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Adequação Ambiental

dos postos de combustíveis de Natal


e recuperação da área degradada
©2012 - Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte

Sumário
Capa e projeto gráfico: Apresentação 9
Fernando Chiriboga Design Studio
1. Projeto de adequação ambiental de postos de combustíveis
Editoração Eletrônica:
na Cidade de Natal 11
Leila Medeiros de Chiriboga
1.1 Objetivo do Projeto 11
Revisão Ortográfica: 1.2 Como o Projeto começou? 15
Janaína Tomaz Capistrano 1.3 Desafios iniciais 21
1.4 Como o Projeto se desenvolveu? 23
Revisão de Textos em ABNT:
1.5 Sobre a proposta de adequação 24
Verônica Pinheiro
1.6 O que fazer? 26
Impressão e acabamento: 1.7 Selo verde 29
Gráfica Santa Marta 1.8 Outros dados 31
1.9 Sobre o livro 33
1.10 Contribuição 33
Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de partes ou do todo desta obra,
Referências 34
atavés de qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a prévia
2. Desenvolvimento Sustentável 35
autorização do detentor do copirraite.
2.1 Pilares do Desenvolvimento Sustentável 35
2.2 Internalização dos custos ambientais 39
2.3 Princípio do Poluidor Pagador 40
2.4 Conferência do Rio / 92 41
2.5 Agenda 21 43
2.6 Rio + 20 45
Referências 47

3. Direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado 49


3.1 Supremacia Constitucional 49
3.2 Licenciamento Ambiental de atividades potencialmente poluidoras 55
3.3 Obrigatoriedade da apresentação de Estudos Ambientais
no Licenciamento Ambiental 57
3.4 O que é poluição? Quem pode ser definido como poluidor? 60
3.5 Responsabilidade Ambiental 61
Referências 63
4. Normas e Padrões Ambientais 65 8. Instalações para revenda de GNV 157
4.1 Mas que normas e padrões são esses? 65 8.1 Sobre o Gás Natural 157
4.2 Base para o licenciamento ambiental de postos de combustíveis 66 8.2 O Gás Natural Veicular 158
4.3 Exigência de Licenciamento Ambiental 68 8.3 Compressão do GNV 159
4.4 Exigências Específicas 69 8.3.1 Aspectos Gerais 159
4.5 Obediência às normas da ABNT 72 8.3.2 Aspectos de Segurança 159
Referências 73 8.4 Legislação e Portarias para GNV 160
8.5 Posto de Serviço 163
5. Radiografia Geral dos Postos de Combustíveis na Cidade de Natal 75 8.5.1 Configuração dos componentes 164
5.1 A Radiografia Geral de Todos os Postos de Combustíveis 8.5.2 Projeto de interligação com a concessionária de gás natural 166
da Cidade de Natal-RN 75 8.5.3 Projeto de interligação com a concessionária de energia elétrica 166
5.2 A Situação dos Tanques/Compartimentos dos Postos em 2009 81 8.5.4 Projeto de obras civis 166
5.3 Resumo 85 8.5.5 Projeto da rede de tubulação de GNV 167
8.5.6 Projeto elétrico 167
6. Posto ilegal 87
8.5.7 Especificação do equipamento de compressão 167
6.1 Principais desconformidades verificadas pelos peritos
8.5.7.1 Equipamentos de abastecimento de GNV 167
do Ministério Público 87
8.5.7.2 Tipos de equipamentos de abastecimento de GNV 169
6.2 Desconformidades na área de armazenamento de combustíveis 88
8.5.7.3 Aplicação dos equipamentos de abastecimento de GNV 169
6.3 Desconformidades na pista de abastecimento 100
8.6 Principais não Conformidades Encontradas 171
6.4 Desconformidades relacionadas à segurança em geral 107
8.6.1 Estação de Redução de Pressão e Medição-ERPM 171
6.5 Outras desconformidades encontradas 115
8.6.2 Na Unidade Compressora 173
6.5.1 Desconformidades devido a vazamentos em geral detectados
8.6.3 Ilha de abastecimento e dispensers: 174
pelos testes de estanqueidade 119
6.5.2 Desconformidades devido à ausência de planos de Referências 175
manutenção e despreparo dos frentistas 123
9. Uma cidade sob investigação de passivo ambiental 177
7. Posto legal ou ecológico 125 9.1 A importância dos solos 177
7.1 Conjunto de equipamentos e instalações exigidos para adequação ambiental: 9.2 O risco de contaminação por postos de combustíveis em Natal 181
Posto Legal ou Posto Ecológico 125 9.2.1 A contaminação através do sistema de armazenamento
7.2 Referências Normativas Aplicadas na Adequação dos Postos de Revenda de subterrâneo de combustíveis nos postos revendedores 185
Combustíveis 126 9.2.2 Características dos contaminantes presentes
7.3 Equipamentos para proteção contra vazamentos 130 nos combustíveis fósseis 189
7.4 Equipamentos para Proteção contra Derramamentos 137 9.2.2.1 TPH 190
7.5 Equipamentos para Proteção contra Transbordamento 144 9.2.2.2 VOC 191
7.6 Equipamentos de Proteção contra Poluição Atmosférica 148 9.2.2.3 HPA 193
7.7 Equipamentos para a Redução de Riscos de Acidentes 149 9.3 Norma aplicável para áreas contaminadas 194
9.4 Conceitos de Passivo Ambiental 196
9.4.1 Investigação de Passivo Ambiental 196
9.4.2 Metodologia para investigação de Passivo Ambiental em Natal 197
9.4.2.1 Avaliação preliminar 199
9.4.2.1.1 Laboratório 202
9.4.2.2 Investigação confirmatória detalhada 204
9.4.2.3 Investigação confirmatória complementar 208
9.4.2.3.1 Coleta de solo em cavas de tanques removidos 208 Apresentação
9.4.2.2.1.2 Coleta de água na caixa separadora de
água e óleo (SAO) 212
9.4.2.3 Análise de risco à saúde humana 214
9.4.2.4 Remediação de áreas contaminadas 223 Esta publicação traz o detalhamento de todas as etapas e dos assuntos
9.4.2.4.1 Técnicas de remediação de solo e águas subterrâneas 224 técnicos e legais relativos ao “Projeto de Adequação Ambiental de Postos de
9.5 Conclusões 234
Combustíveis na cidade de Natal/RN ”, idealizado pelo Ministério Púbico
Referências 238
do Estado do Rio Grande do Norte.
10. Noções sobre metrologia 249 O Projeto foi executado por uma das Promotorias de Justiça de Defesa
10.1 O que é metrologia 249 do Meio Ambiente de Natal em parceria com a Universidade Federal do
10.2 Um pouco de história 251 Rio Grande do Norte – UFRN e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente
10.3 Abrangência e competência 258 e Urbanismo – SEMURB, que é a responsável pelo licenciamento da
10.4 Sistema Internacional de Unidades – SI 265
atividade em Natal/RN, e englobou todos os postos privados existentes na
10.5 Importância 268
10.5.1 Metrologia e Qualidade 269 cidade.
10.6 O que falta ainda? 276 Os benefícios ao meio ambiente, à segurança e à saúde humana,
10.7 A Metrologia na UFRN 283 decorrentes das atividades desenvolvidas em razão do projeto, são notórios,
Referências 287 tanto do ponto de vista da prevenção de possíveis danos inerentes à atividade,
que, legalmente, é considerada como potencialmente poluidora; quando
11. Direitos do consumidor – Informação, segurança e meio ambiente 289
no que diz respeito à recuperação das áreas degradadas, principalmente dos
11.1 Informação 289
11.2 Segurança 293 corpos d’água subterrâneos, uma vez que além da adequação ambiental dos
11.3 Meio Ambiente 294 empreendimentos, em relação a equipamentos, instalações, operação etc,
Referências 295 o projeto englobou um amplo estudo do aquífero na cidade – investigação
de passivo ambiental – com vistas a eliminar a contaminação decorrente de
Anexos 297
vazamentos de derivados de petróleo.
Essa descontaminação do aquífero, prevista no projeto como um
Plano de Recuperação de Área Degradada – PRAD, representa um ganho
direto para a saúde da coletividade, tendo em vista que os derivados de
petróleo são reconhecidos como substâncias cancerígenas e pelo fato do

9
1
lençol freático da cidade ser utilizado para o abastecimento público de
quase 40% da população.
A concessão do SELO VERDE aos postos que possuem todos os
equipamentos ecológicos e demais exigências legais e que não possuem
contaminação ou já conseguiram recuperar a área degradada, também,
pode ser considerada como uma importante vertente do Projeto, pois
incentiva a educação ambiental não só dos empreendedores e das pessoas
que trabalham no ramo, como também de todos os consumidores, que
Projeto de adequação ambiental de
podem distinguir as opções existentes e fazer uma escolha consciente e postos de combustíveis na Cidade de Natal
ambientalmente correta no momento de abastecer os seus veículos.
Os capítulos trazem elucidações teóricas e práticas sobre as matérias Gilka da Mata Dias*
inerentes aos trabalhos desenvolvidos. Existe um anexo com os modelos
utilizados pelo Ministério Público e pelos peritos para o desenvolvimento
dos trabalhos, além de referências a estudos acadêmicos que foram e estão
sendo realizados na UFRN em decorrência do Projeto. 1.1 Objetivo do Projeto
O livro, portanto, além de fornecer subsídios para garantir a
sustentabilidade das atividades ligadas a postos de combustíveis, serve de
estímulo a novos trabalhos, estudos e pesquisas em diferentes áreas do Este livro tem o intuito de compartilhar com os interessados os
conhecimento, pois contempla “uma visão integrada do meio ambiente, da trabalhos inerentes ao “Projeto de Adequação Ambiental de Postos de
atividade econômica, da consciência ética e, é claro, do desenvolvimento Combustíveis na cidade de Natal, RN” realizado pelo Ministério Público do
sustentável da cidade de Natal, que pode ser aplicada em outras cidades do Estado do Rio Grande do Norte– MP/RN, em parceria com a Universidade
país”, consoante afirma a Promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente Federal do Rio Grande do Norte – UFRN e a Secretaria Municipal de Meio
de Natal, Gilka da Mata Dias. Ambiente e Urbanismo de Natal – SEMURB, com vistas a possibilitar que
essa experiência possa ser adaptada e/ou aprimorada para ser utilizada em
outras cidades do país.
O Projeto foi idealizado e concretizado com enfoque para a
Manoel Onofre de Souza Neto sustentabilidade da atividade, que é legalmente considerada como
Procurador Geral de Justiça potencialmente poluidora, podendo causar contaminação de corpos d’água
Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte subterrâneos e superficiais, do solo e do ar, e podendo, ainda, ocasionar
danos à saúde humana, além de riscos de incêndios e explosões.

* Promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Natal-RN


Especialista em Gestão Ambiental

10
Não há dúvida de que a degradação ambiental decorrente de atividades apresentam aquífero subdividido em livre (ou lençol freático) e confinado
econômicas realizadas sem a necessária consideração com a qualidade dos (este, geralmente, inserido entre duas camadas impermeáveis)5, os variados
recursos ambientais pode afetar gravemente a saúde e as condições de vida estudos hidrogeológicos realizados na cidade de Natal indicaram que as
da população e pode gerar um custo social que perpassa gerações. formações dunares e os sedimentos do Grupo Barreiras, denominado
Em Natal, as investigações do Ministério Público ocorridas no ano sistema Dunas/Barreiras, formam um sistema hidráulico único, que se
de 2009 descortinaram a atividade de revenda de combustíveis realizada comporta como um sistema do tipo livre6. O aquífero de Natal, portanto,
sem a preocupação com o meio ambiente, em especial com a qualidade do é muito complexo e indiferenciado, apresenta semiconfinamentos7 apenas
aquífero1, que é intensivamente explorado na cidade. em algumas áreas e as dunas exercem a função de uma transferência das
As águas subterrâneas constituem a principal fonte de suprimento águas de infiltração em direção aos estratos arenosos do Barreiras8.
hídrico da cidade de Natal, contribuindo com mais de 70% para o Diante dessa particular fragilidade do aquífero da cidade de Natal
abastecimento de água da população2. Esse percentual tende a aumentar3 e da relação direta da qualidade do aquífero com a potabilidade da água
em razão do crescimento urbano acentuado e da limitação da ampliação da
oferta hídrica dos mananciais superficiais atualmente explorados4.
Ainda sobre o sistema hídrico subterrâneo de Natal, é importante
5
Aquífero livre ou freático - é aquele constituído por uma formação geológica permeável e
superficial, totalmente aflorante em toda a sua extensão, e limitado na base por uma camada
destacar que, diferentemente da maioria das cidades do país, que impermeável. A superfície superior da zona saturada está em equilíbrio com a pressão atmosférica,
com a qual se comunica livremente. Os aquíferos livres têm a chamada recarga direta. Em aquíferos
livres o nível da água varia segundo a quantidade de chuva. São os aquíferos mais comuns e mais
1
Aquífero é uma formação geológica do subsolo, constituída por rochas permeáveis, que armazena explorados pela população. São também os que apresentam maiores problemas de contaminação.
água em seus poros ou fraturas. Outro conceito refere-se a aquífero como sendo, somente, o Aquífero confinado ou artesiano – é aquele constituído por uma formação geológica permeável,
material geológico capaz de servir de depositório e de transmissor da água aí armazenada. Assim, confinada entre duas camadas impermeáveis ou semipermeáveis. A pressão da água no topo da zona
uma litologia só será aquífera se, além de ter seus poros saturados (cheios) de água, permitir a fácil saturada é maior do que a pressão atmosférica naquele ponto, o que faz com que a água ascenda
transmissão da água armazenada. Fonte: <http://www.abas.org/educacao.php#ind2>. Acesso em: no poço para além da zona aquífera. O seu reabastecimento ou recarga, através das chuvas, dá-se
13 abr.2012. preferencialmente nos locais onde a formação aflora à superfície. Neles, o nível da água encontra-se
2
Relatório Final do cadastramento e nivelamento de poços do aquífero Barreiras no município de sob pressão, podendo causar artesianismo nos poços que captam suas águas. Os aquíferos confinados
Natal elaborado pela Fundação de Apoio à Educação e ao Desenvolvimento Tecnológico do Rio têm a chamada recarga indireta e quase sempre estão em locais onde ocorrem rochas sedimentares
Grande do Norte (FUNCERN), através do contrato 017/2005, da então Secretaria de Recursos profundas (bacias sedimentares). Fonte: Fonte: <http://www.abas.org/educacao.php#ind2>. Acesso
Hídricos do Rio Grande do Norte (SERHID), atualmente Secretaria de Meio Ambiente e Recursos em: 13 abr.2012.
Hídricos (SEMARH) / Agência Nacional de Águas. 6
RIGHETTO, Antonio Marozzi; ROCHA, Mariano Alves da. Exploração Sustentada do Aquífero
3
O Ministério Público acompanha todo o sistema de abastecimento de água na cidade de Natal Dunas/Barreiras na Cidade de Natal, RN. Revista Brasileira de Recursos Hídricos, v. 10, n. 2, abr./
através da ação civil pública ajuizada contra a Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do jun. 2005.
Norte (CAERN), autuada sob o número 001.07.200202-7, que tramita na 1ª Vara da Faz. Pública 7
O aquífero semiconfinado é aquele que se encontra limitado na base, no topo, ou em ambos,
da Comarca de Natal, RN, com o objetivo de garantir o funcionamento eficaz do sistema de por camadas cuja permeabilidade é menor do que a do aquífero em si. O fluxo preferencial da
abastecimento de água para consumo humano e impedir que a população do Município de Natal água se dá ao longo da camada aquífera. Secundariamente, esse fluxo se dá através das camadas
continue recebendo em suas residências água contaminada por NITRATO e em desacordo com semiconfinantes, à medida que haja uma diferença de pressão hidrostática entre a camada aquífera
os padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde. O nitrato é um íon encontrado e as camadas subjacentes ou sobrejacentes. Em certas circunstâncias, um aquífero livre poderá ser
em águas naturais, geralmente ocorrendo em baixos teores nas águas superficiais, mas podendo abastecido por água oriunda de camadas semi¬confinadas subjacentes, ou vice-versa. Zonas de
atingir altas concentrações em águas profundas. O seu consumo através de águas de abastecimento fraturas ou falhas geológicas poderão, também, constituir-se em pontos de fuga ou recarga da água
está associado a dois efeitos adversos à saúde: a indução à metemoglobinemia, especialmente em da camada confinada. Fonte: <http://www.abas.org/educacao.php#ind2>. Acesso em: 13 abr.2012.
crianças, e a formação potencial de nitrosaminas e nitrosamidas carcinogênicas. 8
MELO. José Geraldo de. Impactos do Desenvolvimento Urbano nas águas subterrâneas de Natal/
4
Lagoa de Extremoz e Lagoa do Jiqui. RN.Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo – Instituto de Geociências, São Paulo, 1995.

12 13
de abastecimento da população local, tornou-se premente a necessidade Com tantas possíveis implicações negativas à saúde, ao meio ambiente
de se proteger esse aquífero da contaminação que pode ser gerada pelas e à segurança, o planejamento, o funcionamento e o controle da atividade
atividades e serviços existentes em postos de combustíveis. não podem ser desvinculados de um sistema de preservação e recuperação
Ressalta-se que na própria Resolução 273/2000 do Conselho dos recursos ambientais existentes.
Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, que estabelece diretrizes O objetivo maior do Projeto foi o de incluir a dimensão ambiental na
para o licenciamento ambiental de postos de combustíveis e serviços, operação dessa tão importante atividade econômica. O Projeto pretendeu,
consta o registro de que a ocorrência de vazamentos vem aumentando também, servir de estratégia de transição para que a operação da atividade
significativamente nos últimos anos em função da manutenção inadequada passasse a levar em conta as diretrizes do Desenvolvimento Sustentável.
ou insuficiente, da obsolescência do sistema e equipamentos e da falta de Mesmo existindo um aparente consenso no sentido de que a eficiên-
treinamento de pessoal, como também, pela ausência e/ou uso inadequado cia econômica, a conservação ambiental e a equidade social constituem
de sistemas confiáveis para a detecção de vazamento. a verdadeira essência do que deve ser entendido por desenvolvimento
Os derivados de petróleo são reconhecidamente tóxicos. Os compostos sustentável, não se pode dizer que há uma fórmula para se chegar a esse tão
orgânicos voláteis, tais como o Benzeno, Tolueno, Etilbenzeno e Xilenos almejado patamar. Todavia, como bem ensina Ignacy Sachs, não se pode
(BTEX), contaminantes típicos do óleo diesel e da gasolina, atingem o lençol pensar em termos de modelos estáticos. O desenvolvimento é um conceito
freático através de rápida difusão, constituindo riscos para a saúde humana. dinâmico (...) E é dentro desse movimento que devemos definir estratégias10.
A contaminação de águas subterrâneas por combustíveis com elevado teor O Projeto afigura-se, também, como uma estratégia de nível local
de álcool tem sido apontada como um problema ambiental emergente, voltada para facilitar uma visão integrada do meio ambiente, da atividade
uma vez que esse aditivo facilita a mobilização dos hidrocarbonetos em econômica, da consciência ética e, é claro, do desenvolvimento sustentável
solos contaminados por derramamento. Também, o uso do etanol como da cidade de Natal, que pode ser aplicada em outras cidades do país.
aditivo oxigenado pode resultar em aumentos significativos nas emissões
de acetaldeído, um subproduto cancerígeno da combustão9. 1.2 Como o Projeto começou?
Os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA), correspondentes
ao grupo de moléculas orgânicas compostas por anéis de benzeno fundidos, A iniciativa foi decorrente de uma investigação instaurada pela 45ª
em razão de sua alta toxidade, efeitos cancerígenos e persistência no meio Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Natal, RN11, originada
ambiente, foram listados pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados em consequência de notícias de irregularidades relativas ao licenciamento
Unidos (U.S. EPA) e pela Comunidade Europeia como poluentes ambientais ambiental e, por conseguinte, ao controle e ao funcionamento de postos de
prioritários. No Brasil, o Ministério da Saúde chegou a informar expressamente, combustíveis na cidade de Natal/RN.
através da Portaria 776/04, que o benzeno é um agente mielotóxico regular,
leucemogênico e cancerígeno, mesmo em baixas concentrações. 10
Trecho da intervenção de Ingacy Sachs proferido em uma videoconferência realizada em
26/11/2005, promovida pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília
(UnB). In Dilemas e desafios do desenvolvimento sustentável no Brasil. Organizadores: Elimar
9
O detalhamento dos contaminantes dos derivados de petróleo no aquífero encontra-se no Capítulo Pinheiro do Nascimento e João Nildo Vianna. Rio de Janeiro: Garamond, 2009, p. 29/30.
9, sobre investigação de passivo ambiental. 11
Na cidade de Natal, existem quatro Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente (12ª,

14 15
Deve ser entendido por postos de combustíveis, os estabelecimentos
que realizam a atividade varejista de combustíveis líquidos derivados de
petróleo, álcool combustível e outros combustíveis automotivos, dispondo
de equipamentos e sistemas para armazenamento de combustíveis
automotivos e equipamentos medidores. Esses estabelecimentos costumam
ofertar serviços complementares, tais como troca de óleo, lavagem, venda
de gás de cozinha etc.
Os quatro tipos de combustíveis líquidos com grande ênfase
comercial são a gasolina comum, a gasolina aditivada, o álcool e o óleo
diesel, que são armazenados pelos revendedores em tanques subterrâneos.
O GNV (Gás Natural Veicular) e o GLP (Gás Liquefeito de Petróleo – gás
de cozinha) fazem parte do conjunto de gasosos também comercializados.
O Ministério Público iniciou os trabalhos requisitando12 dados para
possibilitar o levantamento de todos os postos existentes na cidade e, por
amostragem, requisitou cópia de diversos procedimentos de licenciamento
ambiental então existente no órgão ambiental municipal, que é a Secretaria
Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo – SEMURB.
Em 2009, o levantamento concluiu sobre a existência de 110 (cento e dez)
postos de combustíveis em funcionamento na cidade13, o que corresponde a
473 (quatrocentos e setenta e três) tanques, ou 590 (quinhentos e noventa)
compartimentos (subdivisões de tanques). Esses dados representam uma
soma na capacidade de armazenamento dos quatro tipos de combustíveis de
8.850.000 (oito milhões, oitocentos e cinquenta mil) litros.

28ª, 41ª e 45ª). O Projeto de Regularização da atividade de postos de combustíveis tramita na 45ª
Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente.
12
A Constituição Federal, em seu art. 129, VI, estabeleceu que o Ministério Público pode requisitar
informações e documentos para instruir procedimentos de sua competência. A requisição, portanto,
caracteriza-se como uma ordem e o retardamento ou a omissão de dados técnicos indispensáveis à
ação civil pública, quando requisitados pelo Ministério Público, constitui crime, nos termos do art.
10 da Lei 7.347/1985.
13
O trabalho do Ministério Público, na primeira etapa, foi focado para os postos de particulares. Mapa de Natal com a indicação dos seus 110 postos de combustíveis.
A segunda etapa do projeto alcançará os postos de abastecimento de pessoas jurídicas de direito Elaborado por Ana Cláudia de Sousa Lima – Assistente do Ministério Público-RN.
público, que representa universo numérico pequeno na cidade. Fonte: Ministério Público.

16 17
A primeira constatação foi no sentido de que a maioria dos postos número de tanques simples (puramente metálicos) presentes nos postos de
da cidade, 97 (noventa e sete), estava operando suas atividades sem a combustíveis: 315 (trezentos e quinze) unidades. Foram encontrados alguns
correspondente licença ambiental de operação (LO) válida, fato, por si tanques semi-ecológicos, mas apenas 26% dos 473 tanques da cidade de
só, considerado grave, tendo em vista que a atividade é considerada como Natal estavam em conformidade com as normas técnicas correspondentes.
potencialmente poluidora e que, nos termos da Lei 6.938/81, do Decreto Realmente, por determinação de normas técnicas específicas (NBR
99.274/90, da Resolução CONAMA 237/97 e, em especial, da Resolução 13785 e 13786), nas cidades onde o aquífero serve para o abastecimento
CONAMA 273/200014, que estabelece diretrizes para o licenciamento humano, os tanques de combustíveis de parede simples devem ser
ambiental de postos de combustíveis e serviços e dispõe sobre prevenção e substituídos por tanques ecológicos, de parede dupla, que evitam o contato
controle da poluição, a Licença de Operação (LO) é requisito essencial para do combustível com o solo, no caso de vazamento.
possibilitar o funcionamento da atividade. Assim, de imediato, foi constatada a necessidade de substituição de
Ao analisar o licenciamento dos postos que chegaram a obter a Licença 349 tanques, incluindo os metálicos e semi-ecológicos. Tanto a remoção,
de Operação (LO), verificou-se, também, que o procedimento que tramitou quanto a destinação ambientalmente adequada são atividades disciplinadas
no órgão ambiental não seguiu todas as etapas obrigatórias do licenciamento, por normas técnicas.
não tendo sido exigidos, por exemplo, avaliação de investigação de passivo E por falar em normas técnicas, é essencial ressaltar que se aplicam à
ambiental, treinamento de pessoal em operação, manutenção e resposta a atividade de postos de combustíveis, aproximadamente 30 (trinta) normas
incidentes, atestado de conformidade das instalações e outras diligências técnicas. Todos os projetos de construção, modificação e ampliação dos
ligadas à operação e ao monitoramento da atividade. empreendimentos precisam ser obrigatoriamente realizados segundo
Constatou-se, outrossim, que muitos resultados de Testes de normas técnicas expedidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas
Estanqueidade, que são requisitos para concessão da Licença de Operação – ABNT15. As normas técnicas incluem requisitos relativos à fabricação,
de estabelecimento de posto de combustível e que aferem a existência de instalação, operação, manutenção e desativação dos vários elementos e
vazamentos nos tanques e nas linhas (tubulações), estavam sendo realizados máquinas pertencentes ao Sistema de Armazenamento Subterrâneo de
de forma tecnicamente inadequada, gerando falsos resultados. Assim, Combustíveis – SASC.
pôde ser identificado, por exemplo, posto com teste de estanqueidade A autorização e o monitoramento da atividade, portanto, precisam
favorável (estanque), nos autos do licenciamento, mas que, na prática, ser condicionados à aferição pelo órgão ambiental do cumprimento,
possuía compartimento ou acessório não-estanque, ou seja, apresentava por parte do empreendedor, de todas essas normas, além das diretrizes
vazamento de combustível. estabelecidas na Resolução CONAMA 273/2000 e das ditadas pelo próprio
Outro fator de grande preocupação inicial foi a constatação da órgão ambiental, em razão das peculiaridades locais.
“idade” e do tipo dos tanques de armazenamento de combustível nos A despeito da necessidade de um controle rigoroso da atividade, ficou
postos da cidade de Natal. Muitos postos funcionavam com tanques constatada, desde o início das investigações, a precariedade da infraestrutura
antigos, com idade superior a 20 (vinte) anos. Foi considerado elevado o
15
Nota-se que é a própria Resolução CONAMA 273/2000, em seu art. 1º, §1º, que determina a
14
A Resolução CONAMA 273/2000 foi alterada pelas Resoluções CONAMA 276/01 e 319/02. obrigatoriedade da submissão às normas técnicas expedidas pela ABNT.

18 19
do órgão ambiental municipal – tanto do ponto de vista de profissionais Surgiu assim o “Projeto de Adequação Ambiental de Postos de
qualificados, quanto do ponto de vista estrutural – tornando praticamente Combustíveis na cidade de Natal”.
inviável o correto licenciamento e o controle da atividade na cidade.
Pela teoria, diante das primeiras constatações obtidas, todos os 1.3 Desafios iniciais
postos da cidade poderiam ter sido interditados. Todavia, na prática,
uma atuação puramente repressiva por parte do Ministério Público Sob essa perspectiva, o trabalho do Ministério Público passou a ter
poderia ensejar um colapso no abastecimento de combustíveis na uma dimensão desafiadora que incluiu, além da adequação ambiental
cidade. Além disso, a simples paralisação do funcionamento dos postos, dos estabelecimentos de revenda de combustíveis na cidade de Natal,
desvinculada de uma efetiva atuação voltada para a estruturação do órgão a necessidade de impulsionar o órgão ambiental (SEMURB) para a
ambiental para o licenciamento da atividade e para o treinamento de seus estruturação e capacitação voltadas para a realização do licenciamento e
profissionais, além das diligências necessárias à adequação ambiental dos do monitoramento da atividade. Para tanto, foi solicitado e estruturado, no
empreendimentos e da recuperação das áreas porventura contaminadas, âmbito do órgão ambiental, a formação de um Grupo de Trabalho (GT)
não seria capaz de fomentar a necessária sustentabilidade ambiental da específico para estudar e tratar da matéria. No primeiro momento, essa
atividade na cidade. estruturação foi muito difícil, em virtude de mudanças da titularidade do
Com efeito, chegou-se à constatação da necessidade de se realizar comando do órgão ambiental, descontinuidade de técnicos do grupo, outras
um trabalho estruturante que permitisse uma efetiva transição da demandas internas etc. Foi necessária grande persistência do Ministério
atividade econômica de revenda de combustíveis na cidade, estabelecida Público no propósito de realizar o trabalho em conjunto com o órgão
em total descompasso com a proteção do meio ambiente, para uma ambiental; todavia, o resultado, após o período inicial, foi muito positivo.
atividade com internalização de bases ecológicas e próspera no sentido Realmente, a SEMURB encaminhou servidores para realizarem
da sustentabilidade ambiental. visitas/treinamento com profissionais da Companhia Ambiental do Estado
Como bem asseverou Enrique Leff, ao discorrer sobre o planejamento de São Paulo (CETESB), criou cadastramento das empresas prestadoras de
de políticas ambientais para um desenvolvimento sustentável, serviços na área e buscou adequar uma estrutura mínima para análise de
todos os pedidos de licenciamento ambiental relativos à atividade.
o potencial ambiental de uma região não está determinado tão-somente No entanto, as conquistas galgadas ainda se apresentaram ínfimas
por sua estrutura ecossistêmica, mas pelos processos produtivos que nela diante das especificidades técnicas que a atividade engloba. Para se ter ideia,
desenvolvem diferentes formações socioeconômicas. As práticas de uso dos o início efetivo das atividades de investigação dependia de uma vistoria
recursos dependem do sistema de valores das comunidades, da significação em todos os 110 (cento e dez) estabelecimentos existentes na cidade para
cultural de seus recursos, da lógica social e ecológica de suas práticas avaliação das conformidades e desconformidades das instalações de cada
produtivas e de sua capacidade para assimilar a estas conhecimentos posto com as normas ambientais e técnicas.
científicos e técnicos modernos16. Também, logo de início, foi avaliada a necessidade de realização de
um Teste de Estanqueidade/Integridade no Sistema de Armazenamento
16
LEFF, Enrique. Epistemologia ambiental. Tradução de Sandra Valenzuela; revisão técnica de
Paulo Freire Vieira. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2007. p. 80. Subterrâneo de Combustíveis (SASC) de cada posto localizado na cidade.

20 21
Diante do precedente negativo já relatado, esse teste teria de ser realizado com Foi concedido o prazo de 10 (dez) dias para a assinatura do “Termo
acompanhamento de profissionais de total confiança do Ministério Público de Adesão”. Nesse prazo, 103 (cento e três) empresas aderiram ao Projeto
para garantir a adoção do procedimento técnico adequado e para indicar a e, aproximadamente nos dez dias posteriores ao prazo concedido, pôde ser
interdição de linha (tubulação), acessório ou tanque com vazamento. computada a totalidade das empresas notificadas para a audiência. Deve
Com certeza, a estrutura disponível pelo órgão ambiental não se ser destacado que antes da audiência com os empreendedores, o Ministério
mostrou como suficiente para essas diligências iniciais. Foi nessa etapa Público promoveu várias audiências preliminares com os representantes
do Projeto que surgiu a necessidade do Ministério Público contar com do Sindicado do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Rio
assessoramento pericial. A operacionalidade disso foi possível graças ao Grande do Norte (SINDIPOSTOS/RN), que após conhecer todas as etapas
amplo apoio dado pela Procuradoria Geral de Justiça do Estado do Rio do projeto, apoiou o trabalho. Esse apoio foi importante para facilitar a
Grande do Norte (PGJ/RN) à 45ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio adesão ao Projeto pelos empreendedores.
Ambiente. A PGJ/RN, através de sua Central de Perícias, realizou convênio
com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), através de 1.4 Como o Projeto se desenvolveu?
sua Fundação de Pesquisa e Cultura (FUNPEC), e custeou a realização
de uma vistoria em cada posto da cidade. Os peritos, também, ficaram No que diz respeito ao procedimento de investigação propriamente
encarregados de acompanhar o teste de estanqueidade que se tornou dito, no âmbito da 45ª Promotoria, foi instaurado um Inquérito Civil18 para
obrigatório para cada empreendimento. cada empreendimento.
Com essa estrutura alicerçada, o Ministério Público realizou uma Os peritos realizaram em cada posto uma vistoria, tecnicamente
audiência pública com todos os responsáveis pelos estabelecimentos de denominada de “Revisão de Segurança”, onde percorreram todas as
postos de combustíveis na cidade17. A audiência serviu para informar instalações do empreendimento, identificando as condições do local,
aos interessados o trabalho que seria iniciado em relação à regularização procedimentos de operação dos equipamentos, perigos de impactos
da atividade. Foi esclarecido que o trabalho estava situado na esfera ambientais, de acidentes etc. A Revisão de Segurança dura em torno de 3
extrajudicial – ou seja, sem a intervenção do Poder Judiciário – e que seria (três) horas e engloba a vistoria de aproximadamente 100 (cem) itens.
necessário obter dos interessados a manifestação de anuência, através de Também, em cada posto, os peritos acompanharam os procedimentos
um “Termo de Adesão” para que o Ministério Público pudesse contar com relativos ao teste de estanqueidade das tubulações e dos tanques, que
a colaboração de todos os empreendedores para a realização de diligências englobam análise de inventário, análise volumétrica, análise não volumétrica
imprescindíveis que porventura precisassem ser custeadas imediatamente e outras atividades decorrentes, inclusive verificação de habilitação do
pelos interessados. A realização do teste de estanqueidade, por exemplo, profissional que realiza o teste, instrumentalização e atendimento às
que é realizado por empresas acreditadas pelo Inmetro, seria a primeira normas. Para cada compartimento de tanque e tubulações, são gastas apro-
exigência do Ministério Público. ximadamente 3 (três) horas. Frisa-se que os testes, em si, foram realizados
por empresas com tecnologia adequada para tanto, cadastradas no órgão

A audiência foi realizada no dia 24 de março de 2009, às 15 horas, no auditório da Procuradoria


17

Geral de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte.


