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30ª REUNIÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA

SIMPÓSIO ESPECIAL: GÊNERO, SEXUALIDADE, INTOLERÂNCIA E


VIOLÊNCIA

Trabalho:
Religião, estética e abjeção: considerações em torno de Janaína Paschoal

Eduardo Henrique Araújo de Gusmão (UFCG)


Roberta Bivar Carneiro Campos (UFPE)

I
Colombo descobriu a América, mas não os americanos.
Tzvetan Todorov (2003: 69)

As Jornadas de Junho de 2013 marcaram com cores muito intensas o imaginário


político da sociedade brasileira. Na época, vários foram os analistas que demonstraram
reações de perplexidade e otimismo diante de imagens em que grupos, em várias regiões
do país, se reuniam em torno de pautas progressistas e populares e obtinham êxito na
cobrança por atenção dirigida às autoridades e no reconhecimento midiático dos
principais veículos de comunicação. Sobre este cenário, autores mundialmente
conhecidos como Manuel Castells e Slavoj Zizek, dois dos principais intérpretes dos
episódios de manifestações populares ocorridos nos países árabes, nos Estados Unidos e
em alguns países da Europa ao longo do ano de 2011, compartilharam em artigos e
livros análises marcadas por um sentimento de preocupação e esperança. 1 Intelectuais e
analistas se perguntavam sobre o que estaria acontecendo no Brasil. Como explicar a
rápida disseminação de manifestações, em várias regiões do país? Quais são as
reivindicações? Quem são os atores sociais que se encontram nas ruas? Estas e outras
questões suscitavam debates e reflexões.
Nos dias atuais, continua sendo difícil a elaboração de uma compreensão deste
momento. Às Jornadas de Junho seguiram-se acontecimentos reveladores de forças e

1
Seria importante fazer referência a dois livros publicados no ano de 2013 pela editora Boitempo: o
Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, coletânea que faz um
apanhado das manifestações ocorridas em diversas regiões do país e reúne o artigo Problemas no Paraíso
de autoria de Slavoj Zizek. Neste mesmo ano, é publicado no Brasil, de autoria de Manuel Castells o livro
Redes de Indignação e Esperança: movimentos sociais na era da internet.

1
tensões, em muitos aspectos contrários às expectativas mais otimistas dirigidas a uma
mudança social com direção certa, consequência provável da intensificação de um
sentimento de indignação coletiva e popular. Os fatos ocorridos nos últimos três anos se
desenrolaram de maneira distinta. Grupos com agendas e perfis, não apenas diversos,
mas opostos, a exemplo das plataformas digitais Mídia N.I.NJ.A, Vem pra rua Brasil,
GRR Guerrilha, Movimento Brasil Livre entre outros, surgiram no cenário das Jornadas
compartilhando espaço e ideias.
As eleições presidenciais em 2014 intensificaram a polarização advinda deste
cenário. A vitória, por uma margem muito estreita, da candidata do Partido dos
Trabalhadores Dilma Roussef revelou o quanto o país encontrava-se dividido no tocante
a avaliação que diferentes grupos faziam da atual situação, dos resultados da eleição e
da próxima legislatura. Ao comentar, por exemplo, os resultados, o colunista Diogo
Mainardi, no programa Manhattan Connection, dava destaque a uma clara separação
existente entre a região Nordeste e os estados do sudeste, estes últimos símbolos de um
Brasil empresarial e dinâmico economicamente, distintos, portanto dos estados do
nordeste, contrários à modernidade e incapazes de se afastar do que ele, Mainardi
definia como um comportamento “retrógrado, bovino e governista”.2
A fala de Mainardi é importante, pois consegue efetuar uma síntese do clima em
que se encontravam, e ainda se encontram amplos setores da classe média brasileira.
Um clima marcado pelo apego, na atual crise política, a consensos explicativos antigos,
traduzidos em discursos acusatórios e desqualificadores. Este aspecto precisa ser
salientado em razão de se fazer presente no universo investigado por este trabalho. A
sua presença caracteriza imagens e constitui certo domínio simbólico construído e
reproduzido na internet e nas redes sociais.
Nos últimos três anos, as próprias imagens dos candidatos constituíram alvos
desta dinâmica. Durante o ano de 2014, as imagens de Dilma Rousseff e Marina Silva,
no âmbito principalmente das redes sociais, foram objeto de associações com a esfera
do ridículo, o que as transformavam em figuras com significados e atributos estéticos
provocadores do riso e, em alguns casos, até incitadores de violência. Em relação à
campanha para presidente da candidata Marina Silva, Dullo e Quintanilha (2015)
exploraram os sentidos, utilizados pelos adversários de Marina e em circulação na
mídia, atuantes na elaboração de uma associação entre o seu vínculo com o

