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Minha Princesa Viking

Sophie Saint Rose


Sinopse

Maisey toda a vida suportou o ódio de seu povo por causa de seu pai. Quando
os vikings atacaram sua aldeia, viu a oportunidade que precisava para chegar
até ele, mas seu sequestrador decidiu reivindicá-la como sua e fazer dela sua
escrava. Talvez devesse mostrar-lhe que não iria ser fácil ...
Capítulo 1

Maisey virou na cama e choramingou enquanto sonhava. Cobriu-se com as


grossas mantas, pois fazia frio e deixou que o sonho a envolvesse de novo.
Sua mãe sorria indicando o céu, mostrando estrelas enquanto a abraçava em
seu colo. Seu cabelo castanho caía até o chão onde estava sentada e Maisey
agarrava a uma de suas mechas.
— Olhe, meu amor! São as estrelas. — Dizia abraçando-a como só uma mãe
podia fazer — Sempre lhe guiarão até onde queira chegar. Acompanharão
você e sempre estarão aí.
— São bonitas. — Disse Maisey recostando-se em seu peito para olhar o céu
— Olhe aquela tão grande!— Suspirou de felicidade ao vê-la.
— Tem que olhar fixamente para que lhe guiem, minha vida. Eu te ensinarei
como.
— Fará isso?
— Não estou te ensinando muitas coisas?— Perguntou acariciando seu
cabelo loiro liso.
— Algum dia necessitará de tudo que te ensinei.
— Quando?
— Quando eu faltar. — Disse beijando-a na bochecha— Então terá que ir
procurar seu pai. Ele te ajudará.
— Eu não quero ir! — gritou zangada enrugando seu pequeno nariz.
— Isso será dentro de muitos anos. Quando for uma mulher. — Sua mãe
olhou seus olhos grandes azuis. Tão claros que pareciam transparentes,
rodeados por umas surpreendentes pestanas escuras — Tem que procurá-lo
porque aqui não pode ficar, meu amor. Tentarão te fazer mal e necessita ser
protegida . Seu pai o fará. Ele é um homem importante e cuidará de você.
Maisey com seus seis anos de idade não chegava a compreender tudo o que
sua mãe dizia e esta sorriu — Não se preocupe, com os anos entenderá e dará
importância. Será duro, mas fará o que te digo. — Acariciou sua ruborizada
bochecha e Maisey sorriu.
— Como é papai?
Sua mãe sorriu com tristeza — Me perguntaste isso mil vezes.
— Conta-me.
— É um guerreiro de enorme força. Seus braços são como troncos de árvore e
mede tanto quanto nossa casinha. — Maisey arregalou os olhos — Tem o
cabelo um pouco mais escuro que você, mas não muito e chega até debaixo
dos ombros. Sua espessa barba não me deixava ver seu rosto muito bem. —
Disse sua mãe rindo — Mas era muito bonito.— No olhar de sua mãe
apareceu tristeza. A tristeza que a acompanharia toda a vida — É leal e tem
palavra. — Olhou sua filha. — Isso é o importante em um homem, Maisey. Se
um homem não tiver palavra, não tem valor. Tem que cumpri-la, custe o que
custar.
— Sim, mamãe.
— Meu Harald teve que ir, deixando-me aqui, mas sei que me amou mais que
ninguém na vida e voltou para sua terra porque tinha dado sua palavra a
outra mulher. Tem família lá. Mas só confie em seu pai.
— Sim, mamãe.
Sua mãe sorriu — Quer que te conte como conheci seu pai?
— Sim, mamãe. Conte-me quando te resgatou.
— Os vikings saqueavam o povo e seu pai era um deles. Eu estava colhendo
amoras quando escutei a luta e fui correndo ajudar meus pais. Quando ia
chegar ao povoado, vi horrorizada como dois vikings tentavam abusar de
minha prima Rosi, sem me dar conta que tinham me rodeado . Um deles me
agarrou pela cintura, atirando-me ao chão, levantando minha saia, quando a
ponta de uma espada apareceu sobre seu pescoço. — Sua mãe sorriu como
uma menina — Aí o vi pela primeira vez. E nesse momento me reclamou para
ele. Era o chefe desse grupo e me protegeu. Não escute as mentiras desta
gente. Ele nunca me forçou. Esperou que me entregasse a ele, como deve
fazer um homem e me amou. Muitos morreram esse dia e o ódio aos vikings
cresceu. Ficaram na aldeia quatro meses, os mais felizes de minha vida.
Poderia ter me levado com ele, mas eu teria que ser sua escrava em seu povo.
Não podia me levar como sua esposa porque estava casado, assim decidiu me
deixar aqui e que me casasse com outro homem, para que fosse livre e feliz.
— Disse acariciando seu cabelo loiro— Mas chegou você.
— Sim. — Disse levantando seu queixo.
Sua mãe sorriu com tristeza— Na aldeia não lhe querem. Sabe por quê?
— Porque meu pai é viking. — Disse franzindo o cenho.
— Não filha, porque seu pai era o chefe e roubou tudo o que tinham.
Derramaram seu ódio em você.
— Você não guarda rancor, mamãe?
— Se conheci o amor nesta vida foi graças a ele. E me deu o bem mais
prezado que tenho na vida.
— E o que é mamãe?— Perguntou acariciando o bracelete de sua mãe.
— Você. — Disse rindo e levantando do chão, levando-lhe com ela— Você é a
mais bonita do mundo e agora vai pra cama.
— Me conte mais, mamãe!
— Outro dia, meu céu. — Disse deitando-a na cama que compartilhava com
sua mãe e lhe acariciando a bochecha.

Maisey gemeu sentindo a carícia e franziu o cenho ao notar que era uma
carícia úmida. Abriu um olho e sorriu— Raio, deixe-me. — Apartou o focinho
de seu cão do rosto e gemeu ao ver que não tinha amanhecido— É muito
cedo. — O enorme cão levantou as orelhas e Maisey se esticou— Entendo.
Afastou as peles agarrando a adaga que tinha sob o travesseiro — Saia.—
Sussurrou elevando o ouvido.
Não escutou nada estranho no exterior de sua casa, até que ouviu um
rangido diante da porta. Pegou suas botas e fez um gesto pra Raio que a
seguiu ao alçapão situado na parede da parte de trás da casa. Olhou para a
porta colocando a faca entre os dentes e calçou as botas. Questionou se
pegaria a capa de pele, mas se tivesse que brigar incomodaria, assim decidiu
que não. Afastou a longa trança, que lhe chegava abaixo do traseiro e abriu o
alçapão fazendo um gesto a Raio para que saísse. Seu cão a esperou no
exterior e agachada cruzou, fechando a porta brandamente. Escutou o que
acontecia tentando descobrir quem se atrevia a incomodá-la.
— Não faça ruído. — Ouviu um sussurro. Maisey estreitou os olhos dando
um passo para a esquina da casa— Você mata o cão, eu me encarrego dela.
Virou o olhar pra Raio na escuridão. Seu enorme cão estava preparado para
lutar mostrando suas presas. Escutou como tentavam abrir a porta que
estava trancada. Aproximou-se sigilosamente pela lateral da casa e encostou
as costas na parede. Viu que não tinham ido a cavalo, assim eram da aldeia.
Malditos aldeãos! Sempre a estavam incomodando!
— Abre de uma vez. — Disse outra voz nervosamente— Se nos pegar
despreparados, vai abrir um buraco.
— Essa cadela vai fazer pouco a partir de agora.
Ela olhou pela esquina e agradeceu a luz da lua quando viu que eram os
mesmos que a tinham incomodado essa tarde, quando tinha se aproximado
da aldeia pra vender suas ervas. Maisey teve que retorcer o braço do que no
momento tentava abrir a porta e como resistiu, atirou-o ao chão enquanto
vários riam a gargalhadas, dizendo com desprezo que a viking tinha muita
força. Quando conseguiu levantar, coberto de barro, gritou que Maisey
pagaria e pelo visto foram cobrar. Fez um gesto a Raio para que rodeasse a
casa pelo outro lado. Quando viu seus olhos cinzas frente a ela do outro lado
da casa, saiu lentamente. Continuava tentando abrir a porta, estava a ponto
de bater contra ela com um machado. Maisey se aproximou do que estava
atrás dele observando e lhe tampou a boca, colocando a faca no pescoço. Nem
se moveu enquanto ela o puxava para trás dando a volta à esquina.
— Você vai me pagar por isso. –Sussurrou ela em seu ouvido antes de agarrá-
lo pelo cabelo e golpear sua cabeça contra a parede. Caiu mole no chão. Ela
fez uma careta porque era impossível que o outro não tivesse ouvido.
— Miles! Onde está?
— Aqui. — Sussurrou ela divertida.
O grande idiota deu a volta com o machado na mão. Quando a viu , gritou
levantando sua arma, mas Raio fora de si mordeu-o no traseiro com força,
protegendo a sua dona. O homem ficou a uivar de dor, deixando cair o
machado, com tão pouca sorte que este caiu em sua cabeça deixando-o sem
sentidos.
— Solte! — Ordenou a Raio que soltou sua presa imediatamente. Aproximou-
se do homem e viu sangue que saía de suas calças— Não vai poder sentar por
um tempo. — Disse divertida. Aproximou-se de seu cão e acariciou seu pêlo
cinza do lombo. Agachou-se e recolheu o machado.— Como pesa! — Disse
carregando-o com os dois braços. — Não sei como podem lutar com isto.—
Jogou-o em casa pelo alçapão e abriu a porta principal para sair outra vez.
Agarrou o ferido pelas pernas e tentou carregá-lo , mas era impossível movê-
lo. — Teremos que esperar que despertem. — Disse afastando sua trança —
Mas devemos amarrá-los, Raio. Assim que despertarem vão estar de muito
mau humor.
Amarrou-lhes as mãos e os pés. Estava decidindo o que fazer com eles
quando começou a amanhecer. Ela olhou sua camisola e decidiu ir vestir-se.
Vestiu o velho vestido marrom por cima da camisola e ajustou as tiras no
pescoço. Olhou a ponta do cabelo castanho e fez uma careta porque
começava a clarear. Teria que voltar a pintar para escurecê-lo. Sua mãe havia
dito que o fizesse quando fez oito anos. Seu cabelo chamava muita atenção e
como estavam sozinhas no bosque, não queria que ninguém se fixasse muito
nelas. Sobretudo os viajantes, porque os da aldeia as ignoravam.
Ou o fizeram até que Maisey começou a crescer. Com doze anos teve que
matar um homem que tentou violá-la perto de sua casa enquanto sua mãe
estava pescando. Felizmente ninguém soube porque se não as teriam matado.
Quando começou a se dar conta da realidade, entendeu que as odiavam.
Sobre tudo a ela por ser filha do homem que levou a destruição para seu
povo. Mas alguns homens queriam seu corpo, tinha-o visto em seus olhos.
Estranho era o dia que se aproximava do povo, e que não tinha um conflito
porque recordavam quem era. Por isso, evitava ir o máximo possível. Antes
não ia nunca, mas sua mãe havia falecido um ano antes e agora não tinha
outro jeito se queria vender suas ervas. Isso toleravam porque necessitavam
dessas ervas para curarem suas doenças, pois a curandeira tinha morrido
fazia anos. Ela as trocava por comida e estava bem sortida para um par de
semanas.
Olhou os homens jogados no chão.— Que confusão! Não posso matá-los aqui.
— Disse a Raio — Saberão. E não posso deixá-los livres porque voltariam. —
Entrecerrou os olhos olhando-os. — Posso atirá-los pelo penhasco. — Seu cão
a olhou e latiu. Suspirou passando a mão pelo rosto— Sim, vai ser o melhor.
Mas como os levo até lá? Olhou a seu redor e seu cão se aproximou dela
empurrando-a — Você acha? Está longe, Raio.
Seu cão voltou a latir e Maisey sorriu— Certo, pois comece.— Raio se
aproximou do que tinha o traseiro sangrando e o mordeu no tornozelo. O
homem despertou gritando e ela fez uma careta— Me parece que não
podemos levá-lo assim. Seus berros serão ouvidos na aldeia.— Aproximou-se
do homem deu-lhe um chute na cabeça deixando-o sem sentido outra vez.
Raio o soltou e se sentou olhando-a. Já tinha amanhecido e tinha que
apressar-se antes que começassem a procurá-los. Segurou o cinto do que
tinha a dentada no traseiro e puxou arrastando-o um pouco. Raio lhe
agarrou também pelo cinto e puxou ajudando-a, mas apenas o moveram um
metro. Maisey sabia que não poderia levá-lo até a borda do penhasco, mas
tinha que afastá-los de sua casa rapidamente.
Então escutou o som de um cavalo e ficou alerta, também Raio que
endireitou as orelhas. Mas quando começou a mover o rabo de um lado a
outro, soube que era a anciã Dayna. Voltou-se para vê-la chegar pelo atalho e
a saudou com a mão. A mulher que devia ter uns cinquenta anos, ia vê-la
uma vez ao mês desde que havia falecido sua mãe, para assegurar-se de que
estava bem.
Quando chegou a seu lado montada em seu velho cavalo olhou para os
homens deitados no no chão. — Tem um problema aqui, pequena.
— Sei. Estava pensando em atirá-los do penhasco.— Disse preocupada.
— Use meu cavalo.— Disse a velha desmontando lentamente — E seja rápida
porque ouvi movimento na aldeia.
— Tão cedo?— Perguntou assustando-se — Acaba de amanhecer.
— Pois aconteceu algo ou já os estão procurando. — Disse a mulher
afastando seu cabelo grisalho para acariciar Raio.
Não perderam tempo, amarraram os tornozelos dos homens com cordas ao
cavalo, que puxou-os até o penhasco enquanto Dayna se encarregava de
limpar o sangue e apagar o rastro. Maisey ao chegar, dispôs-se a cortar as
cordas dos homens, se por acaso os descobrissem nas rochas que não os
encontrassem amarrados, quando viu algo que a deixou sem fôlego. Um navio
estava perto da praia. Um navio com a proa curvada e uma vela central com
vivas cores. O coração deu um pulo ao ver dois homens na praia e por suas
vestimentas soube imediatamente de onde procediam. Estavam armados com
machados e grandes espadas, o que indicava que foram saquear. Vikings.
Um sorriso iluminou seu rosto e sem incomodar-se em tirar as cordas,
empurrou com o pé os idiotas pelo penhasco e montou no velho cavalo.
Lançou um último olhar ao navio de onde seguiam descendo homens e fincou
os calcanhares no cavalo para avisar Dayna.
O pobre cavalo chegou esgotado— Dayna!— Gritou saltando do cavalo. A
anciã que estava cobrindo o sangue com terra se voltou para olhá-la
surpreendida— Vieram!
— Quem veio, moça?
— Os vikings! – Gritou excitada.— Vieram!
A anciã a olhou assustada — Pegue tudo o que tenha de valor, que vamos às
cavernas.
— Mas o que diz, velha? Tenho esperado este momento toda a vida. — Disse
indo para casa para pegar o bracelete de sua mãe, que era o único bem que
queria levar.
Dayna a segurou pelo braço girando-a — Sua mãe te encheu a cabeça de
pássaros com as histórias de vikings! E não são assim!
— O que está dizendo?
— Assim que te virem, te estuprarão ou matarão, Maisey. Ou pode ser que
façam as duas coisas! E terá sorte se te matarem, porque podem te levar pra
seu povo como escrava para fazer contigo o que quiserem!
— Como pode falar assim, se também são seu povo?
— Porque vi!
Maisey duvidou pois a velha parecia muito segura — Mas mamãe….
— Sua mãe teve sorte!— Gritou-lhe — Um deles a protegeu do horror e ela se
apaixonou por ele! Todo o resto são histórias, Maisey!
— Minha mãe me disse que procurasse meu pai. — Disse soltando seu braço.
— Que ele cuidaria de mim.
— Tem dezessete anos! Acredita que seu pai se interessa por você? Que se
incomodou em saber se tinha descendência de uma mulher das Highlands?
Voltou para sua vida e se esqueceu de tudo o que deixou pra trás. — A
mulher entrou na casa — Recolhe o que pode carregar porque acabarão com
tudo.
Atônita olhou à anciã, pois estava aterrorizada— Por que tem medo? São seu
povo.
— Porque não vão perguntar antes de te atravessar com a espada!
Observou a sua amiga pegar um tecido e começar a meter nela tudo o que
podia de comida. Dayna era viking. Tinha sido abandonada em outra aldeia
porque estava doente e assim que os vikings se foram deixando-a atrás,
conseguiu escapar para que os escoceses não a matassem. Foi viver perto da
aldeia de Maisey e se mantinha de suas três ovelhas. Todo mundo dizia que
tinha oferecido seus favores para as conseguir, mas Maisey não se importava.
Tinha demonstrado ser uma boa amiga quando a necessitava. Tinha
ensinado-lhe a linguagem de seu pai e também a tinha ensinado a tingir o
cabelo quando sua mãe acreditou que era o melhor.
Escutaram os gritos e saíram ao exterior da casa— Já começou— Sussurrou
Dayna assustada — Vamos, menina.
Uma coluna de fumaça saía da aldeia, o que indicava que estavam
queimando casas. Dayna se aproximou do cavalo, mas Maisey negou com a
cabeça — Não seja tola, nas cavernas estaremos seguras até que se vão!
— Eu fico. — Raio se aproximou dela e apertou seu corpo em sua perna — Se
meu destino for que me matem, que assim seja.
A mulher apertou os lábios— Faça o que quiser. Já te protegi muito. É hora
de que escolha seu caminho. — Olhou-a com os olhos semicerrados— Mas,
vou dar um conselho. Não diga quem é seu pai.
— Por que?
— Porque pode ser que sejam inimigos— Disse agarrando as rédeas.—
Assegure-se antes que são amigos ou lhe utilizarão. Isso se não a matarem
antes. E não diga que sabe sua língua. Assim averiguará suas intenções
antes de que as mostrem. Essa é sua vantagem.
— Sim, Dayna. — Disse obediente.
— Que os Deuses lhe protejam, menina. — Disse fincando os calcanhares.
— Adeus. — Sussurrou vendo-a afastar-se.
Quando desapareceu olhou para Raio— Vamos, Raio. Não temos tempo antes
de que cheguem.
Correu a preparar-se. Abriu a caixa de madeira de sua mãe e pegou o
bracelete colocando-o no braço à altura do peito para que não o visse. Vestiu
umas calças de couro sob o vestido e agarrou seu arco pendurando-lhe nas
costas. Colocou as flechas no cinturão de couro e fechou a casa saindo pelo
alçapão. Preparou o campo ao redor da casa e ao final da pradaria acendeu o
fogo. Era apenas uma pequena chama e se estavam o suficientemente
distraídos, não a veriam .
Assegurou-se de que as armadilhas estavam preparadas e subiu em uma
árvore. Subiu ali milhões de vezes. Não estava à vista e tinha uma visão
perfeita de todo o contorno. Raio estava sob a árvore e lhe fez um gesto. O cão
desapareceu até que ela o chamasse. Coisa que não faria. Era sua única
família e se ela tinha que morrer esse dia, não queria ver que sofria por ela.
Escutavam-se os gritos na aldeia. Eram fracos de onde se encontrava , mas
se distinguiam bem. O aroma de queimado chegava até ali e se perguntou se
teria que aproximar-se um pouco da aldeia. O som de vários passos sobre o
caminho, indicou-lhe que tinha chegado a hora de saber a quem enfrentava.
— Não sei por que temos que perder tempo desta maneira. — resmungou um
— Estamos atrasando a viagem e teremos dificuldades para chegar em casa
se piorar o tempo.
— Fecha a boca, Tage. Está me aborrecendo. — disse uma voz grave
aproximando-se a toda pressa — Você faz o que te digo.
— Roald, dê-lhe um murro ou nos deixará loucos com suas queixas!
Maisey não se moveu retendo o fôlego quando viu suas cabeças pelo caminho
— Sorem, não se meta. Estou falando com meu primo.
— Silêncio!— gritou o da voz grave — Vamos a essa maldita casa e veremos
se está lá como disse essa velha na aldeia. E se não for assim, sairemos deste
maldito lugar.
Maisey semicerrou os olhos. A quem procuravam?
— Isto é ridículo. A velha está louca!
— Fecha a boca!
Entraram no espaço diante da casa e pôde vê-los claramente. Maisey reteve o
fôlego ao ver o moreno que ia a frente. Era enorme. Suas coxas eram tão
musculosas que se podiam vê-los marcados através da calça de couro que
usava. Não vestia camisa e seu torso tinha um fino pêlo que ia desde seus
amplos peitorais até chegar a seu umbigo. Maisey nunca tinha visto um
homem assim e se moveu ligeiramente para vê-lo melhor fazendo ranger o
ramo. Mordeu o lábio inferior quando viu que ele levantava o braço olhando a
seu redor.
— O quê?
— Ouvi algo. — Disse em voz baixa tirando a espada de seu cinturão e
girando sobre si mesmo.
— Que tolice!— Quem protestava tanto era loiro e não era tão forte, nem alto
como o outro. E o último também estava alerta. Tinha o cabelo avermelhado e
umas tranças que lhe chegavam na metade das costas. Era o único que tinha
barba e se deu conta pelo modo como se movia que era perigoso — Sorem
você também?— queixou-se o loiro.
— Entre na casa e olhe se há alguém.
O loiro levantou as mãos exasperado e foi até a casa. Tentou abrir a porta
mas como estava trancada, deu um chute rompendo-a em dois. Maisey abriu
os olhos como pratos, pois os aldeãos não eram tão fortes. Escutou um golpe
no interior e o tal Roald gritou— Tage, está bem?
Ao não responder, os dois homens ficaram um de costas para o outro. Era
incrível vê-los mover-se de um lado a outro como se fossem um. Ela decidiu
que era momento de atuar e tirou uma flecha lentamente — Vá ver o que
passa.— disse Roald ao Sorem — Tome cuidado.
O ruivo sem deixar de olhar a seu redor, aproximou-se da casa e entrou —
Está inconsciente!
Ela esticou o arco sem fazer nenhum ruído e lançou a flecha acertando no
centro da cunha que sujeitava uma enorme tábua que caiu fechando a porta
com um forte estrondo.
— Que raios…?— gritou Sorem do interior de sua casa.
Sorem golpeou a enorme tábua que agora cobria a porta, enquanto que Roald
se voltou para ela, já a tinha localizado. Maisey se endireitou no ramo,
sujeitando o arco e tirando outra flecha. Durante um segundo se olharam aos
olhos e Maisey perdeu o fôlego ao dar-se conta que os seus eram de um verde
profundo. Sem fazer um gesto Roald deu dois passos laterais empunhando
sua espada, ela apontou com a flecha.
— O que querem?— perguntou em sua língua materna. Pensava seguir o
conselho da Dayna.
— Procuramos uma mulher. — Respondeu tenso dando outro passo lateral.
— Que mulher?
— Não sei como se chama. Só sei que tem o cabelo castanho. Tenho ordens
de levar todas as mulheres com essa cor de cabelo.
Ela entrecerrou os olhos— Quem te envia?
— Isso não é de sua conta, mulher!— Respondeu furioso dando outro passo
lateral.
O homem do interior da casa começava a destroçar a parede, mas ela não
podia deixar que saíssem, assim apontou com sua flecha à pedra que tinha
sobre o fogo e esta se moveu. O fogo começou a correr sobre a trilha e Roald
abriu os olhos como pratos ao dar-se conta que se dirigia rapidamente para a
casa. Pôs-se a correr para o fogo para detê-lo e Maisey não pôde deixar de
admirar como se movia. Desceu da árvore de um salto e se escondeu em
outro local.
O viking tentou apagar o fogo com o pé mas encheu de graxa e queimou a
pele da bota. Amaldiçoando tirou a bota furioso— Quando te agarrar, vou te
esfolar, bruxa!
Ela sorriu por ser mal perdedor, mas seu sorriso desapareceu ao ver a perna
de seu companheiro a chutar uma das tábuas da casa. Sairia dentro de uns
minutos e não podia perder tempo — Quem te envia?
O viking olhou para onde estava antes e rugiu furioso ao não encontrá-la
sobre a árvore. Grunhindo caminhou descalço de um pé para o centro do
descampado.
— Se mostre e te direi quem me envia!— Gritou procurando-a — Sorem! Quer
sair de uma vez?
— Necessita ajuda?— perguntou Tage divertido.
— Já dormiste a sesta?
— É uma bruxa. Disso não há dúvida. Me golpeou com um martelo na
cabeça!
Maisey decidiu que acabou a história. Apertou os olhos olhando seu objetivo
e decidiu montar uma armadilha, embora ele fosse inteligente. Maisey
escondida detrás de um arbusto pôs-se a correr e ele a viu. Ao vê-la, pôs-se a
correr atrás dela. Sorem saiu nesse momento da casa e os seguiu com um
grito que punha os cabelos em pé.
— Rodeia-a!— gritou Roald.
Sorem correu para o outro lado e ela não se deteve. Nem se deram conta
quando primeiro Sorem e depois Roald foram apanhados por duas cordas em
seus tornozelos, catapultando-os ao alto de uma árvore. Ela se deteve e
sorrindo olhou Roald que se balançava de barriga para baixo de um lado a
outro.— Ha, ha!
— Espere quando eu te agarrar. — Disse entre dentes.
— Isso você já disse, mas quem está pendurado em uma árvore é você. —
Disse divertida. Quando a agarraram pela cintura tomando-a de surpresa,
amaldiçoou-se por ser tão estúpida. Dois fortes braços a levantaram e ela
gritou de dor.
Furiosa deu um chute no joelho de seu captor e com a cabeça deu um golpe
seco para trás com força, quebrando-lhe seu nariz. Soltou-a deixando-a cair
no chão, Maisey agachou no chão e esticou uma perna com força lhe dando
um forte chute na virilha. Quando se dobrou viu que era Tage, que protestava
tanto. Levantou-se de um salto e agarrou o cabelo loiro do viking lhe
dobrando o pescoço para trás colocando sua adaga em seu pescoço. Olhou
Roald que estava fora de si.
— Por que procuram as de cabelo castanho?
— Não sei!— gritou Roald — Se fizer mal a meu primo está morta!
— São vikings, morrerei da mesma forma.
— Você, é obvio. Não me importo se tenha o cabelo castanho. — Disse ele
com rancor.
— A quem procuram?— Apertou a adaga contra o pescoço do Tage e uma
gota de sangue caiu por seu pescoço.
— Harald nos ordenou isso!— Gritou ao ver que com certeza o mataria.
Surpreendida olhou Roald nos olhos — Que Harald?
Um golpe na cabeça que não viu vir, deixou-a sem sentido, caindo sobre a
erva e ficando totalmente em suas mãos.
Capítulo 2

Um movimento na cabeça a fez despertar. Tinha um vulto enorme de um


lado, mas não abriu os olhos recordando tudo o que tinha acontecido.
Referiria-se o viking a seu pai? Estaria-a procurando? Não, não podia ser
porque não sabia que ela existia. A dor de cabeça não a deixava nem pensar.
Abriu um olho ligeiramente e viu várias mulheres amarradas pelos pés e
mãos, apoiadas em uma parede de madeira. O balanço lhe indicou que era
um navio e ela estava deitada na frente delas, mas não a tinham amarrado,
ou sim?
Fechou os olhos quando ouviu passos as suas costas –Ao menos teremos
escravas para nos esquentar as camas no inverno. — Disse alguém na língua
de seu pai deixando-a tensa.
— Acredito que não a encontramos. — Essa voz sim reconheceu. Era a do
chefe, Roald — Harald se desgostará.
— É loucura de um velho. Você tem feito o que pode. Mostraremos as que
temos e esperemos que ele se dê por satisfeito.
— Três são dessas características. Não sei se serão suficientes. — Seu pé se
colocou diante de seu rosto.
— O que vais fazer com esta?
— Se Thorbert não a matou, será minha para lhe dar seu castigo depois de
que Harald a veja. Proibiu-nos de tocá-las antes, mas depois…— Disse entre
dentes com raiva — Depois não sabe o que lhe espera.
Maisey engoliu a saliva sabendo que falava totalmente a sério. Sua única
esperança a não ser escapar, era que esse Harald fora seu pai. Porque se
acabasse nas mãos desse homem, iria passar muito mal — De toda maneira
esta não cumpre os requisitos. — Disse o outro homem.— É muito jovem.
Ela soube nesse instante que procuravam a sua mãe — É melhor não tê-la
encontrado. Tashia a mataria assim que a visse. — Disse afastando-se dela.
Quem era Tashia? Seria a esposa de seu pai? O navio balançava muito e com
a dor de cabeça estava com vontade de vomitar. Não pôde evitar um arquejo e
abriu os olhos levando uma mão à boca.
— Está acordada. — Esse tom de voz arrepiou seus cabelos da nuca e
levantou a vista. Os olhos verdes de seu captor a olhavam com fúria mal
dissimulada. Maisey sorriu porque sabia que se mostrasse temor seria ainda
pior. Ele entrecerrou os olhos e esticou a mão agarrando-a pela trança.
Gritou quando a levantou do chão e bateu em sua mão para tentar soltar-se
— Já não está rindo não é? — Perguntou em seu idioma. — Vai deixar de rir
por muito tempo.
Ela levantou o queixo e sorriu — Crê que me assusta? É um cão viking. — As
mulheres atrás dela ofegaram— Não me assusta.
O bofetão a atirou no chão e sentiu o sangue no canto da boca.
— Pode ser que agora não sinta medo, mas quando acabar contigo vai sentir
terror.
Maisey vomitou sobre o chão e ele gritou— Olav! Que limpe o chão! A porca o
sujou.
Um balde de água apareceu a seu lado. Levantou a vista para ver um homem
alto com uma enorme barriga, coberta por uma camisa que debaixo deixava
ver seu ventre.
— Limpe o chão. –Disse antes de cuspir deixando cair saliva sobre sua
gordurenta barba branca. — E depois pode ser que lhe daremos o jantar.
Ela olhou às mulheres que choramingavam apertando-as umas às outras.
Tinha-as de todas as idades e se espantou ao ver uma menina de não mais de
doze anos. Estava claro que suas vidas tinham mudado para sempre.
Tinha frio e a matava a dor de cabeça. Ajoelhou-se agarrando um trapo que
havia dentro do balde. Começou a esfregar limpando o que tinha sujado.
Quando terminou, Olav que a observava com os braços cruzados disse—
Tudo.
Seguiu esfregando e quando chegou na metade do navio se deu conta de que
vários homens a observavam.
— Essa megera vai me pagar. — disse Tage rancoroso— Quebrou meu nariz.
— É porque é idiota. Que culpa tem ela?— Disse um moreno que não
conhecia.
— Tinha que tê-la visto, Thorbert. — disse Sorem com admiração.— Luta
como uma valquiria. E as armadilhas eram tão engenhosas…
Ela continuou esfregando enquanto os escutava falar em sua língua.— Pois
não a viram atirar ao arco. — disse Roald enquanto bebia cerveja.
— E sabe usar a faca. — disse Sorem pegando um pão da bandeja.— Quase
me apaixonei.— Disse divertido.
— Mataria você assim que fechasse os olhos. — Disse Roald olhando-a —
Além disso, é minha.
— Mas não a mate. É valiosa.
— Não tem nenhum valor. Quando acabar com ela pode ser que lhe dê de
presente.
— Obrigado, mas então sim que não valerá nada.
Olharam-se e puseram-se a rir enquanto ela os observava com desconfiança.
Ela seguiu esfregando, fazendo-se de tola e quando terminou, Olav lhe
indicou com a cabeça que esvaziasse o balde pela amurada. Ela se levantou e
agarrou o balde que pesava bastante, para ver que se afastaram da costa,
embora não o suficiente para não chegar a nado. Se ficasse ali teria um
problema com Roald porque a destroçaria se pudesse. Tinha-lhe deixado em
situação ridícula e quando chegassem a seu destino teria carta branca para
fazer o que quisesse. Além disso era um homem que não tinha paciência. Não
confiava que pudesse conter-se até chegar em sua casa.
Sem pensar lançou o balde em Olav e se jogou pela amurada enquanto ouvia
gritos atrás dela. A água estava gelada e embora a cabeça doesse horrores,
começou a nadar para a costa. Sentiu milhares de alfinetes cravando-se em
seu corpo por quão fria estava a água, mas ela não se rendeu, nadando como
podia para chegar a margem. Um puxão na perna a fez girar e quando viu o
rosto do Roald atrás dela esperneou furiosa tentando soltar-se. Ele a afundou
e Maisey lhe arranhou o peito tentando que a soltasse. Quando subiu à
superfície, sugou ar com força prendendo-a em seus braços. E quando abriu
os olhos disse com o cenho franzido— Eu te direi quando pode se matar.— A
agarrou pela gola do vestido e a arrastou até o navio. Subiram-na, Sorem e o
tal Thorbert, agarrando-a cada um por um braço enquanto ao Roald
lançaram um cabo pelo qual subiu com agilidade. Tremendo de frio, todos
ficaram olhando e ela sentada no chão do navio se arrastou para trás.
— É loira!— exclamou Tage sem acreditar-lhe.
Surpreendida olhou seu cabelo que estava perdendo a cor rapidamente
embora ainda estivesse ligeiramente marrom. Ela chegou para trás olhando
para Roald porque agora que era loira podiam matá-la quando quisessem. Ele
deu um passo para ela e Maisey se levantou rapidamente. O sorriso que
apareceu em seu rosto causou-lhe arrepios de medo.
— Olhe por onde. — Disse agarrando-a pelo braço e puxando-a até encostá-la
em seu peito — Começa a diversão.
— Te apodreça!
Roald agarrou uma mecha de cabelo molhado que ainda deixava cair a
tintura. Enrolou a mecha em seu punho forçando sua cabeça para trás. —
Levem-na à adega. — Disse entre dentes e não lhe dêem comida para lhe
aplacar os ânimos. Só água.
— Sim, Roald. — disse Sorem agarrando seu braço. Ele a soltou dando um
passo atrás e ela olhando-o com ódio se deixou levar por seu companheiro.
Sorem abriu um alçapão e a empurrou pra que ela descesse três degraus.
Quando chegou embaixo estreitou os olhos abaixando a cabeça porque não
podia se endireitar todo.
— Eu se fosse você não abriria mais a boca. — Sussurrou Sorem levando-a a
um espaço mais limpo.— Roald não é famoso por seu bom humor. — Sentou-
a no chão e embora tenha resistido, agarrou seu pulso para prender com um
grilhão fixo na parede. Ficou olhando com os braços cruzados — Como te
chama?
— O que isso te importa?
Ele sorriu divertido — Em um par de dias lhe terão tirado esse atrevimento.
— Maisey fez cara de aborrecimento e Sorem pôs-se a rir— É dura, verdade?
— Perguntou o ruivo.
— Como se sentiu ao voar? Estava do seu agrado ficar de barriga para baixo?
Sorem rindo-se às gargalhadas atravessou a adega. Ao fechar o alçapão,
Maisey se amaldiçoou ao ficar totalmente às escuras. Atirou do grilhão várias
vezes fazendo-se dano. Tinha muito frio. Estava empapada e as calças de
couro lhe colavam à pele sentindo ainda mais frio. Não tinha uma manta com
a que cobrir-se, mas a umidade das calças impediria que entrasse calor.
Levou a mão livre à correia da cintura e atirou dela. As calças lhe tinham
grudado como uma segunda pele e lhe custou baixar da cintura, mas as
pernas já era impossível. Tirou delas tudo o que pôde mas ao chegar às
pantorrilhas lhe entupiram pelas botas. Estava tentado tirá-las quando se
abriu o alçapão e ela se cobriu como pôde com o vestido. Ao ver as pernas,
soube quem era imediatamente e ficou tensa. Roald teve que agachar-se para
chegar até ela. Seu cabelo negro seguia molhado e não trocou de roupa.
Claro, para ele essa temperatura não era nada. Quando a viu, seu olhar foi
até suas pernas. Maisey estava gelada de frio e se refletia em sua tez pálida e
seus ligeiros tremores.
— Tem frio?
— Morra.
Lhe agarrou um tornozelo atirando para cima e Maisey gritou quando suas
costas ficou sobre o chão. Sem nenhum olhar lhe tirou a bota e a perna da
calça— Não quero que morra ainda. — disse divertido — Ou não te teria
tirado da água.
Morta de vergonha porque seu vestido subiu até a cintura, olhava-o do chão
enquanto tirava sua outra bota e tirava a calça da outra perna. Ele jogou a
calça a seu lado e se agachou para agarrá-la pela frente do vestido sentando-
a outra vez.
— Agora me diga porque fingia ter o cabelo de outra cor. — Sua voz indicava
que não estava para brincadeiras. Maisey encolheu as pernas tentando
cobrir-se com o vestido mas ele a agarrou pelos tornozelos as esticando—
Tenho muito tempo — Disse olhando para baixo e entrecerrando os olhos.
Suas mãos subiram por seus tornozelos até chegar a seus joelhos e Maisey se
remexeu furiosa— Me deixe, porco!
— Porco né?— Isso pareceu o divertir e ela tentou chutar — Sabe? Agora
posso fazer contigo o que quiser. — Agarrou-a pelos tornozelos lhe abrindo as
pernas à força enquanto ela com a mão livre tentava golpeá-lo.
— Vou te matar!— Gritou ela enquanto ele se colocava entre suas pernas
agarrando-a pelo quadril.
Tombou-a novamente e sorriu— Já não ri tanto.
— Furarei seus olhos!— Gritou-lhe na cara tentando agarrar com sua mão
livre o cabelo dele.
Ele pôs-se a rir sujeitando-a fortemente nas pernas — Vou mudar esse
caráter mesmo que seja a última coisa que eu faça.
— Posso te assegurar que será a última coisa que fará!— Maisey arregalou os
olhos quando sentiu seu membro, olhou para baixo e viu que o tinha na mão.
— Não!
Ele levantou seu quadril e entrou nela com um empurrão que a fez gritar de
dor.
— Por todos os raios — Disse ele entre os dentes fechando os olhos.
Maisey esperou mais dor, mas ele se deteve e pensou que tinha acabado até
que ele abriu os olhos. Olharam-se uns segundos e Maisey reteve o fôlego
quando a dor e a pressão diminuíram. Roald se moveu saindo dela
lentamente e voltou a entrar com força fazendo-a gemer de dor, mas se sentiu
aliviada ao não ser tão forte como a primeira vez. Seu captor começou a
mover-se em um ritmo lento e Maisey entrecerrou os olhos quando começou
a sentir outra coisa. Não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas
começava a gostar. Um calor começou a percorrê-la de cima a baixo e sua
respiração se alterou quando ele acelerou o ritmo. Maisey puxou o grilhão
com força apertando seus punhos sem deixar de olhar sua cara. Roald se
moveu mais depressa e ela se arqueou de prazer necessitando de algo. Então
ele grunhiu apertando-a a seu corpo com força.
Derrotada, Maisey deixou cair os braços sabendo que tinha terminado. Não
tinha sido tão duro como acreditava, pensou ela vendo-o apoiar-se em seus
calcanhares. Quando levantou o olhar e seus olhos se encontraram, saiu dela
zangado subindo as calças, mas ela pôde ver o sangue em seu membro antes
de que o cobrisse. Olhou pra ele com ódio tentando baixar seu vestido, mas
Roald a deteve. Ruborizou-se ao saber o que olhava. A prova de sua
virgindade.
— Então não tinha sido tocada por outro homem. — Disse ele zangado.
Baixou-lhe o vestido de repente rasgando-o com um puxão.— Melhor para
mim— Se levantou e ela suspirou aliviada quando ele se preparou pra partir.
Olhou-a atentamente e Maisey só desejava que desaparecesse— A partir de
agora fará o que eu te ordenar. É minha escrava. — Essas palavras a
surpreenderam, pois pensava que ia matá-la. — Se tentar escapar, te mato.
Se não fizer o que te ordenar, receberá um castigo. E para que aprenda como
será seu futuro a partir de agora não comerá por dois dias.
Ela sentou no chão olhando-o furiosa.— Te matarei antes de chegar a seu
destino.
— Pode tentar, mas se fizer te atirarei pela amurada e dessa vez não te
resgatarei.
— Vai morrer viking e quando meu pai souber disto não parará até que você
apodreça no inferno.
Ele sorriu divertido.— Esse teu pai vai ter que ir muito longe para nos
encontrar. — Maisey sorriu surpreendendo-o. — Do que ri?
— Cuspirei sobre seu túmulo.
Surpreendendo-a se agachou rapidamente e a agarrou pelo cabelo de sua
nuca aproximando-a dele dolorosamente.— Três dias sem comer e se
continuar assim morrerá de fome. — Disse entre dentes perto de seu rosto.
Ela tentou morder Roald, e ele a soltou tornando-se a rir lhe mostrando uns
dentes brancos perfeitos. — Vai ser divertido te domar.
— Com o que acaba de fazer se sentenciou a morte!— Gritou ela furiosa
puxando o grilhão — Está morto!— Gritou antes de que ele fechasse o
alçapão. — Porco viking, vou matá-lo!
Furiosa se sentou cobrindo-se bem com o úmido vestido e apoiando as costas
na parede. Se acreditava que ia dobra-la trancando-a ali, estava muito
equivocado.
Ela dormiu sentindo frio. Felizmente quando despertou doía menos a cabeça,
mas continuava gelada. Não sabia se era dia ou noite, mas precisava aliviar-
se. Amaldiçoou o viking que a tinha trancado sem pensar nisso. Aguçou o
ouvido escutando algo lá fora, assim supôs que ainda era de dia. Umas
risadas a fizeram apertar os olhos olhando para cima. Apalpou o chão e
encontrou as calças de couro. Estavam enroladas, assim as esticou como
pôde para que se secassem mais rápido. Tocou sua roupa e estava úmida
ainda. E seu cabelo se soltou da trança. Acariciou o cabelo dando-se conta
que já tinha outro toque, o que significava que quase não tinha tintura. Era
quase um alívio não ter que usar a tintura mais. Fez uma careta pensando
que não tinha que ter se jogado do navio, mas agora não era momento de
recriminações. O fato, já estava feito.
Depois de um momento já não aguentava mais a vontade de urinar e ia fazê-
lo quando se abriu o alçapão. Olav baixou com sua enorme barriga e se
aproximou— Não faça tolices. — Disse o homem olhando-a com seus
olhinhos marrons.
— Tenho que me aliviar.
— Te levarei pra cima agora. — Disse ele abrindo o grilhão e agarrando-a com
força pelo braço— Vamos.
Guiou-a com brutalidade às escadas e subiu na frente dele. Ao sair no
exterior e olhar o céu se deu conta que era o dia seguinte. Quanto tinha
dormido? Os homens a observavam de onde estavam sentados, conversando
na parte dianteira do navio enquanto que as mulheres seguiam sentadas em
seu lugar na parte de trás. O navio não era muito grande e ela sabia que não
podia ser de outra maneira, pois tinha que subir por rios até o norte.
Olav a empurrou até uma lateral do navio.— Tome cuidado, não caia. Agora
que te usou duvido que ele se atire atrás de você. — Disse divertido — Segure
nas cordas.
Tinha que aliviar-se diante de todos? Isso sim era humilhante.
— Olav!— gritou Roald— Vire-se!
O gordo o olhou surpreso sobre seu ombro, mas seguiu suas ordens. Ela
olhou a seu redor e viu que o resto dos homens tinham baixado a vista.
Rapidamente Maisey levantou o vestido e colocando-se de maneira precária
se alíviou suspirando.
Quando terminou ficou ao lado do Olav depois de deixar cair suas saias—
Terminei.
O homem sorriu e a agarrou pelo braço. Ia levá-la de volta quando Maisey
olhou às mulheres.
— Cadela viking! — Sussurrou uma com ódio.
Maisey se esticou e antes de que Olav se desse conta, atirou-se sobre ela
agarrando seus cabelos. Olav balançou os braços um pouco surpreso.— Por
todos os Deuses! O que está fazendo?
A aldeã tinha as mãos atadas e tentava tirar Maisey de cima enquanto gritava
como uma louca. As outras se atiraram sobre ela para ajudar a sua
companheira e Maisey gritou quando uma a mordeu no braço. A mulher
recebeu uma cotovelada na cara, enquanto que outra que a agarrava pelo
cabelo recebia um murro na cara.
— Parece que não se dá bem com ninguém. — Disse Sorem divertido atrás
dela em seu idioma.
— Estará louca?— Perguntou Tage.
Ela agarrou as pernas de duas jogando-as no chão de costas, enquanto dava
um chute no estômago de outra para que lhe soltasse a perna.
— Já basta!— Gritou Roald esticando a mão e agarrando as costas do seu
vestido puxando-a para trás, fazendo com que caísse sentada no chão. Feito
que elas aproveitaram para atirar-se em cima dela tombando-a de costas.
— Espera, Roald. — disse Sorem — Quero ver como sai desta.
Maisey agarrou as cabeças de duas que estavam sobre ela, golpeando uma
contra a outra. Enquanto caíam no chão se sentou agarrando pelo cabelo
uma que a segurava na perna lhe acertando com o joelho na cara.
— As separe antes de que fiquem irreconhecíveis— Disse Thorbert.
— Um pouco mais. — Pediu Sorem vendo como se levantava e dando um
chute em uma delas no estômago atirando-a ao chão ao lado da menina, que
as olhava com os olhos arregalados. Ao ver a menina se deteve, mas outra se
aproximou pelas costas tentando enforcá-la com as cordas. Ela segurou seus
pulsos se dobrou de repente girando-a, fazendo-a gritar de dor quando caiu
no chão de costas.
— Basta!— Roald a agarrou pelo braço e empurrou ela até o buraco — Só
pode ficar amarrada e acaba de ganhar outro dia sem comer!— Furioso a
jogou dentro e ao cair Maisey machucou o tornozelo. Roald desceu os degraus
e a agarrou pelo pulso arrastando-a por toda a adega até chegar ao grilhão —
A partir de agora não sairá!— Gritou ele fechando o grilhão ao redor de seu
pulso — E sorte tem de que não me livre de você!
Saiu da adega deixando-a jogada no chão de barriga para baixo com a mão
estirada para a parede e quando escutou que fechava a porta gemeu de dor.
Aproximou-se da parede, presa pela mão contrária e tentou colocar-se
confortável com o braço passando pelo peito. Ela curvou-se e pela primeira
vez desde que a tinham pego chorou. Sentia-se tão sozinha. Desde que sua
mãe tinha morrido Raio sempre tinha estado a seu lado, mas agora estava
totalmente só para que esse viking fizesse o que quisesse com ela. As
lágrimas correram por suas bochechas sem poder as evitar e furiosa se
limpou com o braço que tinha diante do rosto sabendo que nessa posição não
podia ficar muito tempo. Apalpou o chão até chegar à lateral esquerda e
suspirou quando se deu conta que eram peles. Ela levantou mancando e
comprovou até onde chegavam. Felizmente não chegavam até o teto, apenas
até sua cintura. Se deitasse deixando o braço para baixo chegaria ao grilhão?
Levantou o braço e se deu conta de que sim. Sorrindo deitou-se de costas
deixando o braço direito fora de sua improvisada cama. Ao final ia estar mais
confortável que essas bruxas. Cobriu-se com várias peles e suspirou
contente. Esse viking era idiota.
Poderia ter dormido como nunca se não fosse pelo pulsar de dor em seu
tornozelo. Tinha sede e com tudo o que tinha passado não lhe tinham dado
água. Quando despertou, decidiu levantar-se e apoiada nas peles esteve um
momento olhando a seu redor, então viu algo. Era uma pequena abertura no
fundo da adega que deixava passar um fio de luz. Sorriu porque ao menos
saberia se era de dia. Escutava passos acima, mas eram leves. Sobressaltou-
se ao ouvir como abriam a porta e se sentou rapidamente afastada das peles.
— Aqui tem este balde para se aliviar — Disse Olav quando chegou até ela—
E água. — deixou uma jarra de água no chão e ela a agarrou impaciente.
Olhou enquanto ela bebia. Olav a observava com os braços cruzados —
Comportou-se mal, pequena. Roald está zangado.
Ela engoliu baixando a jarra e fez uma careta antes de beber outra vez. Olav
sorriu— Briga bem… Quem te ensinou?
Esta há dois dias sem falar fazia com que falasse com qualquer um.
— Minha mãe.
— Deve ser uma mulher incrível.
— Era. Morreu faz um ano. — Disse entregando a jarra que estava vazia
— Por que essa mulher te chamou de cadela viking?— Maisey prendeu o
fôlego olhando seus olhos marrons. — Me parece que Roald vai ter muitas
surpresas contigo, verdade?
Negava-se a dizer algo mais e Olav sorriu— O menino não vê o que vejo.
— E o que vê?
— Vejo uma rainha. — Maisey apertou os olhos— Uma rainha viking.
— Está louco! — Disse com desprezo.
— Não creio. Assim que te vi se atirar do navio soube que não era uma
mulher normal como essas que há aí acima. E escutei o que dizem os
meninos de sua forma de lutar. — Aproximou-se dela agarrando a jarra — E
fala meu idioma.
Maisey empalideceu— Não é verdade.
— Vi que entendia o que diziam de você, embora tenha dissimulado bem. –
Olav sorriu— Fique tranquila, não direi nada. Vou me divertir vendo os
acontecimentos. — Ela suspirou aliviada.— Mas eu se fosse você diria,
porque se não vai sofrer muito no caminho. Tem fome?
— Que pergunta mais tola.
Olav pôs-se a rir — O confirma cada vez que abre a boca. Esse orgulho. É
orgulho viking.
— Fecha a boca!
— Farei-o, pequena. Farei-o.
Voltou-se saindo da adega muito rápido para o gosto de Maisey que não
queria ficar às escuras outra vez.
Fazer suas necessidades no balde implicava cheirar seus resíduos todo o dia.
Mas isso não era o pior. O pior era que seu estômago doía de fome. Estava há
três dias sem comer porque o dia de sua captura tampouco tinha comido
nada. Sentia-se débil e sem forças. E iria ficar pior a medida que avançassem
os dias. E segundo Roald ainda ficaria dois dias sem comer. A dor do
tornozelo tinha diminuido um pouco, mas não podia apoiar o calcanhar.
Abraçando o estômago com um braço se sentou esperando que passassem as
horas. Essa noite deitou nas peles quando começou o temporal. O navio
balançava muitíssimo e embora tentasse evitar, começou a enjoar. Não tinha
nada no estômago e os vômitos fizeram doer a garganta do esforço. Um forte
movimento que fez ranger o navio, lançou-a fora de sua cama atirando-a ao
chão. Gritou de dor quando seu braço se retorceu por estar preso na parede.
Sorte não haver-lhe quebrado. Encontrava-se tão mal que ficou deitada no
chão com o braço estirado enquanto o ruído da tempestade a rodeava.
Um toque em sua coxa a fez gemer e ao tentar levantar o pescoço, voltou a
fazê-lo ao sentir que uma dor atravessava suas costas.
— Já não é tão dura né?— Perguntou Roald divertido abrindo o grilhão — Por
todos os Deuses está dormindo na urina?
Levantou-a agarrando-a pelas axilas — Olav!
— Diga, chefe.
— Que uma das de acima limpe aqui!— Disse arrastando-a até a escada.
Levou-a pra fora deixando-a cair no chão. — Joguem baldes de água nela.
Maisey estava muito enjoada e seu estômago parecia que ia sair por sua boca
em qualquer momento. Doía-lhe o ombro e o tornozelo. Deitada no chão, nem
se moveu quando jogaram um par de baldes de água em cima dela.— A
matou? – Perguntou Sorem indignado.
— Ontem não estava assim. — disse Olav preocupado. — Bebeu a água.
Um joelho ficou diante de seu rosto.— Faz quanto tempo que não come?—
perguntou Roald afastando seu cabelo de sua cara.
— Não comeu desde que chegou. — Disse Olav rapidamente.
— Sério? Já são quatro dias — Disse Tage.
— Temos que alimentá-la. — disse Roald como se fosse um incomôdo — Viu
seu cabelo?
— É mais claro ainda. — Disse Sorem — Ficará mais claro?
— Comprovemos qual é sua cor— Disse Olav divertido.
Levantaram-na e ela gemeu quando jogaram sua cabeça para trás colocando
seu cabelo em um balde de água. Alguém massageou seu cabelo e ela abriu
os olhos. Roald observava a água.
— Troca a água. — Disse irritado.
Olav voltou a colocar o balde sob sua cabeça e Roald seguiu lhe lavando o
cabelo.
— Incrível— sussurrou Sorem — É dourado como o sol.
— Agora sim está apaixonado. — disse Tage.
— Você quem disse isso. Chefe sobre isso, quando vai dá-la pra mim?
— Cala a boca. — disse Roald muito tenso olhando os fios de seu cabelo entre
seus dedos. Levantou a vista e a olhou aos olhos — Leve-a pra baixo.
— Outra vez?— Protestou Sorem— Ao menos lhe dê comida antes de levá-la.
Está pálida.
— Olav, leve algo de comer pra ela.
Olav a pegou nos braços e seu comprido cabelo quase roçava o chão. Todos a
olharam enquanto seu homem a levava.
— Ela vai se recuperar, certo?— Perguntou Thorbert preocupado.
— Querem fechar a boca?— Gritou Roald olhando-os furioso.
Olav a levou à adega apoiando suas costas contra a parede — Em seguida te
trarei algo de comer. — Disse o homem prendendo a mão correta à parede —
Tem que recuperar as forças.
Capítulo 3

