alexandre Silveira Quiudini; Eduardo Ceneviva Berardo; Fernando Ferreira Del Monte; Hugo Henrique Silveira Quiudini

ENSINO DE FÍSICA: ESTUDANDO ONDULATÓRIA UTILIZANDO SIMULAÇÕES COMPUTACIONAIS Alexandre da Silva Pedroso; Adriel Fernandes Sartori

87

A IMPORTÂNCIA DA ERGONOMIA NO AMBIENTE DE ESCRITÓRIO Ruanyta Muriel Marques de Oliveira; Linda Teresinha Saturi

97

INTERPOLAÇÃO POLINOMIAL Laís Vilioni e Silva; Kairo Meneghetti Andrade Junqueira; Alysson Alexander Naves Silva; Cláudia Amadeu Vicci

131

MOBILIDADE URBANA SUSTENTÁVEL: VIABILIDADE DE IMPLANTAÇÃO DE UM ANEL CICLOVIÁRIO INTEGRADO COM O TRANSPORTE PÚBLICO COLETIVO EM FRANCA

SP Carlos Gomes Júnior; Linda Teresinha Saturi

145

DESENVOLVIMENTO DE REDES DE SENSORES SEM FIO Antônio Carlos Marangoni; Henrique José da Silva; André Márcio de Lima Curvello; Vinícius Henrique do Carmo da Silva

169

SETOR MOVELEIRO: A ESCOLHA DO MATERIAL PARA PROJETO DE MÓVEL MULTIFUNCIONAL João Pedro Gomes Lopes; Linda Teresinha Saturi

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EDITORIAL

Este volume da revista Design & Tecnologia, em sua edição inaugural de 2016, apresenta dez artigos relacionados às áreas de Design e diversos campos de conhecimento em tecnologia.

O artigo que abre este volume traz um estudo sobre antenas impressas de autoria de Antônio Carlos Marangoni, Henrique José da Silva, André Márcio de Lima Curvello e Daniel Aparecido Pires intitulado, Desenvolvimento de antenas impressas: antena retangular simples.

Os autores do segundo artigo, Luiz Antonio Pereira Junior e André Márcio de Lima Curvello, desenvolveram um sistema de automação de hortas hidropônicas utilizando equipamentos lógicos programáveis e outros periféricos, objetivando um sistema de pequeno porte que possa gerenciar hortas hidropônicas e apresentam os resultados no artigo Sistema de automação de hortas hidropônicas.

Marlon Cleber Trovão e Claudio Ari Ciacon em seu artigo, Design inclusivo: uma transição entre a alfabetização visual para a sensorial, apresentam uma maneira de aplicação do Design de forma a aperfeiçoar o processo de alfabetização sensorial durante a perda da visão e da alfabetização visual, focando-se no processo de perda de visão decorrente da retinose pigmentar.

No quarto artigo, Tratamento térmico dos aços: métodos e objetivos, os autores Paulo Roberto Quiudini Júnior, André Alexandre Silveira Quiudini, Eduardo Ceneviva Berardo, Fernando Ferreira Del Monte e Hugo Henrique Silveira Quiudini realizam, por meio de uma revisão de literatura, uma compreensão geral dos diversos processos de tratamentos térmicos dos aços.

Ensino de física: estudando ondulatória utilizando simulações computacionais, de Alexandre da Silva Pedroso e Adriel Fernandes Sartori, apresenta novas tecnologias da informação e comunicação nas aulas de Física, com o intuito de melhorar a aprendizagem dos alunos.

Ruanyta Muriel Marques de Oliveira e Linda Teresinha Saturi no artigo, A importância da ergonomia no ambiente de escritório, evidenciaram aspectos que devem nortear projeto arquitetônico de ambiente adequado, de modo que, em sua organização, seja previsto e incorporado conceitos que

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aprimorem as condições ambientais e ergonômicas, atendendo às exigências dos trabalhadores.

No sétimo artigo, Interpolação polinomial, os autores Laís Vilioni

e

Silva, Kairo Meneghetti Andrade Junqueira, Alysson Alexander Naves Silva

e

Cláudia Amadeu Vicci estudaram o problema de aproximação de funções

por meio dos métodos numéricos de interpolação polinomial de Lagrange e Newton, aplicando-os, posteriormente, ao número de casos de incidência de dengue na região Sudeste do Estado de São Paulo.

Em Mobilidade urbana sustentável: viabilidade de implantação de um anel cicloviário integrado com o transporte público coletivo em Franca SP os autores Carlos Gomes Júnior e Linda Teresinha Saturi mostram a utilidade do transporte cicloviário, seus benefícios e aprimoramentos oferecidos pela Mobilidade Urbana.

Antônio Carlos Marangoni, Henrique José da Silva, André Márcio de Lima Curvello e Vinícius Henrique do Carmo da Silva no artigo intitulado, Desenvolvimento de redes de sensores sem fio, apresentam as principais características das referidas redes.

Por fim, o décimo artigo, Setor moveleiro: a escolha do material para projeto de móvel multifuncional, escrito por João Pedro Gomes Lopes e Linda Teresinha Saturi aponta um panorama geral de materiais mais utilizados no Brasil para fabricação de mobiliário, com destaque para derivados da madeira, metais, polímeros e vidros.

Desejo a todos os leitores uma excelente leitura repleta de reflexões pertinentes ao atual momento em que vivemos.

Fabiana Parpinelli Gonçalves Fernandes

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DESENVOLVIMENTO DE ANTENAS IMPRESSAS:

Antena retangular simples DEVELOPMENT OF PRINTED ANTENNA:

Simple rectangular antenna

Antônio Carlos Marangoni

Doutor em Ciências, mestrado em Bioengenharia (Escola de Engenharia-USP), Capacitação em Ambiente Virtual para EAD (UNIFEI). Possui graduação em: Ciências Físicas Biológicas e Matemá- tica; Química Licenciatura; Física Licenciatura e Pedagogia Plena. Autor de material didático de Química e Física para EAD. Atualmente é professor titular do Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos desde 2011.

Henrique José da Silva

Possui graduação em Eletrônica e Telecomunicações pelo Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL-1990), graduação em Engenharia Eletrotécnica - Sistemas e Comunicações pelo Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL-1994) e mestrado em Engenharia Eletrotécnica e Computadores pelo Instituto Superior Técnico (IST-2001) da Universidade Técnica de Lisboa. Foi docente no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa desde 1995 até 2006 e atualmente é docente na Universidade de Franca, Franca - SP. É coordenador do curso de Tecnologia em Meca- trônica Industrial na UNIFRAN, desde 2010 e também coordenador do curso de Engenharia Meca- trônica na UNIFRAN, com início em 2012.

André Márcio de Lima Curvello

Engenheiro de Computação com ênfase em Sistemas Embarcados, graduado pela Universidade de São Paulo, campus São Carlos. Possui MBA em Gestão de Tecnologia da Informação pela Universi- dade de Franca – UNIFRAN, e é mestre em Processamento de Sinais e Instrumentação pela Escola de Engenharia de São Carlos, USP. É docente na UNIFRAN nos cursos de Sistemas de Informação, Ciência da Computação, Engenharia Mecatrônica e Mecatrônica Industrial, e também atua como instrutor para treinamentos in-company e EAD.

Daniel Aparecido Pires

Graduando em 2016 no 4º Ano do curso de Engenharia Mecatrônica da UNIFRAN.

RESUMO Com os avanços tecnológicos e equipamentos eletrônicos compactos na área de telecomunicações exige-se um estudo intensivo sobre as antenas. Neste trabalho serão projetadas, simuladas e construídas antenas impressas para 2.4GHz em substrato convencional FR4. Inicialmente estudaremos os tipos de antenas, apresentando suas estruturas básicas, características fundamentais e parâmetros importantes de construção. Posteriormente vamos projetar os primeiros protótipos no formato retangular, analisar os resultados obtidos

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através do software Sonnet, construí-las e com isso contribuir para o desenvolvimento tecnológico das antenas impressas. Palavras-chave: Antenas impressas, dielétrico, Microlinha de fita, Ondas eletromagnéticas.

ABSTRACT With technological advances and compact electronic equipment in telecommunications it is required an intensive study on the antennas. This work will be designed, simulated and built printed antennas for 2.4GHz in conventional FR4 substrate. Initially we will study the types of antennas, with their basic structures, fundamental characteristics and important parameters of construction. Later we will design the first prototypes in rectangular format, analyze the results obtained from Sonnet software and build them, thereby contributing to the technological development of printed antennas. Keywords: Printed antennas, dielectric, microlight tape, electromagnetic waves.

INTRODUÇÃO Antenas são dispositivos eletrônicos que emitem e captam ondas eletromagnéticas, possibilitando a comunicação entre dois ou mais dispositivos eletrônicos (RIOS E PERRI, 2002). Um pré-requisito para o estudo sobre antenas é dominar a teoria eletromagnética, circuitos elétricos e outros conceitos de física e de matemática (RIBEIRO, 2012). Existem diferentes tipos de antenas, porém, acima de 1GHz, as antenas impressas apresentam diversas vantagens, tais como, pequena dimensão, facilidade de construção, possibilitam a integração de dispositivos eletrônicos, robustez mecânica, podem ser adaptadas em superfícies curvas e facilita a construção de agregado de antenas (RIBEIRO, 2012). Porém, elas também apresentam desvantagens, tais como, estreita banda de frequências; perdas significativas, dependendo do dielétrico; operam com potencias baixa e é difícil conseguir pureza de polarização (RIBEIRO, 2012). Podemos encontrar diversos livros e artigos científicos com exemplos de técnicas de aperfeiçoamento e miniaturização das antenas para várias aplicações (GONÇALVES E PINHO, 2012). Um problema da antena na captação e irradiação de ondas

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eletromagnéticas é a adaptação da impedância do elemento irradiador, com

a linha de transmissão, por isso é importante o ajuste de impedância entre os

mesmos, no intuito de otimizar o uso de energia elétrica (RIOS E PERRI, 2002). É evidente a importância da antena para as comunicações, pois só com ela atualmente é possível à radiocomunicação, esses sistemas tendem a utilizar frequências elevadas, pois dessa forma se conseguem maiores largura de faixa

e miniaturização (RIOS E PERRI, 2002). Com avanços tecnológicos, científicos e suas aplicações em sistemas de comunicação, as antenas necessitam de aperfeiçoamentos para que se adaptem às exigências das novas tecnologias, utilizando técnicas de otimização para que se adequem a dispositivos de comunicação menores. Antenas possibilitam uma variedade de aplicações, entre elas: em sistemas de radares, comunicações por satélite, processos de detecção e identificação, entre outros (RIBEIRO, 2012).

PROBLEMAS APRESENTADOS EM ANTENAS IMPRESSAS Acoplar a linha de transmissão ao elemento irradiador, faixa de frequência de utilização, diagrama de irradiação desejado, ganho exigido pelo projeto, polarização a ser empregado e devido a variedade de aplicações justifica o seu estudo e desenvolvimento, melhorando suas características e descobrindo novas possibilidades (RIBEIRO, 2012).

POSSÍVEL SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA No intuito de reduzir os problemas da largura da faixa de antena, da eficiência de irradiação, do acoplamento entre a alimentação e o elemento irradiador, temos que estudar a constante dielétrica do substrato e a espessura (RIBEIRO, 2012). Para garantir a eficiência da antena, devemos levar em consideração as dimensões do elemento irradiador que influenciam na impedância de entrada, frequência de ressonância, fator de mérito, largura de faixa e na polarização da antena (RIBEIRO, 2012).

MÉTODOLOGIA Existem diversas características fundamentais das antenas impressas, em particular a sua estrutura mecânica e construção. Utilizando um substrato convencional, também usado em eletrônica, podemos projetar e construir diferentes modelos de antenas visando o controle da largura de faixa, do

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diagrama de radiação, do ganho e da polarização. Podemos criar protótipos passivos e ativos, pela integração de componentes eletrônicos e observar as melhorias obtidas para cada protótipo. O estudo tem características evolutivas partindo de protótipos simples passivos até protótipos complexos e ativos.

DIRETIVIDADE

É o quanto irradia energia na direção de máxima potência em relação à

antena isotrópica que apresenta uma distribuição de energia igual em todas as direções, conforme a Figura 1 (RIOS E PERRI, 2002).

as direções, conforme a Figura 1 (RIOS E PERRI, 2002). Figura 1: Digrama de irradiação de

Figura 1: Digrama de irradiação de uma antena. Fonte: Logicamax, s.d., n.p.

GANHO

É a eficiência em relação à outra e o quanto entrega potência ao meio,

geralmente se utiliza um padrão e se define o ganho de todas, em relação a este padrão (RIOS E PERRI, 2002).

POLARIZAÇÃO Define-se como a posição do campo elétrico em relação ao plano de terra. Os tipos mais comuns de polarização são: horizontais, verticais, circulares e cruzadas, como representado na Figura 2 (RIOS E PERRI, 2002).

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17 Figura 2: Polarização de uma antena, campo E (elétrico) e campo B (magnético). Fonte: Teleco,

Figura 2: Polarização de uma antena, campo E (elétrico) e campo B (magnético). Fonte: Teleco, s.d., n.p.

ACOPLAMENTO DA LINHA DE TRANSMISSÃO E O ELEMENTO IRRADIADOR Para fazer o acoplamento da antena com a linha de transmissão e o elemento irradiador, devemos compreender as características de impedância, para que não haja perdas de energia, onde temos uma impedância complexa,

uma parte resistiva e outra reativa, que são respectivamente a impedância real

e imaginaria da antena (VISSER, 2015). Existem dois tipos de linha de transmissão, os balanceados e os não balanceados. Em antenas devemos utilizar baluns, que faz o acoplamento da antena com a linha de transmissão, com o intuito de eliminar a corrente que flui pela parte externa da linha não balanceada. Podemos ter balun de quarto de onda que é obtido colocando uma luva condutora de comprimento igual a

λ / 4, envolvendo o cabo coaxial (RIOS E PERRI, 2002). Uma corrente de alta frequência fluindo em uma antena apresenta algumas resistências, pelo fato do condutor ser imperfeito. Irá aparecer uma resistência ôhmica e o valor dependerá da frequência e resistividade do material. Em frequências altas o dielétrico apresenta perdas de energia e há também uma resistência própria do condutor chamada de resistência de terra (RIOS E PERRI, 2002).

RISCOS À SAÚDE Quando uma antena opera na faixa de frequências de GHz, pode causar danos irreparáveis ao corpo humano, esses efeitos são causados pelo aquecimento da pele. Nos Estados Unidos existe um órgão que determina

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níveis seguros de densidade de potência que variam de 1mW/cm² a 10mW/ cm². Dentro desta faixa de frequências o corpo humano não é bom condutor e nesse limite de densidade de potência, o corpo humano oferece resistência ao campo eletromagnético (PAUL, 2006).

ANTENAS IMPRESSAS Antena impressa é constituída de um elemento irradiador sobre uma lâmina dielétrica, possuem um plano de terra na face oposta do dielétrico e trabalham na faixa de micro-ondas, iniciando em UHF (ultra high frequency) até ondas milimétricas, conforme esquema da Figura 3 (RIBEIRO, 2012).

milimétricas, conforme esquema da Figura 3 (RIBEIRO, 2012). Figura 3: Estrutura básica de uma antena, destacando

Figura 3: Estrutura básica de uma antena, destacando seus elementos. Fonte: Teleco, s.d., n.p.

As dimensões iniciais do elemento irradiador podem ser obtidas pelo método da cavidade, porém, ajustes são necessários para reduzir os efeitos das perdas por franjamento (NASCIMENTO et al, 2007). A constante dielétrica do substrato, a espessura do substrato (h) e as dimensões do elemento irradiador (a e b), definem várias características da antena (BARBOZA & NETO, 2014), (NASCIMENTO et al, 2007), (COSTA & DMITRIEV, 2014). A constante dielétrica do substrato tem uma influência significativa na largura de faixa e na eficiência de irradiação, um substrato com menor constante dielétrica, diminui a eficiência de excitação da onda de superfície, influência no diagrama de irradiação e permite maior largura de faixa relacionada ao máximo coeficiente de onda estacionaria (RIBEIRO, 2012).

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A espessura do substrato influência no acoplamento entre a

alimentação e o elemento irradiador, com isso, tem efeito na largura de faixa em relação ao coeficiente de onda estacionária, se for mais espesso, oferece uma maior largura de faixa, mas reduz a eficiência no acoplamento entre a linha de transmissão e a antena (RIBEIRO, 2012).

As dimensões do elemento irradiador influenciam na impedância de

entrada, nas características de emissão e captação, na frequência de ressonância, no fator de mérito e na largura de faixa (RIBEIRO, 2012).

GEOMETRIAS Existem diversos tipos de formatos, os mais comuns são: dipolo impresso; plaqueta retangular; circular; elíptica; triangular; quadrada e de anel plano. Existem estruturas com combinações de dielétricos, sendo espessura e constantes diferentes ou regiões de ar entre os mesmos, conforme representado na figura 4 (RIBEIRO, 2012).

mesmos, conforme representado na figura 4 (RIBEIRO, 2012). Figura 4: Alguns Modelos de antenas impressas. Fonte:

Figura 4: Alguns Modelos de antenas impressas. Fonte: Night Wire Engineering, s.d., n.p.

TIPOS DE ALIMENTAÇÃO Existem dois tipos de sistemas de alimentação: o direto e o indireto. No sistema direto, a alimentação é acoplada diretamente no elemento irradiador,

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já no sistema indireto a alimentação é transferida para o elemento irradiador por acoplamento eletromagnético (RIBEIRO, 2012). Na alimentação por microlinha de fita, o sinal é guiado para o elemento irradiador através da mesma, a largura pode ser calculada através de um software. Esse cálculo depende das propriedades do substrato, como espessura, constante dielétrica e frequência de operação, conforme demonstrado na Figura 5 (RIBEIRO, 2012).

conforme demonstrado na Figura 5 (RIBEIRO, 2012). Figura 5: Técnica de alimentação direta na antena

Figura 5: Técnica de alimentação direta na antena impressa por meio de uma microlinha de fita. Fonte: Night Wire Engineering, s.d., n.p.