2
Este vídeo pode ser encontrado no endereço https://www.youtube.com/watch?v=MRC-SPPSJOE

2
pentecostalismo e o risco de sectarismo religioso, apresentado por sua candidatura à
esfera secular da política. Os autores analisam esta circunstância em relação com o
curioso silêncio, diante da divulgada e transparente busca pelo voto dos segmentos
evangélicos praticada pelos dois maiores partidos em disputa pela presidência, o PT e o
PSDB. Neste mesmo cenário, outro exemplo bastante representativo e com clara
conotação misógina, foi a distribuição de um adesivo para carros, cujas medidas
recomendavam a sua colagem em torno do espaço de introdução da bomba de
combustível, e que exibia a candidata Dilma Rousseff inclinada com as pernas abertas.
Estes exemplos, de um ponto de vista antropológico, possuem relevância na
medida em que auxiliam o intérprete a contextualizar o fenômeno político no âmbito do
cotidiano, isto é, na relação que este mantém com os diferentes universos culturais. Ao
falarmos em cultura, recorremos à eloquente imagem, de inspiração weberiana proposta
por Clifford Geertz, de uma teia de significados. Ora, é precisamente através de
sentidos, noções e conceitos, utilizados como canais para expressões de intolerância,
ódio, esperança ou medo, que a política se torna uma ação simbólica, reveladora do
estado de espírito, ou, ainda em termos geertzianos, do ethos de uma sociedade.3
Atualmente, seja em relação ao Congresso, com a repetida revelação pela
imprensa do envolvimento de parlamentares em práticas criminosas, e o gradativo
aumento da perda de confiança da população nesta instituição, seja nas ruas, nos
momentos de manifestação coletiva, em que a cor de uma camisa 4, ou o simples ato de
divergir de um argumento, são tomados como atitudes justificadoras de violência, ou
ainda, por meio do posicionamento de importantes lideranças políticas em defesa do
acirramento inconsequente dos ânimos coletivos5, se verifica, como um fenômeno que

3
Atualmente, vários são os institutos de pesquisa que buscam entender, em um sentido mais amplo, a
percepção da população brasileira do atual momento de crise vivido no âmbito dos poderes Executivo e
Legislativo, e o grau de identificação das pessoas com a classe política. É possível ventilar, sobre este
ponto, duas tendências: uma, na direção de uma avaliação pragmática feita por vários entrevistados, que
diz respeito a uma apreciação dos impactos financeiros decorrentes do momento de crise, e outra que
revela uma postura cética dirigida aos principais protagonistas do cenário político do país. Jornais como
Folha de São Paulo, El País, O Globo, entre outros frequentemente publicam pesquisas explorando este
universo.
4
O blog do Alceu Castilho em publicação do dia 19 de março de 2016, cujo título é “Casos de agressão
por uso de vermelho se multiplicam: porque autoridades se calam?”, reúne uma série de referências a
reportagens que documentam episódios de violência ocorridos em várias manifestações anti-PT, dirigidos
a pessoas que vestiam camisas vermelhas ou se portavam de modo a questionar o propósito da
manifestação. Disponível em http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/03/19/casos-de-agressao-por-
uso-de-vermelho-se-multiplicam-por-que-autoridades-se-calam/
5
É importante salientar trecho da fala de Vagner Freitas, Presidente da Central Única dos Trabalhadores,
proferida em solenidade no Salão Nobre do Palácio do Planalto no dia 13 de agosto de 2015, onde diz: “O
que se vende hoje no Brasil é a intolerância. É o preconceito. Preconceito de classe contra nós. Quero
dizer em alto e bom tom que somos defensores da unidade nacional, da construção de um projeto nacional