Maisey dormiu, molhada como estava, esgotada pela má noite que tinha
passado. Quando despertou uma enorme pele a cobria e surpreendida a
olhou durante uns minutos. Ao olhar a seu redor viu um prato de comida.
Carne seca, um pouco de queijo e pão. Esticou a mão e começou a comer
devagar para o caso de sentir-se mal. Felizmente seu estômago deu uma
pausa. Comeu tudo e quando terminou, bebeu a água que tinha na jarra.
Depois de umas horas abriram a porta e ela não se moveu esperando que
fosse Olav levando mais água. Fez uma careta quando viu as botas de Roald.
Agachado se aproximou dela e quando a olhou nos olhos apertou os lábios—
Parece que não me livro de você.
— Mas quis, viking pulguento. — Disse ela com raiva.
Ele sorriu meio de lado e ajoelhou uma perna na frente dela. Então Maisey
viu os arranhões em seu peito. Ela os fez na água e sentiu satisfação ao vê-
los. Esperava que infeccionassem nesse asqueroso.
— Então ainda quer briga. — Sussurrou ele esticando uma mão e agarrando
uma mecha de seu cabelo. Agora que estava seco era ainda mais claro e ela
moveu a cabeça para que o soltasse. Roald lhe deu um puxão e Maisey ficou
quieta — Parece que vai ser sempre assim. Terei que te dar lições
contínuamente para que aprenda. — Acariciou a mecha entre seus dedos—
Como a seda do Oriente.
Maisey o olhou com ódio e Roald a agarrou pelo queixo— Como se chama?
— Não te interessa.
— Posso mudar seu nome. — Disse olhando-a aos olhos— Chamarei você de
Neza.
— Te apodreça.
— Não me provoque Neza ou terei que acariciar com força esse traseiro tão
suave que tem.
Maisey se ruborizou intensamente e ele a olhou divertido — Como te chama?
— Maisey.
Quase pareceu surpreso que respondesse. — Bem Maisey, se comportar-se
bem te deixarei passar o dia fora a partir de amanhã. — Ela não disse nada e
ele sorriu— Vai aprendendo.— Aproximou-se dela mais e roçou brandamente
seus lábios com os seus.
Maisey ficou sem fôlego quando seu estômago deu um salto e acreditou que a
comida voltaria a fazer mal— Afaste antes que eu vomite! — Disse ela com
fúria.
Roald semicerrou os olhos e apanhou o lábio inferior dela chupando com
força enquanto o acariciava com a língua. Ela arregalou os olhos
surpreendida pelo que sentiu e sem querer abriu a boca. Aprofundou o beijo
sujeitando com sua outra mão a nuca, Maisey sentiu falta de ar quando
acariciou sua língua. Assustada pelo que estava sentindo levou sua mão livre
a seu cabelo negro puxando com força, mas Roald não a soltou aprofundando
suas carícias e fazendo-a gemer. Separou-se dela e a olhou com seus olhos
verdes entrecerrados. Maisey suspirou abrindo os seus lentamente ainda
envolta em uma neblina confusa.
— Não parece que vai vomitar. — Disse ele soltando-a e lhe dando as costas.
Maisey gostaria de dar um chute no seu traseiro. — Cão pulguento. — Disse
com a voz rouca— Espero que um raio o acerte!
A risada de Roald o acompanhou até a saída. Para sua surpresa deixou o
alçapão aberto— Te furarei com minha adaga me ouve? Suplicará por sua
vida!— Gritou furiosa!
— Parece que está melhor. — Ouviu Sorem dizer.
— Amanhã ninguém vai suportá-la. — Respondeu Roald divertido.
— Arrancarei sua língua!
— Vê?
Afastaram-se da porta para frustração de Maisey. Quando escureceu Olav lhe
entregou uma jarra — Me alegro te encontrar melhor. — Ela fez uma careta
fazendo-o rir.
— Por que não me solta e te demonstro o quanto estou bem?
Olav aparentou horror e a fez rir. O homem a olhou maravilhado e pigarreou
quando perdeu a risada por sua expressão — Boa noite, princesa.
— Boa noite, Olav.
À manhã seguinte Olav a soltou— Pode passar o dia fora. Mas se comporte
bem.
Revirou os olhos fazendo-o rir. Ao ficar de pé se deu conta de que quase não
mancava e o ombro já não a incomodava.
— Pode levar a pele se quiser.
— Não, obrigada. — Respondeu com um sorriso — Agora não tenho frio.
Saiu sem esperá-lo e ficou no convês olhando a seu redor. A primeira coisa
que fez foi levantar a vista pra o céu e se deu conta que quase era meio-dia.
Olav a observava sonrrindo.— Pode se sentar em um desses tonéis. — Eram
onde se sentavam os homens pra conversar e quando os procurou os viu
olhando às mulheres. Entrecerrou os olhos — O que querem?
— Estão interrogando-as a respeito de você. — Disse divertido— Você os
intriga.
Foi para os tonéis e sentou-se. Pelas costas de Roald se deu conta que não
conseguiam o que queriam saber. Ela olhou nos olhos da mulher que dias
antes a tinha chamado viking e fez um gesto no pescoço indicando que se
falasse a mataria.
A mulher empalideceu e Roald se voltou para fulminá-la com o olhar —
Maisey!
— Sim?
— Vem aqui!
Ela apertou os olhos e cruzou os braços.— Não!
— Por todos os raios!— Sussurrou Olav— Vá lá!
Roald cerrou os olhos enquanto Tage a olhava como se estivesse louca e
Sorem sorria.— Move seu traseiro até aqui!
— Não!— Gritou olhando-o do tonel.
Olav gemeu a seu lado — Está louca.
— Caso não venha, aguentará às consequências!
Ela olhou entediada. Sorem e Thorbert puseram-se a rir
— Silêncio!— Gritou Roald aproximando-se dando grandes passadas até ela.
Ali sentada sobre o tonel parecia quase frágil rodeada de seu longo cabelo
loiro. Ele apertou os lábios ao ficar diante dela — Ou você vem ou eu te levo.
— Por que tenho que ir?
— Não me encha a paciência, Maisey.
Como se estivesse fazendo um favor desceu do tonel enquanto Tage a olhava
como se estivesse louca e seus amigos riam.
Ficou diante das mulheres e cerrou os olhos as olhando uma por uma— Do
que a conhecem?
As mulheres olharam pra Maisey com temor e ela cruzou os braços satisfeita.
— Respondam! Não vai acontecer nada com vocês!— Gritou Roald fora de si
ao dar-se conta que não abriam a boca.
— Isso não ajuda, Roald. — Disse Sorem divertido.
— Não tem graça.
— Está claro que a temem.
— Muito observador, Tage. — Disse Roald agarrando-a pelo braço para olhar-
la de frente— Quem é?
— A que vai arrancar sua língua. — Disse calmamente.
— Pelo Thor, esta mulher é impossível! — Disse Tage.
— Me parece maravilhosa.
Roald fulminou Sorem com o olhar antes de voltar-se para Maisey — Por que
te temem? Quem te ensinou a brigar?
— Aprendi quando era pequena. — Disse começando a divertir-se.
— Sua mãe a ensinou. — Disse uma delas com ódio— Era uma megera como
ela.
Maisey se esticou levantando o queixo e girou a cabeça lentamente.— Volta a
falar de minha mãe, puta e esparramarei seus intestinos pelo convês.
A mulher empalideceu baixando o olhar e todos a olharam com admiração.
Inclusive Roald — Uma mulher nos disse que onde você vivia, estava a
mulher que procurávamos.
— Que mulher?— Perguntou fazendo-se de tola.
— Uma mulher de cabelo castanho com menos de quarenta anos. Era sua
mãe?
— Minha mãe era loira. — Disse mentindo descaradamente. Nenhuma das
mulheres abriu a boca e Maisey sorriu abertamente. Sabiam que ela estava
desamarrada e qualquer descuido podia as matar rapidamente.
— Por que a odeiam?— Perguntou Tage.
— Viu-a, homem? Parece idiota!— Disse Sorem com admiração — É a mulher
mais bela que já vi.
— Sorem, fecha a boca antes de que eu a feche pra você!— Roald estava
furioso.
Seu amigo cerrou os olhos e fez uma careta. Olav soltou uma risada e piscou-
lhe um olho. Não acreditava uma palavra sobre ser a mulher mais bela que já
tinha visto, embora Maisey nunca tenha se olhado em um espelho, só tinha
visto seu reflexo na água do rio. Realmente seria bonita? Olhou nos olhos de
Roald que apertou seus braços antes de perguntar— Por que lhe odeiam?
— Não sei. Odeiam-me a vida toda.
— Cadela mentirosa! — Sussurrou uma delas fazendo Roald esbofear Maisey
atirando-a no chão.
— Isso é para que não minta pra mim!— Agarrou-a pelo cabelo e voltou a
levantá-la— Por que lhe odeiam?
Ela levantou o queixo e cuspiu em seu rosto, recebendo outro golpe na outra
bochecha acabando no chão outra vez.
— Por todos os Deuses! Diga-lhe! Gritou Olav.
Nesse momento alguém assobiou e ela fechou os olhos ajoelhada no chão.
— Um navio do Rutger!— Gritou Thorbert passando por ela e agarrando uma
enorme espada. Os homens agarraram suas armas olhando pelo flanco do
navio e ela se levantou lentamente acariciando a bochecha. Um navio viking
se aproximava deles a toda velocidade. Surpreendida se deu conta que não
fugiam deles, mas sim lhes esperavam para lutar. Roald se voltou e a olhou
com os olhos entrecerrados — Maisey, desça à adega!
— Não. — Cruzou os braços— Me dê uma arma.
— Está louca, mulher? Para que me acerte pelas costas. Vá pra adega!
Podia entender a lógica de seus pensamentos. Olhou sobre seu ombro às
mulheres e antes que alguém reagisse deu um murro na que tinha chamado
sua mãe de megera deixando-a sem sentido. Roald revirou os olhos — À
adega!
— Está bem…— Disse zangada olhando o navio que se aproximava. Via-se ao
menos dez pessoas no convês.
— Superam vocês em número…
— À adega!
Então ela se deu conta de algo, não sabia se esses homens que vinham eram
amigos de seu pai ou inimigos, como tampouco sabia se Roald era, embora
parecia que procuravam a sua mãe. Pensou nisso rapidamente olhando o
navio que se aproximava. Tinha que decidir-se e olhou nos olhos do Roald—
Já vou!— Protestou zangada indo para o buraco.
Quando desceu fechou a porta, mas voltou a abrir— E se te matarem?
— Então matarão você também.
— Isso não é justo!
— A vida não é justa. Fecha a porta!
— Uma adaga… pequena.
Olav começou a dar gargalhadas e Sorem o seguiu.
— Maisey!
— Tomara que tenha aprendido a brigar, porque comigo não soube fazê-lo!—
Gritou antes de fechar com força.
As risadas dos homens a fizeram fazer uma careta — Se tivesse meu arco—
Sussurrou olhando a seu redor. Começou a procurar com o que defender-se e
revirou os olhos quando encontrou várias armas em um canto. — Homens
estúpidos! — Um golpe no navio por pouco não a derrubou ela agarrou uma
pequena espada colocando-se junto à escada.
Ouviram-se gritos ensurdecedores no piso de cima e os sons das espadas ao
chocar umas com as outras. Cerrou os olhos quando ouviu que algo caía e
sentiu medo. E se fizessem mal a ela? Era a única possibilidade de encontrar
seu pai. Os olhos do Roald furiosos apareceram em sua mente e sentiu medo.
Se os matassem, podia acabar como escrava em qualquer aldeia do norte,
submetida por algum tirano. Ao menos conhecia o Roald e o que ele fazia não
era tão terrível. Subiu vários degraus sem dar-se conta e abriu o alçapão para
olhar. Os homens lutavam bem e eram quase o dobro que eles. Viu que Olav
estava em dificuldades contra dois homens muito mais jovens que ele. Sem
pensar abriu a porta e um que estava lutando com o Thorbert a olhou com a
boca aberta. Aproveitando o amigo do Roald lhe perfurou o estômago. Maisey
se aproximou por detrás dos que acossavam Olav e golpeou o interior do
joelho de um deles fazendo-o cair enquanto atravessava com a espada as
costas do outro. Deu um salto para trás quando o do chão tentou alcançá-la
com a espada e Olav lhe atravessou o peito — Princesa. — Disse o homem
com a espada ensangüentada no alto — O que te disse Roald?
Encolheu os ombros e ouviu o grito de fúria de Roald. Girou com um pulo
para ver que seu captor lutava com um homem enorme e estava ferido de
lado. Não era grave, apenas um arranhão, mas ela cerrou os olhos furiosa
dando um grito de guerra que punha os cabelos em pé. Os homens
surpreendidos se voltaram para ela e com a espada na mão fez um arco
cortando a cabeça do que estava mais próximo.
— Por todos os Deuses! — Sussurrou um deles dando um passo atrás
enquanto a cabeça de seu inimigo caía diante de Maisey.
Tage aproveitou para matar outro que estava distraído e a luta recomeçou.
Sorem acabou com os que tinha na frente e ela se aproximou de Roald
furiosa— Por que não o matas de uma vez?— Via-se a distância que era
muito superior a seu inimigo.
O viking a olhou como se fosse um demônio antes que Roald lhe rachasse o
peito de cima abaixo. Roald se voltou para ela e a agarrou pelo braço— Não te
disse que esperasse lá embaixo?
— Olav necessitava de ajuda! — Gritou-lhe na cara.— Tem que proteger seus
homens mais fracos! Não se divertir enquanto isso!
— O que sabe você de proteger homens?
— Parece que mais que você!— Um gemido a fez olhar pra o chão e ela
chutou a cara do que gemia deixando-o sem sentido.
— Pelo Thor, quem é você?— Roald estava atônito — À adega!
Ela levantou a espada colocando-lhe sob o queixo — Me obrigue.
Olav gemeu — Princesa, não faça isso!
Os homens os rodearam e Roald sorriu lhe alterando o sangue— Quer lutar
comigo?
— Se ganhar, deixará-me livre assim que chegarmos. — Disse olhando-o nos
olhos — Dará sua palavra.
— E se eu ganhar?
— Se você ganhar... — Pensou— Colaborarei.
— Dá-me sua palavra?
— Sim.
Roald fez um rápido movimento tentando tirar sua pequena espada, mas
Maisey deu um salto para trás ficando fora de seu raio de ação— Tirem os
cadáveres. — Disse Roald começando a divertir-se. Os homens pegaram os
corpos atirando-os pela amurada enquanto Roald e ela caminhavam em
círculo.
— Não lhe faça mal, Roald. — Disse Sorem preocupado.
— Vai ser ela quem chutará seu traseiro. — Disse Tage divertido sentando-se
no parapeito para observar.
— Não é justo, ela veste saias e é mais difícil lutar assim. — Apontou Olav
preocupado.
— Você observa. — Disse Tage sem perder nenhum detalhe.
— Preparada?— Perguntou Roald olhando-a nos olhos.
— E você?
Roald atacou e ela se agachou, a espada passou por cima dela. Apoiando-se
na mão livre estirou a perna com força e lhe deu um golpe no tornozelo que o
fez cambalear-se e escorregar pelo sangue no chão caindo sobre seu joelho.
Roald grunhiu enquanto os homens riam. Maisey lhe atacou com a espada,
mas ele facilmente rebateu o golpe com sua enorme espada levantando-se de
um salto. Sua força era incrível e quase derrubou sua espada.
— Sou muito mais forte que você, Maisey. Tem que ser rápida. É sua única
opção.
Surpreendeu-a que ele desse conselhos e se lançou sobre ele como se fosse
um carrapato atirando-o de costas e colocando sua espada sob seu queixo—
Dizia?
Os homens puseram-se a rir, mas ele soltando sua espada a segurou pela
cintura girando-a de costas e retorcendo sua mão lhe pôs sua própria adaga
na garganta. Foi tão rápido que ela perdeu o fôlego com seu peso distraindo-
se. Estava totalmente imobilizada e ele sorriu— Ganhei.
Para surpresa de todos que esperavam ouvir seus gritos, Maisey pôs-se a rir
deixando-os com a boca aberta. Roald a comeu com os olhos e ela prendeu o
fôlego— Não.
— Sim. — Afastou a pequena espada e a levantou sem nenhum esforço.
Agarrando-a pelo pulso a levou até o alçapão enquanto os homens golpeavam
o chão com os pés. Olav sorriu de orelha a orelha e Maisey se ruborizou —
Desça. — disse ele com voz grave.
Ela tinha dado sua palavra e endireitou as costas levantando o queixo
passando na frente dele. Quando chegou embaixo ficou nervosa vendo-o
descer as escadas. Deixou a porta aberta para ter luz e caminhou para ela.
Maisey deu um passo para trás e logo outro até chegar nas peles.
— Tire o vestido.
— O que?— Na vez anterior não precisou fazê-lo. Apertou as mãos nervosa.
— Tire se não quiser que eu arranque isso, Maisey. — Os olhos de Roald não
mentiam e ela agarrou o vestido pelo quadril tirando-o.
— Isso também. — disse mostrando a camisola.
Ruborizada tirou ficando totalmente nua diante dele. Nervosa porque não
dizia nada, levantou os olhos e ele se aproximou— Não seja tímida. — Disse
com voz rouca olhando seus seios — É tão bonita que dá medo.
Maisey sentiu calor na boca do estômago e seus mamilos endureceram com
seu olhar. A mão do Roald chegou até seu seio sem tocá-lo e ela prendeu o
fôlego. O esfregar de seu dedo polegar em seu mamilo a sobressaltou e o
olhou nos olhos — Preciosa…— Sussurrou ele antes de que sua mão
acariciasse seu seio. As sensações que a percorreram a fizeram fechar os
olhos e quando sua outra mão tocou sua cintura, gemeu sem poder evitá-lo.
Suas mãos percorreram seu corpo acariciando suas costas até chegar a sua
nuca e quando sentiu os lábios de Roald sobre os seus não pôde evitar
responder com desejo. Roald aprofundou o beijo abraçando-a e gemeu dentro
de sua boca ao sentir seu torso contra seus seios, abraçando seu pescoço
para prender-se a ele. Nem se deu conta quando a deitou sobre a pele. Roald
abandonou sua boca para acariciar com seus lábios seu pescoço lhe dando
suaves beijos que a deixavam louca. Descendo por seu seio, gritou
surpreendida quando lambeu um de seus mamilos antes de meter-lhe na
boca e chupar com força. Maisey arqueou as costas necessitando mais e
voltou a gritar ao sentir sua mão acariciando-a entre as pernas. Cravou as
unhas em seus ombros sentindo que algo se esticava em seu interior e gritou
estremecendo-se de prazer quando Roald mordiscou seu mamilo.
Esgotada abriu os olhos e Roald estava sobre ela olhando-a muito sério,
segurando-a em seus braços— Cerque-me com suas pernas. — Sussurrou
antes de beijá-la. Sentindo-se maravilhosamente ela fez o que pedia e gritou
dentro de sua boca quando entrou nela com um forte empurrão. Ele segurou
seu quadril saindo dela brandamente para voltar a entrar com força fazendo-
a gritar de prazer. Olhou-a nos olhos antes de repetir o movimento e Maisey
arqueou seu pescoço para trás sentindo que morria de prazer. Segurou em
seus ombros enquanto Roald beijava seu pescoço continuando seus
movimentos com força, até que com uma última estocada a fez gritar
lançando-a em um mundo maravilhoso.
Com a respiração ofegante, Roald se levantou olhando-a deitada no chão
tentando recuperar-se— Vista-se.
Ela abriu os olhos ainda atordoada pelas sensações que ele tinha
proporcionado nela e gemeu de vergonha porque tinha desfrutado delas.
Voltando para a realidade se sentou sobre a pele e esticou o braço para pegar
sua camisola. Roald se agachou a seu lado e a agarrou pelo cabelo erguendo
seu rosto.— Lembre de sua promessa, Maisey. Não me faça ter que lhe
recordar isso.
— Recordo minhas promessas. — Disse entre dentes movendo a cabeça para
que a soltasse.
Ele a agarrou mais forte e a beijou nos lábios com rudeza machucando-a— Se
algum dia te encontrar com outro homem, te mato.
Olhou-a nos olhos e soube que cumpriria sua promessa. Roald a soltou,
erguendo-se saiu deixando-a sozinha. Maisey ficou olhando por onde ele foi e
cerrou os olhos.— Não vou ficar, viking. — Sussurrou para si.— Prometi que
colaboraria, não que ficaria.
Ela ficou na adega o que restou do dia e estava deitada sobre as peles quando
escutou que alguém descia pela escada. Virou sobre o monte de peles para
ver Roald aproximando-se. Ficou de barriga para baixo e apoiando-se nos
antebraços olhou-o se aproximar. A verdade é que era bonito. Admirou seu
peito e seu pescoço. Seu quadrado queixo e sua boca. Recordando o que fez
essa boca ruborizou, assim olhou seus olhos. Não parecia estar de mau
humor.
— Maisey.
— Sim?
— Está confortável?
— É uma pergunta com armadilha?— Perguntou desconfianda.
— Essas peles são para vender antes de chegarmos em casa.
— E?
— Não deveria dormir em cima.
— E a que usamos antes?
— Essa é minha. — Disse agarrando a que tinha nos braços para tirá-la.—
Como você.
— Eu não sou sua. — Disse segurando em seus ombros.
— Claro que é! É minha escrava. É de minha propriedade. — Deitou-a sobre a
pele no chão e se deitou a seu lado pegando uma mecha de seu cabelo.
— O que está fazendo?— Perguntou puxando a mecha de sua mão.
— Nada. — Parecia surpreso com sua atitude e não entendia a razão.
Ela virou as costas pra ele franzindo o cenho. O que acontecia com esse
homem? Uns minutos depois ao ver que não se movia olhou sobre seu ombro
— Vai dormir aqui?— Continuava olhando-a apoiado em seu antebraço— Por
que não dorme em cima com seus homens?
Ele levantou uma sobrancelha e voltou a pegar uma mecha de seu cabelo. Ela
puxou novamente sentando-se sobre a pele. Olhou-a divertido— Está
incômodada ao lado de um homem, certo?
Que tipo de pergunta era essa? Ele sabia que era virgem antes de que a
tocasse. Roald entendeu sua expressão— Me refiro a não estar acostumada a
te relacionar com homens.
Ruborizou-se ligeiramente porque tinha razão. Sempre que se relacionava
com eles era para lhes golpear ou para defender-se.
— E daí?— Disse na defensiva.
— Não tem pai ou irmãos?
— Já te disse que meu pai te mataria, então sim, tenho pai. — Disse irritada
voltando a dar-lhe as costas.
— Mas não o conhece, certo?
— O que você sabe? Conheço-o muito bem. — Disse com raiva.
— E como ele é?
— É forte e alto. Seu cabelo é dourado.
— Como o seu. — Sussurrou ele tocando-lhe.
— Sim!
— Que mais?
— É um homem de honra e queria a minha mãe. — Ao ver que ele não dizia
nada continuou— Protegeu a minha mãe quando ela necessitou e a amou
muito. — Uma lágrima caiu por sua bochecha— Teve que ir embora. Mas
antes ensinou minha mãe a proteger-se sozinha.
— Foi muito longe?— Sussurrou ele.
Ela estreitou os olhos— E você, porque se importa? Ele teve que ir! É o
bastante.
Voltou a dar-lhe as costas e ele a olhou — Se conhece tão bem a seu pai
como se chamava?
Estreitou os olhos.— Por quê?
Ele rasgou a manga de seu vestido e mostrou o bracelete em seu braço— Seu
pai deu de presente isto a sua mãe?
— Você rasgou meu vestido!— Gritou indignada olhando seu braço. Estreitou
os olhos furiosa e com a palma da mão aberta acertou seu nariz— Rasgou
meu vestido!
Roald com a mão em seu nariz grunhiu.— Te conseguirei outro!— Disse
movendo seu nariz de um lado para outro.
— Não quero outro! Eu gostava deste!
— É um trapo!
— É meu trapo!
Olharam-se nos olhos furiosos e ele a agarrou pela nuca beijando-a
apaixonadamente enquanto ela abraçava ele quase com desespero. Roald
impaciente subiu seu vestido com toda pressa acariciando seu traseiro e
Maisey gemeu levando suas mãos às tiras de couro que seguravam sua calça,
colocando-se escarranchada sobre ele quando o liberou. Maisey se esfregou
contra ele impaciente e Roald gemeu lhe apertando as nádegas. Maisey se
afastou olhando-o nos olhos e se levantou ligeiramente para que entrasse
nela lentamente fazendo-a fechar os olhos de prazer. Apoiando as mãos em
seu peito deixou que guiasse seus quadris e entendeu o que tinha que fazer,
continuando enquanto Roald acariciava seus seios em cima de sua roupa.
Sentindo que necessitava muito mais, moveu-se sobre Roald mais rápido
acariciando seu torso enquanto se olhavam nos olhos. — Assim mesmo, você
faz muito bem! — Sussurrou ele levando uma mão a seu sexo para acariciá-
la. Maisey gemeu arqueando seu pescoço para trás movendo-se mais rápido
enquanto ele seguia acariciando-a. Sentiu que o prazer a atravessava
estremecendo e Roald a deitou de costas dando estocadas com força,
grunhindo contra seu pescoço.
Uns segundos depois se afastou deitando de costas e levando-a com ele.
— Aprende muito rápido. — Disse acariciando suas costas.
— Não é difícil. Agora você vai embora?
Roald riu e ela levantou a vista surpresa.
— Isso quer dizer não?— Ele continuou rindo e ela irritada se afastou dele
para lhe dar as costas outra vez.
— Por que usa esse bracelete?— Perguntou encostando em suas costas —
Era de seu pai?
— Por que pergunta tanto por ele?
Roald baixou a manga do vestido e ela soube o que estava olhando. Um
bracelete de ouro com um elaborado desenho de círculos entrelaçados e uma
pedra vermelha no meio. Era muito grande para ela por isso podia colocá-lo
no alto do braço.
— É que acredito que vi um parecido em algum lugar. — Sussurrou ele
tocando-o.
Maisey prendeu o fôlego. — Eu vi vários parecidos ao longo dos anos. — Disse
mentindo. Não tinha visto nenhum igual em seus dezessete anos de vida. Seu
trabalho era tão fino que era inconfundível.
Roald deixou cair a cabeça deitando de costas.
— Tem razão. Certamente vi um parecido porque seu pai não é Harald, certo?
Ela se esticou e voltou a olhá-lo.
— Quem é Harald?
— É nosso Jarl. — Ao ver que ela franzia o cenho, o esclareceu— Como nosso
chefe, nosso rei. Sua palavra é lei.
Maisey deixou cair o queixo surpresa. Seu pai era o rei desses homens? Era
uma brincadeira?
— Por que te surpreende tanto?
— Por isso seguem suas ordens de ir a meu povo e agarrar às mulheres?
Roald estalou a língua.— Tínhamos que vender as peles e outras coisas. Mas
aproveitou nossa viagem. Eu não queria fazer isso porque se tivermos má
sorte começará a nevar e dificultará a viagem.
— Vivem tão ao norte?
Ele sorriu divertido.— Vivemos no extremo norte. No inverno neva tanto que
quase não saímos de casa. — A cara de horror de Maisey dizia tudo e Roald
pôs-se a rir.— Acostumará.
— Por que procura essa mulher?
Roald parou de sorrir.— Não sei. Só me disse onde tinha que ir e procurar
uma mulher de uns trinta e cinco anos com o cabelo castanho.
— Não sabia seu nome?— Sussurrou.
— Na verdade me disse isso, mas estava tão zangado que não me lembro
bem, assim para abreviar pegamos todas as de cabelo castanho. — Disse
indiferente.— De toda maneira necessitávamos de mulheres. Faz dois anos
umas febres arrasaram a aldeia. Muitos homens dormem sozinhos.
— E não recorda nada de seu nome?— Perguntou impaciente.
— Começava pela letra A, acredito. — Ele estreitou os olhos. — Como se
chamava sua mãe?
Suspirou decepcionada.— Blair.
Roald assentiu e voltou a agarrar uma mecha de seu cabelo.— Não se
chamava Blair.
Estava enganada? Pensou vendo ele acariciar seu cabelo. Até agora tudo
encaixava, mas esse não era o nome de sua mãe. Suspirou deitando-se e
pensando nisso dormiu.
Capítulo 4

