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Para além do gênero: pós-estruturalismo e teoria queer

Larissa Pelúcio

O que pode estar para além do gênero, quando gênero não é algo que
alguém possa se apropriar como sendo de fato seu? E se a apropriação se der, para onde
ir? A transexualidade é mesmo uma expressão que cruza gêneros, e se o faz, de fato os
ultrapassa? Travestis, homens trans, mulheres masculinas, homens femininos escapam ou
realocam os binários feminino/masculino, mas em uma outra ordem? Como escapar da
força molar das leis e manter o potencial rizomático de algumas experiências?

Mais do que responder a este extenso elenco de perguntas, pretendo


tratar nesse texto das contribuições dos estudos queer como campo mobilizador destas
questões, para as quais aportou conceitos que desafiaram saberes canônicos e proveu-nos,
assim, de um novo léxico, reconhecendo a centralidade da linguagem como constitutiva
de corpos e subjetividades. A influência foucaultiana aqui é clara. Teóricas e teóricos
queer também se dedicaram a explorar a articulação entre sujeito e discurso. Nessa dobra,
sexo e gênero são entendidos como dispositivos inscritos em um sistema tecnológico
complexo que envolve desde discursos religiosos pretéritos até as proposições mais
recente da medicina, passando pela linguagem sedutora da mídia de entretenimento. Essas
tecnologias estão também no cotidiano da casa, na sua própria arquitetura burguesa, nos
brinquedos das crianças; na escola, nas histórias que aprendemos a respeitar como
verdadeiras, nos saberes prestigiados e naqueles que sequer são considerados. Portanto,
essas tecnologias estão também nos silêncios. Naquilo que se cala. No apagamento de
experiências divergentes, insurgentes, impróprias. De maneira que algumas existências
simplesmente não são reconhecidas como tal.

Herdeiro do pós-estruturalismo, o queer surge como campo reflexivo


crítico que, como a matriz na qual se inspira, se coloca “contrário a todas as formas de
essencialismo, determinismo e naturalismo” (WILLIAMS, 2012, p. 16). Assim, o queer
também resiste a verdades estabelecidas e naturalizadas, sobretudo aquelas que tomam
raça, gênero e sexualidade como entidades universalizadas e universalizáveis, justamente
por seus vínculos com a suposta natureza do corpo. A antropologia clássica já havia
apontando, em Marcel Mauss, o corpo como espaço de inscrição cultural, sendo, portanto,

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mais social e histórico do que meramente biológico. Mas é com Michel Foucault (1975)
que este, o corpo, passa a ser compreendido como território político e, por isso mesmo,
disputado por diferentes instituições e por distintos campos discursivos. De forma que as
disciplinas biopolíticas funcionaram como uma máquina de naturalizar o sexo, polarizar
os gêneros em opostos binários, em um esforço normativo que foi também capaz de criar
um vasto elenco de anormalidades cuja marca do desvio esteve (e ainda está) localizada
justamente no sexo e no gênero. Escapar dos paradigmas da normalidade exige
imaginação teórica e certa dose de inconformismo.

A contracultura, a revolução sexual, os feminismos, os movimentos


gays e lésbicos, a luta contra o racismo, os processos descoloniais, as ditaduras na
América Latina, os movimentos estudantis, foram eventos que moveram imaginações
inconformadas. Inspiram reflexões acadêmicas que estiveram em estreito diálogo com as
ruas. É nessa vaga que surgem os chamados estudos gays e lésbicos, a filosofia pós-
estruturalista, o feminismo pós-colonial, entre outros que não haviam encontrado espaço
dentro das universidades. Esta produção efervescente e crítica vai sofrer grande golpe
com a emergência da aids e o refluxo conservador que veio a reboque. É do enfrentamento
ao ímpeto assimilacionista, sobretudo, dos movimentos de liberação sexual, frente ao
pânico moral suscitado pelo HIV, que surgem vozes divergentes que estão nas ruas, no
ativismo político e também nas universidades. Tereza de Lauretis, é quem primeiro vai
dar um nome a essa produção gestada por aquelas e aqueles nomeados como minorias,
anormais, subversivos. Vai chamar esse saber insurgente de “teoria queer”.

Queer, apesar de soa bastante bem em português, é um xingamento


que sintetiza uma série de ofensas em inglês. Injurias relacionadas, sobretudo, a supostos
desvios da norma heterossexual. Soa tão ofensivo em meios acadêmicos quanto dizer em
português que se trata de uma teoria cu. Quer dizer, feita por saberes marginais, abjetos,
acusados de não serem produtivos, pois não teriam nada a aportar se não suas própria
anomalia como objeto para o estudo das ciências sérias.