18
Os inquéritos civis foram instaurados em março de 2009.

22 23
ambiental e custeados pelos responsáveis pelos postos de combustíveis. A de todas as diligências necessárias (incluindo obrigações de fazer e de não
atividade dos peritos constituiu em acompanhar a realização desses testes. fazer) e prazos para a conformação das atividades às exigências legais e
Ao acompanharem os testes de estanqueidade, os peritos puderam reparação dos danos porventura existentes, mediante cominações (no caso,
constatar linhas, tanques ou conexões com vazamento. Nesses casos, o multa diária). O TAC, por força de lei19, tem eficácia de título executivo
Ministério Púbico encaminhou, de imediato, uma recomendação para extrajudicial e torna as obrigações assumidas pelo signatário como
interdição desses compartimentos. Durante o decorrer da exposição, serão obrigatórias, independentemente de homologação judicial.
mostrados os dados numéricos das interdições, mas é possível adiantar O TAC minutado para cada posto foi praticamente padronizado,
que foram interditados 34 (trinta e quatro) tanques na cidade. Os tanques tendo em vista que a situação de grande parte dos postos da cidade era
interditados apresentavam um vazamento médio de 12 (doze) litros/dia. muito parecida. O TAC incluiu obrigações relativas: 1) ao licenciamento
Com as interdições, pode-se dizer que o montante anual de vazamento ambiental; 2) aos compartimentos e acessórios não estanques ou desativados
evitado nos tanques foi de 146.880 (cento e quarenta e seis mil, oitocentos do empreendimento; 3) à reforma do Sistema de Armazenamento
e oitenta) litros de combustível por ano. Subterrâneo de Combustível (SASC); 4) à investigação de passivo ambiental;
Considerando que as interdições alcançaram também as tubulações, 5) ao plano de remediação de área degradada; 6) à revenda de gás natural;
que apenas um posto não apresentou vazamento nas tubulações e, 7) ao monitoramento, à educação e propagação da sustentabilidade da
admitindo-se uma gota de vazamento de 3 ml/minuto nas tubulações em atividade econômica desenvolvida; 8) à verificação de conformidade das
cada posto, pode-se afirmar que as interdições impediram o lançamento no novas instalações.
meio ambiente de pelo menos o volume de 169.517 (cento e sessenta e nove As cláusulas do TAC referentes às reformas teriam de incluir
mil, quinhentos e dezessete) litros de combustível por ano. obrigações relativas: 1) à proteção contra vazamento; 2) à proteção
A atuação do Ministério Público, portanto, impediu de ser lançado, contra derramamento; 3) à proteção contra transbordamento; 4)
anualmente, no ambiente um total de 316.397 (trezentos e dezesseis mil, à minimização de emissão de vapores na atmosfera; 5) à redução de
trezentos e noventa e sete) litros de combustível – gasolina, álcool e óleo diesel. riscos de acidentes; 6) ao controle de lançamento de efluentes líquidos e
Diante do resultado da ‘Revisão de Segurança”, que representou a à eficiência da Caixa Separadora de Água e Óleo (SAO); 7) à disposição
“radiografia” de cada posto, bem como com a garantia de que o posto não dos resíduos sólidos.
apresentava situação de poluição continuada, ou seja, que as tubulações A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB),
e tanques estavam estanques, chegou o momento do Ministério Público na qualidade de órgão ambiental licenciador da atividade em Natal,
propor aos responsáveis pelos postos as obrigações e os prazos para a figuraria no TAC como interveniente, assumindo obrigações relativas ao
adequação ambiental dos empreendimentos. controle dos compromissos assumidos pela empresa; cumprimento de
prazos para priorizar e impor celeridade no licenciamento ambiental do
1.5 Sobre a proposta de adequação empreendimento e para estabelecimento de comunicação permanente
com o Ministério Público.
A proposta de adequação foi minutada através de um Termo de
Ajustamento de Conduta (TAC), documento contendo o detalhamento 19
Art. 5º§ 6ª da Lei 7.347/85, que dispõe sobre ação civil pública.

24 25
A minuta do TAC incluiu obrigações que deveriam ser realizadas, de combustíveis” e 2) “Educação para a sustentabilidade e segurança de
necessariamente, com acompanhamento ou por profissionais de extrema postos de combustíveis”.
confiança do Ministério Público, tais como: 1) realização de testes de Com esses projetos da UFRN, foi possível propor o Termo de Ajustamento
detecção de tanques antigos subterrâneos desativados; 2) remoção e de Conduta para cada estabelecimento de posto de combustível localizado na
destinação de tanques subterrâneos inativos; 3) desativação e remoção de cidade de Natal, tendo em vista que os acompanhamentos técnicos passaram
tanques não ecológicos para substituição; 4) acompanhamento dos testes a poder ser realizados por Professores vinculados aos Projetos de Extensão da
de estanqueidade dos novos Sistemas de Armazenamento Subterrâneo de UFRN (Professores de Engenharia Mecânica e de Química).
Combustível (SASC); 5) acompanhamento da investigação preliminar de Antes da realização das audiências individualizadas, com os
passivo; 6) verificação de conformidade de todas instalações, inclusive responsáveis pelos estabelecimentos, o Ministério Público promoveu nova
no sistema de revenda de gás natural (GNV). audiência pública20, com todos os empreendedores da área para esclarecer
Uma vez minutado o TAC, surgiu outro grande problema: o órgão de modo detalhado todas as cláusulas contidas no Termo de Ajustamento
ambiental não dispunha de servidores suficientes para realizar esse de Conduta, bem como para facilitar o entendimento de todas as questões
acompanhamento direto nos estabelecimentos, já que os seus servidores técnicas envolvidas. No ato, os professores vinculados ao projeto de extensão
treinados teriam um grande trabalho pela frente, que seria concernente ao da UFRN apresentaram fotografias de vistorias realizadas juntamente com
procedimento de licenciamento ambiental de cada posto. esclarecimento das principais desconformidades técnicas verificadas e com
Sem o acompanhamento técnico in loco, a adequação ambiental a indicação dos ajustes pertinentes.
poderia não ocorrer da forma exigida pelas normas existentes e tanto Para alguns empreendimentos, inicialmente, foi proposto apenas
trabalho poderia ficar perdido. um TAC parcial, contendo obrigações relativas à investigação de passivo
ambiental, porque ficam situados em áreas consideradas pelo Plano
1.6 O que fazer? Diretor de Natal como Zonas de Proteção Ambiental – ZPAs, o que
demandou maior análise para avaliação da possibilidade de permanência
A solução do problema foi dada pela inclusão da Universidade dos estabelecimentos no local.
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) como grande parceira do Projeto. O TAC foi proposto ao responsável pela operação de cada posto.
Até então, os Professores da UFRN, vinculados à FUNPEC, estavam Embora representantes de distribuidoras tenham participado de reuniões,
atuando como peritos contratados pelo Ministério Público, para realização audiências etc., o TAC não envolveu distribuidoras e o Ministério Público
do acompanhamento dos Testes de Estanqueidade e para realização das não considerou contratos ou outros ajustes comerciais entre os responsá-
Revisões de Segurança. veis dos postos com as distribuidoras.
Para possibilitar esse acompanhamento técnico no Projeto de Muitas dificuldades tiveram de ser enfrentadas no decorrer do
Adequação de Postos de Combustíveis encampado pelo Ministério Público, cumprimento das obrigações por parte dos subscritores dos primeiros
a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, através do Departamento
de Engenharia Mecânica, desenvolveu dois Projetos de Extensão e prestação
20
A audiência ocorreu no dia 13 de maio de 2010, às 9h30min no auditório da procuradoria Geral
de serviços que foram denominados de: 1) “Adequação ambiental de postos de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte.

26 27
TACs. Podem ser citadas como exemplo: a falta na cidade, no início do 1.7 Selo verde
Projeto, de empresas acreditadas pelo Inmetro para realização de teste de
estanqueidade, para instalação de equipamentos em postos de combustíveis O posto que realizou todas as reformas necessárias à adequação
e para realização de remoção de tanques. Essas dificuldades foram ambiental, que cumpriu todas as obrigações assumidas no Termo de
consideradas pelo Ministério Público, que chegou a prorrogar prazos para Ajustamento de Conduta, que não teve passivo para recuperar e que
o cumprimento de algumas obrigações. Superadas as dificuldades iniciais, conseguiu sua Licença de Operação (LO) recebeu um “SELO VERDE”.
foi possível verificar, na cidade, que muitos postos estavam “em obras”.

O SELO VERDE corresponde à etapa final do Projeto de adequação


ambiental dos postos de combustíveis na cidade de Natal e demonstra que o
estabelecimento recuperou a área contaminada ou não teve contaminação
para recuperar. Até o mês de maio de 2012, após três anos de início das
investigações individualizadas, foram computados 47 (quarenta e sete)
postos com selo verde na cidade de Natal.
Posto em reforma
Fonte: Fernando Chiriboga

28 29
“O Programa de Adequação Ambiental, idealizado e conduzido pela
Promotora de Justiça Gilka da Mata, possibilitou aos empresários que atuam
no seguimento de combustíveis, a regularização dos empreendimentos,
pela moderna e célere via administrativa. Para adequação dos postos, as
empresas realizaram vultosos investimentos em projetos, equipamentos,
consultorias e treinamento de pessoal, ao passo que também existiu
grande esforço por parte da promotora, e de outras autoridades e técnicos
envolvidos. Assim, no que concerne à atividade de postos de combustíveis,
Natal tem agora a garantia da proteção ao meio ambiente, sobretudo
quanto à integridade de seus recursos hídricos, e o empresário conta com
segurança jurídica no exercício de sua atividade.”

Arnaud Diniz Flor Alves


Advogado e empresário

1.8 Outros dados

O posto que não se adequou no prazo concedido pelo Ministério


Público precisou paralisar suas atividades para a conclusão das adequações.

Entrega do Selo Verde Fonte: Ministério Público Fonte: Fernando Chiriboga

30 31
Até o final do primeiro semestre de 2012, dois estabelecimentos tinham 1.9 Sobre o livro
encerrado voluntariamente suas atividades. 35 (trinta e cinco) não puderam
ser adequados de imediato, porque apresentaram resultado positivo na O presente livro traz detalhamentos acerca dos trabalhos realizados e
investigação confirmatória do passivo (o que corresponde à segunda fase dos resultados obtidos durante a execução do Projeto.
da investigação) e as adequações aguardam a conclusão da terceira fase Os primeiros capítulos visam a chamar a atenção do leitor sobre a
da investigação do passivo para que os compromissos firmados englobem atividade econômica no contexto do desenvolvimento sustentável, fazendo
também a remediação da área contaminada. referências, inclusive, às discussões mundiais sobre meio ambiente e
Como atividade inerente ao Projeto, nas audiências públicas foram desenvolvimento.
distribuídas cartilhas educativas sobre a adequação da atividade. As A legislação ambiental sobre a matéria também será mencionada e
cartilhas foram custeadas pelo SINDIPOSTOS. conceitos legais sobre licenciamento ambiental, poluição, normas e padrões
ambientais serão esclarecidos.
O leitor também poderá ter ciência das desconformidades verificadas
pelos peritos do Ministério Público nos postos de combustíveis de Natal e
poderá conhecer os principais equipamentos de um posto ambientalmente
adequado.
Todas as etapas da investigação do passivo, além das características
dos contaminantes decorrentes da atividade serão detalhadas em capítulo
próprio.
Um capítulo específico sobre metrologia foi trazido para o livro, já
que muitos equipamentos, sistemas e serviços relacionados com a atividade
de postos de combustíveis precisam ser aprovados pelo Instituto Nacional
de Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial – INMETRO.
Na última parte do livro, constam os modelos das peças utilizadas
pelo Ministério Público e pelos peritos durante os trabalhos.

Desenho: Carlos Alberto Cores e diagramação: Lula Borges 1.10 Contribuição

Os responsáveis pelos postos custearam campanha de esclarecimento O Projeto, além de estar contribuindo para a educação ambiental de
à população – com veiculação em emissoras de televisão e em rádios – todas as pessoas que trabalham de forma direta ou indireta na área (donos
sobre a importância de um posto ambientalmente adequado e sobre de postos, empregados, prestadores de serviços etc.) e dos consumidores,
a possibilidade de escolha consciente do consumidor no momento de que passam a ter opções por estabelecimentos ambientalmente adequados
abastecimento do seu veículo. para realizar escolhas conscientes, tem ensejado importantes estudos e

32 33
2
pesquisas em nível de mestrado e doutorado na UFRN, o que em muito
enriquecerá o desenvolvimento sustentável da atividade. O livro, com a
síntese desse trabalho, pretende servir como ferramenta para facilitar a
tarefa dos atores multiplicadores do Projeto.

Desenvolvimento Sustentável
REFERÊNCIAS
Gilka da Mata Dias*

BRASIL. Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985. Disciplina a ação civil pública de
responsabilidade por danos causados ao meio-ambiente, ao consumidor, a bens
e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico e dá outras
providências. Diário Oficial da União, 25 jul. 1985. 2.1 Pilares do Desenvolvimento Sustentável

______. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução 276, de 25 de abril de


2001. Diário Oficial da União, 7 jul. 2001. Considerando que o Projeto de Adequação Ambiental de postos
de combustíveis na cidade de Natal foi construído com alicerce nos
______. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução 319, de 04 de dezembro direcionamentos decorrentes das discussões acerca do desenvolvimento
de 2002. Diário Oficial da União, 19 dez. 2002. sustentável, é essencial dar algumas “pinceladas” sobre o tema.
A inclusão da matéria ambiental no tema relativo ao desenvolvimento
LEFF, Enrique. Epistemologia ambiental. Tradução de Sandra Valenzuela; revisão passou a ser mundialmente debatida em 1987, quando a Comissão Mundial
técnica de Paulo Freire Vieira. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2007. sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pela Organização das
Nações Unidas (ONU), publicou o Relatório intitulado “Nosso Futuro
RIGHETTTO, Antonio Marozzi; ROCHA, Mariano Alves da. Exploração Comum” (Our Common Future).
Sustentada do Aquífero Dunas/Barreiras na Cidade de Natal, RN. Revista O Relatório, também conhecido como Relatório de Brundtland –
Brasileira de Recursos Hídricos,v. 10, n. 2, abr./jun. 2005. porque a Comissão foi presidida pela Primeira-Ministra da Noruega, Gro
Harlem Brundtland – definiu desenvolvimento sustentável nos seguintes
termos: “o desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades

* Promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Natal-RN


Especialista em Gestão Ambiental

34
do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras intenso crescimento econômico ocorrido durante a década de 1950 em
atenderem a suas próprias necessidades”1. diversos países semi-industrializados (entre os quais o Brasil) não se
O Relatório sintetiza que a estratégia do desenvolvimento sustentável traduziu necessariamente em maior acesso de populações pobre a bens
visa a promover a harmonia entre os seres humanos e entre a humanidade e materiais e culturais, como ocorrera nos países considerados desenvolvidos.
a natureza e acrescenta que a busca do desenvolvimento sustentável requer: A começar pelo acesso à saúde e à educação3.
1) um sistema político que assegure a efetiva participação dos cidadãos no
processo decisório; 2) um sistema econômico capaz de gerar excedentes Charles C. Mueller aponta três eventos principais para o início dos
e know-how técnico em bases confiáveis e constantes; 3) um sistema debates sobre as relações entre o sistema econômico e o meio ambiente: 1)
social que possa resolver as tensões causadas por um desenvolvimento a intensificação da poluição nas economias industrializadas; 2) os choques
não-equilibrado; 4) um sistema de produção que respeite a obrigação de de petróleo na década de 1970 e 3) a publicação em 1972 do relatório do
preservar a base ecológica do desenvolvimento; 5) um sistema tecnológico Clube de Roma. Este último, intitulado The Limits to Growth, projetava, em
que busque constantemente novas soluções; 6) um sistema internacional caso de continuação do crescimento demográfico e econômico observado
que estimule padrões sustentáveis de comércio e financiamento. até o início da década de 1970, uma profunda desorganização econômica
O Relatório “Nosso Futuro Comum” ajudou a esclarecer a confusão e social, com acentuado declínio na produção de alimentos e níveis
outrora existente entre desenvolvimento e crescimento econômico. intoleráveis de degradação ambiental4.
Como bem enfatiza José Eli da Veiga, até o final do século XX, os Em relação ao sistema econômico e meio ambiente, Mueller5 ensina
manuais sobre ciência econômica tratavam desenvolvimento e crescimento com maestria:
econômico como simples sinônimos; todavia,
O sistema econômico – considerado um organismo vivo e complexo –
desde que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) não atua em isolamento. Ele interage com o meio ambiente, do qual extrai
lançou o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) para evitar o uso recursos naturais fundamentais e no qual despeja dejetos ( ...). A economia
exclusivo da opulência econômica como critério de aferição, ficou muito afeta, pois, o estado geral do meio ambiente. O estilo de ‘desenvolvimento’
esquisito continuar a insistir na simples identificação do desenvolvimento tem, assim, muito a ver com os impactos ambientais emanados do sistema
com o crescimento2. econômico.

O primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) Mueller lembra que o meio ambiente possui certa resiliência, ou seja,
foi publicado em 1990 pelo Programa das Nações Unidas para o certa capacidade de se auto-regenerar das agressões do sistema econômico.
Desenvolvimento (PNUD) e deixou claro que No entanto alerta que:

1
COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Nosso futuro 3
VEIGA, 2010, p. 19.
comum. 2.ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1988. p. 46. 4
MUELLER, Charles C. Os economistas e as relações entre o sistema econômico e o meio ambiente.
2
VEIGA, José Eli da. Desenvolvimento sustentável: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro Brasília: Editora Universidade de Brasília: Finatec, 2007. p. 132.
:Garamond, 2010, p. 19. 5
MUELLER, 2007, p. 37.

36 37
Essa resiliência tem limites. Uma agressão muito forte pode produzir 2.2 Internalização dos custos ambientais
mudanças drásticas no meio ambiente, afetando sua resiliência. E o
comprometimento da resiliência do meio ambiente pode provocar situações Os recursos naturais interessam ao sistema econômico porque são
irreversíveis, com efeitos dramáticos sobre o próprio funcionamento do fontes de extração de materiais, de energia e também são utilizados para
sistema econômico. lançamento de efluentes.
Considerando que os recursos naturais não são esgotáveis e podem
[...]
ser degradados, necessário se torna que haja, por parte do empreendedor,
Os limites da resiliência do meio ambiente são uma questão que a economia uma estimativa do custo necessário para atender aos padrões ambientais e
do meio ambiente deveria priorizar.6 evitar a poluição das atividades decorrentes de suas atividades.
Todavia, esses custos nem sempre são computados no momento de
O desenvolvimento, portanto, não pode ser entendido como simples se estimar o início de um empreendimento. “Não são poucos os exemplos
crescimento econômico. Para Ignacy Sachs, o econômico corresponde de empresas, em todo o mundo, que apresentam passivos ambientais
apenas o instrumental para se avançar no caminho do desenvolvimento elevados por não terem, em algum momento, levado em consideração os
includente e sustentável. custos envolvidos no descarte de resíduos de suas atividades”8.
Como bem ensina: O lançamento de efluentes sem tratamento no solo ou no rio,
por exemplo, nunca poderá representar um CUSTO ZERO para o
Estamos muito longe da idéia de que o crescimento econômico resolve tudo. empreendedor.
Este foi o ponto de partida. Agora estamos bem mais avançados. Hoje, na Na doutrina econômica, é comum se chamar de externalidades os
seqüência dos trabalhos do indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel de economia, danos e os custos gerados pela atividade econômica privada e que são
podemos dizer, por exemplo, entre as mil definições de desenvolvimento, que transferidos para a sociedade. Vitor Bellia cita a poluição do ar e da água
o desenvolvimento é a efetivação universal do conjunto dos direitos humanos, como clássicos exemplos de externalidades negativas9 e ressalta que os
desde os direitos políticos e cívicos, passando pelos direitos econômicos, efeitos das externalidades podem atingir, entre outros, a saúde, a vegetação,
sociais e culturais, e terminando nos direitos ditos coletivos, entre os quais o solo, a vida animal, os valores estéticos e culturais. “Todas estas perdas
está, por exemplo, o direito a um meio ambiente saudável. envolvem custos sociais e não devem ser ignoradas na avaliação de
É com esses adjetivos acrescentados ao conceito de desenvolvimento que projetos”10.
se dá ênfase a alguns dos aspectos que devem ser priorizados. E, nessa Realmente, ao utilizar-se de um recurso ambiental para deteriorá-
lógica, trabalho atualmente com a idéia do desenvolvimento sustentável e lo, o empreendedor estará apropriando-se, ou seja, utilizando como lhe
economicamente sustentado. Ou seja, um tripé formado por três dimensões convém, da qualidade de um bem que não lhe pertence.
básicas da sociedade.7
8
BELLIA, Vitor. Introdução à Economia do Meio Ambiente. Brasília: Instituto Brasileiro de Meio
6
MUELLER, 2007, p. 39. Ambiente e Recursos Naturais. 1996, p. 74.
7
Dilemas e desafios do desenvolvimento sustentável no Brasil / organizadores, Elimar Pinheiro do 9
BELLIA, 1996,p. 84.
Nascimento e João Nildo Vianna. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. P. 22 10
BELLIA, 1996, p. 89.

38 39
Maurício de Carvalho Amazonas e Marcos Nobre destacam a teoria o meio ambiente por falta de adequação das suas instalações aos padrões
denominada economia da poluição, que se fundamenta na distinção entre mínimos impostos legalmente.
custos ou benefícios privados e sociais, explicando que “a economia da Muitas empresas só providenciam as adequações ambientais exigidas
poluição, entendendo o ambiente como um bem público, de uso comum, em razão de algum processo administrativo ou judicial nos quais são parte
define os danos ambientais como externalidades negativas. Em outras passiva. No entanto, é importante ressaltar o papel do setor econômico para
palavras, o agente privado torna-se ‘poluidor’ devido ao caráter de bem o desenvolvimento sustentável de uma cidade, de um Estado e de um país.
público dos recursos naturais”11. A proteção ambiental precisa deixar de ser realizada em razão de
Assim, ao computar os custos da instalação e operação do processos, de multas, de sanções ou obrigações. A preocupação ambiental
empreendimento, o empreendedor deve, necessariamente, internalizar os precisa ser uma prioridade do setor produtivo, que deve se moldar
custos das medidas de proteção do meio ambiente destinadas a evitar a por valores éticos e se posicionar como parceiro do desenvolvimento
poluição. sustentável. Para tanto, o gerenciamento ambiental, a adesão às políticas
públicas do meio ambiente, a opção por tecnologias limpas, a educação
dos envolvidos, entre outras medidas precisam ser encaradas como pontos
2.3 Princípio do Poluidor Pagador essenciais para preocupação empresarial.

A internalização das externalidades negativas, ou seja, dos custos


para se combater/evitar a poluição causada pelo empreendimento diz 2.4 Conferência do Rio / 92
respeito ao Princípio do Poluidor Pagador.
O Polluter Pays Principle (PPP), adotado pelo Conselho da A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Organization for Economic Cooperation and Development (OECD) Desenvolvimento, realizada de 3 a 14 junho de 1992 no Rio de Janeiro,
estabelece que “o poluidor deverá arcar com os custos das medidas para conhecida também como RIO/92 ou Cúpula da Terra, consolidou a
redução da poluição, decididas pelas autoridades públicas para assegurar importância do capital natural para o desenvolvimento sustentável e a
que o meio ambiente se encontre em estado aceitável”12. necessidade de conservação desse capital, em razão de sua finitude e de sua
Uma das formas mais fáceis de se internalizar os custos das medidas fragilidade.
de proteção ambiental está relacionada ao atendimento pelas empresas Entre os seus vinte e sete princípios13, incluiu:
aos padrões que a legislação ambiental impõe. É claro que esses padrões
são exigências mínimas, que podem ser ampliadas de acordo com o caso. Princípio 3 - O direito ao desenvolvimento deve ser exercido de modo
Na prática, verifica-se que, mesmo atualmente, com o nível de a permitir que sejam atendidas equitativamente as necessidades de
consciência ambiental crescente, é comum encontrar empresas que poluem desenvolvimento e de meio ambiente das gerações presentes e futuras.

11
NOBRE, Marcos; AMAZONAS, Maurício de Carvalho (Org.). Desenvolvimento sustentável: a 13
CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO.
institucionalização de um conceito. Brasília: Ed. IBAMA, 2002.p. 111. Agenda 21: Conferência das nações unidas sobre meio ambiente e desenvolvimento. 2. ed. Brasília:
12
Segundo Pearce et al (apud BELLIA, 1996, p. 175). Senado Federal; Subsecretaria de edições técnicas, 1997.p. 593.

40 41
Princípio 4 - Para alcançar o desenvolvimento sustentável, a proteção 2.5 Agenda 21
ambiental constituirá parte integrante do processo de desenvolvimento e
não pode ser considerada isoladamente deste. A agenda 21, que é um plano de ação decorrente da Conferência
das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento do Século
Entre os Princípios, há destaque para: a necessidade de eliminação, XXI, entre os seus quarenta capítulos, incluiu recomendações na área
pelo setor produtivo, de padrões insustentáveis de produção e consumo; econômica para acelerar o desenvolvimento sustentável, mudar os padrões
a adoção da precaução para os danos ambientais não conhecidos; a de consumo e proteger o meio ambiente.
internalização dos custos ambientais – confirmando o Princípio do A promoção da responsabilidade empresarial foi devidamente
Poluidor Pagador; e a importância da avaliação de impactos ambientais. realçada pela Agenda nos seguintes termos:

Princípio 8 - Para alcançar o desenvolvimento sustentável e uma qualidade O espírito empresarial é uma das forças impulsoras mais importantes
de vida mais elevada para todos, os Estados devem reduzir e eliminar das inovações, aumentando a eficiência do mercado e respondendo
os padrões insustentáveis de produção e consumo e promover políticas a desafios e oportunidades. Os empresários pequenos e médios, em
demografias adequadas particular, desempenham um papel muito importante no desenvolvimento
social e econômico de um país (...) Os empresários responsáveis podem
Princípio 15 - Com o fim de proteger o meio ambiente, o princípio da desempenhar um papel importante na utilização mais eficiente dos
precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com recursos, na redução dos riscos e perigos, na minimização dos resíduos e
suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, na preservação da qualidade do meio ambiente.14
a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão
para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a O documento chama a atenção para a degradação da saúde humana e
degradação ambiental. da qualidade do meio ambiente em razão da quantidade cada vez maior de
Princípio 16 - As autoridades nacionais devem procurar promover resíduos perigosos que são manipulados e produzidos, além de estabelecer
a internacionalização dos custos ambientais e o uso de instrumentos uma relação da manipulação e do depósito desses resíduos perigosos com
econômicos, tendo em vista a abordagem segundo a qual o poluidor deve, os custos diretos e indiretos que representam para a sociedade e para os
em princípio, arcar com o custo da poluição, com a devida atenção ao cidadãos.
interesse público e sem provocar distorções no comércio e nos investimentos O Capítulo 20 da Agenda 21, que trata do Manejo Ambientalmente
internacionais Saudável dos Resíduos Perigosos, estabelece que

Princípio 17 - A avaliação do impacto ambiental, como instrumento 20.2. A prevenção da geração de resíduos perigosos e a reabilitação dos locais
nacional, será efetuada para as atividades planejadas que possam vir a ter
um impacto adverso significativo sobre o meio ambiente e estejam sujeitas
14
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, 2ª ed.
à decisão de uma autoridade nacional competente. Brasília, Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 1997, p. 484

42 43
contaminados são os elementos essenciais e ambos exigem conhecimentos, de consumo, de modo a estimular a demanda e o uso de produtos
pessoal qualificado, instalações, recursos financeiros e capacidades técnicas ambientalmente saudáveis.
e científicas.15

2.6 Rio + 20
A Agenda 21 destaca que a redução da geração de resíduos perigosos
está atrelada a um sistema de utilização de tecnologias limpas ou saudáveis:
A conclusão do presente trabalho coincide com a efervescência
das discussões mundiais da Conferência das Nações Unidas sobre
As tecnologias ambientalmente saudáveis protegem o meio ambiente,
Desenvolvimento Sustentável (13 a 22 de junho de 2012 na cidade do Rio
são menos poluentes, usam todos os recursos de forma mais sustentável,
de Janeiro/Brasil).
reciclam mais seus resíduos e produtos e tratam os dejetos residuais de uma
O encontro foi chamado de Rio + 20, em razão do lapso de 20 anos da
maneira mais aceitável do que as tecnologias que vieram substituir.16
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento,
que ocorreu na mesma cidade em1992.
Consta registrado na Agenda 21 que o comércio e a indústria
Os objetivos principais da Conferência foram: 1) assegurar um
desempenham um papel crucial no desenvolvimento econômico e social
comprometimento político renovado com o desenvolvimento sustentável;
de um país. E que as políticas e operações dessas atividades podem
2) avaliar o progresso feito até o momento e as lacunas que ainda
desempenhar um papel importante na redução do impacto sobre o uso
existem na implementação dos resultados dos principais encontros sobre
dos recursos e o meio ambiente por meio de processos de produção mais
desenvolvimento sustentável; 3) abordar os novos desafios emergentes.
eficientes, estratégias preventivas, tecnologias e procedimentos mais limpos
Os dois temas em foco na Conferência foram: 1) a economia verde
de produção, inovações tecnológicas e desenvolvimento.17
no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza, e
Sobre o consumo consciente, a Agenda 21 trata da matéria, quando 2) o quadro institucional para o desenvolvimento sustentável.
considera a mudança dos padrões e consumo como uma etapa necessária O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)
ao desenvolvimento sustentável, considerando também a necessidade de define economia verde como
estímulo por parte do Governo, da Indústria e de outros grupos pertinentes,
para formação de um público consumidor mais consciente do ponto uma economia que resulta em melhoria do bem-estar da humanidade e
de vista ecológico. Esse estímulo, pela Agenda, deve abranger a oferta igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente riscos
de informações sobre as consequências das opções e comportamentos ambientais e escassez ecológica. Em outras palavras, uma economia verde
pode ser considerada como tendo baixa emissão de carbono, é eficiente em
15
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, 2ª ed.
seu uso de recursos e socialmente inclusiva.18
Brasília, Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 1997, p. 399
16
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, 2ª ed.
Brasília, Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 1997, p. 509
17
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, 2ª ed. Fonte:<http://www.pnuma.org.br/admin/publicacoes/texto/1101-GREENECONOMY-synthesis_
18

Brasília, Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 1997, p. 481 PT_online.pdf> Acesso em: 13 abr. 2012.

44 45
Como se observa, os desafios em busca de um desenvolvimento
sustentável continuam grandes e as estratégias para alcançar esse modelo
de desenvolvimento precisam continuar sendo discutidas e aprimoradas. REFERÊNCIAS
Nesse contexto, ganha especial relevo o papel do setor empresarial.
Conforme asseverou o Secretário-Geral da Conferência das Nações Unidas
sobre Desenvolvimento Sustentável Rio +20, no dia 11 de abril de 2012:
BELLIA, Vitor. Introdução à Economia do Meio Ambiente. Brasília: Instituto
empresas e a indústria podem adotar e implementar tecnologias de produção Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais. 1996.
mais limpas e cadeias de valor mais verdes [...] De fato, algumas empresas
pioneiras já mostraram o caminho para uma economia mais verde e justa”, COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO.
acrescentou, citando, entre outros, transferência de tecnologia, criação de Nosso futuro comum. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1988.
empregos e o bom manejo dos recursos ambientais.19
CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MEIO AMBIENTE E
DESENVOLVIMENTO. Agenda 21: Conferência das nações unidas sobre meio
ambiente e desenvolvimento. 2. ed. Brasília: Senado Federal; Subsecretaria de
edições técnicas, 1997.

MUELLER, Charles C. Os economistas e as relações entre o sistema econômico e


o meio ambiente. Brasília: Editora Universidade de Brasília: Finatec, 2007.

NOBRE, Marcos; AMAZONAS, Maurício de Carvalho (Org.). Desenvolvimento


sustentável: a institucionalização de um conceito. Brasília: Ed. IBAMA, 2002.

VEIGA, José Eli da. Desenvolvimento sustentável: o desafio do século XXI. Rio
de Janeiro: Garamond, 2010.

Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento


Sustentável, 2ª ed. Brasília, Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 1997.

Dilemas e desafios do desenvolvimento sustentável no Brasil / organizadores, Elimar


Pinheiro do Nascimento e João Nildo Vianna. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.
19
Fonte: <http://www.onu.org.br/tema/rio20/, acessado em 13 de abril de 2012> Acesso em 13 abr.
2012.

46 47
3
Direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado
Gilka da Mata Dias*

3.1 Supremacia Constitucional

A Constituição da República Federativa do Brasil foi promulgada em


05 de outubro de 1988.
Vista sob o prisma da evolução dos eventos mundiais que tiveram a
matéria ambiental como foco, a Constituição Federal surgiu em momento
de grande amadurecimento do pensamento sobre a necessidade de se
proteger o meio ambiente.
Com efeito, surgiu após a realização de grandes eventos mundiais que
demonstraram a necessidade dos países incluírem a proteção ambiental
nas suas constituições e em outras normas infraconstitucionais. Podem ser
citados pelo menos os seguintes eventos:

• a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente


Humano, ocorrida em Estocolmo, na Suécia, em junho de 1972;

* Promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Natal-RN


Especialista em Gestão Ambiental
• o lançamento do documento denominado “Estratégia de jurídico, nenhuma manifestação de vontade pode subsistir validamente se
Conservação Mundial (World Conservation Strategy – WCS) em for incompatível com a Lei Fundamental”2.
1980, pela União Internacional para Natureza – International
Union for Conservation o Nature and Natural Ressources (IUCN), Ualdi Lammêgo Bulos explica que
Programa da das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)
e pela Organização não governamental (ONG) Wordwide Fund em virtude de sua supremacia, subordinam-se a ela os atos materiais
of Nature (WWF); exercidos pelos homens e os atos jurídicos que criam direitos e estabelecem
• a criação da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e deveres. Tanto os atos legislativos, administrativos e jurisidicionais como os
Desenvolvimento (CMMAD), em 1983 pela Organização das atos praticados por particulares submetem-se à supremacia da Constituição
Nações Unidas (ONU); brasileira que esparge sua força normativa a todos os segmentos do
• a publicação do Relatório final da Comissão Mundial sobre Meio ordenamento jurídico.3
Ambiente e Desenvolvimento, denominado “Nosso Futuro
Comum”, em 1987, que contém o conceito de desenvolvimento A Constituição de 1988 dedicou um capítulo inteiro ao meio
sustentável; ambiente4 e referiu-se explícita e implicitamente ao meio ambiente
• a Conferência Mundial da Indústria sobre gestão do meio em pelo menos outros vinte dispositivos espalhados em seu corpo.
ambiente, organizada em 1984 pela PNUMA. Consequentemente, os valores ambientais encontram-se presentes em
todo o texto constitucional.
Sob o enfoque do seu conteúdo, “Constituição é o conjunto de Tem-se, assim que a defesa do meio ambiente tornou-se um preceito
normas pertinentes à organização do poder, à distribuição da competência, imperativo, uma vez que, como bem prega Luís Roberto Barroso, “as normas
ao exercício da autoridade, à forma de governo, aos direitos da pessoa constitucionais, como espécie do gênero normas jurídicas, conservam os
humana, tanto individuais, como sociais”1. atributos essenciais destas, dentre os quais a imperatividade”5.
A Constituição Federal representa o ponto mais alto do ordenamento Como diz José Afonso da Silva, a Constituição Federal de 1988 “é
jurídico brasileiro. Nenhuma lei ou ato normativo pode contrariar a eminentemente ambientalista. Assumiu o tratamento da matéria em termos
Constituição. Ela fica situada em um patamar superior ao de todas as amplos e modernos [...] a questão permeia todo o seu texto, correlacionada
demais leis existentes. Em razão disso, ela é chamada de Lei das Leis, Lei com os temas fundamentais da ordem constitucionais”6.
Maior, Lei Máxima, Lei Fundamental. Com a Constituição Federal de 1988, a qualidade do meio ambiente
Na área do Direito, costuma-se mencionar o Princípio da Supremacia
para referir-se à superioridade jurídica da Constituição. Luís Roberto 2
BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da Constituição: fundamentos de uma
Barroso ressalta que “por força da supremacia constitucional, nenhum ato dogmática constitucional transformadora.6. ed. SP. Saraiva, 2004. p. 161.
3
BULOS, UadiLammêgo. Curso de direito constitucional. 6.ed. São Paulo: Saraiva, 2011. p. 127.
4
Capítulo VI, do Título VIII.
5
BARROSO, Luís Roberto. O direito constitucional e a efetividade de suas normas: limites e
possibilidades da Constituição brasileira. 8.ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2006. p. 76.
1
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Malheiros, 1999. p. 63. 6
SILVA. José Afonso da.Direito Ambiental Constitucional.6.ed. São Paulo Malheiros, 2007. p. 46.

