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UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS FACULDADE DE HISTÓRIA CAMPUS SAMAMBAIA Análise do livro Filmar o Real

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS FACULDADE DE HISTÓRIA CAMPUS SAMAMBAIA

Análise do livro Filmar o Real

MARCOS BRICCIUS

GOIÂNIA MAIO - 2015

DE GOIÁS FACULDADE DE HISTÓRIA CAMPUS SAMAMBAIA Análise do livro Filmar o Real MARCOS BRICCIUS GOIÂNIA

MARCOS BRICCIUS

Análise do livro Filmar o Real

Trabalho apresentado à Professora Dr.ª Ana Lúcia Oliveira Vilela da disciplina Experimentações em Narrativas Audiovisuais e História da turma 5º período, turno Noturno do curso de Bacharelado em História.

UFG Goiânia – 2015

INTRODUÇÃO

Nesta breve análise sobre a obra de Lins & Mesquita (2008), Filmar o Real:

sobre o documentário brasileiro contemporâneo; as autoras contextualizam o cenário nacional, tanto na produção documental quanto longa metragem, permeando as influências do cinema moderno, as produções fílmicas entre 1990 e 2007.

I – Em busca do real

Levantando a questão do crescente interesse pela modalidade de cinema do documentário:

Criação de festivais da área;

Editais públicos de fomentação;

Aumento de cursos pelo país (consequentemente: seminários, debates e etc);

Interesse pelo “real” – não se limitar a imagens estáveis e bem enquadradas (como nos telejornais até começo da década de 1990). O estudo limita-se à produção independente e de documentais de meados dos anos 90.

II – Anos 90: o documentário ganha visibilidade

Ao findar dos anos 90, a produção documental, em franco crescimento:

Destaques para (todos de 99):

em franco crescimento: Destaques para (todos de 99): Imagem Disponível em:

Imagem Disponível em: http://filmow.com/nos-que-aqui-estamos-por- vos-esperamos-t3967/ . Acessada em: 14/05/2015.

Quase 59 mil espectadores.

Imagem Disponível em: http://filmow.com/santo-forte-t4022/ . Acessada em: 14/05/2015. Quase 19 mil espectadores. Imagem

Imagem Disponível em: http://filmow.com/santo-forte-t4022/ . Acessada em: 14/05/2015.

Quase 19 mil espectadores.

. Acessada em: 14/05/2015. Quase 19 mil espectadores. Imagem Disponível em:

Imagem Disponível em: http://filmow.com/noticias-de-uma-guerra-particular-t9996/ . Acessada em:

14/05/2015.

Exibido em vários festivais, TV GNT/Globossat: grande repercussão.

Mesmo com a extinção da Embrafilme, no governo e Fernando Collor de Melo, em que o cinema brasileiro de longa metragem quase desaparece – apenas 3 filmes nacionais foram exibidos nos cinemas em 92 – a produção documental, seguiu seu gênero “menor”, mantendo vigorosas ligações com os movimentos sociais que aparecem ou retomam seu espaço com a redemocratização. É através de legislação de incentivos (renúncia fiscal), que empresas privadas e estatais, que recupera o ânimo em específico na produção de longa-metragem:

Lei Rouanet - Lei nº 8.313, de 23 de Dezembro de 1991 (em homenagem a Sérgio Paulo Rouanet, secretário de cultura durante o governo Collor);

Lei do Audiovisual - Lei nº 8.685, de 20 de Julho de 1993.

Infelizmente, os incentivos encontram barreiras quanto à distribuição e comercialização; mesmo com muita produção, são lançadas poucas cópias – quando

lançados – se submetem à equação de números de cópias versus número de espectadores. Em contrapartida, iniciativas fomentadas por editais públicos, estabelece laços mais firmes entre a produção independente e a TV aberta, a exemplo o programa DOCTV. Premiado no Festival Internacional de Documentários – “É Tudo Verdade”, em 1999 na sua quarta edição: Nós que aqui estamos por vós esperamos, filme sem grandes recursos e feito em um computador doméstico; produção contemporânea do diretor Marcelo Masagão, com manipulação de imagens alheias, fragmentadas com imagens do século XX, destacando e criando personagens, retirando-os do anonimato. Quase artesanal, esse experimento é marcado por uma edição não-linear. Notícias de uma guerra partícula, de João Salles e Kátia Lund, é fruto de um relacionamento entre a produtora independente Videofilmes e o canal fechado GNT/Globosat; que aborda os conflitos entre policiais e traficantes, os reflexos no cotidiano da população pobre, fazendo um diagnóstico da ascensão da violência no Rio

de Janeiro. Os autores inserem no âmbito do audiovisual brasileiro a temática do tráfico de drogas e armas, violência e pobreza. Santo Forte, de Eduardo Coutinho, se inspira em 11 moradores de Vila Parque da Cidade – favela da Zona Sul do Rio – e suas experiências religiosas, combinados com 5 minutos de imagem “pura” (planos sem pessoas falando).