Se a excitação for por cabo coaxial, o condutor central do mesmo atravessa o dielétrico e é conectado ao elemento irradiador na parte superior do substrato e o condutor externo do cabo, é ligado diretamente ao plano terra, conforme esquema da Figura 6 (RIBEIRO, 2012).

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21 Figura 6: Alimentação da antena por meio de um cabo coaxial. Fonte: Teleco, s.d., n.p.

Figura 6: Alimentação da antena por meio de um cabo coaxial. Fonte: Teleco, s.d., n.p.

ANTENAS PROJETADAS

Foi utilizado um substrato convencional para projetar e construir as primeiras antenas. Calculamos as dimensões do elemento irradiador.

A largura da microlinha de alimentação foi determinada no software

TXLINE 2001- microstrip e a antena foi simulada no software Sonnet.

O protótipo da antena tem geometria retangular como ilustra a figura

7-A. O substrato utilizado foi o RF-4 com constante dielétrica 4,4 e 1,5 mm de espessura.

A dimensão ressonante para 2.4GHz é de 29 mm e foi aberta uma

cavidade de 8,7 mm de profundidade para obter uma impedância de 50Ω. Na figura 7-B constatamos que o parâmetro S11, simulado apresenta um valor menor que -10dB em uma largura de faixa de aproximadamente 11 MHz. Em 2.4 GHz o valor de S11 chega a -40dB. Na figura 7-C observa-se a carta de Smith a variação de impedância e na figura 7-D analisa-se a distribuição de densidade de corrente na superfície do elemento irradiador.

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33 29 9 8.7 A S11 [dB]
33
29
9
8.7
A
S11 [dB]
C
C
0 -5 -10 -15 -20 -25 -30 -35 -40 -45 2,39 2,392 2,394 2,396 2,398
0
-5
-10
-15
-20
-25
-30
-35
-40
-45
2,39
2,392
2,394
2,396
2,398
2,4
2,402
2,404
2,406
2,408
2,41
Frequência [GHz]
B
D
D

Figura 7: Projeto da antena e resultados obtidos por simulação. Fonte: O autor.

RESULTADOS Na antena emissora foi integrado um circuito ativo para conversão de frequências. O circuito possui um oscilador cuja frequência medida é de 1954,35 MHz. O sintetizador de RF é um HP8657A com frequência ajustada para 445,65 MHz. No circuito o misturador converte para 2400 MHz. As figuras abaixo representam os desenhos das antenas feitas no software SolidWorks e imagens dos protótipos.

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23 Figura 8: (A) Desenho da antena; (B) Imagem da antena; (C) Layout do circuito; (D)

Figura 8: (A) Desenho da antena; (B) Imagem da antena; (C) Layout do circuito; (D) Circuito eletrônico. Fonte: O autor.

MATERIAIS Quadro 1: Lista de componentes utilizados

Placas de circuito impresso de dupla face FR4

Conectores SMA

Reguladores de tensão 7815 e 7808

Oscilador POS-2000 da Mini-Circuits

RF Choke ADCH-80A da Mini-Circuits

Misturador de frequência MBA-15L da Mini-Circuits

Capacitores 10 nF

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CONCLUSÃO Foi projetada e simulada uma antena impressa para 2.4 GHz, a antena foi construída e na mesma integrado um circuito eletrônico de conversão de frequências. O estudo teve características evolutivas passando de um protótipo de antena passiva chegou-se a um protótipo de uma antena ativa. No futuro serão realizadas medidas de diagrama de irradiação e fator de reflexão de entrada.

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SISTEMA DE AUTOMAÇÃO DE HORTAS HIDROPÔNICAS

AUTOMATION SYSTEM OF HYDROPONIC GARDENS

Luiz Antonio Pereira Junior

Graduando de 2015 no curso de Ciência da Computação da Universidade de Franca.

André Márcio de Lima Curvello

Engenheiro de Computação com ênfase em Sistemas Embarcados, graduado pela Universidade de São Paulo, campus São Carlos. Possui MBA em Gestão de Tecnologia da Informação pela Universidade de Franca – UNIFRAN, e é mestre em Processamento de Sinais e Instrumentação pela Escola de Engenharia de São Carlos, USP. É docente na UNIFRAN nos cursos de Sistemas de Informação, Ciência da Computação, Engenharia Mecatrônica e Mecatrônica Industrial, e também atua como instrutor para treinamentos in-company e EAD. Atua como consultor e desenvolvedor de projetos com sistemas embarcados com destaque em sistemas de automação, aplicações móveis e internet das coisas. Escreve artigos para o Portal Embarcados sobre eletrônica, automação, ferramentas e kits de desenvolvimento em sistemas embarcados, além de escrever para seu site pessoal e manter um canal no YouTube.

RESUMO O propósito deste trabalho é desenvolver um sistema de automação de hortas hidropônicas utilizando equipamentos lógicos programáveis e outros periféricos, objetivando um sistema de pequeno porte que possa gerenciar hortas hidropônicas, bem como criar uma base de dados com os levantamentos feitos pela leitura do equipamento de medição, que são os responsáveis pelas tomadas de decisão do equipamento principal. Dentre os equipamentos utilizados para o desenvolvimento estão Arduinos, Shields, reles, notebook para a comunicação serial e o gerencialmente dos dados salvos, e a monitoria em tempo real do sistema, não levando em conta os itens mecânicos como canos e bombas, que são elementos básicos de toda hidroponia. Baseado na proposta pôde-se concluir que o objetivo foi alcançado, criando uma lógica que interage juntamente com os componentes formando um sistema completo, dentro do proposto, para essa aplicação em específico, que nos testes se mostrou confiável e passível de utilização prática. Com base no protótipo criado e na tecnologia aplicada nesse desenvolvimento, verificamos ser possível a utilização em uma miniatura de estufa bem como em um sistema de produção

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de larga escala, como uma horta comercial de grande porte, variando somente os periféricos mecânicos, como bombas e reservatórios. Palavras-chave: Hidroponia; Automação; Arduino; Monitoramento.

ABSTRACT

The purpose of this work is to develop an automation hydroponic gardening system using programmable logic devices and other peripherals, aiming

a small system that can manage hydroponic gardens as well as create a

database with the research done by the reading of the measuring equipment, which are responsible for decision making of major equipment. Among the equipment used for development are Arduinos, shields, relays, notebook for serial communication, and management of the saved data and real time monitoring system, not considering the mechanical items such as pipes and pumps, which are basic elements of all hydroponics. Based on the proposal we can conclude that the goal was achieved, creating a logic that interacts with the components forming a complete system, according to what was proposed,

for this specific application, which in testing has proven reliable and capable of practical use. Based on the created prototype and the technology applied in this development, we find it possible to use in a miniature green house as well

as in a large scale production system like a large commercial orchards, varying only the mechanical devices such as pumps and reservoirs. Keywords: Hydroponics; Automation; Arduino; Monitoring.

INTRODUÇÃO Buscando um sistema de produção de alimentos eficiente e que demande pouca atenção, pensou-se em um sistema hidropônico que consiste em produzir alimentos sem terra, sendo produzida em tubos com solução nutritiva, que é elegante, prático e econômico. Com base em uma hidroponia, foi então estudado o melhor meio de desenvolvimento da parte elétrica e lógica do sistema, com placas programáveis de entrada e saída de dados, no caso, Arduino juntamente a outros componentes para automatizar um sistema de produção hidropônico. Também foi pensado na possibilidade da implementação de um sistema integrado, que faz a monitoria dos dados e os salve, caso seja necessário fazer algum estudo ou levantamento.

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1 OBJETIVO

O objetivo desse trabalho é apresentar a criação de um sistema que possa transformar uma horta hidropônica em um meio mais autônomo, tentando manter o baixo custo e a alta qualidade, para atender a todas as

exigências que um sistema complexo como este requer. O sistema é maleável

e pode ser utilizado em protótipos ou em uma hidroponia em tamanho maior, modificando-se somente componentes como bombas e tamanho dos canos, ou seja, o objetivo é criar uma programação geral para atender aos mais variados níveis de utilização do sistema.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Hidroponia é um sistema de cultivo que independe do solo possibilitando o cultivo de grande numero de culturas alimentícias em vários locais onde o cultivo tradicional é inviável:

Essa técnica de cultivo apresenta como objetivo produzir plantas sem fixá-las diretamente no solo, podendo produzir em qualquer local e em qualquer época do ano. Isto se aplica tanto para áreas desérticas e áridas, quanto para áreas urbanas ou produzir no interior de estufas fechadas, o que reduz bastante a contaminação e modifica as condições meteorológicas, resultando em plantas mais sadias, podendo ser produzidas, praticamente, durante todo

o ano, oferece inúmeras vantagens como: os nutrientes fornecidos de forma balanceada, cultivo protegido ocasionam maior produtividade, redução do ciclo de produção e a diminuição da contaminação por pragas e doenças, gerando produtos mais saldáveis, menor contaminação do meio ambiente

e das pessoas que nela trabalham (SANTOS. 2000 apud HACHIYA et al, 2014,

p.3).

Entretanto como é um processo de produção complicado, pois consiste

em um sistema que funciona 24 horas e requer atenção para qualquer variação

é interessante pensar em um sistema de automação, que controle grande parte

desse processo, facilitando o trabalho de produção final. Na busca por tecnologias específicas para a automação hidropônica, poucos foram os resultados e por esse motivo buscou-se tecnologias similares, que proporcionassem uma base para a criação de sistemas voltados para a hidroponia.

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2.1 Plataforma para automação

É interessante falar sobre a plataforma Arduino, que será a base para a automação, que foi concebida em volta da ideia do faça você mesmo, como descrito a seguir:

O Arduino é uma plataforma de computação física de fonte aberta, com base

em uma placa simples de entrada/saída (input/output, ou I/O), assim como em um ambiente de desenvolvimento que implementa a linguagem Processing (www.processing.org). O Arduino pode ser utilizado para desenvolver objetos interativos independentes, ou conectado a softwares de seu computador (como Flash, Processing, VVVV, ou Max/MSP). As placas podem ser montadas manualmente, ou compradas pré-montadas; você pode fazer o download gratuito do Integrated Development Environment (IDE) de código aberto em

www.arduino.cc. (BANZI, 2015, p.17).

O Arduino, por ser uma plataforma de fácil programação, conta com vasto número de projetos criados ao longo do tempo, entretanto, poucos deles foram criados exclusivamente para hidroponia por isso foi necessário encontrar referências de projetos criados para outros fins, estudá-los e criar com base neles um único sistema que englobe todos e que seja total e exclusivamente voltado para um sistema hidropônico.

2.2 Comunicação entre Arduino e computador

Java é uma linguagem de programação orientada a objetos, bastante utilizada na comunicação serial com Arduino de forma fácil e prática, pois o mesmo já conta com bibliotecas pré-programadas para facilitar a comunicação com qualquer computador, como o caso da biblioteca RXTX, conforme descrito:

Com a grande facilidade da linguagem Java de integrar diversas plataformas são criadas bibliotecas para possibilitar o reaproveitamento do código, a biblioteca

RXTX faz a comunicação tanto serial quanto paralela da porta USB, desta maneira

os dados são enviados do Arduino para o aplicativo. Para iniciar a biblioteca basta

importar para a IDE de desenvolvimento e iniciar a sua compilação. Seus códigos podem ser todos alterados fazendo assim com que tenha mais controle sobre a

aplicação (OLIVEIRA et al., 2015, p.3).

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3 MATERIAIS E MÉTODOS

O funcionamento de hortas hidropônicas foi estudado por cartilhas de como devem ser os aspectos específicos da mesma, conversando com pessoas

que possuem prática e convivem com o sistema para se ter noção do dia-a-dia

e do que é indispensável. No decorrer do ano foram estudados os componentes que mais se encaixariam no desenvolvimento do projeto, como o Arduino, que segundo McRoberts (2011) pode ser classificado como um computador de tamanho reduzido que trabalha com sinais de entrada e saída. Também foram buscados outros componentes relacionados ao Arduino conforme descrito no desenvolvimento do trabalho, levando em conta custo, duração, manutenção

e reposição. Buscou-se em artigos, livros e trabalhos acadêmicos sistemas similares empregados em outros projetos, que foram utilizados para criação de um sistema único voltado exclusivamente para a hidroponia. Também foram verificados modos de salvar os dados para análise futura

e de criar um levantamento de gastos e produção. Para tanto foi utilizado um

banco de dados para criar um sistema de armazenamento de dados persistente.

4 DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA

Devido a variedade de fatores envolvidos na criação deste projeto, ao mesmo tempo abrangendo programação, biologia e elétrica, houve a necessidade de dividir o desenvolvimento em diferentes partes que se integram. No início do projeto foram visitadas estufas de hidroponia e feito um levantamento de como as mesmas foram construídas e, baseando-se nesse padrão, foi criada uma miniatura de uma hidroponia com 90cm de comprimento, 45cm de largura, com 6 barras de cano perfuradas (perfis) com 11 furos cada uma, totalizando 66 furos; por ser um protótipo foi utilizado um tamanho reduzido entre os furos (4,5cm), sendo assim, considerado uma incubadora. Também foram utilizados alguns reservatórios e algumas bombas para transferência da solução dos reservatórios para os canos, dentro das quais ela corre por gravidade e voltam para os reservatórios, como pode ser visto na figura 1.

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30 Figura 1: Imagem do projeto completo Fonte: Criação do autor O sistema teve seu desenvolvimento

Figura 1: Imagem do projeto completo Fonte: Criação do autor

O sistema teve seu desenvolvimento baseado na IDE (interface de desenvolvimento) Arduino, demonstrado na figura 2, que é programado com base na linguagem de programação C, e que necessita de seus drives instalados corretamente, conforme diz Evans (2011) é necessário instalar os drives do Arduino para que ocorra a comunicação entre USB e Serial ou não será possível enviar o programa para o Arduino.

ou não será possível enviar o programa para o Arduino. Figura 2: Interface de Desenvolvimento com

Figura 2: Interface de Desenvolvimento com um código exemplo aberto Fonte: ARDUINO, 2015, n.p.

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O primeiro passo tomado para o desenvolvimento do projeto foi automatizar a alimentação da bomba principal nos canos de alimentação, com um intervalo pré-programado, de forma a alimentar as plantas e as deixar respirar um tempo. Para isso foi usado um chaveamento a base de reles como na figura3, próprios para Arduino que quando alimentados com um sinal positivo deixam passar a corrente, e quando perdem essa alimentação abrem a ponte e cortam a corrente no fio.

essa alimentação abrem a ponte e cortam a corrente no fio. Figura 3:Modulo rele Fonte: REIS,

Figura 3:Modulo rele Fonte: REIS, 2014, n.p.

Fazendo a devida ligação entre os reles e a bomba de alimentação, foi desenvolvido o trecho de código para cuidar respectivamente desse parâmetro, que é um sistema de se ou senão. Para exemplificar como o código ficou é apresentado o exemplo minimalista do real:

setempoLigado [menor] 60 ligarBomba Verdadeiro senãotempoLigado [maior] 59 LigarBomba Falso setempoLigado [igual] 600

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tempoLigado [recebe] 0 tempoLigado [recebe] tempoLigado [mais] 1 Baseado no algoritmo acima, se o tempoLigado estiver entre 0 e 60, ou seja, um minuto, a bomba estará ativa, entretanto quando passar deste tempo a bomba se desligará, e um contador continua até que se passem 10 minutos para zerar novamente o contador e iniciar a alimentação, lembrando que segue uma escala de uma Hidroponia comercial. Outro ponto interessante aplicado no projeto foi a redundância das bombas de alimentação, visando minimizar o risco de perda de produto e consequentemente lucro caso a bomba falhe ou chegue mesmo a queimar, seguindo essa premissa foram utilizados dois sensores de corrente, como na figura 4, que retornam sinais digitais de saída como (ALLEGRO, 2015, p.1) “sensibilidade de saída entre 66 e 185 mV/A 1 ” que foram tratados como no exemplo a seguir:

se sensorCorrente1 [igual] Verdadeiro ligaBomba1 Verdadeiro se sensorCorrente1 [igual] Falso se sendorCorrente2 [igual] Verdadeiro ligaBomba2 Verdadeiro se sensorCorrente1 [igual] Falso [e também] sensorCorrente2 [igual]

Falso

//Aqui acontece o tratamento para quando as duas bombas

falharem

ligaBobma1 Verdadeiro ligaBomba2 Verdadeiro

Representado em forma de algoritmo acima é um código simples que faz basicamente: se o sensor da bomba 1 indicar que ela está apta a funcionar, ela é ligada, já se ele perceber que ela não esta apta a funcionar ele verifica pelo sensor de corrente da bomba 2 se ela está apta a funcionar, se estiver ele a liga, caso ambos retornem falso, ele tenta ligar os dois para evitar a perda, e retorna um sinal para o sistema que será tratado mais a frente.

1 “66 to 185 mV/A output sensitivity”

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33 Figura 4: Sensor de corrente Fonte: ZARELLI, 2014, n.p. Continuando o desenvolvimento do projeto, o

Figura 4: Sensor de corrente Fonte: ZARELLI, 2014, n.p.

Continuando o desenvolvimento do projeto, o próximo objetivo a ser trabalhado foi o sensor de temperatura que fica constantemente monitorando a temperatura para, se necessário, acionar aspersores sobre as plantas, evitando perda das mesmas pela alta temperatura. O componente utilizado foi o sensor de temperatura e humidade DHT11, como na figura 5, muito utilizado e com uma variação aceitável, como descrito a seguir: “Esse sensor usa o protocolo 1-wire, medindo temperaturas de 0 a 50 graus Celsius com precisão de ±2 graus, e a umidade relativa do ar de 20 a 95%, com precisão de ±5%.”(DEROSA, 2015, p.46).

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34 Foto 5: Sensor de temperatura e humidade DHT11 Fonte: MICRODUINO, 2014, n.p. Juntamente ao DHT11

Foto 5: Sensor de temperatura e humidade DHT11 Fonte: MICRODUINO, 2014, n.p.

