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O PARADIGMA MECANICISTA DA MEDICINA OCIDENTAL MODERNA:

UMA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA

Marcos de Souza Queiroz *

QUEIROZ, M. de S. O paradigma mecanicista da medicina, ocidental moderna: uma perspectiva antro-


pológica. Rev.Saúde públ., S.Paulo, 20:309-17, 1986.
RESUMO: Objetivou-se analisai, sob um ponto de vista antropológico, o paradigma "mecanicista"
dominante na medicina ocidental moderna. Faz-se comentário crítico sobre o positivismo que sustenta
este paradigma. Foi mostrado também como ele desenvolveu-se historicamente a ponto de dominar a
percepção médica sobre saúde, doença e terapêutica, e como essa percepção deixou modernamente de
compreender um amplo espectro da realidade a que se propõe compreender. Foram analisados alguns
sistemas médicos "populares" e "primitivos", mostrando como eles incorporam o social no campo da
medicina. Enfatiza-se a necessidade da medicina ocidental moderna recuperar o social e o cultural (como
dimensões que moldam inevitavelmente a doença, os tratamentos e a cura) para sair da crise em que se
encontra. Nesse sentido, recorrer à história e aos sistemas médicos "populares" e "primitivos" tem o pro-
pósito de contribuir para isso.
UNITERMOS: Antropologia da medicina. Medicina tradicional. História da medicina.

A medicina científica ocidental sofreu um pro- para ela. Para isso, pretende-se recorrer à história e
cesso de expansão extraordinária a partir da segunda à antropologia.
guerra mundial, consolidando um modelo baseado
Antes de prosseguir nessa direção, no entanto, é
numa sofisticação tecnológica sem precedentes. Esta
necessário recorrer tanto ao conceito de paradigma,
sofisticação lhe permitiu uma sintonia ainda maior
conforme a formulação de Kuhn16 (1975), para
com o sistema produtivo na medida em que aumen-
compreendermos o significado de crise no campo
tou significativamente o seu poder de intervenção
científico, como as posições epistemológicas que
no corpo humano a fim de moldá-lo às necessidades
fundamentam a crítica que pretendemos empreen-
da produção (Possas26, 1981). Além disso, esta so-
der.
fisticação tecnológica não se fez sem um investi-
mento maciço de capital, o que colocou o campo De acordo com Kuhn16 a "ciência normal" não
médico como uma área onde se processa uma teria por finalidade produzir conhecimento novo
acumulação de capital das mais intensas (Donnan- mas apenas concentrar suas investigações no óbvio
gelo6, 1975). determinado pelo paradigma (um mapa que governa
a percepção dos cientistas) dominante no campo
No campo ideológico, esse período caracterizou- científico. Assim, o desenvolvimento real da ciência
se por um grande otimismo no poder da ciência e (não apenas a expansão interna do paradigma) ocor-
da tecnologia na resolução dos problemas sociais e re apenas em circunstâncias raras e especiais, quando
humanos. Acreditava-se, por exemplo, que a erradi- o paradigma entra num estágio de crise profunda e
cação e o controle da grande maioria das doenças quando um novo paradigma (que dê conta da reali-
dependia somente do fator tempo. Uma a uma elas dade que não poderia ser compreendida pelo para-
seriam subjugadas ao poder da inteligência humana digma anterior) é proposto.
treinada pelo método científico. Mais recentemente, Embora não seja possível sumarizar a posição de
no entanto, esse otimismo começou a ceder lugar vários epistemólogos de importância, entre eles
a uma percepção onde se configuram os limites da Lakatos e Musgrave17 (1970) e Kuhn16 (1975),
expansão e das possibilidades da ciência e da tecno- pode-se dizer sem exagero que tem havido uma con-
logia na resolução de alguns dos mais importantes tribuição substantiva dessa área para uma radical
problemas humanos. Isso é particularmente verda- mudança na percepção que a ciência tem de si
deiro no caso da medicina, onde se verifica uma mesma.
crise profunda não só da sua prática como do seu A ciência, desde o período renascentista, tem
saber. sido concebida em termos do relacionamento isola-
do entre o pesquisador e a natureza, mediados pelo
Esse artigo tem por objetivo refletir tanto sobre a conhecimento ou pelo saber do pesquisador. Atual-
natureza dessa crise como sobre as saídas possíveis mente, a perspectiva desses epistemólogos dá muito

* Do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Universidade Estadual de Campinas - Caixa Postal 1170 - 13100
- Campinas, SP - Brasil.
mais atenção a fatores tais como a comunidade as forças sociais primárias mais imediatas do meio
científica a qual pertence o pesquisador, o conheci- social em que atua. Portanto, o objetivo de consta-
mento partilhado por essa comunidade e as corren- tar a inevitabilidade da influência social e cultural
tes sociais econômicas e culturais mais amplas num determinado campo de saber é justamente o
dentro da qual essa comunidade existe. Assim, a per- de encontrar meios que preservem uma certa auto-
cepção de um mundo natural independente do nomia a esse campo de saber de modo a permití-lo
mundo humano que o percebe, um pressuposto fun- encontrar soluções criativas que não poderiam ser
damental do positivismo passa a ser ingênua na encontradas normalmente por outras instituições
medida em que não avalia a importância da estru- sociais.