Como registra Guacira Lopes Louro, “a política queer está


estreitamente articulada à produção de um grupo de intelectuais que, ao redor dos anos
90, passa a utilizar este termo para descrever seu trabalho e sua perspectiva teórica”. O
queer, apesar de ter sido um saber formulado no Norte Global, vai ser uma resposta
atrevida de pessoas marginalizadas por uma ordem regulatória dos corpos, das
sexualidades e assim também das subjetividades. Uma ordem que recusa outros arranjos

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sexuais e de gênero que não estejam conformados a uma moralidade burguesa,
medicalizada e marcadamente eurocentrada. Discursos provenientes de campos
científicos, mas também dos midiáticos e do senso comum, que sedimentaram ideias que
tomam identidades como entidades discretas passíveis de catalogação e classificação
entre normais e desviantes. Desafiar os limites normativos das identidades gera grande
incômodo, mesmo quando se trata de identidades tidas como potentes politicamente,
como é o caso das, hoje reivindicadas, identidades gays, lésbicas, transexuais, travestis.

De certa forma, “fomos todas e todos mais ou menos capturados pelas máquinas
de produção de identidades, uma delas sendo o Estado”. (CORREA em entrevista a
DAUDÉN E BRANT, 2016, p. 221). Afinal, reapropriar-se subversivamente dos termos
que servem para o insulto, como “veado”, “sapatão”, “travesti”, a fim de torná-los
categorias políticas, é uma estratégia que a própria política queer se valeu. Mas não o fez
sem apontar os limites das políticas identitárias.
O queer, como pensamento crítico, se propõe justamente a desafiar as identidades,
não por niilismo, e sim a fim de promover uma profunda revisão teórica e política.
Questionando não os sujeitos que “encarnam” identidades, mas a ordem social e cultural
que as constituí como aceitáveis e normais ou abjetas e patológicas. Talvez por isso, o
queer tenha sido acusado de ser uma teoria despolitizante. É provável que isso se dê,
justamente, porque ao apontarem para as armadilhas das identidades, correram o risco de
serem interpretamos como colocando em xeque conquista inegáveis no campo dos
direitos sexuais e de gênero.
A proposta queer é que operemos a partir da desconstrução como
método capaz de nos dar pistas de como alguns discursos chegam a instituir verdades
sobre comportamentos, corpos, pessoas, instituições. A desconstrução, conforme Jacques
Derrida propôs, procura revelar o jogo de tensões existente na conformação dos
binarismos, mostrando que muito mais que polares (por exemplo, heterossexualidade
versus homossexualidade), os termos fazem parte de um mesmo regime discursivo que
organiza e hierarquiza relações. Em outras palavras:

Ao invés de priorizar investigações sobre a construção social de identidades,


estudos empíricos sobre comportamentos sexuais que levem a classificá-los ou
compreendê-los, os empreendimentos queer partem de uma desconfiança com
relação aos sujeitos sexuais como estáveis e foca nos processos sociais
classificatórios, hierarquizadores, em suma, nas estratégias sociais

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normalizadoras dos comportamentos. Ao colocar em xeque as coerências e
estabilidades que, no modelo construtivista, fornecem um quadro compreensível
e padronizado da sexualidade, o queer revela um olhar mais afiado para os
processos sociais normalizadores que criam classificações, que, por sua vez,
geram a ilusão de sujeitos estáveis, identidades sociais e comportamentos
coerentes e regulares. (MISKOLCI, 2009, p. 157).

Judith Butler (2003) já assinalava que as reificações de gêneros e


identidades cristalizam hierarquias e alimentam relações de poder, o que normaliza
corpos e práticas, reproduzindo privilégios e exclusões. Essa normalização das
identidades – e sua consequente opressão – define padrões de comportamento rejeitando
as diferenças. Diferenças estas que são sempre constituídas em relações de poder, o que
normaliza corpos e práticas, reproduzindo privilégios e exclusões. Essa normalização das
identidades – e sua consequente opressão – define padrões de comportamento rejeitando
as diferenças. Diferenças estas que são sempre constituídas em intersecção com outras
diferenças. Lembra-nos, ainda, que essa constituição nunca é feita de maneira neutra, mas
a partir de discursos que se assentam num binarismo restritivo, no falocêntrismo e na
heterossexualidade compulsória. Daí as identidades serem tomada por Butler como
normalizadoras, pois fixam e reificam “papéis sociais”: homem, feminino, masculino,
negro, branco etc., perpetuando e reproduzindo subordinações.

