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Vamos lá, caro William!

Não há contradição alguma nos dois relatos. Basta conhecer um pouquinho de história e da
cultura da época.

Mas antes de explicar o aparente desentendimento entre os textos, pense um pouco comigo:
se a história de Jesus é uma fraude e se os evangelhos se copiaram mutuamente, por que raios
Lucas traria uma genealogia tão diferente da de Mateus? Veja que a genealogia INTEIRA é
diferente, e não apenas o nome do pai de José. As diferenças, de fato, começam a partir de
Davi! Como pode um livro que copiou o outro em tantos detalhes ter tal disparidade? E mais:
como, na época, ninguém reparou em tal erro e corrigiu-o? Fica claro que, para as pessoas que
viviam na época do Novo Testamento, as genealogias diferentes não foram nenhum problema
– e mais, se a história é inventada, os falsificadores teriam todo o cuidado de traçar uma
mesma genealogia e não outra tão discrepante! Assim, parece que de fato Jesus teve duas
genealogias distintas. Como isso se dá?

Por que raios as genealogias são tão diferentes?

A resposta é simples. Comecemos pela genealogia apresentada por Mateus.

Mateus é um evangelho escrito para os judeus. Assim sendo, seu objetivo é mostrar Jesus
como o Messias judaico, o prometido descendente do Rei Davi que traria o Reino de Deus à
Terra. Assim, Mateus tenta mostrar que Jesus é LEGALMENTE descendente de Davi. Ora,
legalmente, na cultura judaica, um filho é descendente de seu pai. Assim, Mateus traça a
linhagem de Jesus a partir de José e, repare, ela vai só até Abraão, porque legalmente não
interessa o que havia antes de Abraão para os judeus.

E Lucas? Lucas tem um público diferente. Um público grego/romano, bem mais amplo, que
busca mostrar Jesus como homem, não como um descendente da linhagem real de Israel. Por
isso, sua linha genealógica não para em Abraão, mas vai até Adão, o primeiro homem! Isso
porque, Abraão, para os gregos e romanos, não tinha a menor importância.

Como explicar, portanto, que para Mateus, o pai de José é Jacó, mas para Lucas é Eli?

Para entender isso, precisamos entrar um pouco mais na cultura judaica da época.

Nas árvores genealógicas, sempre se usava o nome do pai, jamais o da mãe. Isso é fato
conhecido e facilmente atestável em todo o mundo antigo e no judaísmo não é diferente.

Entretanto, devemos lembrar que Jesus não era biologicamente filho de José, mas apenas
LEGALMENTE. Biologicamente, era filho de Maria. Seu elo LEGAL, portanto, com a linha real
era por José; porém seu elo REAL, biológico, com a humanidade, era por Maria. Isso pode ser
visto inclusive na própria genealogia de Mateus, quando no verso 16 diz: “"E jacó gerou
José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo". Observe que
não diz que José gerou a Jesus, mas sim que José era marido de Maria!
Ademais, devemos lembrar o que a tradição e culturas judaica sempre disseram: quando um
homem casa-se com uma mulher, ambos tornam-se “uma só carne” (Genesis 2).

Isso tudo faz com que algo um pouco estranho para nós, no século XXI, fosse algo
normal na época. É o que a Enciclopédia de M'Clintock e Strong narra. Veja: “É bem
conhecido que os judeus, ao elaborarem suas tabelas genealógicas, levavam em conta
apenas os varões, rejeitando o nome da filha quando o sangue do avô era transmitido ao
neto por uma filha, e contando o marido desta filha em lugar do filho do avô materno.
(Números 26:33).”

Opa, estamos chegando a algum lugar!

E acho que você mesmo, caro William, já está começando a ver que, na realidade, não há
contradição alguma entre as genealogias!

Assim, o problema é facilmente resolvido: Mateus, cujo objetivo é mostrar a realeza de Jesus,
traça a linha genealógica de Jesus através de seu pai legal, José. Lucas, cujo objetivo é enfatizar
a humanidade de Cristo, traça a linha genealógica através de sua mãe biológica, Maria. Isso
porque Jesus é filho biológico de Maria, mas não de José! Ou seja, em termos biológicos, o
verdadeiro elo de Jesus com a humanidade vem por Maria, não por José!

Assim, Mateus mostra o elo legal (através de José), enquanto Lucas mostra o elo humano
(através de Maria).

Mateus mostra a genealogia de José e Lucas a de Maria!

Mas, então, por que em Lucas é dito que Jesus ”era, como se pensava, filho de José, filho de
Eli”?

Simples! Como já mencionei acima, a cultura judaica trata homem e mulher, quando se casam,
como “uma só carne”. Assim, após casarem, o esposo era visto como filho do sogro e a esposa
como filha de seu sogro. Assim, dentro da cultura judaica, não há contradição alguma em
alguém ter dois pais: o pai biológico e o pai adotivo, que ganhou por meio da esposa.

Tendo em vista todos esses fatores e a finalidade de cada evangelho, fica fácil ver que não há
contradição entre os textos apresentados.

Como Geisler e Howe dizem, “Lucas não diz que está traçando a genealogia de Jesus
a partir de José. Antes, ele observa que Jesus, "como se cuidava" era "filho de
José", quando de fato ele era filho de Maria. Também o fato de Lucas registrar a
genealogia pela linha de Maria vinha bem ao encontro de seu interesse, como
médico, por mulheres e nascimentos, o que se vê inclusive por sua ênfase em
mulheres no seu Evangelho, que tem sido chamado de "o Evangelho para as
mulheres".” (Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e Contradições da Bíblia, de
Norman Geisler e Thomas Howe)

E o mais interessante de tudo, caro William, é que essa não é a única explicação que
harmoniza as duas genealogias. Existem outras, mas que como já me alonguei aqui,
prefiro deixar para uma outra ocasião. Creio que se lermos a Bíblia com os olhos do
século XXI, de fato, muita coisa nos parecerá estranha. Você ser tratado como filho de
seu sogro? Isso não faz parte da nossa cultura hoje! Mas na cultura da época, fazia
parte! Então, devemos ter muito cuidado ao analisar textos antigos, pois sem o
conhecimento adequado das tradições, costumes, culturas e até mesmo gírias da época,
fica difícil compreender o real sentido do texto.