tura perceptiva influenciada pela sociedade e pela A antropologia, principalmente através de
cultura na dimensão e no sentido assumidos pelo Turner32 (1967), tem mostrado a universalidade do
mundo natural. fator desestruturante (anti-estrutural) das manifes-
Tanto a sociologia como a antropologia social e tações artísticas e científicas. Certamente esse autor
cultural tem sido pródigas em demonstrações teóri- se refere à imagem de uma ciência criativa que
cas e empíricas de que conhecimento varia con- ocorre excepcionalmente quando o saber é real-
forme o contexto social e só tem sentido dentro mente inovado e não à uma ciência normal como a
descrita por Kuhn16 (1975). Isso porque, quando a
dele. Os aparelhos de apreensão da realidade são
ciência ou a arte servem no sentido de manter o
socialmente modelados, exigindo um processo de
"status quo" social, elas tendem a se cristalizar num
aprendizagem. Aprende-se a sentir, a ver, a ouvir,
comportamento institucional ritualizado subjuga-
a classificar e a discernir sobre o mundo que nos
circunda. Isso nos leva à conclusão de que o co- dos aos interesses sociais a que servem, referendando
nhecimento é inevitavelmente parcial, uma vez o "já sabido" e sem condições de propor soluções e
que a realidade é infinita e os aparelhos de apreen- conhecimentos novos. Já o desenvolvimento de uma
são da realidade do ser humano são limitados pela independência relativa das forças sociais mais ime-
biologia (objetivamente) e pela cultura (subjetiva- diatas permite à ciência uma postura crítica que é
imprescindível à produção (e não meramente re-
mente). Portanto, a sociologia e a antropologia
social e cultural contribuiram decisivamente para produção de conhecimento).
mostrar que fatores imanentes (lógicos ou meto- Numa frase bastante significativa, Popper25
dológicos) ao conhecimento não podem explicar (1970 : 58) caracterizou a produção de uma ciência
isoladamente o seu desenvolvimento, que para real como implicando necessariamente "uma quebra
tal exige a introdução de fatores sociais e cultu- da estrutura de nossas teorias, de nossas expectati-
rais. Essa posição constitui um grande golpe ao vas, de nossa experiência passada, de nossa lingua-
positivismo que pretende ver no conhecimento gem". Ele quer dizer com isso que a produção de
um desenvolvimento contínuo, com base num uma ciência real implica superar os condicionantes
desvendamento objetivo da natureza, e passível da história, da cultura e de nós mesmos. Realmente,
de ser acumulado no tempo com o mesmo sen- a história registra que o esforço para superar os
tido. Tal positivismo, como ironizou Sartre31 limites impostos pelos condicionantes sociais
(1967), nada mais é do que a ilusão de se chegar acompanha todas as grandes realizações da arte e da
à unidade acrescentando noves a 0,99. ciência.
A crise da medicina ocidental moderna refere-se Portanto, é possível dizer, sem contradição, que
à crise de seu paradigma dominante, o qual se num certo momento, a medicina científica tor-
identifica inteiramente com o positivismo ao não nou-se hegemônica exatamente por se mostrar
reconhecer o papel da sociedade, da cultura, da compatível com o "ethos" capitalista e, num outro
comunidade científica e da própria história na momento, tornou-se inviável exatamente por se
determinação não só do objeto do conhecimento mostrar excessivamente comprometida com esse
como da maneira de abordá-lo. Alguns autores têm "ethos", perdendo assim a sua independência e
denominado esse paradigma como "mecanicista" autonomia, ainda que relativas, face ao sistema
(uma denominação que adotaremos ao longo desse social em que atua. Na medida em que a sua funcio-
artigo) por pressupor que, da mesma forma que nalidade ao sistema significa tomar-se insensível às
qualquer objeto natural, a saúde e a doença podem causas reais de doenças (que muitas vezes residem
ser explicadas exclusivamente pela interação mecâ- na forma como a vida é organizada pela sociedade)
nica das diferentes partes do organismo humano. e às soluções que implicariam em melhoria do nível
A ilusão histórica do positivismo não permite de saúde de uma população, a medicina tem pro-
reconhecer que o vínculo de um campo de saber duzido serviços extremamente caros e ineficazes,
com o seu meio social e cultural é inevitável. No dois sintomas principais de sua crise.
caso da medicina, a sua crise provém não desse A questão não é, propriamente, descartar a
fato mas do seu excessivo comprometimento com medicina como algo totalmente indesejável, cujo
único propósito seria promover, no bojo dos interes- individual e com os meios para curá-la como tam-
ses da indústria farmacêutica e hospitalar e da bém com a manutenção da saúde dentro de um
profissão médica, a ideologia da sociedade industrial sistema ecológico em que fatores tais como o ar,
e burocrática. Essa postura tem sido encontrada no a água e o alimento, o clima são vistos como rele-
chamado movimento "anarquista-cultural" norte vantes para a manutenção do equilíbrio biológico.