3
pode vir a ter desdobramentos e registros públicos cada vez mais frequentes no Brasil,
uma inclinação à recusa da diferença, de suas expressões e deste imprescindível conduto
para o seu reconhecimento, a política. Um cenário, portanto com várias possibilidades
de análise e problematização antropológica.
Uma delas, a que diz respeito ao problema da diferença, um tema que tem
exigido dos cientistas sociais, nos últimos três anos, uma reflexão mais cuidadosa e
atenta às suas implicações. O debate em torno dos desdobramentos das Jornadas de
Junho, como já salientado, ainda constitui um momento no qual, em detrimento da
análise e da compreensão, costumam prevalecer avaliações apaixonadas incapazes de
contraditar a divergência. Ao falarmos, portanto em diferença, e o fazermos
principalmente neste contexto, nos referimos a uma questão que nos coloca, nos termos
de Ginzburg (2001) e Todorov (2003), em uma circunstância marcada pelo encontro
com o distante e com aquele cuja alteridade é simultaneamente revelada e recusada.
Neste sentido, preocupados com certas implicações decorrentes deste problema,
concernentes principalmente ao trabalho do cientista social, tomaremos como exemplo
para problematização um conjunto de reações, surgidas no âmbito das redes sociais e da
mídia em geral, diante da atuação da advogada Janaína Conceição Paschoal no processo
de impedimento da Presidente Dilma Rousseff.

II

O vocabulário em circulação nas redes sociais e no espaço público de diversas


cidades brasileiras, utilizado para classificar os grupos favoráveis e contrários ao
afastamento da Presidente demonstra o quanto o país está dividido. Termos como
coxinha, esquerdopata, golpista, inocentes úteis, entre outros revelam um estado de
espírito marcado pela indisposição para o debate ideológico. Em outro compasso,
alguns analistas buscam salientar o precário auxílio prestado por estes adjetivos na
elaboração de uma interpretação do atual momento político vivido no Brasil. Em artigo
onde analisa a atuação policial nas manifestações de junho de 2013, Luiz Eduardo
Soares encaminha reflexões neste sentido, dirigidas aos riscos, para o cientista social,
advindos de explicações em que a dissimulação da insegurança intelectual atua para

de desenvolvimento para todos e para todas e que isso implica agora, nesse momento, ir pras ruas
entrincheirados com arma na mão se tentarem derrubar a presidenta Dilma Roussef.” Disponível em
https://www.youtube.com/watch?v=2fIHPVTp9BQ

4
“domesticar a diferença”. Soares, ainda sob o impacto das imagens das multidões nas
ruas, destaca aspectos importantes para a compreensão do atual cenário, ao ressaltar a
“humildade do intérprete e o reconhecimento de que categorias tradicionais estariam em
xeque”,6 como passos necessários no exercício de análise.
A ponderação de Soares vai ao encontro das orientações metodológicas
recomendadas pelo conjunto das ciências sociais. Contudo, o atual momento político
vivido no Brasil, e de modo mais específico, o objeto de problematização desta reflexão,
amplifica dimensões da vida social caracterizadas, em sentido weberiano, pelo
antagonismo de valores (Freund 1987), este universo marcado pela diversidade dos
temperamentos, gostos, escolhas e afetos, na linha dos argumentos de Saada, ao refletir
sobre a experiência etnográfica (2005), e de Pierucci (1999), em sua ressalva de que “a
diferença é o sensível.”
A aceitação pela Câmara Federal, do pedido de abertura de processo de
impedimento da Presidente da República, em dezembro de 2015, e nesta conjuntura a
presença, de modo bastante frequente em diversos canais de televisão e fóruns de
debates, da Advogada e Professora de Direito Penal da Universidade de São Paulo,
Janaína Conceição Paschoal, co- autora, na companhia de Hélio Bicudo e Miguel Reale
Jr., da denúncia7 que enseja o referido processo, constituem circunstâncias importantes
para pensarmos a construção, e os significados que lhe dizem respeito, de certa estrutura
afetiva sobre a qual muitos dos debates atuais em torno da política nacional se
sustentam.
O exemplo que exploramos envolve um episódio ocorrido em abril deste ano,
quando a advogada Janaína Paschoal proferiu um discurso no ato Juristas pelo
Impeachment realizado diante do prédio da Faculdade de Direito, no Largo São
Francisco em São Paulo. Na companhia de diversos professores, Janaina inicia sua fala
homenageando Tobias Barreto. Ao prosseguir e também dirigir homenagens aos seus
professores, Janaína faz referência a ensinamento transmitido a ela na escola e na
universidade por seus mestres, “colocar o conhecimento a serviço da nação”. Aos
aplausos, Janaína segue homenageando o seu avô, que lhe ensinou que “vale a pena ser
honesto”. Prossegue, dando início a trecho de sua fala onde faz uma referência que

6
Artigo de título “A classe média descobriu a brutalidade policial, que os pobres e negros nunca
ignoraram”, disponível no endereço http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2013/06/a-classe-
media-descobriu-a-brutalidade-policial-que-os-pobres-e-negros-nunca-ignoraram-4185349.html
7
Íntegra da denúncia disponível no endereço:
http://ep00.epimg.net/descargables/2015/12/03/753f58eed8d66adf4ad11129cb833401.pdf

