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INTRODUÇÃO

Este trabalho de pesquisa bibliográfica estuda a Era Vargas, um período bastante


controverso da história do país, marcado pela atuação política do homem que nasceu na
cidade de São Borja, Estado do Rio Grande do Sul, chamado Getúlio Dornelles Vargas,
que foi ditador e presidente do Brasil.
Na primeira parte trataremos do “homem Getúlio”, registrando os dados
biográficos do personagem histórico estudado. A segunda parte estudará o Populismo.
Finalmente, a terceira parte analisará as diferentes faces de Getúlio, ou seja, as
diferentes formas como era visto: pelos pobres e pelos ricos.
Partindo da hipótese de que Getúlio Vargas deixou um grande legado para o
país, o trabalho procurará mostrar a importância das suas conquistas políticas, como os
direitos trabalhistas que até hoje estão em uso e que foram, sem dúvida nenhuma, uma
das maiores conquistas para os trabalhadores.
Esse homem, simples, mas de uma natureza calculista, viu na massa a sua
oportunidade de formar a nação que sempre almejou. Atuou com o poder ditatorial em
um período de total repressão e depois foi democraticamente eleito presidente do país.
Investiu na área de infraestrutura, mas foi na área do trabalho que deixou sua marca.
Ficou conhecido na história como o “Pai dos Pobres”, enquanto outros o chamavam de
“Mãe dos ricos”. Um verdadeiro enigma, com diferentes faces, porém idolatrado por
milhões de trabalhadores. Entrou no poder de uma forma provisória, com a Revolução
de 1930 e instalou o Estado Novo; todavia, permaneceu no poder até seu suicídio em
1954.
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1 O HOMEM GETÚLIO

Getúlio Dornelles Vargas nasceu em 19/4/1882, na cidade de São Borja, Rio


Grande do Sul (RS) terceiro dos cinco filhos do casal Manuel e Cândida e faleceu em
24/8/1954, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Foi o Presidente que mais tempo governou
o Brasil, durante dois mandatos, entre os anos de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954.
Segundo Levine, (2001) Getúlio Vargas, revelava um lado sombrio e sempre ocultava
suas intenções. Misterioso, difícil de ser decifrado, no século XX, foi o mais influente
dos brasileiros, ao mesmo tempo, cultivava uma imagem de homem de família, mas
também demonstrava sangue frio e impiedade, quando julgava necessário. Provinha de
uma família de estancieiros, na cidade de São Borja, região gaúcha do Rio Grande do
Sul, onde os gaúchos tinham orgulho de sua tradição. “Se todos os que vieram [para
nosso Estado] fossem portugueses”, disse um dos governadores gaúchos mais tarde,
revelando arrogância nacionalista, “seríamos tão atrasados quanto o Uruguai.”
(LEVINE, 2001, p13). Segundo Levine (2001), Vargas não gostava de responder de
imediato, preferia pensar antes de qualquer resposta, assim, muitas pessoas aprenderam
a não confiar nele. De uma natureza calculista, enigmática, compreendia o poder com
que sempre sonhou.

Figura 1 : Getúlio Dornelles Vargas

Disponível em: < http://www.infonet.com.br/sysinfonet/images/secretarias/educacao/grande-


getulio_vargas_divulgacao.jpg > Acesso em 15.Nov.2014.
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De acordo com Mendes (1986, p.9):

[...] Mal sabendo ler e escrever, já se arrogava foros de grande homem.


Conta-se que, certa vez, aliás contra seus hábitos, Getúlio não quis ir ao
colégio. O pai opôs-se. Ele persistiu na teima. Queria o pai, ao menos;
conhecer a causa de sua atitude insubmissa. Interroga-o. Depois de muita
relutância, vem afinal a explicação do pequeno. Toda ela, porém, em
monossílabos, como de quem se sentisse profundamente contrariado de ter de
justificar-se:
-Não quero ir ao colégio porque hoje não há aula.
-Como não há aula, se é dia útil?
-E porque eu resolvi que não houvesse.
Em realidade, como represália a uma suposta injustiça, toda a classe de
Getúlio havia faltado naquele dia à escola.

1.1 Revoluções de 1930 e a entrada no poder

De acordo com Fausto (1996) após várias reuniões, em meados de 1929, fora
lançada a candidatura de Getúlio Vargas `a presidência pela oposição, e seu vice, João
Pessoa, formando assim, a Aliança Liberal, onde Getúlio recebeu apoio dos democratas
de São Paulo e em Minas Gerais. Uma cisão do PRM (Partido Republicano Mineiro)
apoiou Júlio Prestes. O autor ainda expõe:

[...] O programa da Aliança Liberal refletia as aspirações das classes


dominantes regionais não associadas ao núcleo cafeeiro e tinha por objetivo
sensibilizar a classe média. Defendia a necessidade de se incentivar a
produção nacional em geral e não apenas do café; combatia os esquemas de
valorização do produto e, nome da ortodoxia financeira e por isso mesmo não
discordava nesse ponto da política de Washington Luís. Propunha algumas
medidas de proteção aos trabalhadores, como a extensão do direito a
aposentadoria a setores ainda não beneficiados por ela, a regulamentação do
trabalho do menor e das mulheres e aplicação da lei de férias. Em evidente
resposta ao presidente Washington Luís, que afirmava ser a questão social no
Brasil “uma questão de polícia”, a plataforma da oposição dizia não se poder
negar sua existência, “como um dos problemas que teriam de ser encarados
com seriedade pelos poderes públicos”. Sua insistência maior concentrava-se
na defesa das liberdades individuais, da anistia (com o que se acenava para os
tenentes) e da reforma política, para assegurar a chamada verdade eleitoral.
(FAUSTO, 1996, p 319-320)
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Figura 2: Os dois políticos antagonistas, líderes da revolução paulista de 1932

Disponível em: < http://files.caderno-de-educacao.webnode.com/200000434-


0504607b6e/REV%2032.%20interna%202.png >. Acesso em: 15. Nov. 2014.

“Um dos fatores básicos da revolução de 1930 foi a crise da política de


valorização do café, em virtude da violenta crise do capitalismo (1929)”
(KOSHIBA,1993, p 301). Segundo Koshiba (1993) através do decreto nº 19.398, em
novembro de 1930 Washington Luís foi derrubado pela Junta Governativa, surgindo
assim o Governo Provisório, tendo como líder Getúlio Vargas, iniciando assim a
carreira política de um dos homens mais conhecidos no Brasil: Getúlio Dornelles
Vargas.
Segundo Mendes (1986, p.30):

[...] A Getúlio Vargas cabia a tarefa não só de fazer cumprir as promessas da


Alianças Liberal, mas de equilibrar-se entre interesses e correntes ideológicas
conflitantes. À sua esquerda, os tenentes, inspirados por um marxismo
imberbe, exigiam mudanças radicais; à sua direita, os estancieiros e grandes
proprietários de terras, apenas preocupados em acotovelar-se no parapeito do
poder e assim continuar influindo nas decisões; a sua frente, um país sem
feições de nação, um povo sem direitos mínimos de cidadania, uma classe
trabalhadora urbana com reivindicações cada vez mais claras.
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1.2 O Estado Novo (1937- 1945)

[...] Se é verdade que a ditadura de um homem (Getúlio Vargas) e o


cerceamento das liberdades públicas e individuais por um Estado autoritário-
tudo dentro do mais rigoroso figurino fascista da época- são as evidências
mais proclamadas, é preciso reconhecer que tudo isso já se manifestava
embrionariamente antes do 10 de novembro de 1937. (MENDES, 1986, p
41).

