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Francisco e o irmão Coltan

Teatro: Para ser lido ou representado.


Personagens: Francisco de Assis, Coltan, Congolesa, Congolês, Maria e João

FRANCISCO: Paz e bem! Este mês estou na África. Quero saber o que acontece por estas
terras.
COLTAN: Fala comigo, Francisco.
FRANCISCO: Quem é tu? Não vejo ninguém…
COLTAN: Estou dentro da terra.
FRANCISCO: Então, porque te ouço tão claramente, se estás tão escondido?
COLTAN: Porque eu sou um bom condutor de eletricidade. É por isso que me usam nos
telemóveis, computadores de bordo e outras tecnologias da comunicação, que equipam
desde os meios de transporte do cidadão comum até às estações espaciais e naves
tripuladas e não tripuladas e, também, armas sofisticadas.
FRANCISCO: Como te chamas?
COLTAN: Chamam-me coltan. É a combinação de duas palavras que correspondem aos
dois minerais que me compõem: a columbita e a tantalita. Sou negro, raro e muito escasso.
Nasci na República Democrática do Congo, no coração da África. Antes, eu vivia
tranquilo nas profundezas da terra. Nem sequer me conheciam. Mas agora matam-se por
mim. Andam desesperados por encontrar-me, porque necessitam de mim…
CONGOLÊS: Na RD Congo encontram-se 80 % das reservas mundiais de coltan,
sobretudo no Norte do país. Para dominar a região e explorar este recurso natural, desde
1998 têm havido guerras após guerras.
CONGOLESA: Sim, irmão Francisco, estás a pisar terra manchada de sangue. Perto de
seis milhões de homens, mulheres e crianças morreram aqui.
JOÃO: As empresas das novas tecnologias querem sempre mais coltan. Então, abrem-se
mais minas para extrair os minerais.
CONGOLÊS: Minas onde trabalham adultos e crianças, de sol a sol, como escravos.
Comem e dormem nas imediações das minas. Um mineiro pode extrair um quilo de coltan
por dia. E recebe dois dólares. As crianças ganham muitíssimo menos: 25 centavos de
dólar diários. Mas a empresa receberá 500 dólares por aquele quilo. Por isso, as empresas
que exploram as minas compram e vendem armas, organizam guerrilhas, contratam
mercenários para as vigiar. Adolphe Onusumba, que foi chefe do movimento rebelde
Reagrupação Congolesa para a Democracia (RCD), afirmou: «Com a venda de
diamantes, ganhávamos cerca de 200 000 dólares ao mês. Com o coltan, chegámos a
ganhar mais de um milhão de dólares por mês.»
MARIA: Na RD Congo, a exploração das minas arrasa florestas, transforma campos de
cultivo em lodaçais e contribui para o extermínio de gorilas, elefantes e outros animais.
Elas parecem formigueiros. São longos túneis escavados nas colinas. E libertam radiações
mortais de urânio e rádio.
JOÃO: Por todo o mundo, os aparelhos eletrónicos, se é certo que ajudam muito as
pessoas, estão a enlouquece-las. Compram e, em seguida, descartam, para comprar o
último modelo.
FRANCISCO: E são milhões de milhões os aparelhos das novas tecnologias usados pelos
sete mil milhões de pessoas que povoam a Terra...
COLTAN: Em todos eles há um pouco de mim. E, em todos eles, há muito sangue deste
povo congolês.