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uma visão, que evoca um ‘geral’ mas não o representa nem o exemplifica” (LINS

&

MESQUITA, 2008, p.19).

De Paulo Caldas e Marcelo Luna, O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, traz a mesma assunto, na periferia do Recife. Porém a fragmentação em demasia e a uma câmera em constante agitação atrapalham a construção dos personagens. Ônibus 174, de José Padilha e Felipe Lacerda, usa dos mesmos recursos de Notícias, reutilizando imagens e refaz entrevistas; “não se esgota numa subjetividade”, alçando um notório alcance social e político, através de “ressignificações”.

III – Contrapontos com o documentário moderno

No chamado documentário “moderno”, produzido no decorrer dos anos 60 (conjunto de obras em 16 ou 35mm-curta e média) com o privilégio da afirmação de sujeitos; em detrimento ao que é “representativo” (Contemporâneo). Filmes à partir da década de 60 lançam um olhar sobre os problemas e

experiências de classes populares, rurais e urbanas – os marginalizados; divide-se entre

o dar “voz” (via entrevistas) e a totalizadora, interpretadoras de situações sociais e na

busca de soluções; embora nem todos usem de pretensões generalizantes. Conforme definido por Jean-Claude Bernadet (livro Cineastas e imagens do povo, 1985) como “sociológico”. Já na década de 70, aos limites dessa tendência “sociológica” sugerindo “promover” o sujeito, uma radicalização no “dar voz”. Congo (1972), de Arthur Omar e Di/Glauber (1977), por Glauber Rocha. Em ambos são reflexivos, experimentais e ensaístico; mostrando os limites da representação documental, propondo novos caminhos da relação com o espectador. Cabra marcado para morrer* (1964/1984), de Eduardo Coutinho, referenciado como “divisor de águas” por Jean-Claude Bernadet, entre cinema moderno (décadas 60 e 70) e documentário (décadas 80 e 90).

* O percurso de João Pedro Teixeira (líder camponês), que a mandado de latifundiários fora assassinado aos 2 de abril de 1962, em João Pessoa-PB.

Episódios fragmentados, personagens anônimos, esquecidos pela mídia e história oficial. Iniciado em 1964 (e interrompido), devido ao golpe militar e retomado em 1984, centrado em entrevistas, aberto e sem certezas.

IV – Presença da entrevista

Analisando Cabra marcado para morrer, Lins & Mesquita (2008, p.27) o consideram um “marco inaugural” para a obra de Eduardo Coutinho; ênfase nos diálogos entre personagens e diretor. Assim como Santo Forte evidencia além de radicalizar, os parâmetros que se tronaram influentes no documentário nacional no decorrer das décadas de 80 e 90.

V – A observação e o tempo

No filme de Maria Augusta Ramos, Justiça (2004), a diretora leva a cabo a linha de cinema de observação; aonde a equipe de filmagem apenas filma, sem interagir:

capturando na edição os personagens, negando tipificações. Assim, o tempo é que conta, produzindo efeitos e mudanças nas relações entre cineastas e personagens, mudanças na vida dos “observados”. Apenas ressaltando, que essa imparcialidade, se assim podemos chamar, que ocorrida nesta linha de cinema da dimensão temporal quase inexiste nos baseados exclusivamente em entrevistas.

VI – Documentário e auto-representação

Há experimentações na atualidade, que embora não chegue aos cinemas, são

produzidos, geralmente, via oficinas de formação audiovisual. Permitindo e estimulando

a representação do sujeito por ele mesmo, que em grande parte são postos à parte devido

a sua posição social. O emblemático O prisioneiro da grade de ferro – auto-retratos (2003), de Paulo Sacramento é o grande modelo nesse tipo de produção contemporânea.

VII – Documentário e mídia: confrontos, diálogos

Questão que se tornou fundamental desde o início da década de 90: a relação entre o documentário e as imagens produzidas, em especial, pelo telejornalismo. Relação essa por vezes contraditória, tensa e conturbada; constante nas várias etapas da produção fílmica. Embate visível a partir da década de 90, entre o modelo clássico do jornalismo da TV Globo (Brasil branco, rico e higienizado) e o estilo inaugural do jornalismo sensacionalista (mostrando a realidade da vida nas favelas, a sujeira – até então eclipsada na mídia) iniciado pelo SBT, com o programa Aqui agora. Sendo este novo modelo incorporado gradativamente pela TV Globo, buscando contornar e reformular sua estética jornalística. A bom exemplo, tanto de diálogo e confronto, em Ônibus 174, as imagens que Padilha e Lacerda utilizaram foram feitas pelos canais televisivos; porém a mídia não cumpriu o seu papel investigativo a cabo: expandir e explorar a questão além, entendendo todo o contexto de seu personagem principal (intrinsecamente ligado à tragédia social). Sendo cumprido esse papel pelo documentário.