Vargas assumiu o poder na condição de ditador, sua fala dizia que era necessário
fortalecer o Estado contra o perigo do domínio comunista. Em novembro de 1937,
através de um golpe, Getúlio anunciou uma nova fase política por meio de uma carta
constitucional, elaborada por Francisco Campos. Começava assim o Estado Novo.
Violência política, censura, repressão, caracterizaram essa nova fase. "Vargas optou
pelo golpe por ser a única maneira de permanecer na presidência além do prazo legal de
sua gestão que expiraria em alguns meses" (LEVINE, 2011, p83):

[...] O caso de Olga Benário, que sempre é citado para demonstrar a


crueldade da política de Getúlio, ocorreu antes do Estado Novo, à sombra
portanto, de um Legislativo e de um Judiciário que, bem ou mal, poderiam
exercitar sua humanidade e respeito aos direitos elementares da pessoa
humana. Mas não o fizeram. A hipocrisia das classes dominantes encontraria
na ditadura Vargas o bode expiatório de seus crimes. (MENDES, 1986, p
42).

A Ação Integralista Brasileira, que havia apoiado Getúlio, também foi extinta.
Sentindo-se traídos, os integralistas tentaram tomar o poder de Getúlio a força, mas
foram reprimidos pelo Exército Nacional. Vargas conquistou o apoio da grande maioria
da classe trabalhadora, instituiu novas leis trabalhistas, nas quais regulamentava o
registro em carteira dos trabalhadores, entre outros benefícios.
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Figura 3 : Cartaz de propaganda da política getulista

Disponível em: <http://www.museudeciencias.com.br/files_ olimpiada/50441432585f8.jpg>


Acesso em: 15.Nov.2014.

Levinie (2001, p. 84) expressa:

[...] A submissão dócil à autoridade do estado não é repugnante e não pode


ser repugnante para as pessoas normais, pois elas compreendem
intuitivamente que um povo, para se transformar numa nação, precisa
organizar-se numa estrutura hierárquica, cuja solidez e funcionamento
eficiente exigem a atuação de uma autoridade capaz de coordenar e orientar
os elementos que se justapõem na sociedade.

Outro fato importante nesse período foi a criação do DIP (Departamento de


Imprensa e Propaganda) encarregado de fazer propagandas oficiais do governo, através
de cartazes, atos públicos, etc. Havia uma lei que obrigava a fixação de quadro do
presidente da República em todas as repartições públicas, juntamente com a bandeira
nacional. Foi criada também o programa de rádio “Voz do Brasil”, que além de
informações, apresentava grandes artistas da época, mas vale lembrar que tudo era
censurado e só se ouvia o que era conveniente ao governo Getúlio Vargas.
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1.3 O segundo mandato (1950-1954)

De acordo com Mendes (1986), em janeiro de 1951, foi proclamada pela Justiça
Eleitoral a vitória de Vargas e de seu vice João Café Filho, por meio de eleições
democráticas. Vargas tinha consciência das dificuldades que aguardavam o seu governo
e se aliou aos trabalhadores. Discursando no dia 1º de maio de 1951, no estádio do
Vasco da Gama, disse: “o governo ainda está desarmado de leis e de elementos
concretos de ação imediata para a defesa da economia do povo” (Apud MENDES,
1986, p 62). Pedindo ao povo que se organizasse, dando assim ao governo o ponto de
apoio à realização de seus propósitos, Getúlio Vargas apelava:

[...] Preciso de vós, trabalhadores do Brasil, meus amigos, meus


companheiros de uma longa jornada; preciso de vós, tanto quanto precisais de
mim [...]. Preciso da vossa união para lutar contra os sabotadores para que eu
não fique prisioneiro dos interesses dos especuladores e dos gananciosos, em
prejuízo dos interesses do povo. Preciso do vosso apoio coletivo, estratificado
e consolidado na organização dos sindicatos, para que os meus propósitos
não se esterilizem e a sinceridade com que me empenho com resolver os
nossos problemas não seja colhida da surpresa e desarmada pela onda
reacionária dos interesses egoístas, que, de todos os lados, tentam impedir a
livre ação do meu governo. (Apud MENDES, 1986, p 63).

Com esse apelo só se fez crescer a campanha udenista, Seus opositores o


acusavam de ter uma aliança com Juan Perón para a formação de uma república
sindicalista (Vargas- Perón). Segundo Mendes (1986) sabe-se que não passou de
retórica dos oposicionistas junto à UDN (União Democrática Nacional). Um governo
nacionalista aumentava assim a ira dos opositores. Vargas deixava claro que seu
governo não cederia às vontades dos partidos:

[...] A eleição de 3 de outubro não representa para mim apenas a designação


da estima pública ou o coroamento duma carreira devotada aos interesses, as
aspirações e ao serviço da comunidade nacional e das populações ignoradas
esquecidas. Eu a recolho como um julgamento e com a força dum veredito
irrecorrível. (Apud MENDES, 1986, p 61).

1.4 O suicídio de Vargas

Mendes (1986, p.5) ainda nos conta que:


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[...] Através de seu ato final de sacrifício, Getúlio neutralizou as vantagens


políticas e psicológicas que seus oponentes haviam acumulado. Na morte,
como na vida, os atos de Getúlio foram cuidadosamente calculados para
produzir o máximo de efeito político. (MENDES, 1986, p 5).

Em agosto de 1954, com 71 anos vividos, Vargas, transformando-se em seu


último ato político, suicidou-se no Palácio do Catete com um tiro no peito. Deixou uma
carta testamento com uma frase que entrou para a história: “Eu vos dei minha vida.
Agora ofereço minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo a caminho
da eternidade e saio da vida para entrar na historia”. A população brasileira foi tomada
por uma grande dor e revolta. O funeral de Getúlio levou milhares de pessoas às ruas,
numa das maiores manifestações populares já vistas na história.

Figura 4 : O enterro de Getúlio Vargas

Disponível em: < http://sp0.fotolog.com/p hoto/0/54/11/tumm inelli/1192146888_f.jpg


Acesso em: 15. Nov. 2014.

1.5 Principais Realizações

Em 1939 Vargas criou a Justiça do Trabalho, o salário mínimo, a Consolidação


das Leis do Trabalho, também conhecida por CLT. Direitos trabalhistas são frutos de
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seu governo: carteira profissional, semana de trabalho de 48 horas e as férias


remuneradas. Investiu muito na área de infraestrutura, criando a Companhia Siderúrgica
Nacional (1940), a Vale do Rio Doce (1942) e a Hidrelétrica do Vale do São Francisco
(1945). Em 1938, criou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Saiu do
governo em 1945, após um golpe militar.
Com um governo ditatorial, com medidas controladoras e populistas, Vargas foi
um presidente marcado pelo investimento no Brasil. Elaborou obras de infraestrutura e
desenvolveu o parque industrial brasileiro. Foi na área do trabalho que deixou sua marca
registrada. Sua política econômica gerou empregos no Brasil e suas medidas na área do
trabalho favoreceram os trabalhadores brasileiros. Em suas palavras:

[...] Não sou um oportunista, mas um homem de oportunidades. Se fosse um


oportunista, teria ficado ao lado do general Dutra e obtido compensação pelo
apoio que lhe dei. O meu pensamento, entretanto, está todo voltado para os
trabalhadores do Brasil. (Apud MENDES, 1986, p 57).
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2 O POPULISMO DE VARGAS

Ao final dos anos 1940, sob o impacto da violência vivida durante o período de
guerra (1939-1945), os homens confiantes na vitória da democracia, cheios de
otimismo, acreditavam em construir um mundo novo, buscando a paz e o bem-estar.
Segundo Rodrigues (1994), contavam com as inovações tecnológicas e científicas
decorrentes da guerra para que esse objetivo se concretizasse. A paz não foi tão
duradoura quanto esperavam, “progressos do pós-guerra não foram suficientes para
diminuir a diferença de nível de vida existente entre os habitantes de um mesmo país e
entre as diversas regiões do mundo” (RODRIGUES, 1994, p 8).