-americano, tendo em Illich14 (1975) o seu princi- Durante a Idade Média, a medicina manteve
pal proponente. A questão é se a medicina pode como pressuposto o paradigma aristotélico da uni-
realmente tornar-se inteiramente uma ciência dade orgânica dos seres vivos, sendo a doença a
verdadeira na concepção de Popper25 (1970), expressão de alterações globais do organismo em
conquistando para isso uma independência maior interação com o seu meio físico e social. Assim,
dos interesses mais imediatos do modo de produção acreditava-se que, do mesmo modo como os hu-
a que serve. Essa pretenção implica, necessaria- mores e líquidos do organismo influenciam as
mente, considerar que o objeto da medicina, o ser virtudes do homem, suas virtudes influenciam os
humano, é diferente do objeto das ciências naturais, humores.
e exige a consideração de aspectos subjetivos,
simbólicos e sociais para a plena apreensão da No século XVII, Descartes estabeleceu os mé-
realidade a que se propõe estudar. todos para se pensar o corpo humano como má-
quina. Assim como Galileu tinha mostrado que o
Essa breve introdução no campo da filosofia da método científico era capaz de providenciar uma
ciência serve como ponto de partida do problema interpretação mecânica do mundo físico, Descartes
que será então estudado sob uma perspectiva não via razão porque os mesmos princípios não
histórica e antropológica. podiam ser estendidos ao mundo das criaturas vivas.
Assim, ele criou a dicotomia entre mente (uma
Um Pouco Sobre a História da Medicina Científica concepção divina, fora do alcance da ciência) e
Ocidental corpo (um organismo imperfeito que obedece a
leis mecânicas). Nesse esquema, a doença aparece
Entre os gregos antigos, os mitos de Hygéia como um distúrbio de um dos componentes da
(deusa da saúde) e Asclépius (deus da medicina) máquina humana passível de ser reparado pela in-
simbolizam dois aspectos importantes da medicina. tervenção de uma medicina que detivesse o conhe-
Para os adeptos de Hygéia, saúde dependia primor- cimento das leis que operam essa máquina. O corpo
dialmente de como os homens governavam as suas humano perdia assim seu caráter divino, intocável.
vidas. Nesse caso, ao médico cabia descobrir como Pouco tempo depois, ocorreu uma demonstração
um indivíduo pode melhor se adaptar ao seu meio ainda mais dramática da validade da postura meca-
social e físico através de restrições comportamen- nicista na descoberta de Harvey da circulação do
tais e dietéticas, uma vez que a cura viria sempre sangue.
da natureza, e a doença, de um relacionamento
A partir da Revolução Industrial, verificou-se
inadequado com ela. Nesse sentido, doença im- uma ruptura fundamental entre saúde e medicina,
plica desajuste, geralmente mediado por relaciona-
com uma hegemonia flagrante desta última. Essa
mento social desequilibrado. Daí o caráter de culpa
ruptura veio acompanhada da ruptura entre corpo
e vergonha que acompanhava as doenças durante o
e mente, eu e outro, pessoa e contexto, relações
mundo antigo e medieval. econômicas e comunitárias dentro de um mundo em
Já os seguidores de Asclépius acreditavam que o intenso processo de burocratização e desencanto.
principal papel do médico é tratar a doença e corri- Esse processo permitiu cada vez menos situar a
gir as imperfeições trazidas pela vida através de tera- doença entre a biografia individual e o mundo
pias mais "heróicas", sem se preocupar muito em social, fator esse que, no nosso entender, explica a
encontrar um modo de vida particular ao paciente. impossibilidade da medicina científica, então emer-
A ênfase recaia, portanto, no aspecto sintomático gente, compreender um número muito grande de
e curativo da medicina. Platão (citado por Livingsto- doenças de atualidade.
ne20 (1940), por exemplo, mostra ter sido um
Essa ruptura, ocorrida dentro do capitalismo mo-
adepto de Asclépius, uma vez que ele criticava o
derno, aliou ao processo de divisão de trabalho e de
cuidado e o controle excessivo com o corpo que
burocratização, interesses econômicos irracionais.
o método de Hygéia muitas vezes acarretava, pri-
Conti5 (1972), nesse particular, conclui o seu traba-
vando, assim, o indivíduo de "praticar o seu ofício
lho afirmando que todos sabem ser possível curar
se é pobre, e de se por a serviço do Estado se é
muitas doenças crônicas pela diminuição de fatores
rico".
tais como poluição, alienação no processo de traba-
Em teoria, a medicina Hypocrática foi uma lho ou condições de "stress" na vida urbana, mas
síntese elaborada a partir dessas duas tendências, este saber se torna inútil quando a orientação mé-
uma vez que ela se preocupa tanto com a doença dica é conduzida pelo sistema produtivo a aumentar
e não a diminuir a "competência produtiva" tanto saúde humana. O segundo, diz respeito aos custos
individual como coletiva. crescentes que esse tipo de medicina acarreta, tor-
nando-o incompatível com o ideal de democratiza-
No século XIX, Pasteur e Koch pensaram ter pro- ção da oferta de serviços médicos, principalmente
vado de modo inquestionável que doenças podem em países em desenvolvimento.
