Você está na página 1de 4

PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

UNIDADE DE ESTUDO 02

PRINCÍPIO DA LEGALIDADE
Profº. Marcus Bittencourt
Profa. Isabel Vieira

PRINCÍPIO DA LEGALIDADE

O princípio da legalidade dispõe que o administrador público só poderá agir em


estrita conformidade com os preceitos legais, sendo vedada qualquer ação de interesse
pessoal, ou que conflite com as diretrizes da Administração Pública.
A legalidade, como princípio de administração (CF, art. 37, caput), significa que o
administrador público está, em toda a sua atividade funcional, sujeito aos
mandamentos da lei e às exigências do bem comum, e deles não se pode afastar ou
desviar, sob pena de praticar ato inválido e expor-se a responsabilidade disciplinar,
civil e criminal, conforme o caso (MEIRELLES, 2009, p. 89).

Desta forma, tem-se que o princípio da legalidade é próprio fundamento do Estado


Democrático de Direito, pois objetiva limitar o poder arbitrário do Estado, restringindo ações
sem fundamentação jurídica e que possam causar prejuízos ao bem comum.
Sob este prisma, note-se que o princípio da legalidade é uma afronta aos estados
absolutistas e ditatoriais, pois se baseia em um preceito constitucional de segurança jurídica
aos indivíduos, os quais terão seus direitos assegurados e deveres criados por meio de
procedimentos específicos, formais para tal, organizados e controlados por representantes
do povo, escolhidos por este.

Em conclusão, o princípio da legalidade de um Estado Democrático de Direito


assenta numa ordem jurídica emanada de um poder legítimo, até porque, se o
poder não for legítimo, o Estado não será Democrático de Direito, como proclama a
Constituição (art. 1°). Fora disso, teremos possivelmente uma legalidade formal,
mas não a realização do princípio da legalidade (SILVA, 2005, p. 425).
Tal princípio tem por base o art. 5°, II, da CF/88, segundo o qual: “ning
uém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”,
no entanto, em se falando de Administração Pública, esta disposição não é exatamente assim
aplicada.
No campo do direito privado aplica-se a máxima “O que não é proibido, é
permitido”, enquanto no direito público, a questão muda para “O que não é permitido, é
proibido”. Em análise a tais sentenças, verifica-se que a ação estatal deve estar em
consonância perfeita com ditames legais, sendo que, em caso de lacunas de lei, não poderá
tomar atitudes que prejudiquem o administrado, devendo, suas ações, serem baseadas
sempre no interesse público.
Esta forma de interpretação está diretamente ligada à segurança jurídica do próprio
cidadão, o qual terá a certeza de que o administrador público não tomará nenhuma decisão
ou medida a seu bel prazer, devendo, sempre visar o bem comum e o interesse público.

Enquanto na administração particular é lícito fazer tudo que a lei não proíbe, na
Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza. [...] As leis
administrativas são, normalmente, de ordem pública e seus preceitos não podem
ser descumpridos, nem mesmo por acordo ou vontade conjunta de seus
aplicadores e destinatários, uma vez que conte verdadeiros poderes-deveres,
irrelegáveis pelos agentes públicos. (MEIRELLES, 2009, p. 89).

Cumpre ressaltar que o princípio da legalidade não se aplica tão somente à lei em
seu sentido formal, mas também a todo e qualquer ato a ela equiparado, ou seja, todos os
atos que criem direitos e imponham obrigações, mesmo que não tenham sua origem
decorrente de ação do Poder Legislativo.
Entretanto, todo e qualquer ato que não seja originário do Poder Legislativo deve
ser por este amparado, isto é, deve se embasar em preceitos legalmente formais para a sua
publicação, em caso contrário, podendo ser declarados nulos ou anuláveis em decorrência de
sua ilegalidade ou inconstitucionalidade.
Como visto em outros momentos, a função primordial do Poder Legislativo é
elaborar leis, porém, nada impede que os outros Poderes participem de processos
legislativos, sendo, inclusive, competentes para criar atos normativos com força de lei. Nesse
sentido, há de se analisar o princípio da legalidade de forma extensa, genérica, a fim de não
se limitar sua interpretação apenas às leis, em sentido estrito.