Despertou e ao olhar a seu lado viu que estava sozinha. Aliviada olhou o teto,
pois tinha deixado o alçapão aberto e havia luz. O que devia fazer agora?
Antes de lhe dizer o nome de sua mãe estava convencida de que Harald era
seu pai, mas agora já não estava tão segura. E se tudo aquilo não tivesse
nada a ver com ela? Pode ser que algum dos companheiros de seu pai
procurasse alguém. Mas sua mãe tinha o cabelo castanho e sua idade
coincidia com a mulher que procuravam. E se chamava Harald o homem que
a procurava. Tinha que ser seu pai. Roald estaria equivocado? Devia ser isso,
não prestou atenção ao nome de sua mãe. Sorriu levantando-se. depois de
usar o balde, tirou-o fora. Os homens estavam falando entre eles em seu
idioma e ela dissimulou levando o balde até a amurada para esvaziá-lo.
— E o que vai fazer? Porque quando souberem, as gêmeas vão te matar. —
Disse Tage divertido.
— Não vou fazer nada. — Respondeu Roald irritado. — Por que faria algo? Ela
é minha escrava. Como elas. Terão que acostumar.
Olav a olhou de esguelha enquanto Maisey se esticava. Tinha duas escravas
gemêas! Com certeza também compartilhavam sua cama.
— Pois verá quando sua mãe souber. — Disse Tage nesse momento. — Dirá
que é um libertino. Já disse isso quando levou as gêmeas. Agora o expulsará
de casa.
— Já é hora de fazer uma casa. — Disse ele olhando-a enquanto lavava o
balde. — Alguma me dará um filho e já somos muitos nessa casa de loucos.
Os homens puseram-se a rir divertidos enquanto que Maisey escondia seu
rosto ruborizado.
— Estranho é que as gêmeas não lhe tenham feito pai. — Disse Thorbert
divertido.
— Meu pai a primeira vez que me deu uma mulher, disse-me que não me
derramasse dentro.
Os homens riram a gargalhadas— E é capaz?
Maisey não entendia muito bem o que diziam e se voltou para eles fazendo-se
de tola.
— Tenho fome.
— Olav…— disse Roald com aborrecimento.
O homem se levantou e sorriu pra Maisey.
— Vem, princesa. Gosta de arenque?
— O que é isso?
Afastaram-se dos homens e a levou até um barril. Abriu-o e mostrou o que
era.
— É pescado?
— Prova-o. — Deu-lhe uma parte e de outro barril lhe entregou pão.
Aproximou-se dela e lhe sussurrou— Não se importe.
— Não entendo o que diziam. — disse antes de colocar um pedaço de pescado
na boca. Estava seco, mas gostoso.— O que não derrama? — Olav se
ruborizou.
— A semente, princesa.
— A semente?— perguntou com a boca cheia.
Olav ficou como um tomate. — É muito inocente.
Maisey o olhou confusa e Olav olhou os homens por cima de seu ombro. —
Roald está olhando. — Sussurrou. — O homem quando termina… — Passou
uma mão por sua espessa barba — derrama sua semente na mulher.
— Ah…— Disse ela entendendo— E ele não o faz.
— Tira seu membro antes. — Disse envergonhado como um menino metendo
um pedaço de arenque na boca.
— Comigo não.
Olav se engasgou e tossiu com força. Preocupada lhe deu vários tapas nas
costas.— Está bem?
Congestionado a olhou com os olhos lacrimejantes assentindo.
— Maisey!— Voltou-se para Roald que a olhava com os olhos cerrados.— Vem
aqui.
Caminhou para ele e os homens se dispersaram.
— O que quer?
Ele a agarrou pelo vestido aproximando-a dele. Mastigando seu café da
manhã o olhou nos olhos.— A partir de agora se encarregará das mulheres.
— O quê? Nem pensar!
Roald a sentou sobre seus joelhos e lhe disse ao ouvido. — Começam a estar
inquietas e não quero problemas, é melhor que você cuide delas. Dará-lhes de
comer e as acompanhará a aliviar-se.
— E por que você não faz isso?
— Muito engraçada! Lembra sua promessa?
Maisey estreitou os olhos pois ele tinha razão.— Está bem. — Tentou
levantar-se, mas ele a segurou pela cintura.
— Como dormiu?
Olhou-o surpreendida.— Bem…
— Certeza?
— Claro.
— Ontem choramingou.
Maisey se esticou. — Ah, sim?
— Sim.
— Pois estou bem.
Ele a observou atentamente.— Está bem. Vá fazer suas obrigações.
Levantou rapidamente e se afastou dele. Olav lhe deu o café da manhã das
mulheres e ela o levou. Várias a olharam com ódio, mas pegaram o pescado e
o pão que lhes deu. Depois deu água pra elas. Sorriu pra menina que
correspondeu embora depois olhou pras mulheres com medo e perdeu o
sorriso. Já tinham se aliviado antes de que ela chegasse, assim esperaria um
momento.
Essa foi sua rotina a partir daquele dia. Encarregava-se das mulheres de dia
e de noite se encarregava de Roald. A segunda tarefa era a mais agradável.
Depois daquele dia se fixou no que haviam dito os homens e Roald com ela
não o fazia. Isso a preocupou porque não podia ter um filho nesse momento.
Se Harald não era seu pai tinha que voltar para casa. Sentia falta do Raio.
Não havia dia que não lembrasse de seu cão. Esperava que estivesse bem.
Segundo os homens estavam tendo muita sorte com o tempo e esperavam
estar em casa em poucos dias. Isso a alíviou porque já estava farta do navio.
Fazia dias que navegavam através de um rio e desde seu encontro com aquele
navio não se encontraram com ninguém mais.
Uma manhã Roald despertou lhe movendo o braço.— Levanta, preguiçosa.
Estamos chegando ao Egersund.
— Chegamos então?— Perguntou sentando-se de repente.
— Aqui venderemos a mercadoria. — Respondeu ele antes de assobiar.
Os homens começaram a descer e a recolher coisas para levar ao convês. Ela
se levantou a contra gosto.
— Poderei descer?
— Não. — Grunhiu Roald agarrando um monte de pele em seus enormes
braços.
— Por quê?
— Assim irei mais rápido.
— Posso ajudar. — Sugeriu ela.
— Já disse que não!
Maisey apertou os lábios e pegou umas peles para ajudar sem protestar. Em
silêncio ajudou no que pôde e Olav a olhou preocupado.
— O que aconteceu, princesa?
— Não me deixa descer. — Disse enquanto deixava umas peles sobre a
enorme pilha.
— Alguém tem que ficar no navio e vigiar as mulheres.
Ela olhou a seu amigo— Você não vai ficar?
— Eu também. — Respondeu divertido.— Não vai fugir a menos que leve o
navio.
— Muito engraçado.
Olav pôs-se a rir e Roald estreitou os olhos. — Não têm nada que fazer?
Uns minutos depois passaram ao redor de uma montanha e Maisey ofegou de
assombro ao ver uma aldeia enorme. As casas situadas em um formoso vale
chegavam até ao pé das montanhas. Nunca tinha visto nada igual, embora
não seja estranho porque só tinha visto sua pequena aldeia.
Ao chegar o navio, ataram umas cordas ao embarcadouro. Maisey olhava
tudo com os olhos arregalados. Várias mulheres se aproximaram gritando e
rindo. Viu que alguém mostrava muito seus encantos abrindo o decote de seu
vestido.
— Roald, você voltou!— Disse a que mostrava os seios deixando Maisey
atônita. A raiva a invadiu e cerrou os olhos apoiando as mãos na amurada.
— Sentiu minha falta, preciosa?
Maisey voltou os olhos a Roald como uma mola e se aproximou dele furiosa.
— Quem é essa?
Os homens puseram-se a rir dando palmadas nas costas de Roald— São suas
amigas. — Disse Tage.
— Amigas! — Maisey parecia ter sido possuída. Não entendia o que lhe
acontecia, mas sabia que não queria que ele se aproximasse dessas…. dessas
putas.
— Você se encarrega das mulheres, nós voltamos logo. — Disse Roald muito
sério. — Não quero problemas, Maisey. Fica no navio.
— Vou contigo!— Não confiava que ele não se deitaria com alguma dessas ou
com todas.
— Ficará aqui!— Gritou-lhe ele. — E aguentará às consequências se não fizer!
Furiosa cruzou os braços e virou as costas pra ele com vontade de matá-lo.
Foi até a popa e se sentou sobre um barril vendo como baixavam a rampa e
descarregavam a carga. Viu-o descer pela rampa acompanhado de seus
amigos sem olhar atrás, enquanto as descaradas os seguiam rindo e
gritando. Olav a olhou com pena.
— Não me importo.— Disse ela zangada.
— Não deve preocupar-se. Será você que viverá com ele. — Ela levantou o
olhar e Olav se preocupou.— Não tente escapar, princesa. Roald fica com
muito mal humor quando se zanga.
Não respondeu a seu amigo. Levantou-se e foi olhar como estavam as
mulheres. Estava lhes dando água quando uma sussurrou— Nos deixe
escapar.
— Sim, vou te deixar escapar porque foi muito boa comigo. — Disse ela
divertida — Sorte sua que não disse pra eles que procuravam a minha mãe e
eles matassem todas vocês.
As mulheres ofegaram assustadas –Não, por favor.
Aproximou-se da menina e lhe deu água.— Como está, pequena?
— Bem.
— Não minta, doem-lhe os pulsos. — Disse uma das mulheres.
Preocupada se ajoelhou diante da menina que escondeu as mãos em sua
saia. — Me deixe ver.
A menina a olhou com desconfiança, mas depois de uns segundos levantou
as mãos. Tinha os pulsos em carne viva pela corda que as amarrava. Tirou-
lhe a corda e a menina tentava ser forte retendo as lágrimas.
— Pode chorar sabe? Não vou dizer a ninguém. — Sussurrou levantando o
vestido e rasgando sua camisola para lhe cobrir as feridas. A menina
levantou o queixo orgulhoso e ela sorriu— Assim que eu gosto. Que todo
mundo veja quão dura é.
— Como você?
Olhou surpreendida em seus olhos cor de mel.— Eu não sou dura.
— Pode com todos.
— Não é verdade. Sempre há alguém mais forte que você que pode te fazer
mal. Por isso tem que aprender a se defender para se livrar dos que
conseguir.
— Me ensinará?
— Quer aprender comigo? Há pessoas que sabem mais que eu.
— Você é a melhor. Na aldeia todos lhe temiam.
Sorriu encantada. — Seriamente?— Olhou às mulheres que desviaram os
olhos. Revirou os olhos e terminou de cobrir suas feridas — Pronto.
Pôs-lhe a corda menos forte para que não apertasse.— Como se chama?
— Tavie.
— Tavie, eu sou Maisey. — A menina sorriu. — Quer mais água?
— Eu sim. — Disse uma mulher a seu lado que devia ter uns vinte anos.
— Perguntei pra você?
— Não.
— Pois então. — Mostrou a chaleira à menina e voltou a beber.
Ia dar a volta, mas no final se voltou e estendeu a concha à mulher que
sorriu antes de agarrá-lo para beber ansiosa. — Agora se tiver vontades de se
aliviar terá que aguentar como todas.
— Sim, Maisey. — Respondeu submissa.
Depois de deixar a concha e o balde de água, voltou-se a sentar sobre o barril
olhando o povo. Olav se aproximou dela com algo de comer e ofereceu.— Não
tenho fome. — Sussurrou.
— Tem que comer algo. — Colocou a comida diante dela que aceitou com
relutância. — Por que é tão bom comigo?
Ele se sentou como ela em outro barril.— Não sou bom contigo. — Disse
surpreso — Te trato como se deve tratar uma mulher.
— Não trata elas assim.
— Elas não são vikings. — Disse como se isso o explicasse tudo.
Maisey olhou para o povoado.— Vai se deitar com elas não é verdade?
— Tem que entender algo, princesa. Poucos homens são fiéis e muito menos
se não amarem a sua mulher. Você é uma escrava porque quer. — Olhou
seus olhos azuis.— Se o que acredito é verdade, Roald não terá outra saída
que não seja casar-se contigo. Será sua esposa e te deverá respeito, mas se
não conseguir que te ame, não será fiel.
— Não quero que me ame. Voltarei para casa. — Resmungou ela mordendo a
carne seca.
Olav a observou comer— Não o fará, Maisey. Desde que te vi soube que tudo
tinha mudado.
— A que se refere?
— Entenderá quando chegarmos em casa. Vais ter muitas mudanças eu sei.
— Levantou-se e foi até o leme recolhendo uma corda que estava ali jogada.
Começou a enrolá-la em seu braço e Maisey encolheu os ombros. Não sabia o
que queria dizer, mas não se importava. Quando terminou de comer,
levantou para beber um pouco de água. Estava bebendo quando um homem
passou em frente ao navio e ficou olhando-a com a boca aberta. Ela baixou a
concha e confusa olhou para trás, mas ao ver que não havia ninguém voltou
a olhá-lo. Era loiro e muito alto. Trajava umas calças de pano verde e uma
camisa escura de uma cor indefinida.
— Como se chama?— Perguntou o homem na língua de seu pai. Ela olhou a
sua redor nervosa sem responder.— Não sabe minha língua?
Sentou-se na amurada do navio e seu longo cabelo loiro ficou balançando. O
homem se aproximou do cais.— Como se chama?— Perguntou mais perto.
Desta vez em sua língua materna.
— Maisey. — Sorriu ao poder falar com ele. Gostava como a olhava. Como se
fosse a mulher mais linda do mundo.
Ele sorriu e se deu conta de que tinha os olhos cinzas — Por que não desce e
falamos dando um passeio?
— Não posso descer. — Sussurrou olhando para trás. Olav devia ter descido à
adega porque não o via em lugar algum.
— Pois falamos assim. — Disse sorrindo abertamente. — Me chamo Sakeri.
— Encantada.
— É preciosa. — Ruborizou-se baixando o olhar— É casada?
— Não. — Disse levantando o olhar até seus olhos.
Ele pareceu o homem mais feliz do mundo e olhou a seu redor — Seus pais
estão no navio?
— Não. Por que quer saber?
— Eu gostaria de pedir sua mão. É maravilhosa e quero que seja minha
esposa.
Um torso apareceu atrás de Sakeri e ela levantou a vista surpresa. Ao ver a
cara de Roald furioso atrás de Sakeri se esticou levantando-se.
— O que me diz? Você gostaria de ser minha esposa? Posso cuidar de você
muito bem. Sou carpinteiro e ganho bem a vida. — Perguntou sem inteirar-se
de nada.
— Não vou poder. — Disse torcendo as mãos vendo que Roald estava a ponto
de estourar a veia do pescoço.
— Está comprometida?— Deu outro passo para ela ficando mais perto do
cais.
— Não, mas não posso. — Implorou com o olhar.— Tem que ir.
— Vamos preciosa, desça do navio e te convido a comer bolo.
— Não, obrigada. — Temia que Roald fizesse algo com ele. Estava furioso.
— Posso te apresentar a minha mãe e ela te convidará pra comer. — Disse
com um encantador sorriso.
— Ela já disse que não. — A voz grave do Roald fez que Sakeri se voltasse
surpreso. Depois sorriu com esperança.— É você um familiar dela?
— É minha, entende ou tenho que quebrar seu pescoço para que entenda?—
Deu um passo em direção a Sakeri, mas ele pareceu não entender.
— Sakeri, vai embora certo?
O homem a olhou sobre seu ombro — Não, não vou.
Ela gemeu vendo como Roald esticava o braço e o agarrava pelo ombro. — Te
dou uma oportunidade antes de arrancar sua cabeça.
Sakeri arregalou os olhos.— É solteira.
— Não, não é solteira. É minha. — Disse agarrando-o pela nuca e
aproximando-o dele— Repete comigo. É…
— É…
— Minha…
— Minha…
— Minha, não tua.
— Isso.
Roald levantou o olhar e estreitou os olhos soltando-o, fazendo que o pobre
caísse na água. Ela ofegou indignada aproximando-se da amurada e
comprovando se ele sabia nadar.
— Maisey!— Disse Roald entre dentes. — Desça à adega.
— Não desci do navio!
— Desça à adega!
— Não!
Ele se dirigiu para a rampa e ela cerrou os olhos — Desça à adega!
— Não!
Ao ver que subia a rampa furioso, ela caminhou para trás e suas costas se
chocaram com o mastro principal. Ela levantou o olhar e se agarrou uma
corda começando a subir. Roald correu para ela, mas não foi bastante rápido.
— Desça daí!
— Não!
Pessoas começaram a formar rodas no porto para vê-la. Subiu ao alto do pau
e se sentou com as pernas abertas no pau transversal onde estava enrolada a
vela.
— Maisey, se vê tudo!— Gritou furioso— Desça agora mesmo!
Ela olhou para baixo, só viam suas pernas até os joelhos e encolheu os
ombros.
— Princesa o que faz aí?
Olav a olhava com a boca aberta e ela protestou gritando. — Quer que eu vá
pra adega e não fiz nada!
Ao olhar para Roald se levantou furiosa e Olav levantou as mãos gritando.—
Sente-se, princesa!
— Não!
— Maisey, sente-se. — Roald se aproximou do mastro.
— Se você subir, caminharei por ele. — Disse dando um passo.
— Certo!— Disse pedindo calma com as mãos pra o alto. — Está bem. Não
me aproximarei.
Franziu o cenho. — Não estava fazendo nada.
— Estava falando com ele!— Roald estava muito zangado e ela deu outro
passo até o extremo— Maisey! Não se mova! Sente-se! Olav, vá procurar Tage.
— E onde ele está?
— Com alguma fulana! Busca-o!
Olav saiu correndo pela rampa e empurrou várias pessoas para poder passar.
Maisey com os braços em cruz olhou ao porto onde Sakeri a observava
encharcado.— Peça perdão a meu amigo.
— Está louca, mulher? Quando descer daí vou te dar uma surra que não vai
poder sentar por uma semana!
Ela deu outro passo pelo pau e Roald estreitou os olhos com os braços nos
quadris— Te advirto, Maisey. Se você cair, te mato!
— Que tolice. Se eu cair, morro de qualquer jeito.
— Se matará quando eu mandar!— Gritou fora de si.
Vários homens se aproximaram correndo e ela viu que eram a tripulação.—
Que raios aconteceu?— Perguntou Sorem assombrado subindo pela rampa.
— Tage, desçá-a
Tage olhou para cima. Era o mais ágil de todos e já tinha visto ele em uma
ocasião subido ali porque a vela não se desenrolou como deveria.
— Não é boa ideia, Roald. — Disse preocupado. — Se subir e ficar nervosa
pode cair.
— Peça perdão a meu amigo!— Gritou ela de cima.
— Nervosa? Tem os nervos de ferro! Sobe aí e desça ela de uma maldita vez!
— Não descerei até que peça perdão a meu amigo!
— Maisey, baixa céu! Falarei com seus pais e tenho certeza que permirá nos
casarmos!— Gritou Sakeri do cais fazendo com que ela corasse intensamente.
— Quem é esse idiota?— Perguntou Thorbert espantado.— O que está
dizendo sobre casamento?
Os homens do Roald ficaram em guarda olhando pra Sakeri — Ei, você! Se
não quer que eu quebre sua cabeça, saia daqui!— Gritou Sorem furioso.
Sakeri demonstrando uma coragem que ela admirou, gritou.— Ela quer casar
comigo! Não vêem?
Seus homens olharam pra Roald assombrados e ele ficou vermelho de fúria.
— Maisey!
— Sim?— Perguntou encantada olhando pra Sakeri com um maravilhoso
sorriso.
— Diga a este verme quem é seu dono.
Ela não disse nem uma palavra enquanto seguia olhando pra Sakeri que lhe
lançou um beijo enquanto os aldeãos lhe aplaudiam pelas costas.
— Maisey!
Olhou pra Roald como se estivesse farta e ele quase explodiu de fúria. — Por
todos os Deuses!
Olav a olhou com a boca aberta. — Princesa, desça daí antes que se
machuque.
— Machucar-se! Se não fizermos algo vai quebrar todos os ossos!— Gritou
Sorem.
Traga o machado. — Disse Roald fora de si.
Todos o olharam com a boca aberta.— Tragam o machado.
Tage se aproximou do enorme machado com lâminas curvas e o entregou a
Roald.
— Vai descer?
— Não!— Gritou ela furiosa.
— O que vai fazer? Está louco!— Gritou Sakeri do cais.
Roald agarrou o machado com as duas mãos e se aproximou do mastro—
Desça agora mesmo ou eu o derrubo.
E como chegariam a seu destino? Ela observou os homens que não pareciam
nada preocupados se seu chefe derrubaria o mastro.
— Não vão fazer nada?
— Não! — todos cruzaram os braços e sorriram para seu espanto.
Seu captor levantou o machado e várias pessoas gritaram enquanto ela se
sentava no mastro outra vez. O impacto fez que a vibração chegasse até ela e
gritou tentando segurar-se.
— Vai descer?
— Te apodreça!
O seguinte impacto a inclinou e se segurou à vela tombando seu peito sobre
ela enquanto se agarrava a uma corda com ambas as mãos. Várias pessoas
gritaram e Sorem agarrou Roald pelo braço.— Pare!
— É ágil como um esquilo. — Disse Roald entre dentes soltando-se agressivo.
— Desce ou derrubo o mastro.
— Vai matá-la!— Gritou seu amigo.
— É minha para fazer o que quiser com ela!
Essas palavras os deixaram sem fala e Maisey empalideceu ao dar-se conta
que não se importava com sua vida absolutamente. Não importava se morria
caindo do mastro contanto que prevalecesse sua opinião. Ela endireitou as
costas e se levantou sem dizer nada. Roald sorriu e a raiva a percorreu.
Então girou sobre o mastro e olhou o mar. Pôs-se a correr pelo mastro e se
lançou à água antes que alguém se desse conta do que ia fazer. Escutou os
gritos ao jogar-se de cabeça na água e nadou sob a água tão rápido quanto
pôde. Ao voltar à tona viu a distância que tinha percorrido. Três homens
estavam na água olhando para baixo antes de voltar a mergulhar e ela
apertou os lábios furiosa. Seguiu nadando enquanto ouvia como Roald e Olav
a chamavam. Deu a volta em uma curva e observou. Roald na água gritava
aos outros que a procurassem antes de mergulhar tentando encontrá-la.
Saiu da água e foi até o cais lentamente torcendo o cabelo. Alguns se
voltaram como se vissem um fantasma abrindo espaço pra ela subir pela
rampa calmamente. Aproximou-se de Olav que olhava a água de um lado pra
outro.— Não a vejo, Roald. Está se afogando!
— Tem que estar aqui!— Roald mergulhou novamente e Maisey se sentou na
amurada vendo-os nadar de um lado pra outro. Tage e Thorbert se chocaram
entre si ao mergulharem enquanto Roald afastou mais. Maisey viu Sorem ao
lado do Olav olhando de um lado pra outro e virou um pouco a cabeça para o
ver direito.— Você não quer se banhar?
— Não sei nadar. — Disse olhando a água. Sorem estreitou os olhos antes de
olhá-la com os olhos arregalados enquanto Olav a observava de cima abaixo
assombrado.
— Por todos os trovões e relâmpagos! Foge, princesa! — Disse angustiado. —
Vai matá-la a golpes.
— Maisey, vá pra adega. — Disse Sorem ainda espantado.— Eu o deterei.
Girou a cabeça pra água — Ao que parece se preocupa um pouco comigo.
Olav gemeu passando a mão pelo rosto e Maisey sorriu antes de perguntar
aos gritos.— Está boa a água?
As pessoas do cais puseram-se a rir ao escutá-la e Roald olhou para seu
navio vendo-a sentada na amurada tranqüilamente. Tage agarrou o pescoço
de Thorbert para tirar sua cabeça da água enquanto a olhava como se
quizesse matá-la.
— Maisey, desça pra adega. — Disse Roald entre dentes.
— Não queria que descesse? Pois desci. — Disse encolhendo os ombros
enquanto Olav gemia puxando a barba.
— Vá pra adega até que eu me acalme, Maisey. – Seus olhos verdes de uma
cor intensa, diziam que estava furioso e ela não era tola.
— Está bem. — Levantou-se e como se fosse uma rainha se dirigiu para o
alçapão.
— Maisey, meu amor! Encontrarei você e escaparemos juntos!— Gritou
Sakeri — Te encontrarei, me espere!
— Fracote, vou torcer seu pescoço!— Roald subia ao navio furioso e agarrou o
machado. As pessoas começaram a sair correndo esbaforidas e Sakari lhe
lançou um beijo com a mão antes de voltar-se para sair correndo. Roald se
voltou para ela e gritou— À adega!
— Já vou! Além disso ele já se foi. — Acrescentou como se isso fosse o mais
importante.
Roald deu um passo para ela com o machado na mão como se quizesse matá-
la.— Desça e não sairá até que eu diga!
Maisey estalou a língua descendo as escadas. Ao chegar embaixo tudo estava
tão espaçoso que se sentiu estranha. Só ficaram algumas armas e a pele onde
dormia ao lado do grilhão. Suas calças de couro estavam ao lado da pele e ela
se aproximou dali. Tirou a roupa e as botas. Agarrou a pele e se cobriu
sentando-se no chão zangada. Sakeri lhe parecia encantador e se Roald podia
ficar com aquelas prostitutas, ela podia falar com outro homem ao menos.
Não entendia por que ficou assim. Bufou olhando o fundo da adega.
Possivelmente deveria dizer quem era. Não, não podia fazer isso porque Olav
disse que iam obrigá-la a casar-se com ele. E não era tola. Então já não se
livraria dele. Pode ser que fizesse coisas que ela gostava e muito, mas não se
casaria com ele. Ela queria que seu marido a amasse como seu pai amou sua
mãe e ele não o fazia. Não, não se casaria com ele que ainda se unia com
outras mulheres. Tinha que amá-la tanto que não quereria estar com
ninguém mais além dela. Maisey não se conformaria com menos.
Escutou-lhe descer pela escada. E pelo modo como respirava, soube que
estava fora de si.
— Maisey. — Levantou o olhar para ele que parecia estar a ponto de matá-la
— Ficará aqui até chegarmos em casa.
— Não fiz nada!
— Não discuta!— Gritou furioso. agachou-se na frente dela e a agarrou do
pescoço com uma mão.— Estou farto de você e juro por Odin que se me
contradizer novamente eu te mato!
Maisey sentiu seu estômago se retorcer porque parecia que falava sério.
Sentiu uma vontade enorme de chorar porque ele não sentia nenhum apreço
por ela. Roald ao dar-se conta de que ela não respondia, assentiu satisfeito e
a beijou com dureza machucando seus lábios.
Maisey tentou afastar-se, mas ele a abraçou em seu peito devorando sua
boca. Afastou-se dela agarrando-a pelo cabelo e a olhou aos olhos.
— É minha. — Disse entre dentes — E será até o dia em que morrer.— Ela
empalideceu ao escutá-lo.— Repita, Maisey. Quero ouvir você dizer isso.
— Essas palavras nunca sairão de minha boca. — Respondeu com ódio.
Roald forçou sua cabeça para trás deixando seu pescoço descoberto. Seus
olhos verdes se obscureceram de fúria e olhou seu pescoço— Tão preciosa e
tão frágil. — Agarrou-a pelo pescoço e apertou ligeiramente. — Poderia te
destroçar o pescoço com uma só mão.— Voltou a apertar e Maisey não quis
mostrar o medo que a percorreu ao sentir a pressão— Não é nada para mim.
É uma mulher que só serve para me agradar e isso o posso encontrar em
qualquer lugar. — O ódio de suas palavras fizeram que uma lágrima caísse
por sua face sem dar-se conta. Isso enfureceu ainda mais a Roald que
apertou a mão em seu pescoço. Maisey sentiu que lhe faltava o ar e agarrou
seu pulso com força tentando soltá-la, mas ele apertou mais.— Sente falta do
ar? — Ela não quis mostrar que estava sofrendo e ficou quieta olhando-o aos
olhos. Uma sopro de ar saiu de seus lábios e deixou cair a mão sentindo que
morria. Sua cabeça caiu para trás perdendo os sentidos e Roald a olhou
surpreso. — Maisey?— Tirou a mão de seu pescoço e tocou sua face
totalmente pálida.— Maisey!— Gritou lhe dando tapinhas no rosto.— Maisey,
acorda!
Deitou-a no chão enquanto gritava seu nome. — O que aconteceu?—
Perguntou Sorem descendo as escadas correndo.
— Não respira!— Gritou desesperado olhando pra seu amigo.
— O que você fez?— Sorem correu para ele e se ajoelhou a seu lado.
— Matei-a!— Estava tão surpreso que não podia acreditar.
Sorem aproximou o ouvido da boca de Maisey. — Não respira. — Afastou a
pele e pôs a orelha sobre seu peito. Sorem se aproximou de sua boca e
soprou.
— O que está fazendo?— Roald o afastou furioso.
— Dando-lhe ar!— Gritou ele — Você tirou o ar dela agora tem que dar de
novo.
Roald aproximou de sua boca e fez o que Sorem fazia antes— Vamos,
pequena. –Sussurrou contra seus lábios. — Não faça isto comigo.— Voltou a
fazê-lo, mas não funcionava.
— Não pare!— Gritou Sorem enquanto Tage descia para ver que ocorria.
— Por todos os trovões o que fizeram?
Roald pálido tocava o rosto de Maisey — Eu a matei.
— Não pare!— Sorem se apoiou no peito de Maisey para afasta-lo e soprou
em sua boca enchendo seu peito.
Maisey aspirou levantando o peito e Sorem sorriu caindo sentado no chão .—
Ela é abençoada pelos Deuses, disso estou seguro. — Disse olhando-a
respirar delicadamente.
— Por que não abre os olhos?— Perguntou Tage muito nervoso.
Roald a pegou nos braços como se fosse uma boneca.— Vamos preciosa, abre
esses olhos azuis.
— Deixa-a respirar, Roald. — Disse Sorem levantando-se para tirá-la dos
seus braços.
Roald o fulminou com o olhar.— Não toque nela!
Seu amigo o olhou surpreso.— Não fui eu quem a matou!
— Sosseguem!. — Ordenou Tage olhano pra Maisey — Ela está despertando.
Roald baixou o olhar e a viu abrir os olhos lentamente. — Maisey?— Não
pareceu reconhecê-lo quando o olhou nos olhos e lhe acariciou a bochecha.—
Maisey me ouve?
Olhou em seus olhos durante uns segundos.— Vamos preciosa, me diga algo.
— Bode! — Doía-lhe a garganta e estava esgotada, mas isso não impedia
querer matá-lo. Ao ver sua cara de alívio disse com voz áspera.— Quando
meu pai souber disto, pode fugir.
Roald olhou sorrindo pra seus amigos.— Seriamente? Estou desejando
conhecê-lo.
— Espera e verá, vai tirar esses olhos de porco que tem. — Tossiu levando a
mão ao peito.
Surpreendendo-a Roald a abraçou.— Nos deu um susto de morte. — Disse no
seu ouvido.— Não havia dito que morreria apenas quando eu dissesse!—
Gritou-lhe afastando-a.— Não volte a fazer isto!
Atônita o olhou como se estivesse louco enquanto os homens pigarreavam
incômodos.— Em realidade foi você…— Começou a dizer Sorem zangado.
— Saiam!— Disse a seus amigos fulminando-os com o olhar — Saiam!
— Vamos, Sorem. — Tage agarrou o braço do seu companheiro tirando-o da
adega.
Quando ficaram sozinhos ele acariciou seu rosto.— Me perdoa?
— Está mal da cabeça?— Sussurrou olhando-o com os olhos cerrados. — Me
Solte.
Roald a beijou na bochecha brandamente.— Necessito que me perdoe. Não
queria…
— Não queria me matar? Pois dissimulou muito bem. — Respondeu com
rancor ainda com o medo no corpo empurrando seu antebraço para que a
soltasse.
— Preciosa, sinto muito. — Beijou-a nos lábios com delicadeza e ela
surpreendida ficou quieta — Não queria te fazer mal.
— Não me toque! — Sussurrou contra seus lábios — Te odeio!
Ele levantou a cabeça ligeiramente olhando seus olhos. — Sei, mas não me
deixará até que eu queira.
Deixou-a delicadamente no chão e ficou de pé — Descansa. — Olhou-a de
cima a baixo e a cobriu bem com a pele.— Tem que descansar. Foi uma
manhã um pouco agitada. — Ela o olhava como se estivesse louco e Roald
apertou os lábios.— Tem fome?
Maisey cobriu a cabeça com a pele e lhe deu as costas. — Está bem. Darei
tempo para que passe seu aborrecimento.
Aborrecimento? Tinha tentado estrangulá-la! O aborrecimento ia durar toda a
vida!
Capítulo 5

Mais tarde Olav a despertou tocando-a no ombro.— Como está, princesa?


Trouxe-te algo pra comer.
Não se moveu. — Me matou. — Sussurrou com a voz áspera lembrando-se de
tudo.
— E não sabe o quanto está arrependido. — Respondeu seu amigo olhando-a
preocupado. — Não quer comer nada?— Mostrou-lhe o prato — Te trouxe
arenque.
Ela negou com a cabeça e voltou a fechar os olhos. — Vai Maisey, tem que
comer.
— Não quero!— Cubriu-se com a pele.
— Se não comer, terei que dizer pra Roald. — Ao ver que não respondia
suspirou.— Está bem.
Escutou ele afastar-se e subir os degraus. Uns minutos depois ouviu passos
furiosos descendo-os.— Maisey! Tem que comer!— Mostrou-lhe a língua
debaixo da pele sem mover-se. — Se isto é uma maneira de se vingar não vai
funcionar, porque sou capaz de colocar comida em sua boca a força.
Ao não ver por parte de Maisey nenhuma reação, afastou a pele descobrindo
meio corpo.
— Me deixe em paz!— Disse sentando-se e tampando-se outra vez enquanto o
fulminava com o olhar.
— Vai comer!— Sentou-se na frente dela e lhe entregou o prato.— Se não
comer não sairei daqui!
Ela agarrou o prato e ele sorriu. Maisey o atirou na cara dele antes de que se
desse conta e Roald estreitou os olhos— Está me provocando.
— Saia da minha vista, cão pestilento!— Gritou tão alto quanto foi capaz de
elevar a voz.
— Muito bem!— Respondeu. Levantou-se irritado e deu dois passos para a
saída e depois girou de volta. — Sabe de uma coisa?
— Não, o quê? – Disse desafiante.
— Vai comer. — Aproximou-se e recolheu o arenque do chão. Aproximou a
mão de sua boca e ela semicerrou os olhos. — Abre a boca.
Abriu-a lentamente e ele aproximou o arenque. Antes que ele se desse conta
ela mordeu os dedos dele com força e Roald com um grito puxou a mão.— Por
todos os trovões! É uma arpía!
— Não sei o que é isso, mas você é idiota! — Cuspiu o sangue no chão sobre
suas botas e deitou novamente lhe dando as costas.
Antes que percebesse ele a pegou nos braços e a sentou sobre seu colo
prendendo suas mãos. Ia gritar quando ele colocou o arenque em sua boca e
Maisey arregalou olhos pela quantidade.— Come. — Disse colocando a mão
sobre sua boca para que não o jogasse fora. Não teve outro jeito a não ser
mastigar, mas lhe doía a garganta ao engolir, assim teve que mastigar muito
para evitar a dor o máximo possível. Roald assentiu sorrindo.— Vê? Não é tão
difícil.
Esse homem era idiota. Maisey já deixou isso claro. Quando terminou de
engolir continuou fingindo mastigar para evitar que ele colocasse mais
comida em sua boca. Depois de uns minutos ele franziu o cenho.— Abre a
boca.
Ela seguiu mastigando, mas Roald não acreditou e agarrando-a pelo queixo e
o nariz obrigou-a a abrir a boca enquanto ela tentava lhe segurar. — Não
pode me enganar, preciosa. Sou mais velho e mais experiente.
Quando soubesse quem era seu pai ia ter a maior surpresa de sua vida,
pensou ela enquanto ele a obrigava a comer mais pescado. Quando esteva
satisfeito a olhou sorridente.
–Muito bem!— Disse como se ela fosse um cão e estava contente com seu
comportamento.— Se se comportar bem, amanhã poderá sair.
Acariciou-lhe as costas e afastou a pele acariciando sua pele nua. Ela
estreitou os olhos.— Volte a me tocar, e cortarei você quando estiver dormido.
A mão de Roald se deteve no ato. — Se for brincadeira, não tem graça.
— Nunca falei mais sério. — Disse ela entre dentes— Despertará sendo
mulher. Quer me por a prova?
Ele a agarrou sentando-a de repente em seu lugar. — Quer que eu te prenda
de novo?
— Não saberá quando, mas uma manhã despertará sem sua dignidade.
Roald franziu o cenho colocando as mãos nos quadris. — Está começando a
me deixar zangado.. Sei que está com raiva….
— Com raiva!— Gritou ela. – Te mataria se pudesse!
— Não fala a sério.
Fora de si levantou e ele olhou surpreso seu corpo nu de cima abaixo. Maisey
lhe deu um chute nas virilhas que o dobrou enquanto gemia.
— Estúpido! — Pegou a adaga que levava na bota e antes que ele se desse
conta o agarrou pelo cabelo levantando sua cabeça.
— Homem estúpido! — Ia colocar a adaga em seu pescoço, mas ele caiu de
joelhos com o rosto vermelho para o espanto de Maisey.
— Bati muito forte?— Perguntou ao ver sua cara de sofrimento. Ele assentiu
caindo no chão e cobrindo suas partes íntimas com ambas as mãos e Maisey
levantou uma sobrancelha exasperada.
— Pai dizia que era eficaz, mas não sabia o quanto. — Disse perplexa.
Roald gemeu. — Isso porque ele não estava excitado.
— OH!! — Furiosa ela gritou.— Seu pervertido!
— Maisey…— Gemeu Roald com sua melhor voz.— Você vai pagar por isso.
— Você me tem feito sofrer muito mais!— Gritou ela ameaçando-o com a
adaga.
Ele voltou a gemer e Maisey se preocupou.— Não pode doer tanto. Parece um
fraco. –Ao ver que ele não se movia se aproximou mais – Roald?
Agarrou-a pela cintura surpreendendo-a e a deitou de costas colocando-se
em cima dela depois de tomar o punhal e colocá-lo em seu pescoço. O sorriso
em seu rosto a deixou irritada.
— Nunca tenha piedade de seus inimigos. — Sussurrou ele antes de beijá-la
delicadamente nos lábios.
— Me solte!— Tentou afastá-lo mas ele apertou o peito sobre ela. Ao sentir
seu torso contra seus seios seu estômago deu um salto e disse. — Não posso
respirar.
— Sério?— Levantou-se ligeiramente e ela tentou soltar-se mas Roald pôs-se
a rir agarrando-a pelo queixo para que não se movesse e jogou o punhal fora
de seu alcance.— Preciosa, eu disse pra não confiar em seus inimigos e você
ainda não é minha amiga.
— E o que sou, rato pestilento?
Olhou-a com seus olhos verdes de tal maneira que lhe cortou o fôlego — É
minha amante, preciosa. — Disse antes de beijá-la com paixão. Maisey
gemeu contra seus lábios — Sinto seus mamilos ficarem duros. — A mão de
Roald acariciou o lóbulo de sua orelha e ela gemeu fechando os olhos de
prazer. Beijou-a ligeiramente no pescoço e continuou descendo até chegar a
seus seios. Maisey gemeu agarrando seus ombros quando ele colocou um
mamilo em sua boca e arqueou as costas. Protestou quando deixou seus
seios, mas ao dar-se conta que seguia baixando arregalou os olhos e gritou
surpreendida quando sentiu seus lábios sobre seu sexo, foi como se um raio
a perfurasse ao sentir suas carícias. Arqueou as costas choramingando pela
liberação que necessitava desesperadamente e Roald se colocou entre suas
pernas enquanto Maisey o atraía ansiosa.— Já vou, preciosa. — Sussurrou
contra seu pescoço. Entrou nela com uma forte investida que a fez gritar de
prazer e quando saiu dela lentamente, Maisey lhe rodeou com suas pernas
para que não a abandonasse. — Mais?— Perguntou ele contra seu ouvido.
Voltou a entrar com força e começou um vaivém que a fez perder-se na
neblina da paixão, enquanto acelerava o ritmo até estremecer de prazer
gritando contra seu ombro.
— É minha, Maisey. E quando antes aceitar isso será melhor para todos. —
Sussurrou-lhe respirando pesadamente prendendo-a em seus braços.— Não
se aproxime de outro homem porque se não…— Afastou-se o suficiente para
olhar em seus olhos.— O pagará. Não diga que não te adverti.
Depois dessas palavras se levantou e antes que percebesse estava sozinha.
Envolveu-se na pele, mas depois de um momento se levantou vestindo suas
calças e seu vestido. Como ainda não estava muito seco decidiu subir. Tocou
seu cabelo e se deu conta de que lhe estava embaraçado. Saiu para o convês
e Roald quando a viu não disse nada, assim que se sentou em um dos barris
começou a desembaraçar o cabelo com os dedos. Fez um gesto de dor ao tirar
um nó e olhou a mecha embaraçada. Com paciência começou a
desembaraçá-lo.
— Temos que remar. — Disse Roald antes de assobiar ao Tage que estava no
mastro.— Enrola-a Tage, está nos atrasando!— Gritou pra seu amigo.
Olav tirou uns remos muito compridos que ela não tinha visto e Thorbet se
aproximou dele pegando um. Espantada viu que os homens se dividiam pra
cada lado do navio e colocavam os remos na água. Tage também pegou o seu
e se colocou na frente dela piscando um olho. Começaram a remar e deixando
seu cabelo se levantou para ver como subiam o rio com velocidade. Voltou-se
para Roald que a estava observando enquanto remava. Seus músculos
brilhavam pelo esforço e ela se aproximou dele.
— Falta muito para chegar?
— Dois dias se tudo correr bem. — Disse olhando seu cabelo.— Amarre seu
cabelo antes de chegar.
— Não tenho com o que. — Disse olhando às mulheres— Perdi a tira de couro
na água.
— Olav te encontrará algo.
— Por que tenho que amarrá-lo?— Perguntou distraída olhando à menina
que estava dormindo.
— Não quero que minha gente te veja. — Disse olhando-a fixamente—
Maisey, me olhe.
Olhou-o dando um passo em sua direção.— Não quero ter que brigar por você
me entende? E assim que virem seu cabelo muitos lhe quererão.
— E se eu cortá-lo?— Perguntou indiferente.
Ele cerrou os olhos.— Se cortar uma mecha te dou uma surra.
Ficou tão surpresa que não sabia o que dizer. Ninguém entendia esse
homem. — Mas tenho que cortar em algum momento. Em casa cortava isso
duas vezes ao ano.
— Eu direi quando tem que cortar o cabelo.
— É meu cabelo e eu decido quando cortá-lo!
— Já está amarrado. — Disse Sorem entre dentes atrás de Roald.
— Fará o que eu digo.
— Tenho que fazer tudo como você quer aparentemente!— Protestou
cruzando os braços.
— E termina fazendo o que te dá vontade!
— Exato. — Sorriu de orelha a orelha e foi até as mulheres deixando-o com a
palavra na boca.
Ouviu seu grunhido e as gargalhadas de Sorem, mas ela só prestava atenção
na menina. ajoelhou-se diante dela e olhou pras mulheres.
— Acredito que esta doente. –Sussurrou a que lhe tinha pedido a água— Está
dormindo muito ultimamente.
Maisey esticou a mão e lhe acariciou a testa afastando seu cabelo castanho. –
Tem febre. — Isso significava que tinha que encontrar umas ervas para
ajudá-la. — Ela tossiu?
— Não, Maisey. — Disseram várias de uma vez.
— Tavie. — Deu-lhe tapinhas no rosto.— Tavie, acorda!
A menina abriu os olhos ligeiramente e sorriu— Maisey…
— Olá, menina. — Acariciou-lhe a garganta, mas ela não se queixou.— Sente
alguma dor, Tavie?
— Meus pulsos…— Enrugou seu narizinho e Maisey dessamarrou-a
rapidamente. Ao tirar as ataduras que lhe tinha posto, apertou os lábios ao
ver pus nos cortes..
— Estou vendo.
— Meu Deus!!! — Disse a que estava a seu lado— Está envenenando seu
sangue.
— Sim. — Olhou ao seu redor tentando encontrar uma solução.
Tinha que limpar essas feridas porque terminaria estendendo-se pelos braços
e acabaria matando-a. Tavie olhava os pulsos, mas fechou os olhos. Colocou
suas mãos delicadamente sobre seu colo e se levantou para falar com Roald.
Aproximou-se apressadamente.
— Temos que parar.
Ele levantou uma sobrancelha. – E posso saber por quê?
— Tenho que encontrar algumas ervas para Tavie. Tem febre e seu pulsos
estão infeccionados.
— Morrerá antes de chegar em casa. –Disse ele indiferente.
— Se eu encontrar as ervas não tem porque morrer!— Protestou ela
colocando as mãos nos quadris.
— Estamos nas terras dos Rutger. — Disse ele friamente.— Não pararei até
chegar em casa.
— Só por uma hora. Se não as encontrar em uma hora, não protestarei.
Olharam-se durante uns segundos — Uma hora?
— Juro. — Respondeu sorrindo.
— Não é boa ideia— Disse Thorbert do outro lado.
— Não. — Acrescentou Olav. Maisey o fulminou com o olhar enquanto dirigia
o leme.— Não me olhe assim, princesa. Se nos agarrarem aqui, matarão a
todos.
— Uma hora não é muito tempo. — Disse Sorem. — E não se afastará muito,
certo?
— Juro. Ficarei perto do navio e só será por uma hora.
Todos olharam pra Tage que encolheu os ombros.— Faz dias que não tenho
uma boa luta. Se nos atacarem, brigarei com gosto.
Maisey arqueou uma sobrancelha divertida. — Então devem ser muito maus
porque você, comigo não durou nem dois minutos.
Tage ruborizou enquanto os outros riam a gargalhadas— Me pegou
desprevenido.
— Sim! — Olhou pra Roald que ria como outros e perguntou. — Então?
— Assim que encontremos um lugar seguro, paramos.
Ela sorriu radiante e se afastou para junto das mulheres. Escutou Sorem
dizer no idioma de seu pai.— Por todos os Deuses, quando sorri é como olhar
o sol! Fica-se vesgo!
Os homens puseram-se a rir e Maisey dissimulou pegando uma concha de
água limpa para aproximar-se das mulheres. Depois de dar água pra elas,
lavou os pulsos da menina com cuidado para enrrolar outras ataduras
limpas. Roald deu o sinal e pararam atrás de uma curva onde o navio não
ficava muito exposto. Roald se aproximou dela com a espada na mão.
— Vamos, não percamos o tempo.
Ela se aproximou dele enquanto Olav colocava a rampa. — Espera. — Desceu
à adega e pegou uma pequena espada.
Ao subir Roald assentiu e a pegou pelo braço encostando-a nele — Preciosa,
confie em mim.
— Sim. — Disse olhando seus olhos — Vou te ouvir, não se preocupe.
— Se vir algo estranho, corre para o navio.
Ela assentiu.— Está bem.
— Não suba em uma árvore, não fique ajudando. Volte ao navio.
— Sim, Roald.
Ele apertou os lábios. — Não sei porque se esforça. — Disse Sorem divertido.
— ficará a ajudar.
Roald grunhiu e ela sorriu radiante. Agarrou-a pela nuca e a beijou
apaixonadamente. Quando a soltou, segurou-a pelo braço e meio atordoada
ela desceu a rampa. Sorem e Tage os acompanharam.
— Seja rápida! — Disse Roald olhando a seu redor.
Ela não perdeu tempo e se aproximou de uma zona úmida que era onde
normalmente cresciam as ervas que precisava. Não encontrou as que queria e
seguiu procurando entrando no bosque. Os homens a seguiam olhando a seu
redor. Depois de um momento, finalmente viu as folhas que procurava e se
aproximou apressadamente. Ajoelhou em frente à planta e com a espada
começou a cavar pois lhe interessavam as raízes.
— Encontrou algo?— Perguntou Sorem olhando-a.
— Sim. — Disse sem deixar de trabalhar.— Em seguida vamos. — Sorem
suspirou de alívio e a viu arrancar a planta pela raíz. — Pronto. — Disse
levantando-se.
— Shiss. — Roald falou ficando alerta e ela ficou em guarda escutando
atentamente. Escutaram dois homens conversando e ela levantou dois dedos.
Roald assentiu fazendo um gesto para que fosse. Ela negou com a cabeça e
ele revirou os olhos. Sorriu olhando-o nos olhos e ele a agarrou pelo braço
colocando-a ao seu lado. As vozes se aproximavam e ela desejou que
passassem longe deles. Ficou tensa quando ouviu a voz de um menino e
olhou pra Roald negando com a cabeça. Ele fez um gesto para darem um
passo pra trás quando escutaram as vozes mais perto. Começaram a recuar
para o navio, mas se detiveram quando escutaram alguém que corria para
eles. Um menino de uns cinco anos apareceu diante deles e se deteve
abuptamente ao vê-los. Afastou seu cabelo loiro do rosto para olhar pra Roald
com os olhos arregalados. Roald pôs um dedo sobre sua boca indicando que
se calasse. Ao ver que o menino não dizia nada continuaram recuando, mas à
medida que retrocediam o menino avançava igual às vozes.
— Halvor onde está?— Gritou um homem.
— Aqui, papai!
— E onde é aqui?— Perguntou divertido.
— Onde estão os homens do rio!
Então Roald a agarrou pelo braço e puseram-se a correr, mas o menino os
seguiu enquanto os homens gritavam dando o alerta. Sorem agarrou o
menino pela cintura levando-o com eles e quando chegaram ao navio o
menino chorava de medo pois seu pai o estava chamando aos gritos. Olav
subiu a rampa assim que chegaram e em seguida afastaram o navio da borda
empurrando-o com longas varas. Viram a chegada dos homens, que só
podiam observar impotentes o navio que se afastava. Um homem de uns
trinta anos e de cabelo castanho chamava o menino que chorava
desconsolado. Nervosa porque o levavam, o tirou dos braços de Sorem e
correndo se aproximou da amurada do navio sem deixar de olhar o homem.
Ao ver sua intenção o homem se atirou na água e disse ao menino em seu
idioma.
— Fique tranqüilo, papai vai te buscar.
O homem se aproximava rapidamente e quando estava bastante perto ela
atirou o menino na água enquanto gritava e esperneava. Segurou-se na
amurada comprovando que o pai o pegava. Caso contrário teria que jogar-se
ela na água. Felizmente o homem chegou a seu filho agarrando-o em seus
braços. Levantou o olhar e assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento
olhando-a nos olhos. Ela sorriu e se despediu com a mão. Roald a agarrou no
braço afastando-a da amurada.
— Por que fez isso?— Estava muito sério.
— Não há razão para separar um pai de seu filho. Livramo-nos e o devolvi. O
menino não tem porque sofrer.
— São nossos inimigos. Esse menino matará aos meus quando crescer. Com
certeza seu pai já fez isso.
— Eu não tenho nada contra esse menino, nem esse pai. — Disse soltando
seu braço— E eu não gosto de fazer mal apenas por fazer.
Ele grunhiu vendo-a lhe dar as costas e recolhendo a planta onde a tinha
jogado quando tinha subido no navio. Olav lhe deu uma tigela onde amassou
a raiz até fazer uma massa e se aproximou de Tavie que seguia dormindo.
Pôs-lhe o unguento ao redor das feridas e as cobriu outra vez.
Olhou à mulher que estava ao lado— Como se chama?
— Rose. — Sussurrou a mulher que lhe tinha pedido água.
— Se vir que as ataduras ficam amarelas, me chame. Terei que trocar a
bandagem e o unguento.
— Farei-o, Maisey. — Olhou-a nos olhos— Por que faz isto?
— O quê?
— Ajudá-la.
— É uma menina. Não tinha que estar aqui— Sussurrou — E não me custa
nada.
A mulher a observou atentamente— Não é como pensávamos. O que tem feito
por essa menina…
— Fecha a boca. — Levantou recolhendo tudo— Nunca me deram uma
oportunidade. — disse entre dentes — Nos tratavam pior que aos cães e não
nos conheciam.
As mulheres desviaram a cara envergonhadas, mas Rose assentiu— Estou
me desculpando por isso.
Maisey apertou os lábios e com a tigela na mão se voltou para afastar-se.
Roald estava remando, mas não tinha perdido nenhum detalhe da conversa.
Ruborizada desceu à adega para deixar a tigela em um local escuro,
esperando que não estragasse se por acaso precisasse de mais.
Passaram as horas e ela estava entediada porque já tinha dado jantar às
mulheres e Maisey não tinha nada pra fazer. Sentou-se em um barril
apoiando as costas na proa e os pés sobre outro barril. Tinha uma vista de
todo o navio e olhava Tavie que parecia estar um pouco melhor.
— Preciosa, por que não vai se deitar?
Olhou pra Roald. — Não tenho sono. — Disse com a voz um pouco áspera.
Tocou o pescoço pigarreando e ele franziu o cenho.— Dói?
— Não. — Disse mentindo descaradamente desviando o olhar.
— Como não vai doer?— Perguntou Sorem indignado. — Não viu as marcas?
Roald se voltou para seu amigo sem soltar o remo.— Você tem que se meter
em todas nossas conversas?
Maisey sorriu divertida ao escutar. — Eu a vi primeiro!
— Isso é mentira! Eu a vi primeiro! Deixa de encher e fecha o bico!
— É certo que Roald a viu primeiro.— Disse Tage.
— E você o que sabe se estava inconsciente?
A risada do Olav a fez rir.— Não interessa, agora é do Roald. — Isso lhe tirou
a risada de repente e olhou pra seu amigo como se quizesse matá-lo. Ao ver
que ninguém questionou ela cruzou os braços.
— Isso até que meu pai o encontre e o estripe.
— Preciosa, isso vai ser difícil acontecer. — Disse Roald divertido.— Tem que
ter os melhores rastreadores das Highlands.
Ela o olhou nos olhos— Recorda minhas palavras, viking. Conhecerá meu pai
muito em breve.
— Então morrerá se quiser te tirar do meu lado. — Essas palavras gelaram
seu sangue e se endireitou no barril.
— Retira isso.
— Não.
— Se fizer mal a meu pai, matarei você. Juro por todos seus Deuses!
Os homens a olharam espantados. Levantou-se e endireitando as costas
como uma rainha foi até a adega.
O dia seguinte foi igualmente aborrecido. Estava farta de comer sempre a
mesma coisa e estava ansiosa por chegar. Desejava conhecer esse tal Harald
e descobrir se era realmente a sua mãe a quem ele procurava. Tinha medo de
que ele não fosse seu pai e ter se iludido em vão.
Como só tinha que atender as mulheres, passou quase todo o dia fantasiando
sobre seu encontro. Mas depois de imaginar que a abraçava e ria dizendo que
estava encantado de que estivesse ali, pensou que estava tendo muitas
ilusões.
Felizmente Tavie estava muito melhor. As crianças se recuperavam muito
rápido e já estava acordada embora se encontrasse fraca.
Estava distraída trancando seu cabelo quando escutou Thorbert dizer em sua
língua. — Contou pra ela sobre as gêmeas?
Ela sem dar-se conta olhou pra Olav que estava ao leme e este negou com a
cabeça. Dissimulando olhou seu cabelo sem deixar de trançá-lo.
— Não tenho que dizer nada. Não é problema dela. — Disse Roald indiferente.
— Se acostumará.
— Destroçará-as assim que as veja. — Disse Tage divertido.
— Não diga tolices.
Ela pensou que não era nenhuma tolice, se ele se aproximasse de outra
mulher estando ela ali, racharia-a de cima a baixo. Se ela não podia
aproximar de outro homem, ele não poderia aproximar de outra mulher.
— Não são tolices, Roald. — Disse Sorem muito sério.— Assim que souber
que tem outras duas amantes vai correr o sangue.
— Não é minha proprietária. –Disse irritado.
— Ah não?— A voz divertida de Tage fez com que seu primo o fulminasse com
o olhar.— Não me olhe assim. Vai ver o que diz Valgard assim que a vir. Vai
reivindicá-la!
Esticou-se escutando essas palavras. — Meu irmão já tentou com as gêmeas.
— Disse divertido. — E levou uma boa surra.
Tinha um irmão. Maisey se perguntou como seria. Seria tão atraente como
ele?
— Pode ser que desta vez ganhe. Tem mais músculo que dois anos atrás.
Treinou como uma besta para não voltar a perder pra você.
— Que ele tente. — Disse isso com tanta indiferença que Maisey se deu conta
que não se importava com nada.
— Não se importa?— Perguntou assombrado Thorbert.
— Não. Quando vencê-lo, ninguém mais se atreverá a me desafiar por ela.
Assim não terei mais problemas.
Amarrou o final da trança com a tira de couro que Olav lhe tinha dado.
— Parece-me que estão adiantando os acontecimentos. — Disse seu amigo
sorrindo.— Pode ser que Harald a reivindique e o assunto é encerrado.
Roald se esticou e olhou ao homem como se quizesse matá-lo. — O velho não
faria isso.
— Pode fazer. — Respondeu divertido. — É o Jarl, pode fazer o que quiser.
Lembre que sua palavra é lei. –Olhou Maisey nos olhos.— Ela é uma amante
digna de nosso Jarl. Seria a mais bela rainha.
— Harald não faria isso. — Disse Sorem preocupado.— Ou sim?
Maisey olhou pra seu amigo divertida e ele dissimulou a risada. — Se o Jarl a
reclamar, não poderá fazer nada, Roald. — Disse Tage preocupado.
— Isso logo veremos. — Apertou o remo com força olhando-a com os olhos
semicerrados.
— De que falam que te irritou tanto? –Perguntou fazendo-se de tola.
Ele apertou os lábios –De nada que seja do seu interesse.
Maisey levantou uma de suas finas sobrancelhas loiras. — Está de mau
humor?
— Não. — Grunhiu ele sem deixar de remar.
Fez que não se importava e sorriu radiante pra Thorbert.— Me conte algo de
sua terra.
— Já a verá. — Disse Roald cortando a conversa.— Agora deixa de incomodar
meus homens.
Aparentando surpresa olhou a todos, que desviaram o olhar rapidamente.
Olhou pra Olav e este piscou um olho. Teve que fazer um esforço para não
rir.
Levantou-se graciosamente do barril e disse.— Então vou dormir uma sesta.
Quando se afastou ouviu Tage dizer.— Pelo Odin que haverá problemas.
Estou desejando chegar em casa.
Roald grunhiu fazendo Maisey sorrir .
Capítulo 6