5
posteriormente iria justificar diversas associações de sua figura com a esfera do
ridículo.8
Neste momento, Janaína refere-se a “cobras” que estariam de posse do poder, se
aproveitando das fraquezas humanas para se perpetuarem.9 Lança uma pergunta que
interroga quais seriam as fraquezas mais características, ao que responde salientando a
sede de poder, a sede de dinheiro e o medo. Comenta sobre certo fortalecimento
decorrente do medo e da ambição desmedida, dirigindo-se, sem uma referência mais
clara, a “eles”. Prossegue e alcança o momento mais inflamado de sua fala onde lança
para a plateia, com gestos enfáticos e um tom de voz mais alterado, as seguintes
questões e afirmações, aplaudidas pelos ouvintes e aqui resumidas:

“A que Deus nós queremos servir? É ao dinheiro? Nós queremos


servir a uma cobra? O Brasil não é a república da cobra. Nós somos
muitos Hélios. Nós somos muitos Miguéis. Muitas Lúcias. Muitas
Janaínas. (...) Eles derrubam um, levantam-se dez! Nós não vamos deixar
esta cobra continuar dominando as nossas mentes, as almas dos nossos
jovens, porque os professores de verdade querem mentes e almas livres.
Por meio do dinheiro, por meio de ameaças, por meio de perseguições,
por meios de processos montados, eu sei do que estou falando porquê tô
defendendo muito perseguido político! Eles querem nos deixar cativos.
Mas nós não vamos abaixar a cabeça. Porque desde pequenininha, que o
meu pai me diz Janaína, Deus não dá asa pra cobra, e aí eu digo pra ele,
mas pai, as vezes a cobra cria asa, mas quando isso acontece Deus manda
uma legião pra cortar as asas da cobra! Nós queremos libertar o nosso
país do cativeiro de almas e mentes. Não vamos abaixar a cabeça pra essa
gente que se acostumou com o discurso único. Acabou a república da
cobra!”

A repercussão do discurso de Janaína foi imediata. Veículos de imprensa


conhecidos como Folha de São Paulo, Estadão, Valor Econômico, Veja, além de
diversos blogs e sites como O Cafezinho, Folha Política.Org, Pragmatismo Político,
Sensacionalista, entre outros fizeram registros do episódio em breves reportagens. Uma
rápida observação neste conteúdo revela que os aspectos mais salientados dirigem-se à
performance de Janaína, com ênfases sobre o gestual, o tom de voz e as palavras
utilizadas pela advogada em sua fala. Expressões como “perda de controle”, “discurso

8
Discurso disponível no youtube no endereço: https://www.youtube.com/watch?v=M7MYI4EiPBE
9
Neste ponto, a referência ao réptil faz uma clara referência ao discurso proferido pelo Ex-Presidente
Lula, no mês de março deste ano e a sua afirmação, ao final de um pronunciamento transmitido ao vivo
na Sede Nacional do Partido dos Trabalhadores em São Paulo, onde diz: “Se quiseram matar a jararaca,
não bateram na cabeça, bateram no rabo e a jararaca tá viva, como sempre esteve.” Disponível em
https://www.youtube.com/watch?v=-x0VhqaiXGU

6
ensandecido”, “assustador” constituíram a maior parte dos termos dirigidos à Janaína,
na companhia de memes comparando a professora com figuras do mundo do cinema, do
rock e da política. Janaína como uma espécie de exorcista ou como uma oradora cujo
estilo a transformaria em uma adaptação perfeita de músicas do repertório de bandas de
rock pesado, ou ainda como uma espécie de expressão histérica de um totalitarismo
adormecido, foram algumas das associações estabelecidas.
Um aspecto presente nas inúmeras reportagens publicadas é aquele que
identifica, a partir de um olhar lançado sobre a peça de retórica e o gestual de Janaína
traços de uma alteridade cujas imperfeições e dissonâncias a enquadram, como um
signo estético, nos limites do grotesco. Neste ponto, seria importante nos lembramos
das considerações de Muniz Sodré e Raquel Paiva sobre as várias mudanças sofridas
pelo significado da palavra grotesco ao longo dos séculos. Dizem os autores (Sodré e
Paiva 2002, p. 30):

“De um substantivo com uso restrito no âmbito da avaliação


estética de obras de arte, torna-se adjetivo a serviço do gosto
generalizado, capaz de qualificar – a partir da tensão entre o centro e a
margem ou a partir de um equilíbrio precário das formas – figuras da
vida social como discursos, roupas e comportamentos.”