[...] É interessante notar, contudo, que os marcos cronológicos da


“experiência democrática” referem-se a dois golpes políticos. O primeiro
depôs Vargas, que “durante um curto período” de 15 anos se mantivera no
poder; o segundo voltou-se contra João Goulart, seu herdeiro político. Ambos
haviam se destacado como chefes de governos populistas. (RODRIGUES,
1994, p 41).

Conforme Rodrigues (1994), nos processos políticos o Brasil apresenta


semelhanças com países da América Latina, como Argentina e México, classificadas
como manifestações específicas de um mesmo fenômeno, o populismo.

Figura 5: Getúlio Vargas passeia com populares (RJ) 1939


Disponível em < http://cdn.c.photoshelter.com/img-
get/I000089QZZVl7nhg/s/750/600/LA19391101ZPC00Y-1-VARGAS-POPULISMO-POPULISM.jpg >
Acesso em: 17. Nov. 2014.
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[...] A população brasileira chegou a 53 milhões em 1950. O Brasil, de país


rural que era quando Vargas assumiu o poder, tornava-se agora urbano e
industrial. Pela primeira vez, a quantidade de produtos fabricados no Brasil
era maior do que a dos importados, embora os consumidores evitassem o
produto nacional quando podiam. A estrutura de salários baixos ainda excluía
a maioria dos brasileiros do mercado interno e, portanto, limitava as
oportunidades de uma maior expansão industrial, embora o Brasil já
produzisse sua própria energia hidroelétrica e seu próprio aço, e a Petrobras
controlasse a refinação do petróleo. (LEVINE, 2001, p 117 ).

Conforme Levine (2001), Vargas fundou o Partido Trabalhista através do


progresso de industrialização. O PTB mobilizava trabalhadores e Vargas expressou no
seu discurso em Minas Gerais: “O povo subirá os degraus do palácio presidencial
comigo, e comigo permanecerá na chefia do governo” (Apud LEVINE, 2001, p 119).
Vargas voltou ao poder usando dois trunfos: o “getulismo” e o “trabalhismo”. O
getulismo refletia o estilo político pessoal do presidente, mas gerou o antigetulismo, que
era mais visível na UDN (União Democrática Nacional). O trabalhismo ou varguismo
focava em atividades políticas do movimento trabalhista e no PTB de Vargas. O
trabalhismo buscava preservar a harmonia política entre o capital e o trabalho, cedia ao
Estado a responsabilidade das iniciativas legislativas. A face sorridente e populista de
Vargas exalava hipocrisia aos inimigos:

[...] O populismo ao estilo Vargas não era apenas um recurso empregado para
conquistar apoio e levar adiante ambições pessoais. Era, também, o meio pelo
qual ele projetava o desejo genuíno de afastar influências restritivas da
Republica Velha, pré-1930. Embora não rejeitasse a maneira tradicional de se
fazer as coisas – na realidade, seu estilo político era produto do passado
gaúcho e do sucesso como negociador-, Vargas trouxe consigo para a
presidência uma meta clara e ambiciosa, um tipo de progresso que afetaria a
vida de todos os brasileiros. (LEVINE, 2001, p 137).

2.1 Vargas e a Cidadania

Segundo Levine (2001), Getúlio Vargas sempre foi chamado de "Getúlio'', ou


“seu Gê”. Uma marca de respeito, sinal que as pessoas sentiam-se à vontade com ele.
“Gê” cultivava essa imagem. Sua carreira abrangeu três constituições e grandes
mudanças no clima político, e seu pragmatismo sempre prevaleceu. Sempre disposto a
correr riscos, acreditava em uma concessão de cidadania controlada. Vargas, sempre
teve quase tudo obtido com facilidade. A democracia era um luxo, a seu ver e o direito à
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cidadania não era inalienável, mas algo concedido em troca de docilidade e lealdade.
Expressava-se ele: “ O direito de votar não mata a fome”, disse num discurso durante o
Estado Novo, “nem o direito de se reunir educa as crianças”. Pessoas não eram sua
principal meta e no seu último mandato, o Brasil gastou em saúde pública per capita
menos de um quarto que os Estados Unidos. “A faceta lei-e-ordem da legislação social
de Vargas mantinha os trabalhadores sob formas de controle social desconhecidas das
democracias industriais”. (LEVINE, 2001. p 163).

[...] Todos os brasileiros sujeitos a legislação trabalhista do governo tinham


de portar a carteira de trabalho; para obtê-la, precisavam apresentar uma
certidão de nascimento e um documento da polícia atestando bons
antecedentes. A carteira trazia o registro de todos os empregos de cada
trabalhador, com a inclusão de faltas e demissões. Se a carteira de um
trabalhador exibisse anotações prejudiciais, era provável que ele nunca mais
arranjasse outro emprego. E, se jogasse fora ou jamais solicitasse documentos
de identidade, não existiria, não teria direito de tratamento médico ou
emprego regularizado. Para os migrantes- distantes de seus locais de origem,
em geral analfabetos e temerosos da burocracia-, era quase que impossível
conseguir os documentos necessários para trabalhar. (LEVINE, 2001. p 164).

Figura 6: A CLT aos 70 anos – carteira de trabalho

Disponível em: < http://oglobo.globo.com/infograficos/clt-70-anos/assets/images/galerias/1943-


carteira-vargas.jpg >
Acesso em: 16. Nov. 2014.
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Vargas buscava a intervenção pessoal de funcionários para ultrapassar os


trâmites burocráticos ou então conseguir favores, ironia de seu legado, pois defendia um
programa para serviço público baseado em mérito, “o velho estilo dos favores pessoais
não apenas sobreviveu nos estados, como também se tornou mais forte no nível federal,
em consequência da centralização governamental”. (LEVINE, 2001, p 164). Vargas
tinha muita admiração por pessoas confiantes:

[...] Quando o chefe indígena apresentou uma petição a Vargas, este lhe
perguntou por que motivo ele falava em nome da tribo. ”porque tenho mais
poder”, foi a resposta. Quando Vargas lhe perguntou, com afabilidade, por
quanto tempo ele continuaria no poder, o chefe respondeu: “Enquanto eu
viver”. Vargas riu, porque aquela era também a sua perspectiva. (LEVINE,
2001, p. 165).

Em 1945, apesar da imagem de “pai dos pobres”, menos da metade da população


brasileira sabia ler e escrever, a maioria era analfabeta, mas os brasileiros o perdoaram
por ter cumprido menos do que prometera, em parte por gratidão. Tinha uma ambiciosa
meta de modernizar o Brasil preservando a independência, mas esse objetivo escapou-
lhe, em consequência da guerra. Justamente como outros nacionalistas e Vargas haviam
temido, o Brasil tornou-se mais dependente dos Estados Unidos e mais exposto a sua
influência cultural, por meio do cinema, da publicidade, dos bens de consumo e da ação
direita do comportamento dos milhares de soldados americanos, servindo nas bases
militares durante a guerra.