ser produzidas pela introdução de um único agente
específico (um germe virulento) num organismo até Uma importante obra a comprovar o primeiro
então sadio. Como salienta Landman18 (1983: 140) desses fatores é a de McKeown21 (1979) que mostra
a respeito, muito bem que a grande melhoria nos níveis de saú-
de que a população ocidental sofreu nesses últimos
"Do campo da infecção, a teoria da origem séculos se deve em primeiro lugar à maior disponibi-
específica das doenças difundiu-se a outras lidade de alimentos; em segundo lugar, à salubridade
áreas da medicina pela demonstração em do meio ambiente (principalmente a disponibilidade
animais de experiência da produção de doen- de água potável e de sistema de esgoto; em terceiro
ças através de lesões específicas, anatômicas, lugar, ao controle da natalidade. A medicina, nesse
fisiológicas ou bioquímicas. Agentes microbio- sentido, teve um papel muito menor do que se lhe
lógicos, distúrbios metabólicos, deficiência atribui. Mesmo o controle das doenças infecciosas,
ou aumento de hormônios, enzimas e vitami- diz o autor, resultou principalmente da modificação
nas, e o estresse eram considerados agentes da condição na qual elas ocorreram, e apenas secun-
específicos na etiologia das doenças. O con- dariamente pela ação quimioterápica.
ceito da desarmonia entre o paciente e o meio Reforça esse argumento a comprovação em vários
em que ele vive ficou obscuro e nebuloso países de que a partir de um certo ponto, o aumento
quando comparado com a terminologia "pre- do nível da atividade médica numa sociedade não
cisa" e as explicações "seguras" da moderna corresponde a um aumento do nível de saúde da po-
ciência médica". pulação como se deveria esperar (Ehrenreich 9 ,
1978). O que se verifica de fato é que enquanto a
A partir de Pasteur e Koch, portanto, a medicina alocação de recursos para a área médica na maioria
pensou ter se tornado uma ciência natural que teria dos países desenvolvidos tem se multiplicado a par-
o poder de controlar todas as doenças pela desco- tir dos anos 50, os ganhos em saúde têm sido irrisó-
berta de antídotos específicos às suas causas espe- rios, principalmente nas duas últimas décadas. Isso
cíficas, tendo o indivíduo e não a população como sem falar nas inúmeras doenças provocadas direta-
objeto de interesse. mente pela ação da intervenção médica, ou seja,
as doenças iatrogênicas. Num excelente artigo
A questão da saúde que, também no século XIX, sobre o assunto, Powles27 (1980) afirma que um
teve desenvolvimento muito promissor na medicina dos mais notáveis paradoxos na cultura médica re-
social, concebida por filósofos sociais (tendo em pousa no contraste entre o entusiasmo associado
Engels o seu expoente máximo) e cientistas médicos com crescentes investimentos sociais na área médica
(tendo em Virchow o seu expoente máximo), foi e a realidada de retornos decrescentes na área da
relegada a um segundo plano, apesar da clareza com saúde.
que esses autores demonstraram que as doenças pro-
vêm das condições sociais de trabalho e de vida em Um outro ponto a abalar o paradigma mecanicis-
geral. ta diz respeito à grande proporção de doenças de-
generativas tais como câncer, doenças do coração,
A reforma da profissão médica nos EUA, após o hipertensão arterial, doenças psiquiátricas entre ou-
relatório Flexner11 (1910) consolida a hegemonia tras, que não se mostram tratáveis pela intervenção
do paradigma mecanicista, ao mesmo tempo que tecnológica baseada no modelo unicausal de doen-
consolida a formação de uma profissão médica com ças. Muitos autores têm considerado não só essas
um grau sem paralelos de poder, riqueza e prestígio. doenças mas também as infecciosas como de múl-
A descoberta dos antibióticos a partir de 1930 e a tipla causalidade, na qual corpo, mente e meio-am-
sua comercialização depois de 1945 refletiram o biente (incluindo mas não limitado por microorga-
auge desse paradigma, levando muitos a crerem que nismos exógenos) interagem para produzir a doença
a resolução da maioria dos problemas de saúde deve- ou para curá-la. Como Dubos8 (1965) argumentou a
ria ocorrer no campo da quimioterapia. esse respeito, o ser humano traz com ele a maior
parte dos germes causadores de grande parte das
Mais recentemente, no entanto, dois fatores fun- doenças a maior parte do tempo. Essas doenças,
damentais contribuíram decisivamente para abalar no entanto, só se manifestam quando a resistência
os alicerces do paradigma mecanicista. O primeiro e a elas diminui ou quando a suscetibilidade a elas
principal deles diz respeito à deficiência desse para- aumenta, o que remete necessariamente às condi-
digma em conceptualizar os problemas modernos da ções sociais que as propiciam.
