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Acórdao do processo 0020536-81.2015.5.04.0030 (RO)


Data: 26/04/2018
Órgão julgador: 4ª Turma
Redator: Marcelo Goncalves De Oliveira
Andamentos do processo

PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 4ª REGIÃO

Identificação
PROCESSO nº 0020536-81.2015.5.04.0030 (RO)
RECORRENTE: JUCINARA MATOS GHIZONI
RECORRIDO: ALVEARE-HIGIENIZACAO E PORTARIA LTDA - ME, ROSSI RESIDENCIAL SA
RELATOR: MARCELO GONCALVES DE OLIVEIRA

EMENTA
INDENIZAÇÃO POR DANO MATERIAL. Vencido o Relator, o entendimento majoritário da
Turma, é o de que, diante da ocorrência de lesão à integridade física do trabalhador (dano) e da
vinculação desta à atividade exercida pelo reclamante (nexo de concausalidade) exsurge o
dever de indenizar do reclamado.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os autos.

ACORDAM os Magistrados integrantes da 4ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho


da 4ª Região: por maioria, vencido parcialmente o Relator, DAR PROVIMENTO PARCIAL AO
RECURSO ORDINÁRIO DA RECLAMANTE JUCINARA MATOS GHIZONI para condenar a
reclamada a indenização por dano material no valor equivalente a 50% do salário da autora no
período em que esta ficou em benefício de auxílio-doença acidentário, bem como para excluir
do julgado a determinação para compensação dos honorários assistenciais com honorários
contratuais. Valor da condenação majorado em R$ 1.000,00.

Intime-se.

Porto Alegre, 25 de abril de 2018 (quarta-feira).

RELATÓRIO
Inconformada com a decisão de primeiro grau sob id ca08e51, que julgou parcialmente
procedente a ação, a reclamante interpõe recurso ordinário sob id 5386c8b, abordando os

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seguintes temas: indenização por dano material; indenização por dano estético; majoração do
valor fixado a título de indenização por dano moral e compensação dos honorários
assistenciais com contratuais.

Somente o segundo reclamado apresenta contrarrazões sob id a2cc73b.

É o relatório.

FUNDAMENTAÇÃO
RECURSO ORDINÁRIO DA RECLAMANTE.

INDENIZAÇÃO POR DANO MATERIAL.

Busca a reclamante a reforma da sentença para que seja condenada a empresa ao pagamento
de pensionamento por danos materiais, já que comprovada a lesão e o nexo laboral concausal,
com responsabilidade da reclamada, nos termos já reconhecido na origem.

Analiso.

A sentença, contrariando a conclusão pericial, reconheceu que a hérnia inguinal da autora tinha
nexo concausal com sua atividade laboral, face ao esforço físico durante a jornada de trabalho,
por mais de dois anos de contrato, pela tarefa de carregar baldes pesados. Corroborou tal
entendimento o fato de o Instituto Nacional do Seguro Social - INSS ter concedido à autora o
benefício de auxílio-doença acidentário. Assim, condenou a empresa ao pagamento de
indenização por dano moral, no valor de R$ 8.000,00 (oito mil reais).

Quanto ao pagamento de pensionamento, ratifico o entendimento da Magistrada de origem, no


sentido de que a cirurgia a que submetida a trabalhadora foi exitosa, nos termos da perícia
médica realizada nos autos, não restando qualquer incapacidade laborativa que justifique a
condenação da empresa, conforme proposto no apelo.

Nego provimento ao recurso ordinário da reclamante.

INDENIZAÇÃO POR DANO ESTÉTICO.

Invoca a autora a perícia realizada nos autos, que reconhece a existência de cicatriz cirúrgica
decorrente da hérnia inguinal adquirida em razão de sua atividade laboral, para ver condenada

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a reclamada ao pagamento de indenização por dano estético.

Analiso.

Não há falar em reforma da sentença que concluiu que a cicatriz cirúrgica de 02cm constatada
na autora não compromete sua estética, sendo indevida a indenização por dano estético.
Registro que no presente caso há nexo concausal tão somente e que restou deferido o
pagamento de indenização por dano moral no valor de R$ 8.000,00 (oito mil reais), estando,
assim, reparado eventual dano ocorrido por responsabilidade da empresa.

Nego provimento ao recurso ordinário da reclamante.