2.2 Política Trabalhista e as Greves

Getúlio não esquecera uma de suas principais bases de apoio: os trabalhadores


urbanos. Segundo Fausto (1996), Vargas sempre tentou unir todas as forças
conservadoras e, em um comício no dia 1º de maio de 1951, no estádio Vasco da Gama,
foi dado o primeiro passo para o estabelecimento de laços mais sólidos com a classe
operária. Incentivou a organização sindical dos trabalhadores para que o ajudassem na
luta contra os “especuladores e os gananciosos”, ao mesmo tempo aboliu a exigência do
“atestado de ideologia”, para participação na vida sindical (FAUSTO, 1996, p 412). A
liberalização do movimento sindical e problemas da alta do custo de vida levaram a uma
série de greves em 1953, começando pelo setor têxtil, com adesão de carpinteiros,
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operários em calçados, vidreiros, marceneiros e gráficos. Com reivindicação de


aumento salarial de 60%, mesmo depois de ser considerado ilegal, segundo Fausto
(1996), com base no decreto-lei nº 9070, de 15 de março de 1946 (conhecido como
antigreve), os trabalhadores decidiram prosseguir a paralisação e a greve durou 24 dias,
terminando com acordos feitos separadamente para cada setor:

[...] “A greve dos 300 mil” representou uma derrota para o getulismo em São
Paulo. O presidente mantinha pessoalmente parte de seu prestígio, mas o
PTB e os “pelegos” sindicais tinham sido ultrapassados na condução do
movimento. Os comunistas, que na época estavam em oposição ferrenha a
Getúlio, acusando-o de “lacaio do imperialismo”, desempenharam o papel
principal na articulação da greve (FAUSTO, 1996, p. 412; 413).

Figura 7 : Greve dos 300 mil em São Paulo-1953.

Dis
ponível em< http://images.slideplayer.com.br/1/42474/slides/slide_9.jpg >
Acesso em: 15. Nov. 2014.

Ainda conforme Boris Fausto (2001):

[...] Houve também a greve dos marítimos, abrangendo cerca de 100


mil trabalhadores, os sindicados solicitavam aumento salarial,
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melhores condições de trabalho e afastamento da diretoria da


Federação dos marítimos, acusada de vinculações com o Ministério do
Trabalho. Essa última reivindicação vinha ao encontro dos objetivos
de Getúlio, no sentido da reforma ministerial. (FAUSTO, 2001, p
413).

2.3 A Queda de Getúlio Vargas

Getúlio voltou a reformular o ministério em fevereiro de 1954, Goulart foi


substituído no Ministério do Trabalho, mas antes apresentou uma proposta de 100% no
aumento do salário mínimo, assim, passava a imagem de ministro que saía por querer
conceder benefícios aos trabalhadores. Getúlio nomeou para o cargo o general Zenóbio
da Costa, homem de sua confiança, conhecido como adversário comunista. Na área
econômica, Vargas adotou uma linha nacionalista, “responsabilizando o capital
estrangeiro pelos problemas do balanço de pagamentos.” (FAUSTO, 2001, p 416). João
Neves da Fontoura, ex-ministro das relações Exteriores, em uma entrevista que dava
consistência `as críticas da oposição, acusou Goulart de ter assinado um acordo com
Argentina e Chile, com o objetivo de barrar a presença americana. A suposta aliança
(secreta), especialmente com a Argentina de Perón, aparentava ser mais um passo na
instalação da “Republica sindicalista”. Nas relações de trabalho, o anúncio do aumento
do salário mínimo de 100% provocou uma tempestade de protestos. “A medida
resultava em um aumento real de salário e nesse sentido tendia a agravar a inflação”
(FAUSTO, 2001, p 416), mas as causas básicas da inflação eram outras, a remuneração
dos trabalhadores havia se deteriorado em anos seguidos de inflação. Apesar das
pressões, Getúlio estava equilibrado no poder. A oposição esperava por um momento
traumático, que levasse as Forças Armadas a depor o presidente. “Esse acontecimento
foi proporcionado pelo círculo dos íntimos de Getúlio” (FAUSTO, 2001, p 416).
Acreditaram que era necessário remover Carlos Lacerda (jornalista, político e membro
da UDN (União Democrática Nacional), para garantir a permanência de Getúlio no
poder. Um negro gaúcho, fiel a Getúlio por mais de 30 anos, armou, com ajuda de outro
membro da guarda o assassinato de Lacerda, figura ostensiva da oposição:

[...] Se a ideia era desastrada, mais desastrada foi sua execução. Na


madrugada de 5 de agosto de 1954, o pistoleiro Alcino do Nascimento tentou
matar Lacerda a tiros, quando ele se aproximava da porta de entrada do
prédio onde residia, na Rua Toneleros, em Copacabana. Acabou assassinando
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o major da Aeronáutica Rubens Vaz- o acompanhante de Lacerda-, enquanto


este ficou apenas levemente ferido. (FAUSTO, 2001, p 416 e 417).

Figura 8: Carlos Lacerda, opositor de Getúlio em 1950

.
Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/-
kPPUrEPaf4o/UDd9VAV9c7I/AAAAAAAADJo/ZBU9l2Og7NA/s1600/vlcsnap-2012-08-23-
18h07m48s167.png>
Acesso em: 16 .Nov.2014.

Provocando indignação geral, agora Getúlio tinha contra ele um ato criminoso e a
Aeronáutica estava em estado de rebelião, o adversário com maiores trunfos, para
lançar-se contra ele. Com as investigações, começam a ser revelados os lados sombrios
do governo Getúlio.
“Embora fosse impossível comprometer pessoalmente o presidente com o que ele
próprio chamou de “mar de lama”. (FAUSTO 2001, p 417). Surgiu o movimento pela
renúncia de Getúlio, mas ele resistia, apoiado pelo general Zenório. O governo perdera
o apoio das Forças Armadas, e no dia 23 de agosto, 27 generais do Exército, exigiram a
renúncia do presidente. Na manhã do dia 24 de agosto, Getúlio respondeu com o
suicídio no Palácio do Catete, desfechando um tiro no coração. O presidente deixava um
legado aos brasileiros – a chamada carta-testamento, onde se apresentava como vítima,
mas ao mesmo tempo acusador de inimigos impopulares:

[...] Apontava como responsáveis pelo impasse a que chegara os grupos


internacionais aliados aos inimigos internos. Afirmava que eles se opunham
às garantias sociais aos trabalhadores, as propostas para limitar os lucros
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excessivos, a defesa das fontes fundamentais de energia, coporificadas na


Petrobras e na Eletrobrás. Afirmava ainda a carta que, enquanto o lucro das
empresas estrangeiras alcançavam 500% ao ano, o Brasil era obrigado a
recuar, sob violenta pressão, em medidas tomadas para sustentar o preço
internacional do café. Getúlio encerrava a mensagem com um parágrafo
dramático: “Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do
povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não
abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha
morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo a caminho da
eternidade e saio da vida para entrar na Historia”. (FAUSTO, 2001, p 417 e
418).

Com certeza Getúlio fora responsável pela implantação da legislação trabalhista,


e ficaria na memória da massa trabalhadora, como “pai dos pobres”. O efeito foi
imediato, a massa saiu às ruas em todas grandes cidades, houve revolta, manifestações.
A sede de O Globo (jornal antigetulista) foi queimado. A população em massa se
entristeceu. Café Filho, vice-presidente assumiu a presidência. Político do Rio Grande
do Norte, foi escolhido por getulistas e o PSP. “Café Filho formou um ministério com a
maioria udenista; ao mesmo tempo, assegurou ao país que garantiria a realização das
eleições presidenciais marcadas para outubro de 1955” (FAUSTO, 2001, p 418).
18

3 AS DIFERENTES FACES DE GETÚLIO VARGAS

[...] Fora do Rio Grande do Sul, praticamente ninguém sabia nada sobre
Getúlio Vargas quando de sua passagem pelo ministério de Washington Luís
ou pelo palácio do governo em Porto Alegre. As fotografias nos jornais (e
cinejornais, num preto-e-branco granulado) o apresentaram aos brasileiros
durante a campanha presidencial de 1930 e, depois, já como chefe de Estado.
O rádio contribuiu para aumentar muito o contato de Vargas com o público,
e, após o período de insistência na ameaça comunista, em meados de 1930, a
mensagem do presidente tornou-se patriótica e comunicativa. (LEVINE,
2001, p 141).