No que diz respeito aos custos crescentes de uma dentro de um sistema de doenças que pretendia ser
medicina baseada no hospital e na alta tecnologia, a objetivo, no qual o paciente se tornava meramente
sua presença hegemônica em países como o Brasil, um caso. Em tal situação, a doença deixou de ser
cuja grande maioria populacional é sub-alimentada e considerada um distúrbio envolvendo uma totali-
possui escasso controle ambiental, é evidentemente dade biológica inserida num contexto sócio-cultural.
muito mais irracional do que o mesmo fenômeno Ela passou a ser diagnosticada tendo em vista ex-
num país rico. O aumento das taxas de mortalidade clusivamente a correlação objetiva de sintomas,
infantil em aproximadamente 70% entre 1960 e sendo considerado irrelevante o registro dos senti-
1975 no Estado de São Paulo, ao mesmo tempo em mentos e das sensações subjetivas do paciente a res-
que se promovia o chamado "milagre econômico" peito da sua doença. Para esse fim, desenvolveu-se
e se consolidava um sistema nacional voltado para uma variedade de instrumentos para o exame in-
uma medicina individualizada, sintomática, curativa terno e externo do paciente. No entanto, a possível
e de natureza essencialmente hospitalar, multipli- eficácia da medicina desse tempo, como tem notado
cando com isso os gastos "per capita" com os cui- vários autores (Doyal 7 , 1979; Berliner 2 , 1982), era
dados médicos, é um ótimo exemplo da ineficácia quase sempre produzida por efeito placebo. Sem
desse sistema e da necessidade de se promover uma usufruir de uma medicina objetivamente superior, o
alternativa para ele (Bacha 1 , 1979, sobre mortali- paciente deixa de ser dominante no relacionamento
dade infantil em São Paulo). No entanto, é impor- médico-paciente, passando a exercer um papel se-
tante salientar que a crise da medicina não se limita cundário no qual os principais protagonistas passa-
aos problemas do subdesenvolvimento, uma vez que ram a ser os médicos (agora formando uma classe
ela está intensamente presente também entre os profissional cada vez mais poderosa) e as doenças
países desenvolvidos capitalistas e socialistas (ver, isoladas dos pacientes num processo de reificação.
por exemplo, Navarro 23,24 , 1975 e 1977, que,
numa perspectiva marxista, critica tanto a medicina Finalmente, a medicina de laboratório, o terceiro
capitalista como a medicina socialista existente estágio, teve início em fins do século passado, em
na União Soviética). sintonia com uma intensificação sem precedentes do
processo de industrialização e urbanização. No
Sob o ponto de vista do relacionamento médico campo médico, a visão de mundo mecanicista, en-
-paciente, o desenvolvimento da medicina ocidental fatizando uma intervenção terapêutica ativa no
moderna tem sido vista como um processo pelo qual processo fisiológico humano, atingiu o seu apogeu.
o paciente perde a sua integridade e consciência so- Nesse estágio, as doenças deixaram de ser interpre-
cial e cultural de si mesmo e se torna um objeto de tadas através da estrutura patológica, e passaram
manipulação. De acordo com Jewson 15 (1976), a a sê-lo através da estrutura celular. Com o uso do
perda dessa identidade ocorreu através de três es- método experimental, a medicina tornou-se uma
tágios históricos. ciência natural que transformou o paciente não
apenas num caso clínico mas num objeto a ser ma-
O primeiro estágio, denominado "medicina ao nipulado.
lado da cama", foi dominante no Ocidente até o fim
do século XVIII. Sua característica principal consis- Portanto, enquanto as novas doenças, males e
tia em que o paciente se situava no centro do pro- causas de mortes passaram a ser cada vez mais re-
cesso médico e era tratado em sua totalidade. Assim, lacionadas com as condições de trabalho e de vida
os dados à disposição do médico eram subjetivos, e num determinado contexto sócio-econômico e
os sentimentos e sensações do paciente eram consi- cultural, a medicina concentrava a sua atenção
derados muito importantes na avaliação de sua cada vez mais intensamente em conceitos etioló-
condição. A "medicina ao lado da cama" também gicos unicausais, baseados na teoria dos germes.
adotava a suposição de que a doença resultava de Assim, como salienta Berliner2 (1982), a medi-
um distúrbio no relacionamento do ser humano com cina científica tornou-se uma racionalização para
seu meio físico e social. Portanto, o equilíbrio tanto não se lidar com as causas verdadeiras das doenças
com o meio ambiente como com o meio social era num modo que pudesse ser disfuncional para o
considerado fundamental na causação de doenças e crescimento produtivo capitalista. Em grande
na manutenção da saúde. No entanto, como apon- medida essa conclusão pode também ser extra-
tou Jewson 15 , esse tipo de medicina se caracteriza polada para a medicina de países socialistas. Nesse
também pelo grande número de teorias conflitantes sentido, a medicina ocidental moderna valida, re-
que lutavam entre si por uma hegemonia. força, legitima e reflete as normas produtivas, o
que nem sempre coincide com as necessidades de
A "medicina hospitalar", o segundo estágio, veio saúde de uma população. Isso quer dizer que so-
como resultado da revolução industrial e do proces- mente uma revolução econômica onde se socia-
so de urbanização a partir do século XVIII. Esse lizam os meios de produção não é suficiente para
tipo de medicina classificava estados patológicos, que ocorra uma revolução nas idéias e na cultura.