VIII – Documentário subjetivo e ensaio fílmico

Apesar das abordagens e deslocamentos na linha de produção documental, há uma continuidade na produção moderna (focada no “outro de classe”); encontramos em Um passaporte húngaro (2002) de Sandra Kogut, um documentário que deixa de olhar para a alteridade, buscando na experiência pessoal e sua subjetividade. Já os ensaios fílmicos, não se remetem à regras em específico mas articula abordagens e composições variadas do objeto e discurso. Notório em filmes dos anos 80, como Mato eles? (1982) de Sergio Bianchi, podendo às vezes usar da ironia no enfoque de temas sociais.

IX – Dispositivos documentais, dispositivos artísticos

O “dispositivo” conceitua-se nas etapas da criação, uma premissa ou estruturação ao que virá a ser filmado. Assim como no filme de Kogut, há uma “maquinação” de lógica, determina elementos delimitadores para realização do filme. Caminhando por outras formas de se filmar o real, utilizando também o chamado dispositivo artístico, a ver Acidente (2006) por Cao Guimarães e Pablo Lobato, que não começa de uma proposição pré-definida. Eles criam um poema com o nome de 20 cidades, e para funcionar esse poema se obrigam a filmar, independente de gostarem ou não do local e lá buscando as situações, abordando e produzindo.

X – Dispositivos e novas formas audiovisuais

Diferenciado dos demais filmes vistos até o momento, o fator principal que tornou possível sua filmagem foi o encontro e relacionamento dos personagens e equipe. Aboio (2005) de Marília Rocha, aonde o ordem de entrevistas não segue a fio na edição. Buscando a aproximação do ambiente e o vivido.

XI – Imagem e crença

Ao concluir com Jogo de cena (2007) de Eduardo Coutinho, amplia a possibilidade de criação do cinema nacional. Dissolvendo as tradicionais distinções entre documentário e ficção; percebe-se a problemática do audiovisual contemporâneo: a crença do espectador via às imagens do mundo:

inédito na produção brasileira, é a capacidade de perturbar a

crença do espectador naquilo a que ele está assistindo, de suscitar dúvidas a respeito da imagem do documental e de fazer com que essa

percepção seja menos uma compreensão intelectual e mais uma experiência sensível”. (LINS & MESQUITA, 2008, p. 81)

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CONCLUSÃO

Na obra de Lins & Mesquita, elas trazem um histórico da situação do documentário nacional, dentre os anos 1990 a 2007. A trajetória de diretores, suas influências, seus marcos, embates e formas de se filmar o real. Além da interação e interpretação dos espectadores, ora participantes ora plateia.

REFERÊNCIAS

ABOIO. Direção: Marília Rocha. Brasil: 2006. 73 min, cor;

ACIDENTE. Direção: Cao Guimarães & Pablo Lobato. Brasil: 2006. 72 min, cor;

CABRA marcado para morrer. Direção: Eduardo Coutinho. Brasil: 1984. 119 min, p&b / cor;

CONGO. Direção: Arthur Omar. Brasil: 1972. 12 min, p&b;

DI/GLAUBER. Direção: Glauber Rocha. Brasil: 1977. 18 min, cor;

JOGO de cena. Direção: Eduardo Coutinho. Brasil: 2007. 105 min, cor;

JUSTIÇA. Direção: Maria Augusta Ramos. Brasil: 2004. 107 min, cor;

LINS, Consuelo & MESQUITA, Cláudia. Filmar o Real: Sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.

MATO eles? Direção: Sergio Bianchi. Brasil: 1982. 34 min, cor;

NÓS que aqui estamos por vós esperamos. Direção: Marcelo Masagão. Brasil: 1999. 73 min, p&b;

NOTÍCIAS de uma guerra particular. Direção: João Salles & Kátia Lund. Brasil: 1999. 57 min, cor;

O PRISIONEIRO da grade de ferro – auto-retratos. Direção: Paulo Sacramento. Brasil:

2003, 124 min, cor;

O RAP do pequeno príncipe contra as almas sebosas. Direção: Paulo Caldas & Marcelo Luna. Brasil: 2000. 75 min, cor;

ÔNIBUS 174. Direção: José Padilha & Felipe Lacerda. Brasil: 2002. 101 min, cor;

OPINIÃO Pública. Direção: Arnaldo Jabor. Brasil: 1966. 65 min, p&b;

SANTO Forte. Direção: Eduardo Coutinho. Brasil: 1999. 80 min, cor;

UM PASSAPORTE húngaro. Direção: Sandra Kogut. Brasil: 2002. 72 min, cor.