Juntamente ao DHT11 foram utilizados outros componentes para al- cançar o sucesso nessa etapa, como outro modulo rele (visando uma maior organização, foi trocado o rele do sistema de alimentação por uma placa de 8 reles juntos, facilitando a manutenção), uma bomba e um aspersor.

O sistema foi programado igual ao real do utilizado nas hidropônias visitadas, trabalhando 10 segundos e permanecendo 10 minutos desligado, com um sistema de chaveamento para evitar que a temperatura permaneça alta, ele fica ligado indiscriminadamente. A seguir será descrito um algoritmo de como esse trecho está implementado.

se Temperatura [maior] Valor seTempoTeperatura [menor]10 LigarBomba2 Verdadeiro seTempoTemperatura [maior][igual] 10 LigarBomba2 Falso TempoTemperautra [recebe] TempoTemperatura [mais] 1 seTempoTemperatura [igual] 600

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TempoTemperatura [recebe] 0 Pensando não somente nos problemas que o excesso de calor pode causar, foi pensado também nos problemas que poderia acarretar a chuva, visto que, como o sistema trabalha a base de água ela não é necessariamente proveitosa, como seria no sistema de plantação comum (terra). Para isso foi

necessário captar se estava ou não chovendo com o sensor de chuva, figura 6,

que nada mais são que placas com várias

que segundo Silva (2015, p.04) “[

trilhas que se encarregam de detectar água quando a mesma cai sobre elas fechando um “curto-circuito” que envia um pulso ao Arduino”.

]

um “curto-circuito” que envia um pulso ao Arduino”. ] Figura 6: Sensor de chuva Fonte: FILIPEFLOP,

Figura 6: Sensor de chuva Fonte: FILIPEFLOP, 2014, n.p.

A implementação do sensor de chuva, foi pensada para desativar as bombas de alimentação enquanto está chovendo, pois assim, a água da chuva que correr pelo cano será derramada, evitando a perda da solução nutritiva também foi implementado um contador, para ser utilizado na ação de avisar o responsável pelo sistema que esta chovendo, como esse aviso acontecerá será demonstrado posteriormente. Anteriormente, foi demostrado o sensor DHT11 responsável por medir a temperatura e ativar a bomba de refrigeração. Optou-se por não desativar o sensor de chuva durante o processo de refrigeração, pois sendo assim, evitará o uso da bomba principal minimizando os custos do sistema, sem perda de qualidade. Visando o desenvolvimento de umas das características mais importantes para o sistema, o próximo passo foi o sensor de condutividade, figura 7, que é o componente responsável por medir a solução concentrada e retornar o valor da condutividade na água segundo o esquemático da figura 8.

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36 Figura 7: Sensor de condutividade da solução Fonte: DFROBOT, 2014, n.p. Figura 8: Esquema de

Figura 7: Sensor de condutividade da solução Fonte: DFROBOT, 2014, n.p.

de condutividade da solução Fonte: DFROBOT, 2014, n.p. Figura 8: Esquema de ligação do sensor de

Figura 8: Esquema de ligação do sensor de condutividade. Fonte: DFROBOT, 2014, n.p.

Ficando no reservatório principal, o sensor acima faz a leitura, segundo a segundo da condutividade da solução. No começo um problema encontrado era o período de calibração do equipamento, pois sempre que ele era ligado eram apresentados resultados com uma discrepância absurda (a solução medida com um equipamento previamente calibrado apresentava 2,2 e no período de inicialização era apresentada com um início de 0,5 a 4,3) e isso

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atrapalha a questão da bomba de solução concentrada. A bomba de solução concentrada nada mais é do que um reservatório com uma solução nutritiva não diluída que futuramente será diluída no reservatório principal que é ativado por um dos reles da placa com oito. Anteriormente, foi mostrando o problema da variação retornada pelo medidos, para isso foi feita uma abordagem simples e eficaz, um delay de 20 segundos, onde toda a aplicação está funcionando mais ignorando a parte em que verifica se é necessária uma dose de solução concentrada no reservatório principal. Senso assim, depois dos 20 segundos, a solução está estabilizada e caso seja necessário suprir o reservatório principal com mais solução concentrada, um comando ativa o rele, que aciona a bomba levando do reservatório secundário para o principal, por 4 segundos. Também baseado nesse medidor foram implementadas mais duas funcionalidades, sendo elas, um aviso de falta de água no reservatório principal e a falta de solução concentrada no reservatório secundário. Para a função de aviso de falta de água no reservatório principal foi utilizada a propriedade do medidor de condutividade que retorna o valor nulo quando fica fora da solução, sendo assim, quando ele estiver no reservatório e retornar o valor nulo, é sinal de que o nível da solução desceu e está na hora de adicionar mais. Baseado nisso, foi implementado um sistema de aviso ao administrador que será descrito mais à frente. É interessante ressaltar a importância do período para estabilizar o sistema, pois, nos primeiros segundos depois de ligado, ele sempre ficava acusando esse fator, causando algumas variações indesejadas no sistema que foram corrigidas pelo intervalo de 20 segundos. Já para a funcionalidade de aviso quanto à solução concentrada em falta, foi feita uma abordagem de valores mínimos, ou seja, se o sistema ativa a bomba de solução concentrada quando a medição retorna um valor abaixo do mínimo para o bom desenvolvimento das plantas, quando ele apresenta uma grande discrepância pode ser um problema na bomba de solução concentrada, como no exemplo: se a solução esta em 2 e o mínimo é 1,7, quando a principal cair para 1,6 a bomba de solução concentrada é acionada, mais se o valor da solução principal é retornado com 1,2 é por que está ocorrendo um problema na bomba de solução concentrada, que pode ser a falta da solução em si ou mesmo algum problema na bomba. Lembrando que nessa última funcionalidade, também é emitido um aviso, pois um erro nessa etapa pode ocasionar grandes perdas na produção.

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O sistema de avisos foi feito com um modulo GSM sim900, como pode

ser visto na figura 9.

com um modulo GSM sim900, como pode ser visto na figura 9. Figura 9: Esquema de

Figura 9: Esquema de ligação do sensor de condutividade. Fonte: ARDUINO, 2014, n.p.

Esse módulo apresenta as características básicas de um celular, tais como realizar ou receber chamada, enviar ou receber mensagens de texto, e acessar a internet. Para isso é necessário saber alguns comandos conhecidos como AT, que segundo (MAIA, 2015, p.28) “Os comandos AT são linhas de código com solicitações de serviços reconhecidas pelo módulo GSM SIM900. Esses comandos são fornecidos pelo fabricante e seguem um padrão de sintaxe [

No decorrer do desenvolvimento foi pensado em utilizar o modelo

GSM em conjunto com o Atmega 1280, entretanto sempre que se tentava

o módulo não funcionava corretamente; alguns problemas que foram

levantados na tentativa de utilizar o modulo GSM com o Atmega 1280 foi que

se utilizar uma versão antiga do programa para Arduino, ele compilava mas não enviava a mensagem se houvesse mais do que um sinal de entrada dos

periféricos, já quando se atualizou a plataforma de desenvolvimento, foi notado que ele não estava conseguindo se comunicar com o módulo, eles nem se reconheciam mais. Visto esse problema, foi pensado em utilizar o modulo GSM

de forma separa, sendo utilizado com um Arduino Uno, resolvendo o problema

da pinagem de comunicação e dos erros com a variáveis apresentados anteriormente.

Utilizando o modulo GSM de forma separada, também mudou-se a abordagem como era integrado ele ao sistema, pois ele não poderia ser acessado no mesmo projeto (código), sendo agora uma parte independente.

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Para isso, foi pensado em um padrão de sinal digital, ou seja, transmitir um sinal do Atmega para o uno quando alguma variação for notada, ficando a cargo do uno somente receber o sinal pronto e escolher qual mensagem enviar para o celular do usuário.

e escolher qual mensagem enviar para o celular do usuário. Figura 10: Mensagem do modulo GSM

Figura 10:Mensagem do modulo GSM

Fonte: Criação do autor, 2014, n.p.

Depois de tratadas as mensagens são enviadas para o celular cadastrado, podendo ser programadas a necessidade do sistema hidropônico. Para esse projeto foi utilizadas as seguintes mensagem:

- Bombas paradas: utilizado quando se tenta ligar as duas bombas e elas

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não estão recebendo corrente. Pode ser uma queda de energia e é necessário

ir ligar um gerador ou uma bateria ou mesmo que as bombas queimaram.

- Ligando aspersor: utilizado quando a temperatura sobe mais que o

permitido e é acionado o refrigeramento.

- Está chovendo: avisa ao usuário sobre chuva, para caso necessário

ele faça alguma intervenção manual mais drástica, como cobrir de forma

impermeável.

- Falta água no reservatório principal: é enviado quando o sistema

nota, por meio do sensor de condutividade, que esta faltando água na bomba que abastece os canos com solução nutritiva, e muito importante, pois, se falta água nesse reservatório, além de causar morte nas plantas pode danificar as bombas.

- Solução concentrada está no fim: essa mensagem é utilizada quando

a solução nutritiva do reservatório principal está abaixo do nível mínimo, e a

bomba secundária não está suprindo. - Bomba de solução concertada ativada: tendo um caráter mais informativo, essa mensagem é útil para que o responsável tenha uma noção se

o consumo esta nos padrões normais. Terminando, assim a parte do GSM, e também a parte de implementação diretadefuncionalidadenosprópriosArduinosouseusmódulos.Posteriormente veio a necessidade de se acompanhar o que esta acontecendo em tempo real no sistema. Para isso foi necessário utilizar uma comunicação entre o Arduino e outro equipamento, como um computador, de forma que eles se comuniquem por Serial, que nesse caso é pelos pinos RXTX que são responsáveis pela troca de dados entre Java (linguagem de programação) e o Arduino, como descrito

a seguir (SILVA, 2015, p.2) “Utilizando a biblioteca RxTx é possível enviar dados de um programa em JAVA para um hardware qualquer, desde que as devidas configurações sejam ajustadas” Baseado nesse padrão de comunicação foi levantado quais dados eram de interesse ser acompanhados em tempo real, sendo eles: Contagem de alimentação, temperatura, valor do sensor de chuva, contagem de chuva, condutividade e estado das bombas. Levantado os dados a serem repassador, foi feito a organização de forma que eles possam ser reconhecidos quando chegarem ao programa em Java, então dados que eram tratados cada um a sua forma foram mostrados uniformemente no seguinte padrão: Chuva:990;, ou

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seja, ele mostra qual sensor, separa por “:” em seguida o valor respectivamente recebido, e finaliza o comando com um “;” para que possa vir outro sensor, lembrando que ao final de cada sequência de códigos é necessário colocar um \n que nada mais é do que o ponto de parada de cada linha de comando recebida pela serial. No Java, foi criada uma rotina de leitura da serial que guarda em uma String (Campo de texto) tudo que foi recebido do Arduino para ser tratado. Depois de receber os dados do Arduino, foi criada uma interface em Jframe (interface visual) com todos os campos dos recebidos. Com a janela criada, foi feita um processo de desmembramento do código recebido pelo Arduino, para que cada campo da tabela Jframe recebesse o valor apropriado a cada segundo, que é o tempo de atualização da leitura. Na sequência foi feito uma rotina de repetição, que fica atualizando constantemente a tabela com dados recebidos sem a necessidade de ficar abrindo ou atualizando manualmente. O resultado final pode ser visto na figura

11:

manualmente. O resultado final pode ser visto na figura 11: Figura 11: Janela de monitoramento em

Figura 11: Janela de monitoramento em tempo real dos dados Fonte: Criação do autor

Baseado em um sistema de monitoramento, foi pensado também em programar a função de salvar os dados do sistema para uso futuro, tanto para estatística, como para verificar atos indesejados do sistema. Pensando nisso foi criado uma função que trabalha juntamente a um banco de dados, no caso o MYSQL, que é responsável por armazenar todos os dados coletados no sistema ao longo das horas e dos dias.

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Além de salvar, também foi criada uma interface de recuperação de dados, como pode ser visto a seguir. Ele funciona da seguinte maneira: o usuário clica no botão, Dados por período de tempo para que ele possa dar início na busca, figura 12.

tempo para que ele possa dar início na busca, figura 12. Figura 12: Botão de busca

Figura 12: Botão de busca de dados no banco de dados Fonte: Criação do autor

Posteriormente será aberta uma janela para que se digite a data inicial da busca, figura 13.

para que se digite a data inicial da busca, figura 13. Figura 13: Interface gráfica para

Figura 13: Interface gráfica para definir a data inicial Fonte: Criação do autor

Com base nisso, será retornado os próximos 30 dias salvos no banco e uma nova janela onde serão apresentados todos os dados salvos para uma análise futura, como na figura 14.

os dados salvos para uma análise futura, como na figura 14. Figura 14:Janela de resultado dos

Figura 14:Janela de resultado dos dados buscados Fonte: Criação do autor

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A seguir temos o sistema finalizado, que pode ser visto no esquemático elétrico na figura 15 e também o mesmo esquema de montagem com os próprios componentes.

o mesmo esquema de montagem com os próprios componentes. Figura 15: Esquema elétrico do sistema Fonte:

Figura 15: Esquema elétrico do sistema

Fonte: Criação do autor

15: Esquema elétrico do sistema Fonte: Criação do autor Figura 16:Foto demonstrando como está a conexão

Figura 16:Foto demonstrando como está a conexão do sistema Fonte: Criação do autor

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E por fim, um diagrama de sequência para exemplificar os passos ditos anteriormente de como o sistema opera, visto na figura 17.

anteriormente de como o sistema opera, visto na figura 17. Figura 17: Diagrama de sequência do

Figura 17: Diagrama de sequência do sistema. Fonte: Criação do autor

CONCLUSÃO Conclui-se que o objetivo do sistema foi alcançado, visto que foi criado um sistema de automação de hortas hidropônicas com Arduino funcional e viável. Também foi atingido o critério de um sistema modular, onde ele fica dentro de uma caixa que pode levar e instalar em qualquer tipo de hidroponia. Também foi notado, no decorrer do desenvolvimento, que esse sistema não abrange somente hidroponias de médio e grande porte, pois, é possível utilizá-lo para uma produção domestica de tamanho mínimo, como demostrado no protótipo. Por fim, fica demonstrado um sistema independente, mas que cabe evolução segundo as necessidades adquiridas de futuros estudos, para o sistema se tornar mais complexo e abranger áreas inicialmente não exploradas.

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DESIGN INCLUSIVO: UMA TRANSIÇÃO ENTRE A ALFABETIZAÇÃO VISUAL PARA A SENSORIAL

INCLUSIVE DESIGN: A TRANSITION FROM VISUAL TO SENSORY LITERACY

Marlon Cleber Trovão 1 Graduação em Design Gráfico pela Universidade de Franca (UNIFRAN) em 2015.

Claudio Ari Ciacon 2 Possui graduação em Desenho Industrial pela Faculdade de Tecnologia de Birigui (1991), graduação em Direito - Instituição Toledo de Ensino (1981) e mestrado em Desenho Industrial pela Universidade Estadual Paulista - Júlio de Mesquita Filho (2004). Atualmente é professor das Faculdades Integradas Interamericanas e Universidade de Franca - UNIFRAN. Tem experiência na área de Desenho Industrial, com ênfase em Ergonomia, atuando principalmente nos seguintes temas: Design Gráfico, Moda e Produto, Ergonomia, Artes Plásticas e Lighting Design.

RESUMO Este trabalho busca entender as relações entre as dificuldades vivenciadas por portadores de baixa visão ou deficientes visuais e suas necessidades perante a inclusão na sociedade. Compreender o cenário vivenciado por estas pessoas é primordial para aplicar o design e sua capacidade inclusiva para, assim, encontrarmos caminhos de auxílio ao processo de perda de alfabetização visual para a alfabetização sensorial. Para aplicar o design de maneira inclusiva para deficientes visuais é preciso entender a concepção de incluí-los e não diferenciá- los, para, assim, estudar as possibilidades já executadas e ter uma compreensão que possibilite a elaboração de um projeto inclusivo. Esta pesquisa evidencia os grandes danos presentes em indivíduos que se encontram no processo de perda de visão. Desta maneira, o estudo aqui apresentado aponta o grande impacto cognitivo e nos alerta aos pontos peculiares de se projetar para pessoas que se encontram neste cenário, levando em conta os fatores que influenciam na percepção visual, design inclusivo e design emocional. Palavras Chaves: Design emocional, design inclusivo, deficiência visual, percepção visual.

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ABSTRACT This paper seeks to understand the relationship between the difficulties experienced by people who have low vision or are visually impaired and their needs before the inclusion in society. Understanding the scenario experienced by these people is imminent to apply the design and its inclusive capacity to find ways to assist the process of loss of visual literacy to sensory literacy. To apply the inclusively design for visually impaired peopleit is necessary to understand the concept to include and not to differentiate, and thus, study the possibilities already executed and have understanding to form an inclusive project. The research shows the great damagein people who are in the process of vision loss. Thus, the study here presented shows the great cognitive impact and alerts us to the peculiar points to design for people who are in this scenario, taking into account the factors that influence the visual perception, inclusive design and emotional design. Keywords: Emotional design, inclusive design, visual impairment and visual perception.

INTRODUÇÃO

O Design surge como uma ferramenta a serviço do homem e da

sociedade como um todo. Esse pensamento surgiu após a revolução industrial, quando se viu a metodologia do Design aplicada em linhas de produção visando projetar em maior número e com maior impacto social.

Em pleno século XXI, ainda se mantém o pensamento de projeto amplo buscando abranger toda a sociedade, entretanto, é evidente a falta de inclusão social nos projetos.