50 51
passou a ser um direito fundamental da pessoa humana. Passou, também a
ser considerada como um bem, um patrimônio. Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,
Sobre o tema vale, mais uma vez, fazer referência aos ensinamentos bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-
do Ilustre constitucionalista mineiro José Afonso da Silva: se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo
para as presentes e futuras gerações.
A proteção ambiental abrangendo a preservação da Natureza em todos § 1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:
os seus elementos essenciais à vida humana e à manutenção do equilíbrio I - preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o
ecológico visa a tutelar a qualidade do meio ambiente em função da manejo ecológico das espécies e ecossistemas;
qualidade de vida, como uma forma de direito fundamental da pessoa II - preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País
humana. e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material
A qualidade do meio ambiente converte-se, assim, em um bem, que o genético;  
Direito reconhece e protege, como patrimônio ambiental III - definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e
[...] seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e
A Constituição, no art. 225, declara que todos têm direito ao meio ambiente a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização
ecologicamente equilibrado. Veja-se que o objeto do direito de todos não é que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção; 
o meio ambiente em si, não é qualquer meio ambiente. O que é objeto do IV - exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade
direito é o meio ambiente qualificado. O direito que todos temos é à qualidade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente,
satisfatória, ao equilíbrio ecológico do meio ambiente. Essa qualidade é que estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade;
se converteu em um bem jurídico. A isso é que a Constituição define como V - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas,
bem de uso comum do povo.7 métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de
vida e o meio ambiente;
Importa esclarecer que a qualidade do meio ambiente não pode VI - promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a
ser apropriada por quem quer que seja, uma vez que se caracteriza como conscientização pública para a preservação do meio ambiente;
bem de interesse público. “Significa que o proprietário, seja pessoa pública VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que
ou particular, não pode dispor da qualidade do meio ambiente a seu bel- coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies
prazer, porque ela não integra a sua disponibilidade”8. ou submetam os animais a crueldade. 
Com essas considerações, transcreve-se o texto do capítulo que versa § 2º - Aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a recuperar o
sobre o meio ambiente na Constituição Federal: meio ambiente degradado, de acordo com solução técnica exigida pelo
órgão público competente, na forma da lei.
§ 3º - As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão
os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
7
SILVA, 2007, p. 83/84.
8
SILVA, 2007, p. 84.
independentemente da obrigação de reparar os danos causados.

52 53
§ 4º - A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, IX - tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas
o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País.
sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade
a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo
naturais. nos casos previstos em lei.
§ 5º - São indisponíveis as terras devolutas ou arrecadadas pelos Estados, por
ações discriminatórias, necessárias à proteção dos ecossistemas naturais. Como bem enfatiza Barroso, os princípios constitucionais são “o conjun-
§ 6º - As usinas que operem com reator nuclear deverão ter sua localização to de normas que espelham a idelologia da Constituição, seus postulados básicos
definida em lei federal, sem o que não poderão ser instaladas. e seus fins [...] são as normas eleitas pelos constituintes como fundamentos ou
quantificações essenciais da ordem jurídica que institui”9.
Sendo assim, já que a Constituição Federal instituiu a defesa do meio
A interação da questão ambiental com a matéria econômica também ambiente como princípio da atividade econômica, resta a todos cumprir
foi muito bem posicionada no texto constitucional, que instituiu a defesa esse postulado básico.
do meio ambiente como princípio geral da atividade econômica, como se
constata:
3.2 Licenciamento Ambiental de atividades
potencialmente poluidoras
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho
humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência
A Lei 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio
digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes
Ambiente, considerou o LICENCIAMENTO AMBIENTAL como uma das
princípios:
formas mais importantes de se prevenir danos aos recursos ambientais.
I - soberania nacional; Quem pretende construir, instalar, ampliar ou funcionar um
II - propriedade privada; estabelecimento ou atividade com utilização de recursos ambientais
III - função social da propriedade; que podem, sob qualquer forma, causar degradação ambiental, deverá
IV - livre concorrência; submeter a sua intenção a um LICENCIAMENTO no órgão ambiental
V - defesa do consumidor; competente10.
VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado
9
BARROSO, 2004. p. 151.
conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos 10
O art. 10 da Lei 6938/81 dispõe que Art. 10 - A construção, instalação, ampliação e funcionamento
de elaboração e prestação; de estabelecimentos e atividades utilizadoras de recursos ambientais, considerados efetiva e
VII - redução das desigualdades regionais e sociais; potencialmente poluidores, bem como os capazes, sob qualquer forma, de causar degradação
ambiental, dependerão de prévio licenciamento de órgão estadual competente, integrante do Sistema
VIII - busca do pleno emprego; Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos
Naturais Renováveis (IBAMA), em caráter supletivo, sem prejuízo de outras licenças exigíveis.

54 55
Regulamentando os aspectos do licenciamento ambiental II- Licença de Instalação (LI) – autoriza a instalação do empreendimento ou
estabelecidos na Política Nacional do Meio Ambiente, Lei 6.938/8111, a atividade de acordo com as especificações constantes dos planos, programas
Resolução 237/97 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) ou projetos aprovados, incluindo as medidas de controle ambiental e demais
define licenciamento e licença ambiental como: condicionantes da qual constituem motivo determinante;

III- Licença de Operação (LO) – autoriza a operação da atividade ou


I- Licenciamento Ambiental: procedimento administrativo pelo qual o
empreendimento após a verificação do efetivo cumprimento do que
órgão ambiental competente licencia a localização, instalação, ampliação
consta das licenças anteriores, com as medidas de controle ambiental e
e a operação de empreendimentos e atividades utilizadoras de recursos
condicionantes determinados para a operação.
ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras ou
daquelas que, sob qualquer forma, possam causar degradação ambiental,
considerando as disposições legais e regulamentares e as normas técnicas O licenciamento ambiental, portanto, é um procedimento constituído
aplicáveis ao caso. de vários atos vinculados. Aquele que possui interesse em instalar e operar
um empreendimento deverá, necessariamente, requerer junto ao órgão
II- Licença Ambiental: ato administrativo pelo qual o órgão ambiental ambiental competente a abertura de um procedimento de licenciamento
competente estabelece as condições, restrições, e medidas de controle ambiental. Durante o procedimento, o órgão ambiental exigirá os
ambiental que deverão ser obedecidas pelo empreendedor, pessoa física documentos e as informações necessárias para avaliação da possibilidade
ou jurídica, para localizar, instalar, ampliar e operar empreendimentos ou de expedição das licenças ambientais.
atividades utilizadoras dos recursos ambientais consideradas efetiva ou Um dos requisitos essenciais do licenciamento ambiental é o
potencialmente poluidoras ou aquelas que, sob qualquer forma, possam conhecimento do local da atividade pretendida e a avaliação dos possíveis
causar degradação ambiental. impactos ambientais que poderão ser gerados em razão dessa atividade.
Esses dados só poderão ser conhecidos através de estudos ambientais.
A Resolução detalha quais são as licenças expedidas durante o
procedimento de licenciamento ambiental, esclarecendo que o Poder
Público, no exercício de sua competência de controle, expedirá as seguintes 3.3 Obrigatoriedade da apresentação de Estudos
licenças12: Ambientais no Licenciamento Ambiental

I- Licença Prévia (LP) – concedida na fase preliminar do planejamento A própria Constituição Federal, em seu art. 225, §1º, IV, reconhecendo
do empreendimento ou atividade, aprovando sua localização e concepção a necessidade de avaliação dos impactos ambientais causadores de alterações
atentando sua viabilidade ambiental e estabelecendo os requisitos básicos e ambientais, condiciona as licenças ambientais para instalação de obras ou
condicionantes a serem atendidos nas próximas fases de sua implentantação; atividades causadoras de significativa degradação do meio ambiente ao
estudo prévio de impacto ambiental, com ampla publicidade.
11
Art. 1º, I e II da Resolução CONAMA n. 237/97. Nem todas as obras potencialmente poluidoras requerem um estudo
12
Art. 8º da Resolução CONAMA n. 237/97.

56 57
prévio de impacto ambiental (EIA)13; podendo o licenciamento contemplar dos documentos, projetos e estudos ambientais (através de um Termo
estudos ambientais menos complexos. Esses estudos são definidos na de Referência - TR), o interessado deverá requerer a licença ambiental.
Resolução CONAMA 237/97 como sendo: Este requerimento enseja o início do procedimento de licenciamento no
órgão ambiental. Diante do requerimento, que deve ser acompanhado dos
Estudos Ambientais: são todos e quaisquer estudos relativos aos aspectos Estudos Ambientais normalmente realizados por equipe contratada pelo
ambientais relacionados à localização, instalação, operação e ampliação empreendedor, dos projetos e dos demais documentos exigidos, o órgão
de uma atividade ou empreendimento, apresentado como subsídio para ambiental, através de sua equipe técnica analisa tudo o que foi encaminhado,
a análise da licença requerida, tais como: relatório ambiental, plano e realiza vistorias técnicas e emite o seu parecer técnico favorável ou não à
projeto de controle ambiental, relatório ambiental preliminar, diagnóstico licença (prévia, se for no início do procedimento). Há casos em que o órgão
ambiental, plano de manejo, plano de recuperação de área degradada e ambiental solicita esclarecimentos e complementações em decorrência da
análise preliminar de risco.14 análise dos documentos encaminhados. Nesses casos, a emissão do Parecer
Técnico conclusivo só ocorrerá após o atendimento dos esclarecimentos
Algumas leis estaduais chegam a arrolar outros tipos de estudos adicionais e complementações exigidos. Após o Parecer Técnico e, se for
ambientais. o caso, do parecer jurídico do órgão ambiental, o pedido de licença será
As informações contidas nos estudos ambientais apresentados pelo deferido ou indeferido15.
empreendedor são essenciais para se compreender todas as características As etapas são praticamente as mesmas para o procedimento relativo
do local onde se pretende instalar uma determinada atividade ou a cada Licença Ambiental, ou seja, para a Licença Prévia (LP), de Instalação
empreendimento potencialmente poluidor. (LI) ou de Operação (LO), sendo que a apresentação dos estudos ambientais
Assim, para a solicitação da Licença Ambiental, além da é obrigatória logo no início do procedimento; portanto para a expedição da
documentação pertinente à abertura do processo administrativo, o Licença Prévia (LP).
interessado tem que apresentar os estudos ambientais, conforme um Termo Como já esclarecido, o objetivo do licenciamento ambiental
de Referência expedido pelo órgão ambiental. é sobretudo evitar a poluição. Os estudos ambientais tornam-se de
Repisando: a responsabilidade pela apresentação dos estudos grande relevância para se avaliar os impactos ambientais decorrentes do
ambientais é do próprio empreendedor. O órgão ambiental, por sua vez, empreendimento que se pretende instalar.
deve estabelecer o tipo de Estudo Ambiental que deve ser apresentado de Os estudos deverão contemplar o diagnóstico das áreas de influência
acordo com o tipo de empreendimento a ser licenciado. do projeto, com a descrição e análise dos recursos ambientais e a situação
De forma simplista, para os empreendimentos que não dependem de ambiental da área antes da implantação do projeto. O meio físico, incluindo
Estudo de Impacto Ambiental (EIA), o procedimento pode ser resumido o subsolo, águas, ar, clima, topografia, regime hidrológico, etc deverão ser
da seguinte forma: após a definição pelo órgão ambiental competente detalhados. O meio biológico e os ecossistemas naturais, a fauna a flora, as
espécies indicadoras da qualidade ambiental; o meio socioeconômico, com
13
O EIA é uma espécie do gênero “estudos ambientais”
14
Art. 1º, III da Resolução CONAMA n. 237/97. 15
O art. 10 da Resolução CONAMA n. 237/97 detalha o procedimento de licenciamento ambiental.

58 59
detalhamento do uso e ocupação do solo, dos locais de relevância histórica, Degradação da qualidade ambiental: é a alteração adversa das
cultural, paisagística, etc. características do meio ambiente.
Após a realização do diagnóstico da área, os estudos deverão contem-
Poluição: é a degradação da qualidade ambiental resultante de
plar a análise dos impactos ambientais do projeto, a definição das medidas
atividades que direta ou indiretamente: a) prejudiquem a saúde, a
mitigadoras dos impactos negativos, com a inclusão dos equipamentos de
segurança e o bem-estar da população; b) criem condições adversas às
controle e tratamento de despejos, além dos programas de acompanhamento
atividades sociais e econômicas; c) afetem desfavoravelmente a biota;
e monitoramento dos impactos decorrentes do empreendimento.
d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; e)
Os estudos servem de subsídio para o deferimento ou indeferimento
lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais
da licença para instalação e operação do empreendimento. Caso os estudos
estabelecidos.
demonstrarem que os equipamentos e as medidas de controle não são
suficientes para reduzir os impactos ambientais negativos decorrentes da Poluidor: é a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado,
atividade, não será possível o deferimento de licença ambiental requerida. responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de
De acordo com o seu conceito legal16, impacto ambiental é qualquer degradação ambiental.
alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente,
causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades
humanas que, direta ou indiretamente, afetam: I - a saúde, a segurança e o 3.5 Responsabilidade Ambiental
bem-estar da população; II - as atividades sociais e econômicas; III - a biota;
IV - as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V - a qualidade Como já foi transcrito, a Constituição Federal estipulou que as
dos recursos ambientais. condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os
infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos causados18.
3.4 O que é poluição? Quem pode A responsabilidade pelo descumprimento da legislação ambiental
ser definido como poluidor? e/ou por uma efetiva lesão ao meio ambiente pode abranger as esferas
administrativa, civil e penal.
O conceito de poluição não é subjetivo. A Lei 6.938/81, que trata No âmbito administrativo, o infrator deverá responder a um processo
da Política Nacional do Meio Ambiente, fornece o conceito legal de no órgão ambiental, que exigirá o cumprimento de sanções que variam
degradação da qualidade ambiental e de poluição. A Lei também define e podem ser de: advertência, multa simples, multa diária, apreensão dos
quem é poluidor. animais, produtos e subprodutos da fauna e flora, instrumentos, petrechos,
Seguem, então, os conceitos legais17 mencionados: equipamentos ou veículos de qualquer natureza utilizados na infração,
destruição ou inutilização do produto, suspensão de venda e fabricação
16
Art. 1º da Resolução CONAMA n. 01/86.
17
Art. 3º, II, III e IV da Lei n. 6.938/81. 18
Art. 225 § 3º da Constituição Federal.

60 61
do produto, embargo de obra ou atividade, demolição de obra, suspensão
parcial ou total de atividades ou restritiva de direitos19.
REFERÊNCIAS
A responsabilidade civil costuma ser cobrada através de ação judicial,
e busca a indenização ou reparação dos danos causados ao meio ambiente
e a terceiros. Nota-se que o poluidor deve arcar com a responsabilidade
BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da Constituição: fundamentos
civil por conduta danosa ao meio ambiente independentemente da
de uma dogmática constitucional transformadora.6. ed. SP. Saraiva, 2004.
existência de culpa20. Esta responsabilidade é denominada na doutrina
de responsabilidade civil objetiva, porque independe da demonstração da ______. O direito constitucional e a efetividade de suas normas: limites e
culpa, ou seja da vontade em causar o dano. possibilidades da Constituição brasileira. 8. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2006.
A responsabilidade criminal ou penal, corresponde aos processos
criminais ajuizados pelo Ministério Público e as sanções variam da seguinte BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Malheiros, 1999.
forma: para pessoas físicas: penas privativas de liberdade ou restritivas de
direito, que são prestação de serviços à comunidade; interdição temporária BRASIL. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional
de direitos; suspensão parcial ou total de atividades; prestação pecuniária; do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras
recolhimento domiciliar21. providências. Diário Oficial da União, 1 set. 1981.
As penas aplicáveis às pessoas jurídicas são multa, restritivas de direitos
______. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução 01, de 23 de janeiro de
ou prestação de serviços à comunidade. As penas restritivas de direitos da
1986. Diário Oficial da União, 17 fev. 1986.
pessoa jurídica são: suspensão parcial ou total de atividades, interdição
temporária de estabelecimento, obra ou atividade, proibição de contratar com ______. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução 237, de 19dedezembro
o Poder Público, bem como dele obter subsídios, subvenções ou doações22. de 1997. Dispõe sobre licenciamento ambiental; competência da União, Estados e
As responsabilidades acima mencionadas são independentes, ou Municípios; listagem de atividades sujeitas ao licenciamento; Estudos Ambientais,
seja, um processo em uma esfera (cível, por exemplo) não impede outro Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental.Diário Oficial
processo pelo mesmo fato em outra esfera (criminal, por exemplo, ou da União, 20 dez. 1997.
administrativo). Desse modo, pelo mesmo ato danoso contra o meio
ambiente, o responsável pode responder a processos no âmbito civil, _____. Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais e
administrativo e criminal. administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá
outras providências. Diário Oficial da União, 13 fev. 1998.
19
Art. 72da Lei n. 9.605/98.
20
O § 1º do art. 14 da Lei 6.938/81 dita que: § 1º - Sem obstar a aplicação das penalidades previstas BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de direito constitucional. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.
neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou
reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. O Ministério
Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e SILVA. José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional.6. ed. São Paulo Malheiros,
criminal, por danos causados ao meio ambiente.
2007.
21
Art. 8º da Lei n. 9.605/98.
22
Arts. 21 e 22 da Lei n. 9.605/98.

62 63
4
Normas e Padrões Ambientais

Gilka da Mata Dias*

4.1 Mas que normas e padrões são esses?

No tópico relativo à internalização dos custos ambientais, foi


mencionado que o atendimento aos padrões ambientais é uma importante
forma de se evitar a poluição de atividades que direta ou indiretamente
utilizam o meio ambiente.
A Lei 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio
Ambiente, estabeleceu, entre os objetivos dessa política, a compatibilização
do desenvolvimento econômico-social com a preservação da qualidade
do meio ambiente1. O estabelecimento de padrões de qualidade ambiental
foi arrolado também como objetivo e como um essencial instrumento
para dar efetividade a essa política de proteção ambiental2. Pelas regras de
competência ambiental determinadas pela Constituição Federal, as normas
gerais ou mínimas de proteção devem ser estabelecidas pela União Federal3.

* Promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Natal-RN


Especialista em Gestão Ambiental
1
Art. 4º, I da Lei n. 6.938/81
2
Art. 9º, I da Lei n. 6.938/81
3
A Constituição Federal, estabelecendo o princípio federativo, adotou a repartição vertical de
Os Estados e os Municípios podem estabelecer normas suplemen- Sem prejuízo da necessidade de atendimento aos preceitos
tares (no sentido de complementares) às normas gerais existentes, desde constitucionais e da legislação ambiental em vigor – com especial destaque
que não diminuam a proteção da legislação federal ou estadual4. para a Lei 6.938/81, já mencionada – os interessados em instalar e
No caso da definição das normas e padrões compatíveis com o operar postos revendedores de combustíveis, postos de abastecimento,
meio ambiente ecologicamente equilibrado, a União Federal, através sistemas retalhistas e postos flutuantes de combustíveis deverão atender
da Lei 6.938/81, remeteu essa atribuição ao Conselho Nacional do Meio às exigências da Resolução CONAMA 273/2000, que estabelece diretrizes
Ambiente (CONAMA)5, permitindo que os Estados e os Municípios para o licenciamento ambiental de postos de combustíveis e serviços e
elaborem normas supletivas e complementares e padrões relacionados com dispõe sobre a prevenção e controle da poluição. A referida Resolução
o meio ambiente, com observância do que foi estabelecido pelo CONAMA. sofreu alterações através das Resoluções CONAMA 276/01 e 319/02.
Normas supletivas são as que servem para cobrir uma lacuna que a Lei de Logo em suas considerações iniciais, a Resolução CONAMA 273/2000,
hierarquia maior deixou de regulamentar. com propriedade, ressalta os riscos e os potenciais danos ambientais que as
instalações e os sistemas de armazenamento de derivados de petróleo e de
outros combustíveis ensejam. Faz referência à falta de treinamento de pessoal
4.2 Base para o licenciamento ambiental e à relação direta dos vazamentos com a contaminação dos recursos hídricos,
de postos de combustíveis com acidentes, com a falta de manutenção do sistema, com a operação de
sistemas envelhecidos. Expressamente, nos termos da Resolução:
competência e prescreveu em seu art 24 que “Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal
legislar concorrentemente sobre: [...] VI- florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, • toda instalação e sistemas de armazenamento de derivados de petróleo e
defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição; VII-
proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico [...] §1º No âmbito da outros combustíveis, configuram-se como empreendimentos potencialmente ou
legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas gerais [...]”. parcialmente poluidores e geradores de acidentes ambientais;
A Constituição foi muito clara, não deixando margem a qualquer dúvida doutrinária de que em
matéria de conservação da natureza, a União é a responsável por estabelecer normas gerais. • vazamentos de derivados de petróleo e outros combustíveis podem causar
4
É importante salientar que a competência comum, estabelecida no do art. 23 da Constituição contaminação de corpos d’água subterrâneos e superficiais, do solo e do ar;
Federal, não diz respeito à competência legislativa e sim à instrumental ou administrativa, destinada
à aplicação das leis ambientais existentes. As atribuições são, portanto, de natureza administrativa e, • os riscos de incêndio e explosões, decorrentes desses vazamentos,
em regra, revelam-se através dos atos administrativos. principalmente, pelo fato de que parte desses estabelecimentos localizam-
5
Art 6º - Os órgãos e entidades da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos
Municípios, bem como as fundações instituídas pelo Poder Público, responsáveis pela proteção e
se em áreas densamente povoadas;
melhoria da qualidade ambiental, constituirão o Sistema Nacional do Meio Ambiente - SISNAMA, • a ocorrência de vazamentos vem aumentando significativamente nos últimos
assim estruturado: [...] II - órgão consultivo e deliberativo: o Conselho Nacional do Meio Ambiente
anos em função da manutenção inadequada ou insuficiente, da obsolescência do
(CONAMA), com a finalidade de assessorar, estudar e propor ao Conselho de Governo, diretrizes
de políticas governamentais para o meio ambiente e os recursos naturais e deliberar, no âmbito sistema e equipamentos e da falta de treinamento de pessoal;
de sua competência, sobre normas e padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente • a ausência e/ou uso inadequado de sistemas confiáveis para a detecção de
equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida; [...] § 1º Os Estados, na esfera de suas competências
e nas áreas de sua jurisdição, elaboração normas supletivas e complementares e padrões relacionados vazamento;
com o meio ambiente, observados os que forem estabelecidos pelo CONAMA.§ 2º O s Municípios, • a insuficiência e ineficácia de capacidade de resposta frente a essas ocorrências
observadas as normas e os padrões federais e estaduais, também poderão elaborar as normas
mencionadas no parágrafo anterior. e, em alguns casos, a dificuldade de implementar as ações necessárias.

66 67
A Resolução CONAMA 273/2000 traz as seguintes definições: licenciamento ambiental para a instalação, modificação, ampliação e
• Posto Revendedor-PR: Instalação onde se exerça a atividade de revenda operação de postos de combustíveis.
varejista de combustíveis líquidos derivados de petróleo, álcool combustível
Art. 1º. A localização, construção, instalação, modificação, ampliação e
e outros combustíveis automotivos, dispondo de equipamentos e sistemas
operação de postos revendedores, postos de abastecimento, instalações
para armazenamento de combustíveis automotivos e equipamentos
de sistemas retalhistas e postos flutuantes de combustíveis dependerão
medidores.
de prévio licenciamento do órgão ambiental competente, sem prejuízo de
• Posto de Abastecimento-PA: Instalação que possua equipamentos outras licenças legalmente exigíveis.
e sistemas para o armazenamento de combustível automotivo, com
registrador de volume apropriado para o abastecimento de equipamentos Também, seguindo o regramento geral que dispõe sobre licen-
móveis, veículos automotores terrestres, aeronaves, embarcações ou ciamento ambiental, reafirmou que o licenciamento abrange as três licenças:
locomotivas; e cujos produtos sejam destinados exclusivamente ao uso a Licença Prévia (LP), Licença de Instalação (LI) e Licença de Operação (LO).
do detentor das instalações ou de grupos fechados de pessoas físicas ou No trabalho realizado na cidade de Natal/RN para adequação
jurídicas, previamente identificadas e associadas em forma de empresas, ambiental dos postos de combustíveis, muitos empreendedores alegaram
cooperativas, condomínios, clubes ou assemelhados. que suas atividades tiveram início antes da Resolução CONAMA 273/2000,
• Instalação de Sistema Retalhista-ISR: Instalação com sistema de razão pela qual deixaram de providenciar o devido licenciamento nos
tanques para o armazenamento de óleo diesel, e/ou óleo combustível, e/ou termos impostos pela norma.
querosene iluminante, destinada ao exercício da atividade de Transportador Impera informar que o licenciamento ambiental de atividades
Revendedor Retalhista. potencialmente poluidoras é uma exigência da Lei 6.938 de 1981, razão
pela qual desde essa data os empreendimentos efetiva ou potencialmente
• Posto Flutuante-PF: Toda embarcação sem propulsão empregada para
poluidores passaram a depender de licenciamento ambiental.
o armazenamento, distribuição e comércio de combustíveis que opera em
E a Resolução CONAMA 273/2000, ao mencionar as licenças
local fixo e determinado
ambientais cabíveis, enfatizou que os estabelecimentos que estivessem
em operação na data de sua publicação estavam obrigados à obtenção da
Licença de Operação (LO)7.
4.3 Exigência de Licenciamento Ambiental

A Resolução CONAMA 273/2000, seguindo o comando da Lei 4.4 Exigências específicas


6.938/816, que exige o licenciamento ambiental para toda construção,
instalação, ampliação e funcionamento de atividades consideradas A Resolução CONAMA 273/2000 estabelece alguns documentos
efetiva e potencialmente poluidoras, reafirmou a necessidade de prévio específicos para emissão das Licenças Ambientais, conforme quadro a seguir:

6
Art. 10 da Lei n. 6.938/81 7
Art. 4º § 2º da Resolução CONAMA n. 273/2000

68 69
Para emissão da(s) Licença(s) Documentos Específicos • caracterização geológica do terreno da região
onde se insere o empreendimento com análise
• projeto básico que deverá especificar
de solo, contemplando a permeabilidade do
equipamentos e sistemas de monitoramento,
solo e o potencial de corrosão;
proteção, sistema de detecção de vazamento,
sistemas de drenagem, tanques de • classificação da área do entorno dos
armazenamento de derivados de petróleo e de estabelecimentos que utilizam o Sistema de
outros combustíveis para fins automotivos e Armazenamento Subterrâneo de Combustível-
sistemas acessórios de acordo com as Normas SASC e enquadramento deste sistema,
ABNT e, por diretrizes definidas pelo órgão conforme NBR-13.786;
ambiental competente; • detalhamento do tipo de tratamento e
• declaração da prefeitura municipal ou do controle de efluentes provenientes dos tanques,
governo do Distrito Federal de que o local e o áreas de bombas e áreas sujeitas a vazamento de
tipo de empreendimento ou atividade estão em derivados de petróleo ou de resíduos oleosos;
conformidade com o Plano Diretor ou similar; • previsão, no projeto, de dispositivos
• croqui de localização do empreendimento, recolhimento e disposição adequada de óleo
indicando a situação do terreno em relação ao lubrificante usado.
corpo receptor e cursos d’água e identificando
Licença Prévia
o ponto de lançamento do efluente das águas • plano de manutenção de equipamentos e
(LP) domésticas e residuárias após tratamento, tipos sistemas e procedimentos operacionais;
e de vegetação existente no local e seu entorno, • plano de resposta a incidentes contendo: a)
bem como contemplando a caracterização comunicado de ocorrência; b). ações imediatas
Licença de Instalação
das edificações existentes num raio de 100 previstas; c). articulação institucional com os
(LI) m com destaque para a existência de clínicas órgãos competentes;
médicas, hospitais, sistema viário, habitações
multifamiliares, escolas, indústrias ou • atestado de vistoria do Corpo de Bombeiros;
estabelecimentos comerciais; • programa de treinamento de pessoal em:
• no caso de posto flutuante, cópia autenticada a) operação; b) manutenção; e c) resposta a
Licença de Operação
do documento expedido pela Capitania incidentes;
(LO) • registro do pedido de autorização para
dos Portos, autorizando sua localização e
funcionamento e contendo a localização funcionamento na Agência Nacional de
geográfica do posto no respectivo curso d’água; Petróleo-ANP;
• caracterização hidrogeológica com definição • certificados expedidos pelo Instituto Nacional
do sentido de fluxo das águas subterrâneas, de Metrologia, Normatização e Qualidade
identificação das áreas de recarga, localização Industrial-INMETRO, ou entidade por ele
de poços de captação destinados ao credenciada, atestando a conformidade quanto
abastecimento público ou privado registrados a fabricação, montagem e comissionamento
nos órgãos competentes até a data da emissão dos equipamentos e sistemas;
do documento, no raio de 100 m, considerando • certificado expedido pelo INMETRO ou
as possíveis interferências das atividades com entidade por ele credenciada, atestando a
corpos d’água superficiais e subterrâneos; inexistência de vazamentos.

70 71
4.5 Obediência às normas da ABNT

Além da obediência às diretrizes estabelecidas na Resolução


CONAMA 273/00 e às exigidas pelo órgão ambiental competente, de REFERÊNCIAS
acordo com as peculiaridades locais, a própria Resolução exige que todos os
projetos de construção, modificação e ampliação de postos revendedores,
postos de abastecimento, instalações de sistemas retalhistas e postos BRASIL. Lei nº 5.966, de 11 de dezembro de 1973. Institui o Sistema Nacional
flutuantes de combustíveis sejam realizados de acordo com normas técnicas de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial, e dá outras providências.
expedidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Diário Oficial da União, 12 dez. 1973.
A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) é uma entidade
privada sem fins lucrativos. Foi designada através do Conselho Nacional ______. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional
de Metrologia, Normatização e qualidade industrial (CONMETRO)8 como do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras
Foro Nacional de Normatização. providências. Diário Oficial da União, 1 set. 1981.
As atribuições da ABNT foram fixadas em um Termo de
Compromisso firmado entre a própria entidade e o Governo Brasileiro9. A ______. Resolução nº 273, de 29 de novembro de 2000. Diário Oficial da União,
supervisão do Termo de Compromisso ficou a cargo do Instituto Nacional 30 nov. 2000.
de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO), que é uma autarquia
federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior, com personalidade jurídica e patrimônio próprios10.
As principais atribuições da ABNT são de coordenar, orientar e
supervisionar o processo de elaboração de Normas Brasileiras, bem como
de elaborar e editar as referidas Normas.
O Termo de Compromisso estabelece que a numeração de Normas
Brasileiras será de responsabilidade da ABNT, que utilizará o sistema de
numeração sequencial, precedido da sigla NBR (NBR- nº sequencial)11.
As principais normas da ABNT aplicáveis às atividades relativas à
postos de combustíveis encontram-se detalhadas no capítulo 7.

8
Resolução CONMETRO n. 07/1992
9
Anexo da Resolução CONMETRO/Nº 07/92, publicado no D.O.U. de 27/ 08 /92— Seção 1—
página11728
10
Art. 4º da Lei 5.966/73
11
Parágrafo 1º da Cláusula 1ª do Termo de Compromisso

72 73
5
Radiografia geral dos postos de
combustíveis na Cidade de Natal

Ângelo Roncalli de Oliveira Guerra1
Francisco de Assis de Oliveira Fontes2
José Correia Torres Neto3
Luis Guilherme Meira de Souza4

5.1 A radiografia geral de todos os postos


de combustíveis da Cidade de Natal-RN

Neste capítulo, o foco é o relato do estado em que se encontravam as


instalações dos empreendimentos revendedores de combustíveis na cidade
de Natal, no Rio Grande do Norte, no ano de 2009. Serão apresentados

1
Doutor pela University Of Manchester Institute Of Science And Technology em Engenharia
Mecânica, na Inglaterra, em 1996. Atualmente, é professor titular da UFRN na área de projetos
mecânicos.
2
Doutor em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 2003.
Atualmente, é professor Associado III da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
3
Mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 2012, e
Especialista em Gás Natural. Atualmente, é técnico de nível superior em assuntos educacionais da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
4
Doutor em Ciência e Engenharia de Materiais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte
em 2002. Atualmente, é professor associado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
os dados da “radiografia geral” retratando a situação dos tanques/
compartimentos dos postos investigados em 2009. Um destaque é dado
à importância dos tanques ecológicos para proteção do solo/aquífero da
cidade de Natal. Finalmente, serão apresentados alguns aspectos relativos
à operação e manutenção dos postos de combustíveis e à capacitação dos
frentistas.
Durante o ano de 2009, o Ministério Público investigou todos os
110 postos de revenda de combustível em funcionamento na cidade
de Natal-RN. Para a realização desse trabalho, contou com a parceria
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Secretaria
Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal/RN (SEMURB),
órgão ambiental local, e do Corpo de Bombeiros do RN. Os engenheiros/
professores da UFRN atuaram realizando perícias em todas as instalações
dos empreendimentos revendedores de combustíveis da cidade na
tentativa de fazer um diagnóstico geral (“Radiografia”) da situação
e possíveis desconformidades encontradas. Concomitantemente, foi
possível realizar algumas atividades de capacitação de funcionários
desses órgãos envolvidos, além de treinar alunos dos cursos de
Engenharia Mecânica e Química da UFRN.
A “radiografia final” só foi possível após três tarefas chaves realizadas
Quadro 5.1: Descritivos das tarefas realizadas nas visitas dos 110 postos
nas visitas básicas a todos os 110 postos de gasolina em operação na em operação em Natal/RN. Fonte: Ministério Público/RN.
cidade:

As Figuras 5.1, 5.2 e 5.3 a seguir ilustram o mapeamento na busca


por tanques soterrados sendo realizado em um posto da cidade em 2009,
bem como seu resultado concreto.

76 77
Figura 5.1: Foto dos peritos realizando o mapeamento de tanques soterrados.
Fonte: Ministério Público/RN.