Dos vários artigos publicados, os de autoria de João Feres Júnior e Luis Nassif
podem ser tomados como exemplos que reforçam a presença desta adjetivação no
desempenho da advogada Janaína. No texto O Exorcismo de Janaína Paschoal, Feres
Júnior explora dois pontos, por ele tomados como importantes no episódio. O primeiro,
relacionado à presença do jurista Hélio Bicudo, que estaria ali, como uma espécie de
“carcaça” possuída por um “incubo”, distinta do Hélio fundador do PT, mentor de ideias
progressistas, agora um aliado de uma cruzada fascista, cuja líder seria esta mulher que
se comporta de modo tão “celerado”, o segundo aspecto destacado por Júnior. A sua
maneira de falar, seus gestos, o conteúdo de sua intervenção, constituiriam um
espetáculo que provocam, nos termos do jornalista, um horror de dimensões grandiosas,
dimensionadas como “dantescas”.10
Percepção compartilhada por Nassif, na reportagem 11 Discurso histórico de
Janaína Paschoal, musa do impeachment. Em relação ao registro de Júnior, a análise de

10
O texto de João Feres Júnior está disponível no endereço: http://jornalggn.com.br/noticia/o-exorcismo-
de-janaina-paschoal-por-joao-feres-junior.
11
O texto de Luis Nassif pode ser encontrado no endereço: http://jornalggn.com.br/comment/891167

7
Nassif dá mais atenção a uma interpretação que identifica no episódio a presença de
uma linguagem religiosa. Em uma determinada passagem, Nassif dirige comentários ao
desempenho de Janaína e coloca:

“...o tom religioso, quase místico, a menção à cobra que voa e quer
dominar as nossas mentes, que precisam ser libertadas pelas legiões
enviadas do céu, sintetizam com notável precisão o lado mais obscuro
das multidões que saíram às ruas babando ódio. Há malucos em toda
parte, radicais e histéricos em todos os lados, em momentos de
polarização como o atual. Mas quando esse fervor místico bate nas
lideranças, há algo de muito doente no ar. É quando o espírito das
massas, aquela coisa horrorosa e disforme que exara violência,
preconceito, fascismo, sobe e toma coração e mente das pessoas.”

Ao final, Nassif encerra com uma comparação entre Janaína Paschoal, Benito
Mussolini e a banda de heavy metal Iron Maiden, justificando a comparação com a
ressalva de que Janaína não estaria sozinha, pois existiriam outras formas de “conquistar
corações e fígados.”.
O retorno às considerações de Sódré e Paiva possibilita a compreensão dos
sentidos e símbolos em circulação nas duas reportagens e a relação que estes mantem
com a categoria estética do grotesco. Como salientam os autores, a referência a esta
categoria, na modernidade, passa a deter um alcance mais amplo sobre a vida social,
incluindo “aquilo que tem algo de agradavelmente ridículo” e possibilitando a sua
aplicação ao “homem grotesco”, à “moça grotesca”, o “jeito grotesco”, o “rosto
grotesco”, a “ação grotesca” (Sodré e Paiva op.cit., 30).
Processos semelhantes inspiram os ânimos no debate político atual. No tocante à
Janaína Paschoal, a sua retirada da esfera do jogo político por uma ampla parcela de
formadores de opinião, e a sua transformação em um objeto estético para apreciação no
campo do ridículo, do bizarro e do extravagante, lembram o que Sodré e Paiva afirmam
sobre a categoria estética e o seu funcionamento como “signo de comunicação” (Sodré e
Paiva 2002, p. 38):

“O elemento estético funciona, assim, como signo de comunicação,


abrindo-se para uma semântica do imaginário coletivo e fazendo-se
presente na ordem das aparências fortes ou das formas sensíveis que
investem as relações intersubjetivas no espaço social.”

