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A VOZ DE VANJA: NARRATIVA DE AUTORIA FEMININA E ANTAGONISMOS EM AZUL CORVO, DE ADRIANA LISBOA

Adrielly Rebeca Kerolaine Cordeiro (UFAM) Keren Barbosa de Melo (UFAM)

O que o bairro carioca de Copacabana e o distrito estadunidense de Lakewood

teriam em comum? Para Vanja, uma garota de treze anos, são as montanhas que “riem” por motivos diferentes. No primeiro local, as montanhas são invadidas por moradias

improvisadas, e as ruas testemunham assaltos, caminhadas de pessoas idosas, pedintes. No meio de todo o caos, há o desligamento das intervenções externas em um mergulho no mar. Já no segundo, a própria paisagem é um “mergulho”, mas na solidão. Isso se deve às vias bem espaçadas e com pouco movimento de pessoas e por um céu não alcançado pela construção civil. Ao descrever paisagens e passagens da vida da narradora e da vida de pessoas com alguma proximidade a ela (ou nem tanta), Azul Corvo, da escritora brasileira Adriana Lisboa, retrata, em primeira pessoa, o anseio de Evangelina (Vanja, como prefere ser chamada) em não ser apenas uma adolescente à mercê da piedade alheia em meio a acontecimentos trágicos. Dito isto, o presente trabalho propõe um olhar para a narrativa de autoria feminina contemporânea, e seus antagonismos tanto metafóricos quanto sociais. Afinal, como se dá o avivamento de memórias para uma menina mergulhada em tantas situações díspares? Como essa perspectiva narrativa afeta a rememoração de experiências individuais, bem como de lugares visitados e suas histórias?

O tema surgiu devido a dois interesses despertados durante a leitura de Azul

Corvo: as questões de gênero no que tange à autoria feminina e a narratividade por uma personagem feminina que desafia estereótipos, e os antagonismos constantes na obra.

A partir do que foi exposto, lançaremos mão da visão sociológica proposta por

Lukács (2000), Goldmann (1976) e Candido (2006). Quanto à autoria e representação feminina na literatura contemporânea, utilizaremos as análises de Duarte (2003),

Coqueiro (2014), Dalcastagnè (2012) e Noraci Braucks e Leoné Barzotto (2015).

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“Uma espécie de abstrato concreto”

Percebe-se um clamor por vozes femininas no discurso literário brasileiro, e não é de hoje. Duarte (2003, on-line) afirma que mulheres escritoras reivindicam espaço neste âmbito desde meados do século XIX. Segundo a autora, Nísia Floresta (1810- 1885) teve papel imprescindível nessa luta, não apenas sendo a primeira mulher no país a buscar pela publicação de seus textos, mas também adaptando ideais estrangeiros de liberdade feminina à nossa realidade. Ainda, à essa escritora atribui-se a antecipação da noção de gênero como construto sociocultural, conceito mais tarde difundido pelo próprio movimento feminista. Todavia, mesmo com todo esforço engendrado desde muito tempo para que as mulheres tomassem assento na literatura nacional, nota-se ainda uma expressão dominante impedindo a divulgação de outras formas e abordagens textuais. Sobre a movimentação atual da cena literária nacional, Dalcastagnè (2012, s.n.) assegura que o contexto social dá origem e fomenta a diversidade artística, tornando-se impossível compreender as mudanças nesse âmbito sem olhar ao redor. Mesmo indicando esse esforço, a autora mostra que a narrativa brasileira restringe os espaços urbanos retratados aos homens, e os domésticos às mulheres, mesmo na autoria feminina. Até as exceções (inclusive Azul Corvo), com figuras femininas em trânsito e dialogando com diversos cenários, apresentam esses personagens como alheios aos espaços ocupados, e à procura de um pertencimento a algum lugar. No contexto de Azul Corvo, Vanja identifica-se como brasileira, embora nascida nos Estados Unidos. Entretanto, tem de retornar a um ‘berço’ que não reconhece, fugindo da condição fragilizada onde não se enxerga e buscando uma figura paterna estranha à sua trajetória. Diante do contexto acima descrito, Candido (2006) assegura que a sociologia moderna enxerga a arte como produto social: tanto se influencia pelo meio social, e assim como influencia, mudando ou confirmando valores sociais no leitor (p. 30). Também ressalta que os estudos sociais e filosóficos, por muito tempo e até na

adulto, branco, civilizado, que reduz à sua

atualidade, confinaram-se ao olhar do “[

própria realidade a realidade dos outros” (p. 51). Interessante reparar em A Teoria do Romance, de Georg Lukács a diferença estabelecida entre epopeia e romance, em que a primeira se refere à ideia de totalidade