No dia seguinte ela impaciente olhou o céu do meio dia.— Falta muito para
chegar?
Um grito da margem do rio lhe deu a resposta. Vários homens saudaram com
a mão aos do navio e Tage assobiou com força. Ao fazer uma curva, viu um
cais e se surpreendeu ao ver mais cinco navios. Muito excitada viu como Olav
tirava um chifre e soprava com força. O som foi tão potente que ela o olhou
surpreendida. Soprou pelo chifre várias vezes e ela viu como corriam várias
pessoas pelo atalho que dava ao cais.
Maisey olhou ansiosa para as pessoas que se aproximavam até que Roald a
agarrou pelo braço girando-a para que o olhasse de frente. — Irá com o
Thorbert até que eu arrume algumas coisas.
— O quê? –Confusa olhou a seu redor.— Porquê?
— Já disse! Tenho que fazer algumas coisas!— Voltou-se lhe dando as costas
e Maisey mordeu o lábio inferior.
Não podia fazer isso! Tinha que conhecer o Harald! Nervosa foi até o leme
onde Olav estava manobrando.— Tem que me ajudar. — Sussurrou olhando
ao seu redor.
— O que aconteceu, princesa?
— Tenho que ver o Harald e Roald não vai levar-me com ele.
Olav a olhou surpreso.— E com quem vai?
— Com o Thorbert. — Torceu as mãos olhando o cais onde ia acumulando
gente, gritando e saudando. Estreitou os olhos ao ver duas garotas morenas
bonitas, que desciam agarradas uma na mão da outra rindo como meninas.
Eram as gêmeas e seus grandes seios balançavam enquanto corriam para lá.
Sem se dar conta do que fazia, olhou seus seios que não eram como os delas
nem de brincadeira. Fez uma careta e voltou a olhá-las. Realmente eram
bonitas e o rancor começou a correr por suas veias. Estreitou os olhos
olhando como chamavam Roald a gritos saudando com a mão. Dirigiu seu
olhar para o Roald que lhes lançou um beijo com um pé na amurada e
segurando uma corda.
— Cão infiel! — Disse entre dentes.
Olav sorriu. — Não se preocupe, princesa. Logo as coisas estarão em seu
devido lugar. Em relação ao Harald deixe comigo. Não discuta e vá com o
Thorbert. Antes do anoitecer, chamarão-lhe.
Deu-lhe um beijo na bochecha de seu amigo. — Obrigada!
— Maisey!— Gritou Roald furioso. — Que raios está fazendo?
— Agradecendo a Olav por ter sido tão bom comigo. — Respondeu espantada.
— Eu também quero agradecimentos. — Disse Sorem olhando-a com
adoração.
— Cala a boca!— Gritou Roald aproximando-se com grandes passadas e
pegando-a pelo braço com maus modos. Fulminou o Olav com o olhar.— Tem
sorte de ser um velho amigo.
— Sei. — O olhar do Olav faiscava de alegria.
Sorem começou a rir enquanto atirava as cordas ao cais para que os
rebocassem. Vários homens puxaram levando-os ao lugar onde atracariam.
— Cuide das mulheres!— Gritou em seu rosto.
— Não fale assim comigo. — Olharam-se nos olhos desafiando-se.
— Depois eu deixarei as coisas claras.
— Já deixaste tudo as claras. — Disse desviando-se dele.
Roald olhou para o cais e a soltou de repente endireitando-se.— Thorbert!
— Sim. — De repente a cobriram com sua pele e ela levantou o olhar
surpresa.— É para evitar problemas. — Respondeu o amigo de Roald.
— Problemas?— Olhou para o atalho e desciam um homem e uma mulher. O
homem era o irmão do Roald, disso não havia dúvida. Devia ter uns cinco
anos menos que ele e era enorme. Quase tão grande como Roald. Seu cabelo
negro também chegava a seus ombros e tinha uma espessa barba.
Certamente para parecer maior.
A mulher era morena também, mas tinha uma mecha totalmente branca que
saía de sua têmpora esquerda. O olhar da mulher era duro. Embora fosse
uma mulher atraente, esse olhar indicava que nunca tinha sido feliz. Sentiu
pena por ela. Valgard saudou com um assobio assim que chegou e Roald
saltou do navio para ir abraçá-lo. Também saudou a mulher afastando-os
dali. Thorbert a levou pra passarela e a desceu com toda pressa.
— Não vamos com o Roald?
— Te buscará depois. — Disse empurrando-a para afastá-la das pessoas.
Surpresa viu que não subiam pelo atalho, mas sim entravam no bosque
certamente para não encontrar-se com ninguém. Passaram umas árvores e
chegaram a um claro onde havia várias casinhas de madeira com teto de
palha.
— Rápido! — Disse o homem olhando a colina. Ela olhou para lá e viu
surpreendida uma grande casa, mas o que mais a surpreendeu foi que as
paredes formavam um círculo. A casa era redonda! Nunca tinha visto uma
casa redonda, todas as de sua aldeia eram quadradas como as casinhas que
havia ali.
— O que é isso?
— A casa do Jarl.
— É enorme. — Disse deixando-se levar.
— Ali vivem muitos. — Disse sem especificar.
Aproximaram-se de uma cabana e abriu a porta colocando-a dentro — Fique
aqui.
Ela escutou assombrada como fechava a porta por fora com uma tábua.
Olhou a seu redor e viu a luz com uma panela no fogo. Aproximou-se por
curiosidade e aspirou o aroma. Cheirava bem. Olhou a seu redor e encontrou
um concha de sopa. Colocou-o olhando o conteúdo e sorriu ao ver que era
uma sopa de coelho. Agarrou uma tijela e se serviu o bastante. Agarrou uma
colher de madeira e se sentou na mesa olhando ao seu redor. A casa era
maior do que parecia. Tinha uma boa cama ao fundo e outra mais pequena
em um lateral. Assim era a cabana de uma família. Olhou a comida pensando
que provavelmente estava tirando a comida de alguém. Encolheu os ombros e
começou a comer com vontade.
Estava bom e desfrutou da primeira comida quente em muitos dias. Quando
terminou, começou a ficar nervosa. Olav lhe havia dito que a chamariam,
mas estavam demorando.
Ali não havia janelas e a surpreendeu um pouco. Então entendeu que igual
era para que não passasse o frio no inverno. A luz a deixava ver o suficiente,
mas ainda assim começou a ficar nervosa. Olhou a seu redor e viu um pente.
Sorrindo levantou e esteve um momento escovando o cabelo.
Escutou vozes ao redor da casa e ela tampou com a pele sua larga cabeleira
se por acaso não fosse Olav.
As vozes passaram ao largo e ela suspirou decepcionada. Tamborilando os
dedos sobre a mesa apoiou o queixo sobre sua outra mão enquanto olhava a
porta.
Parecia-lhe que estava passando muito tempo e se começou a impacientar.
Levantou-se e foi para a porta empurrando-a. O tábua devia ser muito forte
porque não se moveu absolutamente. Que tipo de pessoas eram essas, que
fechavam suas casas por fora? Qualquer um poderia lhes prender lá dentro.
Revirou os olhos porque aquilo não tinha sentido.
— Há alguém aí?— gritou à porta.
Escutou uns passos e ficou alerta. Eram passados rápidos e ligeiros— Há
alguém aí?— perguntou no idioma de seu pai.
— Sim. — a voz de uma menina a fez sorrir.
— Pode abrir a porta?
Escutou como a tábua se movia e quase se sentiu triunfal. A porta se abriu
lentamente e uma menina de uns oito anos a olhou pela abertura. Arregalou
os olhos ao vê-la.
— Quem é? Enviaram-lhe os Deuses?
Que pergunta mais estranha— Não. — respondeu sorrindo.
A menina prendeu fôlego e assentiu— Sim, enviaram-lhe os Deuses.
— Bom, pois me enviaram os Deuses. Agora quero sair.
A menina se afastou abrindo a porta totalmente e ela cobriu o cabelo lhe
piscando um olho. Sem perder tempo olhou para a casa do Jarl e subiu a
colina a toda pressa. A menina a seguiu e Maisey a olhou de esguelha— O
que faz?
— Quero ver como reagem ao ver a enviada dos Deuses.
— Então, somos duas. — disse divertida aproximando-se da porta.
Escutavam-se vozes e cantos no interior, assim Maisey entendeu que
estavam celebrando a chegada dos seus. Abriu a porta ligeiramente e colocou
a cabeça. Todos em círculo olhavam algo que havia no centro. Ela só via
costas, assim entrou na casa com a menina atrás dela. A menina sorriu
fechando a porta. Maisey olhou às pessoas e escutou o cântico de uma
mulher.
— Basta!— ouviu gritar. A mulher se calou no ato e Maisey ficou nas pontas
dos pés para ver algo — Agora me conte o que ocorreu!— a voz desse homem
expressava que estava zangado. Muito zangado.
— Estas são as únicas mulheres de cabelo castanho da aldeia.
— Tem certeza que era a aldeia correta?
— Sim, Harald. Seguimos suas instruções estritamente. — escutou Tage
dizer.
— Pra que isto, marido?— perguntou uma mulher.
Fez-se o silêncio na sala, Maisey impaciente olhou a seu redor. Viu um barril
em uma esquina e subiu muito devagar para não fazer ruído. Um homem
estava sentado em uma enorme cadeira. Maisey perdeu o fôlego ao vê-lo
porque soube imediatamente. Estava vendo seu pai. A emoção a embargou
levando uma mão ao peito. Era forte como havia dito sua mãe e embora fosse
mais velho, ainda conservava sua força. Olhou seu cabelo loiro e era certo
que o tinha mais escuro que ela. Sorriu olhando-o atentamente. Dali não
podia ver seus olhos, que nesse momento pareciam zangados. Não levava o
torso nu mas sim levava uma camisa azul e umas calças de fino couro. Suas
botas chegavam a seus joelhos e por seu contorno, Maisey se deu conta de
que ainda conservava uns bons músculos.
— Não se intrometa, Tashia. –disse seu pai levantando-se de seu assento e
olhando às mulheres. Sua cara de decepção era evidente e Maisey se
emocionou. Procurava a sua mãe. Mordeu o lábio inferior, não querendo
chorar pelo amor perdido de seus pais. Maisey procurou com o olhar a Roald
que estava com os braços cruzados olhando seu pai.
— Assim são as únicas.
— Sim, Jarl. — Roald olhou à mulher morena da mecha branca que o
interrogou com o olhar. Roald a ignorou enquanto seu pai revisava às
mulheres.
Ao chegar à última apertou os lábios antes de lhes dizer— Repartir isso .
Os homens ficaram a discutir e ela assombrada viu que vários começavam a
brigar por elas. Viu Tavie morta de medo entre dois homens. Estes tinham
idade de serem seu pai.
— Basta!— gritou ela furiosa deixando cair a pele que a cobria. Ninguém a
escutou e ela desceu do barril. A menina lhe mostrou um grande prato de
ferro pendurado em uns paus e um martelo. Aproximou-se a toda pressa e
com o martelo golpeou o prato várias vezes fazendo um grande estrondo.
Todos ficaram em silêncio virando a volta. Maisey se endireitou com o martelo
na mão.
— Quem deu o alarme?— perguntou seu pai zangado.
Maisey levantou o queixo e vários se separaram fazendo um corredor até o
centro onde estavam as garotas e seu pai. Maisey olhou a seu pai nos olhos e
sorriu. A cara de surpresa do Harald não passou despercebida a ninguém,
menos ao Roald que furioso deu um passo à frente. — Ela é minha! Eu a
capturei! Pertence-me.
Harald não lhe fez caso enquanto dava um passo para ela. Maisey não o
suportou mais e correu para ele atirando-se a seu pescoço. Harald a abraçou
fortemente enquanto Maisey chorava — Te encontrei –lhe sussurrou ao
ouvido — Não posso acreditar isso.
Seu pai a levantou apertando-a contra ele— Minha menina.
Todos ofegaram para ouvi-lo.
— Harald, é minha!— gritou Roald furioso dando um passo para eles com os
punhos fechados. Valgard o agarrou do braço, mas ele se soltou furioso.
Seu pai a deixou no chão muito emocionado— É igual a sua mãe. —
sussurrou lhe acariciando a cara.
— Seriamente?— suas lágrimas caíam por suas bochechas Se olharam nos
olhos que eram da mesma cor— O que ocorreu?
— A levaram as febres.
— Quando?
— Faz um ano.
Ele fechou os olhos gritando de dor e lhe abraçou pela cintura lhe
consolando.
— Por todos os Deuses o que ocorre aqui?— perguntou a mulher morena
levantando-se de seu assento.
Harald a apertou a ele e sem fazer caso a ninguém a levou até uma larga
mesa onde a sentou. Todos ofegaram ao ver o lugar que ocupava na cabeceira
da mesa. Seu pai se sentou em outra cadeira diante ela— Não se casou?—
olharam-se nos olhos e lhe agarrou as mãos — Não tinha que havê-la
deixado, verdade?
Os olhos do Maisey se encheram de lágrimas— Não! –gritou-lhe para
estupefação de todos— Nos deixou! Não tinha que havê-lo feito!
Harald sorriu lhe apertando as mãos — Acreditava que fazia o melhor. Como
se chama?
— Maisey. — respondeu correspondendo seu sorriso.
Olhou-a sem perder um detalhe— Ao menos tenho a ti. –sussurrou.
Roald ficou a seu lado com os braços cruzados— Te advirto que se tiver que
me desafiar contigo , farei.
Harald levantou a vista divertido — Maisey o que ele está dizendo?
— OH, se empenha em dizer que sou dele.
— Seriamente?— seu pai ficou de pé enquanto todos murmuravam — Quais
foram minhas ordens, Roald?
— Trazer as mulheres de cabelo castanho. Mas ela não tem o cabelo
castanho.
— Tinha-o quando me conheceu. — disse ela sorrindo de orelha a orelha—
Mas caiu a tintura.
Seu pai pôs-se a rir a gargalhadas surpreendendo a todos — Então que me
trouxe ela porque era castanha.
— Sim. — grunhiu ele irritado. Percebia-se de longe que ele não entendia
nada.
— Sinto muito, filho. Não lhe posso dar isso. — Harald também estava sem
entender nada.
— Como que não?— Roald estava furioso.
— Façamos um desafio. — disse Valgard comendo-lhe com os olhos.
— Afaste se não quiser que eu te parta a cabeça!— gritou-lhe Harald
deixando claro quem mandava.
Tage e Sorem os olhavam preocupados. Olav sorria ao lado do Thorbert que
olhava pra ela como se quizesse matá-la.
Harald voltou a olhar pra Roald. Observaram-se um momento e seu pai disse
— Maisey…
— Sim? – começava a divertir-se.
— Ele te tocou?
— Sim.
— Violou-te?
Ela se mordeu o lábio inferior pois não queria mentir pra seu pai.
–Sim. — sussurrou — Mas não foi grande coisa.
Todos puserem-se a rir e Roald a olhou zangado.
— Fez algo mais?
— Não sei a que vem isto, mas ela é minha!— gritou Roald fora de si.
— Pegou-me e me matou. — seu pai a olhou surpreso— Embora logo voltei
para a vida.
— Está abençoada pelos Deuses, meu Jarl. –disse Tage sorrindo.
Harald não deixava de olhar pra Roald que estava tenso como um arco — Não
a merece.
— É minha.
Seu pai a olhou— O que quer fazer?
— Não pergunte a ela!
— Cale a boca!— Harald voltou a olhar a sua filha e perguntou muito sério —
O que quer fazer?
Ela se levantou sorrindo e ficou diante de Roald com as mãos nos quadris —
Preciosa…— a advertência de sua voz indicava que não estava para
brincadeiras.
Maisey sorriu — Pai, disse-lhe que você o estriparia.
Os ofegos os rodearam entendendo a situação, enquanto que ela sorria
abertamente vendo como Roald se esticava.
— Seriamente, filha? — Harald se colocou atrás dela fulminando Roald.
— Como que pai?— gritou a mulher morena.
Todos a ignoraram pelo duelo que havia entre Harald e Roald.
— Não sabia que era tua filha. Mentiu pra mim.
— Não sabia que ele era meu pai. Para estar segura tinha que vê-lo. — disse
divertida.— E olhe pra ele, ele é.
Roald grunhiu sem deixar de olhar pra Harald — O que pensa fazer?
— É minha filha e você a quer?
— Não é justo!— gritou Valgard— Eu também a quero!
Seu pai olhou ao irmão de Roald— Idiota ainda não entendeste que é sua
irmã?
Maisey olhando pra Roald empalideceu— É meu irmão?
— Não. — voltou a grunhir irritado sem deixar de olhá-la.
— Ele é filho de minha esposa. — disse Harald agarrando-a pelos ombros
para apartá-la. Seu pai e Roald se olharam fixamente — Sabe o que tem que
fazer?
— Sim, Jarl.
— Cumprirá com seu dever?
Ele assentiu olhando-a de lado. Ela semicerrou os olhos sem entender o que
estava acontecendo
— A protegerá e cuidará?
— Sim, Jarl.
Seu pai se aproximou de seu rosto— Se souber que fez mal a ela de algum
jeito, esfolo-te vivo…
Roald estreitou os olhos— Não conhece sua filha. Dentro de uns dias me
suplicará que a dome. — disse no idioma de seu pai.
Ela ofegou indignada e respondeu no mesmo idioma— Seu idiota, não fale
com meu pai assim sobre mim!
Todos a olharam surpreendidos e Olav gargalhou. — Sabia!
Harald sorriu abertamente e a agarrou pela cintura levantando-a enquanto
gritava.— Aqui têm a minha filha. Maisey, filha do Harald e esposa do Roald.
— ela ficou com a boca aberta e olhou pra Roald que sorriu satisfeito
cruzando os braços. Seu olhar não pressagiava nada bom enquanto todos
aclamavam. Estava-lhe dizendo que as pagaria todas juntas.
Quando seu pai a deixou no chão e Roald a agarrou pelos ombros pegando-a
a seu peito— Agora sim que é totalmente minha. — disse ele a seu ouvido.
Maisey olhou pra seu pai que estava dando um discurso — Vai ser muito
interessante, preciosa.
Ela olhou a seu redor e viu o olhar de ódio da mulher de seu pai. Tashia não
aceitou muito bem sua chegada. Seus olhos indicavam que a odiava. Ao
seguir observando viu Tavie escondida entre as mulheres — Pai…
— Sim, filha?
— Essa menina é minha. — disse apontando pra Tavie.
— Maisey…
— É minha!— gritou olhando à menina— Salvei a vida e é minha. — seu pai
assentiu e fez sinal pra menina, que se aproximou dela a toda pressa —
Ninguém a tocará porque é minha. E se me inteirar que algum homem ponha
um dedo em cima dela os cortarei todos. — disse-o de tal maneira que
acreditaram. Ah se acreditaram. Ao fim e ao cabo era filha de seu pai. Seu pai
riu a gargalhadas e gritou— Hoje é dia de festa! Celebramos a chegada de
minha filha e seu casamento!
Todos aclamaram e sussurrou a Tavie em seu idioma— Não se separe de
mim.
A menina assentiu. Sentaram-se a enorme mesa. Tavie ficou atrás dela e
como uma boa serva, encarregou-se de que não lhe faltasse nada. Serviram
carne de cervo e ela achou deliciosa.
— Me diga, filho algum problema na viagem?— perguntou seu pai olhando ao
Roald.
— Além de sua filha?— seus homens começaram a rir e ela os fulminou com
o olhar.
Harald sorriu apoiando suas costas no respaldo de sua grande cadeira— Diz
como se fosse um problema mais que uma bênção.
— É questão de opiniões.
— Diz isso porque subi em uma árvore. É um rancoroso. — disse ela antes de
mastigar.
— Preciosa porque não come e se cala?
Ela sorriu amorosa –Morra!
Seu pai gargalhava e deu vários golpes na mesa que todos acompanharam.
As bandejas de comida ricocheteavam na mesa e Tavie agarrou sua jarra para
que não derramasse.
— É uma lutadora de primeira, Harald. É ágil e muito rápida. — disse Sorem
com admiração.
Ruborizou-se ligeiramente enquanto todos a olhavam — E com o arco é letal.
— acrescentou Roald.
Harald a olhou com um sorriso nostálgico— Então ela te ensinou a se
proteger.
Emocionada assentiu — Sim, praticava todos os dias.
— E quem te ensinou nossa língua?
— Uma mulher que vivia perto de nós. Era viking.
— Ensinou-te bem.
— Foi muito boa conosco. — Deu uma piscadela e Roald franziu o cenho.
— Preciosa, entendeste tudo o que dissemos durante a viagem, verdade?
Seu pai pôs-se a rir entendendo— Sim. Tinha que saber o que pretendiam. —
disse como se ele fosse estúpido. Seu pai agarrou o estômago sem deixar de
rir.
— É inteligente, minha filha.
Roald grunhiu antes de meter uma parte de carne na boca. Maisey olhou a
seu redor e viu as gêmeas cochichando no que parecia. — Essas no salão são
suas gêmeas?
Fez-se o silêncio na mesa e Roald a fulminou com o olhar— Maisey…
Ela sorriu –Tranquilo…Só perguntava. — levantou-se de repente e lançou
uma faca que ninguém sabia que tinha na mão. A faca passou entre as
cabeças das gêmeas cravando-se no enorme poste que havia detrás. As
garotas olharam para trás e gritaram horrorizadas antes de sair correndo
uma pra cada lado — Olhem, podem separar-se.
Seus homens puseram-se a rir enquanto outros a olhavam atônitos. Voltou a
se sentar sorrindo abertamente e olhou a seu pai que a observava com
admiração.
— Sua mãe te ensinou bem, pequena.
— Obrigada, pai.
Lançou um olhar pra Roald que parecia que queria estrangulá-la.— Marido,
ponha outra cara. É nossa celebração.
Apertou os olhos e agarrou sua mão delicadamente.— Maisey…
— Sim, marido?— perguntou olhando-o nos olhos como se fosse a melhor
pessoa do mundo.
Ele levantou sua mão e a levou até sua boca beijando sua palma lhe cortando
o fôlego— Deixa as facas.
— Sim, esposo.
Harald riu e levantou sua caneca— Quero brindar por minha filha e por seu
casamento!— Todos aclamaram levantando-se com as canecas na mão —
Pelos netos que me dê com Roald o grande!
O grande? Ela o olhou a seu lado. Era certo que era grande e era dela. Sorriu
radiante olhando a seu pai — E por sua nova vida entre nós. Espero que
todos lhe dêem as boas-vindas como merece.
O olhar da mãe do Roald lhe indicava que não ia dar nenhuma boa-vinda.
Maisey levantou o queixo. Não ia poder com ela.
Capítulo 7

A celebração se estesndeu muito. Vários ficaram a cantar e a dançar


enquanto que outros bebiam hidromel. De fato, seu pai enchia a caneca
assim que esvaziava e houve um momento em que já não podia mais. Notava
que estava enjoando.
— É a tradição, filha. Deve beber hidromel depois de seus esponsais para me
dar muitos e fortes netos.
Como acabaria era bêbada e seu marido também. Olhou Roald que sorria de
orelha a orelha. Surpreendida lhe olhou bem. Jamais o tinha visto sorrir
assim— Está bêbado?
— Não, ainda. — agarrou-a pela nuca e a beijou enquanto outros aclamavam.
Quando a soltou, seu marido caiu para trás em sua cadeira fazendo rir a
todos.
— Pai, ele não vai servir de nada esta noite!— protestou ela fazendo-os rir.
Seu marido a olhava do chão .— Está bem?
— Preciosa, a vida contigo vai ser muito divertida.
Ela fez uma careta e se voltou para seu pai que também estava bastante
bêbado. — Pode-se saber onde dormiremos?
— Aqui.
Ela olhou a seu redor e não via quartos por nenhum lugar. Horrorizada
arregalou os olhos.— Não pode ser.
— O que ocorre, filha?
— Dormem todos juntos?— só de pensar que quando um casal queria
intimidade, tinha alguém dormindo a seu lado, punha-lhe os cabelos em pé.
Seu marido se sentou a seu lado — Não juntos. — ela suspirou de alívio—
Cada um em uma zona.
Olhou ao Roald como se fosse idiota— Não!
— Como que não?
Seu pai franziu o cenho— Minha filha quer que estejam sozinhos. Amanhã
lhes construirão uma casa.
Olhou pra o pai cheia de esperança como se ele tivesse-lhe dado a lua—
Seriamente?
— Sim, uma bem grande para toda a família que terão. — disse satisfeito.
— Obrigada, pai. — fulminou Roald com o olhar— Teria que ter pensado
nisso.
— E o fiz, preciosa. — disse antes de beber.
— É certo, Maisey. Disse-o. — comentou Tage totalmente bêbado — Mas ele
ia levar às gêmeas. — disse antes de dar uma risada.
Roald se levantou e empurrou seu primo pela cabeça atirando-o para trás.
Maisey se levantou para ver que ninguém se levantou, nem tinha intenções.
Pouco a pouco vários foram dormir. Seu pai e seu marido seguiam falando,
mas ela fazia tempo que já não escutava suas coisas. Olhou para trás e viu
que Tavie continuava ali.
— Menina, procura um canto para dormir. — negou com a cabeça. — Não se
preocupe, eu estarei perto.
A menina olhou ao seu redor e viu um lugar perto do fogo onde uma mulher
mais velha estava dormindo. Deitou-se no chão a seu lado e ela sorriu vendo-
a pôr as mãos sob o rosto. — Marido, vou dormir.
Ele a olhou surpreso como se não se lembrasse dela e Maisey revirou os
olhos. Grande noite de bodas!!! Pegou sua pele que continuava ao lado do
barril e se aproximou do fogo deitando-se a uns metros de Tavie. Dormiu com
um suspiro pensando que ali começava sua nova vida.
Despertou várias vezes pelos roncos dos homens, porque estava acostumada
a ter o sono ligeiro para que não a surpreendessem dormindo. Sorrindo
voltava a dormir entre os braços do Roald que a tinham abraçado durante a
noite.
Escutou um ruído durante a noite perto dela e sem abrir os olhos escutou
atentamente. Alguém estava se aproximando. No princípio pensou que se
aproximava de Tavie, mas passou por ela indo para eles. Os passos eram
ligeiros, assim era uma mulher. Virou suspirando como se estivesse
dormindo e abriu um pouco um olho. A mãe de Roald tinha uma adaga na
mão e se aproximava dela decidida. Esperou que se aproximasse e que se
ajoelhasse a seu lado. Levantou a mão com a adaga e Maisey estava disposta
a atacar quando a mão de Roald agarrou a sua mãe pelo braço fortemente.
— Te afaste de minha esposa. — sussurrou com a voz fria como o gelo lhe
tirando a adaga. Maisey fingiu ainda dormir.
— Esta puta! — disse com ódio— Filha de uma puta. Não tinha direito de te
obrigar a se casar com ela.
— Não me obrigou. Agora se afaste de minha esposa.
Não podia ver a cara da Tashia, mas sabia que estava sofrendo. Era lógico.
De repente se encontrava com a filha bastarda de seu marido, que ainda por
cima se casa com seu filho. Devia estar com raiva e magoada.
— Matarei-a cedo ou tarde. — disse a mulher com ódio.
Roald se afastou brandamente de Maisey e levantou sem fazer ruído — Se
afaste de minha esposa. Não se aproxime nunca mais de Maisey, porque se o
fizer terei que fazer algo que eu não gostarei nada. Jurei protegê-la e o farei.
Sua mãe deu um passo pra trás. Maisey pôde vê-la. Estava pálida e se sentia
traída. Sentiu muita pena dela.
Afastou-se deles e Roald deitou a seu lado abraçando-a.
— Voltará a tentar. — sussurrou ela em seu ouvido.
— Sei. — beijou-a na têmpora— Dorme, preciosa. Descansa.
Maisey sorriu contra seu peito e se deixou levar pelo sono.
Os sons do salão a despertaram. Tavie estava sentada a seu lado sem mover-
se e não via o Roald em lugar nenhum— Onde está meu marido?
— Saiu, Maisey. Disse-me que te vigiasse.
Ela sorriu levantando-se e recolhendo a pele do chão. — Tomou o café da
manhã?— a menina negou com a cabeça— Pois vamos procurar algo para
tomar o café da manhã— disse decidida olhando ao seu redor.
Foram para a enorme cozinha onde várias mulheres estavam trabalhando e a
olharam de esguelha as ignorando — Desculpem, temos fome.
Uma mulher com tranças ao redor da cabeça e uma grande barriga se voltou
lentamente. Olhou-a de cima a baixo com desprezo e Maisey se esticou—
Então a bastarda do Jarl tem fome.
As risadas as rodearam e Tavie se voltou rapidamente para ver três mulheres
atrás delas. aproximou-se de Maisey nervosa e ela entrecerrou os olhos—
Está me dizendo que não me dará algo pra comer?— deu um passo para a
mulher que cruzou os braços— Não lhe ensinaram boas maneiras quando era
pequena? Em meu povo os convidados recebem alimentos e proteção se
necessitarem.
— Você não é uma convidada.
— Exato. Sou a filha do Jarl e a esposa de Roald. — sua voz gelada indicava
que não estava de bom humor.
— Isso até que Tashia te jogue daqui.
Maisey sorriu diabólicamente – Acredita que conseguirá me jogar?
— Tenho certeza. Sempre consegue o que quer.
Saltou sobre a mulher atirando-a no chão e agarrando suas tranças. As
mulheres chiaram ao seu redor dando um passo atrás e Tavie sorriu
divertida. Maisey olhou nos olhos da mulher— Pois inteira-se bem, gorda
estúpida. Antes de que essa asquerosa vingativa me jogue posso partir um
par de ossos assim me dê de comer antes que me ponha de pior humor!
Levantou-se deixando a mulher ali jogada morta de medo— Aqui está. —
disse uma das mulheres aproximando-se da luz.
— Não!— gritou Maisey — Ela me dará isso!
A mulher dolorida se levantou lentamente e agarrou uma tijela servindo o que
parecia leite. Estendeu pra Tavie que o recebeu com desconfiança. Não era
tola a menina, podia ter jogado em cima dela e queimá-la.
Quando Maisey agarrou a tijela, outra mulher estendeu umas colheres e
sorriu antes de dizer— Obrigada…
A mulher gaguejou— Lala.
— Obrigada, Lala.
Tavie a seguiu para a mesa e se sentaram em um grande banco — Está bom.
— disse ela à menina.
— Sim. — Tavie sorriu abertamente— Obrigada.
— Por quê?
— Por cuidar de mim. — sussurrou a menina baixando o olhar pra tijela
Maisey a observou. Era tão jovem. Não sabia o que teria feito se sua mãe
tivesse desaparecido nessa idade. Provavelmente estaria morta.
— Fará-me companhia. — disse indiferente olhando a seu redor. Vários
homens seguiam roncando, mas não via seu pai por nenhum lugar. — Nos
divertiremos.
— Farão nossa vida impossível.
— Por isso digo que nos divertiremos.
Tavie soltou uma risada e ela sorriu— Vamos, temos muito que fazer.
— Como o quê?
— Não sei, mas encontraremos algo.
Sorrindo saíram da casa do Jarl e ficaram com a boca aberta ao ver muita
gente trabalhando fora. Estavam empilhando enormes trocos diante da casa e
ela viu o Tage com um machado. Aproximou-se apressadamente— O que
fazem?
Tage sorriu — Vamos fazer sua casa.
Maisey olhou a seu redor— Sim, mas como?
— O Jarl vai fazer pregada na sua casa. Para te ter perto, diz.
Buscou-lhe com o olhar e saiu correndo para seu pai que estava dando
ordens – Pai!
Voltou-se e sorriu abrindo os braços. Maisey lhe abraçou com força— Vai
realmente fazê-la.
— Se a minha menina não gosta de dormir com todos para ficar a vontade
com seu marido, isso terá.
— Maisey…
Voltou-se para ver o Roald a seu lado e ela sorriu radiante — Vamos ter uma
casa!— estava tão excitada que Roald sorriu agarrando-a pela cintura e
encostando-a nele— Será quadrada?
— Quer que seja quadrada?— perguntou divertido.
Ruborizou-se fazendo rir a seu pai — É que não estou acostumada a
habitações redondas.
— Quadrada será. — disse Roald antes de beijar-la nos lábios — Agora volte à
casa.
— Quero ajudar…
Seu pai e Roald a olharam com o cenho franzido— Filha, pode se machucar.
É melhor que espere na casa perto do fogo.
Maisey levantou uma sobrancelha e Roald pôs-se a rir— Harald, é dura como
uma rocha. Não pense que tem uma filha delicada.
— Sou delicada!
— Vá pra dentro e que as mulheres lhe dêem um vestido novo. — deu-lhe
uma palmada no traseiro.
As mulheres não lhe dariam nada, mas não queria preocupar os homens com
esses inconvenientes, assim sorriu.
— Posso ir caçar…— Roald revirou os olhos — Se me derem um arco posso
trazer algo para o jantar.
Harald pôs os braços nos quadris — Teria que trazer vinte lebres para
alimentar a todos os meus. — parecia divertido e ela ficou com as mãos nos
quadris diante dele.
— E?
— Será capaz?
Ela semicerrou os olhos— Se trouxer as vinte lebres me conseguirá um
cavalo?
Seu pai pôs-se a rir a gargalhadas e deu uma palmada nas costas de seu
marido.
– Um cavalo?— perguntou Roald franzindo o cenho— Para que quer um
cavalo se não vai a nenhum lugar?
— Você não tem um cavalo?
Ele olhou pra seu pai — Não é boa ideia.
Seu pai olhou aos dois — Se seu marido disser que não, é não, filha.
Ela cruzou os braços.— Quero um grande cavalo branco. O que tenho que
fazer para consegui-lo?
Roald sorriu— Terá o cavalo branco mais formoso destas terras quando me
der um filho.
Ela abriu bem os olhos indignada enquanto seu pai gargalhava.
— Mas se trouxer as lebres…— olhou ansiosa pra ele.
— Se trouxer as lebres te darei de presente o pente mais bonito que jamais
tenha visto.
Maisey sorriu encantada e pulou de alegria— Trato feito. Onde está meu
arco?
Roald olhou ao redor e viu o Thorbert. Chamou-o aos gritos— Dê um arco pra
Maisey.
— Vamos, Tavie. Temos muito que fazer.
A menina sorriu seguindo-a a uma espécie de abrigo depois da casa do Jarl.
O arco que Thorbert lhe deu não era como o seu. Era um pouco maior, mas
estava bem esticado. Satisfeita agarrou as flechas e disse — Preciso de uma
faca.
Thorbert cerrou os olhos e negou com a cabeça— Arco. Só isso.
— Mas vou precisar!— protestou ela.
— Arco.
Resmungando saiu dali e Tavie a seguiu.
— Não se afaste muito!— gritou-lhe Thorbert— Roald nos mataria se te
acontecesse algo.
Sorriu sem lhe dar importância e deu uma piscadela à menina que soltou
uma risadinha. Passou toda a manhã ensinando Tavie a caçar — Muito bem.
— sussurrou ela vendo uma lebre— Quando estiver segura solta a corda. A
confiança é o importante.
Tavie soltou a corda e não acertou a lebre por muito pouco. Sentiu-se
decepcionada e Maisey pôs-se a rir— A primeira vez que saí pra caçar não vi
nem sequer uma lebre. Fez muito bem. Em pouco tempo você conseguirá o
jantar. — a menina sorriu lhe estendendo o arco— Bom, é hora de começar
ou não teremos tempo de cozinhá-los.
No meio da tarde subiram a colina carregadas de lebres e quando rodearam a
casa para entrar pela porta principal seu marido estava montado a cavalo
gritando:
— Vamos procurá-las no bosque! Se estão feridas tem que haver algum
rastro!
— O que aconteceu?— perguntou ao Tage que também estava subido ao
cavalo.
Tage a olhou e revirou os olhos enquanto Roald seguia gritando. Sem lhe
responder o amigo de seu marido olhou pra Roald.— Maisey está aqui.
Todos olharam para ela e sorriu –Olá, meninos. A quem procuram?
— Por todos os Deuses, mulher! Foste-te há horas!— Roald vociferava
descendo do cavalo enquanto seus amigos riam entre dentes.
— Sabia que tinha ido caçar. — levantou as lebres e Tavie a imitou— Me deve
um pente.
Roald a olhou atônito e seu pai avisado por alguém, nesse momento saía da
casa. Ao vê-la com as lebres em alto riu estrondosamente. — Você conseguiu,
filha.
— Não foi tão difícil. — ignorando seu marido foi até seu pai— Vou fazer um
guisado pra você que vai chupar os dedos.
Seu pai a olhou emocionado e assentiu enquanto ela entrava na casa. Pai e
genro se olharam — É de usar armas não é verdade?
Roald grunhiu fazendo seus amigos rirem.
Essa noite no jantar ela lhes serviu o guisado de lebre que tinha preparado.
Seu pai sorriu enquanto mastigava e ela suspirou de alívio. Não sabia se
gostaria de como cozinhava e não é que ali houvesse muitas ervas para fazê-
lo bem. Olhou Roald que estava levantando a colher olhando o espesso caldo
— Preciosa o que lhe jogaste?
Tage se colocou uma colherada na boca com vontade e franziu o nariz antes
de notar que ela o estava olhando, então sorriu e começou a mastigar com
vontade
— Não está bom?
— Está muito bom, filha. — disse seu pai colocando outra vez a colher na
terrina.
Na mesa se fez um silêncio que lhe fez morder o lábio inferior. Agarrou sua
colher e o provou. Arregalou os olhos pois estava muito temperado inclusive
salgado. Olhou ao seu redor surpreendida porque não tinha botado sal pois
com as ervas parecia ser suficiente. Ao ver que uma das gêmeas ria apertou
os olhos— Não comam, não está bom. — disse levantando-se.
— Não está tão mau. — disse Tage antes de beber hidromel.
— Não, princesa. Pode-se comer. — disse Olav.
Ela com objetivo em seu olhar caminhou para o final da mesa onde estão
sentadas as gêmeas. Ao ver que se aproximava se calaram no ato.
— Querem conhecer as que me ajudaram pra que saísse tão bom?—
aproximou-se por detrás às gêmeas e as agarrou pelo cabelo as fazendo gritar
quando caíram para trás.
— Maisey, as solte!— a advertência da voz do Roald a pôs mais furiosa.
— Claro, marido. Em seguida.
Arrastou suas tranças até o centro do salão e as olhou furiosa— Bem,
querem briga?
Uma delas a olhou com ódio— Estúpida escocesa.
Ela a quem sempre tinham chamado viking, isso a deixou irada.
— Escocesa né?— Acertou-lhe um tapa que a lançou ao chão.
— Maisey!— o grito do Roald enquanto se levantava de seu assento fez que o
olhasse — Deixe-as!
— Elas começaram!
Seu marido se aproximou furioso e a agarrou pelo braço afastando-a. A cara
de satisfação da que se livrou a pôs ainda mais nervosa— Do que está rindo,
vagabunda?
— Ele voltará para mim. — disse levantando-se e desafiando-a.
— Basta!— gritou Roald virando-a para que o olhasse — Não é ninguém para
as castigar! São minhas!— essas palavras foram como um golpe para Maisey
que empalideceu visivelmente— Não pense em encostar um dedo em cima
delas me ouve?— gritou-lhe na cara.
— Roald…— disse Sorem preocupado.
— Fecha a boca! Isto é entre minha esposa e eu!
Maisey soltou seu braço levantando-o de repente e disse friamente— Não vou
deixar que suas putas me pisoteiem. Não deixarei que ninguém o faça nunca.
Nem sequer você.
Roald a agarrou pelo pescoço — Recorda com quem está falando.
— Recordo-o muito bem. — disse entre dentes — Agora me solte antes de que
volte a fazer uma tolice.
Roald entrecerrou os olhos abaixando sua mão. Ao voltar-se viu que seu pai
estava de pé com os punhos apertados disposto a intervir. Furiosa foi até a
enorme porta e saiu batendo a porta com força. Começou a caminhar sem
rumo fixo e chegou até o embarcadouro. Caminhou pela margem do rio com
passos rápidos. Não podia acreditar que se pôs do lado dessas putas. Acaso
alguma vez ia ficar do lado dela? Estava farta de brigar com todo mundo, mas
fazê-lo com seu marido era devastador. Sentiu uma vontade enorme de
chorar e disse pra si mesma que isso não servia de nada. Viu o reflexo da lua
na água e suspirou sentando-se em um tronco caido. Olhou suas mãos que
tremiam e as apertou com força. Depois de uns minutos escutou que alguém
se aproximava e se voltou para ver Olav chegar.— O que faz aqui?
— Não deve agir assim, princesa. — disse seu amigo sentando-se a seu lado.
— Claro. — Irritada cruzou os braços.
— Elas estavam aqui antes de você sentem ciúmes.
— Mas é que agora ele é meu marido!
— Sim. — olhou-a sorrindo— Recorda o que te disse? Não conseguirá que te
seja fiel até…
— Que me ame.
— Isso. — deu-lhe um tapinha no ombro — Muitas coisas mudarão no
futuro. Não se renda, princesa. Precisamos de você.
— O que quer dizer?
— Ainda não sei. É um pressentimento. — sussurrou Olav— Como quando
sabe que vai chover ou que não está sozinho. Algo que nos alerta de que
alguma coisa vai acontecer.
— Vai cair um raio em mim?— perguntou divertida.
Olav riu e ela o imitou. Assim os encontrou Roald –Olav nos deixa sozinhos?
— Sim. — Olav se levantou ainda rindo movendo a cabeça de um lado a outro
como se não pudesse com ela.
Seu marido se aproximou e por sua maneira de olhá-la estava zangado. Fez
uma careta olhando o rio.
— Maisey, aqui as coisas são de uma maneira e tem que se acostumar. — ela
não disse nada enquanto permanecia olhando a água— É minha esposa e
não porque eu tenha querido!— gritou-lhe fazendo que Maisey sentisse uma
dor no peito— E não vou consentir que me exponha ao ridículo diante de
minha gente!— ao dar-se conta que não dizia nada continuou— Por todos os
Deuses, não pode ir por aí golpeando todas as mulheres deste clã! Pensa que
não soube do que que fez a Lala! É a mulher mais agradável que há aqui e
você se atiraste sobre ela como uma gata furiosa! Isso se acabou! Caso veja
que levanta a mão pra outra pessoa, vou te dar uma surra diante de todos!
Entendeste-me?
A dor no peito a fazia respirar mal e se dobrou sobre si mesma tentando
recuperar o fôlego— Maisey? — não sabia o que lhe acontecia e a angústia a
embargou levando a mão ao peito cuja dor a rasgava. Caiu de joelhos sobre a
erva úmida e Roald gritou— Maisey!— agachou-se a seu lado segurando seus
braços para endireitá-la— Preciosa o que está sentindo?— perguntou ao ver
que lhe custava respirar— Maisey!
Aterrorizou-se quando tudo ficou negro e perdeu Roald de vista. Caiu entre
seus braços desmaiada enquanto Roald a chamava desesperado.
Quando despertou várias caras estavam sobre ela. Seu pai a olhava
preocupado— Ela despertou. O que você tem, filha? Está doente?
Ela olhou a todos. Olav a olhava alisando barba enquanto que Tage parecia
ansioso, Sorem estava nervoso e Roald pálido.
— Não sei o que me aconteceu. — sussurrou com os olhos muito abertos.
— Está branca como a neve. — disse seu pai lhe tocando a bochecha— Tage,
vá a chamar a Wava.
— Quem é Wava?
— É nossa bruxa. — disse Roald lhe agarrando a mão — Está melhor?
— Sim, estou bem. — sussurrou afastando a mão e levando-lhe à frente—
Não necessito de ninguém.— sentou-se e se deu conta que todo o clã a olhava
— Estou bem.
Tavie se aproximou com uma taça— Bebe, Maisey. É que não comeste no café
da manhã e está cansada.
— Sim, deve ser isso. — sua mão tremia e Tavie a ajudou segurando a taça.
— Onde está essa bruxa?— gritou seu pai furioso — Comida para minha
filha!
— Pai, estou bem. — deu-se conta que estava sobre a enorme mesa e afastou
as pernas para descer.
— Espera. — disse Roald muito sério segurando suas pernas— Até que Wava
te veja não te moverá.
A porta da casa se abriu deixando entrar uma mulher que era linda. Era
ruiva e devia ter uns quarenta anos. A mulher mais formosa que já tinha
visto. Assim que a viu sorriu de orelha a orelha— Assim que sua filha chegou,
Harald.
— Wava, não sei o que lhe passou. Perdeu os sentidos. — disse seu pai
nervoso.
A bruxa a olhou pondo os braços nos quadris. Seu vestido verde tinha
bordados no pescoço e era de qualidade. Aproximou-se dela e a agarrou pelo
queixo lhe levantando o rosto— É mais formosa do que eu imaginava. — disse
sorrindo— A mais bonita das mulheres.
Olhou surpreendida à mulher— Não é verdade.
Wava sorriu e afastou seu cabelo da cara olhando-a nos olhos— Tem a força
do Thor, pequena. — os murmúrios os rodearam— Silêncio!— gritou ela
olhando a seu redor furiosa.— Sabem o que estão vendo, bando de
ignorantes?— Maisey surpreendida olhou ao seu redor. Todo o clã escutava
com atenção — Estão vendo a maior das vikings!— Muitos a olharam como se
estivesse louca e várias risadinhas percorreram a sala — Ela fará que nosso
povo se una! Ela é nossa esperança!
— Mulher o que está dizendo?— perguntou Maisey confusa. Olhou pra seu
pai que a observava com atenção — Pai, lhe diga pra não dizer essas coisas.
— Bruxa, está dizendo disparates! Agora me diga o que tem minha esposa. —
Roald estava furioso.
Wava sorriu — Sua esposa. — depois começou a rir muito deixando-os
atônitos— Sua esposa não é tua, viking. — Roald se esticou— Recorda
minhas palavras, Roald o grande. — disse com brincadeira— A filha do
Harald fará uma comprida viagem e terá que decidir. — disse olhando-o com
seus olhos verdes.
— O que terá que decidir?— perguntou Olav.
Wava se pôs-se a rir outra vez— Se quer que Roald seja seu marido. Terá
vários para escolher.
Roald se enfureceu— O que diz, bruxa?
— Digo que pode ser que leve sua semente em seu interior, mas que você não
será seu marido até que ela assim o queira.
— Está dizendo que ela não quer?— olhou pra Maisey como se quizesse
matá-la e Wava riu captando sua atenção.
— O que esperava, viking? Que ela caísse rendida a seus pés? — apontou-lhe
com o dedo— Recorda minhas palavras. Vários a quererão e ela terá que
decidir. E escolherá bem.
— Não escolhi bem o marido a minha filha, bruxa?— perguntou Harald
preocupado.
— Precipitaste-te. Acaso ela disse que quer esta união?
Todos a olharam e ela corou ligeiramente recuperando um pouco de cor—
Responde!— gritou Roald.
Ela o olhou friamente pois lhe tinha feito mal— Eu não disse que sim e isso
todo mundo viu.
Vários ofegos percorreram a sala e Roald a agarrou pela nuca lhe gritando à
cara— É minha! Ouve-me? E antes de que você vá com outro, eu te mato!
A bruxa pôs-se a rir— Não pode deter os ventos, como não pode deter os
mares. Tampouco poderá deter nossa princesa.
— Deixa de chamá-la assim!
— Nega-se a aceitar o que todo mundo vê. Ela é especial!
— Isso é certo, não conheci nenhuma mulher como ela. — disse Sorem muito
sério.
— O que tem de especial, pode saber-se?— perguntou seu marido irônico—
Acaso não tem duas pernas e dois braços? Acaso não sofre se lhe faz mal?
Wava olhou Maisey nos olhos— Claro que sofre. Mas não o demonstra
verdade, pequena? — sorriu como se a entendesse e Maisey sentiu que via
através de seus olhos— Sofreu muito. — sussurrou Wava— E ainda tem
muito por sofrer.
— O que devo fazer bruxa?— perguntou seu pai preocupado.
— Você não pode fazer nada. O destino está marcado— disse virando para ir
para a porta — Sua filha seguirá seu caminho.
— Isso não ocorrerá! Está me ouvindo?— gritou Roald furioso— Eu me
encarregarei de que isso não aconteça!
A risada da Wava se escutou inclusive depois que ela desapareceu, deixando
um silêncio ensurdecedor atrás dela. Roald a agarrou pelos braços e a levou a
uma zona mais afastada sentando-a no chão.— Escute bem. — disse ele com
os olhos entrecerrados — Caso te ocorra sair da aldeia, eu te mato!—
agarrou-a pela nuca olhando-a nos olhos— Ouviste bem?— gritou-lhe na
cara.— Não sairá daqui até que eu o diga! E se vejo que se aproxima de
algum homem, eu os mato!
Ergueu-se olhando-a de cima — Por que tem medo?— perguntou sem pensar.
Nem viu o bofetão que a acertou virando seu rosto— Roald!— gritou seu pai.
Vários homens se aproximaram agarrando seus braços— Ela não fez nada,
Roald está louco?— perguntou Olav olhando-o como se não o conhecesse.
Maisey levantou os olhos, limpando o sangue do canto da boca com o dorso
da mão, olhando-o com ódio. Roald deu um passo atrás quando viu seus
olhos cinzentos como um dia de tormenta — Maisey, eu…
— Não se aproxime mais de mim!— gritou ela furiosa.
Ele deu outro passo pra trás e deu um empurrão em Tage para afastá-lo,
saindo da casa de seu pai a toda pressa. Harald se aproximou de sua filha e
se agachou a seu lado— Minha menina, está bem?
— Sim, pai. — Deitando-se no chão frio — Estou bem. Só preciso dormir um
pouco.
Seu pai, que não sabia como comportar-se, assentiu— Isso é, filha.
Descansa. Amanhã tudo será diferente.
Tavie deitou a seu lado cobrindo-a com a pele — Me levará contigo?—
sussurrou a menina.
— Não vou a nenhum lugar. Agora durma.
Capítulo 8