8
Ora, há um aspecto, e aqui a problemática antropológica em investigação
adquire contornos mais claros, na reportagem de Nassif e em vários outros registros,
que comunica, em conjunto com o desgosto e a repulsa provocados pela pessoa de
Janaína Paschoal, também certo receio diante de um processo de introdução, na política,
de elementos de ordem religiosa. Receio, encontrado, por exemplo, em duas outras
reportagens divulgadas nos portais Pensa Brasil e Contexto Livre. Nestas, as manchetes
destacam respectivamente, as seguintes chamadas: “Deu a louca na Janaína, vídeo
mostra autora do Impeachment possuída pelo Diabo” 12 e “Pomba Gira baixa em Janaína
Paschoal”.13 Se na manchete divulgada pelo Contexto Livre não há reflexões, a do portal
Pensa Brasil divulga breve artigo onde, em determinado trecho, é estabelecida uma
clara relação entre a “loucura” de Janaína e as religiões neopentescostais e afro-
brasileiras:

“A política brasileira está cada vez mais bizarra. Agora, foi a vez
da “jurista” e autora do pedido de impeachment da presidente Dilma
Rousseff, Janaína Paschoal, mostrar que sanidade mental é para poucos
no momento que o país vive. Em um vídeo que mais parece ser uma
pastora neopentecostal possuída pelo demônio, a advogada do
impeachment se descontrola, grita, baixa um santo e faz a plateia entrar
em delírio.”

III

A presença da religião como elemento facilitador de uma interpretação da


performance de Janaína Paschoal é importante. Em um sentido antropológico, seria
possível afirmar que esta apreensão constitui o pano de fundo de controvérsias
atualmente em pauta no âmbito dos debates envolvendo a teoria social dedicada ao
estudo antropológico da religião. Em linhas gerais, a polêmica diria respeito aos
diferentes entendimentos construídos em torno do lugar a ser ocupado pelo fenômeno
religioso no espaço público de sociedades laicas e democráticas.
Vários e distintos são os autores e os posicionamentos. Na direção de uma
síntese, poderíamos colocar que os registros em análise comunicam processos típicos da
situação moderna da religião, a de um fenômeno em permanente estado de reabilitação,

12
Disponível no endereço: https://pensabrasil.com/deu-a-louca-na-janaina-video-mostra-autora-do-
impeachment-possuida-pelo-diabo-assista/
13
Disponível no endereço: http://www.contextolivre.com.br/2016/04/pomba-gira-baixa-em-janaina-
paschoal.html

9
no tocante às suas expressões na esfera pública. É o que se verifica, por exemplo, na
leitura em torno do episódio que envolve Janaína Paschoal. O seu pronunciamento14,
parte de um evento secular, não obstante em forma e conteúdo estaria contaminado por
uma linguagem cujos sentidos e símbolos são julgados estranhos pela racionalidade
secular.
O ponto importante, merecedor de problematização é justamente este: um evento
secular, capturado por uma simbólica religiosa utilizada para deslegitimar um
posicionamento político. Símbolos provenientes de universos distintos, como o
pentecostalismo evangélico, as religiões afro-brasileiras e até, o heavy-metal, atuam em
conjunto no âmbito de uma interpretação desqualificadora. Mesmo com um perfil
religioso sincrético e preferências musicais outras, conforme entrevistas concedidas a
diversos jornais e revistas, a imagem que prevalece a respeito de Janaína Paschoal
possuiria sentidos próprios, atuantes nos limites de um espaço simbólico, marcado por
estéticas pentecostais e afro-brasileiras.15
Processos como estes dão continuidade a debates já abertos pela antropologia,
principalmente aquela interessada no estudo das religiões. Em textos onde explora as
elaborações discursivas dirigidas ao espiritismo e ao pentecostalismo, Giumbelli (1997,
200) esclarece no tocante ao espiritismo, as diferentes terminologias através das quais
esta religião foi definida, em diferentes momentos históricos, como heresia, doença e
crime. De modo semelhante, e neste ponto o diálogo com Giumbelli é necessário para
identificar os elementos constituintes do espaço simbólico onde a performance de
Janaína estaria localizada, o pentecostalismo, através de termos como “seita”, “agência
de cura divina”, entre outras expressões que salientam características como o
imediatismo, a magia e o charlatanismo, é alvo de análises e classificações que o
marcam com certo desprestígio cultural diante de outros grupos religiosos protestantes,
considerados mais genuínos.
Seria pertinente, igualmente salientar, de maneira a fornecer mais dados
empíricos ao esforço de problematização, a reação no âmbito das redes sociais gerada

14
Em entrevistas ao jornal Estadão e à revista Veja, Janaína Paschoal se apresenta como devota de São
Jorge, São Miguel Arcanjo e Iemanjá. Disponível em http://vejasp.abril.com.br/materia/janaina-paschoal-
nao-sou-menina-pastora.amp
15
Seria interessante comentar que o portal Diário do Centro do Mundo, teria inicialmente publicado
matéria na qual fazia referência à figura da Pomba Gira, para descrever o desempenho de Janaína
Paschoal. Matéria que teria tido o seu título modificado, devido ao apelo de diversos leitores nos
comentários, salientando os riscos de estigmatização sobre grupos religiosos minoritários advindos da
matéria, como fica claro no endereço http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essa-cobra-quer-
dominar-nossas-mentes-pomba-gira-baixa-em-janaina-paschoal-autora-do-pedido-de-impeachment/