Figura 5.3: Três tanques não declarados detectados (verde) durante o mapeamento.
Fonte: Ministério Público/RN.

O Quadro 5.2 adiante é o resumo da situação encontrada pelo


Figura 5.2: Display do equipamento indicador da presença de tanques.
Ministério Público referente aos postos de gasolina na cidade de Natal-RN
Fonte: Ministério Público/RN.
em 2009:

78 79
5.2 A situação dos tanques/compartimentos
dos postos em 2009

A forma de armazenamento utilizada pela grande maioria dos postos


até o ano de 2009 apresentava uma grande fragilidade no tocante ao meio
ambiente. Os 349 tanques subterrâneos não ecológicos utilizados para o
armazenamento de combustíveis líquidos (derivados ou não de petróleo)
estavam sujeitos a uma intensa corrosão promovida – e intensificada – pela
característica do solo da Cidade do Natal: solo dunar com alta salinidade.
Independentemente da cidade onde se localiza o empreendimento,
postos de gasolina que ainda não possuem instalações ecológicas estão
sujeitos à agressividade do solo, que acarreta danos diretos aos tanques
metálicos provocando vazamento de combustíveis tanto no tanque quanto
na linha de transporte e distribuição (tubulações), o que contamina
diretamente o próprio solo e, em seguida, o lençol freático.
Na sequência, o Quadro 5.3 apresenta alguns números que retratam
a situação dos tanques/compartimentos dos postos de gasolina em 2009.
Quadro 5.2: Quadro resumo da situação dos 110 postos de gasolina em 2009.
Um tanque de combustível pode ter um único compartimento (pleno),
Fonte: Ministério Público/RN.
ser subdividido em 02 compartimentos (bicompartimentado) ou em três
As barras em vermelho mostram algumas constatações preocupantes compartimentos (tricompartimentado).
encontradas durante as perícias e as barras em azul representam O destaque no caso dos tanques de armazenamento vai para o
informações que também alimentaram uma base de dados referente à número de tanques não ecológicos (349), desativados (35) e/ou que
revenda de combustíveis na cidade. apresentaram vazamentos (34). Dos 349 tanques não ecológicos, 315 eram
O destaque neste ponto vai para o elevado número de postos (109) tanques metálicos comuns e, portanto, sujeitos ao ataque da corrosão.
que apresentaram vazamentos nas tubulações/conexões localizadas entre Esse destaque é reforçado pelo fato de que, posteriormente, muitos postos
bombas, tanques e filtros. Apenas um posto não apresentou vazamento contendo tanques desativados apresentaram indícios ou contaminação
nas tubulações (as tubulações desse posto eram ecológicas). No aspecto confirmada na investigação do passivo ambiental.
da segurança, também se observou várias das desconformidades indicadas Outro número que, embora pequeno, chamou atenção foi o de
e que serão mais bem detalhadas em capítulo específico. O próximo item tanques de óleo lubrificante que precisou ser interditado (3 unidades). Para
apresenta alguns destaques da situação encontrada referente aos tanques/ que se tenha uma ideia da gravidade dessa situação, basta considerar que
compartimentos responsáveis pelo armazenamento de combustíveis na uma película fina de 0, 00001 mm proveniente de 1 litro de óleo lubrificante
cidade de Natal em 2009. pode impedir a passagem de luz e troca de oxigênio contaminando uma

80 81
área superficial de 10 m2 de espelho d’água e esse mesmo volume é capaz O Quadro 5.4 a seguir ilustra alguns destaques relativos à idade
de esgotar o oxigênio de um milhão de litros d’água se considerarmos uma média dos tanques e postos de gasolina que operavam na cidade de Natal-
profundidade média de 100m para um corpo d’água aleatório. RN em 2009, bem como os picos de idade dos postos e tanques instalados
na cidade. Os valores mínimos de idade encontrados em ambos os casos
também são mostrados no gráfico.

Quadro 5.3: Quadro resumo da situação dos 473 tanques em 2009.


Fonte: Ministério Público/RN.
Quadro 5.4: Idade média/picos de idade de tanques e postos de gasolina em 2009.
Considerando, por exemplo, volumes clássicos de armazenamento Fonte: Ministério Público/RN.
de óleo lubrificante na cidade de Natal da ordem de 2.000 litros, um
hipotético vazamento de tal magnitude seria suficiente para promover Finalmente, o gráfico plotado no Quadro 5.5 é um comparativo entre
uma carga poluidora de uma população de 80.000 habitantes, em torno de a idade dos postos de gasolina e a idade dos seus respectivos tanques. Na
10,18% da população da Cidade do Natal5. Felizmente, as três interdições região destacada em verde (idade dos postos), observa-se que há uma forte
ocorridas em Natal foram de caráter preventivo e não devido a vazamentos concentração de postos com idade superior a 20 anos. A idade dos tanques
confirmados. (região destacada em azul) é visivelmente menor. Entretanto, observa-se
que há uma enorme oscilação no perfil de idade dos tanques.
5
Segundo o Censo 2010, a população da Cidade do Natal é de 803.739 habitantes. Fonte: <http://
www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=240810#>. Acesso em: 1 maio 2012.

82 83
5.3 Resumo

A “radiografia geral” dos 110 postos de combustíveis da cidade de


Natal-RN mostrou o real estado das várias instalações e os vazamentos
encontrados durante os testes de estanqueidade nos tanques e tubulações.
Os números finais foram preocupantes em muitos aspectos relacionados
ao potencial poluidor da atividade de revenda de combustíveis.
Os dados colhidos durante as perícias justificaram plenamente a
investigação conduzida pelo Ministério Público para posterior implantação
do projeto de “Adequação dos Postos de Combustíveis na Cidade de Natal”
no sentido de garantir a qualidade da água da cidade através da proteção
do lençol freático. Dessa forma, a instalação de tanques e equipamentos
ecológicos em todos os postos de gasolina em operação foi o único caminho
para a adequação ambiental e, consequentemente, uma prática da atividade
de revenda de combustíveis de forma sustentável.

Quadro 5.5: Gráfico comparativo idade dos postos x idade dos tanques.
Fonte: Ministério Público/RN.

O destaque nesse gráfico é a região dos vales na região azul,


significando que alguns postos muito antigos efetuaram recentemente a
substituição dos seus tanques (últimos 05 anos). Finalmente, observa-se
nos picos em azul, nos trechos extrapolando a região verde, que alguns
poucos postos fizeram realocações ou adquiriram tanques usados.
Há uma previsão de mudança radical nesse gráfico do perfil da idade
dos tanques de armazenamento de combustíveis quando do término do
projeto de “Adequação ambiental de Postos de Combustíveis na Cidade de
Natal”. A mudança com certeza ocorrerá, pois todos os 349 tanques não
ecológicos serão desativados ou substituídos por novos tanques ecológicos
que também terão monitoramento intersticial obrigatório, além de controle
eletrônico de inventário.

84 85
6
Posto ilegal

Ângelo Roncalli de Oliveira Guerra1
Francisco de Assis de Oliveira Fontes2
José Correia Torres Neto3
Luis Guilherme Meira de Souza4

6.1 Principais desconformidades verificadas


pelos peritos do Ministério Público

Neste capítulo, são apresentadas as principais desconformidades


encontradas pelos peritos do Ministério Público quando da investigação dos
110 empreendimentos revendedores de combustíveis na cidade de Natal-
RN em 2009. O objetivo é apresentar de forma bem ilustrada com fotografias

1
Doutor pela University Of Manchester Institute Of Science And Technology em Engenharia
Mecânica, na Inglaterra, em 1996. Atualmente, é professor titular da UFRN na área de projetos
mecânicos.
2
Doutor em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 2003.
Atualmente, é professor Associado III da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
3
Mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 2012, e
Especialista em Gás Natural. Atualmente, é técnico de nível superior em assuntos educacionais da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
4
Doutor em Ciência e Engenharia de Materiais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte
em 2002. Atualmente, é professor associado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
a real situação dos postos de combustíveis focalizando o entendimento da do tipo classe 3 (Norma ABNT 13786), conclui-se que os tanques puramente
necessidade de adequação ambiental e de segurança. Dessa forma, este metálicos e/ou semimetálicos encontram-se em desconformidade com as
capítulo resume-se numa “radiografia” detalhada com registro fotográfico normas.
da situação encontrada naquele momento. O infográfico a seguir ilustra O gráfico da Figura 6.1 mostra que apenas 26% dos 473 tanques da
algumas desconformidades encontradas em um posto ilegal. cidade de Natal-RN estavam em conformidade com as normas no ano de
2009. Todos os outros 349 tanques (metálicos + semiecológicos) precisaram
ser removidos e, cuidadosamente, encaminhados para uma destinação
ambientalmente correta.

Infográfico 6.1: Algumas desconformidades encontradas em um posto ilegal.


Fonte: Ministério Público/RN

6.2 Desconformidades na área de


armazenamento de combustíveis Figura 6.1: Percentual de tanques não ecológicos (metálicos + semiecológicos) em 2009.
Fonte: Ministério Público/RN
As primeiras desconformidades foram observadas na área de
recebimento e armazenamento de combustíveis, também conhecida como O estado de corrosão dos tanques puramente metálicos já removidos
“área de tancagem”. Já foi mencionado o elevado número de tanques até maio/2012 mostrou a importância da ação do Ministério Público no
simples (315 unidades puramente metálicos) presente nos postos de sentido de promover a adequação ambiental de todos os postos. A Figura
gasolina da cidade de Natal. Considerando que os tanques representam o 6.2 ilustra o grau de corrosão de um tanque simples metálico bastante
principal componente de um Sistema de Armazenamento Subterrâneo de antigo com cerca de 7,5 metros de comprimento (40 anos soterrado),
Combustível (SASC) e que todos os postos da cidade são empreendimentos denominado de “charutão”.

88 89
A Figura 6.4 ilustra outro tanque simples cuja presença de furos foi
vedada por pequenos tampões de madeira afixados ao longo do seu costado
superior. Esse tanque também foi removido com o acompanhamento dos
peritos do Ministério Público.

Tampão de madeira
vedando furo
em tanque metálico

Figura 6.2: Grau de corrosão de um tanque simples (metálico) do tipo “charutão”.


Fonte: Ministério Público/RN

A Figura 6.3 ilustra mais de perto o grau de corrosão da chapa


metálica na altura do costado inferior esquerdo e logo abaixo da geratriz
do tanque, inclusive com fortes indícios de vazamentos, os quais foram
ratificados na investigação de passivo ambiental.
Figura 6.4: Furo no costado superior de um tanque simples (metálico).
Fonte: Ministério Público/RN

Na área de armazenamento, também foram encontradas


desconformidades relativas ao piso da área de tancagem, principalmente
no que diz respeito à ausência de piso de concreto impermeável. Quase
74% dos postos falharam nesse ponto. O piso na área dos tanques não pode
ser feito em paralelepípedo, nem em cimento comum nem diretamente no
solo. As Figuras 6.5 e 6.6 ilustram áreas de tancagem em paralelepípedo e
Figura 6.3: Grau de corrosão de um tanque simples (metálico) removido em 2009. diretamente no solo (área gramada).
Fonte: Ministério Público/RN

90 91
Outra não conformidade bastante comum observada na área de
tancagem foi a falta de canaletas contornando os tanques e/ou canaletas
danificadas. O percentual de não conformidade nesse item ultrapassou os
87% dos postos de gasolina da cidade. A Figura 6.7 ilustra uma área de
tancagem sem canaletas.

Figura 6.5: Piso da área de tancagem não conforme em paralelepípedo.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.7: Piso da área de tancagem não conforme sem canaletas.


Fonte: Ministério Público/RN

Uma das mais graves não conformidades observadas na área dos


tanques foi a ausência de válvulas antitransbordamento nos tubos de
descarga dos tanques. Em 2009, nenhum posto de gasolina da cidade de
Natal-RN possuía a válvula. A Figura 6.8 ilustra 03 tubos de enchimento de
tanque desprovido de válvula antitransbordamento.

Figura 6.6: Piso da área de tancagem não conforme com tanques diretamente no solo.
Fonte: Ministério Público/RN

92 93
Além disso, a área de tancagem apresenta piso em paralelepípedo, em vez
de concreto impermeável.

Figura 6.8: Tubos de enchimento de tanques sem válvulas antitransbordamento.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.9: Descarga de tanque não conforme pela ausência de spills e bocal selado.
O recebimento de combustíveis sempre significa um momento Fonte: Ministério Público/RN
crítico na operação de qualquer posto de gasolina. Além dos riscos
e perigos inerentes à atividade, existe também grandes chances de Outro componente importante da área de armazenamento é o respiro
ocorrer derramamentos e acidentes ambientais no ato do recebimento de de um tanque. Os respiros precisam de um cuidado especial através da
combustível proveniente do caminhão-tanque. instalação de acessórios (válvula de recuperação de vapores) para evitar
Os spills de descarga e sumps montados nas câmeras de calçada poluição ambiental e devem ser protegidos com mureta de concreto para
(porta de visita dos tanques ecológicos) são recipientes com a função de evitar colisões de veículos. As Figuras 6.10 e 6.11 adiante mostram não
conter os derramamentos junto à descarga. O elevado número de tanques conformidades dos respiros pela ausência de válvula de recuperação de
não ecológicos já explica as desconformidades encontradas pela ausência vapores e inexistência da mureta de proteção.
desses itens. Os peritos identificaram essa não conformidade em todos os
postos possuidores de tanques metálicos.
A Figura 6.9 ilustra um exemplo de boca de descarga (recebimento)
de combustível de um tanque desconforme pela ausência de recipientes
de contenção (spills) e também pela ausência de selos no respectivo bocal.

94 95
As Figuras 6.12 e 6.13 adiante mostram não conformidades dos
respiros quanto ao aspecto da segurança. No primeiro caso, observam-se
duas tubulações de respiros de tanques dentro da coluna de sustentação e
liberando vapores inflamáveis embaixo da cobertura contendo rede elétrica
exposta. Na Figura 6.13, observa-se uma distância inferior a 1,5 metros
entre os respiros e a rede elétrica de alta tensão.

Duas tubulações
de respiro de tanques
liberando vapores

Figura 6.10: Respiros sem mureta de proteção contra abalroamentos.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.12: Respiros liberando vapores embaixo da cobertura.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.11: Respiros sem válvula de recuperação de vapores. Figura 6.13: Respiros muito próximos de rede elétrica de alta tensão.
Fonte: Ministério Público. Fonte: Ministério Público/RN

96 97
Finalmente, também foi possível obsevar desconformidades nas
tubulações entre tanques e bombas. As tubulações metálicas encontradas
na grande maioria dos postos de gasolina sofrem com o ataque corrosivo,
que causa furos e vazamentos para o solo. As Figuras 6.14 e 6.15 ilustram
algumas desconformidades encontradas durante as perícias. Destaca-se
nessas figuras a corrosão das linhas metálicas acima da porta de visita dos
tanques. Já a Figura 6.16 mostra furos em uma tubulação causados também
pelo alto grau de corrosão.

Figura 6.15: Tubulações metálicas vazando em câmara de calçada sem contenção.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.14: Tubulações metálicas com elevado grau de corrosão na câmara de calçada.
Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.16: Tubulação metálicas corroídas e com furos causando vazamentos.


Fonte: Ministério Público/RN

98 99
6.3 Desconformidades na pista de abastecimento

Foram muitas as desconformidades encontradas na pista de


abastecimento. A primeira delas refere-se à ausência de piso de concreto
impermeável e canaletas. A Figura 6.17 ilustra a situação supracitada. Os
danos em canaletas são ilustrados na Figura 6.18 adiante.

Figura 6.18: Desconformidade nas canaletas amassadas e danificadas


Fonte: Ministério Público/RN

Ficou muito claro durante as perícias que a mera existência de


canaletas em si não denota que o posto de gasolina esteja ambientalmente
adequado no que se refere ao item específico. A Figura 6.19 ilustra uma
situação encontrada na cidade de Natal em que a pista de abastecimento,
Figura 6.17: Posto de abastecimento com piso em paralelepípedo e sem canaletas. apesar de construída utilizando concreto impermeável e também
Fonte: Ministério Público/RN circundada por canaletas, possuía uma extensão direcionando os efluentes
para a via pública, poluindo o meio ambiente. Esse fato mostra total
desconhecimento da finalidade do item e/ou tentativa de maquiagem. O
efluente deveria ser direcionado para uma caixa Separadora de Água e
Óleo (SAO). A ausência de caixas SAO foi uma desconformidade muito
séria detectada durante as perícias. A Figura 6.20 ilustra mais um exemplo
dessa desconformidade, com os efluentes indo para o bueiro.

100 101
Em muitas situações periciadas na cidade de Natal-RN, verificou-
se que o piso da pista de abastecimento havia sido construído utilizando
material inapropriado e/ou se encontrava parcialmente danificado. Esse
Canaletas
fato retira sua característica principal desejável de impermeabilidade
despejando efluentes facilitando a poluição em caso de derramamentos. As Figuras 6.21 e 6.22
na via pública ilustram os casos supracitados. Muitas dessas situações ocorrem quando
não se seguem as normas da ABNT e/ou as instruções do Departamento de
Estradas de Rodagem (DER) e Departamento Nacional de Infraestrutura
de Transportes (DNIT) quanto à capacidade de carga que o piso deve
suportar em função do peso dos veículos que trafegam na pista (carros,
ônibus, caminhões etc.). Também costuma acontecer quando o tempo de
cura (secagem correta) do concreto não é repeitado após sua construção.

Figura 6.19: Não conformidades das canaletas despejando efluentes na via pública.
Fonte: Ministério Público/RN

Canaletas
despejando Efluentes
para um bueiro

Figura 6.21: Piso desconforme devido a danos/ material e espessura inadequada.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.20: Outro exemplo de canaletas despejando efluentes para bueiro.


Fonte: Ministério Público/RN

102 103
Vazamento de Diesel
p/ o solo e lençol

Figura 6.23: Bomba desconforme montada direto no solo sem contenção (sump).
Figura 6.22: Piso apresentando várias trincas e com canaletas danificadas.
Fonte: Ministério Público/RN
Fonte: Ministério Público/RN

Na inspeção das bombas de combustível da área de abastecimento,


foram detectadas várias irregularidades. A mais comum e mais séria
foi a ausência de câmeras de contenção (sumps de bomba) nas ilhas
correspondentes. As Figuras 6.23 e 6.24 ilustram bombas instaladas
diretamente no solo e apresentando vazamentos. Ressalta-se que nas
investigações dos 110 postos raramente abria-se uma bomba de Diesel
sem que os peritos não encontrassem algum tipo de vazamento. O fato
sugere inclusive a necessidade de pesquisas para melhorias tecnológicas
dos componentes de bombas de Diesel, em particular, e novos materiais
para melhor atuar com o tipo de combustível.

Figura 6.24: Uso incorreto de brita para fazer o papel de contenção (sump) na bomba.
Fonte: Ministério Público/RN

104 105
Além dos vazamentos detectados devido a instalações não ecológicas 6.4 Desconformidades relacionadas à segurança em geral
(vide tubulação da Figura 6.25), também foram detectados vazamentos
devido a danos e/ou instalação de itens ecológicos de forma incorreta. A atividade de revenda de combustível exige uma atenção toda es-
Exemplo disso pode ser visto na Figura 6.26, que mostra um boot danificado pecial com a questão da segurança. As normas da ABNT servem de guias
e vazamento de Diesel contido no sump da bomba. importantes para que se tenha uma operação segura e sem acidentes am-
bientais e/ou envolvendo recursos humanos. Há itens básicos de segurança
que não podem ser negligenciados e que durante as perícias realizadas em
Natal-RN receberam maior atenção por parte do Ministério Público.
Pingo de combustível
Em vários postos na cidade de Natal-RN, foram observadas
na tubulação
desconformidades na região próxima às bombas de combustível, que
é classificada como área de risco de explosão. Por exemplo, em vez de
tubulações à prova de explosão, foram encontrados conduítes (residenciais)
comuns nos sumps de bombas apresentando alto risco de explosão. A
Figura 6.27 ilustra as desconformidades mencionadas.

Figura 6.25: Tubulação metálica vazando diretamente da conexão para o solo.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.26: Boots danificados e vazamento de Diesel retido no sump da bomba. Figura 6.27: Conduítes comuns em vez de tubos à prova de explosão no sump da bomba.
Fonte: Ministério Público/RN Fonte: Ministério Público/RN

106 107
Novamente durante as perícias, foram verificadas situações de
desconformidades relacionadas às instalações elétricas em que um ou outro
item de segurança se encontrava instalado de forma incorreta, denotando Tomadas elétricas
pleno desconhecimento da manutenção. Por exemplo, verifica-se na Figura comuns próximas
6.28 uma unidade de selagem (item de segurança à prova de explosão às bombas
que dificulta contato com oxigênio) completamente aberta, facilitando a
entrada de comburente (oxigênio) e junto a conduítes comuns. A Figura
6.29 ilustra a presença de tomadas elétricas comuns a menos de 5 metros
de uma bomba de combustível.

Figura 6.29: Tomadas elétricas comuns a menos de 5 metros de uma bomba.


Fonte: Ministério Público/RN

Uma situação muito comum e de alto risco encontrada nos postos da


cidade de Natal-RN, que não difere da grande maioria das cidades brasileiras,
foi a presença de freezers para a venda de gelo, picolés, refrigerantes
etc. localizadas nas ilhas das bombas. As tomadas para alimentar esses
Unidade
equipamentos muito raramente eram antiexplosivas, conforme exigido
de Selagem pelas normas. A Figura 6.30 ilustra uma situação de risco nas ilhas das
aberta bombas pela ligação de freezer em extensão no piso. Igualmente, ilustra-
se na Figura 6.31 um televisor ligado em tomada no piso e a menos de 5
metros das bombas.
Figura 6.28: Unidade de selagem sem bujão e fixada com conduítes comuns no sump.
Fonte: Ministério Público/RN

108 109
Algo que chamou bastante a atenção dos peritos foi o elevado
número de irregularidades relativas às instalações elétricas em geral.
Verificou-se a presença incorreta de muitas tomadas afixadas no piso
das ilhas e próximas às bombas sem que fossem à prova de explosão.
Soma-se a isso o péssimo estado de conservação dos fios muitas vezes
já desencapados. Vários aterramentos inadequados ou ausentes também
foram encontrados pelos peritos. A Figura 6.32 ilustra o estado de uma
caixa elétrica no piso de um posto e a Figura 6.33 ilustra um aterramento
de bomba totalmente solto.

Figura 6.30: Freezer ligado em tomadas elétricas comuns e próximas às bombas.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.32: Caixa elétrica exposta no piso de um posto e próxima às bombas.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.31: Televisor ligado em tomadas elétricas comuns no piso e próximas às bombas.
Fonte: Ministério Público/RN

110 111
Com relação aos postos da cidade que comercializavam o GLP (gás
de cozinha), em 2009 a principal desconformidade foi a proximidade das
“gaiolas” de armazenamento dos botijões de pontos elétricos. A Figura 6.35
ilustra bem essa situação.

Figura 6.33: Aterramento de uma bomba completamente solto.


Fonte: Ministério Público/RN

Além da desconformidade referente à ausência de para-raios em


quase totalidade dos postos de gasolina da cidade de Natal-RN, também
foram encontrados vários extintores vazios e/ou fora da validade,
reforçando o dado de que apenas 16 postos possuíam o “habite-se” do
Corpo de Bombeiros. A Figura 6.34 mostra um exemplo de extintor sem
carga que foi periciado.
Figura 6.35: “Gaiola” dos botijões de GLP muito próxima ao poste da rede elétrica.
Fonte: Ministério Público/RN

Havia, em Natal-RN, 36 postos revendendo Gás Natural Veicular


(GNV). A desconformidade mais comum encontrada foi o teste de
estanqueidade vencido ou, até mesmo, nunca realizado. Quanto a questões
de integridade e segurança, a desconformidade mais comum foi referente à
calibração vencida das válvulas PSV (Pressure Safety and Relief Valve, ou seja,
Válvula de Segurança e Alívio de Pressão). Essas válvulas aliviam o sistema
em caso de uma súbita elevação da pressão evitando acidentes por explosões
etc. As Figuras 6.36 e 6.37 ilustram exemplos representativos do estado das
Figura 6.34: Exemplo de extintor descarregado encontrado durante as perícias. válvulas PSVs encontradas em vários postos de revenda de gás natural.
Fonte: Ministério Público/RN

112 113
Também foram constatados pontos de corrosão nos vários elementos que 6.5 Outras desconformidades encontradas
compõem as estações GNV (bicos, flanges, compressores etc.).
Um posto de gasolina pode oferecer vários outros serviços além
do simples abastecimento de veículos (troca de óleo, lavagem etc.).
Tanto a troca de óleo lubrificante como a lavagem de veículos são
atividades potencialmente poluidoras. Muitas foram as desconformidades
encontradas nos lava a jato dos postos da cidade de Natal-RN. Problemas
com piso inadequado, ausência de canaletas, ausência de caixa SAO e caixa
de areia etc. Todos os 57 lava a jato operando apresentaram uma ou mais
das desconformidades supracitadas. A Figura 6.38 é representativa do
estado da grande maioria dos lava a jato de Natal-RN em 2009.

Figura 6.36: Incrustações obstruindo uma válvula PSV de uma instalação de GNV.
Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.38: Estado geral dos lava a jato nos postos de combustíveis.
Fonte: Ministério Público/RN

As Figuras 6.39 e 6.40 adiante ilustram alguns casos preocupantes


periciados em 2009 referentes ao serviço de troca de óleo. Na primeira foto,
Figura 6.37: Estado de uma sede de válvula PSV instalada em um posto de GNV.
temos valas de troca inadequadas e na segunda foto temos a ilustração de
Fonte: Ministério Público/RN uma rampa de troca de óleo que também funcionava como lava a jato.

114 115
Outra desconformidade relacionada ao óleo lubrificante usado (óleo
queimado) foi sua forma de armazenamento. Quase nenhum posto tinha
tanque ecológico para o armazenamento de óleo lubrificante (OL) na
cidade de Natal-RN. Vários postos utilizavam tambores de 200 litros ou
tanques antigos de aço comum de 15000 litros para essa tarefa. Três casos
críticos de interdição de tanque de óleo lubrificante foram registrados em
2009. Um deles feito em alvenaria e azulejo comum (piscina) está ilustrado
na Figura 6.41 adiante.

Figura 6.39: Exemplo de duas valas de troca de óleo inadequadas.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 6.41: Tanque em alvenaria e azulejo comum para armazenar OL.


Fonte: Ministério Público/RN

Os maiores problemas com o armazenamento em tambores de 200


litros ficaram restritos ao local de armazenamento inapropriado. A Figura
6.42 ilustra o armazenamento em tanques de 200 litros ao relento.
Figura 6.40: Exemplo de rampa mista de troca de óleo e lavagem inadequada.
Fonte: Ministério Público/RN

116 117
Finalmente, a Figura 6.44 ilustra um colapso na estrutura metálica
que suporta a cobertura dos postos devido ao elevado grau de corrosão do
sistema.

Figura 6.42: Tambores de óleo usado exposto ao relento.


Fonte: Ministério Público/RN

O lixo produzido no serviço de troca de óleo (vasilhames, estopas


etc.) quase sempre estava misturado ao lixo comum. Esse material é
considerado resíduo perigoso e, portanto, precisa ter a destinação correta.
Vários postos em 2009 ainda não davam a destinação correta a esse lixo.

Figura 6.44: Desabamento da cobertura, consequência da corrosão na estrutura.


Fonte: Ministério Público/RN

6.5.1 Desconformidades devido a vazamentos em


geral detectados pelos testes de estanqueidade

De uma maneira bem simplificada e resumida, pode-se definir que o
teste de estanqueidade é uma averiguação realizada em recipientes fechados
que atenta para os vazamentos existentes. Esses testes são aplicados, por
exemplo, em tanques de armazenamento e em tubulações de transporte
de substâncias líquidas ou gasosas. Os resultados apresentados pelos
Figura 6.43: Vasilhames de OL e estopas misturadas ao lixo comum. testes confirmam se há, ou não, vazamentos nos recipientes, porém, não
Fonte: Ministério Público/RN

118 119
garantem sua resistência aos ataques corrosivos e às consequências de
choques mecânicos.
O teste de estanqueidade é realizado em diversas situações onde se
deseja garantir a adequada estabilidade de volume no momento em que Tanque vazando
um sistema entra em operação, como também durante todo o seu processo 444ml/h
de atuação, incluindo as novas paradas e as novas partidas.
Na realização dos testes de estanqueidade nos tanques na cidade
de Natal, foram detectados vazamentos e interditados 34 tanques, o
equivalente a 7% do total de tanques da cidade. Os tanques interditados
apresentavam um vazamento médio de 12 litros/dia e o maior vazamento
foi em um posto no bairro da Ribeira com, aproximadamente, 14 litros/dia.
Considerando um ano de 360 dias e o vazamento de 12 litros por
dia, totalizam-se 4.320 litros/dia de combustível espalhados no solo e,
provavelmente, no lençol freático. E, no conjunto dos 34 tanques com essa
mesma capacidade, o montante anual de vazamento evitado foi de 146.880
litros/ano. Figura 6.45: Resultado de um teste de estanqueidade em que foi detectado vazamento.
A investigação se estendeu às tubulações de transporte de combustível Fonte: Ministério Público/RN
e concluiu que apenas 1 posto, dos 110 averiguados, apresentou suas
tubulações sem vazamentos. A Figura 2.45 ilustra o resultado de um teste Admitindo-se uma única gota de vazamento de 3ml/minuto
de estanqueidade da parte liquida de um tanque de Diesel em que foi no conjunto das tubulações de cada posto em que houve vazamento
detectado vazamento. Esse foi um dos 34 tanques interditados em 2009. comprovado – no caso da cidade de Natal foram 109 postos vazando
pelas tubulações –, totalizaria em um ano o volume de 169.517 litros de
combustível lançados no meio ambiente.
A Figura 6.46 ilustra a sonda realizadora do teste de estanqueidade
instalada na porta de visita de um tanque.

120 121
Finalmente, pode-se afirmar que a ação do Ministério Público evitou
lançar um total de 316.397 litros de combustível – gasolina, álcool e óleo
diesel – por ano no solo, no aquífero da cidade de Natal-RN e nos seus
corpos d’água.

6.5.2 Desconformidades devido à ausência de


planos de manutenção e despreparo dos frentistas

De um modo geral, os postos de revenda de combustíveis


investigados na cidade de Natal-RN em 2009 apresentavam uma estrutura
de funcionamento bastante precária em vários aspectos. Poucos postos
tinham equipamentos ecológicos e, quando os tinham, encontravam-
se instalados de forma incorreta ou mesmo inoperantes pela falta de
Figura 6.46: Equipamento (sonda) utilizado para o teste de estanqueidade.
Fonte: Ministério Público/RN manutenção ou treinamento de funcionários. A perícia encontrou até
mesmo caixas separadoras de água e óleo montadas de maneira invertida
A Figura 6.47 ilustra o teste da parte seca de outro tanque e suas (entrada/saída trocadas).
tubulações do SASC (nesse caso, não houve vazamento). A linha em amarelo Na realidade, nenhum posto apresentou, nem mesmo em papel,
do gráfico aproxima-se de uma constante, indicando não haver vazamento. um plano de manutenção ou de gestão ambiental adequado. Ficou nítido
o despreparo dos empregados para atender situações de emergências
e incidentes ambientais. A maioria dos empregados sequer conhecia
a localização do quadro elétrico do posto para desligá-lo em caso de
incêndio, e apenas 12 postos dos 110 investigados estavam com o “habite-
se” do Corpo de Bombeiros dentro da validade.
Finalmente, verificou-se que cerca de 90% dos frentistas também não
sabiam operar extintores e/ou desconheciam por completo a finalidade
de equipamentos básicos de proteção ambiental. O estado dos vários
Aprovado no teste de equipamentos nos postos investigados demonstrou que nem mesmo
estanqueidade pela algumas operações básicas de limpeza eram executadas regularmente. As
manutenção de vácuo teias de aranha e o estado da correia das bombas, apresentadas nas Figuras
6.48 e 6.49, ilustram bem a ausência de manutenção básica identificada
durante as perícias.
Figura 6.47: Teste de estanqueidade da parte seca e tubulações do SASC.
Fonte: Ministério Público/RN

122 123
7
Posto legal ou ecológico

Ângelo Roncalli de Oliveira Guerra1
Francisco de Assis de Oliveira Fontes2
José Correia Torres Neto3
Luis Guilherme Meira de Souza4


Figura 6.48: Correia da bomba prestes a romper por falta de manutenção.
Fonte: Ministério Público/RN

7.1 Conjunto de equipamentos e instalações exigidos para


adequação ambiental: posto legal ou posto ecológico

Neste capítulo, serão apresentados os principais equipamentos


e instalações necessários para que um posto de revenda de combustível
esteja em conformidade com as atuais normas técnicas de engenharia
(Normas da ABNT). Ao longo do capítulo, serão ilustrados todos os

1
Doutor pela University Of Manchester Institute Of Science And Technology em Engenharia
Mecânica, na Inglaterra, em 1996. Atualmente, é professor titular da UFRN na área de projetos
mecânicos.
2
Doutor em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 2003.
Atualmente, é professor Associado III da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
3
Mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 2012, e
Especialista em Gás Natural. Atualmente, é técnico de nível superior em assuntos educacionais da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Figura 6.49: Teias de aranha no recipiente de contenção da bomba (sumps). 4
Doutor em Ciência e Engenharia de Materiais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Fonte: Ministério Público/RN em 2002. Atualmente, é professor associado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

124
componentes ecológicos capazes de proteger o empreendimento contra contra vazamentos e derramamentos e o segundo (Quadro 7.2) relaciona
vazamentos, derramamentos, transbordamentos, poluição atmosférica as normas de proteção utilizadas para a adequação de postos de revenda
e, finalmente, serão descritas algumas ações importantes objetivando de combustíveis aplicadas na proteção contra transbordamento, contra
a redução de riscos de acidentes. O infográfico da Figura 7.1 ilustra poluição atmosférica e redução de riscos de acidentes.
alguns equipamentos ecológicos encontrados em um posto legal ou Na cidade de Natal, ganham especial relevo as normas NBR
ambientalmente adequado. 13786/2009 e 13781/2009 que determinam que os tanques dos postos das
cidades que utilizam o aquífero para abastecimento público de água devem
ser obrigatoriamente ecológicos (tanques de parede dupla), também
conhecidos como tanques jaquetados.
Os tanques de parede dupla possuem dois revestimentos: a parede
interna, de aço-carbono e a parede externa, de material não metálico. Entre
elas há um sistema de controle de vazamento denominado Monitoramento
Intersticial. O controle é realizado por um sensor interligado a um
computador, que avisa quando ocorrem vazamentos da parte metálica para
a jaqueta de proteção.
Assim, o Ministério Público passou a exigir dos postos de
combustíveis de Natal a substituição dos tanques metálicos de parede
simples (tradicionais) pelos jaquetados ecológicos, bem como a instalação
do Monitoramento Intersticial e controle eletrônico de estoque.