O Design inclusivo surge como ferramenta no século XXI, visando

conceber, produzir e comercializar produtos, serviços e ambientes que sejam acessíveis e utilizáveis por todos sem exceção. Desta forma, o papel do Designer passa a ter maior cunho social, no qual se busca maneiras de aplicação do Design de forma mais inclusiva para as pessoas em processo de perda de visão.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, cerca de 285 milhões de pessoas possuem deficiência visual, sabe-se que o processo de perda visual é extremamente complicado, passar da alfabetização visual para a sensorial é um processo lento e dolorosoe muitas vezes ocorresem o auxílio necessário para uma aceitação psicológica e rápida adaptação sensorial. Desta forma, buscam-se caminhos de atuação para o Designer pesquisar a passagem da alfabetização visual para a sensorial.

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Explorar os sentindo do homem está além das divisões do Design em gráfico, produto ou qualquer outro, necessitando, assim, da unificação da metodologia de projeto das várias áreas do Design, ou seja, as divisões categóricas hoje existentes no Design devem ser quebradas para a elaboração de projetos que unifiquem e abordem todos os cinco sentidos.

A alfabetização visual, assim como o Design, está presente nas mais

diversas ocasiões, áreas e lugares. Assim, o trabalho do Design deve ocorrer de maneira inclusiva para facilitar a passagem de alfabetização, atuando de modo a preencher as necessidades iniciadas com a perda de visão, como leituras, navegações em interfaces, identificação de pictogramas, entre outros, para quepossam ser absorvidos pelos sentidos remanescentes.

Esta pesquisa, portanto, visa descobrir uma maneira de aplicação do Design de forma a aperfeiçoar o processo de alfabetização sensorial durante a perda da visão e da alfabetização visual, focando-se no processo de perda de visão decorrente da retinose pigmentar. Segundo o Serviço de Oftalmologia da Faculdade de Medicina do ABC, a retinose é a maior causa de cegueira na população brasileira e no mundoatinge 1,5 milhões de indivíduos. Assim, busca-se aprimorar o processo de passagem para a alfabetização sensorial,pois cabe ao Designer buscar uma forma de transgredir o modo pelo qual o ser humano, em processo de perda de visão, enxerga o mundo. Por meio de pesquisas e levantamentos de outros projetos já realizados, busca-se, com esta pesquisa, o conhecimento necessário para encontrar caminhos para o desenvolvimento correto de um projeto inclusivo, levando em conta os fatores que influenciam o processo de perda de visão.

1. A ANATOMIA DO OLHO HUMANO

Compreender o olho humano e seu funcionamento é essencial para melhor entender suas deficiências e, assim, buscar superar os desafios que surgem durante o processo de perda de visão.

A compreensão de todo este processo é de extrema importância

para se encontrar possibilidades de aplicação do Design de maneira incisiva no mencionado processo, visando um avanço no aprimoramento sensorial. Portanto, realiza-se a seguir uma análise da anatomia do olho humano e seu funcionamento fisiológico.

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Para Ramos (2006), a visão é responsável por 75% da percepção do ser humano, ato este que se divide em três diferentes ações, que são: óticas, químicas e nervosas.

O órgão responsável pela captação da informação luminosa/visual e

transformá-la em impulsos a serem decodificados pelo sistema nervoso é o OLHO: é um instrumento altamente especializado e delicadamente

coordenado, e cada uma de suas estruturas desempenha um papel específico

na transformação da luz, se transformando no sentido da visão. Toda a

entrada de luz do meio externo até chegar à retina, faz parte do sistema

ótico, propriamente dito. A sensibilização da retina se faz quimicamente, a

luz

convertida em impulsos elétricos, é transportada através do nervo ótico

até

o córtex. (RAMOS, 2006, p.11).

Ao interpretarmos Ramos, temos a consciência que a fisiologia do olho humano é composta por vários elementos distintos, tendo suas funções separadas.Sendo assim podemos imaginar que tamanha complexidade de anatomia pode acarretar diversas anomalias distintas, ou seja, a deficiência pode ocorrer em partes separadasdo sistema.Desta forma, as deficiências geradas podem ocorrer também de maneiras diferentes, acarretando, assim, diversas maneiras de perda de visão. As inúmeras anomalias que podem levar à perda de visão tendem a ter características únicas durante seu processo. O olho humano é definido por Ramos (2006) como um sistema complexo e composto por várias partes que atuam de maneiras distintas para completar o ato de enxergar, em que, primeiramente, se executa a função ótica pela estrutura responsável pela captação de luz, seguindo-se pelos elementos que transformam a luz em impulso magnético. Ramos define, ainda, o olho de forma simplificada, como uma estrutura formadapor: córnea, íris, pupila, cristalino, retina, esclera e nervo ótico.

2. CAMPO VISUAL Segundo Ramalho (2008), o campo visual pode ser monocular e binocular. O campo visual monocular é o campo visual dado por um só olho e, quando normal, tem a forma de um oval irregular, medindo em graus, a partir do ponto de fixação, aproximadamente: 60º superior e nasal 75º inferior 100º temporal.

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Para Nishida (2012),

Campo visual de um olho é a extensão do ambiente que pode ser vista, estando a cabeça imóvel. No ser humano o campo visual abrange cerca de 150º e os campos de ambos os olhos se sobrepõem em cerca de 120º. A sobreposição dos dois campos na retina proporciona a experiência tridimensional do ambiente (relevo e profundidade). A determinação do campo visual é de grande importância clínica, pois as deficiências visuais em áreas especificas do campo visual permitem fazer correlações com lesões nos diferentes pontos da via visual

(NISHIDA, 2012). Matos (2008) cita a visão periférica, em suas pesquisas, como acapacidade para detectar e reagir a estímulos situados fora da visão foveal, ou seja, a visão periférica e o campo visual são caracterizados pela capacidade de captar imagem fora do eixo central de visão. Assim, segundo Grandjean (1973), essas peculiaridades geram a necessidade de focar o ponto central da visão em determinado lugar para que, então,se possa obter detalhes. Esse foco é um resultado da junção do movimento gerado pela cabeça e os olhos. A visão periférica, apesar de apresentar uma menor acuidade para detalhes, apresenta uma melhor percepção de movimentos, desta maneira, compreendemos o motivo da visão humana apresentar menos detalhes em objetos em movimento e a sensação de borrões fora do nosso campo central de visão.

3. CEGUEIRA Segundo a CBO, Conselho brasileiro de Oftalmologia (2012), a cegueira é definida com base em dois parâmetros de analise:a acuidade visual (maior capacidade de discriminar dois pontos a uma determinada distância) e o campo visual. De acordo com Masini (1993), o termo“deficiente visual”é dividido para sinalizar dois grupos de portadores de síndromes, os cegos e os que portam uma visão subnormal. Cego seria aquele indivíduo que dispõe de 20/200 de visão no melhor olho eteria visão subnormal o indivíduo que possui 20/70 de visão nas mesmas condições.

Em 2011, a OMS tornou a estimar globalmente e por região a magnitude da deficiência visual, da cegueira e de suas causas, a partir de dados reunidos em 2010. Globalmente, o número de pessoas de todas as idades com deficiência

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visual é estimado em 285 milhões, dos quais 39 milhões são cegos. 82% dos cegos têm 50 anos ou mais. Essa estatística não inclui a presbiopia não corrigida, cuja prevalência é desconhecida (Conselho Brasileiro de Oftalmologia, 2012).

SegundoCBO(2012),acegueiraestádivididaemcategoriasrelacionadas

a fatores etários, mais de 82% das pessoas cegas estão acima da faixa dos 50 anos de idade e as faixas equivalentes a crianças cegas representam 10 vezes menos em comparação aos adultos.

O Conselho Brasileiro de Oftalmologia alerta, entretanto, para o cuidado

com a cegueira infantil, devido à grande extensão de tempo que terá que se conviver com o problema quando ele ocorre em crianças.

Já em estudos relacionados ao gênero sexual, a CBO (2012) apresenta

dados que evidenciam as mulheres como um grupo que corre maior risco de adquirir deficiência visual.Outro dado de extrema importância apresentado na pesquisa é que cerca de 90% das pessoas com cegueira em todo o mundo vivem em países subdesenvolvidos ou definitivamente pobres.

O processo de perda de visão muitas das vezes é lento, sendo gradativo

conforme o passar dos anos. Para a Organização Mundial da Saúde, existe uma grande preocupação acerca do processo de perda de visão em crianças, já que elas terão um problema para o resto da vida.

A CBO (2012) cita que, nas crianças,as maiores causas de cegueira

são relacionadas às deficiências de nascença e algumas doenças que causam a morte do paciente posteriormente, porém,salienta-se que amaioria das crianças cegas perdem avisão nos primeiros anos de vida, o que impossibilita uma completa alfabetização visual, já nos adultos temos uma série de doenças que podem levar à deficiência visual.

4.1 O impacto psicológico

O jovem, ao adquirir a deficiência visual, tende a sofrer um impacto

psicológico extremamente superior ao percebido por um idoso, o que é compreensível ao levar-se em conta a expectativa de vida do jovem em comparação à do idoso.Isto posto, o jovem tende a sentir uma grande aversão à sua atual situação,tornando-se propenso a sofrer extensos abalos psicológicos.

É natural que a pessoa sinta que o seu mundo ruiu ao cegar. As bases em que ele se sustentava deixarão de existir. Realizar tarefas quotidianas em casa, andar na rua, dirigir-se para a escola ou emprego, entre outras, deixará de

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ser possível antes de se ter iniciado um processo de reabilitação (MEDEIROS,

2009).

Os profissionais de saúde e os professores não devem esquecer que as perdas que a cegueira traz são muitas. Segundo Carrol (1968), podem

ser sistematizadas da seguinte forma: perdas emocionais, perdas das competências básicas, perdas na consideração pessoal, perdas relacionadas

à ocupação profissional, perdas na comunicação e perdas que implicam a personalidade como um todo (MEDEIROS, 2009).

São explicitasas dificuldades psicológicas que surgem no processo de perda de visão, assim, a falta de inclusão da sociedade pode agravar ainda mais o estado psicológico do jovem neste processo, de modo a gerar grandes perdas emocionais. Segundo Medeiros (2009),as perdas emocionais se caracterizam pela fragilidade da autoimagem do ser, a pessoa que tinha a visão como âmbito central, agora se sente perdendo sua referência, deixando de sentir-se completa ou capacitada como os outros, tornando-a fragilizada e psicologicamente instável.

O peso do que lhe sucedeu assume tais proporções que pode ficar

psicologicamente instável. Tarefas simples do quotidiano, como olhar-se

ao espelho, escolher uma peça de roupa ou cumprimentar um amigo à

distância, tornam-se impossíveis e geram situações de afastamento, de necessidade de ajuda e de angústia (MEDEIROS, 2009).

Por mais psicologicamente estável que o indivíduo se encontreantes de passar pelas dificuldades da perda de visão, ele está propenso a se tornar instável psicológico e emocionalmente durante o enfrentamento de sua atual situação,enquanto busca encontrar uma adaptação.

O enfrentamento pode ser visto como uma tentativa psicológica do sujeito

para lidar com um dano físico ou emocional que surge abalando a sua estrutura psíquica. De acordo com Korács: “O enfrentamento é definido como

o uso de recursos físicos, psicológicos, cognitivos e sociais para prevenir a

integridade somática e psíquica, e para alcançar a adaptação”(KORÁCS, 1997, pg.107, APUD; DOURADO, 2006).

O enfrentamento é necessário para abrir caminho para a reabilitação do indivíduo na sociedade, sendo, desta forma, possível se tornar apto a conviver com o mundo por meio das habilidades que o restam, trazendoa possibilidade de utilizá-las para suprir suas necessidades.

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De acordo com Fonseca (1995), após o período de enfrentamento se dá

a reabilitação deste indivíduo. O termo “reabilitar” é originário do latim

“re-habituar”, ou seja, tornar-se apto, capaz de novamente estabelecer alguma relação com o mundo através das habilidades que lhe restaram. Na reabilitação, a pessoa cega teria a oportunidade de aprender a conviver com

o que lhe resta, sendo que esta atitude lhe possibilitaria uma aprendizagem

acerca de sua própria condição, pois “a deficiência não é uma condição fixa e inalterável ou imutável” (FONSECA, 1995, p.68,APUD; DOURADO, 2006).

De fato, todo o âmbito cognitivo do indivíduo se vê comprometido e instável e, de certa forma, esses indicadorestendem a se agravar nos casos dos mais jovens. Em tais situações, o indivíduo se vê a refletir sobre seufuturo,perspectiva devidaeotempodeconvivênciaqueaindaterá,criandoumcenárioangustiante. De certa forma, ele se vê em uma condição de necessidade emvivenciar tudo de maneira intensa e mais rápida, uma vezque se encontra ainda jovem, porém com o futuro “comprometido”. Dentre as reações psicológicas,é possível encontraruma variação extensa,entretanto, háum padrão que ocorre commaior frequência.

Barezinski (op. cit) caracteriza as seguintes reações psicológicas como mais frequentes provocadas pela perda da visão: a dependência acentuada em relação aos adultos; a negação da limitação; recusa à competição ou constante preocupação em comparar-se e competir; repressão da agressividade com excessiva amabilidade às criticas; a dificuldade de relacionamento com os outros deficientes visuais e entre eles os videntes, insegurança a respeito de si mesmo; desconfiança acentuada em relação a outras pessoas e suas intenções; manifestações de ressentimento pela sensação de não ser querido e aceito pelo mundo, pois julga que ser diferente é ser inferior; predominância de pensamento mágico e misticismo; sentimentos de inveja; descontentamento; desconfiança acentuada sobre a sua capacidade sexual (cegueira + castração); isolamento, evitando situações sociais; também há acentuada necessidade de aprovação e afeto (DOURADO, 2006)

4.3 Percepção visual Percepçãovisual,nosentidodapsicologiaedasciênciascognitivas,é uma de várias formas de percepção associadas aos sentidos. É o produto final da visão consistindo na habilidade de detectar a luz e interpretar (ver)

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as consequências do estímulo luminoso, do ponto de vista estético e lógico. São os fatores externos ambientais e individuais que influenciam no resultado final de nossa percepção visual. A partir de Preece (1994) e Grandjean (1973) são definidos alguns fatores ambientais e individuais que influenciam.

Fatores ambientais

Iluminação de fundo: a intensidade da luz de fundo usada para

iluminar um estímulo pode afetar substancialmente sua visibilidade.

Adaptação à intensidade de luz: o olho humano é sensível à intensidade de luz devido ao nível de fotoreceptores na retina e também a dilatação da pupila. Este é o efeito que ocorre, por exemplo, quando entramos em uma sala escura de cinema.

Dispositivo de exibição da imagem: uma vez que vemos

imagens geradas por computador através de monitores de vídeo, as configurações de brilho, contraste, cor e gama irão afetar a percepção de qualquer estímulo visual. Claramente, nosso sistema visual mais sofisticado fica limitado à fidelidade do dispositivo de exibição sendo utilizado.

Interação com outros sentidos: estudos recentes (SHAMS, 2000;

ASTHEIMER, 1993) demonstram que existe uma complexa interação entre os sentidos, mais especificamente, descrevendo impactos do som na percepção visual.

Fatores individuais • Idade: a sensibilidade ao contraste varia em função da idade, degradando-se conforme esta aumenta.

Percepção de cor: as cores não são percebidas igualmente por

todas as pessoas. Algumas pessoas possuem daltonismo, fenômeno mais comum entre os homens e representado pela deficiência de visualizar as cores vermelho e verde.

Visão estereoscópica: uma grande parte da população, estimado

em uma pessoa a cada dez, não consegue notar a profundidade estereoscópica, ou seja, não consegue perceber profundidade como resultada da disparidade entre as imagens formadas por cada olho.

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• Formações da lente: uma visão incorreta pode resultar da falta

de capacidade do olho de ajustar corretamente a distância focal de sua lente para projetar o objeto fixado exatamente na retina. A miopia é um exemplo de formação da lente que leva a este fenômeno.

• Estado emocional: o estado emocional do observador afeta a

dilatação de sua pupila, afetando, consequentemente, a quantidade de luz que pode atingir a retina.

• Experiência: nossa percepção de objetos pode ser influenciada

pelo conhecimento prévio e por experiências anteriores. Estudos especulam, por exemplo, que laranjas são percebidas em telas de computador com cores mais ricas e naturais após serem avistadas e identificadas como tal pelo observador (PUC-RIO).

4.4 A Alfabetização sensorial para deficientes visuais

A maneira como vivemos e sentimos o mundo é estruturada em boa parte através da visão. Assim, quando este sentido apresenta algum problema, torna-se evidente o total despreparado dos outros sentidos para lidar e interagir com o mundo. Em tais situações, mostra-se essencial a estimulação dos sentidos remanescentes para ser possível uma adaptação do padrão de vida. Em casos de deficiência visual em crianças, principalmente, é primordial o estímulo sensorial para que ela possa se desenvolver normalmente.

A criança ao nascer responde a reflexos, (processos elementares, segundo Vygostsky) cuja porta de entrada são os sentidos. Logo, faltando um sentido, neste caso a visão, o que é essencial estimular na criança, para que a mesma tenha o desenvolvimento aproximadamente igual, em relação à criança que enxerga (CARLETTO, 2007).

Assim, a criança que nasce com deficiência visual possui a necessidade de maior contato com o mundo, buscando novas experiências para desenvolver cada vez mais os sentidos. Segundo Carletto (2007), a criança precisa ser estimulada em todos os momentos e de todas as maneiras, pois só assim o aprendizado se torna constante. Segundo Éwelyn Lima, Jaqueline Costa e Augusta Klebis (2013), ao contrário das crianças videntes, as que sofrem de alguma deficiência visual não podem usufruir o estimulo ambiente relacionado à escrita e leitura, como, por exemplo, o contato com outdoors, revistas, o que ocorre pela ausência de inclusão do braile no cotidiano da sociedade.

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Deste modo, os estímulos devem ser criados e inseridos na vida do deficiente visual, buscando, assim, suprir sua ausência no ambiente em que ele está inserido. Os outros sentidos devem ser desenvolvidos com habilidades especificas de tal modo a suprir a ausência da visão.