10
pelo episódio no Largo São Francisco. Inúmeros foram os comentários, inclusive
elaborados e reproduzidos por sociólogos e antropólogos, com conteúdo depreciativo
dirigido à Janaina Paschoal. Estes demonstravam medo e preocupação diante dos traços
“tipicamente neopentecostais” presentes na cena política, marcadores que seriam de um
“descontrole emocional” atuante de modo cada vez mais frequente no desempenho dos
atores do sistema jurídico nacional. Outros recorriam a diagnósticos frankfurtianos,
comparando a crise vivenciada em âmbito político com os contextos europeus do início
do século XX, caracterizados pelo surgimento de “personalidades autoritárias”.
Representativas deste sentimento, certas avaliações definiam o episódio como um
momento emblemático da “idiocracia”, a “política do século 21”, caracterizada
principalmente por certa “fala pública” marcada pela utilização de “códigos
neopentecostais”, um conjunto construído por gestos, ritmos e entonações
característicos.
A interpretação jornalística do episódio, e precisamente a reação dos cientistas
sociais, revela aspectos que precisam ser problematizados. Reúnem dados que
justificam a atualidade da categoria analítica de “repugnant cultural other”, utilizada por
Susan Harding em pesquisas sobre a representação etnográfica do fundamentalismo
evangélico na América. As considerações de Harding, e principalmente o cuidado em
identificar, no uso da categoria “fundamentalismo” e de suas variáveis a presença de
uma narrativa sobre a modernidade, reproduzida no sentido de criar e reforçar
estereótipos e imagens encaminham possibilidades analíticas importantes para este
debate. Seria interessante citarmos Harding (1991, p. 374):

“Academic inquiry into fundamentalism is framed by modern


pressupositions which presume “fundamentalism” to be a socially
meaningful category of persons who are significantlý homogeneous in
regard to religious belief, interpretive practices, moral compass, and
socioeconomic conditions, a category of persons whose behaviour defies
reasonable expectations and therefore needs to be – and can be –
explained. The explanations, the answers to “modern” academic
questions, invariably blot out fundamentalist realities and turn all born-
again believers into aberrant...”

Em sua análise, a autora explora os processos através dos quais, de maneira


homogênea, práticas discursivas modernas, ao apresentarem grupos e pessoas como
“fundamentalistas”, também os transformam em um objeto histórico, um “outro
cultural”, fora ou até antagônico à modernidade, esta entendida como um projeto de

11
sociedade, síntese perfeita de uma série de oposições que incluem, de modo evolutivo o
sobrenatural e a descrença, o literal e o crítico, o atrasado e o progressista, o fanático e o
tolerante. (Harding op.cit. p. 374)
Este artigo compartilha uma inquietação com a análise de Harding. A
observação do debate político atual permite reconhecer a sinalização de tendências
bastante problemáticas, concernentes, claro aos repetidos discursos desqualificadores
dirigidos à Janaína Paschoal, mas igualmente relacionadas ao enfrentamento de
questões metodológicas muito caras à antropologia. A presente conjuntura alimenta a
impressão de que, de modo semelhante à narrativa da modernidade problematizada pela
referida autora, haveria uma narrativa da atual crise política cujos movimentos e efeitos
seriam os mesmos, sendo inclusive aceita e reproduzida por cientistas sociais.
Nesta narrativa, não há possibilidade de compreensão das razões de Janaína
Paschoal e da alteridade que lhe diz respeito. A convicção que se tem a seu respeito é
suficiente. Como Colombo, e Todorov salienta com muita propriedade o vínculo
existente entre a identidade moderna e a hermenêutica que marca a conquista da
América, muitos dos momentos da atual crise política tem sido marcados por
posicionamentos definidos neste sentido, reforçados pela convicção, e não pela
experiência. A reflexão de Todorov é atual (2003, p. 23):

“Colombo não tem nada de um empirista moderno: o argumento


decisivo é o argumento de autoridade, não o de experiência. Ele sabe de
antemão o que vai encontrar; a experiência concreta está aí para ilustrar
uma verdade que se possui, não para ser investigada, de acordo com
regras preestabelecidas, em vista de uma procura da verdade.”