Maisey olhando para a parede deixou que as lágrimas percorressem suas


bochechas enquanto tampava seu rosto com a pele. Recordou as palavras de
Roald perto do rio dizendo que ele não tinha pedido pra casar-se com ela e o
tapa que ele havia dado nela uns minutos antes enquanto a olhava com fúria.
Embora depois de que a tivesse estrangulado não sabia porque que pensou
que seria diferente. Ele não a queria. Desejava-a, mas não a amava. Ter que
casar-se com ela tinha sido algo que não tinha previsto. Roald a queria como
sua escrava para poder fazer com ela o que quisesse.
— Não chore, Maisey. — sussurrou Tavie acariciando suas costas.
— Não choro. — respondeu duramente— Não te disse que dormisse?
— Sim, Maisey.
Não dormiu nada em toda a noite e assim que amanheceu cobriu Tavie com a
pele saindo da casa. Assim que se alíviou, foi até o cais e se sentou. Fazia
frio, mas não gostaria de ver ninguém. Sentiu a presença do Roald atrás dela
mas não se voltou.
— Preciosa, perdoa-me?
— Não.
— Não sei o que me passou. — sentou-se atrás dela passando uma perna a
cada lado e abraçando-a. Ela tentou soltar-se, mas a segurou — Sinto muito,
de verdade. — sussurrou-lhe ao ouvido acariciando seu cabelo com a
bochecha.
— Não quer estar casado comigo, não sei porque se zanga tanto quando
alguém diz que vou te deixar.
Roald ficou tenso atrás dela— Isso não vai acontecer.
— Você quer fazer o que te dá vontade, mas eu tenho que suportar suas
amantes ao meu lado. — disse friamente — E não posso protestar quando
riem de mim.
— Resolverei isso. Juro-te que não rirão mais de ti. E solucionarei também o
de minha mãe. Não tem que preocupar-se mais com elas, prometo-lhe isso.
Ela suspirou pois não dizia as palavras que queria ouvir. Beijou-a no pescoço
e seguiu descendo por seu ombro afastando seu vestido. Maisey se apartou
levantando-se agilmente e afastando-se dele. Olhou-lhe furiosa— Não vou
deixar que me toque até que veja que não me trata como uma escrava.
Roald cerrou os olhos— Isso significa que não me perdoaste?— levantou-se
de repente e a agarrou no braço— É minha esposa!
— Isso está por ver. — disse tentando soltar-se.
Agarrou-a pelo cabelo e jogou sua cabeça para trás beijando-a com paixão.
Maisey tentou resistir, mas quando com a mão livre lhe acariciou um peito
por cima do vestido, gemeu em sua boca sem poder evitá-lo. Roald a agarrou
pelos quadris apertando-a a seu corpo e ela pôde sentir sua excitação. Subiu
as mãos a seu pescoço e o abraçou enquanto Roald a subia até sua altura
colando-a nele. Sem abandonar sua boca, tirou-a do cais para deitá-la sobre
a erva e com pressa lhe subiu o vestido para levar as mãos na sua calça.
Empurrou as calças para baixo e como não podia tirar-lhe totalmente a
deitou de lado colocando-se atrás dela. Ela gemeu sentindo como entrava
nela e levou uma mão atrás cravando suas unhas em seu traseiro, enquanto
ele a investia com força fazendo-a gritar de prazer. Roald a abraçou a seu
peito enquanto a beijava no pescoço sem deixar de entrar nela com um ritmo
rápido que a deixou sem fôlego. De repente a percorreu um intenso prazer
que acreditou que a mataria, enquanto Roald a apertava a ele com força.
Separou-se lentamente e a vestiu como a uma menina enquanto Maisey
tentava recuperar-se. Acariciou seu ventre e a abraçou sentando-a sobre
suas pernas— É minha esposa. — sussurrou beijando seus lábios com
delicadeza— E o será até o dia de sua morte.
Maisey abriu os olhos olhando sua cara. A barba começava a crescer
obscurecendo sua mandíbula e seus olhos verdes tinham ligeiras olheiras sob
os olhos. Acariciou sua bochecha sem dar-se conta até chegar a sua cabeleira
negra que colheu com ambas as mãos com força— Se eu te vir com outra
mulher, corto isso que tem entre as pernas!
Roald sorriu acariciando seu traseiro— Está com ciúmes?
Ela se aproximou pra beijar seus lábios e mordeu com força seu lábio inferior
fazendo-o afastar-se— Isso é para lembrar o que pode te acontecer.
Roald tirando sua língua limpou o sangue e ela olhando seus lábios,
aproximou-se pra beijar sua ferida e acariciá-la com sua língua. Beijaram-se
apaixonadamente até que ela se afastou para olhar seus olhos— Agora
termina essa casa de uma maldita vez para poder discutirmos a vontade.
Roald riu acariciando seu peito e voltou a beijá-la antes de levantá-la
levando-a com ele. Assim a levou até a casa deixando-a na porta— Come
algo. Ontem quase não comeu nada. — beijou-a delicadamente antes de
voltar-se e agarrar um machado que havia sobre um toco.
Sorriu virando-se e entrou na casa.
Ao entrar as pessoas estavam levantando-se e as mulheres começavam a
fazer o café da manhã. Aproximou-se e perguntou— Posso ajudar?
Lala a olhou surpresa e Maisey se endireitou— Sim, claro. Traz o leite.
Maisey sorriu e perguntou— E onde está?
Lala sorriu levando a mão ao quadril— Na vaca, princesa.
Arregalou os olhos e depois gargalhou — Nunca ordenhei uma vaca.
A mulher sorriu –Pois não percamos tempo. — acompanhou-a e agarrou um
balde. Saíram da casa e desceram a colina até um grande abrigo.
Assombrada viu que estava cheio de vacas. Lala agarrou um pequeno
tamborete e se aproximou de uma delas deixando o balde sob as úberes —
Sente-se.
Ela o fez decidida e Lala se agachou a seu lado— Agarra as tetas e tira.
Maisey o fez com delicadeza, mas não saiu nada. Lala pôs-se a rir— Princesa,
de cima a baixo e não lhe faz mal.
Voltou-o a tentar e saiu um jorro. Contente por aprender algo, voltou a fazê-lo
e Lala assentiu— Muito bem. Quando terminar leva o balde pra casa.
— Sim, Lala. — disse distraída cuidando de não atirar o leite fora do balde.
A mulher a olhou e sorriu saindo do estábulo. Quando encheu o balde, olhou
o resto das vacas e encolheu os ombros agarrando a asa para levá-lo a casa.
Estava entrando no salão carregada com o balde quando se encontrou com
as gêmeas. Deixaram-na passar, mas uma delas deu-lhe uma rasteira
atirando-a ao chão e esparramando o leite por todo o chão.
— Ingrid, Silje!— gritou Lala com um pau na mão— Venham aqui!
As gêmeas perderam o sorriso— Não fizemos nada!
— Venham aqui!
As gêmeas se aproximaram enquanto Maisey se ajoelhava no chão olhando
seu vestido furiosa. Gemeu ao ver o leite sobre o chão. Tavie se aproximou
dela e a ajudou a levantar-se. Ao ver seu olhar de fúria lhe sussurrou — Não
o faça.
Lala estava dando uma reprimenda nas gêmeas, que por suas caras entrava
em um ouvido e saía pelo outro.
— Já chega. — disse entre dentes— Essas duas vão entender agora.
Aproximou-se delas por detrás e as agarrou pelas tranças puxando-as.
Gritaram levando suas mãos à base de seu cabelo enquanto Maisey as tirava
da casa.
— Maisey!— gritou Lala— Vão te dar uma surra!
— Valerá a pena!— gritou atirando elas pela porta.
Ao sair fora as empurrou puxando seus cabelos em círculo e elas cairam uma
sobre a outra— Bem quem é a primeira?— Uma ficou de joelhos e se levantou
rapidamente –Vamos. — disse sorrindo— Não é o que querem? Vem me
destroçar a cara.
Lançou-se a ela, mas Maisey se esquivou dando uma joelhada no estômago.
Sujeitando o ventre, caiu de joelhos gemendo. A outra se atirou sobre ela
pelas costas, lhe agarrando o cabelo e Maisey se deixou cair de costas sobre
ela. Ouviu o gemido atrás dela e deu-lhe uma cotovelada de lado, deixando-a
sem fôlego.
— Maisey!— gritou seu marido que chegava correndo com seus homens
atrás.
— Em seguida estou contigo. — disse quando a outra a agarrou pela perna
tentando separa-la da irmã. Liberou a perna e lhe deu um chute na cara.
Seu pai se aproximou por outro lado— Filha, outra vez?
— Não se dão por vencidas, pai. — disse antes de morder uma no braço e de
lhe dar uma cotovelada na cara. Quando soltou o cabelo da outra gêmea esta
caiu sentada ao chão, Maisey olhou para baixo enquanto Roald chegava a seu
lado.
— Mulher…— disse seu marido.
— Já terminei. — disse fazendo-se de inocente enquanto as gêmeas gemiam
no chão.
— O que te havia dito, Maisey?— gritou seu marido.
— Derramaram o meu leite!
Roald olhou a seu pai sem entender e este encolheu os ombros. Mostrou seu
vestido e os dois entrecerraram os olhos. –Ingrid…
Uma delas levantou o olhar enquanto tampava o nariz— Não é verdade.
Tropeçou sozinha.
— Isso é mentira. — disse Lala com várias mulheres detrás da porta — Eu vi.
Fizeram-na cair.
Roald se endireitou e se aproximou das gêmeas— Fizeram guerra contra
minha esposa?— sua voz indicava que não estava para brincadeiras — Então
a deixarei fazer com vocês o que lhe dê vontade.
As gêmeas arregalaram os olhos assustadas — Deveria as vender, Roald. —
disse seu pai — Não haverá paz em sua casa com as três juntas.
Roald apertou os lábios as olhando. Voltou-se para sua esposa que sorria
angelicalmente— Não parará verdade?
— Farão elas?
— Venda-me elas, Roald— disse Thorbert as olhando com desejo.
— Negociemos. — disse seu marido fazendo que quase chiasse de alegria.
Olhou triunfante às gêmeas e seu pai a agarrou pelos ombros antes de lhe
dizer ao ouvido— Filha, deve-me uma.
— Feito.
Os homens entraram na casa e viram as mulheres limpando o leite do chão.
Roald apertou os lábios e Maisey agarrou o cubo — Lala, agora vou pegar
mais.
— Não há pressa, princesa. — disse a mulher do lar.
Tashia a observou da mesa e Maisey franziu o cenho ao ver seu ódio no olhar.
Decidiu ignorá-la e voltou para o estábulo com Tavie detrás que sorria
abertamente. Ao chegar ali, ensinou Tavie a ordenhar. Pensava lhe ensinar
tudo o que pudesse. E assim que fora maior, escolheria um bom homem com
a que casá-la.
Quando voltaram, deram o leite a Lala que o jogou em uma enorme panela.
Jogou mel e uns cereais triturados.
— Em seguida tomaremos o café da manhã. Por que não vai trocar de
vestido?
Ruborizou-se olhando o rasgo de sua manga— Não tenho outro.
— Unnea, vem aqui!
Uma garota da idade de Maisey se aproximou a toda pressa— Busque um
vestido à princesa e roupa interior para que se tire essas horrorosas calças. E
algo para que prenda o cabelo.
A garota se afastou e Maisey disse –Obrigada.
Lala a olhou sorrindo— Sinto muito por ontem.
— Sinto ter te atirado no chão.
— Mentirosa.
Maisey pôs-se a rir atraindo os olhares dos homens sentados à mesa. Roald a
olhou fixamente e piscou pra ela com um olho. A mulher voltou com um
montão de roupa na mão. Inclusive trouxe uma capa para cobrir-se agora
que começava a fazer frio.
— Obrigado Unnea.
A garota sorriu abaixando a cabeça. Agarrou-lhe a roupa e se aproximou de
seu marido com ela na mão. Disse-lhe ao ouvido— Quero me banhar.
— Falaremos logo. — disse seu marido levantando-se de repente deixando-os
ainda falando.
Agarrou-a pela cintura fazendo-a rir por sua pressa. Levou-a a um lugar do
rio que estava resguardado e a ajudou a despir-se entre risadas e beijos
apaixonados. Ele fez amor com ela no rio com paixão e inclusive a ajudou a
vestir-se com a roupa nova.
— Está preciosa. — disse-lhe lhe colocando a capa de cor azul. Seu cabelo
estava molhado e ela passou seus dedos por ele para desenredá-lo.
— Deve-me um pente.
— Darei-lhe isso agora mesmo. — disse agarrando sua mão e levando-a para
as casas.
— Seriamente?
Foram até uma pequena cabana. Mas bem parecia um pequeno abrigo. Roald
abriu a porta e entrou no interior— O que tem aí?
— São as riquezas que acumulei. — disse ele de dentro da cabana.
— E as tem aqui? –estava tão surpreendida que não sabia o que dizer. Abriu
a porta e viu ele procurando algo dentro. Havia peças de ouro e prata. Arma
com pedras preciosas incrustadas e inclusive havia um cofre finamente
trabalhado — Roald… — sussurrou admirada.
— Meu clã não as pegaria, são minhas. — disse aproximando-se sorrindo
com algo na mão. Levantou o pente e ela gemeu de alegria. Era de ouro e na
base tinha umas pedras vermelhas muito bonitas— Você gosta?
— É belo! — disse emocionada ao bordo das lágrimas.
— Ei, ei — levantou o queixo dela preocupado— Por que chora?
— Nunca me deram nada tão lindo. — sussurrou desviando o olhar
envergonhado.
Roald sorriu e se afastou abrindo o cofre— Então isto te vai encantar.
— O quê?
— Me dê a mão. — disse escondendo algo em seu punho.
Ela abriu a mão impaciente com a palma para cima e Roald a girou pondo
um anel em seu dedo indicador. Maisey ofegou com os olhos arregalados. Era
o anel de um rei! Nunca tinha visto nada igual. Uma pedra verde rodeada de
ouro e um fino aro com símbolos gravados.
— É precioso. — disse admirada. Olhou pra seu marido— Mas não posso
usá-lo
— Por quê?
— Roald, é muito valioso. Não posso pôr isso para limpar ou ordenhar as
vacas.
Roald fechou o punho de sua mão mostrando o anel— Não tirará esse anel
nunca, ouve-me?
— Mas…
— Me diga que não o tirará nunca. — sussurrou ele olhando-a nos olhos.
— Não o tirarei nunca.
Beijou-a apaixonadamente encostando-a nele e quando se separaram ela
gemeu— Termina a maldita casa.
Os dias seguintes não foram agradáveis. Entre Roald e ela começava a brotar
uma cumplicidade que a Maisey fazia sentir-se segura e sua relação com seu
pai ia cada vez melhor pois passavam horas conversando. Tashia não se
aproximava dela, o que era um alívio. Evitavam-se mutuamente. Também
evitava o irmão de Roald pois o tinha visto observá-la com um olhar luxurioso
do qual não gostava nada. A relação com as mulheres cada vez ia melhor e
Maisey estava contente.
Um dia estavam no exterior da casa, pois embora fazia muito frio, ainda
podiam desfrutar do sol. Estava ensinando Tavie a lutar com faca e um pau e
Lala as olhava enquanto costurava um vestido.
— Muito bem, Tavie!— animou-a Lala ao executar um ataque exatamente
como Maisey lhe tinha ensinado— Cada vez faz melhor!
Um assobio as fizeram virar e Roald lhe fez um gesto— Vem, mulher!
— O que aconteceu?— perguntou Tavie.
— Terão terminado?
Ansiosa Maisey pôs-se a correr e Roald sorriu vendo-a aproximar-se. Quando
chegou a seu lado perguntou— O quê?
Segurou sua mão e a levou a outro lado da casa. Maisey ficou assombrada
pois a casa era enorme.— É a nossa?
Roald a olhou divertido— O que você acha?
Ela gritou como uma louca enquanto seu marido punha-se a rir a
gargalhadas. Maisey se lançou a ele enchendo o de beijos.
— Ei e nós o que ganhamos?— perguntou Sorem divertido— Temos feito o
trabalho duro.
Maisey ia abraçá-los quando seu marido a agarrou pela cintura atraindo-a
pra ele— Nem sonhe!
Ela sorriu e piscou um olho aos homens que se estavam rindo — Vamos,
entra em casa.
— Que emoção! — disse subindo os três degraus que levavam ao alpendre.
Abriu a porta e entrou com ele atrás. Assombrada viu que era dez vezes maior
do que a que tinha na Escócia — Tem luz…— disse admirada ao ver a
chaminé.
— Assim não passará frio no inverno. — disse abraçando-a pelas costas e
acariciando seu ventre— Está grávida e as grávidas sentem mais frio.
Ela sorriu acariciando suas mãos — Como sabe que estou grávida?
— A bruxa disse se lembra?
— Disse muitas tolices. — disse irônica. Olhou ao seu redor e caminhou com
ele atrás — E essa porta?
— É para Tavie e os meninos. — surpresa olhou para trás— Se queria
intimidade, não podiam dormir a nosso lado.
Sorriu como se lhe tivesse dado as estrelas e abriu a porta. A habitação era
grande— Quantos filhos acredita que sou capaz de parir?
— Vinte?
Maisey gargalhou.— Está louco.
— Louco vai me chamar quando terminar a cama.
— Espero que seja grande. — disse voltando-se e abraçando-o pela cintura.
— A maior que eu possa fazer. — beijou-a brandamente nos lábios, Tavie
apareceu na porta com a pele e o pente de Maisey— Entre, Tavie. — disse ela
com um sorriso. — Você gosta de nossa nova casa?
— OH! É bonita. — disse olhando ao sua redor admirada.
Estiveram muito ocupadas pois várias pessoas da aldeia lhes levaram móveis
que ela foi colocando a seu gosto, movendo-os de um lado a outro enquanto
deixava louco Roald e aos homens. Quando ficou satisfeita sorriu e disse –Só
faltam as camas.
Os homens gemeram e seu pai pôs-se a rir encantado — Tenho algo para
você— disse seu pai dando-lhe uma palmada.
— Papai, não tinha por…— ficou com a boca aberta ao ver um balde enorme
— O que é isso?
— Uma banheira!— gritou Tavie— É uma banheira!
Puseram o balde em um canto e ela se aproximou olhando-o atônita— E para
que serve?
Todos riram e ela se corou por não saber algo que todos sabiam — Não riam.
— É para banhar-se, Maisey. — disse Tavie encantada. E abriu muito os
olhos antes de dizer lentamente — Com água quente.
— Água quente?
— E sabão. — disse seu pai lhe mostrando algo. Era um pedaço de algo
sólido da cor da cera.
Ela cheirou a parte e sorriu porque cheirava a limpo— Vai adorar. — disse
seu marido divertido.
Umas mulheres colocaram umas peles e ela disse— O que fazem?
— São para vocês. — disse seu pai. — Assim estarão mais confortáveis.
Tudo aquilo era um sonho e ela se aproximou de seu pai para lhe dar um
abraço
— Obrigada.
— Pra você tudo o que desejar, filha. — disse antes de lhe dar um beijo na
cabeça.
Essa noite suspirou feliz contra o peito de seu marido e deixando que o sonho
a levasse dormiu abraçada a ele na casa nova.
No dia seguinte decidiu recolher umas ervas para secar. Assim teria
preparadas caso fossem necessárias.
— Olhe, Tavie. — disse à menina que se converteu em sua sombra— Esta
planta é venenosa— disse destacando-lhe. A reconhecerá por suas folhas
largas. Não a toque. Sairá-te umas feridas que durará vários dias e coça
muito.
— Sim, Maisey.
— Também é boa para fazer alguém dormir para sempre em uma infusão.
A menina arregalou os olhos— Pode matar?
— Na quantidade necessária sim. — disse piscando um olho — Há várias
plantas desse tipo que podem ser muito daninhas em grande quantidade e na
quantidade adequada podem tirar a dor ou uma infecção.
— Ensinará-me essas coisas?
— Claro. Ensinarei-te tudo o que eu sei.
— Não tem medo que eu faça algo mau com o que me ensinar?
Maisey se voltou para olhá-la nos olhos— Tavie, o que te ensino é para te
ajudar. Se quer fazer algo mau com esses conhecimentos, não posso
controlá-lo. Devo deixá-lo a sua escolha e sua consciência.
— É muito confiante. — disse a menina agarrando uma flor tardia.
Olhou-a surpreendida— Por que diz isso?
— Espera que lhe dêem o primeiro golpe antes de agir.
— Não deve agir antes porque pode se arrepender.
— Ainda sabendo que vão fazer algo mal? Que lhe farão mal?
— Ainda assim. — respondeu com um sorriso acariciando sua bochecha.
Tavie a abraçou pela cintura— O que você tem, pequena?
— Não nos querem aqui. — sussurrou –Vão nos fazer mal.
— Mudarão de opinião. Temos que lhes dar uma oportunidade.
Tavie afastou a cabeça para olhá-la nos olhos— A mãe de Roald não nos
quer. Cochicha quando nos vê e nos olha com maldade.
Maisey estalou a língua— Não nos fará nada. Roald a impediria.
— Ele não está todo o tempo. Não entendo o que fala, mas sei quando alguém
não é bom e essa mulher não é.
— Se Roald não estiver, eu sim estarei. — Tentou relaxá-la— Agora vamos
trabalhar.
Durante a excursão Maisey foi ensinando palavras no idioma de seu marido.
Palavras importantes como matar ou adaga.
Voltavam para a casa quando ouviram os gritos— Tavie sobe a essa árvore e
não se mova. — sussurrou à menina.
— Não vá!— disse com medo.
— Tenho que ajudar. Faz o que te digo!
A menina assentiu e Maisey pôs-se a correr para a aldeia. Em seguida viu o
que ocorria. Vários homens a cavalo estavam atacando a aldeia. Olhou ao seu
redor e não viu seus homens. Deviam ter ido caçar, tornando-os
desprevenidos. Aproximou-se pela lateral de uma choça rapidamente e
observou. Quatro homens a cavalo. Gemeu ao ver como transpassavam um
ancião com a espada. Malditos covardes! Cerrou os olhos e viu que um morto
atirado no chão a três passos dela, tinha uma adaga na mão. Estava a meio
caminho do abrigo das armas onde poderia agarrar um arco. Sugando ar saiu
correndo.
— Ei!— gritou um deles.
Maisey se agachou pegando a adaga e viu pela extremidade do olho que um
deles se aproximava de cavalo. Girou com a adaga na mão e a lançou
acertando o atacante no centro da garganta. Seguiu correndo enquanto o
homem montado a cavalo ia atrás dela parecendo que a seguia. Isso não a
preocupou pois estava morto. Entrou no abrigo e pegou o arco enquanto o
cavalo se detinha diante da porta. Colocou a aljava nas costas e com uma
flecha preparada, saiu pela porta escondida pelo cavalo. Os homens estavam
distraídos e uma flecha atravessou a cabeça de um deles antes de que se
dessem conta. Os outros dois viraram com um grito de guerra atacando
contra ela e Maisey entrecerrou os olhos olhando os do primeiro inimigo que
se aproximava rapidamente com a espada na mão. A flecha o acertou entre os
olhos e o segundo atacante o viu cair notando o que acontecia. Ela sorriu
vendo-o aproximar-se e tirou outra flecha colocando-a no arco.
— Está morta zorr…— a flecha o impactou no coração, impulsionando-o fora
do cavalo e caindo no chão de barriga para cima exalando seu último fôlego.
Desconfianda de que não houvesse mais, apertou os olhos com o arco em
posição. Um grito sufocado em uma das choças, fez com que ela se
aproximasse sem deixar de olhar ao seu redor. Subiu os degraus da casa
lentamente e viu que um homem enorme estava violando uma das mulheres.
Furiosa deixou o arco contra a porta e entrou agarrando uma faca que havia
sobre a mesa. Aproximou-se dele e lhe agarrou pelo gordurento cabelo negro
colocando a faca em sua garganta. — Afaste-se lentamente.
O homem se deteve no ato e se ergueu lentamente — Não se levante. — disse
divertida. Ao baixar a vista viu quem era a mulher e amaldiçoou baixo ao ver
uma das mulheres que tinham vindo com ela.
— Rose, se levante e pegue uma faca.
Maisey apertou a faca em sua garganta lhe cortando o fôlego enquanto Rose
se levantava choramingando— Então você gosta de violar mulheres. — disse
entre dentes fora de si — Quando terminar contigo não poderá fazê-lo mais.
Tentou golpeá-la mas ela que esperava esquivou do golpe e cortou um pouco
sua garganta fazendo-o gritar.
— Não deixarei você escapar, porco asqueroso! — Rose se aproximou
tremendo com uma faca enorme na mão— Deixa de choramingar!— gritou ela
furiosa. Rose assentiu apertando a manga de couro — É teu para fazer o que
quiser com ele.
Rose semicerrou os olhos e aproximou dele— Se me tocar, cadela… te mato.
— disse o homem em seu idioma. Rose se deteve assustada e Maisey a
animou com a cabeça antes de dizer— Caso volte a abrir a boca, será a
última coisa que dirá na vida.
Para sua surpresa Rose se ajoelhou diante dele e agarrou seu membro.
Olhando-o nos olhos o cortou com um corte único fazendo-o gritar como um
porco enquanto se mexia levando as mãos pra a área atingida. Maisey sorriu
enquanto Rose se levantava jogando o membro na cara.
— Muito bem. –disse enquanto o homem chorava — Hora de terminar.—
disse antes de cortar o pescoço de um lado a outro.
Quando o homem caiu de cara sobre o chão, Maisey perguntou – Quantos
eram?
— Não sei. Ouvi os gritos e…
Alguém entrou na casa e elas giraram com a faca na mão. Era Lala que trazia
vários mais detrás.
— Revistem a aldeia!— gritou ela saindo enquanto a mulher a deixava passar.
Agarrou o arco colocando-o nas costas e se aproximou de um dos cavalos—
Revistem todas as casas! Não deixem nada sem examinar! Pode ter algum
escondido. — subiu ao cavalo de seu inimigo e agarrou as rédeas olhando a
Lala — Vem de cima?
— Não, venho de recolher as armadilhas do rio. — disse a mulher olhando
para cima.
Maisey estalou a língua e saiu rapidamente para a casa do Laird. Esperava
que não tivessem chegado até ali. Não via cavalos diante da casa, mas
podiam estar escondidos para agarrá-los despreparados. Quando chegou à
porta desmontou de um salto e escutou atentamente. Não se ouvia nada e a
porta estava aberta. Nunca deixavam a porta aberta. Olhou para cima e
entrecerrou os olhos vendo a palha. Não tinha outra opção. Subiu pelos
troncos da parede e chegou até o telhado. Sem fazer ruído afastou a palha
que estava endurecida e conseguiu fazer um buraco pelo qual olhar. Como
suspeitava havia três homens dentro e tinham Tage amarrado a cadeira do
Jarl enquanto faziam várias perguntas. Ficou sem fôlego ao ver um corpo no
chão com o cabelo preto. Mas ao ver sua roupa reconheceu Thorbert. Várias
mulheres estavam amontoadas na zona da cozinha. Tinha que tirá-las da
casa, assim desceu rapidamente pois temia pela vida de Tage e abriu a porta
totalmente empurrando-a com um chute, escondendo-se colada a parede.
— Hans, vai a ver o que está acontecendo!— ordenou um.
Outro deles saiu com a espada na mão e ela revirou os olhos antes de
atravessá-lo com uma flecha no tronco de lado a lado.
— Hans!— gritou o de dentro vendo-o cair.
Ouviu que alguém corria e preparou outra flecha mas esse não era tão
estúpido e se deteve na porta. Só podia ver a mão que empunhava a espada,
assim apontou ali mas ele voltou a entrar na casa. Maisey viu pelo canto do
olho que vários da aldeia começavam a se aproximar armados com o que
tinham encontrado e soube que esses homens já não sairiam sem derramar
sangue quando se sentissem encurralados. Assim voltou a subir no telhado
da casa e se aproximou do buraco que tinha feito. Viu como um homem
agarrava a Tashia pelo cabelo colocando uma espada sob seu pescoço. Não
podia deixar que matassem à mãe de Roald, assim olhou a chaminé. Seria
capaz? Correu até ela atirando o arco e a aljava. A chaminé era de pedra e
nesse momento estava apagada pois não tinham começado a fazer o jantar.
Meteu-se dentro segurando fortemente nas laterais com as pernas quando
escorregou. Esperando que não tivesse caindo muito fuligem delatando-a,
começou a baixar firmando nas pedras. Seus dedos ficaram negros a medida
que descia apoiando as costas na parede e fazendo pressão com as pernas.
— Ponha várias mulheres diante da porta, assim não poderão passar!—
gritou um deles. Maisey chegou embaixo e tentou não fazer ruído quando
pisou nos restos de madeira do fogo mas uma das mulheres a viu olhando-a
assombrada. Voltou a olhar pra frente e deu um passo cobrindo-a. Maisey
passou com cuidado sob a comida e procurou uma arma. Várias mulheres se
uniram umas às outras gritando, pois um deles devia estar se aproximando e
ela passou atrás de suas costas agarrando uma faca da tábua onde cortavam
a carne.
— Se joguem no chão. Agora! — sussurrou. As mulheres fizeram de repente
deixando-a ver seu inimigo que tinha um machado na mão. A faca lhe
acertou no olho fazendo-o cair para trás. Maisey olhou ao homem que tinha a
Tashia sujeita. Era loiro e muito alto— Solta-a— disse passando sobre as
mulheres.
— E você, quem raios é?— perguntou olhando pra seu companheiro.
Maisey se aproximou do corpo lentamente e agarrou a faca tirando o olho de
passagem. — Sou a que vai te estripar caso não a solte. — sua voz arrepiava
os cabelos e o homem apertou a faca na garganta de sua sogra. A mulher a
olhava sabendo que ia morrer. O terror de seus olhos fez que Maisey tivesse
que desviar o olhar — Não sairá daqui se lhe fizer mal, mas podemos
negociar.
— Negociar! Não tenho nada que negociar com vocês, cães traidores!— estava
furioso e ela inclinou a cabeça olhando-o bem.
— Por que nos chama de traidores?
Ele semicerrou os olhos — Você não é daqui.
— Proponho-te algo. Solta ela e me pega . — sua sogra arregalou os olhos.
Por isso ela não esperava — Sou mais jovem e mais bonita.
O homem pôs-se a rir— Como você disse, não sairei daqui vivo. Do que você
me serve?
Maisey sorriu— Porque sou a filha do Harald.
— Harald não tem filhas.
— Sim que é a filha do Harald. — disse sua sogra rapidamente — Sua filha
bastarda.
Levantou uma sobrancelha olhando a sua sogra que desviou o olhar — Só
sairá daqui comigo. Podemos fazê-lo a minha maneira ou a minha maneira.
Se matar Tashia, matarei você. Mas se a soltar, comigo terá uma
oportunidade.
Ele entrecerrou os olhos — Se aproxime.
Maisey em um ato de boa fé deu dois passos para ele. O homem agarrou
Tashia pelo braço e baixou um pouco a faca — Jogue a faca.
— Pensa que sou tola? Não até que a afaste mais. — disse ela olhando-o nos
olhos.
Afastou-a um pouco mais colocando a espada nas costas da Tashia que deu
outro passo empurrada por ele e Maisey deu outro passo ficando ao alcance
do braço— Jogue a faca.
Ela o fez e o homem sorriu. Ia esticar o braço livre para agarrá-la quando um
machado se cravou em suas costas. A surpresa de sua expressão foi
engraçada, enquanto Tashia se afastava apressadamente.
Maisey se aproximou dele que tinha deixado cair a espada e disse— Não
tinha te apresentado ao meu marido. Roald, se aproxime.
Seu marido estava atrás do homem ajoelhado — O que estava fazendo,
mulher?
— Não se apresenta?
O homem caiu para trás pelo peso do machado e Roald pôs os braços nos
quadris— Que raios aconteceu aqui?— gritou furioso olhando-a.
— Vá, morreu. — disse olhando sua cara. Sorriu radiante enquanto seu
marido a observava de cima abaixo.
— Está coberta de fuligem?
— Atacaram-nos e só pensa nisso?
— Não estava recolhendo ervas?
— Interromperam-me. — disse levantando o queixo.
— Se expôs ao perigo!
— E eu que esperava ouvir… obrigado por salvar a minha mãe, Maisey. —
disse com brincadeira.
— Eu salvei-a!
— Isso, filho.Foste você, não essa.
Maisey olhou à mãe de Roald— Obrigado, sogra.
A mulher estalou a língua ganhando vários olhares de desprezo das
mulheres. Roald olhou pra Tage preso na cadeira— E você não diz nada?
— Alguém pode me soltar?
Maisey se aproximou de Thorbert e tentou virá-lo.
— O apunhalaram. — disse Tage preocupado.
Roald se aproximou e virou seu amigo. Estava inconsciente e ela viu em seu
ventre a punhalada. Olhou a seu marido com pena.
— Sinto muito, Roald. — sussurrou.
— Chama a Wava!— gritou seu marido nervoso passando uma mão pelo
cabelo.
— Estou aqui. — disse a bruxa entrando na casa do Jarl.
Seu pai vinha atrás — Filha está bem?
— Sim pai, mas Thorbert não. E não sei se os feridos da aldeia estão vivos.
Lala também entrou— Dois estão feridos. — disse enquanto outros entravam
na casa atrás dela — Outros dois morreram.
— Coloque-os sobre a mesa!— ordenou o Jarl furioso.
Wava se aproximou de Thorbert e agachou a seu lado. Sem tocá-lo olhou em
seu rosto. Maisey se surpreendeu de que não lhe olhasse a ferida, a não ser a
face. Depois de uns segundos olhou sua ferida e disse— Se salvará.
Levantou-se e foi até a mesa — Esses não. — e sem mais saiu da casa.
— Mas como sabe?— perguntou assombrada.
Tage se aproximou de seu amigo ajoelhando-se a seu lado— Não tenho nem
ideia, mas me serve.
Maisey olhou a seu redor e saiu correndo— Tragam água quente e umas
ataduras! E que alguém vá procurar à menina que está em cima de uma
árvore com minhas ervas!
Lala lhe proporcionou o que necessitava e Maisey lavou as mãos enquanto
Tage apertava a ferida para deter a hemorragia. Efetivamente os homens
tombados na mesa morreram em poucos minutos. Seu pai não fazia mais que
gritar enquanto Maisey se ajoelhava ao lado de Thorbert — Levanta o pano
para que vejamos a ferida. — Tage o fez e ela com cuidado viu que não era tão
profunda como pensava a princípio— Volta a tampar. — disse ela olhando
para a porta.
— Preciosa, sabe o que faz?
— Alguém pode fazê-lo melhor?— perguntou esperançada.
— O que curava as feridas está sobre a mesa.
Maisey gemeu — Só vi minha mãe fazer uma vez e é doloroso.
— Faça o que tenha que fazer. — Tage a olhava seriamente.
O fogo já estava aceso, ela se levantou agarrando uma espada do chão—
Aplicarei fogo sobre a ferida para fechá-la.
Colocou a espada no fogo sob o atento olhar de meio clã e mordeu o lábio
inferior preocupada. Esperava que funcionasse, porque se não já não saberia
o que fazer.
Tavie chegou correndo com a Lala atrás sem fôlego. Trazia a cesta e tinha os
olhos vermelhos como se tivesse chorado.
Quando a ponta da espada estava ao vermelho vivo a tirou do fogo e olhou
seu marido aos olhos— Segure-o bem.
Seu pai se agachou agarrando os braços de Thorbert enquanto seu marido se
sentava sobre suas pernas.
— Tage, tira as ataduras. — disse aproximando a ponta das costas até seu
estômago. Seu amigo o fez e ela deixou cair a espada plaina sobre a ferida.
Thorbert uivou de dor abrindo os olhos antes de voltar a cair desacordado,
quando ela levantou a espada para ver a ferida. Sorriu porque tinha
funcionado.
— Bem feito, filha.
Deixou cair a espada ao chão olhando a ferida — Preciosa está bem?
Maisey se sobressaltou e olhou pra seu marido que a observava preocupado—
Sim! Sim, estou bem. — voltou-se para Tavie e disse que se aproximasse.
A menina o fez correndo levando a cesta na mão e Maisey pegou as ervas que
necessitava enquanto escutava Roald perguntar
— Onde está Sorem?
— Na aldeia tentando descobrir o que queriam. Sua esposa não deixou um
vivo. — disse um dos homens.
Maisey começou a amassar as ervas e respirou fundo
— Está bem?— perguntou Lala.
Sua mão tremia enquanto espremia as ervas no morteiro — Continue você—
disse afastando-se— E ponham um cataplasma com elas no ferimento de
Thorbert. — estava ficando sem fôlego e olhou pra seu marido — Roald?
Ele não a escutou enquanto falava com seus homens e Maisey colocou as
mãos em seus joelhos tentando respirar— Maisey!— gritou Tavie assustada.
— Não passa nada. — sussurrou olhando pra o chão. Uns braços a
agarraram e viu Roald que a subia em seus braços— Me leve ao rio.
Roald saiu a toda pressa com a Lala e Tavie atrás muito preocupadas. Ao ver
que respirava com mais dificuldade começou a correr para o cais.
— Me atire à água. — disse sentindo muito calor.
Ele o fez sem duvidar atirando-se atrás dela. O impacto da água gelada a fez
gritar e imediatamente se sentiu muito melhor. Roald a agarrou nos braços e
a abraçou a ele.
— Não sei o que tenho.
— Agora já sei o que tenho que fazer— disse antes de beijá-la mansamente
nos lábios.
— Isto me assusta.
— E enfrentar a homens dispostos a te matar, não?— olharam-se nos olhos e
ele a abraçou com força— Ocorre quando se irrita.
— Não tinha me acontecido até chegar aqui.
Lala os observava do cais — Tira-a Roald, não é bom que esteja a essa
temperatura. O menino.
Maisey elevou uma sobrancelha e Roald riu alto. — Será isso?
— Não sei, mas no caso…— A tirou do rio e Tavie estava ali com uma pele
para cobri-la.
— Preciosa, vai pra casa e que Tavie te prepare um banho.
— Não necessito um banho.
— Acredite, sim o precisa— disse seu marido divertido.
Surpreendida olhou Tavie que assentiu.
Capítulo 9