Algumas habilidades que crianças cegas teriam que estar desenvolvendo:

Perceber, reconhecer, identificar, discriminar e localizar a gama variada de sons existentes; Reconhecer, por meio de jogos; palavras começadas e terminadas pelo mesmo som; Discriminar a identidade de sons em palavras que contenham

rimas (Garcia et, al 2001, p. 52, APUD, KRIK,Lucicléia; ZYCH, Anízia,

2009).

Outras inúmeras habilidades a serem desenvolvidas são listadas por Garcia (2001), reforçando, ainda, que cabe aos educadores aderirem a estas atividades em sala de aula, em caso de crianças com deficiência visual.

1. O DESIGN

O Design está na vida da sociedade de maneira onipresente, em todos

os locais e objetos, porém, defini-lo não é tão simples quanto parece. A origem da palavra está ligada ao significado de projeto e ao ato de projetar. Mesmo diante desta ligação com o ato de projeto, sua definição encontra várias vertentes provindas dos mais diversos modos de pensamento e aplicação do Design, em suas variadas épocas e estilos

O Designer gráfico Alexandre Wollner (2005) define o Design como

algo tão complexo quanto definir a arte e, ainda, que não há interesse em defini-lo. Diz, entretanto, que o Design é o projeto como um todo, que se relaciona com a tecnologia e linguagem a serviço do homem.

A definição apresentada por Wollner é uma visão oriunda do período

do Design moderno, que se difere de outras visões provenientes de outros

períodos do desenvolvimento do Design gráfico.

Em 1922, de acordo com Phillip Meggs (1998), William AddisonDwiggins utilizou o termo graphicDesign Design gráfico – pela primeira vez. Seu propósito era denominar sua atuação como a de um individuo que trazia ordem estrutural e visual para as formas na comunicação impressa (KOPP, 2004).

O Design apresenta diversas posições de pensamentos em relação a sua definição e vertentes, porém, todas tem em comum a premissa de projetar a serviço do homem, ou seja, por mais variada que seja a definição do que

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realmente é o Design e se existem ou não suas vertentes, todas as concepções partem deste princípio. Löbach (2001, apud VASCONCELOS, 2009, p.22) comenta que o Design poderia ser deduzido como uma idéia, projeto ou plano para a solução de um problema e o ato de Design, então, seria dar corpo à ideia e transmiti-la aos outros

A metodologia do Design se aplica às soluções de problemas da sociedade em suas mais variadas vertentes de trabalho, não se pretende aqui trabalhar com a concepção de divisão do Design, e sim o seu amplo englobamento em âmbito geral. A função do Design na sociedade é definida, assim como o próprio Design, de várias maneiras, porém, todas partem do princípio da aplicação ao homem e da solução em forma de projeto.

O processo de Design gera um produto que se relaciona diretamente com o

consumidor. Essa relação apresenta aspectos essenciais, os quais Löbach (2001) coloca como funções do produto, sendo elas as funções prática, estética e

simbólica. Para o autor, a “[

outras funções secundárias” (LÖBACH, 2001, p.54), sendo a função principal definida de acordo com os objetivos do projeto. Heskett (1998) diz que

“o contexto social é muitas vezes, mais do que função mecânica, um fator

determinante da forma” (HESKETT, 1998, p.48). Segue apontando que fatores externos influenciam no estabelecimento de parâmetros para a função utilitária, ou prática como coloca Löbach, sendo a criatividade individual do Designer geralmente predominante ao determinar “até que ponto a forma resultante oferece experiência estética e possui uma função psicológica ou simbólica” (HESKETT, 1998, p.8-9), e que, quando fabricado, o artefato/objeto torna-se parte da realidade física de seu tempo, podendo ser avaliado por outros critérios e seus valores serem flutuantes e condicionados à sociedade da qual faz parte

(DORNELES, PEREIRA, RODRIGUES, SILVEIRA, 2010).

]

função principal está sempre acompanhada de

5.1 O Design de superfície Segundo Freitas (2011), o Design de superfícies trabalha a superfície não somente como algo plano de proteção de um material, mas como algo capacitado a uma carga comunicativa, sendo capaz de transmitir sensações e informações que podem ser percebidas por meio dos sentidos, tais como cores, texturas e grafismos.

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O Design de Superfície, em sua prática, desenvolve criativamente um conjunto de soluções para o tratamento de superfícies sob aspectos objetivos, técnicos e funcionais inserido num processo produtivo e mercadológico. E também, aspectos subjetivos fundamentados numa proposta conceitual, que utiliza a linguagem visual e tátil a partir dos elementos compositivos (como a cor, a forma, a textura e o ritmo), levando em consideração as questões culturais, psicológicas e sociais, propondo um argumento estético à superfície (GUBERT, 2011, APUD, RIGON, Patrick Ribeiro, 2012).

O Design de superfície permite a comunicação por meio de mais de um sentido humano, muitas vezes sendo capaz de unir a visão e o tato, abordando a superfície como algo além do plano. Freitas (2011) definiu a consciência tátil como passiva e controladora de sensações, como a pressão e temperatura,que influi diretamente no desenvolvimento da inteligência emocional, além do crescimento social e interações humanas. Ainda define a consciência tátil como algo que possibilita o trabalho do tato por meio de exploração de um ambiente com as mãos, os pés ou a boca, ajudando o cérebro a compreender o que está ao nosso redor por meio da vibração do som, altura, profundidade, dureza e textura.

Uma das funções do sentido do tato é identificar temperatura do ambiente

e objetos ao redor, primeiramente por uma questão de proteção. Uma

panela no fogo certamente possui uma temperatura mais elevada do que o corpo humano pode suportar. Por isso, cabe ao sentido do tato perceber as diferentes temperaturas e alertar ao corpo (FREITAS, 2011).

Dentre os sentidos humanos diretamente ligados à percepção das

Superfícies, o tato e a visão estão presentes de forma mais marcante, sendo imprescindível considerá-los na projetação da Superfície de um objeto. Barachini (2002, p. 3) defende isso quando diz que: “as qualidades visuais

e táteis da superfície, (sic) devem transformá-las integrando-as ao próprio

objeto de Design. Sua percepção instaura-se na relação entre as partes e o todo, entre o sujeito e o meio” (SHWARTZ, 2008).

Existem benefícios exclusivos que podem ser alcançados por meio da manipulação de superfície, Freitas (2011) cita em seu livro, Design de Superfície, o projeto de sinalização inclusivo para deficientes visuais que permite aos portadores da cegueira se locomover com maior facilidade por ambientes públicos através do uso de um código tátil inserido em um piso.

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Os princípios doDesign de superfícies nos levam a entender o braile como algo provindo da manipulação de superfícies, por meio do tato, para se alcançar um novo sistema de alfabetização para deficientes visuais (Figura 04).

Utilizado universalmente na leitura e na escrita por pessoas cegas, o Braille

é um sistema que consta do arranjo de seis pontos em relevo, dispostos em

duas colunas de três pontos. Os seis pontos formam o que se convencionou

chamar de “cela Braille”. A diferente disposição desses seis pontos permite a

O Sistema Braille foi

adotado no Brasil, a partir de 1854, com a criação do Imperial Instituto dos

Meninos Cegos, hoje Instituto Benjamin Constant. Esse sistema, inventado

pelo francês Louis Braille em 1825, foi utilizado em nosso país, na sua forma original, até a década de 40 do século XX, posteriormente sendo adaptado para melhor atender às necessidades da língua portuguesa. Por sua eficiência

e aplicabilidade, o Braille se impôs como o melhor meio de leitura tátil e

escrita para as pessoas cegas no mundo (LEMOS, 2006, APUD, RIGON, 2012).

formação de 63 combinações ou símbolos Braille. (

)

5.2 ODesign emocional

Segundo Demir (2009), o Designécapaz de despertar ou evitar determinadas emoções em seu público.

Segundo Norman (2008, p.11), “além de forma física e funções mecânicas, os objetos assumem forma social e funções simbólicas”. Os Designers voltam sua atenção para as pessoas e para o modo como elas interpretam e interagem com

o meio físico e social, na busca da projetação de interfaces emocionalmente adequadas e de experiências agradáveis ao usuário (SILVA, 2009).

Segundo Kripendorff6 (2000, p. 89), os aspectos humanos e sociais trouxeram um novo axioma epistemológico para o Design: a interface. Nesse sentido afirma

o autor: “não reagimos somente ás qualidades físicas das coisas, mas também aos que elas significam para nós”. A aceitação dessa afirmação trouxe mudanças irreversíveis na atividade projetual e passou a distinguir o Design centrado no ser humano do Design centrado no objeto (SILVA, 2009).

Desta forma, temos o aspecto emocional do Design como algo capaz decorresponder ao impacto psicológico da perda de visão em um indivíduo, ou seja, a utilização do Designemfavor de uma pessoa em processo de perda de visão traz consigo o apelo emocional dainclusão para o indivíduo.

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De acordo com Damásio (2000), a emoção é algo onipresente, faz parte da tomada de decisões, mesmo sob influência da razão. Possivelmente, seja essa a chave para a eficácia do Design Emocional. Iida e Mühlenberg (2006) confirmam essa importância ao afirmar que o uso das emoções tem interessado cada vez mais os Designers devido a grande importância que essas têm sobre as escolhas. Enfatizam ainda, que na maior parte das vezes elas sobressaem-se aos aspectos

racionais dessa (BOSCHETTI, 2010).

Com o objetivo de explicar a aplicação das emoções ao Design, Normann divide estas de acordo com três níveis de processamento cerebral:

visceral, comportamental e reflexivo. Posteriormente ele as associa, de forma bastante clara,às características do objeto: Design visceral > aparência; Design comportamental > prazer e afetividade do uso; Design reflexivo >auto- imagem, satisfação pessoal, lembranças. (NORMANN, 2008, p. 59)

5.3 O Design e o deficiente visual Segundo Silva, (2013) oDesigner, como interventor das relações entre homem e os produtos físicos ou virtuais, deve compreender melhor as relações eas especialidades de tal público a fim de identificar as dificuldades da vida diária existente.

Um exemplo positivo nesse sentido é do Centro Português de Design, da Universidade Técnica de Lisboa, que pode ser visto na revista “Experiências de ensino do Design Inclusivo em Portugal”. Tais experiências relatadas mostram diferentes maneiras de projetar produtos para pessoas com deficiências. Um dos artigos existentes nessa revista fala sobre uma atividade que visava colocar os estudantes de Design realizando atividades do cotidiano com olhos vendados, utilizando cadeiras de rodas, muletas ou com partes do corpo amarradas para simular deficiências. Tal abordagem permitiu que os estudantes refletissem sobre as dificuldades encontradas por pessoas que possuem diferentes deficiências, sensibilizando-os para o momento do projeto dos produtos (CENTRO PORTUGUÊS DE DESIGN, 2006, APUD, SILVA,

2013).

De maneira semelhante, outro instituto de ensino buscar associar a necessidade e compreender as dificuldades do público para quem se projeta:

o instituto Royal Collegede arte, em Londres, busca desenvolver projetos em parceria com empresas, como a Samsung, em quese tem a necessidade de atender àdificuldade de inclusão de deficientes com baixa visão em aparelhos

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eletrônicos. Tornar um produto inclusivo vem sendo o objetivo de instituições de ensino que buscam formar Designers aptos a trabalhar para públicos de deficientes.

Silva et. al. (2009) afirma que é necessário que o Designer tenha em mente os muitos fatores que realmente interferem no processo de percepção de produtos pelos deficientes visuais, projetando produtos que incluam o público específico, tomando o cuidado de não tornar os produtos diferenciados e sim inclusivos, através de formas sutis de informação no produto, aumentando a gama de usuários sem se restringir a públicos com deficiência, atendendo deste modo aos princípios de Design universal (KAMISAKI, 2011).

Em 2009, o Designer Seon-Keun Park viabilizou a fabricação pela Sansung do The Braille Phone (figura 2), baseando-se em um material de fácil modulação, feito a partir de um plástico eletroativo. Adaptado ao sistema de leitura Braille a nova alternativa propôs o aumento para acessibilidade de deficientes visuais. A cada comando dos dedos, o revestimento reage com um sinal elétrico, que eleva a superfície e identifica os botões do teclado. Essa tecnologia permite a digitação dos números para ligações e a troca de mensagens de texto. Novamente é o Design pensando no todo. Se os botões de referência no teclado já auxiliavam ao deficiente no momento de discagem, o problema de traduzir as informações vindas em mensagem de texto fora então solucionado por Seon-Keun Park

(KAMISAKI, 2011).

então solucionado por Seon-Keun Park ( KAMISAKI, 2011 ). ISSN 2358-1026 Figura 2 Rev. Des. e

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Figura 2

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Ao observar a aplicação do Design inclusivo para deficientes visuais em inúmeros projetos já existentes, vê-se que o Design é extremamente capaz de alcançar este objetivo, porém, nota-se que para cada projeto existe uma peculiaridade diferente, para cada mídia, há uma metodologia de projetar nova. Em âmbito digital se torna praticamente impossível o uso do tato, sendo necessáriaa utilização de outros sentidos para se alcançar a inclusão. O pensamento em mídia digital para inclusão de deficientes visuais ou pessoas de baixa visão deve, então, ser abordado sobuma temática distinta das mídias físicas.

Segundo Nielsen (2000),acapacidade de leitura no ambiente virtual diminui 25% em relação à leitura no papel. Devido a isto, a legibilidade da informação no ambiente virtual é um dos principais critérios de uma usabilidade adequada.

CONCLUSÃO

A deficiência visual causaum grande impacto psicológico no indivíduo,

que ocorre em um âmbito curto e de alta intensidade, principalmente em jovens que estão no processo de perda de visão.Desta maneira, o indivíduo acaba se privando do direito de viver e, por muitas vezes, acaba se vendo em um cenário depressivo devido àsensação de incapacidade e diferença em relação às demais pessoas de seu círculosocial.

O Design, como ferramenta inclusiva, se torna eficaz quando se compreende as necessidades do público ao qual ele está sendo aplicado. Desta forma,o emprego do Design no contexto da deficiência visual depende da abordagem a qual eleestá direcionado, ou seja, para se aplicar, é necessário entendermos as dificuldades e encontrar oponto no qual ele será eficaz.

A metodologia de projeto do Design é capaz de romper as barreiras

de suas divisões em gráfico, produto, moda e outros, desta maneira,busca a unificação de todas as suas vertentes em prol danecessidade doprojeto, ou seja, o ato de projetar é a definição de Design. Para poderprojetar e auxiliar pessoas com a perda de visão ealfabetizaçãovisual é necessário realizar uma interaçãocom os outros sentidos, como, por exemplo, o tato. Assim, ao projetar para portadores de baixa visão ou deficientes visuais, deve-se levar em conta o projeto como um todo: produto, forma, função, visual e etc., agregando,assim, os sentidos além da visão. Assim, torna-se possível a utilização do Design como uma ferramenta para otimizar o

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processo de alfabetização sensorial de um deficiente visual, possibilitando sua inclusão na sociedade. Ao entender o Design inclusivo e também o emocional, se enxerga a possibilidade de modificar as emoções e sensações das pessoas por meio do Design.Sendo assim, é possívelatuar sobre o impacto psicológico derivadodo processo da perda de visão, visandoaumentar a independência e diminuir o sentimento de incapacidade do indivíduo. Ao observar todo o exemplo de Design aplicado na inclusão do deficiente visual,se concluique é possível alcançar o objetivo de maneiras diferentes: abordando a tecnologia, mídias e sensações distintas,unificando o uso dos sentidos para suprir a ausência da visão ou até mesmo unificando a baixa visão ao uso dos outros sentidos, possibilitando e facilitando, assim, a transição de alfabetização visual para a sensorial por meio do desenvolvimento de habilidades e competências dos sentidos remanescentes. O projeto destinado a deficientes visuais ou de baixa visão deve ser abordado a partir de uma metodologia diferente, para que, então, possa ter um maior índice de acerto. Deve-se levar em consideração os fatores que influenciam na percepção visual, para que, assim,possa-seextrair o melhor aproveitamento entre a transição da alfabetização visual para a sensorial, ou seja, levar em conta os fatores que influenciam a percepção visual (como contraste, cor e luminosidade) é primordial para se aproveitar a baixa visão e alinhar a ela o incentivo ao uso do tato para,desta forma,desenvolver e ampliar

a capacidade dos sentidos restantes. Cabe, então, ao Designer administrar o uso dos fatores que influenciam a percepção visual, podendo aproveitar a baixa visão que ainda resta ao indivíduo, ou até mesmo eliminá-la, e forçá-lo ao uso tátil.

Diante de todo o exposto, observaram-se ascaracterísticas fundamentais para o desenvolvimento de um projeto inclusivo com foco em deficientes visuais, portadores de baixa visão ou pessoas que se encontram em processo de transição entre alfabetização visual para a sensorial, com foco no tato. Assim vimos que o designerconsegue atuar de maneira a estimular as habilidades e competências necessárias para o desenvolvimento dos sentidos

e aprimoramento da alfabetização, além de interferir diretamente no processo

e tempo necessário para alfabetizar um deficiente visual. Desta maneira, este estudo indica possíveis caminhos e processos que devem ser seguidos para a concepção do Design inclusivo paraeste público.

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TRATAMENTO TÉRMICO DOS AÇOS: MÉTODOS E OBJETIVOS

HEAT TREATMENT OF STEEL: METHODS AND OBJECTIVES

Paulo Roberto Quiudini Júnior

Cirurgião-dentista Mestre em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial pelo Centro de Pesquisas Odontológicas São Leopoldo Mandic, Docente do Departamento de Ciências da Saúde do IMES Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva. Aluno do curso técnico em Fabricação Mecânica IFSP (Instituto Federal de São Paulo)- Catanduva, SP. Aprendiz de cutelaria.

André Alexandre Silveira Quiudini

Cirurgião-dentista especialista em Ortodontia e Ortopedia facial pela Ortopós Catanduva/ Famosp. Aprendiz de cutelaria.