A seguir encontram-se o Quadro 7.1, que contém o resumo das


Infográfico 7.1: Equipamentos ecológicos encontrados em um posto legal.
normas técnicas expedidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas
Fonte: Ministério Público/RN (ABNT), utilizadas para a adequação de postos de revenda de combustíveis
aplicadas nas proteções contra vazamentos e derramamentos, e o Quadro
7.2, com o resumo das normas técnicas expedidas também pela ABNT,
7.2 Referências normativas aplicadas na adequação dos utilizadas para a adequação de postos de revenda de combustíveis aplicadas
postos de revenda de combustíveis na proteção contra transbordamento, contra poluição atmosférica e
redução de riscos de acidentes.
Várias normas da ABNT foram utilizadas como referências para a
adequação dos postos de revenda de combustível da cidade de Natal-RN. A
seguir, são apresentados dois quadros que relacionam as referidas normas.
O primeiro (Quadro 7.1) relaciona as normas aplicadas na proteção

126 127
Página ao lado: Quadro 7.1.
Nesta página: Quadro 7.2.
Fonte: Ministério Público

128 129
7.3 Equipamentos para proteção contra vazamentos O segundo componente para proteção contra vazamentos é ilustrado
na Figura 7.3 adiante. Corresponde a uma seção de linha subterrânea de
O primeiro importante componente mecânico de proteção contra combustível em PEAD (Polietileno da Alta Densidade) equipada com liner
vazamento é uma válvula de retenção específica, também conhecida como (material de reforço na cor verde). Esse tipo de tubulação não-metálica
check-valve. Esse dispositivo mecânico deve ser instalado na linha (tubo) é considerada impermeável, apresenta boa flexibilidade, boa resistência e,
de sucção da bomba de combustível de forma a manter continuamente diferentemente da tubulação tradicional fabricada em aço, ela não sofre o
uma pressão negativa interna na linha supracitada. Dessa forma, mesmo na processo de corrosão que geralmente ocasiona furos e vazamentos.
eventualidade da ocorrência de furos na tubulação entre tanque e bomba, o
combustível sempre retornará ao tanque evitando que vazamentos atinjam
o solo e, em seguida, o lençol freático.
Ressalta-se que a inexistência de check-valves ou a presença das
antigas válvulas extratoras (também conhecidas como válvulas de pé) são
desconformidades que permitem os vazamentos atingirem o solo, caso
ocorram furos nas tubulações de sucção de combustível. A Figura 7.2 ilustra
uma bomba de combustível contendo o componente ecológico check-valve
instalado na linha de sucção entre tanque e bomba.

Figura 7.3: Tubulação não-metálica em PEAD que impede vazamentos.


Fonte: Ministério Público/RN

Na sequência, o próximo equipamento que deve ser instalado para


proteção contra vazamentos corresponde à câmara de contenção das
unidades de abastecimento (também conhecido como sump de bomba).
A Figura 7.4 ilustra uma bomba equipada com a câmera de contenção em
PEAD que foi instalada na parte inferior (recipiente na cor verde) e que é
Figura 7.2: O componente Check-Valve, que evita vazamentos para o solo. responsável por reter qualquer vazamento proveniente da bomba.
Fonte: Ministério Público/RN

130 131
Sump
de
bomba

Figura 7.5: Sump (recipiente azul) instalado no filtro de Diesel para conter vazamentos.
Fonte: Ministério Público/RN

Um equipamento considerado de fundamental importância no SASC


é o tanque de armazenamento de combustível. Para evitar vazamentos
e atender a norma NBR 13786/2009 para postos da classe 3 (postos de
cidades que usam água do lençol para abastecimento), o tanque precisa ser
de parede dupla com interstício ou jaquetado (também conhecido como
Figura 7.4: Bomba equipada com sump (reservatório) para contenção de vazamentos. tanque ecológico), fabricado conforme norma NBR 13.785/2003.
Fonte: Ministério Público/RN Didaticamente, o tanque jaquetado de parede dupla pode ser
entendido como sendo uma composição de 02 tanques agrupados em
um único bloco: um primeiro tanque metálico de menor diâmetro feito
De forma similar, faz-se necessário instalar câmara de contenção nas em aço carbono ASTM A-36 é inserido em um segundo tanque de maior
unidades de filtragem de Diesel. A Figura 7.5 ilustra um sump instalado no diâmetro não-metálico feito em resina termofixa reforçada com fibra de
filtro de Diesel. vidro laminada.
A Figura 7.6 ilustra então um tanque jaquetado de parede dupla
(ecológico), onde é possível visualizar apenas a parte externa da composição

132 133
(fibra na cor alaranjada). A parte interna correspondente ao tanque metálico
não é visível. O pequeno tanque em destaque no canto superior esquerdo é
para o armazenamento de óleo lubrificante.

Figura 7.7: Tanques ecológicos soterrados em fase de instalação.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 7.6: Tanques jaquetados de parede dupla aguardando o momento da instalação. O espaço anular (vazio) entre os dois tanques dessa composição é
Fonte: Ministério Público/RN chamado de “interstício” e precisa ser monitorado por sensores eletrônicos
ligados a um equipamento que produz alarme sonoro nos casos de
Nessa composição ecológica, o tanque externo não-metálico de fibra presença de líquido na jaqueta, indicando vazamento. Esse equipamento
(maior diâmetro) funciona como jaqueta protetora do tanque interno que monitora vazamentos nos interstícios dos tanques, sumps de bombas,
metálico (menor diâmetro). O combustível é armazenado apenas no tanque sumps de filtro Diesel e câmara de calçada, também é um item exigido pelas
interno de metal e, caso haja algum vazamento, o líquido escoa e cai no normas para adequação ambiental. A Figura 7.8 ilustra um exemplo de
tanque externo de fibra (jaqueta). Essa é a justificativa para a nomenclatura equipamento específico para monitorar vazamentos.
“jaquetado”. Essa jaqueta de fibra também funciona protegendo o tanque
metálico interno do ataque corrosivo do solo. A Figura 7.7 ilustra dois
tanques ecológicos em fase de instalação e com as jaquetas já soterradas.

134 135
A Figura 7.10 ilustra um exemplo de equipamento contemplando
duas funcionalidades: monitoramento de vazamentos e controle de estoque
eletrônico.

Figura 7.8: Equipamento para o monitoramento eletrônico de vazamentos.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 7.10: Equipamento para o controle eletrônico de estoque e/ou vazamentos.


Fonte: Ministério Público/RN

7.4 Equipamentos para proteção contra derramamentos

No processo de adequação ambiental, a norma da ABNT NBR


13786/2009 exige algumas instalações e equipamentos para funcionarem
como mecanismos de proteção contra derramamentos de combustíveis.
Entre os itens da lista de adequação, citam-se as obras civis de construção da
Figura 7.9: Equipamento específico para o controle de estoque eletrônico. pista de abastecimento e área de descarga feitas em concreto impermeável
Fonte: Ministério Público/RN circundadas por canaletas e interligadas ao sistema de drenagem oleosa. As

136 137
Figuras 7.11 e 7.12 ilustram pisos em concreto impermeável circundados
por canaletas com a finalidade de impedir que os derramamentos de
combustíveis atinjam o subsolo e lençol freático.

Figura 7.12: Piso da área dos tanques em concreto impermeável circundado por canaletas.
Fonte: Ministério Público/RN

Ainda de acordo com a norma NBR 13786, também são exigidas


Figura 7.11: Piso do abastecimento em concreto impermeável circundado por canaletas. canaletas de contenção circundando as áreas de troca de óleo, de lavagem,
Fonte: Ministério Público/RN de compressão GNV, de geradores elétricos e de compressores de ar
comprimido das borracharias. A Figura 7.13 ilustra um compressor da
borracharia montado em área impermeável circundada por canaletas e a
Figura 7.14 ilustra adequações similares de uma área de lavagem.

138 139
Os derramamentos também devem ser evitados pela instalação de
câmaras de contenção impermeável na boca-de-visita dos tanques (sumps
da câmara de calçada). Um sump de câmera de calçada está ilustrado na
Figura 7.15 (recipiente na cor azul).

Figura 7.13: Compressor da borracharia em área impermeável circundado por canaletas.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 7.15: Sump instalado na boca-de-visita dos tanques.


Fonte: Ministério Público/RN

As mangueiras das bombas de abastecimento podem ser


inesperadamente rompidas ocasionando derramamentos de combustível
na pista. O equipamento que impede os eventuais derramamentos
ocasionados por rompimento das mangueiras de abastecimento é o
breakaway. Exemplo de válvulas breakaway é ilustrado na Figura 7.16.

Figura 7.14: Área de lavagem em concreto impermeável circundada por canaletas.


Fonte: Ministério Público/RN

140 141
Placas
coalescentes

Breakaway

Figura 7.16: Válvulas Breakaways instaladas nas mangueiras das bombas de combustível. Figura 7.17: Caixa SAO equipada com placas coalescentes
Fonte: Ministério Público/RN Fonte: Ministério Público/RN

Todo o conjunto de equipamentos utilizado para realizar proteção O fluido oleoso separado contendo hidrocarbonetos deve ser
contra derramamento direciona os líquidos contaminantes para o sistema transportado por empresa licenciada para esse fim. A Figura 7.18 ilustra
de drenagem de oleosos. O equipamento responsável pela purificação do uma transportadora com sinalização adequada ao transporte de resíduos
fluido oleoso (água + hidrocarbonetos) é a caixa Separadora de Água e da caixa SAO.
Óleo (SAO), que deve ser fabricada em PEAD e conter placas coalescentes
para acelerar o processo de decantação. A Figura 7.17 ilustra uma caixa
SAO e suas placas coalescentes. Após a separação, a água limpa obtida
poderá ser lançada em sumidouro.

142 143
para reter pequenos transbordamentos. A Figura 7.20 ilustra um dispositivo
completo de descarga selada com engate rápido.

Figura 7.18: Sinalização adequada ao transporte de resíduos da caixa SAO.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 7.19: Spill container (azul) e bocal selado tipo Y para evitar transbordamentos.
7.5 Equipamentos para Proteção contra Transbordamento Fonte: Ministério Público/RN

Um posto ambientalmente adequado necessita instalar quatro equi-


pamentos básicos para proteção contra transbordamentos de combustível.
Os dois primeiros componentes ecológicos que exercem essa tarefa são
apresentados na Figura 7.19. O bocal selado no tubo de enchimento do
tanque (i.e., obstrução metálica central no formato de um Y) impede o uso
de mangueiras simples (sem engate rápido) pelo operador do caminhão-
tanque as quais podem provocar transbordamentos devido a folgas entre
o tubo de enchimento do tanque e a mangueira inapropriada. O segundo é
a câmara de contenção de descarga ou spill, que funciona como recipiente

144 145
Figura 7.20: Mangueira com joelho de engate rápido para descarga selada.
Fonte: Ministério Público/RN

Além da descarga selada, a norma NBR 13786 exige mais dois


componentes mecânicos que operam como válvulas de retenção
impedindo transbordamentos, a saber: válvula antitransbordamento no
tubo de enchimento do tanque (Figura 7.21) e válvula de esfera flutuante Figura 7.21: Válvula antitransbordamento montada no tubo de enchimento.
(float ball), que deve ser instalada na tubulação de saída para os respiros Fonte: Ministério Público/RN
na boca de visita dos tanques (Figura 7.22). Caso haja risco iminente de
transbordamento, a haste tipo boia bloqueia o tubo de enchimento e a
esfera fecha a saída para o respiro, evitando transbordamento.

146 147
combustível evaporado naturalmente do tanque acaba sendo condensado
pelo fechamento da válvula e retorna ao mesmo evitando, assim, a poluição
e perdas por evaporação. Essas válvulas só são automaticamente reabertas
por diferença de pressão durante o pequeno período correspondente à
operação de recebimento de combustível no posto.

Figura 7.22: Float Ball montada na saída para o respiro dos tanques.
Fonte: Ministério Público/RN

7.6 Equipamentos de proteção contra poluição atmosférica

O dispositivo completo de descarga selada já explanado no


item anterior tem dupla função. Além de servir de proteção contra
transbordamentos, também serve para proteger contra a poluição Figura 7.23: Válvulas de recuperação de vapores nos terminais de respiro dos tanques.
atmosférica. Isso acontece devido à ausência de folgas entre o joelho de Fonte: Ministério Público/RN
engate rápido e o tubo de enchimento, que acaba impedindo a emissão de
vapores de combustível para a atmosfera durante a operação de recebimento
de combustível através do caminhão tanque. 7.7 Equipamentos para a redução de riscos de acidentes
Entretanto, para garantir maior eficácia de proteção contra poluição
atmosférica, a norma NBR 13786 exige a instalação de válvulas de Faz-se necessário instalar primeiramente tubulações à prova de
recuperação de vapores na extremidade dos tubos dos respiros. A Figura explosão em todos os locais definidos como sendo “áreas classificadas”, em
7.23 ilustra esses componentes instalados nos respiros de tanques. Todo o particular, nas zonas onde há ocorrência de mistura inflamável/explosiva.

148 149
Destaca-se que essa exigência afeta regiões com um raio de 5 metros na
proximidade de qualquer bomba/tanque de combustível e também na
estação de GNV. Nenhuma tomada, mesmo que antiexplosiva, deve ficar
em uma altura inferior a 0,5 metros do piso das ilhas das bombas. As
Figuras 7.24, 7.25, 7.26 e 7.27 exemplificam alguns componentes elétricos
à prova de explosão que atendem as normas brasileiras para operação em
áreas classificadas nos postos de gasolina.

Figura 7.25: Chave liga-desliga à prova de explosão e unidade correspondente.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 7.24: Luminária antiexplosiva instalada na área de compressão do GNV.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 7.26: Tomada elétrica instalada a uma altura superior a 0,5 m.


Fonte: Ministério Público/RN

150 151
Unidade
seladora

Figura 7.28: Unidades seladoras do filtro Diesel.


Fonte: Ministério Público/RN

Figura 7.27: Unidades de selagem instaladas dentro do sump de bomba de combustível.


Fonte: Ministério Público/RN

Pelas mesmas razões, as normas brasileiras em vigor também exigem


que sejam instaladas unidades de selagem nas unidades de filtragem de
Diesel (vide Figura 7.28) e que seja feito o aterramento adequado dos
equipamentos e bombas de combustível, conforme exemplo ilustrado na
Figura 7.29 adiante.

Figura 7.29: Aterramento correto da bomba de combustível.


Fonte: Ministério Público/RN

152 153
As tubulações aéreas dos respiros dos tanques devem receber proteção Outra exigência refere-se à instalação de um ponto para descarga da
especial através de mureta de alvenaria para impedir abalroamentos de energia eletrostática proveniente dos caminhões-tanques e distante pelo
veículos, conforme ilustrado na Figura 7.30. menos 3m da tubulação de descarga dos tanques, conforme ilustrado na
Figura 7.31.

Figura 7.30: Mureta de proteção contra abalroamentos nos respiros. Figura 7.31: Ponto para descarga da energia eletrostática dos caminhões-tanques.
Fonte: Ministério Público/RN Fonte: Ministério Público/RN

154 155
8
Finalmente, deve-se instalar um Sistema de Proteção para Descargas
Atmosféricas (SPDA) com para-raios minimizando os riscos de explosão
em situações particulares de temporais nos dias chuvosos. A Figura 7.32
ilustra um para-raios instalado em um posto de combustível da cidade de
Natal-RN. Obviamente, outros itens, como a validade dos extintores, são
observados durante a vistoria realizada pelo corpo de bombeiros para a
emissão do habite-se do empreendimento.
Instalações para revenda de GNV

Ângelo Roncalli de Oliveira Guerra1
Francisco de Assis de Oliveira Fontes2

8.1 Sobre o Gás Natural

O Gás Natural é uma mistura de gases leves, constituído de


aproximadamente 90% do gás metano. É encontrado em abundância
na natureza, na maioria das vezes associado ao petróleo, podendo
também haver poços apenas de gás natural. Antes de ser distribuído
por gasodutos, o gás passa por uma unidade industrial denominada
Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN), na qual são
Figura 7.32: Para-raios instalado em um posto de combustível. retirados componentes condensáveis e mais pesados. O resultado desse
Fonte: Ministério Público/RN processamento é um combustível seco, limpo e extremamente leve, com
excelentes qualidades energéticas para consumo em veículos e indústrias.

1
Doutor pela University Of Manchester Institute Of Science And Technology em Engenharia
Mecânica, na Inglaterra, em 1996. Atualmente, é professor titular da UFRN na área de projetos
mecânicos.
2
Professor Dr. do Dpto. de Engenharia Mecânica-CT-UFRN. Consultor em Projetos Mecânicos,
Sistemas Termofluidos, Processos e Instalações Industriais.

156
No Brasil, a utilização do Gás Natural começou modestamente 8.3 Compressão do GNV
por volta de 1940, com as descobertas de óleo e gás na Bahia. Depois
de alguns anos, as bacias do Recôncavo Baiano, Sergipe e Alagoas Neste item, serão apresentadas informações e comentários relevantes
foram utilizadas quase em sua totalidade para a fabricação de insumos sobre o Gás Natural Veicular (GNV).
industriais e combustíveis, destinados para a refinaria Landulfo Alves e
o Polo Petroquímico de Camaçari-BA. O grande marco do Gás Natural 8.3.1 Aspectos gerais
foi definido com a exploração da Bacia de Campos, no Estado do Rio de
Janeiro, na década de 1980. O Gás Natural é distribuído na rede urbana a pressões que em média
Neste capítulo, são apresentados: um breve histórico sobre o GNV, a variam de 5 a 8 Bar. Para ser utilizado como combustível veicular, deve
legislação sobre postos de serviço de revenda de GNV, um descritivo das ser comprimido a pressões de abastecimento da ordem de 200 a 220 Bar.
instalações e das principais “não conformidades” dos postos de serviço de O aumento de pressão é possível com o uso de compressores de múltiplos
GNV. estágios, que elevam a pressão do gás da admissão até a pressão de saída.
O Gás Natural é admitido, filtrado e medido através da Estação
de Redução de Pressão e Medição (ERPM), sendo estes dispositivos de
8.2 O Gás Natural Veicular propriedade da Companhia de Distribuição de Gás Natural. Em seguida,
o gás é admitido e comprimido na Unidade Compressora e armazenado
O Gás Natural Veicular (GNV) é um combustível gasoso cujas em um vazo de expansão que funciona como “pulmão”, de onde são
propriedades químicas se adaptam bem à substituição dos combustíveis alimentados os dispensers com bicos de abastecimento dos veículos.
tradicionais para motores do ciclo Otto, que funcionam através da ignição
por centelha. Esses motores usam em geral a gasolina ou etanol como 8.3.2 Aspectos de segurança
combustível. Os veículos podem ser fabricados com essa possibilidade de
escolha quanto ao combustível a ser utilizado, ou podem ser adaptados em O gás natural é mais seguro que os combustíveis líquidos. Por ser
oficinas credenciadas, onde sofrem um processo de conversão e passam a mais leve que o ar, se dispersa rapidamente, evitando o acúmulo de gás em
poder contar com a opção de utilizar o GNV como combustível. casos de vazamento. O risco de combustão é menor, pois o gás só se inflama
O uso de GNV tem importante papel na redução dos níveis de a 620ºC, acima da temperatura de combustão do álcool e da gasolina, que
poluição atmosférica, uma vez que a sua combustão com excesso de ar tende está entre 400ºC e 200ºC, respectivamente. Outro motivo de segurança do
a ser completa, liberando apenas dióxido de carbono (CO2) e água (H2O). GNV é que durante seu abastecimento não há contato do combustível com
Por ser um combustível gasoso, possui um sistema de abastecimento e o ar, diminuindo a possibilidade de combustão.
alimentação do motor isolado da atmosfera, reduzindo bastante as perdas A segurança do GNV depende da estrita observância às normas,
por manipulação para abastecimento e estocagem. inclusive na manutenção e no abastecimento dos veículos. As conversões só
podem ser feitas por oficinas autorizadas e os equipamentos, nos veículos
e nos postos, também estão sujeitos a normas restritas. Os cilindros, por

158 159
exemplo, devem resistir a pressões elevadas (superiores a 400 Bar), a de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO), do
choques, a colisões e até a armas de fogo, além de ter de passar por revisão Ministério da Indústria, Comércio e Turismo (MICT).
a cada cinco anos. O abastecimento só pode ser feito por pessoal treinado A expansão de postos e oficinas convertedoras tem aumentado
(o que impede um posto de GNV self-service). constantemente, mostrando que o mercado de GNV está crescendo, o
As normas relacionadas com a conversão são rígidas e seus controles que implica na necessidade de observância da legislação correlata a seguir
são melhores do que aqueles relacionados com a maioria das outras detalhada.
partes do veículo. Os componentes do sistema de conversão são testados
exaustivamente pelos fabricantes com a finalidade de assegurar uma
confiabilidade elevada.
As normas de projeto e construção dos postos de serviços são tão
ou mais severas do que aquelas empregadas na conversão dos veículos.
Entretanto, não podem ser negligenciados os aspectos de manutenção e
conservação das instalações para garantia da integridade dos sistemas.
O maior receio em relação ao GNV decorre do uso de gás em veículos
estar associado aos casos de instalações irregulares e/ou clandestinas, com
histórico de acidentes e explosões. Os casos de acidentes registrados com
a utilização do GNV ocorreram no abastecimento do veículo, por uso de
equipamentos inadequados, como conversões realizadas em oficinas não
homologadas ou uso de botijão inadequado.
É importante que se destaque que o GNV apresenta riscos de provocar
asfixia, incêndio e explosão, essa última em função da sua pressão elevada
de armazenagem. Para utilização como GNV, normalmente é odorizado a
fim de facilitar a detecção de vazamento.

8.4 Legislação e portarias para GNV

A regulamentação específica do setor de gás é feita pela Agência


Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e governos
e/ou agências estaduais. A normatização do uso, com estabelecimentos
padrões, voltados para segurança e qualidade, é feita por órgãos como a
Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e o Instituto Nacional

160 161
Quadro 8.2 (página ao lado): Resumo das Portarias do MME, ANP e INMETRO aplicadas
a postos de serviço para revenda de GNV (Gás Natural Veicular).
Quadro 8.3 (acima): Resumo da Norma da ABNT aplicada a postos de serviço para
revenda de GNV (Gás Natural Veicular).

8.5 Posto de serviço

Uma instalação de abastecimento de GNV, conhecida como posto


de serviço de GNV, apresenta diferenças e maior complexidade quando
comparada com postos de serviço de combustíveis líquidos. A Figura 8.1
mostra a configuração das instalações de um posto de serviço de GNV.

Figura 8.1: Diagrama das instalações de um posto de serviço de GNV.

162 163
A Figura 8.1 apresenta apenas o grupo de equipamentos diretamente de abastecimento de gás natural, a linha de alimentação de gás natural
relacionado com o abastecimento de GNV. e a estação de redução de pressão e medição (ERPM), de acordo com a
O gás natural é fornecido pela empresa concessionária de gás estrutura existente.
canalizado que atende à região onde o Posto de Serviço será instalado. O As distâncias mínimas devem ser respeitadas de acordo com a Tabela
produto é fornecido através de um gasoduto. O gás fornecido é medido na 8.1, reproduzida do Capítulo 4 da NBR 12.236/1994, conforme segue.
Estação de Redução de Pressão e Medição (ERPM) e antes de alimentar a
Unidade de compressão.
Depois de medido, o gás é comprimido nos compressores até uma
pressão da ordem de 220 BAR e em seguida pronto para ser disponibilizado
nos Pontos de Abastecimento ou encaminhado para uma estocagem fixa
em cilindros de armazenagem, conhecida como “Pulmão”.
Os pontos de abastecimento, denominado de dispensers, possuem
equipamentos capazes de disponibilizar o produto compatível com a válvula
de abastecimento do veículo, totalizando o volume de GNV fornecido.
O projeto e construção de um posto de serviço para abastecimento
de veículos movidos a GNV compreende um processo regulamentado
na norma NBR 12.236 – Critérios de Projeto, Montagem e Operação de
Postos de Gás Combustível Comprimido da ABNT – Associação Brasileira
de Normas Técnicas, datada de fevereiro de 1994.

O projeto de um posto de serviço de GNV pode ser dividido em: Tabela 4.1: Distâncias Mínimas das Instalações de GNV

• configuração dos componentes;


• projeto de interligação com a concessionária de gás natural; Sempre que possível, o compressor deverá ser alocado na menor
• projeto de interligação com a concessionária de energia elétrica; distância possível dos pontos de abastecimento, evitando assim que a perda
• projeto de obras civis; de carga diminua a pressão final de abastecimento, principalmente nos
• projeto da rede de tubulação de GNV; equipamentos onde ocorra a redução de pressão de 250 Bar para 220 Bar,
• projeto elétrico; logo após a estocagem fixa de gás, e não nos dispensers.
• especificação do equipamento de compressão. Em geral, deve-se evitar que o fluxo de veículos para os pontos de
abastecimento de gás interfira nos pontos de abastecimento de combustíveis
8.5.1 Configuração dos componentes líquidos, bem como restringir ao máximo a passagem de pessoas nas áreas
classificadas.
Inicialmente, define-se a configuração dos elementos do sistema

164 165
8.5.2 Projeto de interligação com a 8.5.5 Projeto da rede de tubulação de GNV
concessionária de gás natural
Deve ser compatível com as condições operacionais da concessionária
A estação de redução de pressão e medição (ERPM) deve estar de distribuição de gás natural local e com o tipo de equipamento de
disposta o mais perto possível do compressor, evitando-se tubulações compressão que foi escolhido. Recomenda-se a instalação de válvulas
enterradas. Para controle do excesso de pressão, é recomendada a colocação de corte rápido na entrada do gás, logo após a estação de redução de
de regulador de pressão na tubulação pertencente ao posto de serviço, pressão e medição da concessionária, e após a estocagem fixa ou descarga
de forma a evitar os “picos” de pressão da rede que podem provocar a do compressor. Essas válvulas devem ser comandadas remotamente por
parada da máquina por excesso de pressão de sucção ou mesmo por dano botoeiras de emergência instaladas na área de abastecimento e na área dos
mecânico ou desarme pelo relê térmico do motor elétrico do compressor; compressores. O projeto deve prever um sistema de filtragem de partículas
é fundamental que a qualidade do gás seja atendida pela concessionária. do gás da concessionária para proteção do compressor.
Como base, temos a Portaria no 41, de 15 de abril de 1998, da Agência
Nacional do Petróleo (ANP)3. 8.5.6 Projeto elétrico

8.5.3 Projeto de interligação com a Deve-se obedecer às áreas classificadas eletricamente de acordo com
concessionária de energia elétrica a NBR 12.236/1994. Verificar a folga de carga nos transformadores do
posto de serviço e utilizar a chave de partida eletrônica compensada para
Os padrões de projeto para a interligação de energia elétrica já são acionamento do compressor.
bem definidos, de acordo com o nível de tensão que o motor elétrico do
compressor irá trabalhar, 380 ou 440 V. Em termos de consumo de potência, 8.5.7 Especificação do equipamento de compressão
é recomendável a colocação da subestação o mais próximo do compressor.
Utilizar o critério de seleção dos equipamentos conforme a NBR
8.5.4 Projeto de obras civis 12.236/1994, para as exigências mínimas em termos de segurança e operação.

O uso de paredes corta fogo de 4 TRF (Tempo de Resistência ao 8.5.7.1 Equipamentos de abastecimento de GNV
Fogo) deve estar de acordo com as distâncias citadas na Tabela do capítulo
4 da NBR 12.236/1994. O GNV, armazenado a alta pressão, deve ser abastecido nos veículos
por meio de um dispositivo capaz de executar essa tarefa com rapidez e
segurança. Esses dispositivos são conhecidos como dispensers. É composto
3
AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS – ANP. por um corpo, onde se encontram as unidades mecânicas e de medição do
Portaria n. 41, de 15 de abril de 1998. Aprova o Regulamento Técnico ANP nº 001/98, anexo a esta GNV abastecido e mangueiras flexíveis de alta resistência (na cor vermelha)
Portaria, que estabelece normas para especificação do gás natural, de origem interna ou externa, a
ser comercializado no País. Diário Oficial da União, 17 abr. 1998. que levam o GNV até a válvula de abastecimento no veículo.

166 167
c) Segundo a constituição operacional:
• eletrônicos;
• eletropneumáticos.

d) Segundo o tipo de medidor:


• medidor de turbina;
• medidor por efeito de Coriollis.

8.5.7.3 Aplicação dos equipamentos de abastecimento de GNV

Observa-se na prática alguns critérios para aplicação dos diversos


tipos de dispensers. Ainda segundo Augusto Sobrinho5, a aplicação desses
equipamentos pode ser determinada como se segue:
• Os dispensers de sistema de linha simples e com mangueira dupla
Figura 8.2: a) Ilha de abastecimento, b) Ponto de GNV”dispenser”
são os mais utilizados em função de sua simplicidade de aplicação e
custo de manutenção.
8.5.7.2 Tipos de equipamentos de abastecimento de GNV
• Os dispensers de sistema de linha múltipla são utilizados quando o
abastecimento é feito através de cascata. Este abastecimento é pouco
Segundo Augusto Sobrinho4, os tipos de dispensers para abastecimento
utilizado pois, além de acarretar um custo elevado no projeto e na
de GNV podem ser classificados de acordo com os tipos de medidores, o
instalação, gera elevado custo na manutenção.
tipo de abastecimento e as interfaces existentes para monitoramento do
• Os dispensers eletrônicos são os mais usuais em função da
abastecimento, como segue.
sua simplicidade, não requerendo outras variáveis para seu
a) Segundo a linha de abastecimento: funcionamento que não seja alimentação elétrica.
• sistema de linha simples; • Os dispensers eletropneumáticos requerem uma manutenção maior
• sistema de linha múltipla (utilizado quando usado abastecimento que os eletrônicos, pois além da alimentação elétrica necessita de
por cascata). ar comprimido para sua operação, ou seja, duas variáveis a serem
consideradas.
b) Segundo o conjunto de mangueiras:
• mangueira simples; Assim, a configuração dos equipamentos de abastecimento de GNV
• mangueira dupla. mais recentemente encontrada em postos de serviço utiliza dispensers de
sistema de linha simples com mangueira dupla e constituição operacional
4
AUGUSTO SOBRINHO, C. Uso de Dispensers e Carreta Feixe para Abastecimento de Veículos
com Gás Natural. Rio de Janeiro: IBP Instituto Brasileiro de Petróleo, 1999. 5
Augusto Sobrinho (1999).

168 169
eletrônica. Complementando a caracterização dos dispensers mais usuais, que se aplicam ao abastecimento de GNV, das quais se destacam alguns
verifica-se o uso de medidores de massa abastecida. Esses medidores dispositivos.
aplicam o princípio de Coriollis para cálculo da massa abastecida. Os
dispensers que utilizam esse tipo de medidor dificilmente estão sujeitos • Conexão para sistema de computação para faturamento remoto.
a problemas de medição, pois a variação da temperatura, bem como as • Interface de comunicação.
partículas em suspensão, não provocam alterações na medição. • Impressora de tickets.
O uso de medidores volumétricos de turbina em dispensers está • Manômetro externo para leitura da pressão de abastecimento.
sujeito a constantes problemas de medição, pois além da variação constante • Indicação sonora e luminosa do fim do abastecimento.
de temperatura de abastecimento, qualquer partícula em suspensão poderá • Encerrante e totalizante parcial.
ocasionar danos à turbina e à camisa provocando erros de medição. Os
medidores de turbina são mais comuns para medições à baixa pressão e
normalmente são usados antes do compressor. 8.6 Principais não conformidades encontradas
O aspecto de pureza do GNV é um dos que mais influencia os
equipamentos de medição do volume/massa abastecida. É comum que Durante o acompanhamento dos postos de serviço de GNV do
esses equipamentos trabalhem com peças em movimento, sujeitas a excesso município de Natal, foram observados diversos tipos de Não Conformidades
de desgaste se houver um nível intolerável de impurezas no GNV. Por outro Técnicas, sendo apontadas principalmente nas Revisões de Segurança
lado, caso as partículas de impureza estejam em elevada concentração realizadas inicialmente no Projeto de Adequação Ambiental de Postos de
prejudica-se a regulagem do valor da massa específica do GNV e apresenta Combustíveis em Natal-RN, como também durante o acompanhamento
problemas de abastecimento. dos Testes de Estanqueidade e Integridade das instalações de GNV.
Os dispensers para abastecimento de GNV devem possuir um A seguir, é feito um breve registro das principais “Não
conjunto mínimo de itens de segurança, normalmente encontrados nos Conformidades” encontradas, mostrando os destaques que apresentam
equipamentos de transporte e distribuição de GNV. Esses equipamentos maiores potencialidades de riscos de falhas catastróficas e acidentes que
são pelo menos os seguintes6: comprometem a integridade física das instalações e pessoas.
• pressostato de alta pressão – que libera o GNV, caso haja excesso de
pressão, evitando explosões; 8.6.1 Estação de Redução de Pressão e Medição-ERPM
• válvula excesso de fluxo – que interrompe o fluxo, caso haja uma
ruptura nas mangueiras ou tubulações; As principais “Não Conformidades” encontradas na ERPM foram:
• válvula Quick Breakaway – também conhecida como válvula de corrosão em tubulações, flanges e conexões; instrumentos e válvulas de
corte rápido. segurança de pressão sem identificação adequada e calibração vencida e
Existem várias interfaces para monitoramento do abastecimento, sujeiras nas canaletas de passagem da tubulação.

6
Augusto Sobrinho (1999).

170 171
8.6.2 Na unidade compressora

Figura 8.4: a)Válvula PSV danificada; b)Válvula PSV faltando plaqueta e certificado de
calibração; c) Cilindro de armazenagem vencido; d)Instrumentos sem conservação; e)
Armazenagem de óleo lubrificante inadequada.

Figura 8.3: a), b), c) Detalhes de corrosão em flanges e tubulação; d) Válvula PSV com
obturador antes da válvula, não apresentando a tarja de identificação e a placa com a data
de calibração e a próxima verificação.

172 173
8.6.3 Ilha de abastecimento e dispensers:

Referências

AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E


BIOCOMBUSTÍVEIS – ANP. Portaria n. 41, de 15 de abril de 1998. Aprova o
Regulamento Técnico ANP nº 001/98, anexo a esta Portaria, que estabelece
normas para especificação do gás natural, de origem interna ou externa, a ser
comercializado no País. Diário Oficial da União, 17 abr. 1998.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT. NBR 12.236:


Critérios de Projeto, Montagem e Operação de Postos de Gás Combustível
Comprimido. Rio de Janeiro, 1994.

AUGUSTO SOBRINHO, C. A. Uso de “Dispensers” e Carreta Feixe para


Abastecimento de Veículos com Gás Natural. Rio de Janeiro: IBP Instituto
Brasileiro de Petróleo, 1999.

GOUVÊA, C. P. de. Postos de Abastecimento de Veículos para Gás Natural –


Recomendações de Projeto, IBP – Instituto Brasileiro de Petróleo. In: SEMINÁRIO
INTERNACIONAL EM GÁS NATURAL, 7., 1999, Rio de Janeiro. Anais... Riode
Janeiro, 1999.

Figura 8.5: a) Aterramento inadequado; b) Corrosão em tubulação de alta pressão; c)


Corrosão avançada nas conexões e terminais das mangueiras.