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na Grécia antiga, e o segundo à falta dessa ideia e, consequentemente, à fragmentação do mundo do homem moderno:

O processo segundo o qual foi concebida a forma interna do romance

é a peregrinação do indivíduo problemático rumo a si mesmo, o

caminho desde o opaco cativeiro na realidade simplesmente existente, em si heterogênea e vazia de sentido para o indivíduo, rumo ao claro autoconhecimento (2000, p. 83)

A partir desta análise, Goldmann (1976, p. 15) garante que o dever de uma sociologia do romance é relacionar o que está contido numa obra romanesca ao contexto

social onde ela foi concebida. Além disso, que o romance carrega uma complexidade, um caráter dialético cuja origem não se fundamentaria sem qualquer ligação com a vida social de sua época e do seu local de nascimento. Por esse viés, Coqueiro (2014, p. 14) comenta que o feminino na

a revisão da história recente o país e do mundo, a

globalização, o exílio, o deslocamento espacial e pessoa, além da construção da

uma descrição perfeita para se pensar a respeito do

romance em questão. Em Azul Corvo, a própria multiplicidade das memórias de Vanja e de Fernando, além da aproximação da jovem com fatos históricos, fazem parte da busca engendrada por ela. Seu objetivo não é exatamente conhecer verdadeiro pai, mas o verdadeiro ‘eu’, distante do que as pessoas ao seu redor desejavam impor.

contemporaneidade envolve “[

]

]”,

identidade e da sexualidade [

Você pode me chamar de Vanja

Noraci Braucks e Leoné Barzotto, no artigo Romance e Poesia em Azul Corvo (2010), de Adriana Lisboa identificam a trajetória descrita no livro em análise como produto da chamada diáspora atual, compreendendo um hibridismo cultural evidente na fala tanto da Vanja narradora quanto da Vanja adolescente. Essa miscelânea de referências culturais e de experiências (pessoais e de outros personagens) se faz presente por meio de situações antagônicas. Isso estende-se inclusive pela forma como a personagem principal se enxerga, indo contra o esperado para meninas daquela idade. Por esse ângulo, tomamos como exemplo a recusa da garota em possuir sapatos de salto alto, bichos de pelúcia e brincos. Os calçados dados por Elisa, sua tia de criação,

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ate continuaram guardados no armário, segundo a Vanja narradora, que nem atingindo a

idade adulta sentiu vontade de usá-los. Sobre os brincos, declara que “[

brincos a gente tem, menos brincos a gente perde” (LISBOA, 2010, p.15). E quanto aos bichos de pelúcia, dispara: “Uma coisa tola, inútil, e colecionadora de ácaros. Eu poderia doá-los para alguma criança tola, inútil e os ácaros seriam bem merecidos. (LISBOA, 2010, p.15). Os fragmentos apresentados denotam um desprendimento da adolescente quanto a itens conferidos a meninas de sua faixa etária: o bicho de pelúcia (símbolo que remete à infância) e brincos/sapatos de salto alto (início de uma feminilidade adulta).

Aliás, a própria idade em que se encontra a Vanja personagem é tratada socialmente como um período de transição, de contrários. Entretanto, a narradora também inverte essa impressão, afirmando: “Ter treze anos é como estar no meio de lugar nenhum” (LISBOA, 2010, p.11). Esse “lugar nenhum” descrito pela Vanja narradora aparece novamente quando a garota viaja pela estrada, na companhia de Fernando e de Carlos (um menino salvadorenho de nove anos, filho de imigrantes ilegais):

] quanto menos

Existe algo de intermediário nos desertos. Muitos viajantes disseram isso. É como se eles não fossem destinações, mas caminhos apenas. Grandes paisagens inóspitas onde você não se demora, que você apenas percorre entre um e outro ponto mais afável do mapa. E no entanto pessoas viviam ali. Pessoas vivem nos desertos e nos ermos áridos e semiáridos do mundo. (LISBOA, 2010, 147)

Ao contrário das imagens desérticas, também são vistas situações de transformação e adaptação, como quando vai ao encontro de Florence, mãe do seu suposto pai. Sobre o ateliê de Florence, Vanja aponta: “O ateliê era um lugar no gerúndio, um lugar de coisas saindo de seu estado bruto, sendo fabricadas, se tornando” (LISBOA, 2010, p. 188). Contrapondo os desertos, o ateliê de Florence foi palco do momento em que Vanja encontra-se com parte das origens que tanto perseguia. Igualmente chamativos são os exemplos de animais que Vanja aponta como exemplos de resiliência, força, atenção e adaptabilidade. Baratas, na explicação da jovem, poderiam se regenerar, suportar a falta de umidade no inverno. Ao decorrer da história, relacionamos Vanja às baratas de Copacabana, por conta do seu enfrentamento ao frio intenso nos Estados Unidos.