Eduardo Ceneviva Berardo

Formado em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina. Mestre Cuteleiro pela Associação Italiana de Cutelaria. Capitão da Polícia Militar do Estado de São Paulo- Comandante da Tropa de Força Tática e Oficial de Operações do 30º Batalhão de Polícia Militar

Fernando Ferreira Del Monte

Engenheiro mecânico graduado pela Universidade de São Paulo, Mestre em Projetos Mecânicos pela Universidade de São Paulo, Especialista em Administração de Empresas pela Universidade São Judas Tadeu. Doutorando em Projetos Mecânicos pela Universidade de São Paulo. Docente no Instituto Federal de São Paulo – Campus Catanduva-SP.

Hugo Henrique Silveira Quiudini

Cirurgião-dentista especialista em Implantodontia pelo COE- São José do Rio Preto, especializando

em Prótese Dentária.

RESUMO O objetivo deste artigo foi o de realizar uma revisão de literatura, que proporcionasse uma compreensão geral dos diversos processos de tratamentos térmicos dos aços. É muito antiga a preocupação do homem em obter materiais resistentes e de alta qualidade, sendo necessários milênios para aperfeiçoar métodos de tratamento térmicos mais eficientes dos metais. Entende-se como tratamento térmico, os processos de aquecimento e resfriamento, em condições controladas, de ligas metálicas ferrosas e não ferrosas, com o objetivo

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de modificar as suas propriedades, visando obter-se determinadas qualidades que permitam sua utilização em diversas aplicações. Palavras-chave: tratamento térmico, aço, aquecimento e resfriamento.

ABSTRACT The purpose of this article was to conduct a literature review, which would provide a general understanding of the various processes of heat treatment of steels. It is very old concern of man getting resistant materials and high quality, which required millennia to perfect more efficient thermal treatment methods of metals. It is understood as heat treatment, heating and cooling processes in controlled conditions of ferrous and nonferrous metal alloys, in order to modify its properties, aiming to obtain certain qualities that allow its use in various applications. Keywords: heat treatment, steel, heating and cooling.

INTRODUÇÃO É muito antiga a preocupação do homem em obter metais resistentes

e de qualidade, sendo necessários muitos anos para o homem aprender a lidar

de modo mais eficiente com o calor e com os processos de resfriamento, para fazer tratamento térmico mais adequado dos metais (SENAI, TELECURSO, 2000). A humanidade há milhares de anos (aproximadamente 1000 a.C.), descobriu os metais e as aplicações destes em seu cotidiano. Em seguimento, aprendeu que, com aquecimento e resfriamento desses metais, podia modificar suas propriedades mecânicas e metalúrgicas, tornando-os mais duros, trabalháveis ,moles, resistentes, frágeis, dentre outras características. Cerca de 350 a.C. surge na Índia, e ainda antes na China, o ferro de fusão: ferro extraído do minério por meio de fornos cujo funcionamento era semelhante ao dos atuais altos-fornos. Um bloco esponjoso obtido era martelado para libertar as escórias, sendo depois refundido em pequenos cadinhos que se deixavam arrefecer lentamente. Os aços de Damasco eram já verdadeiros compósitos formados de camadas alternadas de aço duro e aço macio, ligados entre si por solda e forjamento (VALE, 2011). Posteriormente, o homem descobriu o aço, liga de ferro e carbono,

e dela conseguiu obter características diferenciadas, como a elevada dureza, através do aumento da velocidade de resfriamento das ligas ou trabalhando com aços de teores de carbono mais elevados. Concluiu assim que esses dois fatores são decisivos nas modificações das propriedades dos aços. É antiga a

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preocupação do homem em possuir metais de elevada resistência e qualidade. Em guerras medievais, exércitos com espadas e outros armamentos metálicos levavam desvantagem bélica quando não tratavam termicamente seus arsenais, tornando-os vulneráveis no momento de repararem suas armas de

ferro danificadas. Em Roma, antes de Cristo, Júlio César desfrutava de vantagem do seu arsenal bélico sobre os demais, pois os romanos já haviam descoberto

o aumento da dureza do ferro, quando ele era aquecido durante longo tempo

num leito de carvão vegetal e resfriado, em seguida, em salmoura. Esse procedimento está relacionado às conquistas romanas em trechos onde havia água do mar que, naturalmente é salobra, sendo considerada a primeira forma de tratamento térmico conhecida, pois permitia a fabricação de armas mais duras e mais resistentes. (VALE, 2011).

Na Idade Média fabricava-se de novo o aço aquecendo-se o ferro em contato direto com materiais ricos em carbono. O enriquecimento em carbono

tinha como lugar unicamente a superfície. Para se obterem materiais duros, com certo volume, forjava-se em conjunto uma grande quantidade de pequenas peças de aço enriquecido em carbono. Todavia o homem necessitou de muitas gerações para lidar de maneira mais eficaz com o calor e com os processos

e meios de resfriamento dos metais, para realizar um tratamento térmico

melhorado. Apenas no século XVIII (1740) Huntsman redescobriu a fusão do aço. Fundindo em um cadinho pequenos pedaços de ferro enriquecido em carbono, obteve um bloco de aço homogêneo e que endurecia de maneira uniforme. No início do século XIX surgiu a elaboração, por mistura em cadinho, antes da fusão, de ferro e materiais ricos em carbono e, mais tarde, de gusa. Contudo, apenas em 1820 é que Karsten mostrou que a diferença entre ferro, aço e gusa (ferro fundido) consistia no teor em carbono. (VALE, 2011).

O tratamento térmico consiste em aquecer e resfriar uma peça de

metal para que ela atinja as propriedades desejadas como dureza, elasticidade, ductibilidade, resistência à tração, que são as chamadas propriedades mecânicas do metal. A peça adquire essas propriedades sem que se modifique

o estado físico do metal. Os principais fatores a serem considerados num

tratamento térmico são: aquecimento, tempo de permanência à temperatura e resfriamento, além da atmosfera do recinto, que possui grande influência sobre

os resultados finais. A velocidade de aquecimento, embora na maioria dos casos

seja fator secundário, apresenta certa importância, principalmente quando os aços estão em estado de tensão interna ou possuem tensões residuais devidas

a encruamento prévio ou ao estado inteiramente martensítico, porque, nessas

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condições, um aquecimento muito rápido pode provocar empenamento ou mesmo aparecimento de fissuras (POSTAL, SENAI, 1999).

ou mesmo aparecimento de fissuras (POSTAL, SENAI, 1999). Figura 1- Cuteleiro Eduardo Berardo aquecendo uma faca

Figura 1- Cuteleiro Eduardo Berardo aquecendo uma faca Fonte- http://berardofacascustom.blogspot.com.br/2016/02/uma-faca-do-inicio-ao-fim-3tratamento.html

A temperatura de aquecimento é mais ou menos um fator fixo,

determinado pela natureza do processo, e dependendo, é evidente, das propriedades e das estruturas finais desejadas, assim como da composição química do aço, principalmente do seu teor de carbono. Quanto mais alta essa temperatura, acima da zona crítica, maior segurança se tem da completa dissolução das fases no ferro gama; por outro lado, maior será o tamanho de grão da austenita. As desvantagens de um tamanho de grão excessivo são maiores que as desvantagens de não se ter total dissolução das fases no ferro gama, de modo que se deve procurar evitar temperaturas muito acima da linha superior (A3) da zona crítica. Na prática, o máximo que se admite é 50 ºC acima de A3 e assim mesmo para aços hipoeutetóides. Para os hipereutetóides, a temperatura recomendada é inferior à da linha Acm. A influência do tempo de permanência do aço à temperatura escolhida de aquecimento é mais ou menos idêntica à da máxima temperatura de aquecimento, isto é, quanto mais longo o tempo à temperatura considerada de austenitização, tanto mais completa a dissolução do carboneto de ferro ou outras fases presentes (elementos de liga) no ferro gama. Entretanto maior o tamanho de grão resultante. Procura-se utilizar o tempo necessário para que a temperatura seja uniforme em toda a seção da peça (POSTAL, SENAI, 1999).

O resfriamento é o fator mais importante de um tratamento térmico,

pois ele que determinará definitivamente a estrutura, e consequentemente,

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as propriedades finais dos aços. Cuidados devem ser tomados para que os resfriamentos não sejam demasiadamente lentos, resultando estruturas com baixa resistência mecânica e baixa dureza, ou então resfriamentos bruscos demais, causando empenamento ou até mesmo ruptura da peça, devido às tensões causadas pelas diferenças de temperatura da peça. Os meios mais comumente utilizados são: soluções aquosas, água, óleo e ar.E estes meios podem estar em repouso ou em agitação. As soluções aquosas são os meios mais drásticos de resfriamento, seguido pela água, óleo e ar, menos drásticos (POSTAL, SENAI, 1999).

água, óleo e ar, menos drásticos (POSTAL, SENAI, 1999). Rev. Des. e Tecnol., Franca, v. 3,
água, óleo e ar, menos drásticos (POSTAL, SENAI, 1999). Rev. Des. e Tecnol., Franca, v. 3,

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Figura 2 e 3- Cuteleiro Eduardo Berardo temperando uma faca Fonte- http://berardofacascustom.blogspot.com.br/2016/02/uma-faca-do-inicio-ao-fim-3tratamento.html

PROCESSAMENTO TÉRMICO DOS AÇOS

Processos de recozimento Tratamento térmico onde um material é exposto a uma temperatura elevada durante um período de tempo prolongado e então é resfriado lentamente. Normalmente, o recozimento é realizado para aliviar tensões; (CALLISTER,1940). reduzir a dureza à um coeficiente adequado ao trabalho que se destina, aumentar a resistência mecânica (BERARDO, 2016) e aumentar ductilidade e a tenacidade; e/ou produzir uma microestrutura específica.

Qualquer processo de recozimento consiste em três estágios: 1- aquecimento até atemperaturadesejada;2-manutençãoou“encharque”naquelatemperatura

e 3- resfriamento, geralmente até a temperatura ambiente (CALLISTER,1940). Este tratamento térmico resulta em: perlita, ou perlita + ferrita, ou perlita + cementita (SENAI, 1999; ETEC, 2010).

Recozimento Intermediário Tratamento térmico usado para anular os efeitos do trabalho a frio

(CALLISTER,1940)., ou seja, serve para diminuir as tensões residuais (BERARDO, 2016) e aumentar a ductilidade de um metal que foi previamente encruado.

É utilizado geralmente durante os processos de fabricação que exigem uma

extensa deformação plástica, para permitir a continuação da deformação sem fratura ou um consumo excessivo de energia. Neste tratamento, permite- se que ocorram recuperação e recristalização. Normalmente, deseja-se uma microestrutura com grãos finos e, portanto, o tratamento térmico é encerrado antes que ocorra um crescimento apreciável dos grãos. A oxidação ou escamação superficial pode ser prevenida ou minimizada recozendo-se a uma temperatura relativamente baixa (porém, acima da temperatura de recristalização) ou em uma atmosfera não oxidante (CALLISTER, 1940).

Recozimento para Alívio de Tensões Aquecimento do aço a temperaturas abaixo do limite inferior da zona crítica com o objetivo de aliviar as tensões originadas durante a solidificação ou produzidas em operações de transformação mecânica a frio, como

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estampagem profunda, ou em operações de endireitamento, corte por chama,

soldagem ou usinagem. Essas tensões começam a ser aliviadas a temperaturas logo acima da ambiente; entretanto é aconselhável aquecimento lento até pelo menos 500 ºC para garantir os melhores resultados. De qualquer modo,

a temperatura de aquecimento deve ser a mínima compatível com o tipo e

as condições da peça, para que não se modifique sua estrutura interna, assim como não se produzam alterações sensíveis de suas propriedades mecânicas (POSTAL, SENAI, 1999).

Recozimento Pleno (Total)

É um tratamento térmico utilizado com frequência em aços com

baixo e médio teor de carbono que serão usinados ou que irão sofrer extensa deformação plástica durante uma operação de conformação (CALLISTER, 1940).

O aço é aquecido acima da zona crítica, durante o tempo necessário

e suficiente para se ter solução do carbono ou dos elementos de liga no ferro gama, seguido de um resfriamento muito lento, realizado ou mediante o controle da velocidade de resfriamento do forno ou desligando-se o mesmo

e deixando que o aço resfrie ao mesmo tempo que ele, obtendo-se perlita

grosseira que é a estrutura ideal para melhorar a usinabilidade dos aços de baixo e médio carbono (ETEC, 2010).

Para aços de alto carbono, a perlita grosseira não é vantajosa sob o ponto de vista da usinabilidade e neles prefere-se uma estrutura diferente,

aesferoidita, obtida pelo coalescimento. O recozimento pleno ou simplesmente recozimento, consiste em austenitizar o aço, resfriando-o lentamente a seguir.

A temperatura de autenitização deve ser de mais ou menos 50°C acima de

723°C.

1- Aquecer a peça até, pelo menos, 50°C acima da temperatura de

austenitização;

2- Cumprir o tempo de encharque previsto;

3- Resfriar de forma lenta, normalmente dentro do forno desligado (ETEC, 2010).

Recozimento Isotérmico ou Cíclico Aquecimento do aço nas mesmas condições que para o recozimento total, seguido de um resfriamento rápido até uma temperatura dentro da porção superior do diagrama de transformação isotérmico, onde o material é

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mantido durante o tempo necessário a se produzir a transformação completa. Em seguida, o resfriamento até a temperatura ambiente pode ser apressado (POSTAL, SENAI, 1999). Após o tratamento térmico os produtos resultantes podem ser perlita e

ferrita, perlita e cementita ou só perlita com uma estrutura final mais uniforme que no caso do recozimento pleno. Como vantagem o ciclo de tratamento pode ser encurtado sensivelmente de modo que o tratamento é muito prático para casos em que se queira tirar vantagem do resfriamento rápido desde a temperatura crítica até a temperatura de transformação e desta à temperatura ambiente, como em peças relativamente pequenas que possam ser aquecidas em banhos de sal ou de chumbo fundido.O recozimento isotérmico não é vantajoso sobre o pleno para peças grande pois a velocidade de resfriamento no centro de peças de grande secção pode ser tão baixa que torna impossível

o seu rápido resfriamento à temperatura de transformação (POSTAL, SENAI,

1999).

Recozimento subcrítico ou Esferoidização

Mesmo os aços de médio e alto teor de carbono que possuem uma microestrutura composta por perlita grosseira ainda podem ser muito duros para serem convenientemente usinados ou plasticamente deformados (CALLISTER, 1940)

O recozimento subcrítico é usado para recuperar a ductilidade do aço

trabalhado a frio (encruado) e o aquecimento se dá a uma temperatura abaixo da temperatura de austenitização. Este tratamento consiste em operações de

aquecimento e resfriamento que visam deixar o carboneto de ferro (cementito)

o mais arredondado possível, melhorando a ductilidade e a tenacidade do aço.

Há vários métodos para se obter uma estrutura de carbonetos esferoidizados em matriz ferrítica. Por exemplo:

Manutenção por tempo prolongado à temperatura pouco abaixo de

723°C;

Aquecimento e resfriamento alternantes entre 2 temperaturas pouco

acima e pouco abaixo de 723°C;

3-Aqueceracimadatemperaturaparadissoluçãodoscarbonetos(ACM),

seguido de resfriamento rápido (para evitar formação de rede de carbonetos) até temperatura pouco abaixo de 723°C. Manter nesta temperatura, conforme

o método 1, ou seguir o método 2.

1-

2-

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1- Aquecer a uma temperatura entre 600:C e 680:C; 2- Cumprir o tempo de patamar; 3- Resfriar lentamente ao ar livre. (ETEC, 2010).

Normalização

Consiste no aquecimento do aço a uma temperatura acima da zona crítica, seguido de resfriamento em ar (CALLISTER, 1940) tranquilo (BERARDO, 2016), visando o refinamento da granulação grosseira (diminuir o tamanho dos grãos, refinar o tamanho de grão da austenita (CALLISTER,1940) e da ferrita homogeneizando a estrutura do aço e obter uma perlita relativamente fina), reduzir as tensões internas resultantes do forjamento (BERARDO, 2016) e produzir uma distribuição de tamanhos mais uniforme e desejável de peças de aço que foram deformados plasticamente mediante, por exemplo, uma operação de laminação, onde encontramos grãos de perlita relativamente grandes, mas que variam substancialmente em tamanho (CALLISTER, 1940), melhora-se as características de usinagem, modifica-se e refina-se estruturas brutas de fusão e confere-se ao aço melhores condições para têmpera posterior. Os aços de baixo-carbono (0,20% a 0,30%), depois de normalizados, não sofrem qualquer tratamento térmico posterior, ao passo que os de carbono mais elevado, podem eventualmente ser temperados. Tratamento preliminar à têmpera e ao revenido para produzir estrutura mais uniforme do que a obtida por laminação, além de reduzir a tendência ao empenamento e facilitar a solução de carbonetos e elementos de liga. Sobretudo nos aços liga quando os mesmos são esfriados lentamente após

a laminação, os carbonetos tendem a ser maciços e volumosos, difíceis de se

dissolver em tratamentos posteriores de austenitização (a normalização corrige

este inconveniente). Os constituintes que se obtém na normalização são ferrita

e perlita fina, ou cementita e perlita fina. Eventualmente, dependendo do tipo de aço, pode obter-se a bainita (POSTAL, SENAI, 1999). Procedimentos para a realização da normalização:

1- Aquecer a peça até 50°C acima da temperatura de autenitização; 2- Cumprir o tempo de patamar; 3- Resfriar de forma lenta: ao ar tranquilo (sem ventiladores) ou ao ar forçado (com ventiladores). Os aços-liga são geralmente normalizados antes da têmpera. (ETEC,

2010).