174 175
9
Uma cidade sob investigação
de passivo ambiental

Djalma Ribeiro da Silva1
Adriana Margarida Zanbotto Ramalho2

9.1 A importância dos solos

A formação dos solos decorre de processos físicos, químicos e


biológicos contínuos (conhecidos por intemperismo) que transformam as

1
Professor associado II. Doutor em Ciência e Engenharia de Materiais, UFRN, 2006. Chefe do
Departamento de Química: 1990 a 1994. Diretor do CCET: 1999-2003 e 2011-2015. Coordenador
do Núcleo de Pesquisa em Petróleo e Energias Renováveis – NUP-ER. Coordenador da Central de
Análise e do Laboratório de Tecnologia de Processamento Primário de Petróleo (No NUPPRAR
- Núcleo de Processamento Primário e Reúso de Água Produzida e Resíduos). Coordenador de
projetos de pesquisa: 6 projetos de infraestrutura e 15 projetos de pesquisa e Desenvolvimento.
Orientador atual de alunos de graduação, mestrado e doutorado. Membro do Comitê Gestor
do Fundo Setorial de Petróleo e Gás Natural - CTPETRO. Perito do Ministério Público na área
ambiental.
2
Doutoranda e Mestre em Ciência e Engenharia de Petróleo, UFRN (2008); Especialista em Gestão
Ambiental, IFRN (2009); Bacharel em Química, UFRN (2012); Tecnóloga em Meio Ambiente,
CEFET-RN (2004); ex- funcionária da Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal,
SEMURB, (2008 -2009); Pesquisadora do Núcleo de Processamento Primário e Reúso de Água
Produzida e Resíduos (NUPPRAR).
rochas, minerais e a matéria orgânica que lhes dão origem4, como mostra O solo, de forma geral, é um recurso único, insubstituível e essencial
a Figura 1. Esse processo leva muito tempo para ocorrer e cada centímetro para todos os organismos terrestres (incluindo o homem), e apresenta-se
do solo se forma num intervalo de tempo de 100 a 400 anos5. Já os solos como uma fina camada na crosta terrestre que é explorada pelas raízes das
usados na agricultura demoram entre 3000 a 12000 anos para tornarem-se plantas em busca de ancoragem, água e nutrientes7.
produtivos6. Os solos são caracterizados como meios porosos e constituem
sistemas físicos que apresentam três fases distintas: uma fase sólida
composta de material mineral e orgânico; uma fase líquida que se refere à
água do solo ou solução do solo; e uma fase gasosa que compõem o ar do
solo8. Essas fases estão distribuídas em proporções distintas nas zonas não
saturada e saturada do solo, podendo ser evidenciado na Figura 2. Essas
zonas são descritas a seguir por LNEG9.

• Na camada superficial de solo, encontra-se a zona não saturada


ou vadosa que é a zona que se situa imediatamente abaixo da superfície
topográfica e acima do nível freático, onde os espaços vazios entre as
partículas estão parcialmente preenchidos por gases (essencialmente ar e
vapor de água) e por água. A franja capilar (região do solo onde começa a
ficar úmido, devido à presença do aquífero) também faz parte da zona não
saturada do solo, situada imediatamente acima do nível freático, onde a
existência da água ascende por capilaridade, a partir da zona freática.

• A zona saturada (ou aquífero) é a zona que pode ser constituída por
Figura 9.1: Processo de formação de solos. diferentes níveis ou camadas de solo ou formações rochosas, onde todos os
Fonte: Moraes, Campagna e Santos (2011). espaços porosos ou fraturas existentes estão completamente preenchidos por
água (o limite superior desta zona é designado nível freático). A água para
abastecimento público de poços artesianos é extraída da zona saturada do solo.

4
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA – EMBRAPA. Curso de Recuperação
de Áreas Degradadas. Rio de Janeiro, 2008. Disponível em: <http://www.cnps.embrapa.br/solosbr/ 7
BREEMEN, Nico Van. The Formation of Soils. In: ______. Soil Formation. [s.l.]: Kluwer Academic
publicacao2.html>. Acesso em: 9 ago. 2011. Publishers, 2002. Chap. 2.
5
MORAES, Alessandra R.; CAMPAGNA, Aline Fernanda; SANTOS, Silvia A. Martins. Recursos 8
EMBRAPA (2008).
naturais: solos. Disponível em: <http://educar.sc.usp.br/ciencias/recursos/solo.html>. Acesso em: 9
LABORATÓRIO NACIONAL DE ENERGIA E GEOLOGIA – LNEG. Léxico de Termos
9 ago. 2011. Hidrogeológicos. Verbete Zona Saturada e Insaturada. Disponível em: <http://e-geo.ineti.pt/bds/
6
Moraes, Campagna e Santos (2011). lexico_hidro/lexico.aspx?Termo=Zona%20Saturada>. Acesso em: 13 jan. 2012.

178 179
9.2 O risco de contaminação por postos
de combustíveis em Natal

Em Natal, grande é a preocupação com a contaminação do aquífero,


uma vez que mais de 70% do suprimento hídrico da população é feito
por águas subterrâneas11. Essa preocupação se dá devido à fragilidade
geológica, pois o manancial de águas subterrâneas ocorre no sistema
aquífero Dunas-Barreiras, onde o lençol freático é raso e induz a uma
maior vulnerabilidade desse aquífero à contaminação; não só por sua
menor profundidade, mas também pela natureza arenosa, bastante porosa
e permeável do solo12. A facilidade da permeabilidade do contaminante
tem uma relação direta com a porosidade do solo. Nos solos arenosos
(como o caso de Natal), os poros são maiores, por isso sua permeabilidade
é mais rápida13.
Figura 9.2: Zona saturada e zona não saturada do solo.
Fonte: Adaptado de Campos e Abreu (2012).
Entre as atividades econômicas potencialmente poluidoras que
comprometem a qualidade do solo e das águas subterrâneas em Natal,
O uso e ocupação do solo em áreas urbanas, industriais e agrícolas estão os 110 Postos Revendedores de Combustíveis14 investigados pelo
têm provocado a contaminação das zonas não saturada e saturada do solo. Ministério Público com a parceria da UFRN e a SEMURB. Os serviços
Para a Companiha de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São oferecidos pelos postos de revenda de combustível são bastante
Paulo (Cetesb)10, uma área contaminada (ou Brownfields) pode ser definida diversificados e envolvem não só o abastecimento, mas também troca de
como uma área, local ou terreno onde há comprovadamente poluição
ou contaminação, causada pela introdução de quaisquer substâncias ou
resíduos que nela tenham sido depositados, acumulados, armazenados, 11
SERHID. Relatório: Cadastro e Nivelamento de Poços do Aqüífero Barreiras do Município de Natal.
CONTRATO 017/2005- SERHID/ANA. Disponível em: <http://www.portal.rn.gov.br/content/
enterrados ou infiltrados de forma planejada, acidental ou até mesmo aplicacao/igarn/arquivos/pdf/relat%C3%B3rio%20final%20do%20cadastro%20%28vol.01%29.
natural. Havendo a preocupação não apenas com a presença de poluentes, pdf>. Acessado em: 15 maio 2012.
12
BARBOSA, Carlos Magno de Souza et al. Importância Ambiental da Região de Lagoinha frente
mas também a ocorrência de danos ou riscos aos bens a proteger, como a à Legislação Municipal de Natal/RN. Disponível em: <http://www.bvsde.paho.org/bvsaidis/
qualidade das águas em geral, a qualidade dos solos e das águas subterrâneas, uruguay30/BR09529_BARBOSA.pdf>. Acesso em: 2 jun. 2011.
13
DE SANTI, Laís Jerônimo; TOMMASELLI, José Tadeu Garcia. Estudo da permeabilidade do solo
a saúde do indivíduo e do público em geral.
no entorno de lagoas de tratamento de esgoto da região de Presidente Prudente/SP. Disponível em:
<http://prope.unesp.br/xxi_cic/27_08940075641.pdf Acesso em: 15 maio 2011.
14
AQUINO SOBRINHO, Hércules Lisboa de. Design Gráfico da Pluma de Contaminação por
Compostos Orgânicos Voláteis utilizando Software CAD na Investigação de Passivo Ambiental em
10
CETESB. Manual de gerenciamento de áreas contaminadas/ CETESB, GTZ. São Paulo: CETESB, Um Posto Revendedor de Combustíveis em Natal/RN. 79f. Dissertação (Mestrado em Ciência e
1999. Engenharia de Petróleo) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2011.

180 181
óleo e lavagem de veículo, loja de conveniência, lanchonete e restaurante15,
os quais podem causar impactos negativos sobre o meio ambiente,
como podemos observar nos registros fotográficos abaixo realizados
concomitantemente com a investigação de passivo ambiental realizada
em Natal/RN. Mas, é importante ressaltar que as instalações subterrâneas
dos postos revendedores causam um prejuízo maior do que as instalações
aéreas, pelos motivos que serão explicados.

Figura 9.4: Vazamento no sistema de armazenamento subterrâneo da troca de óleo.

Figura 9.5: Vazamento na troca de óleo (na Figura 9.6: Resultado de um


Figura 9.3: Lixo na troca de óleo oriundo da loja de conveniência. limpeza, observa-se que o funcionário está exposto incêndio devido à combinação de
à contaminação através da absorção pela pele). armazenamento de óleo queimado
em ambiente fechado e serviço
com solda no mesmo local.

MARQUES, Cláudia Elisabeth Bezerra et al. O licenciamento ambiental dos postos de revenda varejista
15

de combustíveis de Goiânia. Goiânia: Universidade Católica de Goiás, 2003. Disponível em: <http://www.
ucg.br/ucg/prope/cpgss/ArquivosUpload/36/file/O%20LICENCIAMENTO%20AMBIENTAL%20
DE%20POSTOS%20DE%20REVENDA%20VAREJISTA.pdf>. Acesso em: 9 fev. 2012.

182 183

Figura 9.7: A água transbordando nas Figura 9.8: Canaletas não conservadas
canaletas, devido a caixa sepadora de causam a infiltração do óleo no solo.
água/óleo ter atingido o seu limite.

Figura 9.9: Os lava a jato devem possuir canaletas que direcionem o efluente da lavagem
para caixa separadora de água/óleo, a fim de que este não percole e infiltre o solo causando Figura 9.10: Contaminação do solo nos filtros de diesel.
a sua contaminação.
9.2.1 A contaminação através do sistema de armazenamento
subterrâneo de combustíveis nos postos revendedores

A resolução 273/2000, do Conselho Nacional do Meio Ambiente


(CONAMA), considera as instalações e os sistemas de armazenamento
subterrâneo de combustíveis como potencialmente poluidores e
geradores de acidentes ambientais. Isso porque, quando os dispositivos
de proteção ambiental instalados nos postos revendedores de
combustíveis falham, ou seja, quando se encontram não estanques (com

184 185
vazamento) – devido ao dano, a integridade dos tanques em decorrência
da alta taxa de corrosão do solo ou a má instalação dos equipamentos,
ou à falta de manutenção dos mesmos –, os combustíveis passam a ser
introduzidos no solo, gerando uma contaminação conhecida como
passivo ambiental.
Ao serem liberados para o ambiente, esses combustíveis, através
dos vazamentos, migram verticalmente pela zona não saturada do solo
sob a influência das forças gravitacional e capilar, podendo atingir a zona
saturada do solo, ocorrendo também a expansão horizontal devido à
atração das forças capilares16.
Quando a gasolina e o diesel atingem a zona saturada do solo, forma
um sistema bifásico água/óleo denominado de Fase Líquida Não Aquosa
Leve, ou do inglês Light Non-Aqueous Phase Liquid (LNAPL). Devido a esses
compostos orgânicos serem de baixa miscibilidade e de menor densidade
que a água encontram-se geralmente espalhados no topo da franja capilar
e flui na direção da água subterrânea17.
No solo, esses hidrocarbonetos irão formar quatro fases distintas: fase Figura 9.11: Modelo conceitual da pluma de contaminação baseado em
líquida residual, fase líquida livre, fase dissolvida e fase vapor (Figura 9.11) D. Huntley, G. D. Beckett (2002).
determinadas pelos fenômenos da dissolução, volatilização e adsorção,
sendo descritas a seguir18. • Fase vapor: são hidrocarbonetos de cadeia curta e leve (exemplo do
Benzeno, Tolueno, Etilbenzeno e Xilenos – BTEX) que apresentam
baixo ponto de ebulição, devido às baixas forças de atração
moleculares, volatilizando e formando a fase de vapor (esses vapores
podem condensar e adsorver-se no solo ou dissolver-se na água
do solo). A descarga de vapores do solo por constituintes voláteis
16
MARIANO, A. P. Avaliação do potencial de biorremediação de solos e de águas subterrâneas
contaminados com óleo diesel. 2006. 162f. Tese (Doutorado em Geociências e Meio Ambiente) – para receptores, como edifícios, estruturas no subsolo e trincheiras
Programa de Pós-Graduação em Geociências e Meio Ambiente, Universidade Estadual Paulista, Rio de utilidade (instalações elétrica, tubulações de gases, drenagem de
Claro, 2006.
17
Mariano (2006). água e esgotos) pode confinar os gases e causar riscos de explosões,
18
Mariano (2006); bem como poluir a atmosfera inalada por trabalhadores e/ou
HUNTLEY, David; BECKETT, G. D. Persistence of LNAPL sources: relationship between risk
reduction and LNAPL recovery. Journal of Contaminant Hydrology, v. 59, p. 3-26, 2002.
moradores residenciais. Em uma investigação de passivo, esses gases
KARAPANAGIOTI, Hrissi K.; GAGANIS, Petros; BURGANOS, Vasilis N. Modeling attenuation servem como indicador de contaminação, sendo conhecidos como
of volatile organic mixtures in the unsaturated zone: codes and usage. Environmental Modelling &
Software, v. 18, p. 329-337, 2003.
compostos orgânicos voláteis (VOC).

186 187
• Fase líquida residual: resíduos líquidos adsorvidos ou retidos no solo. 9.2.2 Características dos contaminantes presentes
nos combustíveis fósseis
• Fase líquida livre: conhecida também como Fase Livre, é o
combustível sobrenadante ou flutuante na água. A descarga direta A gasolina e o diesel são produtos petrolíferos complexos
de LNAPLs pode ocorrer em corpos hídricos receptores, como rios, que consistem principalmente de parafinas, olefinas, naftalenos e
poços e nascentes. hidrocarbonetos aromáticos – a composição exata do combustível varia de
acordo com sua origem21. Os compostos BTEX, HPA e TPH22 podem ser
• Fase dissolvida: é formada quando a fase líquida livre em contato com
utilizados como parâmetros desse tipo de contaminação do solo e da água
o nível d’água subterrâneo dissolve os componentes solúveis presentes
subterrânea.
na LNAPL (exemplo dos BTEX e HPA19), formando a chamada
pluma de fase dissolvida que se distribui por difusão e advecção.
Esses processos são responsáveis pelo transporte de contaminantes
através de áreas bastante extensas, devendo-se monitorar a
velocidade do transporte desses contaminantes para poços de água
para abastecimento público, conhecido como perímetro de proteção
de poços. Um software mundialmente conhecido para realizar esse
Figura 9.12: Diferença visual de solos contaminados por combustíveis
tipo de estudo é o Modflow, desenvolvido por Pesquisadores da
(cor esverdeada) e solos limpos (cor avermelhada).
Universidade de Waterloo, no Canadá.
Porém, aditivos químicos utilizados para melhorar a octanagem
Para Oliveira20, a pluma de fase dissolvida é o resultado do
(queima) do combustível, como éter metil-terc-butílico (MTBE), também
transporte de contaminantes presentes na água subterrânea. A velocidade
têm contaminado e sido detectados em águas subterrâneas da Europa e
do transporte depende da própria velocidade da água subterrânea, sendo
dos USA (exemplo da Califórnia). Esse aditivo passou a ser utilizado a
essa determinada pelo seu gradiente hidráulico e pela condutividade
fim de substituir o chumbo tetraetila em 197823. No Brasil, onde o uso de
hidráulica (parâmetros específicos para cada tipo de solo que compõe o
MTBE é proibido por questões socioeconômicas, essa função é exercida
aquífero). O comportamento do contaminante nas águas subterrâneas
pelo álcool24.
depende de suas propriedades físicas e químicas, como densidade,
solubilidade, viscosidade, entre outros.

21
GONZALEZ-FLESCA, Norbert et al. BTX Concentrations Near a Stage II Implemented Petrol
Station. ESPR - Environ Sci & Pollut Res, v. 9, n. 3, p. 169 – 174, 2002.
22
Total de Hidrocarbonetos de Petróleo.
23
GIRONI, F.; PIEMONTE, V. VOCs removal from dilute vapour streams by adsorption onto
Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos.
19
activated carbon. Chemical Engineering Journal, v. 172, Issues 2–3, p. 671-677, 15 aug. 2011.
OLIVEIRA, Everton. Águas subterrâneas, monitorar é fundamental. 2008. Disponível em: <http://
20 24
FACINA, Taís. Produção ameaçada. 2000. Disponível em: <http://www.energiahoje.com/
www.agsolve.com.br/noticia.php?cod=666>. Acesso em: 26 jan. 2012. brasilenergia/noticiario/2000/08/01/363431/producao-ameacada.html>. Acesso em: 13 jan. 2012.

188 189
Entretanto, a contaminação de águas subterrâneas por combustíveis Alguns produtos químicos presentes no TPH podem afetar o sistema
com elevado teor de álcool tem sido apontada como um problema ambiental nervoso, causando dores de cabeça e tonturas. Os produtos químicos que
emergente, principalmente em função desse aditivo facilitar, por efeito podem ser encontrados em TPH são combustíveis, hexano, óleos minerais,
cossolvente, a mobilização dos hidrocarbonetos em solos contaminados benzeno, tolueno, xileno, naftaleno, fluoreno, assim como outros produtos
por derramamento25. Em geral, estima-se que a adição de 10% de álcool de petróleo e componentes da gasolina e diesel. No entanto, é provável
(etílico ou metílico) favorece largamente a solubilização de benzeno e que as amostras de TPH conterão apenas alguns, ou uma mistura desses
tolueno em água, com efeitos menos significativos para etilbenzeno e produtos químicos30.
xilenos26. Trata-se de uma observação que permite prever um potencial
poluente ainda maior para a gasolina comercializada no Brasil, a qual é 9.2.2.2 VOC
aditivada com cerca de 25% de etanol27.
O uso do etanol como um aditivo oxigenado, substituindo o MTBE, Produtos de petróleo envolvem misturas de diferentes compostos
também pode resultar em aumentos significativos nas emissões de orgânicos voláteis (VOC), que podem representar um risco para as águas
acetaldeído, um subproduto cancerígeno da combustão, com um aumento subterrâneas após um derrame para a zona insaturada31. Os compostos
correspondente nas concentrações atmosféricas e, consequentemente, um orgânicos voláteis (benzeno, tolueno, xilenos, etilbenzeno, entre outros)
aumento com os custos de saúde pública28. são contaminantes típicos do óleo diesel e da gasolina encontrados na zona
insaturada do solo e geralmente afetam em primeiro lugar esta zona, antes
9.2.2.1 TPH de atingir o aquífero subjacente32. Embora os compostos orgânicos voláteis
possam ser atenuados na zona não saturada, eles constituem riscos para
Total de Hidrocarbonetos de Petróleo (TPH) é um termo usado para a saúde33, pois podem atingir o lençol freático através da difusão rápida
descrever uma grande família de várias centenas de compostos químicos que da fase de vapor ou do transporte na fase aquosa por meio de processos
originalmente vem do petróleo bruto. Existem tantos compostos químicos de transporte, incluindo advecção aquosa em água de recarga, difusão das
diferentes no petróleo, que não é prático medi-los separadamente, sendo fases gasosa e aquosa, e de dispersão mecânica34.
mais útil medir a quantidade total de TPH em uma área contaminada29.

25
LEE, Kenneth Y. Phase partitioning modeling of ethanol, isopropanol, and methanol with BTEX
compounds in water. Environmental Pollution, v. 154, Issue 2, p. 320-329, jul. 2008
TIBURTIUS, E. R. L.; ZAMORA, P. P.; LEAL, E. S. Contaminação de águas por BTXs e processos
utilizados na remediação de sítios contaminados. Química Nova, v. 27, n. 3, p. 441-446, 2004.
26
(LEE, 2008; TIBURTIUS; ZAMORA; LEAL, 2004). 30
ATSDR (1999).
27
Tiburtius, Zamora e Leal (2004). 31
KARAPANAGIOTI, Hrissi K. et al. Reactive transport of volatile organic compound mixtures
28
FERNANDEZ, L.; KELLER, A. A. Cost–benefit analysis of methyl tert-butyl ether and alternative in the unsaturated zone: modeling and tuning with lysimeter data. Environmental Modelling &
gasoline formulations. Environmental Science & Policy, v. 3, Issue 4, p. 173-188, 1 aug. 2000. Software, v. 19, p. 435-450, 2004.
29
AGENCY FOR TOXIC SUBSTANCES AND DISEASE REGISTRY – ATSDR. Toxicological 32
Karapanagioti, Gaganis e Burganos (2003).
profile for total petroleum hydrocarbons (TPH). Atlanta, GA: U.S. Department of Health and 33
Karapanagioti, Gaganis e Burganos (2003).
Human Services, Public Health Service, 1999. 34
Karapanagioti et al (2004).

190 191
9.2.2.3 HPA

Hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA) é um grupo


de moléculas orgânicas compostas por anéis de benzeno fundidos,
sendo classificados como compostos orgânicos hidrofóbicos35. Os HPA
tendem a persistir no meio ambiente e podem ser encontrados no solo,
sedimentos, água e ar devido a uma distribuição generalizada por fontes
de contaminação naturais e antropológicas (a exemplo dos incêndios
em florestas, das operações de refino, transporte e revenda do petróleo,
bem como da queima de combustíveis fósseis). Eles podem se associar
Figura 9.13: Estrutura química de alguns compostos orgânicos voláteis. rapidamente com sedimentos, em função de sua natureza hidrofóbica e da
baixa solubilidade em água36.
Sua presença em matrizes ambientais é de grande preocupação
por causa de sua alta toxicidade, efeitos cancerígenos e persistência no
meio ambiente37. Por essa razão, foram listados pela Agência de Proteção
Ambiental dos Estados Unidos (U.S.EPA) e pela Comunidade Europeia
como poluentes ambientais prioritários e têm sido objeto de uma
investigação detalhada por mais de 30 anos38.

35
FERRARESE, Elisa; ANDREOTTOLA, Gianni; OPREA, Irina Aura. Remediation of PAH -
contaminated sediments by chemical oxidation. Journal of Hazardous Materials, n. 152, p. 128-139,
Figura 9.14: Detector acusando a presença de VOC na massa de solo escavado 2008.
durante uma Investigação de Passivo Ambiental. 36
Ferrarese, Andreottola e Oprea (2008).
37
Ferrarese, Andreottola e Oprea (2008).
38
Ferrarese, Andreottola e Oprea (2008).

192 193
Vale ressaltar que a Resolução CONAMA 420/09 é produto de
discussões de grupos distintos de especialistas, nas esferas federal e estadual,
mas que partiram de uma minuta inicial comum, elaborada pela Companhia
de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo/Brasil
(CETESB). É uma adaptação da Decisão de Diretoria nº 195-2005-E e da Lei
Estadual nº 13.577/99 do Estado de São Paulo, tendo como base as práticas
adotadas em países como Estados Unidos, Alemanha e Holanda39.

Figure 9.15: Estruturas e nomenclaturas dos 16 HPA prioritários estabelecidos


pela U.S.EPA Fonte: Moura (2009).

9.3 Norma aplicável para áreas contaminadas Tabela 9.1: Lista de valores orientadores de contaminantes típicos da gasolina
e do diesel para solos em áreas urbanas e águas subterrâneas da Resolução

No Brasil, a resolução CONAMA n° 420/09 dispõe sobre critérios e n°420/09 e Decisão de Diretoria n° 010/2006/CETESB.
nota: *Item 3.7, do Anexo V, a que se refere o artigo 1°, inciso V, da Decisão
valores orientadores de qualidade do solo quanto à presença de substâncias
de Diretoria n° 010/2006/CETESB.
químicas e estabelece diretrizes para o gerenciamento ambiental de áreas
contaminadas por essas substâncias em decorrência de atividades antrópicas 39
FUNDAÇÃO ESTADUAL DO MEIO AMBIENTE – FEAM. Feam divulga primeira lista de
(feitas pelo homem). A Tabela 1 mostra a lista de valores orientadores de áreas contaminadas do Estado de Minas Gerais. Disponível em: <http://www.feam.br/index.
php?option=com_content&task=view&id=354&Itemid=128>. Acesso em: 5 nov. 2010;
contaminantes típicos da gasolina e do diesel para solos em áreas urbanas CASARINI, Dorothy. Conama 420 e a Lei Estadual nº 13.577. Revista água e ambiente subterrâneo,
e águas subterrâneas da Resolução n°420/09. ano 3, n. 14, fev./mar. 2010.

194 195
9.4 Conceitos de Passivo Ambiental envolve um conjunto de procedimentos que visa levantar o histórico das
práticas adotadas pela empresa nos locais onde ela operou44.
Schianetz40 conceitua passivos ambientais como sendo deposições Nos Estados Unidos da América, o objetivo principal da investigação
antigas e sítios contaminados que produzem riscos para o bem-estar da de passivo ambiental é informar previamente a futuros proprietários de um
coletividade, segundo avaliação tecnicamente respaldada das autoridades empreendimento os problemas que poderão enfrentar em razão de alguma
competentes. degradação ambiental causada pelos proprietários atuais, ou seja, definir
Ainda segundo Sánchez41, passivo ambiental é o acúmulo de danos o custo ambiental que os compradores terão que arcar com a aquisição de
ambientais que devem ser reparados a fim de que seja mantida a qualidade uma empresa, empreendimento ou terreno, caso estejam contaminados45.
ambiental de determinado local. Em Natal, a iniciativa da 45ª Promotoria de Justiça do Meio Ambiente
Assim, conforme Lage42, passivo ambiental é alguma deficiência ou do Rio Grande do Norte em investigar os Passivos Ambientais em postos
problema existente nas áreas de segurança, saúde e proteção ambiental de revenda de combustíveis tem como foco principal a contaminação
cuja solução pode significar investimentos, ou mesmo, pode impedir a do aquífero (mais de 70% do abastecimento público provém da água
continuidade do negócio em avaliação. subterrânea). Durante essa investigação, o responsável pela operação do
Dessa forma, o passivo ambiental representa o sacrifício de benefícios posto tem arcado com os custos das medidas preventivas, de mitigação e
econômicos que serão realizados para a preservação, recuperação e de remediação de danos ambientais.
proteção do meio ambiente de forma a permitir a compatibilidade entre o
desenvolvimento econômico e o meio ecológico ou em decorrência de uma 9.4.2 Metodologia para investigação de
conduta inadequada em relação às questões ambientais43. Passivo Ambiental em Natal

9.4.1 Investigação de Passivo Ambiental No Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), firmado pelos donos
de postos de combustíveis com o Ministério Público do Rio Grande do
A Investigação de Passivo Ambiental (conhecido internacionalmente Norte, a cláusula referente à investigação de passivo ambiental e remediação
como due diligence) pode ser definida como “um conjunto de atividades de áreas degradadas tem por base algumas diretrizes do gerenciamento
voltado à identificação e avaliação de todos os problemas ambientais de áreas contaminadas estabelecidas pela Companhia de Tecnologia de
existentes em um empreendimento e que foram gerados no passado” e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), a saber:

• Avaliação Preliminar (AP);


40
1999 apud MOISA, R. Avaliação qualitativa de passivos ambientais em postos de serviço através • Investigação Confirmatória Detalhada (IC);
do método de análise hierárquica de processo. 2005. 157f. Dissertação (Mestrado em Ciências
em Engenharia de Processos Químicos) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia, Setor de
Tecnologia, Universidade Federal do Paraná, Belém, 2005.
44
Bitar e Ortega (1998 apud REIS, Fábio Augusto Gomes Vieira. Investigação do passivo ambiental.
41
(2001 apud MOISA, 2005). Disponível em: <http://www.rc.unesp.br/igce/aplicada/ead/estudos_ambientais/ea24.html>. Acesso
42
(2003 apud MOISA, 2005). em: 20 jan. 2012).
43
Moisa (2005).
45
Reis (2012).

196 197
• Relatório de Avaliação de Risco à Saúde Humana e ao Meio Ambiente, 9.4.2.1 Avaliação preliminar
como base na metodologia descrita na norma ASTM - Guide for Risk
Based Corrective Action at Chemical Release Sites (RBCA) para áreas Para a Cetesb46, a Avaliação Preliminar consiste na realização de
com problemas de contaminação por hidrocarbonetos derivados de um diagnóstico inicial das áreas potencialmente contaminadas, através
petróleo; de um levantamento das informações disponíveis sobre a área e do
• Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD). reconhecimento desta através de inspeções de campo, a fim de levantar
evidências e fatos que levem a suspeitar ou confirmar a contaminação na
O Fluxograma 1 apresenta as etapas da Investigação de Passivo área avaliada. Ou seja, a avaliação preliminar deve subsidiar a etapa da
Ambiental (IPA), as quais deveriam seguir o Termo de Referência emitido investigação confirmatória, pois estabelece um modelo conceitual inicial e
pela SEMURB. Além disso, os serviços deveriam ser acompanhados por indica a necessidade da adoção de medidas emergenciais na área.
peritos nomeados pelo Ministério Público (pesquisadores da UFRN). A princípio, a SEMURB tinha criado dois Termos de Referência para
Avaliação Preliminar, um para áreas sem restrições e outro para zonas de
proteção ambiental (ZPA). Adiante, segue uma breve descrição dos itens
previstos nestes termos de referência (TR).

• TR para áreas urbanas sem restrições: visitas ao local e entrevistas


para coleta de dados básicos da área, caracterização do entorno no
raio de 100 m, histórico das operações com combustíveis, eventos de
vazamentos, levantamento de estudos geológicos e hidrogeológicos.

• TR para Zonas de Proteção Ambiental (ZPA), nas quais se exigia,


além dos itens do primeiro, os métodos de screening qualitativo e
quantitativo. Os qualitativos correspondem à avaliação de VOC
no solo e ao índice de explosividade nas galerias subterrâneas –
Figuras 9.16 e 9.17. Já os métodos quantitativos compreendem
duas sondagens a trado – a jusante dos equipamentos – até 10 m de
profundidade, nos pontos de maior leitura de VOC, para coleta de
amostras de solo e/ou água subterrânea, para análises de BTEX, HPA
e TPH em laboratório – Figura 9.18.
Fluxograma 9.1: Etapas da Investigação de Passivo Ambiental (IPA).

46
CETESB. Manual de gerenciamento de áreas contaminadas / CETESB, GTZ. 2. ed. São Paulo:
CETESB, 2001.

198 199
Figura 9.17: Avaliação do índice de explosividade nas galerias subterrâneas pela Potigás -
Companhia Potiguar de Gás.

Figura 9.16: (A) Avaliação qualitativa dos gases do solo (VOC); Figura 9.18: (A) Sondagem a trado; (B) Coleta de solo;
(B) Avaliação do índice de explosividade nas galerias subterrâneas. (C) Coleta de água subterrânea com bailer.

200 201
Diante do cenário ambiental de vulnerabilidade do aquífero da deveriam ser encaminhadas para a Central de Análises da UFRN, localizado
cidade de Natal, já muito conhecido por sua contaminação por nitrato, no Núcleo de Processamento Primário e Reúso de Água Produzida e
o Ministério Público determinou que todos os postos revendedores de Resíduos (Nupprar – Figura 9.19A). A Central Analítica é um laboratório
combustíveis seguissem o Termo de Referência da SEMURB mais exigente regional, financiado pela Petrobras, que possui a infraestrutura necessária
para todos esses postos. Assim, a Avaliação Preliminar em Natal teve para a realização das análises químicas previstas no Termo de Referência
características não só de avaliação preliminar, mas também de investigação da SEMURB. As Figuras 9.19B e 9.19C apresentam os cromatógrafos
confirmatória, tomando como referência o gerenciamento de áreas disponíveis para análise de BTEX, HPA e TPH.
contaminadas da Cetesb.
O Termo de Referência da SEMURB orientava que a Investigação
de Passivo Ambiental deveria ser conduzida em áreas próximas a fontes
potenciais de contaminação, como tanques, bombas de abastecimento,
área de lavagem de veículos, caixa separadora, área de abastecimento, área
de carregamento, área de descarregamento, área de troca de óleo, filtro de
diesel e tubulações, essas deveriam ser consideradas ainda no planejamento
e na execução da investigação detalhada. Levou-se em consideração,
também, o histórico de operação da área e de alterações no layout que
tenham ocorrido no passado, onde existisse a possibilidade de terem sido
desenvolvidas atividades de armazenamento e manejo de combustíveis,
lubrificantes ou outras substâncias.
E a etapa de investigação confirmatória encerraria o processo de
identificação da área como contaminada. Cujo objetivo principal é confirmar
ou não a existência de contaminação e verificar a necessidade da realização
de uma investigação detalhada nas áreas suspeitas, identificadas na etapa
de avaliação preliminar47. A confirmação da contaminação em uma área
dá-se basicamente pela tomada de amostras e análises de solo e/ou água
subterrânea, em pontos estrategicamente posicionados (ibid, 2001).

9.4.2.1.1 Laboratório

Assim, por determinação do Ministério Público, as amostras de solo Figura 9.19: (A) Nupprar; (B) Cromatógrafo gasoso, Trace GC Ultra da Thermo Electron
e água subterrânea coletada nos postos revendedores de combustíveis Corporation para análise de BTEX; (C) Cromatógrafo Gasoso, Focus GC da Thermo
47
CETESB (2001).
Electron Corporation para análise de HPA e TPH.

202 203
Antes de chegar ao Laboratório da Central de Análises, as amostras de que uma área está contaminada. Essa etapa é a primeira do processo
(de solo ou água) são identificadas ainda em campo, através de um Termo de de recuperação de áreas contaminadas, pois nela será necessário definir
Custódia, que compreende a documentação das informações relacionadas as medidas que deverão ser adotadas, para resguardar de imediato os
a cada amostra coletada para propósitos analíticos48. As informações possíveis receptores de risco (população, meio ambiente e bens a proteger,
incluem nome do posto e localização, número do projeto, data da coleta, como poços de abastecimento públicos) identificados no entorno da área.
especificações das amostras, tipo de análise requisitada, bem como as Estas medidas poderão ser50:
condições climáticas durante a coleta. Essas informações serão geradas no
site do registro de entrada de amostras do NUPPRAR. • isolamento da área;
• restrição de uso do solo;
• restrição de consumo de águas superficiais ou subterrâneas;
• remoção imediata de resíduos, solos contaminados ou gases do
subsolo;
• monitoramento ambiental;
• monitoramento de explosividade.