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Braucks e Barzotto (2015, p. 127) também chamam atenção para como Lakewood e Copacabana, mesmo sendo antagônicas, estão interligadas em sua história:

“Enquanto isso, os moluscos do mar de Copacabana silenciavam o mundo dentro de suas conchas azul-corvo. E os corvos sobrevoavam a cidade de Lakewood, Colorado. Os corvos azul-concha” (Lisboa, 2010, p. 41). Por falar nisso, a narradora, vez ou outra, relaciona a questão do mar, do azul e da morte: é “num dia azul” que Suzana conta que está prestes a morrer (LISBOA, 2010, p. 51); é no mar de Copacabana que Vanja encontra “o concreto e o possível”, ao mergulhar e se desligar dos barulhos vindo da praia (LISBOA, 2010, p. 30); e segundo a

lenda, muitos corpos estão no fundo do mar, na Baía de Guanabara, por causa da construção da ponte Rio-Niterói (LISBOA, 2010, p. 50). Em contrapartida, a Amazônia onde Fernando (sob o codinome Chico) viveu como guerrilheiro comunista traz as fortes chuvas, característica marcante daquele lugar. Junto à torrente de água, vem uma torrente de história para Vanja, ao decorrer da narrativa: a menina passa a conhecer uma história do Brasil diferente da que ouvia dos professores na escola. E aqui também a menina dá um jeito de estabelecer comparativos entre situações e bichos: os peixes, animais que não dormem, mas ficam em estado de alerta; os “peixes”, combatentes na Guerrilha do Araguaia, atentos aos perigos da selva. Aliás, em respeito à uma certa alienação sentida por Vanja sobre a história do Brasil e do mundo, a menina tem o mesmo sentimento quando fica sabendo sobre a cantora de rock Janis Joplin, morta por overdose aos vinte e sete anos de idade, no fim dos anos 1960. Vê-se essa situação quando Vanja e a mãe, Suzana, estão no carro, ouvindo a música Me and Bobby McGee, da referida artista. Suzana, igualmente à filha, representa uma ruptura do que se imagina sobre mães e mulheres. Geralmente, liga-se a figura materna ao doméstico e até ao divino. Aqui, Vanja vê na mãe uma criatura transgressora, de voz também rouca, que procurou pela liberdade fora do seu lar,

alguém que “[

embora, ia embora”, e que “quando abandonava, abandonava” (LISBOA, 2010, p. 31). Confirma-se tal comparação nas seguintes falas da narradora: “Minha mãe gostava de romper relações com os homens e desaparecer de suas vidas.” (LISBOA, 2010, p. 27). Pelas reflexões aqui suscitadas, percebemos o quanto Azul Corvo é uma obra em consonância com a época em que foi escrito. Na verdade, já são dois séculos na busca por uma representação que contemple a feminilidade fora de estereótipos sociais na literatura brasileira. Por mais que, em um primeiro contato, esse romance não ofereça

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não era de caminhar por cima dos próprios passos”, que “quando ia

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um olhar dito feminista, com um embate claro e exposto contra o sistema patriarcal, a

própria narração, por meio de uma voz feminina que desafia estereótipos esperados, já

merece um estudo nessa lógica. Ademais, as diversas circunstâncias demonstrativas das

transformações na vida de Vanja sugerem outras formas de contar histórias com

narrativa feminina e tantas situações onde as mulheres podem ser representadas.

Referências

BRAUCKS, Noraci Cristiane Michel; BARZOTTO, Leoné Astride. Romance e poesia

em Azul-corvo (2010), de Adriana Lisboa. In: Revista Estação Literária. Londrina, volume

14, p. 121-134, dez. 2015. Disponível em < http://www.uel.br/pos/letras/EL/vagao/EL14- Art10.pdf>. Acesso em 20 jun. 2017.

CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 9.ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.

COQUEIRO, Wilma. Poéticas do deslocamento: representações de identidades femininas no bildungsroman de autoria feminina contemporâneo. Disponível em < http://www.ple.uem.br/defesas/pdf/wscoqueiro.PDF>. Acesso em 20 jun. 2017.

DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contextado Vinhedo: Editora Horizonte/ Rio de Janeiro: Editora da Uerj, 2012.

DUARTE, Constância Lima. Feminismo e literatura no Brasil. Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. São Paulo, vol. 17, n. 49, set./dez. 2003. Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103- 40142003000300010>. Acesso em 20 jun. 2017.

GOLDMANN, Lucien. Sociologia do romance. Trad. Alvaro Cabral. Rio de Janeiro:

Paz e Terra, 1976.

LISBOA, Adriana. Azul-Corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. Tradução, posfácio e notas de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000.