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Têmpera Resfriamento rápido do aço de uma temperatura superior a sua temperatura crítica (mais ou menos 50ºC acima da linha A1 para os hipereutetóides) em um meio como óleo, água, salmoura ou mesmo ar com

o objetivo da obtenção da estrutura martensítica (se deve, portanto, fazer com que a curva de esfriamento passe à esquerda do cotovelo da curva em “C”,

evitando-se assim a transformação da austenita). A velocidade de resfriamento, nessas condições, dependerá do tipo de aço, da forma e das dimensões das peças. A temperatura de aquecimento é um fator importante que deve ser considerado na têmpera, devido à ação que exerce na estrutura final do aço. Em princípio, qualquer que seja o tipo de aço – hipoeutetóide ou hipereutetóide

– a temperatura de aquecimento para têmpera deve ser superior à da linha de

transformação A1, quando a estrutura consistirá de grãos de austenita, em vez de perlita. O aço sendo hipoeutetóide, entretanto, além da austenita, estarão presentes grãos de ferrita. Assim sendo, um aço com tal estrutura, quando resfriado em água, por exemplo, apresentará martensita conjuntamente com ferrita, pois esta que estava presente acima da temperatura A1, não sofre qualquer alteração ao ser o aço temperado. Tem-se, portanto, têmpera ou endurecimento incompleto do material, o que geralmente deve ser evitado, pois na têmpera visa-se obter máxima dureza. Em conseqüência, ao aquecer- se um aço hipoeutetóide para têmpera, deve-se elevar sua temperatura acima do limite superior da zona crítica – linha A3 – pois então a sua estrutura consistirá exclusivamente de austenita que se transformará em martensita no resfriamento rápido subsequente (POSTAL, SENAI, 1999).

Evitam-setemperaturasmuitoacimadaA3,devidoaosuperaquecimento

que se poderia produzir, e que ocasionaria uma martensita acicular muito grosseira e de elevada fragilidade. Ao contrário dos aços hipoeutetóides, os aços hipereutetóides são normalmente aquecidos acima de A1, sem necessidade de se ultrapassar a temperatura correspondente a Acm. De fato, acima de A1 o aço será constituído de grãos de austenita e pequenas partículas de carbonetos secundários. No resfriamento subseqüente, a estrutura resultante apresentará martensita e os mesmos carbonetos secundários. Como estes apresentam uma dureza até mesmo superior à da martensita, não haverá maiores inconvenientes. Procura-se, por outro lado, evitar, nesses aços hipereutetóides, aquecimento acima de Acm, visto que a austenita resultante apresentará granulação grosseira, com conseqüente martensita acicular grosseira, cujos inconvenientes já foram apontados (POSTAL, SENAI, 1999).

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Aestrutura martensítica se caracteriza por excessiva dureza e por apresentar tensões internas consideráveis. Simultaneamente a essas tensões, por assim dizer estruturais, o aço temperado caracteriza-se por apresentar tensões térmicas. Estas são ocasionadas pelo fato de que materiais resfriados rapidamente esfriam de maneira não uniforme, visto que a sua superfície atinge a temperatura ambiente mais rapidamente do que as regiões mais centrais, ocasionando mudanças volumétricas não uniformes, com as camadas superficiais contraindo mais rapidamente do que as regiões internas. Como conseqüência, tem-se a parte central sob compressão, e as camadas mais externas sob tração (Postal, SENAI, 1999). Após temperado, o aço apresenta-se em estado de apreciáveis tensões internas, tanto de natureza estrutural, como de natureza térmica; quando estas tensões internas ultrapassam o limite de escoamento do aço, ocorre sua deformação plástica e as peças apresentar-se-ão empenadas; se, entretanto, as tensões internas excederem o limite da resistência à tração do material, então ocorrerão inevitáveis fissuras e as peças estarão perdidas. Essas tensões internas não podem ser totalmente evitadas; podem, contudo, ser reduzidas, mediante vários artifícios práticos e de vários tratamentos térmicos. Os inconvenientes apontados, excessiva dureza da martensita e estado de tensões internas, são atenuados pelo reaquecimento do aço temperado a temperaturas determinadas. É óbvio que tal operação torna-se inócua se as tensões internas originadas tiverem sido de tal vulto de modo a provocar a inutilização das peças. A operação mencionada constitui o revenido (POSTAL, SENAI, 1999). Procedimentos para a realização da têmpera:

1- Aquecer a peça até 50°C acima da temperatura de autenitização; 2- Cumprir o tempo de patamar; 3- Resfriar o mais rápido possível em: água, ou óleo, ou polímero etc. (ETEC, 2010). Etapas de resfriamento na têmpera: A têmpera em meio líquido ocorre em três estágios, à proporção que a peça esfria:

1- Formação de filme contínuo de vapor sobre a peça. Este estágio deve ser tão curto quanto possível. A água apresenta um estágio de filme contínuo particularmente longo. Para aliviar este problema pode-se agitar a peça durante o início da têmpera para romper o filme. 2- Formação discreta da bolha de vapor sobre a peça. Quando a peça esfria o suficiente, o filme contínuo de vapor dá lugar à formação e subseqüente

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desprendimento de bolhas. Neste estágio, também é importante a agitação (ou circulação forçada do meio de têmpera), para se evitar a permanência de bolhas sobre os mesmos pontos por tempos longos, causando pontos resfriados mais lentamente, chamados pontos moles. 3-Resfriamento por condução e convecção. Neste estágio, a peça já atingiu superficialmente uma temperatura insuficiente para vaporizar o meio de têmpera. Este estágio é controlado, basicamente, pela capacidade calorífera do meio de têmpera, pelas condições interfaciais peça-meio de têmpera e pela agitação. A água apresenta um 3.º estágio extremamente rápido. (ETEC, 2010).

Revenido

É o tratamento térmico que normalmente acompanha a têmpera, pois elimina a maioria dos inconvenientes produzidos por esta; além de aliviar ou remover as tensões internas de têmpera, corrige as excessivas dureza e fragilidade do material, aumentando sua ductilidade (Postal, SENAI, 1999) e tenacidade (Berardo, 2016) resultando em uma microestrutura:martensita revenida. Recomenda-se que o revenido seja realizado logo após a têmpera, para diminuir a perda de peças por ruptura, a qual pode ocorrer se se aguardar muito tempo para realizar o revenido. A temperatura para o revenido situa-se abaixo da zona crítica, entre 100 ºC e 700 ºC, e o tempo de permanência no forno varia de 1 a 3 horas. Quanto mais alta a temperatura ou quanto maior o tempo do revenido, maior a diminuição da dureza do material (POSTAL, SENAI, 1999). De uma forma geral, a temperatura do revenido apresenta as seguintes características:

• entre 25 ºC e 100 ºC a dureza do material é pouco afetada;

• entre 100 ºC e 250 ºC a dureza pode chegar a 60 RC. É conhecido como 1º estágio do revenido;

• entre 200 ºC e 300 ºC a dureza continua caindo. 2º estágio do revenido;

• entre 250 ºC e 350 ºC a dureza alcança valores pouco superiores a 50 RC. 3º estágio;

• entre 400 ºC e 600 ºC a dureza cai para valores de 45 a 25 RC;

• entre 500 ºC e 600 ºC nos aços contendo Ti, Cr, Mo, V, Nb ou W ocorre

uma transformação conhecida como “endurecimento secundário”, devido à precipitação de alguns carbonetos de liga; entre 600 ºC e 700 ºC a estrutura

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resultante caracteriza-se por ser muito tenaz e de baixa dureza, variando de 5 a 20 RC (POSTAL, SENAI, 1999). Procedimentos para a realização do revenido:

1- Aquecer a peça abaixo da temperatura de austenitização; 2- Cumprir o tempo de patamar, acrescentando uma hora ao tempo determinado para a têmpera; 3- Resfriamento lento (ao ar tranqüilo ou forçado) ou rápido (no mesmo meio de têmpera) (ETEC, 2010). Dependendo da temperatura de revenido, pequenas ou grandes transformações na estrutura martensítica podem ocorrer. Na realidade, existem duas faixas de temperaturas favoráveis para o revenido dos aços, no sentido de melhorar sua tenacidade.A faixa mais baixa de temperatura é recomendada para aplicações que exigem altas resistências mecânica e a fadiga, em aços de médio-carbono e onde as cargas são principalmente de compressão, como em mancais e engrenagens de alto-carbono. O revenido acima de 425ºC é empregado em peças cuja principal característica deva ser a alta tenacidade e onde, em consequência, a resistência mecânica e a dureza são características secundárias (ETEC, 2010). Fragilidade pelo revenido: Durante a operação de revenido, há uma faixa de temperatura (260ºC a 370ºC) que provoca uma queda da tenacidade. Esse fenômeno é denominado fragilidade da martensita revenida ou fragilidade a 350ºC. Outro tipo de fragilização ocorre na faixa entre 375ºC e 575ºC, durante o revenido nessa faixa de temperaturas ou quando o aço é resfriado lentamente através dessa mesma faixa. Esse fenômeno é conhecido como fragilidade de revenido. Não há ainda explicações convincentes para explicar os fenômenos. A fragilidade da martensita revenida pode, ou não, estar associada com segregações de átomos impuros nos contornos de grão da austenita, antes da têmpera. A fragilidade de revenido seria causada pela presença de determinadas impurezas nos aços. De qualquer modo, para evitar os fenômenos nos aços suscetíveis aos mesmos, deve se procurar evitar o aquecimento às temperaturas prejudiciais ou procurar, pelo menos inicialmente, aumentar a velocidade de resfriamento, após o aquecimento para o revenido, para encurtar a permanência dos aços naqueles intervalos de temperatura (ETEC, 2010).

Têmpera Superficial Tem por objetivo produzir um endurecimento superficial, pela obtenção

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de martensita apenas na camada externa do aço. É aplicado em peças que, pela sua forma e dimensões, são impossíveis de temperar inteiramente, ou quando se deseja alta dureza e alta resistência ao desgaste superficiail, aliadas a boa ductilidade e tenacidade do núcleo das peças. É um tratamento rápido que, além disso, não exige fornos de aquecimento (POSTAL, SENAI, 1999). Vários são os motivos que determinam a preferência do endurecimento superficial em relação ao endurecimento total:

• dificuldade, sob os pontos de vista prático e econômico, de tratar-se de

peças de grandes dimensões nos fornos de tratamento térmico convencional;

• possibilidade de endurecer-se apenas áreas críticas de determinadas

peças, como por exemplo, dentes de grandes engrenagens, guias de máquinas operatrizes, grandes cilindros, etc.;

• possibilidade de melhorar a precisão dimensional de peças planas,

grandes ou delgadas, evitando-se o endurecimento total. Exemplos: hastes de êmbolos de cilindros hidráulicos;

aços-

carbono, em lugar de aços-liga;

• possibilidade de controlar o processo de modo a produzir, se desejável,

variações em profundidades de endurecimento ou dureza, em seções diferentes das peças;

• investimento de capital médio, no caso de adotar-se endurecimento

superficial por indução e bem menor, no caso de endurecimento por chama;

• diminuição dos riscos de aparecimento de fissuras originadas no

resfriamento, após o aquecimento (POSTAl, SENAI, 1999). Por outro lado, as propriedades resultantes da têmpera superficial são:

superfícies de alta dureza e resistência ao desgaste; boa resistência à fadiga por dobramento; boa capacidade de resistir a cargas de contato e resistência satisfatória ao empenamento. Antes da têmpera superficial deveria-se realizar um tratamento de normalização, a fim de obter-se uma granulação mais fina

e regular para a estrutura. Em função da fonte de aquecimento, a têmpera

superficial compreende dois processos: têmpera por chama; e têmpera por indução (POSTAL, SENAI, 1999). Na têmpera por chama, a superfície a ser endurecida é rapidamente aquecida à temperatura de austenitização, por intermédio de uma chama de

oxiacetileno (podem ser utilizados outros gases combustíveis) e logo a seguir

é resfriada por meio de um borrifo de água, ou imersa em óleo. A chama neste

possibilidade

de

utilizar-se

aços

mais

econômicos,

como

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caso deve ser semicarburante. Em geral dividem-se os processos de têmpera superficial por chama em três métodos: estacionário; progressivo e combinado. No método estacionário a peça permanece fixa, e a chama desloca-se a fim de aquecer a superfície a ser temperada.Com o método progressivo, a peça se move e o maçarico permanece fixo.No método combinado, a peça e o maçarico movem-se simultaneamente. Este método requer o uso de máquinas ou dispositivos especiais. É aplicado, geralmente, em peças cilíndricas e de grandes dimensões. Na têmpera por indução, o calor é gerado na própria peça por indução eletromagnética, utilizando-se, para isso, bobinas de indução através das quais flui uma corrente elétrica. O aquecimento é mais rápido por esse processo, o qual apresenta ainda a vantagem de bobinas de diversos formatos poderem ser facilmente construídas e adaptadas à forma das peças a serem tratadas (POSTAL, SENAI, 1999). Pode-se controlar a profundidade de aquecimento pela forma da bobina, espaço entre a bobina de indução e a peça, taxa de alimentação da força elétrica, freqüência e tempo de aquecimento. Após a têmpera superficial os aços são revenidos geralmente a temperaturas baixas, com o objetivo principal de aliviar as tensões originadas.A dureza final obtida varia de 53 a 62 Rockwell C. A espessura da camada endurecida pode atingir até 10 mm, dependendo da composição do aço e da velocidade de deslocamento da chama (POSTAL, SENAI, 1999).

Austêmpera

É adequado a aços de alta temperabilidade (alto teor de carbono). A

peça é aquecida acima da zona crítica, por certo tempo, até que toda a estrutura se transforme em austenita. A seguir, é resfriada bruscamente em banho de sal fundido, com temperatura entre 260ºC e 440ºC. Permanece nessa temperatura por um tempo, até que sejam cortadas as duas curvas ocorrendo transformação

da austenita em bainita. Em seguida, é resfriada ao ar livre. A dureza da bainita

é de, aproximadamente, 50 Rockwell C e a dureza da martensita é de 65 a 67 Rockwell C (DEL MONTE, 2016).

Martêmpera

É um tipo de tratamento indicado para aços-liga porque reduz o risco

de empenamento das peças. A peça é aquecida acima da zona crítica para

se obter a austenita. Depois, é resfriada em duas etapas. Na primeira, a peça

é mergulhada num banho de sal fundido ou óleo quente, com temperatura

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um pouco acima da linha Mi. Mantém-se a peça nessa temperatura por certo tempo, tendo-se o cuidado de não cortar a primeira curva A segunda etapa é

a do resfriamento final, ao ar, em temperatura ambiente. A martensita obtida apresenta-se uniforme e homogênea, diminuindo riscos de trincas. Após a martêmpera é necessário submeter a peça a revenimento (DEL MONTE, 2016).

DISCUSSÃO

O tratamento térmico é feito na fase final do processo? É comum

pensar que, na fabricação de uma peça, o tratamento térmico é feito na fase final do processo. Nem sempre é assim. Dependendo do tipo de peça e dos fins

a que ela se destina, precisamos primeiro corrigir a irregularidade da estrutura metálica e reduzir as tensões internas que ela apresenta.Uma estrutura macia, ideal para a usinagem do material, já caracteriza um bom tratamento térmico. Os grãos devem apresentar uma disposição regular e uniforme. (SENAI, TELECURSO, 2000).

O aumento ou a redução da dureza do aço depende do modo como

ele foi tratado termicamente. Uma fresa requer um tipo de tratamento térmico que a torne dura para a retirada de cavacos de um material. Outro exemplo:

para que o aço adquira deformação permanente, como é o caso do forjamento,

é necessário um tipo de tratamento térmico que possibilite a mais baixa dureza

a esse aço. Temos, assim, duas situações opostas de alteração das propriedades do aço. Tais situações mostram a necessidade de se conhecer bem os constituintes do aço, antes de submetê-lo a um tratamento térmico. (SENAI, TELECURSO,

2000).

A tecnologia da indústria metalúrgica moderna, hoje alicerçada em

equipamentos que há apenas cinquenta anos atrás seriam temas de filmes de ficção científica, como robôs, computadores e programas altamente avançados de automação industrial, desvanece o longo e sacrificante caminho no qual realmente se desenvolveram os fundamentos da ancestral arte do ferro e do fogo. O desenvolvimento dos métodos de tratamentos térmicos dos aços, se deram essencialmente por meio de tentativa e erro, desenvolvendo à duras penas uma ciência transmitida por gerações e gerações de ferreiros que, por milênios da história da humanidade, definiram destinos de nações e alteraram o mapa mundi até a configuração que hoje nos é conhecida. Os exércitos travavam suas batalhas corpo à corpo e os resultados destes embates eram muitas vezes definidos pela qualidade com que era produzida a principal arma

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da história da humanidade: A Espada. Por meio da tradição oral, transmitia-se conhecimento acumulado de gerações de artesãos à próxima geração, que por sua vez, reunia à estes suas novas descobertas, que seriam passadas à seus sucessores. O jovem aprendiz de ferreiro deveria ter excelente reputação e comportamento exemplar, para estar à altura de receber os conhecimentos secretos de uma ciência, cuja extrema relevância para as antigas nações, lhe conferiam ares míticos e lendários. Os poderes quase mágicos adquiridos pelo aço magistralmente tratado pelas mãos que o moldavam, tomavam vulto e eram temas de diversas lendas contadas pelos povos antigos. Os artistas que tivessem o domínio do ferro e do fogo eram, certamente tão valorizados e imprescindíveis quanto os mais audaciosos e hábeis generais. O conhecimento hoje acumulado pela ciência da metalurgia moderna, traz em seu âmago, sangue e suor de gerações de hábeis artesãos que, conhecedores profundos de sua arte, conferiam super poderes ao aço, que produziu as mais incríveis lendas e que mudaram a história da humanidade. Este artigo rende tributo à estes Mestres anônimos e busca reunir o conhecimento até agora produzido, à ser entregue às futuras gerações (BERARDO, 2016).

CONCLUSÃO Tratamentos térmicos são operações de aquecimento seguidas de resfriamento lento ou rápido, controlados, com o objetivo de se alterar as propriedades mecânicas do material tornando-o adequado para utilizações específicas. A alteração nas propriedades é conseguida devido às mudanças de fase (microestrutura) que ocorrem durante o tratamento térmico e ao refinamento de grão (ETEC, 2010). Tratamento térmico é o conjunto de operações de aquecimento e resfriamento a que são submetidos os aços, sob condições controladas de temperatura, tempo, atmosfera e velocidade de resfriamento. Os principais objetivos dos tratamentos térmicos são os seguintes:

• remoção de tensões (oriundas de esfriamento desigual, trabalho mecânico ou outra causa);

• aumento ou diminuição da dureza;

• aumento da resistência mecânica;

• melhora da ductibilidade;

• melhora da usinabilidade;

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• melhora da resistência ao desgaste;

• melhora das propriedades de corte;

• melhora da resistência à corrosão;

• melhora da resistência ao calor;

• modificação das propriedades elétricas e magnéticas. (POSTAL, SENAI,

1999).