MAJORAÇÃO DO VALOR FIXADO A TÍTULO DE INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL.

A reclamante pretende reformar a sentença para majorar o valor fixado a título de indenização
por dano moral.

Analiso.

Em que pese a inconformidade da autora, entendo razoável o valor fixado na origem para o
pagamento de indenização por dano moral, a saber R$ 8.000,00 (oito mil reais), considerando o
período contratual (01.10.2011 a 21.02.2014) e a função de Serviços Gerais por ela exercida.

Nego provimento ao recurso ordinário da reclamante.

COMPENSAÇÃO DOS HONORÁRIOS ASSISTENCIAIS COM CONTRATUAIS.

Afirma a autora que a sentença é extra petita, no particular, pois não há debate nos autos
acerca de compensação dos honorários assistenciais com contratuais. Sustenta, também,
que há cerceamento de defesa quanto à matéria, porque não oportunizado às partes discutir a
questão durante a instrução processual. Por fim, diz que a decisão desrespeita o Estatuto da
Advocacia, que permite a cumulação das verbas honorárias referidas. Cita jurisprudências
deste Regional e do Tribunal Superior do Trabalho no sentido de que a matéria é alheia a
competência desta Justiça Especializada. Requer a reforma da decisão de origem.

Analiso.

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Tem razão a recorrente quando afirma que a matéria acerca de compensação entre
honorários assistenciais deferidos e honorários advocatícios eventualmente contratados não
foi objeto desta lide, pois nada consta da inicial ou da defesa, no aspecto.

Esta 4ª Turma julgou recentemente esta questão e, por isso, adoto, como razões de decidir, os
fundamentos do acórdão lavrado pela Excelentíssima Desembargadora Ana Luiza Heineck
Kruse para acolher a tese da recorrente e reformar a sentença:

No aspecto, a sentença decidiu no seguinte sentido:

A assistência judiciária não pode ser monopólio do sindicato, uma vez que tal
situação implicaria na limitação ao trabalhador de buscar a defesa de direitos na
forma que entender mais eficaz. Ademais, a Defensoria Pública da União, a
quem competiria a assistência dos necessitados, tem-se furtado de atender
reclamações oriundas de relações do trabalho, não sendo jurídico que se
imponha aos profissionais da Advocacia que o façam de forma graciosa, até
porque dependem de sua atividade profissional como meio de sua própria
subsistência.

Portanto, defiro o pagamento de honorários advocatícios, arbitrados em 15%


sobre o valor bruto da condenação, em consonância com o que dispõem as Leis
5.584/70 e 1.060/50.

No caso de haver contrato prevendo o pagamento de honorários, deverá o valor


ora arbitrado ser descontado do estabelecido contratualmente, uma vez que a
concessão da parcela pelo juízo visa exclusivamente o ressarcimento do
trabalhador pelos gastos advindos da necessidade da contratação de advogado.

A compensação determinada pelo julgador de origem implica violação a


princípios jurídicos, tais como o "princípio da demanda", "princípio da inércia"
e/ou o "princípio dispositivo". Os artigos 141 e 492 do Código de Processo Civil
dispõem:

Art. 141. O juiz decidirá o mérito nos limites propostos pelas partes, sendo-lhe
vedado conhecer de questões não suscitadas a cujo respeito a lei exige iniciativa
da parte (...)

Art. 492. É vedado ao juiz proferir decisão de natureza diversa da pedida, bem
como condenar a parte em quantidade superior ou em objeto diverso do que lhe
foi demandado (...)

A compensação entre honorários advocatícios contratuais e assistenciais


descamba dos limites da demanda, os quais são balizados pela petição inicial e
pela defesa; e dentro dos quais não consta nenhum requerimento quanto à
compensação dos honorários assistenciais deferidos com eventual verba
honorária contratada entre o autor e seu advogado. A inexistência de pedido para
o quanto determinado na origem implica considerar extra petita a sentença, neste
item, afastando-se o comando sentencial. De resto, sequer cabe ao Magistrado -

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nesta esfera judiciária - interferir no contrato de natureza civil firmado entre a


parte e seu procurador.