São muitos discursos que nos atravessam, nos capturam e procuram dizer quem
somos. Todas nós, todos nós, precisamos de um vocabulário que nos ajudem a organizar
nossa própria experiência. Mas o que acontece quando o que esta disponibilizado são
discursos que falham em nos convencer? Como escapar? “Alguém sabe como se atravessa
uma linguagem dominante? Com que corpo? Com que armas?”, interroga-nos Paul
Beatriz Preciado (2009, p. 140). Nossas armas têm sido linguísticas. Estamos em uma
guerrilha linguística, disputando termos, tomando-os de assalto para desembrutecê-los,
para tornar as palavras mais prismáticas, capazes de iluminar um campo maior de
significados. Somo-me a muitas vozes que estão empenhadas em forjar tecnologias de
produção de verdades que venham entre aspas, pois pretendem-se abertas, plurais,
avessas aos monolinguísmos, ao neoliberalismo, que estejam abertas às multiplicidades.
Escapando, assim, das tentações dos termos já instituídos, muitos deles tributários de
discursos patologizantes e criminalizantes.

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Berenice Bento escreveu que os feminismos, assim como o queer, são teorias
pirotécnicas, porque nos oferecem instrumentos para o cerco, para a guerra e para o
espanto. Acho que foram, sobretudo, das teorias que desafiam esses lugares de disputa,
assim como das experiências que esgarçam o espartilho dos binarismos que vieram nossas
inspirações e produções cucarachas em relação ao queer. Nosso espanto passa também
pelas acusações que nos são dirigidas não por “fundamentalistas”, por representantes de
discursos conservadores, mas quando elas vêm daqueles setores que julgamos parceiros,
com os quais acreditamos estar construindo discursos qualificados para o enfrentamento
às exclusões, aos autoritarismos mal disfarçados de cientificidade. Por isso, Bento e
Miskolci não acreditam na velha dicotomia “nós fazemos política, vocês fazem pesquisa”,
endereçando a crítica a algumas alas do movimento LGBT que diz que sem identidade
não se pode fazer política, como um dia algumas feministas disseram que sem o sujeito
mulher não se pode lutar por direitos emancipatórios para o feminino.
Como fazer política, como fazer ciência quando os corpos são instáveis e os
desejos rizomáticos? Houve um momento que o feminismo branco, heterossexual e de
classe média foi convocado a dar essa resposta para as mulheres do então chamado
terceiro mundo a “identidade mulher”. Tiveram que encarar os lugares de fronteiras, onde
lésbicas se uniam a mulheres transexuais, que também se assumiam lésbicas. Ali, onde
negras e imigrantes, antes de serem mulheres, eram corpos subalternizados pela raça e
etnia. Por isso, dizer gay, lésbica, travesti, transexual é dizer muito pouco. Aliás, é quase
sempre ofender, muito mais do que descrever (MISKOLCI, 2012). Fere, quando o que
queremos é problematizar esses termos. Desejamos seguir no esforço de resignificação e
de politização dessas categorias. Nós ambicionamos saber como se chegou a esse
vocabulário de exclusões, porque, antes de serem categorias reinvindicadas, estas são
identidades impostas. Assumimos que é preciso interrogar os saberes que divulgaram
verdades sobre esses corpos, encapsulando subjetividades, patologizando desejos.
Preciado (2009) diz que os movimentos feministas e aqueles que nos anos de 1960
e 70 lutaram pelos direitos das então chamadas minorias sexuais, protagonizaram a
primeira “revolução feita com linguagem, sexo, drogas e música.” Ainda é a escrita
perturbadora de Preciado que trago aqui: “o movimento gay, lésbico e trans coloca a
vulnerabilidade do corpo e sua sobrevivência no centro do discurso político e faz da
cultura, como fórum de criação e intercâmbio de ideias onde se definem os limites do
socialmente possível, o centro da luta” (2009, p.147. Traduções minhas).