OstratamentostérmicosdevemsempreenvolverciclosdeAquecimento e Resfriamento ou, em outras palavras, a aplicação controlada de temperatura. Para a compreensão e principalmente o controle adequado de um tratamento térmico, os principais fatores que devem ser considerados são:

•Aquecimento e resfriamento; •Tempo de permanência à temperatura; •Ambiente de aquecimento e resfriamento (ETEC, 2010).

REFERÊNCIAS

BERARDO, E.C. Tratamentos térmicos. http://berardofacascustom.blogspot.com.br/. Aces- so em: 14 maio de 2016.

CALLISTER JR, W. D. Ciência e engenharia de materiais: uma introdução. 1940. Tradução:

Sério Murilo Stamile Soares. Sétima edição, Rio de Janeiro, 2011.

DEL MONTE, F. F. Aula: Tratamentos térmicos e metalografia. IFSP- Campus Catanduva,

2016.

ETEC – JOÃO GOMES DE ARAÚJO. Elaboração: Maria Cristina Carrupt Ferreira Borges. TECNOLO- GIA MECÂNICA II CURSO TÉCNICO EM MECÂNICA. Fevereiro 2010

POSTAL, M. SENAI-MG. CETAL/FAM. Materiais para Construção Mecânica. Uberlândia, 1999 Materiais para Construção Mecânica. SENAI, Uberlândia, 1999.

SENAI. Tratamento térmico. Telecurso profissionalizante 2000.

VALE, A. R. M. Tratamento térmico Belém: IFPA ; Santa Maria : UFSM, 2011. 130p.

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ENSINO DE FÍSICA: ESTUDANDO ONDULATÓRIA UTILIZANDO SIMULAÇÕES COMPUTACIONAIS

PHYSICS EDUCATION: STUDYING WAVE USING COMPUTER SIMULATION

Alexandre da Silva Pedroso

Mestre em Matemática pela UFTM; Especialista em Física para Professores do Ensino Médio pela UNICAMP em 2013; Especialista em Matemática Aplicada pela Universidade de Franca em 2008; Licenciatura Plena em Física pela Universidade de Franca em 2012; Licenciatura Plena em Matemática pela Universidade de Franca em 2006; Docente na Universidade de Franca (UNIFRAN) nos cursos de Matemática, Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica, Química e Tecnologia em Gestão Ambiental.

Adriel Fernandes Sartori

Mestre em Ensino de Ciências pela Universidade de São Paulo em 2012; Graduação em Física pela UNESPRio Claro em 2005; Atualmente é Professor de Ensino Básico e Tecnológico no Instituto Federal de São Paulo.

RESUMO

O presente trabalho inspira-se nas aplicações que podem ser feitas a partir

das novas tecnologias da informação e comunicação nas aulas de Física, com o intuito de melhorar a aprendizagem dos alunos através de uma nova metodologia com recursos que possuem o poder de atrair a atenção do aluno para questões abstratas da Física de maneira lúdica proporcionando a este prazer ao aprender conceitos que se mostram difíceis de serem aprendidos de maneira tradicional. Este estudo tem como objetivo analisar os efeitos que uma metodologia focada em competências e habilidades possui com relação ao cotidiano do aluno do Ensino Médio. Para isso, foram utilizados

recursos de simulações computacionais no ensino de Física no intuito direto de verificar o quanto o objeto de aprendizagem tem potencial para melhorar

o interesse e atenção dos discentes com os temas estudados nas aulas de

Física, em particular neste trabalho foi estudado o conteúdo de ondulatória em uma turma de 2° ano. Tais resultados mostram que as simulações, dotadas de grande apelo visual e dinâmica interativa, apresentam grande potencial diferenciador das aulas tradicionais, o que trazem benefícios para a aprendizagem em física.

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Palavras-chave:

Aprendizagem.

Simulação

computacional.

Ondas.

Ensino

de

Física.

ABSTRACT This work is inspired by the applications that can be made from the new information technologies and communication in Physics classes, in order to improve student learning through a new methodology within resources that have the power to attract their attention to Physics abstract issues in a playful manner giving them pleasure to learn concepts that are difficult to be learned in the traditional way. This study aims to analyze what are the effects of a methodology focused on competencies and skills in the High School student’s daily life. For this, resources of computer simulations were used in Physics teaching aiming to verify how the learning object has the potential to improve the interest and attention of students to the topics studied in the Physics classes, particularly in this work was studied wavelike content in a class of 2nd year. These results show that the simulations, endowed with great visual appeal and interactive dynamics, have great differentiating potential from traditional classes, which bring benefits to physics learning. Keywords: Computer simulation. Waves. Physics Teaching. Learning.

SIMULANDO FENÔMENOS FÍSICOS NO COMPUTADOR Ao nos depararmos com o artigo “Possibilidades e Limitações das Simulações Computacionais no Ensino da Física”da Revista Brasileira de Ensino de Física (MEDEIROS, MEDEIROS, 2002) tomamos conhecimento acerca das simulações computacionais contidas no site do PHET Colorado, que podem ser utilizadas como objetos de aprendizagem nas aulas de Física no Ensino Médio. Inspirado nas aplicações que podem ser feitas a partir das novas tecnologias da informação nas aulas de Física, com o intuito de melhorar a aprendizagem dos alunos através de uma nova metodologia com recursos que possuem o poder de atrair a atenção do aluno para questões abstratas da Física de maneira lúdica proporcionando a este prazer ao aprender conceitos que se mostravam difíceis de serem aprendidos de maneira tradicional. Tendo como objetivo analisar os efeitos que uma metodologia focada em competências e habilidades possui com relação ao cotidiano do aluno do Ensino Médio. Para isso, utilizamos recurso de uma simulação computacional no ensino de Física no intuito direto de verificar o quanto o objeto de

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aprendizagem tem potencial para melhorar o interesse e atenção dos discentes com os temas estudados nas aulas de Física - em particular neste trabalho foi estudado o conteúdo de ondulatória em uma turma de 2° ano. Segundo Medeiros e Medeiros (2002) as simulações são dotadas de grande apelo visual

e dinâmica interativa, apresentando grande potencial diferenciador das aulas

tradicionais, o que pode trazer benefícios para a aprendizagem em física. Como a ondulatória constitui um dos assuntos mais importantes da Física, e por ser um assunto considerado muito abstrato e difícil de ser assimilado pelos discentes, pensamos que podemos inovar com aulas mais interessantes e atrativas, visto que o assunto possui diversas aplicações tecnológicas. Podemos associar as ondas à transmissão e armazenamento de informação, dentre os quais, destacam-se os espaços utilizados para guardar informações e publicações.

Ao analisarmos historicamente como eram feitos os registros escritos na antiguidade, nota-se a utilização de desenhos nas paredes das cavernas, estes tinham um alcance mínimo (as informações ficavam limitadas apenas aos que visitassem tais cavernas). Observa-se que até o século XV, os principais meios de transmissão de informação eram os papiros, algodão, pergaminhos dentre outros.Tais meios ocupavam muito espaço físico, havendo a necessidade de buscar formas mais eficazes para o armazenamento e a transmissão das informações. Com efeito, com o passar do tempo os meios de transmissão de informações sofreram um grande processo de evolução. Atualmente, dispõe-se de sistemas informatizados, em que se armazenam um grande volume de informações e que ocupam áreas físicas cada vez menores através de CD’s, pen-drives, dentre outros dispositivos eletroeletrônicos (KANTOR; et al., 2009). No estudo de ondulatória somos capazes de classificar as ondas quanto à sua natureza, sendo estas definidas como ondas mecânicas ou ondas eletromagnéticas. Em ambas as classificações, observamos algumas características em comum: amplitude; comprimento de onda; frequência e período (KANTOR; et al., 2009). As ondas mecânicas propagam-se deformando o meio de propagação, por isso são assim denominadas, sendo estas tidas como as ondas mais comuns à nossa percepção sensorial. Podendo propagar em meios tais como:

água (ondas do mar), ar (som) e através do solo (ondas sísmicas: terremotos

e maremotos), elas precisam de um meio material elástico para propagar a

fim de que possam voltar ao estado inicial após a deformação sofrida com a passagem da onda no ar. As regiões de compressão e descompressão do ar

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ou a tensão de um sólido transmite de forma homogênea a perturbação aos pontos adjacentes. Assim, concluímos que uma onda mecânica não propaga no vácuo (KANTOR; et al., 2009), ficando claro pra nós que os sons ouvidos em filmes de ficção científica de guerras espaciais não podem ser produzidos pela falta de meio material para que o som possa propagar no espaço. As ondas eletromagnéticas não precisam de um meio material para propagar,estaspodempropagarnovácuo,ondesuavelocidadeéconstanteigual a. Temos sete tipos de ondas eletromagnéticas de acordo com sua frequência e comprimento, como podemos observar no espectro eletromagnético: raios x e raios gama, raios ou radiação ultravioleta (UV), luz ou radiação visível, raios ou radiação infravermelha (IV), micro-ondas e ondas de rádio (Kantor; et al., 2009). Observando o espectro eletromagnético da figura abaixo podemos observar os comprimentos de onda, ficando claro, por exemplo, que ondas de raios x possuem menor comprimento que uma onda de rádio ocorrendo o inverso com relação às suas frequências os raios x possuem maior frequência que as ondas de rádio.

os raios x possuem maior frequência que as ondas de rádio. Figura 1: Espectro eletromagnético Fonte:

Figura 1: Espectro eletromagnético

Fonte: Fini, 2009.

A PROBLEMÁTICA DA SALA DE AULA Atualmente percebe-se em sala de aula uma aparente desmotivação por parte do alunado, no que concerne concentrar-se e acompanhar as aulas no formato tradicional, quando o professor utiliza-se de recursos como giz e lousa.

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Adiciona-se a esse quadro, a marcante presença de aparelhos tecnológicos de comunicação social, telefones celulares, smartphones, tablets, entre outros que competem com a atenção do aluno. Tendo em vista este cenário, cria-se a possibilidade de utilizar-se de recursos multimídia para auxiliar o professor na atividade docente. Tais recursos multimídia são conhecidos como “Objetos de Aprendizagem” que tem sua definição advinda das ciências da computação sendo derivado de um tipo de instrução computacional que orienta o aprendente para objetos (WILEY, 2010 apud. SARTORI, 2012). Essa orientação a objetos, em ciências da computação valoriza a criação de objetos que podem ser usados em diversos contextos (SARTORI, 2012). Segundo Sartori (2012), os objetos de aprendizagem também conhecidos como entidades digitais, estão disponíveis pela internet podendo ser acessado a qualquer momento por elevado número de pessoas simultaneamente. Característica essa que difere os objetos de aprendizagem das mídias tradicionais que na maioria das vezes necessitam de licenças de utilização em função dos direitos autorais. Segundo Tavares (2003) e Arantes (2010), essa dificuldade de aprendizado deve-se também à dificuldade de se trabalhar conceitos físicos de propagação de ondas em meios elásticos, uma onda sonora, por exemplo, utilizando somente o quadro e giz. Simulações computacionais podem sanar tal dificuldade por sua versatilidade e interatividade por mostrar o fenômeno através de animações de fácil acesso cognitivo pelos discentes, sejam eles de qualquer nível de aprendizado. São inúmeros os fenômenos (propagação de ondas no mar, propagação de um terremoto, comportamento de insetos e aplicações tecnológicas) que podemos observar no dia a dia que estão diretamente relacionados aos conceitos estudados em ondulatória no Ensino Médio, porém, constata-se entre professores que lecionam esses conteúdos as dificuldades que os alunos tem em relacionar tais fenômenos aos conceitos estudados sobre ondas mecânicas nesse nível de ensino (PIUBELLI, 2010). Tais dificuldades nos motivaram a pesquisar e trabalhar com as simulações computacionais afim de verificar se sua utilização em sala de aula pode motivar e despertar maior interesse por parte dos alunos para as aulas de Física no Ensino Médio e melhorar o desempenho dos estudantes nas avaliações.

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Objetivos Este estudo tem por objetivos:

Estudar ondulatória utilizando uma Simulação Computacional Interativa no Ensino de Física através de experiências já vivenciadas por alunos do segundo ano do Ensino Médio de uma Escola Estadual no interior do Estado de São Paulo. Introduzir conceitos de ondulatória, parâmetros de análise no espaço e na análise do tempo utilizando-se de uma simulação computacional (como objeto de aprendizagem) complementar à Aula expositiva (lousa e giz); Discutir sobre o assunto apresentado em aula expositiva aos alunos com uso da simulação computacional como complemento metodológico;

A simulação computacional escolhida encontra-se no site do PHET Colorado. Apresentamos a seguir o layout da simulação computacional utilizada.

a seguir o layout da simulação computacional utilizada. Figura 2: Simulação do PhET Colorado Fonte: Paul,

Figura 2: Simulação do PhET Colorado Fonte: Paul, s.d, n.p.

• A simulação em questão possui as seguintes características:

• Representa

graficamente

a

propagação

de

uma

unidimensional em uma corda;

onda

• Possui opção de oscilação manual, um único pulso e um oscilador periódico;

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• Possui um recurso em que se pode deixar a extremidade fixa, solta ou infinita;

e

Réguas

amplitude;

para

realizar

medições

de

comprimento

de

onda

• Relógio para cronometrar o tempo de propagação da onda;

• Opção de regulagem do amortecimento da corda (atrito interno), amplitude, frequência e tensão da corda quando o oscilador está acionado e amplitude, tamanho do pulso, amortecimento e tensão para a opção pulso selecionada. Após a aula aplicou-se um questionário aos discentes a fim de averiguar os conteúdos trabalhados acerca das características e conceitos discutidos na aula e medir o alcance da utilização do objeto de aprendizagem enquanto nova metodologia a ser utilizada em sala de aula.

Tendo em vista as questões que foram apresentadas aos alunos para aferir a aprendizagem do aluno com relação às aulas de Física com auxilio do objeto de aprendizagem, queremos saber se o alunado é capaz de definir corretamente as características de uma onda periódica e se são capazes de também identificar fenômenos ondulatórios no seu cotidiano. Na questão em que tratamos dos conceitos físicos em si, queremos saber se os alunos são capazes de definir corretamente a amplitude, comprimento, frequência e período das ondas periódicas e nos dar uma explicação para a expressão matemática dada para a frequência e o período das ondas periódicas. Os resultados referentes ao número de acertos e erros acerca das definições das características das ondas periódicas podem ser observados na Tabela 1 a seguir.

Acertos

Erros

Não respondeu

Amplitude

Comprimento de onda

Período

Frequência

34

0

100%

0%

34

0

100%

0%

34

0

100%

0%

14

15

41,18%

44,12%

0

0%

0

0%

0

0%

5

14,7%

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Tabela 1 – Características das ondas periódicas

Com relação à expressão matemática para determinação do período e

frequência não foi apresentado nas respostas por nenhum dos alunos conforme

é mostrado na tabela 2 a seguir.

Correto

Errado

Não respondeu

Período

Frequência

0

0

34

0%

0%

100%

0

0

34

0%

0%

100%

Tabela 2 – Apresentação da expressão matemática do período e frequência.

Já a questão que trata da observação e identificação de fenômenos periódicos no cotidiano, alguns alunos acreditam poder identificar os fenômenos periódicos como segue na tabela 3.

Questão

SIM

NÃO

NÃO RESPONDEU

Você acredita que possa identificar os Fenômenos Físicos, expostos na aula, em seu cotidiano?

30

0

4

88,24%

0%

11,76%

Tabela 3 – Identificação de fenômenos periódicos.

Dentre os exemplos de suas observações cotidianas os alunos deram

alguns exemplos de aplicações tecnológicas como as ondas de rádio, televisão

e perturbações em superfícies de líquidos ao se cair um objeto na superfície quando esta está em estado de repouso, conforme podemos observar na tabela 4.

EXEMPLO

OCORRÊNCIA

Ondas de rádio e TV

50%

Perturbação em superfície líquida

20%

Sem relação com fenômenos periódicos

30%

Tabela 4 – Exemplos apresentados

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Conclusão Desse modo demonstramos os possíveis benefícios que a utilização de simulação computacional pode trazer para o ensino de Física a partir de uma atividade de ondulatória aplicada em uma sala de 2° ano do Ensino Médio de uma escola estadual no interior do Estado de São Paulo.

As atividades foram desenvolvidas iniciando-se com uma sondagem acerca dos conhecimentos prévios dos alunos sobre conceitos de ondulatória

e suas aplicações tecnológicas (celular, rádio, TV), com o objetivo de deixar a aula contextualizada. Oportunizando aos discentes uma melhor compreensão acerca dos fenômenos ondulatórios e periódicos. Observou-se ainda que os alunos possuem certa dificuldade com

a notação matemática utilizada para o estudo de ondas visto que o alunado envolvido na pesquisa não apresentou uma expressão matemática para determinação da frequência e do período das ondas periódicas. A partir dos dados apresentados acerca da aula em que foi feito uso de simulação computacional na aula de Física vemos que estas podem trazer alguns benefícios para o processo de ensino/aprendizagem, tais como, compreensão do fenômeno estudado, podendo ser compreendido quase em sua totalidade pelos alunos, observamos ainda que tal recurso ainda não atrai

o aluno para que este possa compreender os fenômenos em sua totalidade

matematicamente, pois os mesmos não souberam apresentar as expressões matemáticas pedidas na atividade. Vimos também um interesse dos alunos em apresentar uma relação das ondas com seu cotidiano em que 70% das repostas relacionaram a ondulatória a exemplos de suas obser