A semelhança entre as etapas de Investigação Confirmatória e de


Investigação Detalhada é que ambas possuem coleta de amostras de solo
e de água subterrânea para análises em laboratório, porém, o objetivo da
primeira é apenas confirmar a presença de contaminação na área suspeita,
enquanto o da segunda é quantificar a contaminação.
Na Investigação Detalhada da área contaminada, aumenta-se
Figura 9.20: Modelo de custódia das amostras. o número de sondagens a trado para coletas de amostras de solo e se
instalam poços de monitoramento para coleta de água, a fim de delimitar
9.4.2.2 Investigação confirmatória detalhada tridimensionalmente as plumas de contaminação no meio físico (fase
retida do contaminante no solo, fase livre de combustíveis sobrenadante no
Para Cetesb49, a Investigação Detalhada ocorre após a confirmação aquífero e fase dissolvida na água subterrânea) a partir das concentrações
das substâncias químicas de interesse (Resolução CONAMA nº 420),
e avaliar a necessidade de adoção de medidas de intervenção (como a
48
SAUBER SYSTEM AMBIENTAL. POP–004/SERV: amostragem de água subterrânea de poço de remoção da fase livre). A Figura 9.21 apresenta a representação gráfica das
monitoramento. Disponível em: <http://www.saubersystem.com.br/formulario.pdf>. Acesso em: 9
mar. 2012.
49
CETESB. 8000 Investigação Detalhada. Manual de gerenciamento de áreas contaminadas /
CETESB-GTZ. 2004. Disponível em: <http://www.cetesb.sp.gov.br/solo/areas_contaminadas/
Capitulo_VIII.pdf>. Acesso em: 9 mar. 2012. 50
Cetesb (2004).

204 205
plumas de contaminação na área de um posto revendedor de combustível presentes e futuros à saúde e segurança pública, ao meio ambiente e outros
utilizando um software CAD. bens a proteger52.
Com base nos resultados obtidos da investigação confirmatória
detalhada, deverá ser elaborado um modelo conceitual consolidado que
considere as características das fontes primárias de contaminação, dos
receptores, dos cenários de exposição (Figura 9.22) e das medidas de
intervenção a serem implantadas (Termo de Referência da SEMURB, 2010);
devendo ser representada no modelo conceitual a situação determinada
após a realização da investigação detalhada e a situação esperada após a
aplicação das medidas de intervenção a serem implantadas e definidas no
plano de intervenção53.

Figura 9.21: Representação gráfica das plumas de contaminação de Benzeno nas fases
retida e dissolvida, bem como a fase livre, na área de um posto revendedor.

Ou seja, nesta etapa, deve-se buscar a compreensão dos seguintes


aspectos: a geologia e a hidrogeologia regional e local; a natureza e a extensão
da contaminação; a evolução da contaminação no tempo e no espaço (ex.:
taxa de propagação dos contaminantes aos poços de abastecimento público);
e as rotas de migração de contaminantes, vias de exposição e receptores de
risco51. Tem como finalidade subsidiar a avaliação de risco e a remediação, Figura 9.22: Exemplo de um modelo conceitual para sites.
através da concepção de um projeto tecnicamente adequado, legalmente Fonte: The Oklahoma Corporation Commission (2012).
cabível e viável, para cada caso de contaminação, visando prevenir danos

52
Cetesb (2004).
51
Cetesb (2004). 53
SEMURB (2010).

206 207
9.4.2.3 Investigação confirmatória complementar

Para complementar a investigação do passivo ambiental nas etapas


de avaliação preliminar e investigação confirmatória detalhada, coletas de
solo e água foram realizadas nas cavas de tanques removidos, bem como
nas caixas separadoras de água e óleo, relatados a seguir.

9.4.2.3.1 Coleta de solo em cavas de tanques removidos

Quando tanques de armazenamento subterrâneo de combustíveis


apresentam vazamentos, devem ser desativados e removidos, após serem
Figura 9.24: Remoção de Tanque.
inertizados com nitrogênio (Figura 9.23 e 9.24) e substituídos por tanques
novos (a norma ABNT NBR 14973/2003 estabelece os procedimentos para
Para o processo de remoção de tanques subterrâneos, é necessária
remoção de tanques). A coleta de amostras na cava de tanques removidos
a realização de pelo menos 9 medições de gases para cada cava de tanque
(Figura 9.26) é uma ótima oportunidade para confirmar a contaminação
removido, de acordo com os seguintes critérios54:
no solo através de métodos de screening qualitativo (in loco - Figura 9.27) e
quantitativo (em laboratório - Figura 9.28).
• 1 ponto de medição de gases a meia altura e meia largura da cava
em cada extremidade do tanque (calota);
Cilindro • 4 pontos de medição de gases, sendo dois em cada parede lateral, a
de meia altura, alinhados com os pontos de carga (enchimento) e sucção
nitrogênio (saída de produto);
• 3 pontos de medição no fundo da cava, sendo um na projeção do
ponto de carga e o outro na projeção do ponto de sucção e 1 no meio.

A Figura 9.25 indica a localização dos pontos de medição.

54
______. Termo de referência para Desativação, Remoção de Tanques e Desmobilização de Sistema
de Armazenamento e Abastecimento de Combustíveis. Dispõe sobre diretrizes e procedimentos
a serem adotados na remoção de tanques e na desmobilização de Sistema de Armazenamento e
Abastecimento de Combustível em postos ou sistemas retalhistas de combustíveis. Natal: SEMURB,
Figura 9.23: Tanques sendo inertizados com N2 para posterior remoção. 2010c.

208 209
Figura 9.25: Indicação dos pontos de medição de gases na cava do tanque.

Caso seja constatada a presença de produto (combustível ou


óleo lubrificante) no solo ou sobrenadante na água eventualmente Figura 9.27: Análise de VOC em amostras de solo da cava de tanques removidos.
presente no interior da cava, é suficiente para que a área seja declarada
contaminada. Nessa situação, deve ser efetuada a recuperação do produto
e, concomitantemente, realizada a investigação detalhada da área55

Figura 9.26: Coleta de solo na cava de tanques.


55
SEMURB (2010c). Figura 9.28: Amostras que serão envasadas e encaminhadas para laboratório.

210 211
9.4.2.2.1.2 Coleta de água na caixa separadora
de água e óleo (SAO)

Quando o combustível é derramado na pista de abastecimento, ou na


área de descarga de combustíveis, ou na existência de efluentes de lavagem
de veículos contaminados com óleo lubrificante, estes são direcionados
para a caixa SAO, cuja finalidade é separar a água e o óleo, antes do descarte
desses efluentes, evitando a contaminação do solo. O efluente de saída
da caixa SAO deve estar dentro dos limites da Resolução CONAMA 357
(óleos minerais = 20 mg.L-1) e devem passar por manutenções periódicas
a fim de assegurar o desempenho do funcionamento do sistema. A
limpeza e a manutenção dessas caixas devem ser realizadas por empresa
especializada – que realiza a sucção dos efluentes líquidos através de um
caminhão autovácuo – e devidamente licenciada para a atividade, a qual
dará destinação final adequada aos resíduos contaminados com óleo56.
Assim, um dos procedimentos complementares adotados na
investigação de passivo em Natal foi a coleta do efluente de saída da caixa
SÃO, com vistas a verificar o seu desempenho.

Figura 9.29: Efluente na caixa SAO (caixa separadora de água/óleo).

56
RGE: Gestão Ambiental. Prevenção à poluição: manutenção das caixas separadoras de água e
óleo. Disponível em: <http://www.rge-rs.com.br/gestao_ambiental/noticias/noticia67.asp>. Acesso
em: 13 mar. 2012. Figura 9.30: Coleta de água na saída da Caixa SAO.

212 213
9.4.2.3 Análise de risco à saúde humana CONTAMINAÇÃO 1 VIA DE EXPOSIÇÃO 1 RECEPTORES

Áreas contaminadas muitas vezes apresentam riscos toxicológicos


e cancerígenos às pessoas situadas no seu entorno, os quais devem ser
quantificados. Com o adensamento e proximidade de núcleos urbanos e
industriais, torna-se necessária uma fiscalização mais efetiva por parte dos
órgãos ambientais em relação às áreas contaminadas e ao potencial risco à
saúde das pessoas que estão em suas proximidades57.
A estatística mundial mostra que 1/4 da população venha desenvolver
câncer naturalmente, ou seja, 0,25. O risco adicional conservador considera
a probabilidade de ocorrência de câncer de 10-6 (ou seja, 1 caso adicional
de câncer para 1 milhão de habitantes exposta a uma determinada área
contaminada), ou seja, 0,25000158. Para Santos59, o risco potencial à saúde,
devido a um efeito carcinogênico, existirá quando este for maior que 10-6.
Para que uma população esteja exposta ao risco, devem existir três
condições: contaminação, via de exposição e receptores – eliminando uma
dessas condições, o risco deixará de existir. Figura 9.31: Condições para existência do risco.
Fonte: Maximiano (2011).

Assim, o processo de Avaliação de Risco Toxicológico qualitativo


e/ou quantitativo determina as chances de ocorrência de efeitos adversos
à saúde, decorrentes da exposição humana a áreas contaminadas por
substâncias perigosas60. Sendo este um procedimento tecnicamente
defensável e conceitualmente sustentável voltado para o desenvolvimento
de metas de remediação para áreas contaminadas que protejam a saúde
humana e que seja aplicável técnica e financeiramente61. Defensável e
57
INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS – IPT. Análise de risco à saúde humana em
áreas contaminadas. Disponível em: <http://www.ipt.br/solucoes/97-analise_de_risco_a_saude_
sustentável porque envolve várias áreas de conhecimentos, evidenciados
humana_em_areas_contaminadas.htm>. Acesso em: 12 abr. 2012. na Figura 9.32, para respaldar a Avaliação de Risco.
58
MAXIMIANO, Alexandre Magno de Sousa. Avaliação de Risco a Saúde Humana. In:
[WORKSHOP]. A problemática de Passivo Ambiental em Postos de Revenda de Combustíveis:
como abordar. Natal, 2011.
59
SANTOS, Míriam dos Anjos. Avaliação de risco à saúde humana por exposição ambiental a
hidrocarbonetos aromáticos monocíclicos: estudo de caso. Dissertação (Mestrado em Ciências da 60
U.S.EPA (1989 apud MAXIMIANO, 2011).
Saúde) - Universidade de Brasília, Distrito Federal, 2009. 61
Maximiano (2011).

214 215
estratégias de ação corretiva que categorize áreas contaminadas de acordo
com o risco e estabelece metas de remediação com níveis adequados de
ação e fiscalização64. Em síntese, essa ferramenta ajuda a:

• identificar as vias de exposição e receptores em um site (área


contaminada);
• categorizar os sites segundo o risco;
• determinar o nível e a urgência da resposta necessária em um local;
• determinar o nível de supervisão adequada de um site;
• incorporar a análise de risco em todas as fases do processo de ação
corretiva;
Figura 9.32: Abordagem científica que sustentam a avaliação de risco. • selecionar medidas corretivas apropriadas e de baixo custo de
Fonte: Maximiano (2011). adoção.

A determinação e caracterização do risco são feitas pela análise das Um alerta que o Governo do Michigan/EUA faz é que o RBCA não é
informações relativas à área contaminada, pela avaliação da exposição um substituto de medidas corretivas, mas uma ferramenta para determinar
(estimativa da magnitude, frequência e duração da exposição, rotas e vias a quantidade e a urgência de medidas necessárias; e também não deve ser
de exposição), pela avaliação da toxidade (existência de efeitos adversos à manipulado para justificar a falta de ação em uma área contaminada ou
saúde como câncer, não câncer e efeitos sobre o desenvolvimento) e pela para economizar dinheiro65.
caracterização do risco (tolerável ou não)62. No Brasil, a CETESB estabeleceu um procedimento padrão para
O método para avaliação de risco, mundialmente empregado em Ação Corretiva Baseada no Risco em áreas contaminadas por derivados
cenários com vazamento de hidrocarbonetos de petróleo, é o RBCA (do de petróleo na região de São Paulo, baseado nas normas ASTM. Isso foi
inglês Risk Based Corrective Action, ou Ação Corretiva Baseada no Risco- feito a fim de que os dados não fossem manipulados para favorecer o
ACBR), desenvolvido pela agência americana ASTM (American Society for poluidor. Assim, o procedimento adotado pela CETESB considera dados
Testing and Materials) e descrito nas normas ASTM E1739/95 (Standard regionais e meta de risco de 10-5, ou seja, aceita-se o risco de que 1 em cada
Guide for Risk-Based Corrective Action/RBCA Applied at Petroleum 100.000 habitantes sofra algum efeito adverso à saúde devido à exposição
Release Sites) e ASTM E1912/98 (Standard Guide for Accelerated Site à contaminação. Já em Natal / RN, utilizando o software RBCA, foram
Characterization for confirmed or Suspected Petroleum Releases)63. considerados dados locais para cada posto de combustível analisado e a
Assim, a Ação Corretiva Baseada no Risco à saúde humana são
64
GOVERNMENT OF MICHIGAN. Introduction to Risk-Based Corrective Action - RBCA.
Disponível em: <http://www.michigan.gov/deq/0,1607,7-135-3311_4109_4215-17592--,00.html>.
Santos (2009).
62 Acesso em: 26 jan. 2012.
Santos (2009).
63 65
Government of Michigan (2012).

216 217
meta de risco foi mais restrita, de 10-6, cujos relatórios de análise de risco
foram avaliados por peritos do Ministério Público.
Nesse procedimento, a quantificação do risco à saúde humana, bem
como no estabelecimento de metas de remediação, são realizadas por
meio da integração das características dos contaminantes (mobilidade,
solubilidade, volatilização etc.), do meio impactado (porosidade, gradiente
hidráulico, condutividade hidráulica etc.), dos meios de transporte (água
subterrânea, solo superficial, solo subsuperficial e ar), das vias de ingresso
(ingestão, inalação e cutânea) e das populações potencialmente receptoras
(massa corpórea média, expectativa de vida etc.)66.
Os cenários de exposição considerados no procedimento ACBR/
CETESB e que também são considerados no RBCA/ASTM, são: Figura 9.33: Inalação, em Ambientes Abertos, de Vapores Provenientes
do Solo Subsuperficial. Fonte: CETESB (2012).
• Inalação, em Ambientes Abertos, de Vapores Provenientes do Solo
Subsuperficial (Figura 9.33);
• Inalação, em Ambientes Fechados, de Vapores provenientes do
Solo Subsuperficial (Figura 9.34);
• Inalação, em Ambientes Abertos, de Vapores provenientes da Água
Subterrânea (Figura 9.35);
• Inalação, em Ambientes Fechados, de Vapores provenientes da
Água Subterrânea (Figura 9.36);
• Ingestão, Contato Dérmico e Inalação de Vapores e Partículas, a
partir do Solo Superficial Contaminado (Figura 9.37);
• Ingestão de Água Subterrânea Contaminada a partir da Lixiviação
do Solo Subsuperficial (Figura 9.38);
• Ingestão de Água Subterrânea Contaminada (Figura 9.39);
• Contato Dérmico com Água Subterrânea Contaminada a partir da
Lixiviação do Solo Subsuperficial (Figura 9.40).

66
CETESB. Ações corretivas baseadas em risco (ACBR) aplicadas a áreas contaminadas com
hidrocarbonetos derivados de petróleo e outros combustíveis líquidos: procedimentos. Disponível Figura 9.34: Inalação, em Ambientes Fechados, de Vapores provenientes
em: <http://www.cetesb.sp.gov.br/solo/areas_contaminadas/acbr.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2012. do Solo Subsuperficial. Fonte: CETESB (2012).

218 219
Figura 9.35: Inalação, em Ambientes Abertos, de Vapores provenientes Figura 9.37: Ingestão, Contato Dérmico e Inalação de Vapores e Partículas,
da Água Subterrânea. Fonte: CETESB (2012). a partir do Solo Superficial Contaminado. Fonte: CETESB (2012).

Figura 9.36: Inalação, em Ambientes Fechados, de Vapores provenientes Figura 9.38: Ingestão de Água Subterrânea Contaminada a partir da Lixiviação
da Água Subterrânea. Fonte: CETESB (2012). do Solo Subsuperficial. Fonte: CETESB (2012).

220 221
9.4.2.4 Remediação de áreas contaminadas

Segundo a CETESB67, o objetivo da etapa de investigação para


remediação é selecionar, dentre as várias opções de técnicas existentes,
aquelas, ou a combinação destas, que são possíveis, apropriadas e legalmente
permissíveis para o caso considerado. Para a realização dessa etapa, devem
ser desenvolvidos os seguintes trabalhos:

• levantamento das técnicas de remediação;


• elaboração do plano de investigação;
Figura 9.39: Ingestão de Água Subterrânea Contaminada. • execução de ensaios piloto em campo e em laboratório;
Fonte: CETESB (2012).
• realização de monitoramento e modelagem matemática;
• interpretação dos resultados;
• definição das técnicas de remediação.

A partir dos objetivos da remediação definidos pela Avaliação


Baseada no Risco à Saúde Humana, devem ser selecionadas as técnicas de
remediação mais adequadas, entre as várias existentes68.
Em seguida, deve ser estabelecido um plano de investigação,
necessário para a implantação e execução de ensaios piloto em campo
e em laboratório que podem ser realizados para testar a adequabilidade
de cada uma das técnicas para conter ou tratar (reduzir ou eliminar) a
contaminação, avaliar a eficiência e a confiabilidade das técnicas, além de
considerar aspectos legais e ambientais, custos e tempo de implantação e
operação69.

67
(2010 apud SILVA, Márcio Henrique Cabral. Estudo da eficiência do tratamento eletroquímico em
água subterrânea contaminada por vazamentos de derivados de petróleo de um posto revendedor
de combustíveis em Natal/RN. 60f. Dissertação (Mestrado em Ciência e Engenharia de Petróleo) –
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2011).
Figura 9.40: Contato Dérmico com Água Subterrânea Contaminada a partir 68
Cetesb (2010 apud SILVA, 2011).
da Lixiviação do Solo Subsuperficial. Fonte: CETESB (2012). 69
CETESB (2010).

222 223
9.4.2.4.1 Técnicas de remediação de solo e águas subterrâneas

Segundo a U.S.EPA70, existem alguns princípios fundamentais


quando se trata de seleção de tecnologias de ação corretiva:

1º) os objetivos primários em qualquer local onde ocorreu vazamento


de petróleo são: interromper imediatamente a continuidade do
vazamento, tomar medidas para garantir que ele não irá recorre, e
recuperar emergencialmente a fase livre na subsuperfície do solo;
2º) não existe um remédio “presumível”. A seleção de uma tecnologia
de medidas corretivas adequadas é uma decisão específica do local e
pode haver mais de uma tecnologia que poderia ser apropriada para
um determinado local;
3º) uma tecnologia apropriada é aquela voltada totalmente à
proteção à saúde humana e ao meio ambiente e cumpre os objetivos
de remediação do local dentro de um prazo razoável;
4º) os dados essenciais de uma área contaminada específica só pode
ser derivada de uma avaliação abrangente desta.

Assim, algumas tecnologias alternativas de limpeza surgiram como


opção ao bombeamento e tratamento (processo físico de extração de águas
subterrâneas contaminadas de zona saturada e tratamento ex situ, ou seja,
fora do local) e escavação e eliminação do solo, e têm se mostrado eficazes71.
Tais técnicas estão descritas no Quadro 9.1.

70
U.S. ENVIRONMENTAL PROTECTION AGENCY - U.S.EPA. Remediation/Cleanup
Technologies. Disponível em: <http://www.epa.gov/oust/cat/REMEDIAL.HTM>. Acesso em: 10
fev. 2012a.
71
Adaptado de U.S.EPA (2012a).

224 225
Tabela 9.2: Descrição das técnicas de remediação de áreas contaminadas e suas aplicações.
Fonte: U.S.EPA (2012b; 2012c; 2012d; 2012e; 2012f; 2012g; 2012h; 2012i; 2012 j; 2012l; 2012n; 2012m).

226 227
Figura 9.41: Extração de vapor do solo – SVE Fonte: Silva (2011). Figura 9.43: Biopilhas Fonte: U.S.EPA (2012d).

Figura 9.42: Bioaeração Fonte: U.S.EPA (2012c). Figura 9.44: Landfarming Fonte: U.S.EPA (2012e).

228 229
Figura 9.45: Dessorção térmica a baixa temperatura Fonte: U.S.EPA (2012f). Figura 9.47: Sistema Biosparging com SVE Fonte: U.S.EPA (2012h).

Figura 9.46: Sistema Air Sparging com SVE Fonte: U.S.EPA (2012g). Figura 9.48: Atenuação Natural Monitorada – ANM Fonte: REMAS (2011).

230 231
Figura 9.49: Sistema de Biorremediação in situ em águas subterrâneas Fonte: U.S.EPA (2012j). Figura 9.51: Sistema típico de biorremediação aeróbia aprimorada usando compostos que
liberam oxigênio. Fonte: U.S.EPA (2012m).

Figura 9.50: Sistema de Extração Multifásica com Única Bomba Fonte: U.S.EPA (2012l). Figura 9.52: Oxidação química in situ Fonte: Regenesis (2012).

232 233
9.5 Conclusões

Até o primeiro semestre de 2012, foi possível realizar um levantamento


parcial da atual situação dos 110 postos revendedores de combustíveis
investigados em Natal quanto ao passivo ambiental.
Através da Investigação Preliminar de Passivo Ambiental e da análise
de Fundo de Cava, 37% (41 postos) apresentaram indícios de contaminação,
levando-os a uma segunda etapa, isto é, a necessidade de uma Investigação
Confirmatória Detalhada. Assim, 41 postos foram para a fase 2, dos quais
5 apresentaram fase livre (Figura 9.53A e 9.53B). A remoção de fase livre
é de carater emergencial e pretere a análise de risco, pois enquanto estiver
presente será a garantia da contínua contaminação do aquífero. Dessa
forma, 3 postos já iniciaram a remoção da fase livre em Natal (Figura 9.54).

Figura 9.54: Sistema de extração multifásica para bombeamento de fase livre e remediação
de águas subterrâneas e solos contaminados.
Figura 9.53: Presença de fase livre em poços de monitoramento de um
posto revendedor de combustíveis.
No que diz respeito à Investigação Confirmatória Detalhada, dos
41 postos revendedores de combustíveis, 20 postos foram para a terceira

234 235
fase (Análise de Risco à Saúde Humana) e 14 terão que remediar a área • O pesquisador Raoni Batista dos Anjos está desenvolvendo, em sua
contaminada. Vale lembrar que esse número pode aumentar de acordo dissertação de mestrado, uma avaliação dos sistemas separadores de
com o andamento da investigação. água e óleo em postos revendedores de combustíveis.
O trabalho desenvolvido pelo Ministério Público em parceria com a
• A pesquisadora Adriana Margarida Zanbotto Ramalho está com
UFRN possibilitou, além do cadastro de áreas contaminadas no município,
a tese de doutorado em andamento, na qual descreve as etapas de
a educação ambiental e mudanças de atitudes dos empresários, bem como
investigação de passivo ambiental em um dos postos revendedores
ampliou a produção acadêmica da UFRN, sem expor os proprietários e
de combustíveis mais contaminados da cidade de Natal, em que há
seus respectivos empreendimentos. Assim, sob a orientação do professor
presenças de fases livres de diesel e gasolina.
Dr. Djalma Ribeiro da Silva, do Programa de Pós-Graduação em Ciência
e Engenharia de Petróleo, algumas pesquisas foram ou estão sendo • A pesquisadora Rayana Hozana Bezerril está aprimorando, em sua
desenvolvidas em nível de mestrado e doutorado tendo a Investigação de tese de doutorado, a técnica de remediação com tensoativos em solos
Passivo Ambiental, Análise de Risco e Remediação como temas. A seguir, contaminados por hidrocarbonetos de petróleo, com a colaboração
citamos algumas dessas pesquisas. da professora Dr. Tereza Neuma de Castro Dantas (Presidente do
Conselho Regional de Química do Rio Grande do Norte).
• O pesquisador Eduardo Philipp Medeiros Coelho avaliou a
correlação entre análise granulométrica e elementos tóxicos (metais • E a pesquisadora de doutorado Cláudia Aparecida Cavalheiro
pesados) em solo, oriundos da contaminação de um posto de serviço Francisco (Professora de Engenharia de Produção da UFRN) está
e revenda de combustíveis em Natal/RN. desenvolvendo um algoritmo para apontar as causas que levaram
os postos de combustíveis para a segunda fase da investigação de
• O pesquisador Hércules Lisboa de Aquino Sobrinho propôs o uso
passivo ambiental.
do software CAD como ferramenta para interpretação de cenários

ambientais de contaminação. Para isso, executou o design gráfico de
Por fim, este trabalho representou para nós uma forma de dialogar
um posto revendedor de combustíveis em Natal e a representação da
mais abertamente com a sociedade, dando-nos a oportunidade de retribuí-
sua pluma de contaminação.
la, pesquisando cientificamente a situação da contaminação do subsolo e
• O pesquisador Márcio Henrique Cabral da Silva estudou a eficiência do aquífero pelos postos revendedores de combustíveis de Natal / RN e
do tratamento eletroquímico em água subterrânea contaminada por sugerir alternativas de remediar tal situação.
vazamentos de derivados de petróleo de um posto revendedor de
combustíveis em Natal/RN.

• A pesquisadora Verushka Symonne de Medeiros Lopes fez uma


avaliação preliminar da contaminação da água subterrânea em poços
tubulares, por combustíveis fósseis, no município de Natal/RN.

236 237
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244 245
10
Noções sobre metrologia

Walter Link1
Luiz Pedro de Araújo2

10.1 O que é metrologia

Figura 10.1: Um desafio para a metrologia


Fonte: <historiadomundo.com.br>. Acesso em: 5 abr. 2012.

1
Engenheiro Mecânico, Professor Visitante da UFRN, atua há 35 anos como pesquisador do
Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT do Estado de São Paulo na área de metrologia mecânica.
2
Professor Adjunto do Departamento de Engenharia Mecânica da UFRN, chefe do Laboratório de
Metrologia desde 1981.
Conforme o Vocabulário Internacional de Metrologia3: 10.2 Um pouco de história

“METROLOGIA É A CIÊNCIA DA MEDIÇÃO” Há 4.000 anos, como fazia o homem para medir comprimentos?
Abrange todos os aspectos teóricos e práticos relativos às medições, Como construíram a pirâmide de Quéops?
qualquer que seja a incerteza, em quaisquer campos da ciência ou da tecnologia. As unidades de medidas primitivas estavam baseadas em partes do
corpo humano, que eram referências universais, pois ficava fácil chegar a uma
medida que podia ser verificada por qualquer pessoa. Foi assim que surgiram
medidas padrão, como a polegada, o palmo, o pé, a jarda, a braça e o passo.
Em geral, essas unidades eram baseadas nas medidas do corpo do rei,
sendo que tais padrões deveriam ser respeitados por todas as pessoas que,
naquele reino, fizessem as medições. Há cerca de 4.800 anos, os egípcios
usavam como padrão de medida de comprimento o cúbito: distância do
cotovelo à ponta do dedo médio.

Figura 10.2: Rumo ao futuro. Fonte: <iplay.com.br>. Acesso em: 5 abr. 2012.

Isso seria possível sem a Metrologia?

Quando você pode medir aquilo de que fala e expressar em números,


você sabe alguma coisa sobre isso. Mas, quando você não pode medir,
quando você não pode expressar em números, o seu conhecimento é
limitado e insatisfatório – Sir William Thomson, Lord Kelvin – 1883.
Figura 10.3: Padrões ancestrais.
Fonte: <emcastelobranco.vilabol.uol.com.br>; <ebah.com.br>;
3
VIM – Vocabulário Internacional de Metrologia: conceitos fundamentais e gerais e termos <fisicamoderna.blog.uol.com.br>; <edsolique.com.br>. Acesso em: 5 abr. 2012.
associados. 1ª Edição Brasileira. Rio de Janeiro, 2009.

248 249
O “cúbito” ou “côvado” é uma das unidades de medida mais antigas
das quais se tem notícia, utilizada no velho Egito há cerca de 50 séculos e
definida pelo comprimento do braço medido do cotovelo à extremidade
do dedo médio distendido. Tendo por padrão o “cúbito real”, o “cúbito”
(equivalente a pouco mais de 0,5 metros) é dividido em 28 dedos, cinco
dedos constituíam a mão e doze dedos formam um vão. O primeiro dos
dedos era subdividido em 2 partes iguais, o segundo em 3, o terceiro em 4
e assim por diante até o décimo quinto dedo que continha 16 subdivisões,
cada uma entendida como a menor subunidade de comprimento. Assim,
um “cúbito” continha 28 x16= 448 dessas subdivisões e permitia a medida
de, no mínimo, 1/448 do “cúbito” (pouco mais de 1 milímetro).
Como as pessoas têm tamanhos diferentes, o cúbito variava de uma
pessoa para outra, ocasionando grandes confusões nos resultados das
medidas. Para serem úteis, era necessário que os padrões fossem iguais para
todos. Diante desse problema, os egípcios resolveram criar um padrão único: Figura 10.4: A toise
em lugar do próprio corpo, eles passaram a usar em suas medições barras de Fonte: <m.fr.geneawiki.com>. Acesso em: 5 abr. 2012.
pedra com o mesmo comprimento. Foi assim que surgiu o cúbito-padrão.
Com o tempo, as barras passaram a ser construídas de madeira para Entretanto esse padrão também foi se desgastando com o tempo e
facilitar o transporte. Como a madeira logo se gastava, foram gravados teve que ser recuperado.
comprimentos equivalentes a um cúbito-padrão nas paredes dos principais A única medida internacional exata era o grau de ângulo. Em 1670,
templos. Desse modo, cada um podia conferir periodicamente sua barra ou um padre francês propôs à Academia Francesa de Ciências, fundada quatro
mesmo fazer outras, quando necessário. Nos séculos XV e XVI, os padrões anos antes, a adoção de uma unidade de comprimento chamada “virga”,
mais usados na Inglaterra para medir comprimentos eram a polegada, o pé, equivalente a um minuto de ângulo de um meridiano terrestre. Em 1671,
a jarda e a milha. o abade Jean Picard propôs como padrão o comprimento de um pêndulo
Na França, no século XVII, ocorreu um avanço importante na simples com período de um segundo.
questão de medidas. A toise, que era então utilizada como unidade de Em 1774, o Ministro da Economia, chamado Turgot, encomendou à
medida linear, foi padronizada em uma barra de ferro com dois pinos Academia um sistema coerente e um plano para sua implantação.
nas extremidades, chumbada na parede externa do Grand Chatelet, nas Em 1790, com a Revolução Francesa, os Estados Gerais decidiram
proximidades de Paris. pela criação de um sistema único de pesos e medidas. A ideia era estabelecer
Dessa forma, assim como o cúbito-padrão e o côvado, cada interessado uma unidade natural, isto é, que pudesse ser encontrado na natureza e,
poderia conferir seus próprios instrumentos. Uma toise era equivalente a assim, ser facilmente copiada, constituindo um padrão de medida.
seis pés, aproximadamente, 1949 mm. Havia também outra exigência para essa unidade: ela deveria ter seus

250 251
submúltiplos estabelecidos segundo o sistema decimal. Note-se que o sistema Em dezembro de 1792, a Academia criou um padrão provisório
decimal já havia sido inventado na Índia, quatro séculos antes de Cristo. usando as medidas do meridiano disponíveis, e, finalmente, a 29 de maio
No dia 27 de outubro de 1790, a comissão de cientistas decidiu que de 1793, o padrão de distância foi apresentado com o nome de metro,
o novo sistema de medidas e o sistema monetário seriam decimais. Em nome derivado do latim metru, que significa “uma medida” e do termo
fevereiro de 1791, uma nova comissão decidiu criar uma medida baseada grego metron, que significa “medir”.
na extensão da metade do meridiano terrestre. O projeto foi sancionado em Em 1795, foi promulgada uma lei proibindo a fabricação de
março, ordenando que fosse medida a distância entre Dunkerque (França) e produtos usando as medidas antigas e impondo o metro como unidade de
Barcelona (Espanha) equivalente a 9,5° do meridiano, a décima milionésima comprimento, o are como medida de superfície, o estéreo e o litro como
parte dessa distância seria o padrão de comprimento, os astrônomos medidas de volume, o grama como medida de massa e o franco como
franceses Delambre e Mechain foram incumbidos de medir o meridiano. moeda.
Em 1798, as medidas do meridiano de Dunkerque a Montjuich foram
concluídas e, ao final, feitos os cálculos, chegou-se a uma distância que foi
materializada em uma barra de platina de secção retangular 4,05x25 mm.
O comprimento dessa barra era equivalente ao comprimento da unidade
padrão metro, que assim foi definido (o metro dos arquivos):

Metro é a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre.

Com o desenvolvimento da ciência, verificou-se que uma medição


mais precisa do meridiano fatalmente daria um metro um pouco diferente.
Assim, a primeira definição foi substituída por uma segunda:

Metro é a distância entre os dois extremos da barra de platina depositada nos


Arquivos da França e apoiada nos pontos de mínima flexão na temperatura
de zero grau Celcius.

O material, relativamente mole, poderia se desgastar, além da barra


Figura 10.5: Referência para determinar o METRO.
Fonte: Nobuo Suga. Metrologia Dimensional: A ciência da medição: Mitutoyo. não ser também suficientemente rígida.

252 253
Para aperfeiçoar o sistema, fez-se outro padrão, que recebeu: A partir de 1983, de acordo com a decisão da 17ª Conferência Geral
– uma seção transversal em X, para ter maior rigidez; dos Pesos e Medidas, o metro foi definido como sendo a distância que a luz
– uma adição de 10% de irídio, para tornar seu material estável; percorre no vácuo durante um intervalo de 1/299.792.458 de segundo. Essa
– dois traços em seu plano neutro, de forma a melhorar a leitura. nova definição não altera em termos de comprimento o padrão atual, apenas
o define com maior exatidão.

Figura 10.6: Metro dos arquivos.


Fonte: <obaricentrodamente.blogspot.com>. Acesso em: 10 maio 2012.

Assim, em 1889, surgiu a terceira definição:

Metro é a distância entre os eixos de dois traços principais marcados na


Figura 10.7: Reprodução do padrão de comprimento.
superfície neutra do padrão internacional depositado no B.I.P.M. (Bureau
Internacional des Poids et Mésures), na temperatura de zero grau Celcius,
sob uma pressão atmosférica de 760 mmHg e apoiado sobre seus pontos de O Brasil adotou o metro oficialmente a partir de 26 de junho de 1862,
mínima flexão. por meio da Lei Imperial número 1.157, e estabeleceu-se, então, um prazo
de dez anos para que padrões antigos fossem inteiramente substituídos.

Mais recentemente, a 11ª Conferência Geral de Pesos e Medidas


(1960) ratificou o metro como sendo o comprimento igual a 1.650.763,73
comprimentos de onda, no vácuo, da radiação correspondente à transição
entre os níveis 2p10 e 5d5 do átomo de criptônio 86.

254 255
10.3 Abrangência e competência fortalecer as empresas nacionais, aumentando sua produtividade por meio
da adoção de mecanismos destinados à melhoria da qualidade de produtos
e serviços.
Sua missão é prover confiança à sociedade brasileira nas medições
e nos produtos, através da metrologia e da avaliação da conformidade,
promovendo a harmonização das relações de consumo, a inovação e a
competitividade do País.