Ele a acompanhou até chegar ao alto da colina e depois entrou na casa de


seu pai enquanto elas deram a volta pra sua casa — Que tarde!
— Está melhor?
— Foi só entrar na água e recuperei o fôlego.
— Agora te prepararei um banho. Assim estreará a banheira. — Tavie sorriu
animada lhe dando as costas para entrar — Não posso acreditar que ainda
não a tenha estreado.
Maisey deu de ombros quando alguém lhe tampou a boca arrastando-a para
trás enquanto Tavie seguia falando. A menina não se deu conta de que ela
não tinha entrado e o braço que lhe segurava tinha preso seus braços na pele
que a cobria. Desceram-na pela colina pela parte de trás e entraram no
bosque. Maisey esperneava tentando soltar– A agarraste?
— Agora estão confiantes depois de matá-los. — ela tentou olhar quem falava
— Esta puta matou meu irmão. — aqueles covardes tinham visto morrer os
seus e não tinham feito nada por ajudá-los— Harald pagará por ela tudo o
que tem.
Então entendeu que a estavam sequestrando esperando um resgate. Iria
esfolá-los vivos. Viraram-na de repente sem soltar sua boca e pôde vê-los.
Eram dois velhos! Tinham-na sequestrado dois velhos! Não podia acreditar.
Deviam ter cinquenta anos e suas barbas chegavam na metade de suas
barrigas, cobertas com umas camisas tão sujas, que se as tirassem ficavam
de pé. E um desses era irmão de algum que tinha matado?
— Coloque-a em cima do cavalo! Não perca mais tempo!
Um deles agarrou uma corda e a rodeou com ela amarrando-a fortemente.
Ela tentou separar os braços do tronco para que as cordas não estivessem tão
apertadas, mas ao atar o nó quase a deixam sem fôlego, o muito besta.
Felizmente as mãos deixaram livres, embora junto aos seus quadris de pouco
lhe serviam. Começou a escutar os gritos de Tavie e um desses idiotas a
agarrou pela cintura e a subiu a um cavalo embora esperneasse, soltando
sua boca. Maisey gritou com força e sentada sobre o cavalo, chutou um na
cara que caiu para trás.
Escutou como corriam os seus gritando seu nome e ela voltou a gritar
pedindo ajuda. O que estava a seu lado tentou subir atrás dela, mas Maisey
açoitou o cavalo que saiu rapidamente. Ela, que não podia segurar-se ao
cavalo, caiu a poucos metros batendo sua cabeça em uma pedra ao cair e
ficando sem sentidos enquanto escutava como seu clã chegava até ela
atacando contra os velhos.
Despertou gemendo pois a cabeça a matava de dor— Já está acordada. —
sussurrou alguém a seu lado.
Tentou abrir os olhos, mas a luz a incomodava. O calor lhe indicou que
estava deitada perto do fogo e tentou voltar a abrir os olhos para ver uma
mulher que não conhecia de lugar algum a seu lado.
— Quem é você?
— Sou Tyree. — a mulher lhe sorriu e por trás dela apareceu um dos homens
que a tinha sequestrado. Sobressaltada tentou levantar-se mas seguia
amarrada. — E ele é meu marido, Raynor. Levaste um bom golpe na cabeça.
— O que faço aqui?
— Meu marido vai pedir um resgate por ti e depois te soltará.
— Causaste-me muitas dificuldades... — disse alisando sua asquerosa barba
— Harald terá que pagar.
— Pensei que o tinham pego, porco pulgoso.
Raynor pôs-se a rir— Escapei antes que chegassem em mim. E te encontrei
uns metros mais à frente. Pensei-me subir ao cavalo e ao final me decidi,
embora estivessem a ponto de me apanhar.
— Parabéns, agora todo meu povo te vai procurar até te destroçar. — olhou à
mulher— me Solte.
Raynor deixou cair sua mão sobre o ombro de sua esposa que se levantou
rapidamente negando com a cabeça — Assim que chegue, meu Jarl me
protegerá.
Maisey entendeu que estava dentro de outro clã e isso a assustou, embora
tentou não demonstrá-lo. Se seu clã o ajudava, seria difícil escapar.
— Quem é seu Jarl?
Raynor sorriu com malícia— Rutger.
Maisey conhecia esse nome. Era o mesmo que lhe havia dito Roald ao descer
do navio para procurar as ervas pra Tavie durante a viagem. Fechou os olhos
tentando concentrar-se pois a dor de cabeça era terrível.
— Esperará pra pedir o resgate até que Rutger chegue?
— Acredita que sou estúpido?— Maisey preferia não responder essa pergunta
— Esperarei o respaldo de meu clã, mas desde já te digo que embora paguem,
você está morta por ter matado a meu irmão.
Maisey sorriu deitando-se outra vez porque sabia que não lhe faria nada até
que chegasse seu chefe.— Ria, puta. Está morta.
— Raynor quer algo de comer?— perguntou sua mulher amavelmente. Um
bebê chorou, mas Maisey não abriu os olhos.
— Atende a seu filho. — disse o velho — Comerei mais tarde.
Disse a si mesma que devia dormir pois necessitaria todas suas forças
quando Rutger chegasse. Abrigada e junto ao fogo, dormiu minutos depois.
O pranto de um bebê a despertou novamente e abriu lentamente os olhos. A
dor de cabeça agora era um leve incomôdo e olhou a seu redor vendo a porta
da casa aberta. Era de dia.
— Está acordada?
Sentou-se como pôde e viu a mulher— Se chama Tyree verdade?
A mulher estava trocando o menino em cima da mesa— Sim e você?
— Meu nome é Maisey. — olhou a seu redor e viu uma garotinha de uns
cinco anos sentada no chão — E seu marido? — foi a ver se tinha chegado o
Jarl. — a olhou de esguelha— Tem fome?
— Sim. — sussurrou vendo uma faca sobre a mesa.
— Não tente escapar. Não sabe onde está.
Isso era certo, mas não podia ficar ali. Chegar a sua casa não seria difícil,
seguiria o rio até chegar a sua gente.
— E onde estou?
— Muito esperta. Nossa cabana está no centro da aldeia. Veriam-lhe vinte
pessoas antes de que chegasse aos subúrbios. — aproximou-se do fogo
depois de deixar ao menino sobre a cama e agarrou uma concha. Serviu um
guisado e a olhou -Eu terei que lhe dar isso.
— Por que não me solta?— o sorriso malicioso de Maisey a fez rir.
Pegou uma cadeira e se sentou na frente dela— Me conte algo de ti.
Maisey abriu a boca enquanto Tyree colocava com cuidado a colher em sua
boca. Depois de tragar perguntou— O que quer saber?
— Está casada?
— Acabo de me casar.
— Meu marido disse que é filha do Harald.
Estiveram falando um momento enquanto lhe dava de comer. Tyree era muito
agradável, não podia imaginar porque estava casada com esse velho.
— Casaram-me com ele quando era uma menina. Tinha quatorze anos. —
olhou-a com assombro — Quando me casei com ele era um homem atraente.
Isso já faz muitos anos.
— Mas tem filhos pequenos.
— Desgraçadamente ainda sou jovem para os ter e meu marido é muito
fogoso. Os maiores já não vivem em casa.
— Quantos tem?
— Doze.
Maisey deixou cair o queixo fazendo-a rir — Não são tantos.
Ela negou com a cabeça— Eu não terei doze filhos.
— Terá os que lhe enviem os Deuses. — disse levantando-se e deixando a
concha sobre a mesa. Voltou-se com a mão em sua grossa cintura — Vou dar
um conselho, Maisey.
— Me diga.
— Não contrarie o Rutger. — olhou-a com seus olhos castanhos preocupada.
Odiará você só por ser filha do Harald e quando souber que mataste alguns
de seus homens, quererá te dar uma lição diante de todos. E será cruel.
— Por que me ajuda?
— Porque vi seus olhos e não é má pessoa. Havia dito a meu marido que
tentar te roubar era uma loucura e fizeram sem o consentimento de meu
Jarl. Não podia voltar com as mãos vazias e por isso se empenhou em te
trazer com ele.
Agora entendia seu empenho. Não podia apresentar-se ante seu chefe
dizendo que seus homens tinham morrido por nada. Ela era um troféu.
Ouviram passos no alpendre e as duas se voltaram. Raynor entrou na casa e
Maisey pôde comprovar que estava preocupado. Também se deu conta que
trocou de camisa.
— O que ocorre, marido?
— Não voltam antes de uma semana pelo menos. — disse deixando cair na
cadeira que até faz uns minutos Tyree ocupava. Olhou pra Maisey— Não
poderei protegê-la tanto tempo. Muitos já sabem que está aqui e querem
vingança pela morte dos seus.
— Diga-lhes que Rutger decidirá. Que esperaremos para ouvir o que diz sobre
ela.
Raynor olhou pra sua esposa— Vários homens morreram e só têm a ela para
vingarem-se. Se não a proteger até que chegue o Jarl, estou morto.
Tyree empalideceu agarrando a seu filho de em cima da cama — O que vamos
fazer?
— Temos que escondê-la até que chegue Rutger. — disse olhando-a com ódio
— Só me dá problemas.
— Deveria ter me deixado com os meus. — disse levantando o queixo — Ou
me solte. Voltarei pra minha gente.
— Nem pensar. Os teus terão que pagar por você.
— Não seja idiota. Entrarão na casa para me pegar quando menos esperar
por isso e se me acontecer algo, meu povo arrasará a aldeia.
Tyree arregalou os olhos— Não está mentindo, não é?
— Não me perguntou quem é meu marido.
— Quem é?— o medo em sua voz a fez sorrir.
— Roald o grande. — respondeu com orgulho.
Tyree empalideceu assim como a Raynor que se levantou de repente— Não
pode ser, não está casado.
— Temos pouco tempo de casados. Meu pai e meu marido quererão vingança.
E se lhes conheço um pouco, já vêm a caminho. — pressionou-lhes ela— Se
me soltar antes que se derrame mais sangue.
— Não posso!— gritou o velho furioso— Como vou dizer a meu Jarl…
— Como vai dizer pra ele que arrasaram a aldeia por sua idiotice?— disse
olhando-o nos olhos.
— Tira a daqui, Raynor. — disse sua esposa morta de medo— Matarão a
todos.
— Se já estão a caminho não há nada a fazer. — disse alisando sua grisalha
barba.
— Me dê um cavalo e lhes interceptarei. Juro que os deterei e não haverá
represálias.
— Dirão que sou um traidor se te ajudar.
— Pensa em seus filhos!— gritou ela— Quer vê-los mortos? Meus homens
não deixarão pedra sobre pedra.
— Tira a da aldeia. Leva-a…
Ouviram-se passos no alpendre e olharam para lá. Uma anciã entrou na casa
como se fosse sua— É ela?
— Sim, Yarmilla…— sussurrou Tyree nervosa.
A anciã tinha as costas curvada e seu comprido cabelo grisalho estava
recolhido em duas enormes tranças sobre sua cabeça. Aproximou-se apoiada
em um cajado, olhando-a com seus claros olhos azuis rodeados de rugas. —
Levê-a pra minha casa. Ali não entrará ninguém.
Suspiraram de alívio— Está segura, Yarmilla?
— Ninguém violará a entrada da mãe do Jarl, pelo que lhes tem em conta.
Começam a falar de queimá-la viva e até que meu filho não chegue, não
deixarei que ocorra nada.
Raynor a agarrou pelo braço rapidamente e a aproximou da porta— Seu pai
virá procurá-la.
— Não, se pensarem que ela pode morrer. — a anciã sorriu aproximando-se
dela e com sua mão livre lhe agarrou uma mecha de cabelo que ainda tinha
restos de fuligem — Pagarão o resgate. É muito valiosa para eles.
— E não sabe quem é seu marido.
— Com quem casaria o Jarl a sua filha a não ser com seu filho predileto?—
disse a anciã divertida deixando-os atônitos. Maisey se deu conta que era
muito esperta. Seria difícil convencê-la para que a deixasse livre — Mova-
se! Várias mulheres estão esquentando os ânimos de seus familiares para
piorar as coisas.
Raynor a empurrou pra fora da casa e ela se voltou para Tyree.— Obrigada
por tudo.
Tyree sorriu fracamente em resposta, enquanto acariciava as costas de seu
filho vendo-a afastar-se. Duas mulheres ficaram olhando o que acontecia
uma lhe cuspiu no rosto. Raynor atirou de seu braço quando a olhou com
ódio, levando-lhe com ele.
Ao olhar a seu redor viu que a aldeia era maior que a sua, mas havia menos
jovens. Provavelmente os outros tinham ido com o Jarl. Seu captor a levou ao
limite da aldeia pra uma casa exatamente igual as demais. Colocou-a dentro
aos puxões e a empurrou no chão ao lado do fogão apagado. Dissimulou um
tremor ao ver uma mesa com duas cadeiras, uma cama e um arca. Era tudo
o que havia na cabana e pensou que a anciã era realmente austera. Nem
adornos, nem objetos pessoais que pudessem ver-se a uma simples olhada.
De fato qualquer um pensaria que ali não vivia ninguém.
Raynor saiu fechando a porta deixando-a na penumbra, pois só passava a luz
pela fresta da porta. Tinha que aliviar-se e ninguém se preocupou com isso.
Tampouco tinham se preocupado se podia levantar-se. Sorriu de orelha a
orelha. Apoiando-se na parede encostou seus joelhos ao peito e se arrastou
pela parede para cima. Desceu as calças e fez xixi no chão. Suspirou de alívio
olhando a seu redor enquanto subia as calças. Rapidamente procurou pela
casa algo para cortar as cordas, , mas não viu uma só faca. Virou e viu a
mesa. Aproximou-se de um dos cantos olhando as cordas, tinha que
conseguir baixar a que tinha sobre o peito até a cintura para afrouxar a
corda. Dobrou-se sobre a mesa com a cara encostada na superfície e com
cuidado colocou os cantos entre a pele e a corda. Empurrou com força e
gemeu quando a mesa se deslocou sem mover a corda. Então empurrou a
mesa até a parede em frente para que não se movesse e voltou a empurrar.
Gemeu, pois a corda ao passar sobre seus seios machucou, , mas depois de
vários puxões conseguiu que baixasse até sua cintura. A corda se afrouxou
imediatamente e se mexendo afastou a pele e tirou primeiro um braço e
depois o outro. Procurou o nó, , mas estava tão duro que não era capaz de
desatá-lo. Deixou cair a pele no chão e abandonando a corda em sua cintura
foi até a porta. Não escutava nada, , mas não podia confiar-se. Maisey se
voltou para a arca com o cenho franzido e correu até ali abrindo-o para ver o
que podia encontrar. Um vestido e umas jóias, mas nenhuma arma. Já não
podia esperar mais pois não sabia quando a velha iria vê-la, assim agarrou a
pele e cobriu o cabelo abrindo a porta lentamente. Rodeou a casa e se
surpreendeu bastante por não encontrar ninguém ou que não a vigiassem. A
casa estava situada em um extremo da aldeia, por isso entrou no bosque sem
correr como se fosse do povo.
Assim que pôde pôs-se a correr. Levantou a vista e pela posição do sol
deduziu que era meio-dia. Seguiu correndo tentando encontrar o rio e
suspirou de alívio por ouvir a água correr. Quando o viu, fixou-se no curso e
se deu conta que estava na margem correta, assim começou a correr corrente
acima. Quando começou a escurecer estava esgotada. Não sabia quanto
demoraria para chegar, pois recordava que tinham chegado de navio quase
dois dias depois de atirar o menino na água. Exausta e sem comer, olhou a
seu redor procurando alimento. Encontrou umas amoras e bebeu água do
rio. Estava lavando as mãos pois o suco das amoras as tinham deixado
vermelhas quando escutou algo. Alerta se levantou lentamente e voltou a
ouvir. Era um rangido e olhou corrente acima. O rangido se repetia a cada
certos segundos e Maisey entrecerrou os olhos tentando ver na escuridão.
Cobriu o cabelo escondendo-se depois em uma grande árvore escutando o
ruído que se aproximava. Então abriu os olhos como pratos quando um navio
passou ante ela. Nem podia imaginar se que era um navio, pois o silêncio era
absoluto. Seria o do Roald? Nervosa tentou ver na escuridão algo que
pudesse reconhecer do navio, mas todos os que tinha visto eram muito
parecidos e a vela não estava estendida para ver o desenho. Mordeu o lábio
inferior pensando em se arriscar.
Antes de que se desse conta gritou— Roald!
Não escutou nada. Parecia um navio fantasma que se afastava para
frustração de Maisey. Um assobio a fez sobressaltar-se. — Roald!
Outro assobio e viu como o navio acendia uma luz. Aliviada viu que alguém
segurava uma tocha e ficou sem fôlego ao ver seu marido olhando ao seu
redor. Pôs-se a correr para ele e Roald a viu aproximar-se. Seu marido se
atirou à água assim que a viu e chegou à borda muito rápido.
Quando saiu, abraçou-a fortemente a ele— Está bem?
— Sim. — sussurrou antes de que a beijasse — Vamos, estarão me
procurando.
O navio se estava aproximando da borda quando escutaram um ruído e
arregalou os olhos.
— Roald, é uma armadilha!— gritou empurrando seu marido pra água.
Vários homens saíram do bosque fortemente armados com gritos de guerra e
um deles a segurou pela cintura antes que ela pudesse atirar-se ao rio. Roald
gritou furioso.
— Foge!— gritou ela fora de si enquanto se revolvia— Foge, Roald!
Seu marido sabendo que não podia fazer nada, nadou a toda pressa até o
navio. Duas mãos o subiram esquivando uma flecha que acertou no casco.
— O deixem em paz!— gritou ela chutando no joelho a seu captor.
— Pagará o que pedirmos!— gritou um deles antes de disparar outra flecha,
enquanto que o que a agarrava com força apertou mais sua cintura tirando
seu fôlego.
— Se lhe fizerem mal, matarei todos vocês!— gritou seu marido na escuridão
da noite — Cortarei suas cabeças e as porei sobre uma lança!
— Eu gosto de sua esposa. — disse alguém — Pode ser que fique com ela.
— Rutger, te vou esfolar! Caso a toque…
Uma risada arrepiou seus cabelos e virou o olhar para tentar ver o tal Rutger.
— Primeiro a mostrarei ao Galt. Pode que goste.
— Malditos bastardos!— a voz se afastava e Maisey quase chorou pela
frustração de sua voz. Não podiam arriscar-se a um confronto se por acaso
fazessem mal a ela. Maisey o entendia. Era um suicídio brigar nesse
momento.
Quando já não escutaram nada, alguém disse— Voltemos. Pode ser que
ataquem a aldeia enquanto não estamos lá.
Prenderam seus pulsos diante do estômago e um homem que estava na
frente dela as amarrou com uma corda.
— Acreditou que era muito esperta, não é verdade?— perguntou a voz. Ela
voltou o olhar, mas só via o contorno de um corpo — Não somos tão idiotas
para deixar uma presa com a porta aberta.
— Ah não? Pois eu tinha a impressão que sim que foram idiotas e era sua
maneira habitual de agir.
Uma mão a agarrou no cabelo puxando para trás — Não sei o que vê Roald
em você.
Ela mordeu a língua pois sabia que tinha um aspecto horrível, embora não
acreditasse que esse homem visse muito pois era noite fechada e quase não
havia lua.
— Faste, você se encarregará dela. Se acontecer algo com ela, corto sua
garganta de lado a lado.
— Sim, Rutger.
Enquanto a subiam em um cavalo se deu conta de quão idiota tinha sido.
Tudo tinha sido uma farsa. Rutger estava na aldeia quando chegou e tinham
tramado para que os levasse a Roald e agarrá-los a todos desprevenidos. O tal
Faste se sentou atrás dela agarrando as rédeas.
— Não faça tolices. Embora não o demonstre, Rutger está furioso. — disse-lhe
ao ouvido — É capaz de te matar só para chatear ao Roald por não havê-lo
apanhado.
Irritada afastou a cabeça — Tem caráter. — continuou divertido— Necessitará
ter temperamento para superar os próximos dias.
Iniciaram a volta à aldeia e gemeu quando se deu conta que através do
campo se chegava em apenas umas horas. Uma tocha que levava um dos
homens do povo lhe mostrou as caras dos homens que a rodeavam. O
homem da tocha, aproximou-se do homem que ia diante, do que só podia ver
suas musculosas costas e a cor de seu cabelo que era castanho. Era forte e
desceu do cavalo de um salto. Suas tranças caíram por suas costas
mostrando uma mais larga que as demais, que levava um adorno de metal ao
final. Semicerrou os olhos olhando o adorno que chegava quase ao final de
suas costas e prendeu o fôlego ao dar-se conta que era a mesma pedra
vermelha com o mesmo desenho que ela levava em seu braço. Como esse
homem tinha algo assim?
Olhou ao seu redor ainda um pouco surpreendida quando Faste a desceu do
cavalo. Rutger se voltou e ela perdeu o fôlego ao ver a cara de um homem
muito bonito. Era muito mais atraente que Roald e isso era dizer muito. Sua
beleza deixava sem fôlego.
— Levê-a à cela!— gritou furioso.
Ainda em sua fúria era tão bonito que devia deixar deprimidas todas as
mulheres com as quais falava. Tinha os olhos claros e seu nariz reto lhe dava
personalidade, mas seu queixo dizia dele que era todo um homem.
Faste puxou Maisey, mas ela se remexeu.— Deve me soltar!
Rutger centrou o olhar nela e tirou uma larga adaga de sua bota. Aproximou-
se lentamente enquanto o homem da tocha lhe seguia, lhe dando luz.
Quando chegou diante dela entrecerrou os olhos e a agarrou pelo queixo
levantando seu rosto.
— Não volte a falar até que eu lhe diga isso, puta. — disse entre dentes
furioso.
— Deve me soltar ou haverá derramamento de sangue.
— Como o que você derramou?— gritou-lhe no rosto.
— Atacaram minha aldeia! O que eu devia fazer? Ficar de braços cruzados
enquanto matavam aos meus?— respondeu-lhe do mesmo modo.
Os murmúrios ao seu redor disse que tinha cometido um erro, mas não daria
um passo atrás. A adaga foi parar sob seu queixo— Deveria atravessar essa
asquerosa cara para terminar de uma vez.
Ela sorriu surpreendendo-o— Se me machucar, está morto. Todos morrerão
antes de cinco dias.
Empurrou-a atirando-a de costas no chão — Levê-a à cela. –disse virando-se.
— Desafio-te.
Rutger se voltou lentamente e a olhou de cima. De repente gargalhou alto e
outros o imitaram— Esta louca, mulher? Não duraria nem um suspiro contra
mim.
— Não é um covarde verdade?
As risadas pararam de repente e ele apertou os olhos— Está pedindo que te
mate com cada palavra.
Maisey sorriu ironicamente sentando-se no chão— Crê que é muito valente
empurrando uma mulher com as mãos amarradas, mas por que não me solta
e me dá uma adaga?
Rutger olhou divertido a seu redor— O que me dizem?
— Será divertido ver como você corta a cara dessa puta, Rutger. — disse um
deles— Nos dê esse prazer. Devolva-lhe ao Roald desfigurada para que seja
ainda mais feia.
Os homens puseram-se a rir enquanto Rutger pôs os braços nos quadris
observando-a — Será divertido. Para que veja que sou justo, darei-te uma
adaga e eu lutarei com as mãos vazias. — os homens riam alto e ela que não
era idiota não ia desperdiçar essa vantagem — Inclusive te darei jantar e
poderá descansar em uma cama quente para que amanhã tenha todas as
forças necessárias.
— Tem o coração mole, Rutger. — disse um antes de seguir rindo.
— Tenho vontade de me divertir.
— Igual a mim. — acrescentou ela fazendo-os rir mais forte.
— Faste, que não lhe falte de nada e chama à curandeira porque amanhã ao
amanhecer ela vai precisar. — disse divertido virando-se –Não se preocupe,
não te matarei.
— E se eu te matar?
Rutger se voltou e levantou uma sobrancelha— Se você me matar, meus
homens se comprometem a te deixar livre.
— Jura?
— Juro.
Maisey parou de sorrir vendo-o afastar-se, sabendo que não tinha outra
opção que não fosse matar esse homem tão bonito. Era uma pena.
Faste a agarrou no braço— Está louca, mulher?— perguntou-lhe em um
sussurro— Vai te partir pela metade.
— Isso veremos. –disse entre dentes.
Seu captor a olhou com admiração— Não estranho que Roald te queira de
volta. Esperemos que Rutger não veja o mesmo que ele.
— OH, verá. É obvio que verá.
Meteu-a em uma casa e espantada viu Tyree que a olhava com
arrependimento.
— Lhe dê tudo que necessitar. Ordens do Rutger. E não a solte. Deixarei
quatro homens fora. — disse mais para Maisey que para ela.
Quando as deixaram sozinhas se olharam e Tyree sussurrou— Não me
deixaram outra opção.
— Não se preocupe. Agora tenho que descansar para estar bem amanhã.
— Pode dormir na cama. — ofereceu-lhe ela — Meu marido não virá esta
noite. Está de guarda.
— Não posso tirar sua cama.
— Quer se lavar? Posso trazer água quente para que o faça e te limpe um
pouco.
— Tenho tão mau aspecto?
Tyree fez uma careta — Tem as conchas dos olhos negras e manchas por toda
a pele. Não quero falar de seu cabelo.
Então se deu conta que surpreender Rutger seria um ponto a seu favor,
assim sorriu — Agradeço se puder fazer isso...
Tyree iniciou e esquentou água no fogão enquanto a ajudava a despir-se —
Pode me soltar. Juro que até amanhã não me moverei daqui.
Tyree a olhou nos olhos— Jura?
— Nunca faltei com minha palavra, pois é unicamente o que tenho. Não vou
começar agora.
A mulher sorriu e desamarrou suas cordas. Tirou o vestido que Lala lhe tinha
dado e a roupa de baixo. Desceu as calças depois de tirar suas botas e Tyree
a olhou com a boca aberta— Por todos os Deuses.
— O quê?
A mulher se ruborizou— Nada. — disse indo para a água— Me parece que
quando estiver arrumada vai ser uma surpresa.
Ela sorriu olhando as costas da mulher.Tyree aproximou com um balde de
água e um pedaço de sabão — Como se usa?
— Esfrega-o. — disse lhe dando um pano— Sairá espuma e com isso se
limpa. Depois enxagua. Quando terminar, lavarei seu cabelo.
Quando esfregou o sabão viu surpreendida como saía uma espuma branca. O
aroma era muito agradável. — por que cheira assim?
— Tem mel. É bom para a pele quando envelhece.
Esfregou-se o corpo com ela e depois se enxaguou. O que mais lhe custou
limpar foi o rosto pois suas orelhas estavam negras. Quando terminou vestiu
uma camisola de Tyree e se sentou de costas ao fogo enquanto a mulher lhe
lavava o cabelo com sabão— Tem um cabelo precioso. — sussurrou a mulher.
— Para que serve? — disse indiferente.
— Muitas mulheres matariam por ter esse cabelo e seu rosto. Amanhã
muitos vão se surpreender.
— Isso espero. Tenho que voltar para casa. — disse entre dentes — Acabo de
chegar e acontece isto. É injusto.
— O que é isso que tem no braço?— assombrada Tyree o pegou –Por todos os
Deuses é o bracelete da Yarmilla.
— De quem?
— A mãe do Rutger. — disse com medo.
— A velha?
— Como o conseguiste?
Entrecerrou os olhos levantando sua cabeça do balde— Meu pai o deu de
presente pra minha mãe.
— Por todos os Deuses e como ele o conseguiu?— espantada deu um passo
pra atrás.
— Como você o conhece?
— Pelo adorno de Rutger. O pôs quando tinha cinco anos. — Maisey escorreu
o cabelo enquanto Tyree parecia que tinha visto um fantasma— O adorno
antes era outro bracelete.
— Eram gêmeos?
— Sim, mas o do Rutger se rompeu e Yarmilla colocou em seu cabelo quando
o outro desapareceu.
Maisey não entendia nada— E como meu pai o conseguiu?
— Isso é o estranho— sussurrou nervosa— Um dia ele já não estava.
— O daria Yarmilla a meu pai?
— Quando seu marido, o antigo Jarl, perguntou-lhe o que tinha sido dele,
Yarmilla disse que tinha desaparecido e que não o encontrava. Ela os levava
um em cada braço quando Rutger ainda não tinha nascido.
— Então um desapareceu e o outro se rompeu.
— O Jarl se enfureceu com ela dizendo que tinha sido descuidada e lhe deu
uma surra da qual não pôde mais endireitar as costas. Depois nasceu o
menino e um dia Rutger jogando com ele, quebrou-o. Seu pai não disse nada
quando isso aconteceu.
Harald era mais jovem que essa mulher, assim não tinham sido amantes.
Seu pai poderia ter escolhido entre mulheres muito mais jovens e belas.
Arrependeu-se de não lhe haver mostrado o bracelete a seu pai e que ele lhe
contasse a história. Perguntaria assim que o visse novamente.
— Cubra-o. Que ninguém o veja –disse com medo.
Escovou-se o cabelo diante do fogo e quando terminou brilhava como o sol.
— Come. Está faminta. — disse colocando sopa sobre a mesa — Continuo
pensando no bracelete e não consigo uma explicação pra o que pode ter
acontecido.
— Meu pai o encontou em algum lugar e o deu de presente pra minha mãe.
— disse indiferente sabendo que era impossível que isso tivesse passado.
Tyree assentiu sorrindo— Claro, deve ser isso. Você de toda maneira não o
mostre a ninguém. Para evitar problemas.
Quando terminou de comer Tyree lhe indicou a cama— Agora dorme.
Amanhã vai ser um dia comprido.
— Obrigada. Dormirá comigo? Há espaço de sobra.
Quando se preparou para dormir depois de vigiar o sono de seus filhos,
deitou-se a seu lado. Esgotadas dormiram em seguida.
Capítulo 10