Os Sistemas Médicos "Populares" e "Primitivos": seu meio social (através da crença de que crises no
um enfoque antropológico relacionamento social provocam doenças) e no equi-
líbrio do homem com ele mesmo e com agentes
Vimos que, historicamente, o desenvolvimento sobrenaturais (através da crença de que crises emo-
da medicina implicou em perda de uma visão unifica- cionais ou influências sobrenaturais provocam
dora do paciente, e deste com o seu meio ambiente doenças).
físico e social. Essa perda começou a ocorrer com A lógica do "quente e frio" tem sido encontrada
a revolução industrial, mas só atingiu a sua pleni- em praticamente toda a América Latina e consiste
tude no século XX. Trata-se, portanto, de um fe- num sistema que classifica como quente ou frio
nômeno recente e sem similar dentro da história certos elementos, principalmente alimentos e ervas
do ocidente. Trata-se também de um fenômeno medicinais, e atribui uma performance terapêutica
sem similar quando confrontado com outros sis- diferencial desses elementos no corpo humano.
temas médicos não ocidentais como a Acupuntura, Assim, doenças quentes devem ser tratadas com
a medicina Ayurvédica ou ainda os sistemas médicos ervas medicinais e alimentos frios, e as doenças frias
populares da África, Ásia ou América Latina. Em to- devem ser tratadas com ervas medicinais e alimentos
dos esses casos, por mais diferentes que sejam, quentes (Queiroz, 29,30, 1982, 1984).
tanto as concepções de doença e de saúde como os
tratamentos e as formas de cura, é possível verifi- A crença de que crises no relacionamento social
car um denominador comum: o pressuposto de que provocam desequilíbrios emocionais que levam a
a saúde e a doença dependem do relacionamento doenças está presente nas tão difundidas crenças em
tanto das diferentes partes do organismo entre si "mau-olhado", feitiço ou inveja. Basicamente, essas
como deste com o seu contexto sócio-cultural. crenças pressupõem que os sentimentos de um indi-
víduo influenciam, para bem ou para mal, outros in-
O argumento sustentado por este artigo é que a divíduos. Evidentemente, como tão bem sugerira
medicina ocidental moderna necessita recuperar essa Gluckman12 (1973), esses sentimentos são social-
dimensão para sair da crise que a levou a seu para- mente dirigidos e refletem necessariamente a estru-
digma dominante. É importante salientar, contudo, tura social em que ocorrem (Queiroz 28 , 1980).
que focalizar medicinas populares ocidentais ou não
ocidentais não significa contrapô-las favoravelmente Finalmente, a crença de que a desarmonia do
à medicina ocidental moderna. Isso porque se trata indivíduo com ele mesmo e com agentes sobrena-
de situações de diferente escala e de diferente confi- turais traz doenças está presente nas não menos
guração cultural do problema. O que se pretende é difundidas crenças em "susto", vontade insatisfeita
constatar que nesses sistemas médicos alternativos, ou ainda em espíritos interferindo maleficamente
sejam eles simples conhecimento popular não siste- nos negócios humanos. Como no caso anterior, essas
matizado ou sistemas médicos complexos, o fator crenças só fazem sentido quando em operação num
social existe como componente fundamental, ao determinado contexto social.
contrário do que ocorre com o paradigma domi- Na África, a noção de que doenças refletem um
nante da medicina ocidental moderna. desequilíbrio social chegou a um grau de grande so-
Dentro da própria medicina ocidental moderna, fisticação, como nos mostram tanto Evans-Prit-
a incorporação do social no campo médico, embora chard10 (1937) como Turner32 (1967). A obra de
configurando uma mudança radical de paradigma, Evans-Pritchard 10 sobre os Azande é clássica. Ele
não constitui propriamente uma possibilidade teó- mostra que para esse povo (e para muitos outros
rica nova. Como vimos, a dimensão social existe da África como nos têm mostrado etnografias recen-
como componente fundamental para a medicina tes), toda a doença, assim como toda a má-sorte
desde a medicina Hipocrática, tendo sido enfocada individual provém de um feitiço feito por uma outra
pessoa. O objetivo desse autor é mostrar que, longe
com rigor científico no século XIX. Em termos con-
de ser uma crença ilógica própria de uma mentalidade
cretos, portanto, a recuperação do social pela medi-
primitiva, esta crença reflete uma estrutura de po-
cina não seria tão somente uma questão epistemoló-
der dentro da sociedade. A acusação de feitiçaria
gica, mas inevitavelmente política.
não é gratuita e obedece a uma lógica onde con-
Isso posto, estamos agora em condições de anali- flitos socialmente estruturados se expressam e se
sar os estudos antropológicos sobre medicinas reconciliam através de uma complexa interação
"populares" e "primitivas". social.
A noção de equilíbrio pode ser tomada como Turner32 (1967) leva adiante as idéias estabele-
uma noção fundamental para a medicina de nume- cidas por Evans-Pritchard 10 ao mostrar que o
rosas sociedades de tecnologia simples. Na América médico Ndembu encara o seu papel muito menos
Latina, esta noção está presente no equilíbrio do concentrado no paciente individual do que voltado
homem com o seu meio natural (dentro da lógica do para remediar os males do grupo corporado. Em
"quente e frio"), no equilíbrio do homem com o suas palavras, "a doença de um paciente é princi-
palmente um sinal de que 'alguma coisa está podre' sua carreira, fica claro o aspecto social da cura, que
no grupo corporado" (Turner32, 1967 : 392). depende basicamente da crença do curandeiro em
Turner observa nessa obra que o paciente não suas técnicas, da crença do paciente no curandeiro e,
melhorará enquanto as tensões e agressões nas finalmente, da crença do meio social do paciente no
inter-relações grupais não tiverem sido expostas sistema de cura empregado pelo curandeiro. Esses
à luz e ao tratamento ritual. Nesse sentido, o papel três aspectos devem necessariamente ocorrer conjun-
do médico Ndembu é se deixar sensibilizar pelas tamente para que a cura possa ocorrer. Como sa-
correntes sociais de sentimentos conflituosos e lienta Lèvi-Strauss19, Quesalid não era um grande
pelas disputas interpessoais e sociais nas quais elas curandeiro porque curava seus pacientes, mas curava
se expressam, e canalizá-las num sentido positivo. seus pacientes porque era um grande curandeiro.
