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COMISSÃO DA VERDADE

Claudinei Flávio Ferreira


Universidade da Região de Joinville - UNIVILLE
claudineiflavio@gmail.com

Ricardo Moreira
Universidade da Região de Joinville - UNIVILLE
Ricardo89.moreira@gmail.com

Resumo

A Comissão Nacional da Verdade – CNV teve como principal objetivo investigar


fatos ocorridos no período da ditadura, e isso só foi possível graças ao advento
da Lei nº 12.528 de novembro de 2011. A CNV ajudou a examinar e esclarecer
as graves violações de direitos humanos praticadas no período ditatorial pelos
agentes do Estado. A CNV ouviu mais de um milhar de depoimentos, bem
como diligências a locais de repressão, além de dezenas de sessões e
audiências públicas. A CNV, como órgão temporário, encerrou suas atividades
após a entrega do relatório à presidente Dilma no dia 10 de dezembro de 2014.
Através da CNV foi possível, não de forma definitiva, uma recuperação da
memória, bem como uma reparação aos cidadãos que sofreram violações das
suas garantias fundamentais. Com a apresentação do relatório final, o Brasil
reconhece que a prática de detenções ilegais e arbitrárias, tortura, violência
sexual e execuções entre outras formas de agressões foi resultado de uma
política estatal generalizada, resultando assim em crimes contra a humanidade.
A CNV bem como a lei se tornam a materialização do clamor de milhares de
pessoas e famílias que sofreram e/ou tiveram parentes que foram gravemente
violentadas do seu direito.

Palavras-chave: Comissão Nacional da Verdade, Direitos Humanos, Garantias


Fundamentais.
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1 O QUE É UMA COMISSÃO DA VERDADE E PARA QUE SERVE

Segundo Sales (2012), a primeira Comissão da Verdade nasceu na


Uganda, no ano de 1974, com o objetivo de investigar os desaparecidos nos
primeiros anos do governo de Idi Amin. Desde então, segundo a autora, mais
de 30 comissões já foram instaladas mundo afora, a saber: África do Sul,
Alemanha, Argentina, Bolívia, Canadá, Carolina do Norte (EUA), Marrocos,
Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai, dentre outras.
Mas o que vem a ser uma Comissão da Verdade? Antes de conceituar o
que vem a ser uma Comissão da Verdade, é preciso deixar claro que no mundo
jurídico, comissão da verdade é algo novo, e sua proliferação pelo mundo, tem
como exemplo o sucesso da comissão da verdade realizada na África do Sul,
com o fim do apartheid. Convém registrarmos ainda que a comissão instaurada
na África foi inspirada no coroner´s courts, existente na Inglaterra desde
meados de 1066. Os coroner´s são médicos ou juristas encarregados de
investigar a identidade do morto, quando a causa não é natural. (FOLHA,
2012).
Foram mais de dezoito meses de amplo debate até a aprovação do Ato
de Promoção da Unidade de Reconciliação Nacional, em 1995, na África do
Sul. Chefida pelo arcebispo Desmond Tutu, ganhador do Prêmio Nobel da Paz,
em 1984, as audiências começaram em 1996 e seu relatório publicado no ano
de 1998, tendo cinco volumes. Mesmo com muitas críticas, a comissão da
África do Sul, conseguiu unir o país, marcado pela segregação racial (SALES,
2012). Desmond Tutu afirma que “Se você é neutro em situações de injustiça,
você escolhe do lado do opressor”.
Voltando ao que vem a ser uma Comissão da Verdade, convém dizer
que ela busca esclarecer os fatos, busca uma versão oficial para determinado
fato (ou morte), não atribuindo culpa ou pena. As comissões da verdade não
são cortes que julgam A ou B, também não estabelecem penas, não possuem
tal poder. As Comissões da Verdade servem para investigar e/ou elucidar as
causas de uma morte ou desaparecimentos, principalmente quando os agentes
causadores estavam a serviço do Estado. Tal função serve para trazer paz às
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famílias dos envolvidos, e principalmente, deixar uma lição para o futuro, para
que tais atos não voltem a acontecer (FOLHA, 2012.
1.1 Comissões na América Latina: Argentina e Chile

Como dito anteriormente, várias comissões foram se formando


pelo mundo, lembrando que o Brasil foi um dos últimos a instaurar a sua. Na
América Latina, na Argentina também tivemos um período ditatorial, entre os
anos de 1976 e 1983, porém diferentemente do Brasil, que demorou anos para
decidir apurar as graves violações aos direitos humanos, a comissão na
Argentina foi instaurada imediatamente após o fim da ditadura (SALES, 2012).
Diferente do Brasil, na Argentina houve sim condenações a
respeito dos crimes cometido na ditadura. Sales (2012) afirma que foram nove
meses de trabalho, com uma comissão formada por 13 pessoas e 60 membros,
conseguindo assim investigar 9 mil casos, revelando autores e gerando assim
vários julgamentos.
No Chile, a Comissão da Verdade investigou crimes cometidos
durante o regime de Pinochet, que durou de 1973 a 1990. Antes da Comissão
da Verdade, criada em 1991, o Chile reconhecia tão somente 2.279 casos de
assassinatos e/ou desaparecimentos cometidos por agentes do Estado. No ano
de 2009, o parlamento chileno reabriu os trabalhos, chegando a marca de mais
de 28 mil denúncias contra a violação de direitos humanos (SALES, 2012).