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Assim, penso que é preciso lembrar-nos que a vocação teórica dos feminismos,
dos estudos de gênero e do queer, tem sido justamente a de provocar torções nas linhas
retas de algumas propostas científicas/políticas. Por isso, é preciso resistir à tentação de
assumir determinadas linguagens, quando o caso é recusá-las. Mais que rejeitar
determinados termos identitários trata-se de não substitui-los simplesmente sem por em
xeque a própria matriz que os forja. Refiro-me aqui ao recente conceito de cisgeneridade,
proposto pelo movimento de pessoas trans, nascido no bojo do transfeminismo no Brasil.
Cisgeneras seriam todas as pessoas que não são transexuais ou travestis. Aqueles que
estariam, independente de sua orientação sexual, conformes ao gênero assignado a elas
no nascimento.
Para a pensadora e ativista transfeminista Hailey Kaas,

Historicamente a ciência criou as identidades trans* (e por isso já


nasceram marginalizadas), mas não criou nenhum termo para as
identidades consideradas “naturais”. É por isso que a adoção do termo cis
denuncia esse pseudo status natural. Nomear cis é o mesmo processo
político de nomear trans*: aponta e especifica uma experiência e
possibilita sua análise crítica. Nas produções acadêmicas
contemporâneas, tanto das ciências médicas quanto das sociais, a
identidade trans* é colocada sempre sob análise, tornando-se,
compulsoriamente, objeto de crítica. Ao nomearmos xs “normais”
possibilitamos o mesmo, e colocamos a categoria cis sob análise,
problematizando-a. Buscamos o efeito político de elevar o status de
pessoas cis ao mesmo das pessoas trans* (KAAS, 2013, s/n).

Ainda que o considere o conceito de cisgeneridade potente politicamente,


desafiador mesmo, minha preocupação não antecipa uma recusa, ao contrário. Reitero a
necessidade de seguirmos no debate a fim de sofisticar os conceitos, de forjar novos
termos capazes de traduzir de forma mais vivida o contexto contemporâneo. Minha
questão aquela feita mais acima, se nomear cis é o mesmo processo de nomear trans,
então estamos mais uma vez capturadas na matriz regulatória de corpos e subjetividades.
Reificadora e perigosamente normalizadora. Evidentemente, sei que não se trata disso,
mas o que temos assistido, quando as cisões se dão e as dicotomias se recolocam é uma
arriscada “queerização” de essencialismos. E aprendemos que mesmo o essencialismo
quando estratégicos, como propôs certa feita Gayatri Spivak, tendem a reiterar cisões

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entre “Nós” e “Outros”, ao invés de criar pontes e fomentar alianças que desfoquem das
ficições identitárias para os aparatos que as criam como mais ou menos legítimas.
Os enfrentamentos ao um vasto sistema de exclusões orquestradas pelo Estado,
propagada pela mídia conservadora e atualizada nas ruas em manifestações racistas,
machistas e homofóbicas, se dá, certamente, para além do gênero, ainda que no presente,
esta tenha se tornado uma palavra incendiária, nem tudo se encerra aí. Mas certamente,
muito do que tem nos provocado teórica e politicamente seja tributário à potencia
transgressiva dessa categoria.

Referências Bibliográficas

BENTO, Berenice. Política da diferença: feminismos e transexualidade. In COLLING,


Leandro (org.). Stonewall 40+ o que no Brasil?. Salvador: EDUFBA, 2011, pp. 79-110.

BENTO Berenice, PELUCIO, Larissa. Despatologização do Gênero: a Politização das


Identidades Abjetas. Revista Estudos Feministas (UFSC. Impresso), v.20, p.569 - 581,
2012.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de


Janeiro: Civilização Brasileira. 2003.

KAAS, Hailey. O que é cissexismo. Transfeminismo, 2011. Disponível em:


<http://transfeminismo.com/o-que-e-cissexismo/>.

LOURO, GUACIRA LOPES. Teoria queer: uma política pós-identitária para a educação.
Revista de Estudos Feministas, Florianópolis , v. 9, n. 2, pp. 59-90, 2001 . (Disponível
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MISKOLCI, Richard. “A Teoria Queer e a Sociologia: o desafio de uma analítica da


normalização”. In: Sociologias. Porto Alegre: PPGS-UFRGS, 2009. N.21 Disponível em
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-
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MISKOLCI, Richard. Não somos, queremos: reflexões queer sobre a política sexual
brasileira contemporânea. In: COLLING, Leandro (Org.). Stonewall 40 + o que no
Brasil? Salvador: EDUFBA, 2011, p. 37-56.
______. Teoria queer – Um aprendizado pelas diferenças. São Paulo: Autêntica, 2012
(Col. Cadernos da Diversidade

PELÚCIO, Larissa. “Traduções e torções ou o que se quer dizer quando dizemos queer
no Brasil?”. Revista Acadêmica Periódicus, vl. 1, no. 1. 2014.