Assim, "as energias cruas do conflito são domes- Wright33 (1979), estudando a medicina na Ingla-
ticadas a serviço da ordem social" (Turner32 1967: terra no século XVII, conclui que a medicina cientí-
392). fica ocidental se tornou hegemônica no fim desse
Muitos estudos têm mostrado a eficácia tera- século não porque seu conhecimento era mais válido
pêutica de curandeiros populares manipulando do que a medicina astrológica que a precedeu, e me-
os símbolos partilhados por seus clientes. Magna- nos ainda porque a sua eficácia terapêutica era
ni22 (1979), em particular, sugere que rituais como maior. Na verdade, a única explicação para o sucesso
os da Umbanda, porque fazem sentido dentro do histórico dessa forma de medicina se encontra em
meio social em que se manifestam, e porque ofe- sua compatibilidade cultural com o novo modo de
recem uma interpretação coerente às ambigüidades produção capitalista.
e paradoxos da experiência humana, têm uma ine- Wright33 é bastante convincente ao mostrar que
gável eficácia terapêutica. o desenvolvimento da medicina não pode ser visto
No entanto, devemos nos resguardar de roman- em termos de uma resposta técnica a uma necessi-
tizar a verdade contida nas medicinas "primitivas" e dade pré-existente, uma vez que o sentido de neces-
"populares" deixando de ver que elas não são capa- sidade é dependente das forças materiais e culturais
zes de erradicar o baixíssimo nível de saúde das po- do tempo. Assim, a medicina, diante da revolução
pulações a que servem. Para isso, todo um quadro mercantil do século XVII, da valorização do lucro
de má-nutrição, pobreza e precário controle am- e do domínio da natureza se torna intervencionista
biental deveria ser eliminado. (em oposição às noções então prevalentes de harmo-
O aspecto psicossomático e social da cura de nia e equilíbrio), enfatiza uma relação individual e
doenças foi abordado por Lèvi-Strauss19 (1970) no solitária entre médico e paciente (em congruência
capítulo "O feiticeiro e sua magia". Ao utilizar o com a ideologia individualista do tempo) e acentua a
conceito de "eficácia simbólica", esse autor mostra etiologia individualista da doença (compatibilidade
que a manipulação ritual de certos símbolos social- com o puritanismo então vigente).
mente significativos tem o poder de curar ou produ- Portanto, se a medicina científica ocidental se
zir enfermos. No caso de doenças provocadas por impôs não por causa de sua maior eficácia, ela se
rituais, Lèvi-Strauss lembra a pesquisa de Cannon3 torna eficaz depois de ter sido imposta pelas forças
(1942). Esta pesquisa demonstrou que feitiços e políticas, sociais e ideológicas do seu tempo. Não es-
conjuras publicamente lançados contra um indiví- tamos, portanto, longe da fórmula de Lèvi-Strauss19
duo podem causar doenças e mesmo a morte desse a respeito do índio Quesalid.
indivíduo em sociedades que acreditam nesse poder. A Farmacologia tem contribuído para desestabi-
Isso porque, assim marcado, ele seria excluído de lizar o mito positivista através de suas investigações
seu meio social e "a integridade física não resiste à com placebos. Placebos são substâncias inativas que,
dissolução da personalidade social" (Lévi-Strauss19, no entanto, agem farmacologicamente movidas pelas
1970: 184). expectativas do paciente. Numerosas pesquisas têm
No caso da cura, o ritual concentra uma conside- comprovado que o efeito placebo pode afetar qual-
rável atenção social no paciente, promovendo um quer órgão ou sistema do corpo humano, provendo
reajuste nos seus papéis de modo a produzir uma alívio a uma grande variedade de condições e até
melhor adaptação e, conseqüentemente, uma me- mesmo causando efeitos colaterais e dependência.
lhora no seu estado de saúde. Ao mesmo tempo O efeito placebo depende de elementos culturais
que o ritual promove a cura, numa relação simbió- e sociais, e é componente essencial em todas as
tica, a cura se torna uma forte instância na qual a formas de cura.