Entre as competências e atribuições do Inmetro, destacam-se:

• executar as políticas nacionais de metrologia e da qualidade;


• verificar a observância das normas técnicas e legais, no que se refere
às unidades de medida, métodos de medição, medidas materializadas,
instrumentos de medição e produtos pré-medidos;
• manter e conservar os padrões das unidades de medida, assim
como implantar e manter a cadeia de rastreabilidade dos padrões
Figura 10.8: Abrangência da Metrologia.
Fonte: Apostila Metrologia Dimensional – Walter Link.
das unidades de medida no País, de forma a torná-las harmônicas
internamente e compatíveis no plano internacional, visando, em
O Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) nível primário, à sua aceitação universal e, em nível secundário, à sua
é uma autarquia federal, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, utilização como suporte ao setor produtivo, com vistas à qualidade
Indústria e Comércio Exterior, que atua como Secretaria Executiva do de bens e serviços;
Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial • fortalecer a participação do País nas atividades internacionais
(Conmetro), colegiado interministerial, que é o órgão normativo do relacionadas com metrologia e qualidade, além de promover
Sistema Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial o intercâmbio com entidades e organismos estrangeiros e
(Sinmetro). internacionais;
Objetivando integrar uma estrutura sistêmica articulada, o Sinmetro, • Prestar suporte técnico e administrativo ao Conselho Nacional
o Conmetro e o Inmetro foram criados pela Lei 5.966, de 11 de dezembro de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial - Conmetro,
de 1973, cabendo a este último substituir o então Instituto Nacional de bem assim aos seus comitês de assessoramento, atuando como sua
Pesos e Medidas (INPM) e ampliar significativamente o seu raio de atuação Secretaria-Executiva;
a serviço da sociedade brasileira. • fomentar a utilização da técnica de gestão da qualidade nas empresas
No âmbito de sua ampla missão institucional, o Inmetro objetiva brasileiras;

256 257
• planejar e executar as atividades de acreditação de laboratórios de
calibração e de ensaios, de provedores de ensaios de proficiência,
de organismos de certificação, de inspeção, de treinamento e de
outros, necessários ao desenvolvimento da infraestrutura de serviços
tecnológicos no País; e
• desenvolver, no âmbito do Sinmetro, programas de avaliação
da conformidade, nas áreas de produtos, processos, serviços e
pessoal, compulsórios ou voluntários, que envolvem a aprovação de
regulamentos.

A Metrologia como ciência e tecnologia pode ser dividida em três


grandes áreas:

A Metrologia Científica trata, fundamentalmente, dos padrões de


medição internacionais e nacionais, dos instrumentos laboratoriais e das
pesquisas e metodologias científicas relacionadas ao mais alto nível da
qualidade metrológica.
Figura 10.9: Campus do INMETRO – Xerém.
Fonte: INMETRO Segundo o site do INMETRO, o Laboratório de Termometria do INMETRO
é responsável pela realização e disseminação da Escala Internacional de
Temperatura de 1990 (EIT-90) no Brasil para termômetros de contato,
na faixa de temperatura de -190 °C a 1084 °C. O Later realiza calibrações
primárias na faixa de -190 °C a 962 °C de termômetros padrões de resistência
de platina (TPRP) e de células de ponto fixo.

258 259
A Metrologia Industrial abrange os sistemas de medição responsáveis
pelo controle dos processos produtivos e pela garantia da qualidade e
segurança dos produtos finais.

Figura 10.10: Calibrações de TPRP e termopares por pontos fixos.


Fonte: INMETRO. Figura 10.12: Metrologia x Projeto.
Fonte: <dwgcursos.com.br>. Acesso em: 10 maio 2012.

Figura 10.11: Calibração de blocos padrão pelo método interferométrico.


Fonte: INMETRO. Figura 10.13: Calibração de sistema de montagem.
Fonte: Catálogo da Zeiss Oberkochen

260 261
(A) (B)
(A) (B) Figura 10.16: (a) Verificação de taxímetros (b) Aprovação de seringas.
Figura 10.14: (A) Calibração de pesos (B) calibração de anel padrão. Fonte: (a) <blogdajoice.com>; (b) <bd.com>. Acesso em: 10 mar. 2012.
Fonte: (a) <ipem.wordpress.com.br>; (b) <panambrazwick.com.br>.
Acesso em: 10 maio 2012.

10.4 Sistema Internacional de Unidades – SI


A Metrologia Legal é responsável pelos sistemas de medição utilizados
nas transações comerciais e pelos sistemas relacionados às áreas de saúde, O Sistema Internacional de Unidade é conhecido e difundido? De
segurança e meio ambiente. que se trata? Para que serve? Um fator importante para a realização de
uma medição é a existência da unidade, estabelecido por um padrão,
segundo uma convenção própria, regional, nacional ou internacional. No
transcorrer do tempo, diversos foram os sistemas de unidades estabelecidos
nas diferentes regiões do mundo.
Em função do intercâmbio internacional de produtos e informações,
bem como da própria incoerência entre unidades anteriormente adotadas,
estabeleceu-se, em 1960, através do “Bureau Internacional de Pesos
e Medidas – BIPM”, um conjunto coerente de unidades, o SISTEMA
INTERNACIONAL DE UNIDADES (SI), que consta das unidades de:
base, derivadas e suplementares.

Figura 10.15: Verificação de bombas de combustível.


Fonte: <ipemba.com.br>. Acesso em: 10 maio 2012.

262 263
melhores condições de reprodução do valor unitário dessa grandeza, isto é,
praticidade e menores incertezas.

Figura 10.17: BIPM Figura 10.18: Unidades de base.


Fonte: <em.wikipedia.org>. Acesso em: 10 mar. 2012.

O BIPM tem por missão assegurar a unificação mundial das medidas


físicas. A adoção das unidades do SI é, no Brasil, uma obrigatoriedade legal
e traz uma série de pontos positivos.

a) Facilidade de entendimento das informações a nível internacional


(vantagem comercial e científica).
b) Confirmação da atualização técnico-científica através do abandono
de sistemas superados.
c) Simplificação das equações que descrevem os fenômenos físicos, pelo
fato de existir consistência entre as unidades das grandezas envolvidas.

No SI, apenas sete grandezas físicas independentes são definidas,


as chamadas unidades de base. Todas as demais unidades são derivadas
dessas sete.
Embora o valor de cada grandeza seja sempre fixo, não é raro
que a forma de definir uma grandeza sofra alteração. Quando ocorrem,
essas alterações são motivadas por algum avanço tecnológico que cria
Quadro 10.1: Definição das unidades de base.

264 265
Unidades derivadas são as unidades formadas pela combinação 1. metrologia é a base física da qualidade.
das unidades de base, segundo relações algébricas que correlacionam as 2. no mundo industrializado, as operações metrológicas
correspondentes grandezas. Constituem a grande maioria das grandezas representam cerca de 5% do pib.
em uso. Por serem muito empregadas, algumas grandezas recebem 3. o crescimento consistente das empresas brasileiras
denominação específica, como, por exemplo, newton, pascal, watt, hertz etc. demanda maior volume e maior qualidade dos serviços
metrológicos.
10.5 Importância 4. a inserção do brasil no mercado globalizado requer
uma forte base metrológica para apoiar as exportações e
A experiência de países industrializados, como os EUA, a Alemanha barrar importações de produtos sem qualidade.
e a Inglaterra, têm mostrado a necessidade de uma Metrologia científica e 5. está na raiz de praticamente todos os processos
industrial forte e integrada com o objetivo de promoção da competitividade produtivos, exigindo atenção e abordagem científica.
da indústria e serviços, bem como na defesa da saúde, do meio ambiente e
do cidadão. O Lorde Kelvin está em todas:

10.5.1 Metrologia e Qualidade

“Se você não pode medir algo, não pode melhorá-lo.”

Figura 10.19: Uma esperança... Fonte: Metrologia – Publicação CNI

Figura 10.20: Evolução da tecnologia.


Os seguintes pontos devem ser ponderados para que cada vez mais
esta ciência, pouco difundida, possa receber mais atenção por parte dos O que está associado a MEDIR ou o que é necessário saber para
institutos, escolas técnicas e universidade na formação de pessoal. realizar.

266 267
I - Formas
• Monitorar
Observar passivamente grandezas.
• Controlar
Observar, comparar e agir para manter dentro das especificações.
• Investigar
Inovar, explicar, reformular.

II - Informações Figura 10.22: Um método de medição !?!?!?

Os fatores metrológicos que interferem diretamente no resultado


O Operador deve ser devidamente treinado e capacitado para a
de uma medição podem ser agrupados nas seguintes categorias: método,
utilização correta do equipamento de medição. Deve conhecer o método de
amostra, condições ambientais, técnicos e equipamentos.
medição, saber avaliar as condições ambientais, decidir sobre a realização
ou não das medições, selecionar a amostra a ser avaliada adequadamente,
registrar e interpretar o resultado das medições.

Figura 10.21: Diagrama de Causa e Efeito ou Espinha de Peixe ou Ishikawa.

O Método de medição é uma sequência lógica de operações, descritas


genericamente, utilizadas na execução das medições para se obter uma
medida adequada, isto é, de qualidade.

Figura 10.23: A metrologista.


Fonte: Laboratório Metrologia – dimensional – IPT

268 269
Instrumento é qualquer equipamento usado isoladamente ou
em conjunto para a realização de uma medição, é também chamado de
instrumento de medição.
O Conjunto de instrumentos de medição e de outros equipamentos
acoplados para execução de uma medida é denominado sistema de
medição.

Figura 10.25: Fabricação de próteses.


Fonte: <noticias.r7.com>. Acesso em: 10 mar. 2012.

• previne defeitos e assim reduz as perdas pela pronta detecção de


desvios no processo produtivo, evitando desperdício e produção
de rejeitos.
(A) (B)
Figura 10.24: (a) Nível óptico – instrumento (b) MMC – sistema de medição.
Fonte: (a) <hand-tools.hardwarestore.com>. (b) <nei.com.br>. Acesso em: 10 mar. 2012.

Outro ponto tratado no diagrama de causa e efeito é a calibração,


assim, cabe a pergunta: POR QUE CALIBRAR?
As empresas têm que entender que a calibração dos equipamentos de
medição é um componente importante na função qualidade do processo
produtivo, por isso, devem incorporar a calibração como atividade normal
da produção. A calibração é uma oportunidade de aprimoramento
constante e proporciona vantagens, tais como:

• redução na variação das especificações técnicas dos produtos;


• produtos mais uniformes representam uma vantagem competitiva
Figura 10.26: Medição de peça com instrumento calibrado.
em relação aos concorrentes. Fonte: <cqmec.com.br>. Acesso em: 20 mar. 2012.

270 271
A calibração permite avaliar as incertezas do processo de medição, além
de permitir identificar os desvios entre as indicações de um instrumento
e os valores verdadeiros. A execução de uma calibração, por meio de
comparação com padrão, possui as seguintes características:

• escolha adequada do sistema de medição padrão a ser utilizado


terá efeito na qualidade e no resultado das medições. Portanto,
quanto melhor o padrão (menor incerteza, melhor repetitividade),
melhores serão as condições para a execução da calibração.

Figura 10.28: Blocos padrão de referência.


Fonte: Catálogo da Starrett-Weber.

A resposta está na seguinte sequência de ponderações.

1. Identificar, com o pessoal envolvido com a produção, manutenção


Figura 10.27: Comparadora de massa e engenharia, quais variáveis do processo afetam a qualidade do
Fonte: Catálogo da Sartórius; Catálogo da Mettler-Toledo produto em questão.
2. Identificar os instrumentos usados na medição dessas variáveis.
Na implantação de um sistema de avaliação dos instrumentos 3. Estabelecer os limites especificados para as variáveis envolvidas,
de medição, a primeira questão que se põe é: quais são os instrumentos em todas as etapas do processo produtivo e em todos os níveis da
passíveis de calibração? produção.

Dessa forma, as medições transformam os fatores metrológicos de


um processo qualquer em uma medida. Pode-se entender a medida como o
resultado do processo de medição, e, nesse sentido, sua qualidade depende
de como tal processo é gerenciado.

272 273
Pela avaliação da incerteza nos resultados!!!

Deve-se seguir a sequência abaixo para obter as informações


necessárias ao cálculo da incerteza do resultado de uma medição, calibração
ou ensaio.

Figura 10.29: Resultado de um processo de medição.


Fonte: Catálogo da Mitutoyo

10.6 O que falta ainda?

• Resultados de medições sempre apresentam dúvidas.


• Decisões sobre a qualidade de produtos ou processos devem ser
tomadas com base em medições.
• Como tomar decisões seguras quando há dúvidas presentes?

Figura 10.31: Diagrama de blocos expandido.


Fonte: Apostila Cálculo de Incerteza.ppt – Walter Link

Figura 10.30: Por que sofrer?

274 275
Onde buscar as informações...

Figura 10.33: Diagrama de blocos. Fonte: Apostila Cálculo de Incerteza.ppt – Walter Link

Figura 10.32: Ishikawa para a estimativa da incerteza.

Também pode-se sintetizar a estimativa da determinação da


incerteza de um resultado através do diagrama de blocos, que nada mais é
que representar a Figura 10.31 de forma sintética.

Figura 10.34: Modelagem matemática. Fonte: Apostila Cálculo de Incerteza.ppt – Walter Link

276 277
As grandezas de entrada são expressas por uma função de densidade de • 1° passo: descrição da medição/calibração
probabilidade apropriada, enquanto o processo de medição é representado Uma balança eletrônica deve ser calibrada com auxílio de pesos
por um modelo matemático. A determinação da incerteza de uma medição padrão. Isso é feito em condições prescritas por medição direta e
ou dos resultados de uma calibração segue uma metodologia específica que comparação da indicação com o valor da massa do padrão especificada em
está estabelecida em norma internacional. um certificado.

Exemplo • 2° passo: análise do processo de medição


O processo de modelagem é ilustrado com o exemplo simplificado O padrão pode ser considerado como fonte paramétrica. Sua
da calibração de uma balança. adaptação imperfeita com a balança, por exemplo, causada pelo empuxo
do ar, susceptibilidade magnética etc. pode ser descrita por um elemento
de transformação.

Figura 10.36: Modelo simplificado para a calibração de uma balança


Fonte: Apostila Cálculo de Incerteza.ppt – Walter Link

• 3° Passo: representação gráfica da relação causa-efeito de uma


medição real.

Por meio de desvios e fatores de correção, as seguintes influências e


Figura 10.35: Mensurando imperfeições devem ser introduzidas no gráfico causa/ efeito da calibração
Fonte: Catálogo da Mettler-Toledo descrita.

278 279
O erro do valor nominal do peso utilizado é: δPind – erro devido à resolução
ΔPP = PP – PP0 • 4° Passo – Modelagem matemática
onde:
PP - valor indicado
E = P bal . − PS 0 + ΔPS + ΔPbal . + δPm + δPind . + δPS
PP0 - valor nominal • 5° Passo – Realizar a calibração ...
O fator devido ao empuxo do ar é:
kB = (1-ρa /ρP)/(1-ρ1,2 /ρ8000)
ρa - é a densidade do ar;
ρP - é a densidade do peso;
O desvio devido a influências térmicas (convecção com o ar; efeito de
campo magnético) é designado por: δPC&H

10.7 A Metrologia na UFRN

Figura 10.37: Relação causa e efeito modelado para a balança Nas atividades acadêmicas desenvolvidas nas áreas das engenharias
Fonte: Apostila Cálculo de Incerteza.ppt – Walter Link e das Ciências Exatas e Biológicas, é de fundamental importância o uso da
Metrologia. Aliás, a ciência das medições é indispensável para qualquer
PS - valor correspondente à massa do padrão de referência
área do conhecimento, inclusive para decisão de demandas judiciais. O
PS0 - valor nominal da massa do padrão de referência
Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
ΔPS – erro do padrão de referência desde a sua criação, percebeu a necessidade da Metrologia para os cursos
ΔPinstr – erro da balança oferecidos nesta Unidade Acadêmica, inicialmente em nível de graduação
ρa; ρP – densidade do ar e do peso padrão de referência e posteriormente em nível de pós-graduação.
δPl,g – erro de pesagem com o padrão de referência Nesse sentido, em meados da década de setenta, foi criado o
δPm – erro de pesagem devido às condições durante o ensaio [ρCAL) laboratório de Metrologia para apoiar as aulas práticas de quatro cursos
Pind – valor do peso indicado de engenharia oferecidos e em processo de criação pelo Centro de

280 281
Tecnologia. Esse laboratório logo em seguida passou a fazer parte do disponível tem sido utilizada para atender as demandas de calibração dos
conjunto de laboratórios criados e estruturados para o Departamento de instrumentos utilizados para realização dos testes nos postos revendedores
Engenharia Mecânica. Durante toda a sua existência, tem ampliado sua de combustíveis e também para calibrar instrumentos e dispositivos
área física, tendo adquirindo um conjunto de equipamentos e padrões – utilizados pelos próprios postos.
alguns únicos no estado e na região –, investido na capacitação da equipe É oportuno registrar que o sistema de medição utilizado para realizar
e ampliado de forma contínua suas atividades acadêmicas no ensino, na teste de estanqueidade, que determina possíveis vazamentos dos tanques
pesquisa e na extensão. É, portanto, de fundamental importância para os dos postos, composto por uma sonda e por um indicador, foi calibrado pela
cursos de graduação e pós-graduação de quatro Centros Acadêmicos da primeira vez na região Norte-Nordeste no laboratório de Metrologia da UFRN,
Universidade, como também na interação com instituições e empresas conforme mostrado na figura do capítulo que trata das não conformidades.
locais, regionais e nacionais na área de Metrologia. Nessa calibração, que é uma análise comparativa entre os resultados obtidos
O laboratório de Metrologia da UFRN atualmente desenvolve pelo sistema de medição que está sendo calibrado (sonda com indicador) e os
atividades de medições e calibrações nas grandezas comprimento, pressão, resultados registrados no padrão, é possível realizar simulações de pequenos,
massa, força, torque, temperatura, volumetria e grandezas geométricas. Nas médios e grandes vazamentos, com temperaturas diferentes, e analisar a
atividades de ensino, alguns cursos de graduação realizam aulas práticas capacidade do sistema de medição de detectar esses vazamentos com erros e
de diversas disciplinas, atendendo a centenas de alunos desses cursos que, incertezas estabelecidos; consequentemente, avalia a compatibilidade ou não
através dessas atividades práticas, consolidam conhecimentos específicos daquele sistema de medição para realização dos referidos testes.
da área de Metrologia; nas atividades de pesquisa, dez programas de pós- Outros instrumentos nas grandezas pressão, temperatura e
graduação de quatro Centros Acadêmicos utilizam essa infraestrutura volumetria utilizados nos postos revendedores, assim como dispositivos de
de padrões para assegurar rastreabilidade e confiabilidade de resultados segurança, como válvulas de alívio dos compressores e válvulas de segurança
das pesquisas realizadas através das dissertações de mestrados e teses de utilizadas nas redes de gás natural, têm sido calibrados periodicamente ou
doutorados defendidas nos programas de pós-graduação; nas atividades quando apresentam defeito, quer seja por desgaste ou por sujeiras/resíduos
de extensão que estão sendo realizadas, o laboratório tem sido demandado acumulados na tubulação da rede de gás. Essas calibrações são realizadas
para interagir com diversos laboratórios e setores da instituição, com outros obedecendo-se a um cronograma estabelecido entre as partes envolvidas e
projetos e com diversas áreas da indústria, com destaque para a indústria com um tempo muito inferior comparado ao tempo que seria necessário se
do petróleo, gás e energia, da construção civil, alimentícia e empresas de esses dispositivos e instrumentos fossem encaminhados para laboratórios
serviços. da região Sudeste do país, além dos custos com a logística de transporte
Essa interação do projeto de extensão desenvolvido no laboratório e também os riscos de danos após os ensaios com o transporte na volta
de Metrologia com outros projetos realizados pelo Departamento de desses dispositivos e instrumentos. Na calibração dessas válvulas, foram
Engenharia Mecânica, como, por exemplo, o projeto de extensão em detectados diversos problemas sendo alguns deles de grande importância,
parceria com o Ministério Público, que possibilita a obtenção do Selo Verde como válvulas com etiquetas de calibração que não funcionavam quando
pelos postos revendedores de combustíveis, tem reflexos extremamente foram testadas, válvulas com oxidação excessiva internamente e totalmente
positivos para obtenção dos objetivos desses projetos. A infraestrutura travada que não atuavam quando foram testadas, válvulas com sujeiras

282 283
excessivas internamente que impediam o seu funcionamento adequado
e válvulas com folgas excessivas no seu mecanismo, impedindo o seu
bom funcionamento, podendo causar acidentes de grandes proporções, Referências
conforme mostrado na figura do capítulo que trata das não conformidades.
Outra atividade desenvolvida merecedora de destaque foi a
avaliação de diversos certificados de ensaios de válvulas emitidos por ALBERTAZZI JR., Armando G.; SOUZA, André R. de. Fundamentos de
alguns laboratórios e empresas fornecedoras desses dispositivos, os quais Metrologia Científica e Industrial. Barueri, SP: Editora Manole, 2008.
continham erros grosseiros como unidades de medidas declaradas erradas,
resultados de ensaios declarados incompatíveis com as características ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT. NBR 13784:
metrológicas dos padrões utilizados para realizar os referidos ensaios, Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis: Seleção de métodos para
citação de normas utilizadas para realização dos ensaios que já não estão detecção de vazamentos e ensaios de estanqueidade em sistemas de abastecimento
em validade etc. subterrâneo de combustíveis (SASC). Rio de Janeiro, 2006.
Visando ampliar ainda mais seus serviços, a construção de um novo
FARAGO, Francis T.; CURTIS, Mark A. Handbook of Dimensional
laboratório de Metrologia foi iniciada no final de 2011, com uma área
Measurements. New York, Industrial Press MC, 1994.
física de seiscentos metros quadrados e com financiamento específico
para aquisição de um conjunto de equipamentos e padrões que irão FROTA, M.N.; OHAYON, P.; MAGUELOME, Chambon. (BNM/França) Padrões
complementar os já existentes. Sua conclusão está prevista para o final de e Unidades de Medida: referências metrológicas da França e do Brasil. Rio de
2012. Janeiro: Quality Mark Editora, 1998.

ISO GUM. Segunda Edição Brasileira do Guia para Expressão da Incerteza de


Medição. Rio de Janeiro: INMETRO/ABNT, 2003.

LINK, Walter. Metrologia Mecânica: expressão da incerteza da medição. São


Paulo: Mitutoyo; EMIC; IPT, 1997.

______. Tópicos Avançados da Metrologia Mecânica: confiabilidade metrológica


e suas aplicações. São Paulo: Mitutoyo, 2000.

ROSÁRIO, P. P. N.; MENDES, A. Metrologia e Incerteza de medição. Rio de


Janeiro: Editora EPSE; SBM, 2005.

VIM – Vocabulário Internacional de Metrologia: conceitos fundamentais e gerais


e termos associados. 1. ed. bras. Rio de Janeiro, 2009.

284 285
Catálogos de fabricantes consultados
11
• Mitutoyo PG605

• Starrett B30 - 2002 Direitos do consumidor


• brown&sharp – Tesa impresso na Suiça (10012.001.0005) Informação, segurança e meio ambiente

• Renishaw – CD 2008 (internet) CD
José Augusto Peres Filho1
• Taylor Hobson – Publicações técnicas grupo AMETEK - internet

• D&H Budenberg Website - 2007

• Mettler-Toledo – Global Homepage

• Sartorius- Sartius AG Microsites Products, 2011 11.1 Informação

• Brand GK800 – 2009, Alemanha Desde o ano de 1962, quando o presidente norteamericano John
Fitzgerald Kennedy estabeleceu os pilares da defesa do consumidor na
• Festo www.festo.com/catalogue, 2011
atualidade, o direito à informação encontra-se elencado entre os direitos
básicos dos consumidores.
Desse modo, ele é tratado pela Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990,
mais conhecida como Código de Defesa do Consumidor (CDC), tendo o
legislador dito expressamente no inciso III, do art. 6º do referido Código,
que a informação ao consumidor, como direito básico deve ser “adequada
e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta
de quantidade, características, composição, qualidade e preço, bem como
sobre os riscos que apresentem”.

Promotor de Justiça de Defesa do Consumidor.


1

Mestre em Direito Constitucional pela UFRN.

286
Assim, a informação correta e completa (adequada), de fácil Considerando que o combustível “aditivado” e o “comum” possuem
percepção e compreensão pelo consumidor (clara), tem fundamental características e propriedades peculiares, comportando-se de modo
importância para a pessoa que está adquirindo um produto ou serviço. diverso nos motores dos veículos, além de, frequentemente possuirem
O Código de Defesa do Consumidor, ainda sobre o dever de informar preços diferentes, é importante para o consumidor saber com qual tipo de
por parte dos fornecedores, diz no seu art. 31 que “a oferta e apresentação combustível irá ele abastecer o seu veículo.
de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, claras, Além disso, deverá também o revendedor “informar ao consumidor,
precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, de maneira adequada e ostensiva, a respeito da nocividade, periculosidade
qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e uso do combustível automotivo” (mesmo artigo, inciso V). Nesse caso,
e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à foca-se a preocupação com a segurança do consumidor, que será objeto de
saúde e segurança dos consumidores”. destaque mais adiante.
Essa norma fundamenta-se na necessidade que tem o consumidor, Do mesmo modo, deverá o revendedor “prestar informações
antes de adquirir um produto ou contratar um serviço, de conhecer solicitadas pelos consumidores sobre o combustível automotivo
adquadamente o que está comprando. comercializado” (inciso VI do mesmo artigo). Isso para o caso do
Não se admite que se oferte algo para ser adquirido pelo consumidor consumidor ter alguma dúvida quanto à origem do produto ou alguma
se não se informar a ele o preço verdadeiro, a quantidade do que está sendo característica peculiar, por exemplo.
exposto à venda, a qualidade real ou os riscos aos quais poderá ele se expor Uma outra obrigação imposta ao revendedor de combustível
caso adquira aquele produto ou contrate tal serviço. pela ANP na referida Portaria é a de “exibir os preços dos combustíveis
Em se tratando da comercialização de combustíveis, a legislação automotivos comercializados em painel com dimensões adequadas, na
específica determina que a revenda disponibilize uma série de informações entrada do posto revendedor, de modo destacado e de fácil visualização à
para os consumidores. Examinaremos, a seguir, algumas dessas exigências, distância, tanto ao dia quanto à noite” (inciso VII, do art. 10).
ligadas ao direito básico à informação para o consumidor. Como o preço do combustível é fator importante na opção de
A Portaria ANP nº 116, de 5 de julho de 2000, lista no inciso IV de compra do consumidor, preocupou-se a ANP em possibilitar que o
seu art. 10, dentre as obrigações do revendedor varejista de combustíveis, consumidor tenha acesso às informações sobre os preços dos combustíveis
comercializados por determinado revendedor, sem que ele precise adentrar
identificar em cada bomba abastecedora de combustível automotivo, ao posto e parar próximo às bombas para obter tais informações, sendo
no(s) painel(is) de preços, e nas demais manifestações visuais, de forma suficiente a consulta ao painel de grandes dimensões (especificadas pela
destacada, visível e de fácil identificação para o consumidor, o combustível ANP), localizado na entrada dos postos revendedores.
comercializado: i) informando se o produto é ‘aditivado’, ficando facultada a
Também deverá o varejista exibir um quadro de aviso, em local
identificação de ‘comum’ para os demais combustíveis; II) adicionalmente,
visível, de modo destacado, com caracteres legíveis e de fácil visualização,
identificar quais bombas abastecedoras de óleo diesel estão destinadas ao
em que constem o nome e a razão social do revendedor varejista; o nome
óleo diesel de baixo teor de enxofre, exibindo: a partir de 1º de janeiro de
do órgão regulador e fiscalizador das atividades de distribuição e revenda
2012 ‘óleo diesel S-50 ou diesel S50’, e a partir de 1º de janeiro de 2013 ‘óleo
diesel S-10’ ou ‘diesel S10’. de combustíveis: Agência Nacional do Petróleo (ANP), bem como o sítio

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da ANP na internet <www.anp.gov.br>; o telefone do Centro de Relações 11.2 Segurança
com o Consumidor (CRC) da ANP, informando que a ligação é gratuita
e indicando que para o CRC deverão ser dirigidas reclamações que não Um outro aspecto que deve ser levado em consideração ao se ofertar
forem atendidas pelo revendedor varejista ou pelo(s) distribuidor(es) e o produtos ou serviços no mercado de consumo é a segurança que os mesmos
horário de funcionamento do posto revendedor. devem ter, já que esta é um outro direito básico do consumidor (art. 6º, inc.
Uma outra informação relevante que deverá ser prestada pelo I do CDC).
revendedor ao consumidor é “a origem do combustível automotivo Quando falamos em segurança nas relações de consumo, nesse
comercializado”, “de forma clara e ostensiva” (art. 11, da Portaria ANP 116). conceito estão inseridos não apenas os consumidores, mas também
Isso porque o revendedor de combustíveis poderá ostentar a marca de todos aqueles que, mesmo alheios à relação de consumo, podem sofrer as
um distribuidor específico, ou poderá optar por ser um posto de “bandeira eventuais consequências de um produto ou serviço inseguro.
branca”, ou seja, revender produtos de diversos distribuidores. É importante destacar que existem produtos que, por sua natureza,
Quanto a esse aspecto, se o revendedor optou por exibir a marca representam riscos à vida, à saúde e à segurança do consumidor.
comercial de um distribuidor de combustíveis líquidos, ele deverá “exibir Exemplificativamente, podemos inserir nessa categoria produtos como
a marca comercial do distribuidor, no mínimo, na testeira do posto os medicamentos, as bebidas alcoólicas, os veículos automotores. E ainda
revendedor de forma destacada, visível à distância, de dia e de noite, serviços como revendas de gás liquefeito de petróleo e de combustíveis
e de fácil identificação ao consumidor”; e “adquirir e vender somente líquidos.
combustível fornecido pelo distribuidor do qual exiba a marca comercial” Fiquemos neste último caso.
(art. 11, § 2º). Por concentrar, em regra, uma grande quantidade de produtos
No entanto, se o revendedor não optou por exibir a marca comercial inflamáveis, os postos de combustíveis possuem, naturalmente, um
de um distribuidor de combustíveis líquidos específico, ele “não poderá potencial lesivo aos consumidores. Mas, não apenas para estes.
exibir marca comercial de distribuidor em suas instalações”; e “deverá O Código de Defesa do Consumidor, além de estabelecer a necessidade
identificar, de forma destacada e de fácil visualização, em cada bomba de se resguardar a saúde, a vida e a segurança dos consumidores, colocou
abastecedora, a razão social ou o nome fantasia do distribuidor fornecedor também sob proteção todas as pessoas que venham a ser vítimas de algum
do respectivo combustível e o CNPJ” (art. 11, § 3º). acidente de consumo (art. 27 do CDC). Ou seja, mesmo que alguém não se
As informações tratadas acima estão ligadas, sobretudo, à qualidade, enquadre na definição que a lei dá para consumidor (“toda pessoa física ou
ao preço e à origem dos combustíveis, questões fundamentais para que o jurídica, que adquire ou utiliza um produto ou serviço como destinatário
consumidor possa fazer a melhor opção, de acordo com os recursos que final” - art. 2º do CDC), se ela for vítima de um “acidente de consumo”, ela
quer e pode empregar na hora de abastecer o seu veículo. terá direito a ser indenizada como se fosse consumidora (art. 17 do CDC).
No caso, por exemplo, de um incêndio ou explosão em um posto de
combustíveis, deverão ser indenizados, como manda o Código de Defesa
do Consumidor, não apenas os consumidores que estavam abastecendo
os seus veículos no momento em que se deu o acidente, mas também

290 291
todas as pessoas que forem atingidas. Por exemplo, os proprietários dos Tais sanções administrativas, listadas no art. 56 do CDC, poderão ser
imóveis vizinhos, dos automóveis ou os pedestres que estejam passando aplicadas sem prejuízo das sanções de natureza civil, penal e das definidas
nas proximidades, independentemente de estarem ou não consumindo em normas específicas (por exemplo, resoluções da ANP ou do CONAMA).
algo no local naquele momento. Considerando que o presente livro detalha todo o trabalho
que permeou a criação do Selo Verde, e a sua conquista pelos postos
revendedores de combustíveis, a aposição do referido selo em um
11.3 Meio Ambiente determinado estabelecimento será de enorme valia para os consumidores,
pois, através dele, informa-se a estes e a toda a sociedade que ali, ao que
Por outro lado, o Código de Defesa do Consumidor também se tudo indica, foram e estão sendo cumpridas todas as exigências legais
preocupou com a proteção ao meio ambiente. Essa preocupação tem por referentes à segurança e à proteção ambiental, representando, em suma,
base a Constituição Federal de 1988, que lista a defesa do meio ambiente e toda uma série de informações relevantes apenas com um símbolo.
a defesa do consumidor como alguns dos princípios norteadores da ordem A conquista do Selo Verde pela empresa revendedora de
econômica (art. 170). combustíveis, além de significar respeito ao meio ambiente, significa
O que a Constituição pretende dizer com isso é que o Brasil não pode respeito ao consumidor e vale como diferencial de mercado, não apenas
ter uma economia forte, crescente e ordenada, sem que haja respeito ao entre concorrentes; indica, pois, que naquele estabelecimento existe uma
meio ambiente e aos consumidores. equipe que se importa com o local em que desenvolve suas atividades e
Vamos encontrar no art. 39 do CDC, o inciso VIII, que considera com aqueles que adquirem seus produtos ou serviços.
prática abusiva “colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou
serviço em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos oficiais
competentes ou, se normas específicas não existirem, pela Associação
Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo
Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial Referências
(Conmetro)”.
Com base nesse dispositivo, portanto, se um posto revendedor de
combustíveis fornece seus produtos sem obedecer ao que dispõe a legislação AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO – ANP. Portaria nº 116, de 5 de julho de
sobre proteção ambiental, estará ele, em princípio, cometendo uma prática 2000. Regulamenta o exercício da atividade de revenda varejista de combustível
abusiva contra os consumidores, passível de punição. automotivo. Diário Oficial da União, 6 jul. 2000.
Dentre as punições aplicáveis à atividade de revenda de combustíveis
estão a multa; apreensão ou inutilização do produto; suspensão do BRASIL. Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do
consumidor e dá outras providências. Diário Oficial da União, 12 set. 1990.
fornecimento do produto ou do serviço; suspensão temporária da atividade;
cassação de licença do estabelecimento ou de atividade; interdição, total ou
parcial, de estabelecimento, de obra ou de atividade.

292 293
Anexos

Formulário de Acompanhamento do
Teste de Estanqueidade/Integridade do
Sistema de Abastecimento Subterrâneo
de Combustível (SASC) pelos peritos

294 295
Formulário de Revisão de Segurança
(diagnóstico das instalações do posto)
realizado pelos peritos

296 297
298 299
300 301
302 303
304 305
306 307
Exemplo de síntese das
não conformidades detectadas pelos
peritos na Revisão de Segurança

308 309
310 311
Recomendação do Ministério Público para
interdição imediata de compartimento(s)
e/ou acessório(s) não estanque(s)
detectado(s) no momento do acompanhamento
do Teste de Estanqueidade/Integridade do
Sistema de Abastecimento Subterrâneo
de Combustível (SASC) do posto.

312 313
Recomendação do Ministério Público
para paralisação da revenda de gás GNV em
razão do Teste de Estanqueidade / Integridade

314 315
316 317
318 319
Termo de Ajustamento de Conduta (TAC)
para adequação ambiental do posto

320 321
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