2 A COMISSÃO DA VERDADE NO BRASIL - LEI 12.528/11

A lei a respeito da Comissão da Verdade foi publicada no ano de 2011


sob o número 12.528 e entrou em vigor na data de sua publicação, no dia 18
de novembro do mesmo ano. O objetivo da lei foi o de apurar graves violações
de direitos humanos ocorridos entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de
1988. Ressalta-se que a comissão concentrou seus esforços no exame dos
esclarecimentos de fatos ocorridos no perídio da última ditadura militar
(MEMÓRIAS DA DITADURA). Somente em maio de 2012, foi instituída,
resultado de uma longa luta e reinvindicações de parentes e vítimas, bem como
de grupos de proteção aos direitos humanos. A comissão tinha por premissa
investigar os atos cometidos por agentes do Estado contra cidadãos que
lutavam contra a repressão.
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Em seu artigo primeiro, a Lei 12.528 quer efetivar o “direito à memória e
a verdade histórica e promover a reconciliação nacional”.
O relatório final foi entregue à presidenta Dilma no dia 10 de dezembro
de 2014, que ao receber o documento, ficou emocionada, pois ela assim como
muitos outros cidadãos sofreram o horror desse período que jamais deve ser
esquecido e que mancha para sempre a história do Brasil. Para a presidenta
Dilma, documento estimula a reconciliação do país:

Nós que acreditamos na verdade, esperamos que


esse relatório contribua para que fantasmas de um
passado doloroso e triste, não possam mais se proteger
nas sombras do silêncio e da omissão. Na cerimônia da
instalação da Comissão Nacional da Verdade em maio de
2012, eu disse que a ignorância sobre a história não
pacífica, pelo contrário, mantém latente mágoas e
rancores. Disse que a desinformação não ajuda a
apaziguar, apenas facilita o trânsito da intolerância.
Afirmei ainda que o Brasil merecia a verdade, que as
novas gerações mereciam a verdade, e sobretudo,
mereciam a verdade aqueles que perderam familiares,
parentes, amigos, companheiros e que continuam
sofrendo como se eles morressem de novo e sempre
(informação verbal).

É preciso relembrar o horror do período ditatorial, principalmente na


atualidade, onde políticos inescrupulosos saúdam ou querem enaltecer esse
período tão horrendo que viveu o Brasil e no qual milhares de seres humanos
tiveram suas vidas destruídas e seus direitos fundamentais aviltados. Na
mesma linha, é preciso lembrar que ao votar pelo impeachment da então
presidenta Dilma Roussef, em 2016, o deputado Jair Messias Bolsonaro, em
sua fala, exaltou o ex-chefe do DOI-CODI, Carlos Alberto Brilhante Ustra, que
fora acusado de cometer torturas no período da ditadura militar.
Situações como a anterior citada mostra o quão necessário foi e é
revisitar o passado, e principalmente, trazer a verdade para o presente,
lançando uma reflexão sobre ações cometidas por agentes do Estado, Estado
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este que é o guardião dos direitos humanos. Como afirma o professor Pedro
Dallari, “o Estado não pode praticar atos de barbárie”.

Figura 1 – Solenidade de entrega do Relatório à presidenta Dilma

Fonte: Wikipédia

A comissão não teve o papel de punir nem indiciar criminalmente, mas


sim de apontar “recomendações” ao Estado Brasileiro. A comissão desde seu
início teve o poder de convocar pessoas para depor e prestar esclarecimentos
de casos.
Foi a primeira vez que o Estado de fato assumiu oficialmente a
existência de crimes cometidos nesse período. A partir desse relatório, deve-se
refletir para que crimes dessa natureza nunca mais voltem a se repetir. O
relatório completo possui mais de quatro mil páginas, dividido em três volumes.
Ao longo de sua existência, os membros da CNV colheram 1121 depoimentos,
132 deles de agentes públicos.

2.1 As comissões da verdade pelo Brasil

A CNV realizou 80 audiências públicas pelo país, percorrendo o Brasil de


Norte e a Sul, visitando 20 unidades da federação. Calcula-se que mais de 300
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comissões foram formadas. Essas comissões, cada qual no seu âmbito e
escopo, investigaram temas e assuntos específicos e colaboram também no
sentido de trazer à tona verdades escondidas.
As audiências, diligências, eventos e tomadas públicas de depoimento
realizados pelas CNV ou em parceria com outras comissões ou com a
sociedade civil estão disponíveis no portal da própria CNV (Memórias
Reveladas).