O povo brasileiro precisava de uma voz com um toque pessoal, era necessário que
a sua voz fosse ouvida, com uma imagem não tão agradável como a de Mussolini (o
político italiano que liderou o Partido Nacional Fascista), mas de um homem
determinado, firme. “O ministro do Trabalho, Marcondes Filho, chamou seu chefe de
„trabalhador número 1 do Brasil‟, num discurso em Volta Redonda”. (LEVINE, 2001,
p. 141). E com certeza essa fala ajudou muito Vargas a ganhar as eleições de 1950 para
presidência do Brasil. Mas claro que ele era visto de acordo com a posição que ocupava
na sociedade. “Vargas: estadista e ditador, é uma das personalidades políticas mais
controvertidas e questionadas de nossa história. Homem que chegou a balizar um
período histórico, e cujas atitudes têm gerado polêmicas instigantes.” (CARNEIRO,
2001, p 185).
Figura 9: A era Vargas

Disponível em: < http://www.coladaweb.com/files/era-vargas(1).jpg >


Acesso em 16.Nov.2014.
19

3.1 Aos olhos da classe rica

Segundo Levine (2001), de forma gradual, Vargas conquistou aos poucos o


respeito das classes privilegiadas, para as quais não foi fácil aceitá-lo, pois muitos
acreditavam que o cargo de ministro da Fazenda, não fora concedido por competência,
mas sim pelo seu Estado de origem. Mesmo depois de ter se apossado de um cargo
ditatorial, quando lhe concederam algum respeito, ainda assim, muitos o consideravam
como um fantoche dos militares:

[...] As elites sabiam que Vargas era um de seus membros; que, como dono
de terras e herdeiro de uma família poderosa e de renome, ele partilhava do
ponto de vista de sua classe. Sabiam que seus discursos eram planejados para
o consumo das massas e que era um político consumado. Respeitavam-no por
isso, embora julgassem que ele havia ido longe demais. Entretanto, no
decorrer dos anos, Getúlio nunca foi odiado no Brasil como Roosevelt, seu
contemporânea, o foi nos Estados Unidos, porque os brasileiros ricos e
poderosos sabiam que, enquanto mantivesse o aparato gorvenamental sob
controle, ele manteria o povo na linha. “Ele é um grande político. Ele tem
desdém pelo homem”, disse um profissional sentado à mesa de um café em
Belo Horizonte a um estrangeiro, em 1943. (LEVINE, 2001, p 142 , 143).

Industriais apoiavam Vargas pelas ações políticas que criaram condições


benéficas para o crescimento, até mesmo os homens de negócio e os cafeicultores de
São Paulo, amoleceram quando as exportações caíram e fora-lhes concedido um
benefício financeiro inesperado, subsidiando os preços. Já os constitucionalistas,
achavam arrogante a atitude de Vargas em relação ao controle dos poderes, os
intelectuais o desaprovavam, sobretudo, pois eram ricos o suficiente e não precisavam
de emprego do governo. Vargas não conseguiu agradar a todos, reunia homens de
diversos tipos ao seu redor, muitos duvidavam da maneira como ele cortejava os pobres,
“talvez porque essa atitude significasse abrir oportunidades para os não brancos, ainda
que soubessem estar destinada à respeitável classe média urbana a maioria dos postos de
trabalhadores.” (LEVINE, 2001, p 144).
20

Figura 10: Vargas: "Pai dos Pobres'' ou "Mãe dos Ricos'' ?

Fonte: Blog Desvendando o Governo de Vargas


Disponível em: < http://3.bp.blogspot.com/-WEYPeAqOcpo/Tmi-PDfqPjI/AAAAAAAAAUI/-
5Cpx8vNqsM/s1600/Get%25C3%25BAlio_Vargas_Hist%25C3%25B3ria_Pensante_Era_Vargas.jpg >
Acesso em: 16 Nov.2014.

[...] Muitos citavam o passado gaúcho, mas outros se ressentiam do uso que
ele fazia de características gaúchas para apresentar um homem do povo. Se
Getúlio era, de vez em quando, um gaúcho “típico”, também o eram o
elegante Oswaldo Aranha, o belicoso Flores da Cunha e o comunista Luís
Carlos Prestes. Os direitistas nunca o perdoaram por flertar com os fascistas
durante meados da década de 30 e, depois, de lhes ter virado as costas. Os de
centro falavam da relutância de Vargas em governar de forma democrática,
mas seu próprio modelo era mais afeito ao controle do que a espontaneidade.
Os conservadores respeitáveis- os constitucionalistas liberais dos anos 30 que
se juntaram à UDN oposicionista nos anos 40- consideravam Vargas banal,
desprovido de complexidade. Os esquerdistas odiavam-no pelos laços com os
industriais, pela aliança com o comando militar linha-dura e pela construção
de uma máquina trabalhista que esmagou os antigos sindicatos anarquistas,
só prometendo benefícios aos trabalhadores dispostos a abandonar a
militância. Os intelectuais desaprovavam Vargas, sobretudo quando ricos o
suficiente que não precisavam de empregos no governo. Sabiam também do
destino de seus companheiros intelectuais detidos e encarcerados durante o
Estado Novo, por sua perigosa consciência social. A elite cultural brasileira
permaneceu nitidamente dividida entre extrema direita e extrema esquerda
durante o período Vargas, e pouco fez para alimentar o centro, se esse é o
lugar para onde ele próprio tendia. (LEVINE, 2001, p 145).

Os que estavam próximos a Vargas adoravam sua habilidade política,


concordavam com sua política de imigração, que dificultou a entrada de judeus, não
arianos, asiáticos refugiados de Hitler. Seus partidários gostavam do seu humor
sarcástico:
21

[...] As elites brasileiras tiveram enorme dificuldade em conviver com o


aumento da participação popular política. Ainda que pudessem hesitar em
admitir, entendiam que os trabalhadores precisariam ser mantidos sob
controle e que a política deveria ser uma prática quase exclusiva dos setores
dominantes, supostamente mais esclarecidos. (MATTOS, 2003, p 24).

3.2 Aos olhos da classe pobre

Segundo Levine (2001), migrando para área urbana ou permanecendo na área


rural, homens e mulheres, por todo o período Vargas, viviam abaixo do nível de
subsistência, longe do cotidiano dos ricos. Eram mal vistos pela elite, por estarem
sempre em busca de comida. Referenciavam homens e mulheres, quase desde a primeira
aparição pública de Vargas, como uma figura paterna. Poetas referiam-se a Getúlio
como o “defensor dos marmiteiros”. Em 1930, milhares foram à beira da estrada para
ver o trem de Vargas passar, levando-o para onde ele tomaria sua posse. Famílias das
áreas rurais partiam para as cidades em busca desesperada por trabalho, surgindo as
favelas em São Paulo e Rio de Janeiro. Moravam também em casebres em Salvador e
Porto Alegre.
Carolina Maria de Jesus, jovem negra, vivendo na pobreza, expressa o que a
Revolução de 1930 significou para ela:

[...] Um dia acordei confusa e vi as ruas cheias de soldados. Era uma


revolução. Eu só conhecia revoluções de formigas, quando elas ficavam
andando pra lá e pra cá. Revoluções de homens são trágicas. Uns matam os
outros. E as pessoas só falavam de Getúlio Vargas e João Pessoa. Era a união
da Paraíba com o Rio Grande do Sul. E os tenentes pediam que as pessoas se
armassem, diziam que os homens não podiam estar ausentes no momento da
luta em seu país. Essas sedições só ocorrem por causa da arrogância dos que
querem governar a nação. Com Getúlio Vargas, vamos ter mais trabalho.
Os soldados se espalharam pelas ruas carregando bandeiras verdes, amarelas
e brancas com a cara de Getúlio no centro. Os que viam o retrato gostavam
dele e diziam: “Agora vamos ter um homem para cuidar do Brasil!”. Isso vai
fazer o Brasil andar para frente. Somos um país sem líder. Temos que
acordar. Os países não podem ficar eternamente deitados num berço
esplêndido. Nosso país é muito atrasado. As moças que eram empregadas
domésticas não saiam das casas dos patrões. Eu estava trabalhando na casa da
dona Mimi, a mulher do gaúcho. Ele estava feliz porque era o estado dele que
ia por o Brasil em ordem. Andei pelas ruas. Ouvi os soldados cantarem:

Viva a nossa Revolução


O Brasil vai subir como um balão
Com Getúlio, o Brasil vai para frente
Com Getúlio, o Brasil não vai Cair.
22

Vamos ter mais pão na mesa


Getúlio é amigo dos pobres. (Apud LEVINE, 2001, p 147 e 148)

Ainda segundo Levine (2001), aos dezoito ou dezenove anos, Carolina


hospitalizada na Santa Casa da Misericórdia em Ribeirão Preto (SP), escreveu:

[...] No pavilhão das mulheres, só se falava na Revolução e nos benefícios


que ela tinha trazido para o povo. Dizia-se que ela tinha mudado as regras do
jogo para os trabalhadores. Os salários eram melhores; eles já podiam ter
conta em banco e outros benefícios que a legislação para a classe trabalhador
trouxe. Um trabalhador pode se aposentar quando ficar velho e receber o
pagamento integral do trabalho dele. Os trabalhadores estavam contentes com
as leis. Getúlio estava começando a ficar conhecido como o "pai dos pobres".
As pessoas eram disciplinadas. (Apud LEVINE, 2001. p 148).

Figura 11: Getúlio Dornelles Vargas

Disponível em:<
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d6/Get%C3%BAlio_Vargas_08111930.jpg > Acesso
em: 16. Nov.2014.

Assim como Carolina, a população em massa via em Getúlio Dornelles Vargas o


salvador. Para muitos que adotavam a crença que misturava espiritismo o catolicismo
romano, predominante no interior do Brasil, Getúlio Vargas era um santo milagreiro,
decoravam seus pequenos altares com fotografias dele e faziam pedidos pessoais `a
imagem, assim como faziam a outros santos. Brasileiros comuns que atingiram a
maturidade durante os anos 30 e 40 demonstravam que Vargas foi sem sombra de
dúvida, essencial nas mudanças em suas vidas. Assim como Esse expressa também
Maurílio Tomás Ferreira, nascido na zona rural do Espírito Santo em 1915:
23

[...] Recordando-se de sua vida quase meio século depois, Maurílio


reconhecia que esse fora o momento decisivo. O emprego numa companhia
estatal significava escola para os filhos, um futuro. Ter um emprego público
significava segurança e uma pensão. Talvez por compreender que tão poucos
trabalhadores recebiam esses benefícios, Maurílio idolatrava Vargas,
considerando-o seu benfeitor. Teria zombado dos cientistas sociais, se os
lesse afirmando que as medidas trabalhistas de Vargas tinham a finalidade de
controlar a força de trabalho; sabia que ele e sua família haviam sido
beneficiados. Enquanto pertencesse ao sindicato, sua mulher compraria
alimentos a preços reduzidos no armazém administrado pelo próprio
sindicato. E, para ele, votar em Vargas era uma obrigação natural que lhe
dava satisfação. O sindicato permitiu que avançasse: quando Maurílio
começou a trabalhar, era aprendiz de guarda-freios. Quando se aposentou em
1970, tinha o posto de “maquinista”. Essa ascensão teria sido impossível
antes de 1930. (LEVINE, 2001, p 153).

3.3 O legado de Getúlio Dornelles Vargas

Milhares de brasileiros demonstravam confiança e o afeto que tinham por seu


“Gê”, figura sem dúvida nenhuma marcante para a história do nosso país. Vejamos a
entrevista com um metalúrgico nos anos 60, chamado “Zé Maria”:

[...] Acho que me sentiria a vontade com o falecido Getúlio. Acho até que
teria gostado de bater um papo com ele, mas é claro, isso não é mais possível,
certo? [...]. Getúlio era diferente. Sempre que ele vinha aqui em Belo
Horizonte, eu ia vê-lo. Achava que ele governava bem. Era um bom homem.
[Ele] [...] se misturava. Eu vi Getúlio conversando com o povo. Não era
orgulhoso, falava com todo tipo de gente até o mais pobretão. Ele parecia se
sentir honrado de falar até com o mais pobre dos homens e parece que ele era
um sujeito muito humilde, sabe? – um jeito que era humilde e também
inteligente [...]. Eu vi Getúlio falando com um homem todo aleijado-
primeiro ele pôs a mão na cabeça do homem, depois deu um abraço. Aonde
quer que ele fosse, ele se comportava desse jeito, sabe? Eu tinha um bocado
de afeição por ele [...]. Quando [ele] era nosso presidente- por uns quinze
anos-, parece que a vida era muito melhor, mais calma, mais equilibrada,
sabe? (LEVINE, 2001, p 159).
24

Figura 12: O legado

Disponível em: < http://www.sindpd.org.br/sindpd/getulio-vargas/legado.html > Acesso em 16.


Nov.2014.

Carolina Maria de Jesus, “Zé Maria”, Maurílio Tomás Ferreira e tantos outros
brasileiros tiveram suas vidas modificadas durante o governo de Getúlio Dornelles
Vargas, que será lembrado sempre como o “pai dos pobres” homem que deu início a
modernização industrial e social do país.
25

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Getúlio Dornelles Vargas, sem dúvida nenhuma deixou sua marca no Brasil.
Verdadeiro contraste entre o espírito político da República Velha, onde a massa estava
totalmente desprezada, foi, sobretudo, no Estado Novo que Vargas teve influência
duradoura.
Nesse período, seu legado não foi apenas de decretos e leis, mas de pessoas.
Getúlio desenvolveu uma política econômica de caráter nacionalista, conseguindo o que
o Brasil não havia conseguido até 1930. Combinava os interesses econômicos e
políticos da classe média, da burguesia industrial e do proletariado, sempre trabalhando
com medidas de proteção aos trabalhadores. Milhões de brasileiros tiveram a qualidade
de vida melhorada com as reformas getulistas que modernizaram o Brasil, propiciando
benefícios aos assalariados e instituindo o salário mínimo. A partir de 1950, as regras
mudaram: agora, não se tratava mais de governar por decreto. A impressa comemorou a
nova liberdade, ressentida dos anos de censura durante o Estado Novo.
Getúlio tinha plena consciência das dificuldades que enfrentou. O Brasil de um
país rural tornou-se urbano e industrial, passou a produzir a própria energia elétrica.
Não agradou a todos, enfureceu as elites, com suas leis favorecendo o
proletariado, moradores dos campos, era “Pai” daqueles que julgavam ter potencial para
realizar seu sonho de construção de uma nação e mesmo não agradando a todos, não
diminuía a veneração que milhões de pessoas tinham por ele.
Em 1954, não aguentando a pressão dos opositores, Vargas se suicidou, causando
um enorme sentimento de dor e revolta na população brasileira. O funeral de Getúlio
Dornelles Vargas levou milhares de pessoas às ruas, entrando para os livros de História
como verdadeiramente o “Pai dos Pobres”.
Erros, tropeços, escândalos, nada disso terá muito peso no balanço final. Como
disse Leonardo Attuch, ao comparar a visão social e o espírito desenvolvimentista dos
ex-presidentes brasileiros Lula e Vargas: “a vida útil de um mito é determinada pela
história”. Assim, se Lula conquistou 80% de popularidade em plena democracia,
Getúlio Vargas, em seu tempo e conforme o que lhe foi historicamente possível,
também incluiu o trabalhador na agenda política e, por causa disso, permanece
ocupando um papel mítico na história brasileira.
26

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, A. Carta testamento de Getúlio Vargas. Site Info escola. Disponível em: <
http://www.infoescola.com/historia/carta-testamento-de-getulio-vargas/>. Acesso em:
01 Dez. 2014.