cultura se legitima e se sustenta. O recurso à terapia placebo é amplamente usado
Nesse capítulo, Lèvi-Strauss 19 conta a estória pelos médicos ocidentais, como nos mostra Coma-
anteriormente coletada por Boas de um índio do roff 4 (1976). O artigo de Comaroff é particular-
Noroeste Americano chamado Quesalid que havia mente interessante na medida em que a terapia pla-
se tornado um grande curandeiro. Na descrição de cebo é observada sob a perspectiva do médico, cuja
dependência dela é vista como um fator indispen- A recuperação dessa dimensão significa permitir
sável para a preservação do seu saber num plano glo- à medicina um desempenho com maior autonomia
bal e sistemático diante da sua incerteza num plano das forças e interesse políticos, econômicos e ideo-
cotidiano individual. lógicos da sociedade; significa também postular a
necessidade de encontrar instâncias mediadoras que
Portanto, a terapia placebo é efetiva tanto para lhe possibilitem manter uma certa distância das in-
os clientes (porque expectativas positivas são com- fluências sociais mais imediatas. Essas influências
ponentes essenciais para a cura) como para os médi- ocorrem no plano econômico na medida em que,
cos (porque tal terapia permite que eles desempe- por exemplo, indústrias farmacêuticas, de equipa-
nhem a sua função com maior confiança). mentos hospitalares ou ainda as mantenedoras de
Helman13 (1984) realiza importante análise so- hospitais privados influenciam a prática médica e
bre as principais pesquisas realizadas sobre o efeito direcionam linhas de investigação e de produção
placebo, e uma de suas mais interessantes conclusões de conhecimentos. Elas se manifestam no plano
é atribuir a ele o fato de que o índice de eficácia de político na medida em que, por exemplo, interes-
muitas drogas e tratamentos, depois de atingirem ses de manutenção do poder da profissão médica,
de 70 a 90%, começam a cair paulatinamente até isolados ou em conjunção com interesses de classe,
chegar de 30 a 40%, que nada mais é do que a média prevalecem organizando tanto a prática como o
avaliada para a ação placebode qualquer droga ou saber médicos no sentido de manutenção do "status
terapia. Helman interpreta isso pelo entusiasmo e a quo". Elas ocorrem, finalmente, no plano ideológico
expectativa de médicos ou pesquisadores que insti- na medida em que o mito da excelência tecnológica,
gam efeito placebo em agentes experimentais. Mais ou seja, a crença de que problemas humanos podem
tarde, pesquisas realizadas por investigadores mais quase sempre ser resolvidos por uma solução técnica
céticos revelam grande diminuição da eficácia. Daí se reproduz na prática e no saber médicos em com-
a necessidade da medicina estar sempre inovando. patibilidade com o "ethos" da sociedade industrial
capitalista.
Nessa perspectiva, articular as dimensões biológi-
CONCLUSÃO cas com as sociológicas na construção social do
A medicina ocidental moderna desenvolveu-se saber e da prática médicas implica adotar soluções
mudando uma cosmologia voltada para a pessoa hu- compatíveis com as causas dos problemas de saúde
mana para uma cosmologia voltada para o objeto. humanos. Essa postura está, evidentemente, relacio-
Tem havido ganhos e perdas nesse processo. Por um nada com a construção de uma medicina mais in-
lado, houve aperfeiçoamento de técnicas terapêuti- fluenciada pelo pensamento e metodologia científi-
cas e o desenvolvimento de um corpo consistente cas e menos influenciada pelas forças primárias que
de conhecimentos com a concomitante redução organizam a sociedade capitalista.
da controvérsia sobre a natureza da doença e de seu Evidentemente, essa reorientação deve começar
tratamento; por outro lado, a medicina perdeu sua a ocorrer no campo teórico e científico, ou seja, no
visão unificadora do paciente em particular e da vida campo das idéias para, pouco a pouco, ao minar a
em geral como agentes que resultam, na saúde e na resistência dos interesses sócio-econômicos compro-
doença, de fatores ambientais, sociais e econômicos, metidos com o capital, encontrar condições institu-
além dos fatores biológicos. A medicina ocidental cionais para transformar as idéias em práticas. Essa
moderna necessita recuperar, na sua prática, essa postura é perfeitamente coerente com a interpreta-
dimensão, porque ela é teoricamente mais rica, equi- ção marxista de Gransci, para quem a revolução no
librada e próxima das causas reais que envolvem a ocidente deve iniciar-se no campo da cultura. Nesse
saúde e a doença em seres humanos. Para isso ela sentido, é possível criticar a concepção marxista or-
necessita reordenar o enorme conjunto de conheci- todoxa de que não se pode mudar a medicina (uma
mentos e tecnologias até hoje acumulados, como área da super-estrutura social) sem mudar as bases
solução para a sua crise e em alternativa ao seu pa- econômicas da sociedade (uma área da infra-estru-
radigma mecanicista dominante. tura social).
QUEIROZ, M. de S. [The "mechanistic" paradigm of modem western medicine: an anthropological
perspective] . Rev.Saúde públ., S.Paulo, 20: 309-17, 1986.

ABSTRACT: The dominant "mechanistic" paradigm of modern western medicine was analysed
from an anthropological point of view. Some critical comments on the positivistic posture which underlies
this paradigm were made, as well as a historical overview of how it has developed (dominating medical
perception of health, disease and therapeutics) up to its present crisis. An analysis of some "primitive"
and "popular" medical systems showing how they incorporated social elements into strategies of treat-
ment and cure was also made. It was emphasised that modern western medicine needs to recover its social
and cultural dimensions in order to overcome its present crisis. In this sense, looking to history as well as
to "primitive" and "popular" medical systems has the aim of contributing to this search.

UNITERMS: Anthropology, medical. Medicine, traditional. History of medicine.

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