Não há espaço, portanto para a modificação das certezas, advinda da experiência


de contato com a diferença. E tanto não há, por esta diferença refletir traços de vínculo
com religiosidades neopentecostais e afro-brasileiras, signos de comunicação do
grotesco, nos termos já destacados por Sodré e Paiva. Neste ponto, a discussão nos leva
para as inquietações sentidas por pesquisadores envolvidos em etnografias junto a
comunidades cristãs conservadoras. Em importante artigo, Simon Coleman retoma o
debate aberto por Harding em Representing Fundamentalism (2015) e tece
considerações sobre as dificuldades metodológicas que atingem o trabalho do
antropólogo, decorrentes destes cenários de pesquisa.

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Por ser alvo frequente de questionamentos lançados por colegas antropólogos,
do tipo why are you studying such a crap?, Coleman dialoga com Harding, buscando
atualizar a importância de certas estratégias metodológicas que possam garantir, de sua
parte uma oposição aos posicionamentos e políticas defendidos pelo conservadorismo
cristão. Destas estratégias, Coleman explora as possibilidades que poderiam advir de
reflexões apresentadas pela autora, aqui reconhecidas como extremamente importantes
para pensarmos a conjuntura política atual e os lugares nela ocupados pelos nossos
nativos.
Ora, Harding (op.cit. p.393) afirma que a sua problematização dos usos
modernos da categoria “fundamentalista” não gera como consequência a neutralização
de escolhas políticas. Tais escolhas, nos termos da autora, tornar-se-iam mais precisas e
claras, na medida em que deixassem de depender de oposições totalizantes entre “nós e
eles”, ou ainda, se as identidades em relação não fossem definidas por noções prontas e
acabadas, postas em circulação e aplicadas sobre o outro. Em português claro,
poderíamos dizer: quem eu sou não depende de noções a partir das quais assumo saber
quem você é!
Conflitos, portanto que envolvem a maneira como posições éticas distintas são
assumidas e negociadas. Ao dialogar com Harding, Coleman elabora um enfoque
preocupado em analisar esta região fronteiriça, com limites incertos, na qual o
pesquisador se coloca nas distintas fases do trabalho de campo e nos diferentes
momentos de sua vida. A reflexão de Coleman explora esta região de fronteira que
aproxima a antropologia e o pentecostalismo, um espaço, nos termos do autor,
simultaneamente “metafórico e restrito (literal)” em sua significância.
Ao se perguntar sobre outras dimensões que poderiam existir nesta região de
fronteira, além das já conhecidas e alimentadas oposições e repugnâncias, e cogitar a
faculdade compreensiva como um possível marcador dos seus limites, o autor lança
uma reflexão importante para o presente trabalho.
Talvez, e aqui encerramos, esforços de compreensão estejam faltando aos atores
envolvidos no debate sobre o cenário político atual. O exemplo de Janaína Paschoal é
criativo neste sentido, quando mostra o poder que estereótipos e preconceitos exercem
sobre a reflexão distanciada e serena. Distanciada, isso mesmo, pois, na direção de
Ginzburg, avaliamos que as ciências sociais, neste momento, precisam pensar os
benefícios e perigos da distância. Se a sua ausência impossibilita a reflexão crítica, o seu
predomínio pode arruinar a capacidade de análise e o senso moral.

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Referências bibliográficas:

- COLEMAN, S. Borderlands: ethics, ethnography, and repugnant christianity. HAU


Journal of Ethnographic Theory 5 (2), 2015.

- DULLO, E. & QUINTANILHA, R. A sensibilidade secular da política brasileira.


Debates do NER. Ano 16, N.27, 2015.

- FREUND, J. Sociologia de Max Weber. Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1987.

- GIUMBELLI, E. A vontade do saber: terminologias e classificações sobre o


protestantismo brasileiro. Religião e Sociedade. Rio de Janeiro, 21(1), 2000.

- _______________. Heresia, doença, crime ou religião: o espiritismo no discurso de


médicos e cientistas sociais. Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 1997.

- GINZBURG, C. Olhos de madeira. Companhia das Letras, São Paulo, 2001.

- HARDING, S. Representing fundamentalismo: the problem of the repugnant cultural


other. Social Research vol. 58, n.2, 1991.

- PIERUCCI, A.F. Ciladas da diferença. Editora 34. São Paulo, 1999.

- SAADA, F. Ser afetado. Cadernos de campo. N13: 155-161, 2005.

- SODRÉ, M. & PAIVA, R. O império do grotesco. MAUAD, Rio de Janeiro, 2002.

- TODOROV, T. A conquista da América: a questão do outro. Martins Fontes, São


Paulo, 2003.

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