ALMANAQUE DA COMUNICAÇÃO. O enterro de Getúlio Vargas. Disponível em:


<www.almanaquedacomunicacao.com.br>. Acesso em 15. Nov. 2014.

ATTUCH, L.. Getúlio, JK e Lula: Em oito anos, o operário superou os dois grandes
mitos nacionais. Disponível em ;< http://www.istoe.com.br/colunas-e-
blogs/coluna/116665 GETULIO+JK+E+LULA>

BLOG NOVA HISTÓRIA. Cartaz. Disponível em: <novahistorianet.blogspot.com>.


Acesso em: 15. Nov.2014.

BLOG PROFESSORA EDILZA FONTES. Carlos Lacerda, opositor udenista de


Getúlio em 1950. Disponível em: <professoraedilzafontes.blogspot.com> Acesso em:
15. Nov.2014.

BLOG DESVENDANDO O GOVERNO DE VARGAS. Vargas: “Pai dos Pobres” ou


“Mãe dos Ricos. Disponível em: <desvendandoogovernodevargas.blogspost.com>
Acesso em: 16 Nov. 2014.

BRASIL.Decreto-lei nº 9070 de 15 de março de 1946. Diário Oficial da União.


Disponível em <http://www.jusbrasil.com.br/topicos/12059214/artigo-10-do-decreto-
lei-n-9070-de-15-de-marco-de-1946> Acesso em 15.Nov.2014.

BRASIL.Decreto -lei nº 19.398 de 11 de novembro de 1930. Diário Oficial da União.


Disponível em <http://www.jusbrasil.com.br/topicos/12008765/decreto-n-19398-de-11-
de-novembro-de-1930/legislacao> Acesso em 15.Nov.2014.

CADERNO DE EDUCAÇÃO. A revolução paulista de 1932. Disponível em:


<www.cadernodeeducacao.com.br>. Acesso em: 15. Nov.2014.

CARNEIRO, M.L.T.. O Anti-Semitismo na Era Vargas. ed. Perspectiva S.A: São


Paulo, 2001.

COLA DA WEB. A era Vargas. Disponível em: <www.coladaweb.com> Acesso em


16. Nov.2014.

FGV. Acervo CPDOC. Disponível em:


<http://www.fgv.br/cpdoc/busca/Busca/BuscaConsultar.aspx>. Acesso em: 15. Nov.
2014.
27

FAUSTO, B.. História do Brasil. 4. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo: Fundação para o Desenvolvimento da Educação, 1996.

FLICKR HIVE MIND. Getúlio Vargas passeia com populares. Disponível em:
<flickrhivemind.net> Acesso em: 17.Nov. 2014.

INFO ESCOLA. Carta de Getúlio Vargas. Diponível em:


< http://www.infoescola.com/historia/carta-testamento-de-getulio-vargas>. Acesso em:
20 Nov. 2014.

KOSHIBA, L., 1945- História do Brasil: 6. Ed.-São Paulo: Atual, 1993.

LEVINE, R.M. Pai dos Pobres? O Brasil e a era Vargas. Robert M. Levine; tradução
de Anna Olga Barro Barreto. – São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

MENDES, O., 1946 Getúlio Vargas. São Paulo: Moderna, 1986.

O GLOBO. A CLT aos 70 anos. Disponível em: <oglobo.globo.com> Acesso em:


15.nov.2014.

RODRIGUES, M.. A década de 50 populismo e metas desenvolvimentistas no


Brasil. 2 ed. São Paulo: Atica S.A, 1994.

SINDPD. O legado. Disponível em: <www.sindpd.org.br> Acesso em 16. Nov.2014.

SLIDEPLAYER. Greve dos 300 mil em São Paulo – 1953. Disponível


em:<slideplayer.com.br> Acesso em: 15 Nov. 2014.

WIKIPÉDIA. Getúlio Dornelles Vargas. Disponível em:<pt.wikipedia.org> Acesso


em: 16.Nov. 2014.
28

ANEXO A

Carta de Getúlio Vargas

A Carta-testamento de Getúlio Vargas foi escrita horas antes do suicídio, em 24


de agosto de 1954, e é dirigida ao povo brasileiro. Foi lida, durante seu enterro, pelo
político petebista João Goulart.
Há controvérsias quanto a autoria, mas nunca conseguiu-se provar quem
realmente teria escrito se não o próprio Vargas. Nela, Vargas deixa as marcas de seu
legado na história política brasileira, fala que sempre trabalhou em prol da população e
que tudo fez para o bem do povo: “Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora,
resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo
esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda
desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina
querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço
em holocausto a minha vida.”
Dentro do contexto que levou ao suicídio, Vargas, através desta carta consegue
reverter a situação que havia se abatido contra ele e seu governo. Bastou a leitura da
carta-testamento deixada por Vargas para que a população tomasse as ruas para
protestar contra os inimigos do “pai dos pobres”. Houve quebra-quebras e incêndios em
sedes de jornais contrários a Vargas.
Diante da crise política, da falta de apoio o Congresso, das acusações feitas pelos
adversários, que culminaram com a sua morte, esta carta fez com que a velha imagem
do político populista fosse reacendida e, mais uma vez, a situação se torna favorável a
ele, mesmo depois de morto.
A seguir, a carta-testamento de Getúlio Vargas:
Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e
novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem,
caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a
minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e
principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação
dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e
venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de
renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos
29

internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia


do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça
da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional
na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a
funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o
desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral
inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras
alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos
existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise
do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a
resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos
obrigados a ceder.
"Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão
constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a
mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos
posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém,
querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
"Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis
minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em
vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem,
sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e
meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama
imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio
respondo com o perdão.
"E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era
escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui
escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua
alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil.
Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a
calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha
morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e
saio da vida para entrar na História.
30

ANEXO B

Cronologia

1883 (Abril) Getúlio Vargas nasce em São Borja, Rio Grande do Sul.
1898 Alistamento de Vargas no 6º Batalhão do Exército, em São Borja.
1900 Vargas deixa a carreira militar e matricula-se na escola de direito de Porto Alegre.
1904 (Março) Vargas é eleito para a Câmara dos Deputados do Rio Grande do Sul.
1911 Vargas casa-se com Darci de Lima Sarmanho.
1916 Vargas é eleito para o legislativo estadual e, no ano seguinte, designado líder da
maioria.
1921 Reforma Carlos Chagas propicia serviço de saúde para alguns trabalhadores
municipais.
1923 Lei Eloy Chaves cria o Conselho Nacional do Trabalho, instituído para cuidar de
assunto relacionados aos ferroviários. Aprovada legislação que determina criação de
fundos de aposentadoria e pensões. A lei destina-se apenas aos ferroviários com dez
anos de serviço, excluindo casos graves de má conduta ou força maior. A lei não se
aplica a nenhuma outra categoria profissional.
(Maio) Vargas assume uma cadeira de deputado federal na Câmara. Irrompe a guerra
civil no Rio Grande do Sul.
1924 Vargas torna-se líder da bancada de seu estado no Congresso Nacional.
1925 Começa a funcionar o Conselho Nacional do Trabalho, formado por cinco
membros, representando patrões, trabalhadores, funcionários e economistas. Sua tarefa
era recomendar uma política do trabalho relacionada a indenizações, pensões e férias
dos trabalhadores. O descanso aos domingos e a jornada de oito horas tornam-se
normais e legais, embora muitos empregados as ignorassem. A proteção estendeu-se aos
portuários um ano depois.
1926 (Março) Vargas é nomeado ministro da Fazenda. Limites são impostos ao direito
das fábricas de contratar trabalhadores com menos de dezesseis anos de idade e de fazê-
los trabalhar mais de seis horas por semana, mas as normas quase não são aplicadas.
1927 Vargas pede demissão e em seguida concorre como candidato único ao governo
do Rio Grande do Sul.
Promulga-se o Código federal de Menores, que trata da proteção às crianças menores de
dezoito anos na força de trabalho, mas não é aplicado.
1928 (Janeiro) Vargas toma posse em Porto Alegre.
31