O pranto do bebê as despertou e Tyree se levantou da cama— Está


amanhecendo. Tem fome— sussurrou ela.
Maisey alerta se levantou a toda pressa pois não queria que a pegassem
desprevenidas. Vestiu as calças e o vestido enquanto Tyree a olhava
sombrada.
— Por que se levantou?
Ela não sabia nada da briga e sorriu— Tenho que me preparar. Virão me
buscar em seguida.
Prendeu o cabelo em uma larga trança que amarrou com uma corda. Olhou
seu vestido. Não podia levantar as pernas como queria com ele, assim disse
pra Tyree.
— Me dê uma faca.
— Para que?— aproximou-se dela com o menino em braços.
— Para cortar o vestido.
A mulher estendeu a faca e ela o abriu dos quadris até embaixo. — Por todos
os Deuses o que faz?
— Assim não posso lutar cômoda. — respondeu cortando-o horizontalmente
para tirar o resto.
— Lutar?
A porta se abriu de repente surpreendendo Tyree e na porta estava Faste que
a olhou com desconfiança ao vê-la com a faca na mão.
— Solta isso.
Ela ignorando-o cortou o vestido por trás deixando ver as pernas cobertas
com as calças de couro. O vestido só lhe cobria o traseiro. Ao levantar o
olhar, deu-se conta que Faste a olhava assombrado e não pelas calças.
— Por todos os raios!— exclamou olhando seu rosto.
Maisey deu um passo para ele deixando a faca sobre a mesa — Surpreso
viking?
Assentiu deixando-a passar e ao sair viu quatro homens que estavam meio
dormindo. Aborrecidos olhavam a seu redor até que ela desceu um degrau. A
surpresa de seus rostos quase a fez rir— Onde está seu Jarl? Arrependeu-se?
— Fecha a boca. — disse um deles reagindo e agarrando-a pelo braço.
Levaram-na até onde os homens esperavam rindo. Rutger estava de costas
pra ela e quando seus homens a olharam perdendo a risada, ele se voltou
divertido. A cara de surpresa do Jarl foi tão evidente que Maisey sorriu
radiante. Era o que esperava. Ao menos o tinha confundido.
— Quem é essa?— perguntou Rutger atônito.
— A filha do Harald, meu Jarl. — disse Faste confuso— Não queria que lhe
trouxesse ela?
Rutger se aproximou olhando-a de cima abaixo. Desde sua preciosa cara até
suas contornadas pantorrilhas— Não pode ser, se ontem era uma bruxa!
Maisey levantou uma de suas finas sobrancelhas — Não sabe falar com uma
dama, Jarl. Acaso acreditava que meu marido tinha mau gosto?
Os homens puseram-se a rir e Rutger se voltou furioso cortando
imediatamente — Vamos ao grão.
— Que grão?— perguntou fazendo-a graciosa— Está perto esse grão?
Rutger entrecerrou os olhos. Queria enfurecê-lo. Deixá-lo em ridículo — Vou
destroçar esse rosto bonito.
— Agora sou bonita? Não se decide Jarl! Não era uma bruxa?— os homens
riram e Rutger se endireitou. Maisey o olhou com desprezo de cima abaixo—
Entretanto você é mais feio ao chegar o dia. Que coisas mais curiosas
acontecem na escuridão. — Tinha certeza que nunca em sua vida alguém lhe
disse que era feio. Tinha-lhe manchado o orgulho. Deu-se conta em seguida e
sorriu radiante cortando o fôlego.
Furioso a agarrou pelo cabelo soltando sua trança — Vamos lutar?
— Claro— disse ela perto de sua boca — Estou desejando isso. Assim poderei
me mandar daqui.
Rutger olhou sua boca e a soltou de repente provocando que seu comprido
cabelo a rodeasse. Era um espetáculo digno de ver.
— Onde está minha adaga?— perguntou divertida afastando o cabelo.
Segurou o cabelo sobre seu ombro e pegou a corda amarrando-o na altura da
nuca enquanto Rutger tirava sua adaga de sua bota— Muito apropriado, que
eu o mate com sua própria adaga. — disse divertida estendendo a mão.
— Levantou muito contente.
— É que logo poderei fazer amor com meu marido. — disse com voz sensual
fazendo que Rutger entrecerrasse seus olhos. Estava segura do que fazia.
Queria que a desejasse. Se conseguisse, pensaria antes de ferí-la.
— Isso não vai acontecer. — disse ele colocando a adaga sobre sua palma.
Ela sorriu irônica ― OH, claro que sim. Meu Roald é muito homem. Muito
mais que você e assim que me vir, me levará pra cama.
O insulto tinha sido grave e Rutger ficou vermelho de fúria — Comecemos.
Maisey piscou um olho pra ele ficando em guarda. Lambeu os lábios e ele a
olhou atônito sem perceber que ela iniciava o ataque cortando seu braço na
altura do cotovelo. Os homens ofegaram ao ver o sangue emanar da ferida ,
mas o mais surpreso era o próprio Rutger, que grunhiu olhando-a com ódio.
— Não me olhe assim. — disse ela fazendo charme— Não é culpa minha que
não esteja atento.
Ele se jogou contra ela querendo pegá-la pelo braço, mas Maisey fez um giro
lhe cortando a coxa. Rutger não se deu nem conta enquanto Maisey lhe
chutava o interior do joelho antes que girasse. Saltou para trás seguindo o
conselho de seu marido. Tinha que ser muito rápida, pois ele era muito forte
e com um só golpe a deixaria estirada no chão. Rutger perdeu o equilíbrio
sem chegar a cair enquanto os homens os observavam assombrados.
— É uma valkiria! — sussurrou um.
— Cale a boca!— gritou Rutger furioso apontando pra ele com o dedo.
Ela sorriu— É como meu marido. Não aceita perder.
— Vou tirar esse sorriso de sua boca.
— Viu?
Ele se atirou sobre ela, mas Maisey se lançou para trás dando uma
cambalhota e lhe golpeando no queixo com força. Quando voltou para sua
posição o olhou, Rutger cambaleava para trás enquanto os homens
murmuravam olhando-a com admiração.
— Vamos bonito, não diga que não pode com uma mulher. — disse divertida.
Maisey caminhou a seu redor e parecia que ele estava a ponto de cair , mas
ela não acreditou e assim quando a atacou estava preparada. Abriu os olhos
surpreso quando sua adaga se cravou em seu lado e ela se afastou
rapidamente girando-se sobre si mesmo e golpeando-o com o cabo da adaga
na têmpora. Caiu tão largo como era no chão de barriga para cima, enquanto
os homens se aproximavam assombrados. Não o tinha matado porque não
quis e todos sabiam disso. Endireitou-se dando as costas ao Jarl e os olhou
um a um. Faste e Raynor não saíam de seu espanto.
— Agora cumprirão a palavra de seu Jarl?
Os homens assentiram enquanto dois se ajoelhavam ao lado de seu chefe
olhando suas feridas — Por todos os Deuses, matou-o!
Ela se voltou de repente olhando seu corpo— Não o matei.
Aproximou-se rapidamente empurrando a um que estava ao lado e se
aproximou de seu peito.
— Está vivo, imbecil!— disse furiosa – Atende seu Jarl!
Viu como o levantaram entre os quatro e se aproximou de Faste— Têm
curandeira verdade?
— Sim, mas não é muito boa. — disse preocupado.
— A ferida do lado é superficial! Só tem que fechá-la!— não queria que
morresse, pois o rancor entre as aldeias cresceria e não queria ser
responsável por isso. Vários cavalos se aproximaram rapidamente e ela olhou
assombrada aos seis homens.
— Foge, é Galt!
— Quem é Galt?
— O Jarl vizinho. — disse empurrando-a pelo ventre colocando-se na frente
dela.
Um homem da idade de seu pai com aspecto feroz, aproximava-se a toda
velocidade seguido de seus homens.
— Não posso ir até saber se Rutger esta bem!
— Não é problema seu.
— Claro que sim!
Galt viu o Rutger inconsciente e deteve seu cavalo – Que raios passou?
Um dos homens do Rutger que estava junto ao grupo contou e Galt a olhou
entrecerrando os olhos fazendo Faste gemer.
— Agora não poderá ir. Não te deixará. Ele não deu sua palavra.
Maisey se endireitou com a adaga ensangüentada na mão— Isso é o que
veremos.
Os homens levaram Rutger, enquanto que Galt sorrindo sob sua barba,
aproximou-se montado a seu cavalo.
— Então você o desafiou. — disse olhando-a de cima abaixo — É valente. —
estirou tanto as costas que pensou que as ia quebrar— E formosa.— olhou-a
com desejo— Tão formosa que nubla o sol.
Ela levantou uma sobrancelha fazendo-o rir gargalhando. Era estranho que
alguém que aparentava ser tão feroz fosse tão lisonjeiro. Não acreditava nele.
Esse homem queria algo.
— Agora se me desculpa, vou ver como está o perdedor. — disse ela como se
fosse uma rainha. Galt a olhou afastar-se com admiração.
— Como te chama, preciosa?
Ela se voltou— Maisey, esposa do Roald e filha do Harald.
O olhar do Galt se gelou em um instante— Não, você não é esposa do Roald.
Você será minha esposa.
Essas palavras gelaram seu sangue e ignorando-o deu-lhe as costas. Sua
risada pôs seus cabelos em pé e disse a si mesma que tinha que sair dali
antes de meter-se em mais confusões. Correu até a cabana onde tinham
metido o Rutger e uma mulher lhe estava atendendo. Quando viu como
pinçava em sua ferida gritou com ela.
— Pare!— todos ficaram em silêncio voltando-se para ela.
A anciã Yarmilla estava chorando acariciando o cabelo de seu filho e Maisey
empurrou à curandeira de repente fazendo ofegar os que estavam ao redor.
— Deixa-o viver, viking. — disse a mãe do Rutger— Te suplico isso.
— Deixa de chorar! Suas lágrimas não lhe servem de nada!— olhou à
curandeira e a apontou com a adaga— O que está fazendo?
Assustada deu um passo atrás— Não sei a que te refere.
— Estava ferindo-o de propósito e quero saber porque.
A mulher olhou a seu redor procurando ajuda, mas todos a observavam sem
mover um dedo. Maisey deu um passo para ela e a mulher empalideceu—
Não sei o que tenho que fazer— disse tremendo— Não me ensinaram o que
fazer.
Olhou-a assombrada— Acaso não é a curandeira?
— É sua filha, Maisey. — disse Faste atrás dela — A curandeira morreu faz
dois anos. Mas se supunha que sua mãe tivesse te ensinado tudo.
A mulher negou e olhou Faste com rancor— Dizia que não tinha o dom!
Maisey levantou os braços pedindo ajuda a seus Deuses. Aquilo era incrível.
Suspirou olhando pra Rutger — Acendem o fogo!— gritou furiosa — E tragam
ataduras!
Enquanto realizava o mesmo processo que fez em Thorbert, Rutger não
moveu um cabelo e isso a preocupou. E se não despertava nunca mais?
Yarmilla ao ver que a ferida tinha deixado de sangrar pôs-se a chorar do
alívio. Maisey ao passar a seu lado grunhiu –Chora muito, mulher.
Yarmilla a olhou assombrada e de repente sorriu. Maisey viu algo nela que
arrepiou os cabelos e a agarrou pelo pescoço surpreendendo-os a todos.
— O que está fazendo?— estava assustada , mas, Maisey não podia deixar de
olhar sua cara. Assombrada viu seus olhos. Os mesmos que os de seu pai.
Iguais aos dela mesma. — De que cor era seu cabelo?
Ninguém a tocou enquanto olhava à mulher que entrecerrou os olhos — Foi
loira?
— Sim era. –disse outra anciã — Tão loira como você.
— Por todos os Deuses!— gritou fora de si— É minha avó verdade?
A anciã empalideceu e negou com a cabeça. Maisey olhou à anciã que tinha
falado e que agora a olhava de outro modo— Me pareço com ela?
— Você é muito mais bonita. — disse a anciã sem duvidar um segundo— Ela
era bela, mas não tinha comparação contigo.
Voltou a olhar à anciã— É a mãe do Harald?— perguntou entre dentes.
Negou com a cabeça desviando o olhar e Maisey não soube se estava
mentindo— Então como explica isto? rasgou a manga do vestido mostrando o
bracelete. A anciã abriu os olhos como pratos e cambaleou para trás
enquanto que a outra velha a olhou com rancor.
— Foi infiel a meu irmão?
— Não! Foi antes de me casar com ele!— gritou histérica— Minha mãe ficou
com o menino e quando me comprometi, o pai do Rutger me deu de presente
os braceletes, que eram deles, em sinal de compromisso. Mas minha mãe não
tinha nada e depois de uns anos dei um pra ela para que o trocasse pelo que
necessitasse!
Todos olhavam a Yarmilla assombrados. — Então sim, sou sua neta. — olhou
Rutger sem sair de seu assombro— E ele é meu tio!— disse-o com tal
incredulidade que Faste sorriu.
— Tem que reconhecer que tem seu sangue.
— Mas briga muito pior. — disse fazendo-os rir.
Maisey olhou a sua avó e suspirou pois se sentou em uma cadeira a chorar—
O que aconteceu a Harald?
— Minha mãe o deu de presente quando tinha três anos. Não soube nunca o
que tinha passado com ele. Olhou-a assombrada— Harald é meu filho!— de
repente sorriu— Tenho dois filhos Jarl.
Maisey revirou os olhos. — Vocês verão quando ele souber. Caiu do céu uma
filha e uma mãe pra ele em poucos dias. — então se deu conta que seu pai
tinha dado pra sua mãe seu bem mais prezado. O bracelete que levava desde
pequeno.
Cobriu-se o braço e fez uma careta ao ver o estrago que tinha feito com seu
vestido — Bom… — disse desconfortável— eu vou.
Sua avó se levantou tão ágil que a surpreendeu e agarrando-a pelo braço
disse— Não pode ir… Acaba de chegar!
Ruborizou-se ligeiramente – É que meu marido estará preocupado e meu
pai…
Ouviram-se vozes no exterior e Maisey ficou alerta. Saiu correndo quase
arrastando a sua avó e afastou um homem da porta para olhar pra fora. A
metade de seu clã estava ali montado a cavalo fortemente armados. Os gritos
de seu marido dizendo que queria vê-la poderiam derrubar a aldeia. Maisey
sorriu descendo os degraus rapidamente. Roald a viu chegar e desceu do
cavalo enquanto Tage e Sorem moveram seus cavalos deixando-o no meio.
Maisey gritou de alegria correndo para ele e Roald sorriu enquanto sua
mulher se atirava sobre ele abraçando-o.
— O que fazem aqui? Estava a ponto de voltar.
Ele a beijou nos lábios e vários homens ficaram em guarda levantando suas
espadas— Sobe ao cavalo, preciosa. — disse ele afastando-a.
Maisey olhou sobre seu ombro e viu os homens do Galt dispostos a brigar—
O que está acontecendo?
Galt deu um passo adiante com o machado na mão— Te disse que não é mais
sua esposa.
— E? Não me importo com o que você diz!
Os homens do Rutger também levantaram suas armas deixando-a atônita—
Não podem me fazer nada!
— Não lhe faremos nada, mas a eles…— disse Raynor.
— Não pode ir. — disse Faste deixando-a atônita — Agora é nosso Jarl.
Essas palavras a deixaram petrificada.
— Que fez pequena?
— Não tenho nem ideia, pai.
— Desafiou ao Rutger.
Seu pai riu gargalhadas e Roald revirou os olhos — Não me diga isso,
ganhaste.
O olhou indignada— Claro que ganhei!
Tage sorriu abertamente.— Não esperava menos, Maisey.
— Será minha esposa. — disse Galt fazendo que os homens do Rutger se
voltassem para ele.
— Silêncio!— gritou Yarmilla do alpendre olhando pra seu filho.
— Pai… me esqueci de te dizer algo…
— O que, filha?
Yarmilla baixou os degraus olhando a seu filho e estendeu os braços— meu
Filho…
Seu pai a olhou como se estivesse louca e depois olhou a sua filha.
— Veja, ela foi quem lhe deu isto. — Harald assombrado viu seu bracelete e
desceu do cavalo fazendo que seus homens lhe rodeassem.
Acariciou-lhe o braço— Já não me lembrava dele. — sussurrou emocionado.
— Imaginei isso. Mas é que…. — olhou a sua avó que estava impaciente— o
bracelete era dela. Da avó.
Roald ficou com a boca aberta olhando à velha. Seu pai olhou a Yarmilla
como se visse um fantasma— O que diz, filha? Minha mãe morreu faz anos!
Maisey o olhou confusa— De onde tiraste o bracelete?
— Minha mãe me deu isso.
— E de onde ela o tirou?
— E eu o que sei!— seu pai começava a zangar-se.
— Maisey por que pensa que é sua avó?— perguntou seu marido cruzando os
braços.
— Porque teve um filho que sua mãe deu de presente e o bracelete era dele!—
não queria falar de seus olhos porque a chamariam louca — Meu tio tem
outro parecido pendurado no cabelo.
Roald abriu bem os olhos— Aí que eu o tinha visto!
Roald olhou à anciã que emocionada deu um passo para o Harald. Seu pai se
esticou— Não se aproxime, velha.
— Não a chame assim. — protestou ela.
— Essa mulher não é minha mãe!
— Preciosa, sobe ao cavalo. Vamos.
— Um momento! Nossa Jarl não vai a nenhum lugar.
Ela se voltou para o Faste – Não sou sua Jarl!
— Claro que é.
— Então não quero sê-lo. — aproximou-se de seu marido que a agarrou pela
cintura.
— Solta-a Roald, ela é minha.
As palavras de Galt foram a gota que encheram a paciência de seu marido—
Matem todos!!
— Não!— gritou ela afastando-se de Roald que a olhou como se quizesse
matá-la por lhe contradizer — Não percebem? Todos somos família!
— Está louca, são nossos inimigos!
— Vocês podem ir, mas ela fica. — disse Faste.
Ela olhou pra todos com os olhos entrecerrados— Muito bem. Quem ganhar,
decidirá.
— O que quer dizer?— perguntou Roald furioso— Você vem pra casa comigo.
E fará o que eu te disser!
Cruzou os braços — Eles dizem que sou a nova Jarl. Não vai me obrigar.
Roald arregalou os olhos — Verá que vou te obrigar.
Deu dois passos para ela e uma flecha caiu diante de seus pés detendo-o.
— Olá?
Todos se voltaram e Maisey abriu os olhos como pratos ao ver Sakeri
montado em um asno.
— Meu amor, ao fim te encontrei!— gritou eufórico descendo de seus arreios.
Roald ficou assombrado
— Vou matá-lo. — disse entre dentes.
— O que faz aqui?— perguntou sem poder evitar sorrir.
— Vim te buscar. Disse que o faria. Seus pais estão aqui? — olhou ao seu
redor e Harald entrecerou os olhos
— Quem é este piolho?
Sakeri sorriu radiante — Sou o homem que vai casar- se com ela.
Harald olhou pra sua filha levantando uma sobrancelha e ela se ruborizou
intensamente— Veja, pai…
— Você é seu pai?— aproximou-se correndo— Me concederia sua mão? Ela
me ama sabe?
— Ah, sim?
— Por todos os raios!— gritou Roald fora de si dando um passo para ele e
agarrando-o pela camisa — Juro pelos Deuses….
— Roald!— gritou ela detendo-o— Deixa-o no chão.
Faste se gargalhava— Menina quantos pretendentes tem?
— Não interessa, porque é minha. — disse Galt.
— Maisey, sobe no cavalo!— gritou Roald agarrando sua espada do arreio do
cavalo.
— O que ocorre aqui?— perguntou Sakeri confuso. Olhou a ela e sorriu
aproximando-se. Uma flecha caiu ante seus pés detendo-o.
— Não se aproxime de nossa Jarl!
Sakeri escancarou os olhos— Não pode ser sua Jarl. É uma mulher.
— Minha neta luta melhor que qualquer homem!— gritou sua avó.
— Não é sua neta!— gritou seu pai.
— Olha-a bem. É igual a mim quando era jovem. — disse a anciã levantando
o queixo.
A cunhada de sua avó que também estava no alpendre, assentiu— Agora que
a vejo bem. Sim, são iguazinhas.
Maisey revirou os olhos antes de rir novamente deixando-os todos atônitos —
Agora todos me querem? Antes ninguém me queria e agora todos me querem.
Roald entrecerrou os olhos — Isso não é certo, Maisey.
— Claro que sim!— voltou-se para seu pai e lhe apontou— Ele não se
preocupou em cuidar de nós! Deixou-nos sozinhas enquanto todos nos
odiavam. Sabem como é viver sabendo que todos lhe odeiam?— voltou-se
para o Roald ignorando a expressão de dor de seu pai — E você nunca me
disse que me aprecia! Por que deveria voltar contigo? Aqui eu ganhei o
respeito!— voltou-se enquanto seu marido empalidecia –E você…— disse com
ódio mostrando Galt— Só me quer porque não demostrei medo, não é
verdade?
O homem assentiu.— Seria a esposa que sempre procurei.
Olhou ao seu redor. Homens que fazia algumas horas queriam matá-la, agora
a reclamavam como Jarl. Os homens eram absurdos — O que querem que
faça agora?
Olhou a seu redor e ficou sem fôlego enquanto seus olhos se enchiam de
lágrimas— Raio?— sussurrou correndo para seu cão que ladrou ainda mais
ao vê-la. Atirou-se sobre ela fazendo-a cair ao chão enquanto Maisey chorava
de alegria. Seu cão lhe lambeu a cara.
— Você sim que é fiel. — sussurrou abraçando-se a seu pescoço— O mais fiel
de todos.
As botas de seu marido apareceram ao lado de seu rosto— Seu cão?
Ela sorriu radiante— Me seguiu até aqui.
Roald sorriu e esticou a mão. Raio grunhiu mostrando suas presas e ela pôs-
se a rir— Sabe que me levaram de seu lado. É muito inteligente.
— Tem que voltar comigo. — disse Roald.
Maisey se sentou no chão sentindo um tombo no estômago— Por quê?
— Vamos ter um filho!— respondeu muito tenso. A decepção na cara de
Maisey foi evidente— E Tavie? Está preocupada com você.
— Enviarei alguém pra cuidar dela. — sussurrou levantando-se.
— É minha esposa!— gritou ele enquanto Raio lhe grunhia. Maisey o agarrou
pelo lombo detendo o ataque — Não, Raio. — o cão se acalmou
imediatamente e Maisey lhe aplaudiu — Você não me queria como esposa,
assim estou te fazendo um favor.
Roald passou a mão pelo cabelo furioso — Outro homem nunca vai te tocar.
Ela levantou o queixo— Isso eu decidirei. — voltou-se para todos os que
estavam ali reunidos e se aproximou lentamente — Olav, vem aqui!
O homem sorriu aproximando-se rapidamente — Diga, princesa.
Separaram-se de todos e ela perguntou desesperada— O que faço?
— Sabe o que conseguiste?— perguntou assombrado— Estes três clãs não
estiveram juntos sem brigar há muitos anos! Tem que fazer algo para que
continue sendo assim. Juntos somos mais fortes.
Ela entrecerrou os olhos olhando seu amigo — E como o faço?
Ele sorriu— Sabe como.
Aproximou-se dos homens e se colocou ao lado de sua avó que a olhava
orgulhosa— Decidi. — olhou pra seu pai e disse— Te desafio por ser o Jarl de
seu povo— se voltou para o Galt para não ver o olhar de incredulidade de seu
pai e lhe disse — Te desafio por ser o Jarl de seu povo. — o homem pôs-se a
rir dando golpes em seu joelho e depois olhou pra Roald— E te desafio por
minha liberdade.
Roald sorriu abertamente— Já ganhei uma vez.
— Veremos o que acantecerá.
Os homens que agora considerava seus a animaram rindo— Será uma rainha
viking!— diziam com admiração — Nossa rainha!
Sua avó a abraçou— É nossa esperança. Você mudará as coisas.
— Não sei se serei capaz.
— Não se renda. — disse olhando-a nos olhos — Seu pai entenderá.
Assentiu voltando-se, fazendo um gesto com a mão pra Raio para que não se
movesse. Aproximou-se de seu pai que estava muito tenso— Está preparado?
Ele assentiu – Como que vai ser?
— Não sei. Você o que quer usar?
— Adaga. — disse seu pai nervoso.
— Então seja adaga. –olhou de soslaio pra Roald que estava muito tenso.
Fez-se um grande círculo, pois ninguém queria perder detalhe e Maisey
piscou um olho pra Tyree. Olav se aproximou dela e lhe entregou sua adaga—
Não o mate. — disse divertido.
— Estou assustada e se fizer mal a ele?
— Está aterrorizado por fazer isso também com você. — sussurrou olhando-a
nos olhos.
— Meu amor por que está fazendo isto?— todos viraram para Sakeri que
corou intensamente. Sorem o agarrou pelo pescoço atirando-o para trás. O
pobre caiu sentado atrás das pessoas que se colocaram diante dele para não
perderem nenhum detalhe.
Maisey fechou os olhos tomando ar que começava a falhar. Muitas emoções.
Olhou de esguelha pra Roald que se esticou.
— Volto em um minuto— disse ela entrando a toda pressa na casa e
agarrando um balde de água para jogar em cima dela mesma . Sua avó que a
havia seguido piscou assombrada — Agora estou melhor. — disse saindo da
casa e ouvindo seu tio gemer. Ninguém lhe fez nem caso. Voltaram a sair da
casa e Roald entrecerrou os olhos ao ver que estava molhada — Maisey…
Passou a seu lado— Estou bem.
Entrou no círculo com a adaga na mão olhando seu pai nos olhos.
Caminharam um ao redor do outro e ao ver que seu pai não a atacava ela o
fez estendendo o braço e dando um semicírculo com a adaga. Ele a esquivou
com soltura.
— Vamos, pai. — sussurrou olhando-o aos olhos — Se não acreditam não
adiantará de nada.
Deu-se conta quando seu pai entendeu tudo e a atacou com força lhe dando
um golpe de lado que ela repeliu com uma joelhada em seu estômago. Harald
deu um passo atrás e Maisey saltou dando uma cambalhota lateral que o
acertou na orelha. Seu pai levou uma mão ali e Maisey gemeu quando viu o
sangue. Os homens a aclamavam enquanto que os de Harald estavam mudos
sem entender o que acontecia. Seu pai deu um passo adiante e sua adaga
passou cortando seu vestido por debaixo de seu peito roçando-a. Roald deu
um passo para ela, mas Sorem o agarrou impedindo-lhe enquanto Maisey
dava uma pezada em seu pai no quadril que o desequilibrou. Ela aproveitou
para atirar-se sobre ele e colocar a adaga em seu pescoço— Te rende?—
gritou ofegante.
Harald assentiu enquanto seus homens gritavam levantando os braços.
Maisey sorriu levantando-se e dando a mão a seu pai para que se levantasse.
Ele o fez e pondo uma mão no peito enquanto abaixava a cabeça.
Ela não entendeu, mas todo o clã de seu pai fez o mesmo antes de aclamá-la.
Roald sorria negando com a cabeça como se não pudesse acreditar.
— Ataque-me. — disse Galt saindo com a adaga.
— Ela deve descansar!— gritou Roald furioso.
— Sim!— apoiou-lhe Faste— Minha rainha hoje desafiou duas vezes! Não
seria uma briga justa!
Galt olhou a seu redor e ao ver que seus dois clãs a apoiavam assentiu—
Muito bem. Que seja esta tarde antes do anoitecer.
Maisey ia negar, mas Roald se colocou na frente dela olhando sua ferida sob
seus seios.
— Deveria te matar. — disse entre dentes
— Terá oportunidade de fazê-lo. — respondeu divertida.
Faste a agarrou por um braço e Olav pelo outro— Vem, princesa. Tem que
beber algo e comer para repor as forças.
— Tragam um vestido pra nossa rainha!— gritou Faste.
Ao voltar-se viu que Raynor a observava com os olhos entrecerrados e
lembrou sua promessa de matá-la — Esperem. — disse soltando-se e indo
para ele— Raynor…
— Sim, Jarl?
— Recorda o que me disse?
— Espero que o tenha esquecido, meu Jarl.
Ela sorriu— Farei o que puder. — voltou-se e sorriu pra seus amigos.
Meteram-na em uma cabana e a sentaram em uma mesa. Seu pai se sentou
na frente dela e a avó a seu lado. Roald se sentou do outro, empurrando-a
pelo banco e à avó também de passagem.
— Esse marido teu não tem maneiras. — disse sua avó com a boca cheia de
carne de veado.
— Fique tranquila avó, amanhã já não será meu marido.
— Não é sua neta. — disse seu pai enquanto lhe serviam hidromel.
— Claro que sim está cego, filho? Somos idênticas!
— Sobre deixar de ser seu marido, veremos. No momento tem que sobreviver
a Galt. — disse entre dentes— Como pensou em fazer uma coisa assim?
— É minha filha. É muito inteligente.
Roald pôs os olhos em branco— Preciosa, se não puder com ele perderemos
tudo.
— Não me pressione!— gritou muito nervosa. Começou a dar-se conta do que
tinha feito. Dois clãs podiam cair em mãos do Galt!
— Não fique nervosa. — disse seu pai olhando-a fixamente — Você saberá o
que tem que fazer. Luta como uma valkiria e não pense. Atua por instinto.
— Tem que ser rápida. Não deixe que te golpeie porque te destroçará com um
golpe. — disse Roald preocupado.
Maisey lhe fulminou com o olhar— Esta arruinando minha comida!
— Eu não gosto desse seu marido. — disse a avó antes de beber.— Que tal se
procurarmos outro? O Jarl mais ao norte acaba de ficar viúvo. Não é muito
rico mas tem muitas terras.
— Fecha o bico, avó!— disse Roald furioso— É minha!
Sua avó gargalhou deixando-a atônita. Farta se levantou com a comida na
mão e Roald a obrigou a sentar-se fazendo com que os homens se
aproximassem furiosos.
— Deixe-o, meninos— disse ela indiferente atirando um osso pra Raio que
estava atrás dela — Você tem que me ouvir! Agora sou sua Jarl! –seu marido
levantou uma sobrancelha— Ao menos dissimula um pouco!
— Sim, Jarl. — disse com brincadeira.
Harald pôs-se a rir e ela vaiou — É impossível.
— Preciosa, te direi quão impossível sou quando chegarmos em casa. Agora
termina, que tem que descansar um pouco.
— Sim, menina. Uma sesta lhe fará bem. — disse a avó agarrando outra
parte de veado. O que comia essa mulher, pensou assombrada.
Sorem e Tage estavam alerta pois como era lógico ainda não se sentiam
seguros — Como está Thorbert?
— Resmungando por não poder vir te tirar daqui. — disse seu marido
levantando-se — Vamos.
Maisey se levantou e lhe sussurrou –Não pode vir comigo. É meu rival. Faste!
O homem se aproximou imediatamente— Sim, minha rainha?
— Onde posso descansar?
— Onde queira. Pode escolher qualquer cabana. Todos estarão encantados de
te acolher.
Maisey sorriu— Então irei a casa de Tyree.
Saiu e viu os homens do Galt comendo enquanto seu chefe se exercitava. Era
rápido e lhe viu tombar a seu rival sem nenhum esforço.
— Ainda pode voltar atrás. — disse seu marido a suas costas— Galt é letal no
corpo a corpo.
— Não me matará. Deseja-me.
Seu marido grunhiu atrás dela e Maisey desceu os degraus divertida. Sua
teoria ficou confirmada quando Galt se deteve para olhá-la. Ela sorrindo lhe
lançou um beijo e o homem riu a gargalhadas— Será minha!
— Não esteja tão seguro. — disse passando ao seu lado. Maisey se deteve
bruscamente ao ver que dois homens do Rutger se metiam com o Sakeri
sacudindo o de um lado a outro— Ei! Vocês!— os homens se voltaram e a
olharam arrependidos — O que fazem?— gritou furiosa.
Olharam-se antes de dizer— Então, como te incomodava…
— Eu resolvo meus assuntos!— gritou afastando um e dando um golpe no
seu peito— Querem ser meu assunto?
— Não, minha rainha. — disse o outro dando um passo atrás.
Sakeri sorriu como se ela tivesse lhe dado a lua— Se esqueceu de mim, amor.
— Sakeri…— Maisey não pôde evitar responder a seu sorriso e ele deu um
passo para ela.
— Fracote, caso a toque fica sem mãos. — disse seu marido furioso— Não sei
porque lhe defende!
— É o único que só me quer!— gritou-lhe na cara— E me seguiu porque me
quer ou não o ouviu?
— Com loucura. Já disse pra minha mãe e quer te conhecer. E a sua família
— disse ansioso — Quando iremos, amor?
Maisey se aproximou dele— Não posso ir, Sakeri. Agora vivo aqui.
— Não se esqueça de lhe dizer que está casada!
— Fecha o bico!
Sakeri olhou pra Roald— Casaram você com ele, não é verdade? Mas
solucionará. Assim que o vença, será livre.
Ela se deu conta que ele pensava que assim que ficasse livre se iria com ele e
não era justo lhe criar esperanças. Já se sentia fatal porque tivesse ido até
ali.
— Não irei contigo, Sakeri. — disse suavemente.
— Porque está casada comigo!
Maisey revirou os olhos e se voltou para lhe dizer algumas coisas. Sorem e
Tage que estavam atrás dele, tentavam conter a risada. Coisa que faziam mal.
Seu marido com os braços cruzados os olhava como se quizesse matá-los e
Maisey quis vingar-se. Voltou-se para o Sakeri e disse.— Nossa história de
amor é impossível.
Sakerie a agarrou pela mão. Um engano porque saiu voando assim que a
tocou caindo sobre seu traseiro — Quer deixá-lo em paz de uma vez? Não vê
que é inofensivo?
Roald a olhou com seus olhos verdes entrecerrados— Que não te toque!—
gritou-lhe na cara
— Não fale assim comigo!
— Mulher…
— Urrrgg!— voltou-se para o Sakeri— Volta para sua casa. Busca uma boa
mulher e te case com ela.
— Meu amor. Esperarei se por acaso mudar de opinião. — disse levando uma
mão ao peito.
Maisey não pôde evitar sorrir e seu marido gritou— Você o está incentivando!
— Ele me diz coisas bonitas.
Roald a agarrou pelo braço girando-a— Está dizendo que eu não lhe digo
isso?
Ela fez que pensava e lhe gritou na cara— Não, você não me diz isso!— seus
amigos puseram-se a rir— Não me diz se sou bela ou quão encantador é meu
caráter. Só se queixa de mim!
Roald estava assombrado— Te dei de presente o anel!
— Urrrggg. — voltou a grunhir e se voltou deixando-o com a boca aberta.
Zangada foi até a casa de Tyree e fechou a porta atrás dela. Sua amiga estava
dando de comer à menina e levantou a vista sorrindo— Já comeste, meu
Jarl?
— Não me chame assim. — grunhiu ela.
Tyree reprimiu uma risada— Ontem era uma refém e hoje é nossa líder.
Maisey voltou a grunhir sentando-se na cama — Seu marido não estará
muito contente.
— Quem não vai ficar contente é Rutger quando melhorar.
Olharam-se e puseram-se a gargalhar. A porta se abriu de repente e Maisey
suspirou ao ver seu marido as olhando com desconfiança— Me deixe sozinho
com minha esposa.
Tyree ia pegar a menina quando Maisey disse — Não se mova. — levantou
aproximando-se de seu marido.— É sua casa e não tem nenhum direito dar
ordens!
Tyree indecisa, pois seu Jarl lhe havia dito que não se movesse, olhou pra
Roald— Será melhor que eu saia. — sussurrou agarrando a menina— Os
deixarei sozinhos se estiver bem pra você, meu Jarl.
— Obrigada, Tyree.
A mulher passou ao lado do Roald com desconfiança e este fechou a porta
com uma batida.— Não deveria estar aqui. É meu rival.
— Deixa de tolices!— aproximou-se dela e a agarrou pela cintura— Preciosa…
— a apertou contra ele — Está bem?
Maisey levantou o olhar e de repente seus olhos se encheram de lágrimas —
Me coloquei em uma confusão que não sei se poderei solucionar.
Roald suspirou levantando-a pelo traseiro enquanto que ela rodeava o
pescoço com seus braços— Tem que vencer Galt, Maisey. Dois clãs estão em
suas mãos. E ele a deseja muito.
— Sei. — apoiou sua bochecha em seu ombro –Mas tinha que desafiar a
papai para que a provocação fora irresistível para o Galt.
Roald se sentou na cama com ela em cima e afastou seu rosto para olhá-la.
Estava preocupado— Tem que ser rápida e evitar que te pegue.
— Você já me disse isso. — sussurrou enquanto uma lágrima caía por sua
bochecha — Se morrer…
— Isso não vai acontecer porque ele te deseja recorda?— Maisey assentiu— É
a mulher com mais poder que já vi até agora e conseguirá vencer. Tem que
confiar. Isso é tudo.
— Você tem medo?
— Sim. –abraçou-a — Tenho medo de que esse desgraçado te faça mal.
Para Maisey essas palavras foram as mais bonitas que tinha ouvido dele —
Se te vencer, perderá-me.
— Não perderei. — suas mãos desceram de suas costas a seu traseiro
acariciando-lhe por cima de suas calças — Porque é minha.
Maisey perdeu o fôlego porque pela primeira vez sentiu que era verdade. Era
parte dela e só rogava que Roald sentisse o mesmo — Tem que ir. — separou-
se dele para lhe ver bem e lhe acariciou a bochecha. Olharam-se durante uns
minutos e Maisey lhe beijou nos lábios suavemente — Vou sentir sua falta. —
disse ela contra seus lábios. Ele levantou uma sobrancelha e acrescentou
divertida— Quando ganhar, digo.
Roald pôs-se a rir e Maisey se levantou. Pôs os braços nos quadris.
— Roald, não ria.
— Não vai me deixar.
— Isso logo veremos.
Seu marido se levantou e aproximou seu rosto ao seu ainda sorrindo— Sabe
por quê? Porque me quer. Posso ser pouco delicado, não te dizer coisas
bonitas e segue louca por mim. Ama-me tanto que não poderia viver sem
mim.
— Isso é mentira!— gritou indignada indo para a porta e lhe abrindo de
repente — Saia!
— Então por que fugiu para casa, no lugar de voltar para Escócia quando
teve a oportunidade?— disse saindo da casa.
— Por meu pai!— gritou lhe fechando a porta no nariz.
As gargalhadas do Roald se afastaram e Maisey sorriu sem poder evitá-lo.
Esse homem era impossível.
Capítulo 11

Deitou-se por um momento, mas não podia dormir. Estava muito excitada,
assim que se deu por vencida e depois de um par de horas saiu da casa. No
alpendre estavam esperando-a todo seu clã— Como está, princesa?
Ela olhou ao Olav e sorriu— Bem.
— Filha, se não quiser fazê-lo…
— Não a ponham nervosa. — disse Roald olhando-a fixamente — Está
pronta?— olharam-se nos olhos e assentiu— Necessita água fria?
— Água fria?— perguntou Tage surpreso— Tem sede?
Eles não lhe fizeram caso –Não sei.
— Deixarei um balde perto. Se precisar, diga-me e lhe jogo a água quando se
aproximar.
— Está bem.
Os homens os olharam como se eles estivessem loucos.
— Vamos preciosa, quanto antes melhor.
Faste e outros se uniram ao seu grupo com ela à cabeça. Olav lhe deu uma
adaga e ela olhou seu amigo— Sem piedade, princesa.
— Sim, amigo. — olhou seu pai que a tocou nas bochechas— Sinto tudo isto.
— Fez o correto. Agora termina-o. — disse olhando-a seriamente — Se tiver
que matar, não duvide.
— Sim, pai. — disse endireitando-se. Harald a beijou na bochecha e ela
sussurrou a seu ouvido— Cuida de Tavie se eu não sair desta.
Seu pai emocionado se afastou e ela se voltou para seu marido — Se notar
que está perdendo o fôlego, grita meu nome — disse ele tenso.
— Está bem.
— Vamos começar?— perguntou Galt divertido.
— Tem pressa por morrer?— as risadas de seus clãs incomodaram Galt.
— Tome cuidado, preciosa.
— Vejo-te logo. Reserve energias para quando eu te atacar. — Ela piscou um
olho pra ele antes de entrar no círculo que se formou.
Galt sorriu sem vontade e ela disse pra si mesma que não estava tão crédulo
como tentava aparentar — Ainda pode se render — disse ele.
— Estava pensando o mesmo pra você. — as risadas os rodearam e ela ficou
em posição de ataque.
— Você quem quis.
Galt dobrou os joelhos e caminhou em círculo vários passos. Todos
esperavam seu primeiro ataque e Galt não o levou a cabo esperando um dela.
Ela fez uma ameaça com a adaga para movê-lo e Galt atacou. Sua adaga
passou tão perto de seu ombro que cortou o vestido. Aproveitando a posição,
agarrou seu braço e lhe deu uma cotovelada no peito, mas ele quase nem se
alterou, pois era muito forte. Agarrou-a por sua trança com a outra mão e
girou-a rindo.
— Isto vai ser tão fácil, que é engraçado.
Maisey levou a mão entre as pernas dele e apertou com força fazendo-o
gemer. Ao aproximar sua cara a dela, Maisey golpeou-lhe com a frente no
nariz rompendo-lhe, se afastou assim que lhe soltou o cabelo. Aproveitando
sua vantagem o golpeou no joelho e ouviu um rangido — Sem piedade,
princesa!— gritou Olav.
Galt perdeu o equilíbrio, mas com sua adaga fez um ataque, cravando na
coxa de Maisey. Ela reprimiu um grito não querendo preocupar aos seus,
mas eles tinham notado como ela foi atingida.
— Maisey!— gritou Roald. Seus homens tiveram que segurá-lo enquanto Galt
tirava a adaga de sua coxa. Furiosa golpeou-lhe com o punho livre no nariz
quebrado e depois lhe agarrou o cabelo e golpeando-lhe com a perna ferida
deu joelhadas em sua cara várias vezes até fazê-lo cair de costas.
— Rende-se?
— Morre, vadia. — disse com a boca cheia de sangue.
Maisey se aproximou dele— Tome cuidado!— gritou seu marido enquanto ela
dava um chute entre suas pernas que o fez uivar. Atirou-se sobre ele, mas
antes de dar-se conta Galt rodou colocando-se em cima e pondo sua adaga
em seu flanco sem dar-se conta que Maisey cravava a sua até o fundo
debaixo de sua axila.
Ficaram olhando-se surpreendidos e nenhum dos dois se moveu enquanto
todos os espectadores observavam. Galt tossiu salpicando-a com seu sangue
na cara, antes que sua cabeça caísse sobre a grama, sem vida. Ninguém se
moveu esperando e Maisey se afastou lentamente tentando levantar-se. Uns
braços a levantaram e abraçou Roald que a apertou fortemente— Não sairá
mais de casa.
— Roald, ela está sangrando muito. — disse seu pai preocupado.
Antes que percebesse ele a pegou nos braços e a levou até uma das cabanas.
Os homens atiraram as panelas no chão para deitá-la na mesa. Tyree agarrou
uma faca para rasgar suas calças. Maisey tentou olhar, mas seu marido a
impediu— Me deixe ver!
— Tyree se encarregará.
— Acredito que está deixando de sangrar. — disse Tyree levantando sua
perna — Sim, por trás já não sangra.
— Enfaixa-a! Fortemente. — disse irritada consigo mesma. Olhou seu marido
e sorriu — Eu consegui.
— Sim, quase não deu conta. — disse ele furioso— Quando ele girou
colocando-se sobre você…
— Venci-lhe. — sorriu triunfante e vários puseram-se a rir.
— É a Jarl de três clãs!— gritou Olav enquanto outros a animavam.
— A viking mais poderosa!
Ela revirou os olhos e sorriu pra seu marido— Agora falta você.
— Não penso te desafiar. E menos ainda nestas condições. Todos diriam que
me aproveitei. — disse aproximando-se e beijando-a nos lábios.
— Estou bem!— gritou ela afastando-o.
— Filha, tem que descansar!
— Saiam!— gritou a todos farta daquilo. Viu que sua coxa estava fortemente
enfaixada e baixou as pernas da mesa — Olav!
Seu amigo se aproximou e lhe entregou a adaga— É muito, princesa.
Ela apertou os lábios agarrando a adaga e olhou a seu marido— Fora, agora!
Roald entrecerrou os olhos.— Isso é ridículo.
— Isso me dirá quando eu tiver te vencido.
Voltou-se deixando-o ali e caminhou sem mostrar a dor que começava a
percorrê-la cada vez que dava um passo. Saiu ao exterior e os homens ali
reunidos a animaram. Sorriu olhando a seus súditos e desceu os degraus. O
corpo do Galt tinha desaparecido e ela se aproximou da mancha de sangue.
Olhou a seu redor e viu os homens do Galt que agacharam a cabeça em sinal
de reconhecimento— Cumprirão a palavra do Galt?
— Sim, meu Jarl. — disseram juntos. — Nosso clã é teu.
Ao sentir Roald atrás dela se voltou olhando seu marido nos olhos— Está
preparado?
— Maisey…— sussurrou entre dentes— Está ferida. Não pode seguir com
isto.
Ela entrecerrou os olhos— Recusa o desafio?
Roald se endireitou— Sim.
O mundo lhe caiu ao entender que ele não lutaria por ela. Sentiu uma dor no
peito olhando seus olhos— Então já não é meu marido. — disse quase sem
voz.
— Deixa de dizer tolices, Maisey— sussurrou tentando tocá-la no braço.
Ela se afastou e gritou — Se afaste!— os homens se esticaram e vários
tiraram suas armas— Se não quiser brigar pra ser meu marido, perde esse
privilégio!
Roald se endireitou furioso— E o que devo fazer, te vencer quando está
ferida? Até eu tenho orgulho e não vou brigar com quem já é minha esposa,
por algo que é meu!
Os murmúrios os rodearam— Isso se me vencer.
— De qualquer maneira, se você tanto se empenha em não ser minha esposa,
não vou obrigá-la! — disse furioso— Assim não lutarei!
— Não lutarei, meu Jarl!— terminou por ele.
Roald semicerrou os olhos — Meu Jarl.
Ela elevou o queixo e se voltou olhando seu pai que estava atônito. — Pai,
volte para a aldeia. Terão notícias minhas.— disse ela morta de dor, tentando
que não notassem.
— Mas filha…
— Olav, fica aqui.
— Sim, meu Jarl. — disse aproximando-se rapidamente olhando de esguelha
pra Roald que apertava os punhos furioso.
Aproximou-se de um dos homens do Galt— Quem é o segundo no comando?
Um dos homens se aproximou –Eu, meu Jarl. Meu nome é Harold.
— Harold volta para seu povo. De momento você terá esse cargo. Assim que
resolva vários assuntos, passarei por lá e contarei meus planos.
— Sim, meu Jarl. — os homens do Galt que agora eram seus homens se
voltaram para seus cavalos e empreenderam a viagem.
— Maisey…— sussurrou Olav— Fala com ele. Não deixe as coisas assim.
— Não tenho nada mais que falar. — encaminhou-se até a cabana de Tyree—
Faste! Consiga-me uma cabana!
— Sim, meu Jarl.
Ignorando a todos entrou na cabana de Tyree e fechou a porta ficando
sozinha. Então se deixou levar pela dor que estava sentindo. Gemeu levando
as mãos ao estômago e chorou deixando-se cair no chão de joelhos sentindo
uma dor dilaceradora que não a deixava respirar. Não podia acreditar depois
de tudo o que Roald lhe havia dito, que se negasse a lutar por ela. Sentia-se
traída. Um homem que não tem palavra não é nada, havia-lhe dito sua mãe.
E tinha razão.
Levantou-se e lentamente foi até a cama. Deixou-se cair e gemeu pela dor que
transpassou sua perna. Desmaiou imediatamente.
Tyree a sacudiu e abriu os olhos esgotada— Meu Jarl, tem febre.
— Me traga a curandeira.
A mulher saiu apressadamente e Maisey levou a mão à frente. A maldita
punhalada, a ia deixar uns dias doente. A curandeira chegou em seguida com
Tyree a seu lado— O que devo fazer, meu Jarl?
Maisey olhou à curandeira— Traga-me as ervas que tem para febre.
A mulher apertou as mãos nervosa— Não sei quais são, meu Jarl.
— Por todos os Deuses, acaso não aprendeste nada de sua mãe?
— Sinto muito. — disse a beira das lágrimas.
— É incrível que não tenha matado ninguém.
Tyree olhou à garota de soslaio e se deu conta que sim tinha matado a
alguém— Sua cabana está muito longe?
— Está aqui ao lado. — disse Tyree— Me diga de que precisa e eu trarei.
— Tenho que vê-las. — Ergueu-se com esforço sentando-se na cama. Quase
não tinha forças— Chama o Olav.
Tyree saiu correndo e a curandeira a agarrou pela cintura para levantá-la—
Tem sorte que esteja doente, porque merece uma surra por não observar com
atenção.
— Sim, meu Jarl.
A mulher estava assustada e não se surpreendeu. Uma palavra dela e podia
acabar com a cabeça separada do corpo. Estavam saindo da casa quando
Olav chegou correndo— O que ocorre, meu Jarl?
— Me ajude a chegar à casa da curandeira.
Olav a pegou nos braços e seguiu a mulher. Ao entrar na cabana, Maisey viu
vários potes — Me leve ali.
Seu amigo o fez rapidamente e ela revisou vários. Abriu um deles e cheirou—
Este.
— O que quer que faça com ele?
— Necessito água quente. Olav, me sente sobre a mesa.
Assim que o fez começou a tirar a atadura de sua perna. Ao ver sua coxa
entrecerrou os olhos ao ver pus amarelado na ferida— Tenho que tirar pus de
minha perna.
— O que faço? — Olhou a seu amigo— Lave bem as mãos com água quente.
Olav fez o que lhe mandou, inclusive usou sabão. Aproximou-se dela quando
a curandeira se aproximava com a água quente.
— Traz um pano limpo.
Quando o deixou sobre a mesa olhou a seu amigo— Tem que apertar a ferida
até que o sangue saia limpo.
— Por todos os Deuses — Olav empalideceu — Vai doer.
— Tyree, me dê algo para morder.
Seu amiga lhe estendeu uma colher de madeira e ela a pôs entre os dentes.
Assentiu antes que seu amigo aproximasse a mão de sua coxa apertando com
força. A dor era insuportável, enquanto a ferida arrebentava salpicando
sangue. Olav voltou a fazê-lo para assegurar-se e quando terminou, molhou a
ferida com a água quente fazendo-a gritar arqueando as costas. Aliviada
quando a dor diminuiu, olhou em seus olhos.
— Agora por trás. — disse sem fôlego.
— Por todos os Deuses.
Voltaram-na com cuidado e repetiram o processo. Ao terminar, com a
bochecha sobre a mesa sussurrou— Pegue as ervas. Punha um punhado
delas na água quente. Amasse até fazer uma massa e ponha na ferida antes
de voltar a me enfaixar.
— Qual quantidade? — a curandeira lhe pôs o pote diante com um concha e
Maisey esticou a mão agarrando a quantidade que desejava — Agora faz o
que te digo.
— Sim, meu Jarl.
Quando terminaram estava esgotada e Olav voltou a leva-la pra cabana de
Tyree para deitá-la na cama — Não, me deixe em minha cabana.
— Não, meu Jarl. — disse Tyree — Não te deixarei sozinha estando doente.
Dormirá a meu lado.
Sorriu sem forças fechando os olhos. Olav a olhou preocupado— Deveria
avisar seu pai ou a seu marido.
— Fecha a boca, amigo. Eu não estou casada.
Olav estalou a língua— Será seu marido até o dia em que morra.
— Isso mesmo dizia ele e logo não lutou por mim. — sussurrou até dormir.
— E esse é o problema não é verdade, princesa?
Os dias seguintes teve que descansar e sorriu ao escutar os gritos do Rutger
quando se inteirou que já não era o Jarl. Abriu a porta da cabana de repente
e o menino de Tyree pôs-se a chorar. Ali estava seu tio com um humor
terrível.
— Como se atreve?
— A quê?
— A roubar o que é meu!— gritou furioso.
— Desculpa, mas não perdeu o desafio?
Rutger se ruborizou— Sim.
— Então entendi mal a minha gente? Quem ganha do Jarl em um desafio não
é o novo Jarl?
Era bonito até quando grunhia — Pois então sou seu Jarl. — olhou-o nos
olhos muito séria — Como sou a Jarl de meu povo e do de Galt.
Abriu os olhos atônito— Desafiou todos?— depois entrecerrou os olhos— O
que é que buscas?
— Procuro fazer o povo forte. Não diminui-los com essas batalhas e suas
disputas, que só levam destruição e ódio. A partir de agora mando eu! E farão
as coisas como eu disser.
— Está louca!
Tyree ofegou— Não fale assim com o Jarl.
Agora ele não tinha autoridade e se surpreendeu que uma simples mulher lhe
falasse assim.
— Fecha a boca, mulher.
Maisey tirou as pernas da cama levantando-se, mostrando a camisola branca
que levava— Falará com respeito comigo e com a minha gente também! Se
não, já sabe o que tem que fazer.
— Está me expulsando de minha própria aldeia?
— É minha aldeia!— gritou furiosa.
Faste se apresentou atrás do Rutger— O que está acontecendo aqui?
— Ao que parece seu antigo Jarl não compreende suas próprias regras.
Explique-as pra ele.
— Filho, saia daí. — a voz autoritária da avó fez que Rutger se endireitasse
virando-se.
— Você também, mãe?
— Os fatos são iguais para todos. Dê-se por satisfeito porque ela não te tirou
a vida, mas sim também lhe devolveu isso.
— Avó. Disse ao tio a boa nova?— Maisey se aproximou da porta divertida
para ver ali metade do clã.
Rutger arregalou os olhos— Avó?
— Vem filho, tenho coisas que te explicar.
Em choque se deixou levar por sua mãe— Ela disse avó?
— Meu céu, ainda não está totalmente bem, não é verdade?
— Tenho que ver com quem o caso. — disse ela voltando-se para o Olav—
Tem o que te pedi?
— Sim, princesa. — entrou na casa atrás dela e se sentou a seu lado na cama
— Mais ao norte há três Jarl. Só um está viúvo. Mas os outros têm filhas
casadoiras.
— Bem. Amanhã vamos pra casa. Há muito o que fazer.
Olav sorriu— Já está bem?
— Estou bem para a viagem. — disse desviando o olhar — Três mulheres
virão conosco. Tyree, as escolha. Solteiras em idade de se casar e que não
sejam muito feias.
— Sim, Jarl.
— Funcionará?
— Se queremos ser fortes temos que ser um. Não três tribos separadas, e sim
uma somente.
Olav sorriu— Seu pai vai gritar pra o céu quando se inteirar.
— Quando lhe disser que Valgard será um dos que deve se casar, me
agradecerá.
Olav pôs-se a rir enquanto saía da casa.
— Você começará com a gente não é? Mas não vai parar aí... — Tyree
disse. — É por isso que pediu essa informação para Olav.
— É esperta, Tyree. Será meus olhos e meus lábios enquanto eu não estever
na aldeia.
Tyree a olhou surpreendida— E Rutger?
— Você vai fazer tudo certo. Ele não ficará aqui. — disse maliciosa— Me
disseram que mais ao norte faz um frio horrível no inverno.
Tyree riu muito. — Será má.
No dia seguinte lhe deram um cavalo. Na viagem só foram três homens dos
quais ainda não sabia o nome, além do Faste, Olav e as três garotas. Sua avó
se despediu abraçando-a— Volta logo. Não tivemos oportunidade de falar
muito e quero te conhecer melhor antes de morrer.
Maisey riu e lhe deu um beijo de despedida. Rutger a olhava com o cenho
franzido e ela se aproximou— Tio, deixei Tyree no comando e caso não
cumpra com seu dever, saberei cedo ou tarde. — disse como se falasse com
um menino.
— Está começando a me chatear, sobrinha.
Piscou um olho surpreendendo-o e subiu ao cavalo — Quero que em minha
ausência façam mais dez cabanas.
— Sim, Jarl. — disse Tyree com seu filho nos braços— Raynor se encarregará
da construção.
— Voltarei em uns dias. Quero solucionar tudo antes de que a neve chegue.
— agarrou as rédeas e começou o caminho com Faste a um lado e Olav do
outro.
Dormiram ao relento e se deu conta que as mulheres estavam preocupadas.
Ao amanhecer ela se aproximou e as levou para um lado.
— Quero que saibam o que irão enfrentar. — as mulheres sorriram
agradecidas— Mostrarei pra vocês uns homens que procuram esposa e vocês
escolherão o que mais gostarem.
— E se nós não gostarmos de nenhum?
Ela entrecerrou os olhos, pois não tinha pensado que não gostariam de
nenhum— Veremos o que ocorre, de acordo? Se vocês não gostarem de
nenhum tentaremos na seguinte aldeia.
Suspiraram aliviadas.
Chegaram no meio da tarde e suspirou de alívio ao deter o cavalo porque lhe
doía a perna. Diante da casa do Jarl vários os observavam chegar e ela sorriu
a seu pai que se aproximou com os braços abertos abraçando-a como um
urso— Como está, filha?
— Vamos entrar e conversar. Como está? Dói-te o ouvido?
Seu pai sorriu levando-a pra dentro. Surpreendeu-se ao não ver Tage e os
outros — Onde estão os homens?
Harald se sentou a seu lado na cabeceira da mesa— Se foram, Maisey.
Essas palavras a deixaram sem fala— O que quer dizer com isso?
— Roald e seus amigos se foram da aldeia. Para fazer fortuna. Não acredito
que voltem.
Atônita se levantou sussurrando— Depois conversaremos.
Saiu da casa enquanto seus homens a olhavam preocupados. Foi até sua
casa e entrou. Tavie gritou de alegria ao vê-la e se atirou a seus braços.
— Retornaste…— se agarrou a ela e Maisey fez o mesmo.
— Como está, pequena?
Tavie assentiu— Bem, mas não vá outra vez.
Maisey a apartou para lhe ver a cara— Tudo ficará bem.
— Roald se foi. O dia em que chegou, foi embora. — disse Tavie chorando.
Maisey passou a mão por seu cabelo castanho com carinho — Sei.
— Tem que fazer algo. Tem que fazer com que ele volte.
— Não sei onde ele está. — sentia que as lágrimas corriam por suas
bochechas sem poder evitar. Tavie lhe acariciou as bochechas limpando seu
pranto.
— Voltará em algum momento.
Maisey assentiu e se voltaram quando Raio entrou na casa. Aproximou-se de
sua dona rondando sua perna notando que estava triste— É teu?
Ela sorriu com tristeza agachando-se a seu lado — Veio me buscar. Chama-
se Raio. — abraçou-se a seu pescoço escondendo sua cara em sua densa
pelagem— Foi meu único amigo durante muito tempo.
Tavie sorriu ajoelhando-se a seu lado e Raio lhe lambeu a cara fazendo-a rir—
É carinhoso.
— Sim, ele é. — disse acariciando seu lombo com tristeza— Quando eu não
esteja contigo, protegerá-te. Cuidará de ti como o fez comigo.
A menina a olhou— Obrigada. Agora me conte porque é a Jarl. Ouvi-lhes
falar, mas só Lala me fala em meu idioma e ela tampouco entende o que está
passando.
Explicou à menina seus planos e sorriu— Assim vais fazer que se casem
entre eles para que se unam.
— Exato.
— E com quem vai me casar?
Não havia temor em suas palavras, a não ser resignação— Não vou te casar
com ninguém. É muito jovem.
— Tenho quatorze anos.
Maisey a olhou surpresa— Quatorze?
Tavie corou— É que ainda não me desenvolvi, mas tenho quatorze. — disse
tocando seus seios.
— Se eu lhe…— interrompeu dando-se conta que a estava envergonhando —
Sinto muito.
— Não se preocupe. Algum dia me nascerão os seios maiores da redondeza.
— disse levantando o queixo.
Maisey pôs-se a rir— Não ficará confortável com eles, asseguro-lhe isso. —
olharam-se durante um momento— É muito jovem para se casar.
— Faz muito que não tenho família…— disse abaixando a cabeça— nem um
lar. Quero ter um.
Entendia-a perfeitamente e embora fosse muito jovem, se queria casar
ajudaria — Você gosta de algum daqui? Eu não gostaria que estivesse longe
de mim.
A garota sorriu de orelha a orelha— Há um que me parece agradável, mas
não me olhará nunca.
— Quem é?— perguntou intrigada.
Ruborizou-se ligeiramente— É Tage.
Maisey gargalhou— Não pode ser!
Tavie sorriu— É agradável comigo.
— Sim, ele é.
— Mas nunca me quererá como esposa.
Maisey entrecerrou os olhos — Isso é o que veremos. No momento vai
começar a tomar umas ervas que dão força. Parece-me que não lhe
alimentaram muito bem e necessita essa força para crescer.
— Você acha?— a garota animada aplaudiu— Posso fazer algo mais para
isto?— disse alisando seu peito plano.
Maisey pôs-se a rir— Dizem que o caldo de frango ajuda, mas me parece um
conto de velhas.
A porta da casa se abriu lentamente e seu pai as viu sentadas no chão com
Raio deitado a seu lado— Filha, devemos falar.
— Sei. — sorriu a seu pai que se aproximou lentamente— Tavie pode nos
deixar sozinhos?
— Vou pegar um frango. — disse levantando-se rapidamente fazendo-a rir.
Harald a viu sair— Ela disse frango?
— Coisas de mulheres. — seu pai pareceu um pouco incômodado e se
levantou agarrando sua mão. Sentaram-se à mesa e Maisey o olhou nos
olhos. Os mesmos olhos que os seus. — O plano não saiu muito bem.
— Sei. — acariciou-lhe o cabelo — Quando me desafiou me dei conta do que
se propunha, mas Roald é muito teimoso.
— Estragou tudo!— disse frustrada — Se tivesse me vencido, agora seria o
Jarl de todos, mas teve que negar-se! — e zangando-se levantou— Tenho um
marido que é idiota!
— Você não está zangada por isso.
— Claro que sim! Agora sou a Jarl de uma gente que nem conheço. Eu não
queria isto.
— Você está doída porque não lutou por ti.
— Isso também! Disse que o faria e me decepcionou. Já não é meu marido!
Voltou-se para ocultar sua dor. As mãos de seu pai em seus ombros a
reconfortaram— Tem que entender Roald. Brigar contra sua esposa, que além
disso estava ferida, para seguir casado com ela, é um pouco humilhante. Ele
teria te vencido. Todos sabem.
— Isso não importa.
— É um guerreiro e tem seu orgulho. Que tenha dito diante de todos que não
queria continuar casada com ele, foi muito duro para Roald. E que te
empenhasse em que lutasse, mais ainda.
Não tinha visto desse ponto de vista e apertou os lábios. Gemeu tampando o
rosto— Não sei como arrumar isto.
— No momento é a Jarl e deve cumprir com seu dever até que possamos
arrumá-lo. Pode fazê-lo. Ganhaste o respeito de todos.
Maisey se voltou e o abraçou com força— Me alegro de ter te encontrado.
— Não tanto como eu, filha. — disse contra ela antes de lhe beijar a cabeça—
Agora me conte seus planos.
Estiveram falando horas e só quando as tripas de Maisey protestaram,
reuniram-se com outros. As três mulheres, que tinha levado até ali, estavam
ao final da mesa e depois de jantar se aproximou delas.
— Bem, vamos começar. — olharam-na assustadas e ela sorriu para as
tranquilizar— Me escutem todos. Os homens solteiros fiquem naquela metade
do salão.
Vários olharam uns aos outros enquanto Harald ria baixo. Foram levantando
lentamente fazendo o que seu Jarl lhes ordenava. As mulheres sentadas na
mesa olhavam aos homens muito interessadas.
— Não sejam tímidas — disse-lhes — Aproximem-se. Devem se conhecer.
Uma delas se levantou rapidamente e se aproximou de um homem muito
corpulento. O homem com o cenho franzido, olhou-a de cima abaixo.
Estiveram olhando um momento até que o homem a agarrou, carregando-lhe
no ombro e levando-lhe enquanto os outros riam. Maisey sorriu. Aquilo não
seria tão difícil como esperava. Ou possivelmente tinha tido sorte. As outras
duas mulheres se aproximaram timidamente e um homem se adiantou
estendendo a mão a uma, que o observou de cima abaixo antes de olhar seus
olhos. Ela agarrou sua mão e o homem sorriu encantado.
A terceira mulher olhou aos seis homens que ficavam um por um e voltou a
passar a vista para trás entrecerrando os olhos. Um deles deu um passo
atrás e ela se aproximou furiosa com os braços nos quadris.
— Gert?— o homem gemeu surpreendendo a todos— Por todos os Deuses é
você?— o homem assentiu dando um passo à frente.
— Olá, Halley.
— Olá, Halley? É tudo o que tem que dizer depois de me deixar?
— Não te deixei. Fui fazer fortuna!— resmungou envergonhado, fazendo todos
rirem.
— Fortuna! Já te darei uma fortuna! Caminha para casa!— gritou-lhe furiosa
lhe mostrando a porta.
Todos riram vendo como com a cabeça encurvada ia para a porta enquanto
ela não deixava de lhe gritar.
Maisey pôs-se a rir e olhou a seu pai que assentiu.
Capítulo 12