2.2 Caso Félix Escobar

Muitos casos foram elucidados pela CNV. Um deles, como o de Félix


Escobar, cuja pesquisa foi desenvolvida pela Comissão Nacional da Verdade
(CNV) nos arquivos do Instituto Médico-Legal (IML) e do Instituto de
Identificação Félix Pacheco (IIFP), com a cooperação da Polícia Civil do Estado
do Rio de Janeiro. Esse trabalhou levou ao esclarecimento das circunstâncias
do desaparecimento e à identificação de Félix Escobar, militante da
organização MR-8 detido em Nova Iguaçu (RJ) entre o final de setembro e
início de outubro de 1971.

Figura 2 – Félix Escobar


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Fonte: CNV (Facebook)

3 COMPOSIÇÃO DA COMISSÃO

A comissão foi composta por sete membros nomeados pela presidenta


do Brasil, Dilma Rousseff, sendo auxiliados por assessores, consultores e
pesquisadores. A cerimônia de instalação da comissão contou com todos os
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ex-presidentes da República desde o restabelecimento da democracia após a
ditadura militar (Wikipedia).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O CNV fez com que o Brasil reconhecesse oficialmente o horror


praticado pelos agentes do Estado no período da Ditadura. O relatório da CNV
serve como alerta para que esse período nunca mais volte. Outrossim é
fundamental que se reflita a respeito desse período que em momento algum
deve ser motivo de orgulho para o país. Seres humanos foram perseguidos,
violentados, torturados e mortos, e cabe ressaltar que ainda hoje, existem
muitos desaparecidos, pois mesmo com a instalação da CNV, os militares não
revelaram o paradeiro de muitos corpos. É inaceitável que pessoas exaltem
esse período ou as ações cometidas contra seres humanos nesse período,
ações essas que violam gravemente a dignidade da pessoa humana. Por isso,
se faz necessário um resgate histórico, e acima de tudo, um olhar mais crítico a
respeito da capacidade do homem em produzir e praticar o mal com o aval do
Estado. Por fim, acredito que como humanos, temos a obrigação inalienável de
nos posicionarmos contra toda e qualquer forma de opressão e limitação da
liberdade humana, e em todas às vezes em que a dignidade da pessoa
humana for aviltada temos que escolher de que lado vamos estar, por isso,
menciono uma frase de Hannah Arendt: “A triste verdade é que os maiores
males são praticados por pessoas que nunca decidiram pelo bem ou pelo mal”.
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REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei Federal nº 12.528/11 de 18 de novembro de 2011. Cria a


Comissão Nacional da Verdade no âmbito da Casa Civil da Presidência da
República. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2011/lei/l12528.htm>. Acesso em: 06 mai. 2018.

CAMPANHA, Diógenes. Houve acordo para apurar esquerda, diz ex-


ministro. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/43219-
houve-acordo-para-apurar-esquerda-diz-ex-ministro.shtml>. Acesso em 06 mai.
2018.

Comissão nacional da verdade – um diálogo com a psicanálise e o direito, com


Maria Rita Kehl e Pedro Dallari. Instituto CPFL. Vimeo. 25 mar. de 2015.
48min36s. Disponível em: <https://vimeo.com/123190356>. Acesso em 07 mai.
2018.

DALLARI, Pedro. Todos serão obrigados a reparar o mal. Disponível em:


<http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/images/pdf/pedro_dallari_ao_valor_econ
omico.pdf>. Acesso em: 06 mai. 2018.

Dilma chora ao receber relatório final da Comissão da Verdade. REVEJA AQUI.


Youtube. 01min28s. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?
v=wlfBrwCA4BI>. Acesso em: 08 mai. 2018.

MEMÓRIAS DA DITADURA. A Comissão Nacional da Verdade. Disponível


em: <http://memoriasdaditadura.org.br/comissao-nacional-da-
verdade/index.html>. Acesso em: 06 mai. 2018

MEMÓRIAS REVELADRES. Relatório. Disponível em:


<http://www.memoriasreveladas.gov.br/administrator/components/com_simplefil
emanager/uploads/CNV/relat%C3%B3rio%20cnv%20volume_1_digital.pdf>.
Acesso em: 06 mai. 2018.
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Para entender o que é a comissão da verdade. Disponível em:
<http://direito.folha.uol.com.br/blog/para-entender-o-que-a-comisso-da-
verdade>. Acesso em 06 mai. 2018.

PEDRO DALLARI. Disponível em:


<http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/institucional-acesso-
informacao/membros/329-pedro-dallari.html>. Acesso em 06 mai. 2018.

Voto do Jair Bolsonaro a favor do Impeachment. Guto BRR. Youtube. 56s.


Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=54KUDU-u1P0>. Acesso
em: 09 mai. 2018.

SALES, Silvia. Comissões da Verdade no mundo. Disponível em:


<https://desarquivandobr.wordpress.com/2012/03/24/comissoes-da-verdade-
no-mundo/>. Acesso em 06 mai. 2018