1929 Após o craque da bolsa em Wall Street, caem as exportações de café, aumenta o
desemprego e os bens importados tornam-se muito mais caros.
Vargas aceita a indicação da Aliança Liberal para candidatar-se à presidência.
1930 (Janeiro) Vargas reivindica legislação para trabalhadores urbanos e rurais que lhes
garanta educação, saúde, moradia, férias, lazer, salário mínimo, cooperativas de
consumidores, pensões, previdência social e proteção para mulheres, crianças, doentes e
idosos. As especificações são vagas.
(Março) Júlio Prestes ganha eleição presidencial.
(Março) Assassinado o candidato de Vargas à vice-presidência, João Pessoa.
(Outubro) Inicia-se conflito armado da Aliança Liberal contra o governo.
(Novembro) Vargas toma posse como chefe do governo provisório.
Número de trabalhadores sindicalizados em todo o país totaliza 270 mil, além de 4 mil
pertencentes a grupos comunistas ilegais e 2 mil a unidades anarco-sindicalistas ilegais.
O maior sindicato de uma única categoria é o dos trabalhadores de colarinho-branco,
com cerca de 30 mil afiliados.
1930-1 Criados os ministérios do Trabalho e da Educação.
Avançadas reformas educacionais no Rio de Janeiro, sob a direção de Anísio Teixeira.
Grave impacto causado pela Grande Depressão.
1931 Lei dos “dois terços‟‟ determina que dois terços dos postos de trabalho nas
empresas sejam ocupados por brasileiros natos.
Servidores públicos podem receber pensões.
1932 Exigida carteira de trabalho para todos os empregados.
(Julho) São Paulo se revolta, mas rende-se depois de dois meses.
Criado Instituto de Previdência dos Funcionários Públicos da União (para servidores
federais).
1933 Menores podem receber pensões.
Escolhidos os membros da Assembleia Constituinte.
1934 ( Julho ) Aprovada a Constituição; Vargas ganha mandato presidencial de quatro
anos.
Bancários e comerciários podem receber pensões.
Iniciam-se transmissões de “A Hora do Brasil”.
1935 Ministério do Trabalho regulamenta organização de sindicatos e fixa obrigações
de seus membros. Prometida indenização para demissão por justa causa. Governo passa
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a ter direito de intervir em sindicatos nos casos de atividade política ou greves ilegais.
Empregadores ficam proibidos de recusar negociação com sindicatos reconhecidos;
benefícios resultantes aplicam-se apenas a membros desses sindicatos.
(Novembro) Insurreições lideradas por comunistas em Natal, Recife e Rio de Janeiro.
1935-36 Crescimento do setor industrial.
1936 (Setembro) Lei de Segurança Nacional faz do Brasil um Estado policial.
1937 (Novembro) Ditadura do Estado Novo elimina autonomia dos estados, fecha
sindicatos independentes independes e declara ilegalidade das greves.
Criados institutos federais para incremento da produção regional e das vendas de
açúcar, álcool, sal mate e produtos de madeira.
1938 Instituídos serviços de saúde para membros dos sindicatos oficiais.
Trabalhadores industriais podem receber pensões.
Criado o Departamento de Administração Pública (DASP).
Brasil suspende pagamento da dívida externa (também em 1939).
(Maio) Após putsch integralista, partido é banido, assim como demais partidos
políticos. Proibidas línguas estrangeiras em escolas e na imprensa.
1939 Leis nacionalistas do Estado Novo dificultam investimento estrangeiro no país;
desenvolvimento industrial torna-se principal meta do regime.
Lei sindical dissolve sindicatos não reconhecidos. Sindicatos proibidos de engajarem na
política ou de se afiliarem a organizações trabalhistas internacionais ou sindicatos
estrangeiros. Permite-se apenas um sindicato para cada categoria profissional.
Início da Segunda Guerra Mundial na Europa.
1940 (Maio) Legislação que cria o salário mínimo entra em vigor, mas enfraquecida por
falhas que admitem exclusão de trabalhadores individuais-ou mesmo de todos os
trabalhadores de uma dada indústria.
Criado o órgão federal que mais tarde viria a se constituir na Comissão Siderúrgica
Nacional. Começa construção da usina siderúrgica de Volta Redonda.
Serviço Especial de Saúde Pública (SEDP), financiado com recursos do exército dos
Esados Unidos, sobretudo em áreas de produção de borracha na Amazônia.
1941 (Dezembro) Ataque japonês a Pearl Harbor. Estadoes Unidos entram em guerra.
(Agosto) Brasil declara guerra ao Reich.
1943 Nova legislação trabalhistas proporciona descanso aos domingos, férias pagas,
aposentadoria para idosos, seguro contra acidentes, refeições baratas no local de
trabalho, empréstimos para aquisição de moradia, escolas profissionalizantes,
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pagamento de aviso prévio e jornada de oito horas de trabalho, mas cumprimento é


parcial ou inexistente na maior parte do país.
(Maio) Vargas concorda em convocar eleições após término da guerra.
1944 Força Expedicionária Brasileira parte para a Itália.
1945 (Fevereiro) Correio da Manhã,do Rio, desafia censura e pública atigo pedindo
eleições; Vargas conscente.
(Junho) Brasil declara guerra ao Japão.
(Julho-agosto) PDS e UND escolhem general Dutra e brigadeiro Gomes como
candidatos.
(Outubro) Vargas é deposto.
(Dezembro) Dutra eleito presidente. Vargas eleito senador por dois estados e deputado
federal por sete.
1946 (Setembro) Promulgada nova Contituição. Fim do Estado Novo. Amplia-se o
direito ao voto, agora compulsório.
Inicia-se a produção de ao em Volta Redonda.
1947 Ministério da Educação, com pequena ajuda da iniciativa privada, afirma fornecer
instrução para mais de 500 mil alunos. Previdência social atende 3 milhões de
trabalhadores de horário integral. Há 2760 escolas rurais autônomas prontas para
funcionar, mas muitas sem professor, pois faltam recursos para pagamento de salários.
Declara-se a ilegalidade do Partido Comunista.
1948 SESP faz pulverizações contra malária em áreas da Amazônia. Comissão do Vale
de São Francisco financia construção de 43 hospitais, totalizando 1800 leitos em áreas
rurais desprovidas de atendimento hospitalar.
1950 (Outubro) Vargas eleito presidente com 48,7% do total de votos.
1951 (Janeiro) Vargas toma posse. Criação de CNPQ, Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico. CNPQ financia pesquisa em energia
atômica.
1952 Criação do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE) e do Banco
do Nordeste Brasileiro.
1952 Criação da Petrobrás.
1954 Criação da companhia estatal para construção de hidroelétricas na região do São
Francisco e de segunda unidade em Volta Redonda.
(Agosto) Vargas se suicida às vésperas de golpe militar para destituí-lo .João Café Filho
presta juramento como presidente.