2
[...] a palavra lei, para a realização plena do princípio da legalidade, se aplica, em
rigor técnico, à lei formal, isto é, ao ato legislativo emanado dos órgãos de
representação popular e elaborado de conformidade com o processo legislativo
previsto na Constituição (arts. 59 a 69). Há, porém, casos em que a referência à lei
na Constituição, quer para satisfazer tão-só as exigências do princípio da legalidade,
quer para atender hipóteses de reserva (infra), não exclui a possibilidade de que a
matéria seja regulada por um “ato equiparado”, e ato equiparado à lei formal, no
sistema constitucional brasileiro atual, serão apenas a lei delegada (art. 68) e as
medidas provisórias, convertidas em lei (art. 62), as quais, contudo, só podem
substituir a lei formal em relação àquelas matérias estritamente indicadas nos
dispositivos referidos.
Mas o princípio da legalidade vincula-se a uma reserva genérica ao Poder
Legislativo, que não exclui atuação secundária de outros poderes (SILVA, 2005, p.
421).

Porém, importante mencionar que, para fins de aplicação do princípio da legalidade,


todas essas normativas tem poder e eficácia de lei, ou seja, segundo visto anteriormente, são
“atos equiparados”, os quais, se em consonância com a CF devem ser devidamente
respeitados pelo administrador público.
Por fim, aplica-se o disposto no art. 84, IV e VI da CF/88, chamado poder
regulamentar, segundo o qual o Presidente da República tem competência privativa para
sancionar, promulgar e fazer publicar leis e expedir decretos e regulamentos para devida
execução, bem como é de sua competência privativa dispor, mediante decreto, sobre a
organização da administração federal. Sob este aspecto, aplica-se a interpretação extensiva
aos demais chefes do Executivo (Governadores e Prefeitos), em suas respectivas
competências.
O princípio é o de que o poder regulamentar consiste num poder administrativo no
exercício de função normativa subordinada, qualquer que seja seu objeto. Significa
dizer que se trata de poder limitado. Não é poder legislativo; não pode, pois, criar
normatividade que inove a ordem jurídica. Seus limites naturais situam-se no
âmbito da competência executiva e administrativa, onde se insere (SILVA, 2005, p.
425).

Portanto, o princípio da legalidade é entendido como garantia constitucional,


segundo a qual cabe à administração pública agir em estrita conformidade legal, não
podendo tomar atitudes que lesem o bem comum, sendo imprescindível, suas ações serem
voltadas a este.

SUGESTÃO DE VIDEO

https://www.youtube.com/watch?v=uZzmDots804&index=4&list=PLxgA0XA
WD3s2CtNFBIOiCEOq5FBYp8jpP 3
REFERÊNCIAS

BACELLAR FILHO, Romeu Felipe. Direito Administrativo. São Paulo: Saraiva, 2008.

BITTENCOURT, Marcus Vinicius Corrêa. Manual de Direito Administrativo. 6. Ed. Belo


Horizonte, Fórum, 2015.

CAETANO, Marcelo. Princípios fundamentais do direito administrativo. Rio de Janeiro:


Forense, 1977.

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella, Direito Administrativo. São Paulo: Atlas, 2000.

FAGUNDES, Miguel Seabra. O controle dos atos administrativos pelo poder judiciário. 3 ed.
Rio de Janeiro: Forense, 1975.

MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros, 2000.

MELLO, Celso Antonio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Malheiros,
2000.

MELLO, Oswaldo Aranha Bandeira de. Princípios gerais de direito administrativo. V.1. 2 ed.
Rio de Janeiro: Forense, 1979.

SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Malheiros, 2005.