Neste sentido, a seguinte decisão prolatada neste Regional:

COMPENSAÇÃO DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS COM OS


HONORÁRIOS CONTRATUAIS. Hipótese em que a sentença é "extra petita",
quando determinada a compensação dos honorários advocatícios deferidos com
os honorários contratuais entabulados entre a parte e o seu advogado. (TRT da
4ª Região, 9a. Turma, 0000250-33.2011.5.04.0221 RO, em 26/02/2015,
Desembargadora Maria da Graça Ribeiro Centeno - Relatora. Participaram do
julgamento: Desembargador João Alfredo Borges Antunes de Miranda,
Desembargadora Lucia Ehrenbrink)

No mesmo sentido, já decidiu o Egrégio Tribunal Superior do Trabalho:

AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO


ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014. HONORÁRIOS DE ADVOGADO.
DEDUÇÃO. HONORÁRIOS CONTRATUAIS. AUSÊNCIA DE PEDIDO.
IMPOSSIBILIDADE. PROVIMENTO. Diante de possível violação do art. 128 do
CPC, merece provimento agravo e instrumento para melhor análise do tema.
Agravo de instrumento provido. RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO ANTES
DA VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014. HONORÁRIOS DE ADVOGADO.
DEDUÇÃO. HONORÁRIOS CONTRATUAIS. AUSÊNCIA DE PEDIDO.
IMPOSSIBILIDADE. O eg. TRT deu provimento ao recurso ordinário da
reclamante deferindo os honorários advocatícios e, de ofício, determinou a
dedução do valor de honorários contratuais com os honorários de advogado
deferidos. Não havendo pedido expresso da parte adversa, tem-se que a decisão
recorrida incorreu em julgamento ultra petita, o que ofende a norma contida no
art. 128 do CPC. Recurso de revista conhecido e provido. (RR - 156200-
08.2009.5.04.0382, Relator Ministro: Aloysio Corrêa da Veiga, 6ª Turma, DEJT
15/05/2015)

Dou provimento ao recurso ordinário interposto pelo reclamante, para excluir do


julgado a determinação para compensação dos honorários advocatícios com os
honorários contratuais devidos ao advogado. (TRT da 4ª Região, 4ª Turma,
0020372-82.2016.5.04.0030 RO, em 22/09/2017, Desembargadora Ana Luiza
Heineck Kruse)

Dou provimento ao recurso ordinário da reclamante para excluir do julgado a determinação


para compensação dos honorários assistenciais com honorários contratuais, ressalvando
entendimento pessoal de que em se tratando de lide em que o reclamante litiga sob o benefício
da AJG não são cabíveis honorários contratuais, razão pela qual, tenho por razoável a
compensação determinada.
MARCELO GONCALVES DE OLIVEIRA

Relator

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VOTOS
DESEMBARGADOR ANDRÉ REVERBEL FERNANDES:

INDENIZAÇÃO POR DANO MATERIAL.

Divirjo do voto do Exmo. Relator.

É reconhecido em sentença que a hérnia inguinal da autora tinha nexo concausal com sua
atividade laboral, face ao esforço físico durante a jornada de trabalho, por mais de dois anos de
contrato, pela tarefa de carregar baldes pesados. Corroborou tal entendimento o fato de o
Instituto Nacional do Seguro Social - INSS ter concedido à autora o benefício de auxílio-doença
acidentário. Foi realizada cirurgia.

Entendo que é irrelevante o fato da autora não estar mais incapacitada para o trabalho, tendo
em vista que houve incapacidade laboral no período em que o reclamante recebeu o benefício
previdenciário do INSS.

Diante da ocorrência de lesão à integridade física do trabalhador (dano) e da vinculação desta


à atividade exercida pelo reclamante (nexo de concausalidade) exsurge o dever de indenizar do
reclamado.

Dou provimento parcial ao recurso para condenar a reclamada a indenização por dano material
no valor equivalente a 50% do salário da autora no período em que esta ficou em benefício de
auxílio-doença acidentário.

DESEMBARGADOR GEORGE ACHUTTI:

INDENIZAÇÃO POR DANO MATERIAL

Pedindo vênia ao nobre Relator, acompanho o voto divergente.

PARTICIPARAM DO JULGAMENTO:

DESEMBARGADOR MARCELO GONÇALVES DE OLIVEIRA (RELATOR)

DESEMBARGADOR ANDRÉ REVERBEL FERNANDES

DESEMBARGADOR GEORGE ACHUTTI

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