Assim começou a união das tribos e seguiu com seu plano, indo de uma pra
outra com grupos de três. O mais difícil, pois não a conheciam nem um
pouco, foi a tribo do Galt. Seus homens seguiam suas instruções ao pé da
letra pois tinham dado sua palavra, mas alguns não estavam muito contentes
com seus planos até que viram as seis mulheres que ela trouxe. Três de seu
clã e três do clã Rutger. Não sobrou nenhuma mulher, todas foram bem
recebidas. Só uma delas não se decidiu por nenhum.
Chamava-se Kolina e tinha caráter. Maisey sorria interiormente com as
respostas que dava aos homens que se ruborizavam envergonhados e saíam
aterrorizados. Quando uns resmungaram— Que mulher mais insuportável.
Prefiro me casar com um cavalo que com ela. Receberei menos coices. —
Maisey decidiu falar com ela.
Saiu pra passear e a viu olhando o rio. Aproximou-se lentamente vendo-a
ensimismada em seus pensamentos. Era bonita. Tinha o cabelo loiro escuro
que caía em grossos cachos por suas costas e uns bonitos olhos cor mel. Não
entendia porque não estava casada ainda, pois devia ter vinte anos.
– Kolina?
Ruborizou-se ao vê-la e ocultou seu olhar— Meu Jarl…
— Vamos dar um passeio.
A mulher caminhava a seu lado em silêncio— Me conte o que te ocorre.
— Eu não gosto de nenhum!— exclamou frustrada fazendo-a sorrir — Não sei
para que vim.
— O que você não gosta neles?
— São estúpidos! Não me conhecem por que iriam querer casar-se comigo?
Maisey sorriu— Não dá oportunidade para que lhe conheçam. — ao ver que
se ruborizava franziu os olhos— Muito bem, quem é?
— Não sei do que fala, meu Jarl.
— Não te faça de idiota. A quem amas?
— É um idiota, cego como um morcego!— gritou frustrada— E estou farta de
que não perceba que estou viva! Vou casar- me com outro!
Maisey reteve a risada. Kolina era uma das garotas de seu clã e estava
intrigada— Quem é?
— Um idiota, já disse isso. — apertou as mãos nervosa e ao ver seu firme
olhar deixou cair os ombros— É Sorem.
Maisey abriu a boca surpreendida— Sorem?
— Sim, sei que nunca me olhará. Está apaixonado por você e não há nada
que eu possa fazer.
— Por que diz que está apaixonado por mim?
— Pelo modo como te olha!— gritou-lhe no rosto — Você é mais formosa e
luta bem e…
— Basta, Kolina!— de repente Maisey não suportou mais e começou a
gargalhar.
Kolina endireitou as costas ofendida, mas Maisey não pôde evitá-lo. Tudo
aquilo era ridículo. Tavie louca pelo Tage e Kolina por Sorem.
— Não tem graça. Não gosto de nenhum outro. Todos eu comparo com ele. —
disse deixando-se cair na erva úmida.
— Não sabemos quando voltará… prefere o esperar? Não tem obrigação de se
casar.
— Odeio-lhe. — disse a beira das lágrimas — Me casarei com outro.
Maisey suspirou agachando-se a seu lado— O que tem feito para que te note?
Kolina a olhou confusa— Não tenho que fazer nada! O homem é ele!
— Não tenho muita experiência com os homens, mas sei que para conquistá-
los tem que sorrir um pouco, que lhe vejam bonita…
— Eu não faço essas tolices!
Maisey não se deu por vencida— O que lhe disse em sua última conversa?
Kolina entrecerrou os olhos— Ei você, me passe uma parte de veado!—
Maisey pôs-se a rir a gargalhadas e Kolina zangada cruzou os braços— Não
aceito bem estas coisas!
— Estou vendo. Vem, vamos praticar. Tem que aprender a seduzir um
homem e quando terminar contigo, Sorem estará perdido.
— Jura? — perguntou esperaçosa. Maisey a observou bem e assentiu
erguendo-se.
Começaram nessa mesma noite no jantar. Maisey da cabeceira da mesa
observou Kolina e lhe fez um gesto com a cabeça indicando que começasse.
Kolina negou bebendo hidromel e ela insistiu com a cabeça. A mulher revirou
os olhos fazendo-a rir— Gosta da comida, meu Jarl?— perguntou Harold, seu
segundo no comando no clã do Galt.
— Tudo está delicioso. — respondeu com um sorriso sem deixar de olhar pra
Kolina que pegou um prato e o pôs sob o nariz do homem que tinha ao lado.
Escutou-a dizer— Quer carne?
— Já tenho. — respondeu um pouco surpreso de que lhe dirigisse a palavra.
— Come homem, que tem que encher de músculo esse braço tão adoentado.
Maisey viu como o homem se ruborizava agarrando uma parte de frango e
deixando-o em seu prato. Olhou a Kolina que ao invês de sorrir tinha uma
careta macabra na cara e Maisey já não pôde mais. Suas gargalhadas se
ouviram em todo o salão provocando os sorrisos de seus homens. Kolina
franziu o cenho e zangada deixou cair o prato no centro da mesa salpicando
de molho o homem que tinha em frente.
— Perdão, embora essa camisa já necessitasse de uma boa lavagem.
Maisey não podia parar e teve que limpar as lágrimas de seus olhos ao ver a
cara do outro que parecia ofendido, embora Kolina houvesse dito a pura
verdade. Nervosa, a mulher se levantou chocando com o quadril no cotovelo
de seu companheiro, derrubando a hidromel em cima— Uff!! Vá, sinto muito.
Embora assim asseamos um pouco essa barba né?— Kolina entrecerrou os
olhos aproximando sua cara a do homem –Por todos os Deuses, isso são
piolhos?— perguntou com um grito, fazendo com que os que estavam ao lado,
movessem-se no banco afastando-se dele, provocando que seu segundo em
comando caísse do banco.
Maisey não esperou mais, antes que ela provocasse um conflito— Kolina!
— Sim, meu Jarl?
— Vem aqui.
Kolina saiu do banco e com as costas muito reta se aproximou— Eu tentei,
mas são muito secos comigo.
— Vamos ver. — olhou pra seu segundo em comando que ainda estava
sentado no chão fulminando com o olhar seu companheiro de mesa — Sorria
pra o Harold. Mas antes relaxa a expressão.
A mulher com o cenho franzido enquanto o homem se levantava forçou as
bochechas mostrando os dentes como se fosse atacar em algum momento.
Harold deu um passo atrás e Maisey suspirou — Isto vai ser mais difícil do
que eu esperava. Vá descansar. Amanhã voltaremos para casa.
Kolina lhe sorriu radiante e Maisey levantou uma sobrancelha vendo-a sair
do salão. Faste gemeu a seu lado e Maisey sorriu— Eu conseguirei.
— Não o duvido, meu Jarl. Mas é como ensinar a um gato selvagem.
— Então voltarão para casa?— perguntou Harold preocupado.
— Sim, logo começará a nevar e tenho que descansar, pois nos últimos
tempos não parei um momento. — disse olhando-o fixamente— Terá algum
problema?
— Não, meu Jarl.
— Se acontecer algo me envie um recado e se não puder vir, enviarei alguém.
— Será um inverno tranquilo, meu Jarl. Temos tudo preparado, assim não
haverá problemas.
— Tem suficientes provisões?
— Precisamos de um pouco mais de carne, mas iremos caçar para solucioná-
lo.
Maisey franziu os olhos. Não gostava de partir sem que tudo estivesse em
ordem.
— Atrasaremos a saída um dia e amanhã iremos a caça.
— Não tem que fazê-lo, meu Jarl. Eu me encarregarei.
— Sim, Maisey. — disse Olav advertindo-a com seu olhar. Harold se
encarregará. Sabe quais são suas obrigações.
Ela olhou pra Harold e sorriu— É verdade. E tem feito muito bem estas
semanas.
Harold sorriu inchado o peito — Obrigado, meu Jarl.
— Bem. — levantou-se acariciando sua pequena barriga— Vou descansar.
— Descansa, meu Jarl. — disse Olav preocupado olhando-a— Amanhã vai
ser exaustivo e precisa repor as forças.
Quando chegou a sua cama suspirou olhando o teto de palha, que estava
avermelhada pelo reflexo do fogo que esquentava a habitação. Uns olhos
verdes apareceram em sua mente e suspirou acariciando o ventre, enquanto
pensava onde estaria o idiota de seu marido.
E sobre tudo, com quem estava. Caso tocasse outra mulher, matava-o e
assunto encerrado. Morto o cão, acabou-se a raiva.
Empreendendo o caminho de volta começou a nevar com força, mas não quis
deter-se. Queria chegar em casa o quanto antes e teve que discutir com Olav
para que continuassem o caminho.
Quando chegaram à aldeia, a neve tinha era tão espessa que custava andar.
Todos estavam esgotados, mas contentes de estar em casa. Ao entrar no
salão todos estavam jantando e Harald se aproximou pra saudá-la— Filha
está louca? Como te ocorre viajar com este tempo em seu estado?
— Estou bem. — sorriu esgotada e morta de frio— Só necessito uma bebida
quente.
Lala a agarrou pelo braço para sentá-la em seu lugar— Minha menina, tem
que estar exausta.
Quando tirou a pele Lala olhou sua barriga e franziu o cenho
— Está louca – saiu correndo e Maisey a olhou divertida.
— Como vai tudo, pai?
— Roubaram-nos.
Surpresa o olhou— O que roubaram?
— Várias ovelhas e mataram uma vaca.
— Mataram uma vaca?
— Esquartejaram-na e deixaram o que não queriam.
— Sabe-se quem foi?
Seu pai sorriu— Todos os anos antes do inverno ocorre algo assim.
— E não fazem nada?
— Não sabemos quem são.
— Eu digo que é alguém que vive nas montanhas. — disse Olav sentando-se
a seu lado. Lala deixou uma terrina diante deles, enquanto os homens foram
entrando depois de atender os cavalos — E que guarda a carne para o
inverno.
Maisey agarrou a terrina e bebeu um pouco de caldo reconfortando-se com o
calor que lhe proporcionou — Está muito saboroso, Lala.
— Obrigada, meu Jarl.
Faste se sentou ao lado do Olav. Desde que tinham se conhecido eram
inseparáveis, converteram-se em grandes amigos — Bom, teremos que deixá-
lo passar até o ano que vem. Onde está Tavie?
— Está um pouco resfriada. — disse Lala um pouco preocupada. Tomou uma
infusão que preparei pra ela, mas não vejo melhoria.
Terminou o caldo e se levantou pegando a pele— Imagino que Raio está com
ela.
— Não sai de seu lado. — respondeu seu pai sorrindo.
— Vou descansar.
— Até amanhã, Jarl. — disse seu pai lhe piscando um olho.
Quando entrou em sua casa viu que o fogo não estava muito forte e jogou
uma lenha. Tirando a pele e deixando-a sobre a cama olhou a porta de Tavie
que estava entreaberta. A luz de sua chaminé brilhava com força e sorriu
pensando no que devia estar assando. Aproximou-se e abriu a porta. Estava
metida em sua cama coberta até a cabeça. Raio se aproximou movendo o
rabo— Olá, amigo. O que está acontecendo?— perguntou sentindo
preocupação porque a garota não se moveu da cama.
Aproximou-se sentando-se na cama e moveu o ombro de Tavie para despertá-
la— Tavie?
A garota gemeu e Maisey franziu o cenho. Virou-a e viu que tinha muita febre
— Tavie?— chamou-a mais alto.
Suspirou de alívio ao ver que abria os olhos— Voltou. — sussurrou com a voz
rouca.
— O que tomaste?
Tavie tossiu com força e Maisey a ajudou a sentar-se para que respirasse
melhor — As ervas de febres que me deu. — disse assim que pôde.
Maisey tocou em sua testa.— Quando as tomou?
— Depois de comer.
— Encontrava-se assim quando tomou?
— Estava melhor.
Isso indicava que não tinham funcionado, assim se levantou e foi pra
cozinha. Foi até os potes de ervas que tinha ali armazenados e procurou em
vários até que encontrou o que queria. Então entrecerrou os olhos ao ver algo
que lhe chamou a atenção. Umas folhas se amarelaram dentro do pote e isso
não podia ser. Colocou a mão no pote e viu que as ervas estavam misturadas.
— Mas como…?
Voltou para o quarto e voltou a despertar Tavie— Misturou as ervas?
— O quê?
— Estão misturadas, Tavie.
A garota a olhou com seus olhos lacrimosos pela febre— Faz uma semana
encontrei Tashia na casa. Disse-me que tinha vindo comprovar que eu não
necessitava de nada.
Maisey a deixou descansar. Furiosa voltou para a cozinha e olhou os potes
pensando no que fazer. Dava graças aos Deuses porque as ervas misturadas
não tinham matado Tavie ou a outra pessoa. Agarrou o pote e atirou seu
conteúdo sobre a mesa. Separou com paciência as folhas que Tavie precisava
e lhe fez uma infusão que lhe deu muito devagar, pois tinha dificuldade pra
engolir.
Revisou todos os potes e vários tinham as ervas misturadas. Felizmente
nunca as triturava antes de colocar no pote, pois assim podia usá-las para
outras coisas.
Furiosa saiu da casa e entrou no salão. Tashia estava sentada em seu lugar
no final da mesa. Sem deter-se foi até ela e lhe deu um tapa que a tirou da
cadeira.
— Filha!
Seu pai se levantou rapidamente e Maisey sem deixar de olhar a Tashia deu
um passo para ela com vontade de matá-la— Por que fez isso?
— Não sei que quer dizer, meu Jarl.
— Não se faça de idiota comigo.
Vários homens se levantaram para as rodear— Deixa a minha mãe!— gritou
Valgard zangado.
Maisey o olhou apontando com o dedo pra ele— Não se intrometa! Isto é entre
sua mãe e eu!
— O que ela fez?— seu pai se agachou e levantou sua mulher.
— Misturou as ervas que eu tinha reservado para o inverno. Sabe o que
poderia provocar se eu não tivesse notado?
— Sua protegida teria morrido?— perguntou com brincadeira.
Assombrada porque não tinha nenhum remorso, agarrou-a pelo cabelo
furiosa— Quer saber o que é necessitar uma cura e não tê-la?— tirou-a a
puxões pra fora — Amarrem-na ao poste!
— Maisey, por todos os Deuses vai morrer de frio. — disse seu pai tentando
detê-la. Olav e Faste agarraram a Tashia que gritava como uma louca
amarrando-a ao poste.
Maisey o olhou— Sabe o que podia ter provocado? Pai, se Tavie tivesse
distribuido as ervas como eu tinha mandado, podia ter morrido gente. Sua
gente! Não penso aceitar mais sua atitude! É intolerável que se comporte
assim!
Maisey sentiu a ponta de uma espada na base de suas costas e se voltou
ligeiramente. Valgard estava atrás dela empunhando-a— Solta a minha mãe!
— É muito valente atacando pelas costas, irmão.
— Deixa essa espada, Valgard!
— Desde que ela veio tudo mudou!— gritou furioso— E você se deixa levar
como um velho estúpido, mas eu estou farto! Assim que a matar, eu serei o
Jarl dos três clãs! Não ela!
Seu pai o olhou com vergonha— Não tem honra. Nunca será o Jarl de nosso
povo e nem de nenhum outro. Envergonho-me de ti.
Valgard o olhou com desprezo — Isso é o que veremos.
— Solta essa espada, Valgard. — disse ela olhando-o nos olhos— Não quer
matar o filho de seu irmão.
— Esse feto deve morrer tanto quanto você. — o ódio de sua voz era tão
intenso, que ela se deu conta que sua relação não teria conserto.
— Está morto sabe?
Ele apertou a espada sobre suas costas e Maisey fez um gesto de dor ao
sentir como lhe rompia a carne. Valgard caiu no chão antes de dar-se conta,
com Raio em cima dele. O cão lhe mordia o braço por debaixo do ombro com
fúria, enquanto ele gritava que o tirassem de cima.
— Pra trás!
Raio o soltou imediatamente— Não te mato porque é filho de meu pai. — os
homens o levantaram e ela observou que sangrava muito pelo braço— Mas
não continuará vivendo perto de mim.— olhou a seu pai que assentiu— Fica
banido e pode levar a sua mãe se ela quiser ir contigo. Faça um curativo
nessa ferida e lhe darei um cavalo antes que se vá. Que alguém o vigie até
que saia do povoado.
— Sim, meu Jarl. — disse Olav agarrando-o pelo pescoço com desprezo.
Maisey olhou pra mãe que permanecia amarrada ao poste –Irei com meu
filho.
— Sinto por meu pai. Mas é tua decisão.
Voltou-se dando-lhe as costas — Faste, que a vigiem também até que se vão e
solte-a do poste. Já terá frio na viagem.
— Sim, meu Jarl. — disse olhando-a com admiração.
Maisey agarrou o braço de seu pai entrando no salão e levando-o para o fogo
enquanto Olav atendia ao Valgard— Pai…
— Não tem que dizer nada. Fez o correto. Não merece nenhuma piedade
alguém que se volta contra sua própria família.
Olharam-se nos olhos entendendo o que cada um sentia. Ela, medo por ter
cometido um engano e ele dor pela traição de seu filho. — Sinto muito.
— Eu também sinto que um filho que eu criei, tenha menos honra que uma
que acabo de conhecer. Isso diz muito de meu papel como pai.
— É um pai muito bom. — Maisey lhe abraçou pela cintura lhe dando ânimos
— Ao menos para mim o é.
— Como disse, não estive contigo.
— Sinto por essas palavras…— sussurrou— Como dizia minha mãe, cumpriu
sua palavra ao voltar para cuidar dos teus.
— Tinha que tê-la trazido comigo.
— E viver como uma escrava toda sua vida. Viver vendo a Tashia a seu lado?
Harald assentiu — Não teria gostado.
— Fez bem. Agora não se incomode mais.
— O que dirá Roald quando voltar?— perguntou preocupado.
Maisey olhou nos olhos apartando— Pouco me importa.
— Algum dia voltará e…
— Não quero falar disso. Agora vou descansar porque foi um dia duro.
Ignorando os gritos do Valgard saiu da casa do Jarl e voltou para a sua. Lala
estava sentada na cama de Tavie.
— Ficarei esta noite. Você descansa.
— Obrigado Lala, é um sol.
— Já não te atirará sobre mim, me agarrando as tranças?
Maisey riu — Parece que foi há mil anos. É incrível que só tenham acontecido
há uns poucos meses. — afastou indo para sua cama e suspirou olhando-a,
pois era a que lhe tinha feito Roald. Enquanto se despia recordou as noites
que passou ali com ele e reteve as lágrimas sentindo sua falta. Possivelmente
deveria ter explicado seu plano pra ele, mas tinha tido medo a que se
negasse, que foi precisamente o que fez.
Abraçou o travesseiro pensando em seu cenho franzido quando a olhava
pendurado na árvore. Sorriu com nostalgia pensando em tudo o que tinha
passado em tão pouco tempo. Como havia dito a Lala, parecia que tinham
acontecido há mil anos.
O inverno foi muito cru para Maisey que não estava acostumada a tanto frio.
Sentia-se muito incômoda grávida, pois tinha que estar tão vestida que entre
as roupas e a barriga não podia mover-se como estava acostumada. Seu pai e
outros a mimavam em excesso. Lala sempre lhe tinha preparado algum pão-
doce ou sua comida favorita. Seu humor começou a variar e tinha que
encerrar-se em sua casa frequentemente a chorar amaldiçoando ao Roald por
haver-se ido.
A primavera não trouxe calor precisamente, pois seguiu nevando até bem
entrada a estação. Os velhos diziam que fazia anos que não viam um inverno
tão longo e frio, certamente porque se atrasou e precisamente porque tinha
que deixá-la doida. Seu enorme ventre a deixava com um humor de mil
demônios, pois não a deixavam fazer nada e se aborrecia enormemente.
Tavie se recuperou muito bem de seu resfriado e seguia tomando caldo como
uma louca. A infusão que bebia para lhe dar força, parecia que estava dando
seus frutos porque a via mais mulher. Inclusive começava a ter peitos.
Emocionada esperava impaciente a chegada de Tage para que a visse. Outra
que estava louca com a chegada dos homens era Kolina. Praticavam seu
comportamento cem vezes ao dia e Lala a observava com o cenho franzido,
corrigindo-a para depois repreendê-la por ser tão brusca.
Um dia pela manhã, saiu de sua casa para ir tomar o café da manhã com
outros quando se deu conta que havia menos neve. Algo lhe saltou no peito e
levou ali a mão sentindo que seu coração pulsava com mais força.
— Já falta pouco. — escutou atrás dela.
Voltou-se surpresa — O que faz aqui, Wava?
— Te prevenir. — a ruiva coberta com uma grande pele cinza se abrigou mais
dando um passo para ela.
— Me prevenir do quê?
— Mais que te prevenir, é te dar um conselho antes de que meta os pés pelas
mãos.
Olhou-a com desconfiança –Diga então, pois tenho frio.
— Seu destino está pra chegar, não lhe bata com a porta no nariz. — disse
antes de dar a volta.
— Um momento! O que quer dizer?
Wava a olhou sobre seu ombro — Não se deixe levar pelo orgulho, meu Jarl.
O ciúmes e o rancor acabam com muitas relações.
— Ele vai voltar?— perguntou com esperança.
— Por que pergunta se acaba de sentir? Às vezes fazem umas perguntas
muito tolas.
Wava lhe deu as costas e começou a descer a colina. Maisey sorriu olhando o
rio e desejando que a neve desaparecesse.
— Meu Jarl!— gritou Wava de baixo— Não chegará agora! E entre que vai
sentir muito frio!
Sorriu olhando suas costas e contente entrou na casa de seu pai. Aproximou-
se dele impaciente e se sentou agarrando sua mão sobre a mesa— Filha, está
gelada.
— Sabe o que Wava acaba de me dizer?
— Ela esteve aqui?
— Que Roald chegará logo.
Seu pai sorriu— Sério?
— Não é ótimo?
— Me alegro muito, filha.
Quando souberam, as garotas gritaram de alegria abraçando-se embora Tavie
depois olhou seus seios fazendo uma careta— Não cresceram o suficiente.
— Já tem quinze anos e cresceram um pouco. Agora ele te notará. — disse
Kolina.
— Estou desejando vê-lo, embora não me tenham crescido as tetas— disse
sem pensar as fazendo rir. Ruborizada olhou a seu redor esperando que
ninguém a tivesse escutado.
— E você, está desejando vê-lo?— perguntou-lhe a garota olhando-a nos
olhos.
— Sim. — acariciou o ventre que nesse momento lhe deu um chute. — Uff.
Dá-me uns chutes que parece que quer sair.
Nesse momento a porta se abriu de repente e todo o salão olhou para lá.
Ficou sem fôlego ao ver seu marido com uma barba horrível, entrando no
salão seguido de seus amigos. Vários dos homens ali reunidos gritaram de
alegria ao vê-los e se aproximaram pra saudá-los. As gêmeas correram para o
Thorbert, atirando-se em cima dele enquanto ele gargalhava.
— Não disse que chegariam depois de alguns dias?— sussurrou Kolina
comendo Sorem com o olhar.
Ignorando-a se levantou da cadeira vendo como seu marido sorrindo
abertamente, saudava seu pai com um abraço. Ela deu um passo para ele e
Roald levantou a vista olhando-a nos olhos. Olhou seu ventre apertando os
lábios e se separou do Harald.
— Como foi a viagem?
Nesse momento entraram várias mulheres no salão. E uma se aproximou de
Roald, colocando-se a seu lado enquanto tirava a grossa pele. O decote de seu
vestido era revoltante e Maisey entrecerrou os olhos. Roald passou um braço
por seus ombros e a aproximou de seu peito— O que você acha?
— Quem são essas vadias?— Kolina estava a beira de gritar e Maisey a olhou.
— Não diga nada. Wava me advertiu sobre isto. — estava tão calma que suas
amigas a olharam como se não a conhecessem.
— Está tocando o seu homem.
— Rechacei-lhe. — disse tomando ar— Tem direito a fazer o que quiser—
Maisey sorriu sem vontade e voltou a olhar seu marido que não se
aproximava dela. Uma falta de respeito tendo em conta que era a Jarl do
povoado. Um chute no ventre voltou a atravessá-la, mas ela não se alterou.
Seguia olhando-o esperando que se aproximasse dela. Harald a olhava de
esguelha— Então conseguiste riqueza.
— Tantas que não teremos tempo de gastá-lo. — disse Tage antes de beijar no
peito a uma de suas mulheres.
— Estúpido caipira. — sussurrou Tavie com raiva. Olhou-a— Não vai dizer
nada?
— Não.
— É a Jarl, tem que apresentar seus respeitos.
Nesse momento Roald fez como se a acabasse de ver— Então está aqui a Jarl.
A ninguém passou despercebido que não havia dito meu Jarl. Maisey sorriu
por seu comportamento e ele entrecerrou os olhos— O que faz aqui, Roald?
— Acaso esta não é minha casa?— perguntou atônito.
— Não foi isso que eu quis dizer e sabe…
Roald apertou a mulher contra ele e a beijou na boca, provocando ofegos
entre as mulheres que ali havia. Olav e Faste se esticaram visivelmente e
vários de seus homens se ofenderam. Ver como beijava os lábios de outra
mulher, transpassou-a como um raio, mas não moveu um gesto. Todos
sabiam que a tinha rechaçado ao não querer lutar por ela, então aquele
comportamento público era um intento de humilhá-la ainda mais.
Apertou os punhos escondendo-os com a pele que estava coberta — Maisey…
— disse Tavie com pena.
Seu pai estava entre assombrado e furioso. Maisey com um olhar lhe indicou
que não dissesse nada e ele cruzou os braços. Certamente para não moê-lo a
golpes. Ou ao menos tentá-lo.
— Roald…— a voz de advertência de Olav, fez que seu marido levantasse o
olhar do que estava fazendo, mas a mulher passou seus braços por seu
pescoço segurando-o.
Rindo a apartou— Mais tarde, preciosa.
O apelido que utilizou machucou ainda mais e o menino se moveu inquieto.
Engoliu em seco vendo-o afastá-la e perguntar a seu amigo— Que tal tudo
por aqui, Olav?
— Não pergunta como se encontra a mãe de seu filho?
— Ah, mas é meu?
O insulto era tão grave que todos ficaram em silêncio. Inclusive seus amigos o
olharam horrorizados. Roald a olhou irônico— Então não tocou ninguém
mais? Não me admiro.
Um dos homens mais jovens se atirou sobre ele, mas Faste o segurou — Vejo
que tem admiradores. — disse rindo-se divertido.
— Aconselho-te que feche a boca. — disse Harald furioso— Antes de que eu
faça algo do qual possa me arrepender.
Roald o olhou irônico e depois deu uma olhada ao seu redor— Onde está
minha mãe? E Valgard?
Todos se mexeram e Harald disse, pois ela não tinha palavras— Foram
banidos por traição.
— O que disse?
— Sua mãe tentou atentar contra a vida de vários pessoas para deixar Maisey
em evidência e Valgar tentou matá-la para conseguir ser Jarl.
Roald a fulminou com o olhar— Só traz problemas, não é verdade? Maldito o
dia que fui te buscar naquela aldeia.
— Roald…— Sorem deu um passo à frente enquanto Tavie a agarrava pelo
braço tentando protegê-la— está sendo injusto.
— Não fale assim com nossa Jarl!— gritou um dos homens dando um passo
para ele tirando sua espada.
— Silêncio!
Todos a olharam e ela soltando o braço de Tavie deu vários passos para o
Roald. Ele se esticou endireitando as costas. A mulher que estava entre ela e
seu marido a olhava divertida. Era bonita. Morena com o cabelo muito
comprido que chegava até o quadril e com os olhos negros como a noite.
Também era voluptuosa. Justamente o contrário dela. Levantou a vista pra
seu marido e sorriu surpreendendo-o— Se não te conhecesse diria que me
quer fazer ciúmes com esta puta. — a mulher ofegou indignada— É um
insulto tão evidente que mais parece patético. Ao que parece seu orgulho não
se recuperou de que eu tenha te deixado. — Roald a olhou furioso, mas não o
deixou falar— Por outro lado que insinue que levo o filho de outro dentro de
mim, indica que não me tem nenhum respeito. Uma autêntica pena.
Esperava que ao menos houvesse respeito entre nós. — olhou pra seus
homens que estavam mais tranquilos antes de voltar a lhe olhar. A veia
torcida de seu pescoço indicava que estava a ponto de explodir— Pode ficar,
posto que esta é sua casa, mas caso volte a ofender aos meus ou a mim, terá
que abandonar a aldeia. — olhou Sorem e os outros e sorriu— Bem-vindos a
casa, meninos.
Emocionada viu como se aproximaram dela e a abraçaram os três. Thorbert
fulminou com o olhar a seu amigo que parecia envergonhado.
— Bom, bom…— disse ela sorrindo tentando conter as lágrimas afastando-se
— Me alegro que tenham retornado. Necessito de babás.
Os homens puseram-se a rir olhando seu ventre— Está enorme. — disse
Tage.
— Está preciosa. Não poderia estar mais bela. — disse Sorem olhando-a com
adoração. Kolina apareceu a seu lado e ele a olhou brevemente.
— Kolina acompanha-me a minha casa?
— Claro, Maisey. — disse olhando com aversão ao Sorem que se surpreendeu
— E Tavie também vem, certo?
— Sim. — passou ao lado de Tage e lhe pisou sem querer— Ui, perdão.
Tage franziu o cenho, mas disse — Não é nada. — quando saíam ouviram que
perguntava— Essa era a menina que trouxemos na viagem anterior?
As três foram em silêncio para a casa e quando entraram Kolina explorou—
Como se atreve a te fazer isso?
Maisey teve que sentar-se na cama, pois lhe tremiam as pernas. Outra dor no
ventre a fez acariciar-se irritada, enquanto seu amiga continuava reclamando
— Tinha que tê-lo posto em seu lugar! Tinha que ter ordenado que lhe
dessem cem chicotadas por sua ousadia…
— Kolina…— a interrompeu Tavie aproximando-se de Maisey— Está bem?
— Sim, só quero me deitar. Ajudem-me a me trocar. — disse sem forças. Só
tinha vontade de chorar, mas nem isso se permitia em público, se quizesse
que não a considerassem fraca. Entre as duas a despiram e lhe puseram a
camisola. Suspirou deitando-se na cama e outra dor a percorreu. Franziu o
cenho porque aquilo já não era normal e ficou de barriga para cima. Seus
amigas a olhavam preocupadas.
— Vão dormir, estou bem.
— Seguro? Melhor ficar dormindo com Tavie.
— Sim, será o melhor. — disse a garota.
Raio subiu à cama e se aninhou em sua perna. Estava inquieto e Tavie se
preocupou — O que lhe ocorre?
— Nada. — disse divertida — Certamente está assim porque Roald retornou e
não lhe cai muito bem.
— Que cão mais esperto. — disse Kolina indo em volta da habitação da garota
— Até amanhã, Maisey.
— Até amanhã.
Tavie ficou olhando— Seguro que te encontra bem?
— Um pouco decepcionada. Isso é tudo.
— Sim…— Tavie apertou os lábios antes de dizer— Descanse, Maisey.
Antes de ir pôs mais lenha no fogo e Maisey suspirou olhando as chamas
enquanto Raio deitava ao seu lado colocando o lombo junto a sua perna,
como se temesse que desaparecesse. Suspirou sorrindo, mas logo recordou as
palavras de Roald. Uma lágrima percorreu seu nariz e ela a limpou furiosa.
Sabia que estava zangado, mas insultá-la em público era o cúmulo. Não
entendia como podia tratá-la assim. Ou possivelmente sim. A razão era que
não a amava.
Capítulo 13

Dormiu, mas a dor no ventre a despertava todo tempo. Tentou ficar


confortável, mas não conseguia. Algo molhou suas pernas e se amaldiçoou
afastando os lençóis, pois tinha feito xixi.
— Ótimo. — sussurrou vendo a mancha de umidade. Raio gemeu e se
aproximou pra lamber sua cara — O que você tem, amigo?— Raio voltou a
gemer e lhe acariciou o rosto. Uma dor terrível a transpassou e Maisey não
pôde evitar gemer agarrando a barriga.
— Maisey?— Kolina chegou correndo e se sentou na cama ao seu lado— Está
em trabalho de parto?
— Não sei. — disse ofegante — Molhei a cama.
— Tavie!
— O que foi?
— Vá chamar Wava…
— É bruxa, não curandeira.
— Mas se encarrega dos partos muito bem. — disse deitando-a na cama com
cuidado.
Tavie colocou uma pele por cima e as botas. Saiu correndo da casa enquanto
Maisey começava a se assustar. Doía-lhe muito.
— Tudo ficará bem, não é verdade?
— Fique tranquila. — sua amiga sorriu— Seu filho chegará a este mundo
antes de que você se dê conta.
Mas isso não foi assim porque três horas depois gritava de dor retorcendo-se
na cama. Ouvia vozes no exterior e Wava não tinha chegado, embora Tavie
tinha ido a sua casa para dizer-lhe — Está sangrando. — disse Tavie
asustada olhando suas pernas.
— Chegará no último momento, a maldita bruxa— disse ela entre dentes
suando.
Kolina preocupada passou um pano úmido pela sua testa— Tente relaxar.
— Dói muito. Tirem-me isso já!— gritou fora de si.
A porta se abriu de repente e Roald entrou na casa empalidecendo ao ver seu
estado— Façam algo!
— Ainda não chegou a hora!— disse Kolina zangada— Além do mais que te
importa se ela morrer? Não se importou em todos estes meses e inclusive
insinuaste que não é teu filho!
Um grito dilacerador de Maisey interrompeu a discussão e Roald a empurrou
para aproximar-se de Maisey.
— Vamos, preciosa. Você pode com isto.
— Não serei capaz. — disse entre lágrimas — Não posso fazê-lo.
— Claro que sim. — Roald estava totalmente pálido— É capaz de tudo. Isto é
uma moleza.
— Está sangrando. — disse Tavie assustada olhando suas pernas.
— Onde está Wava?— gritou Kolina.
Roald saiu correndo e Maisey pôs-se a chorar mais forte— Dói muito. Está
me rasgando.
Kolina pegou sua mão — Tudo ficará bem! Ouve-me?
Estava dando outro grito que punha os cabelos em pé quando a porta se
abriu e Wava entrou tranquilamente seguida de Roald. Aproximou-se dela e
tirou o lençol que cobria seus joelhos abertos.
— Está nascendo de nádegas. Adiantou-se.
Roald se assustou— Faz algo!
— Não posso fazer nada.
Ele empalideceu e agarrou seus braços— O que diz bruxa? Tem que salvá-la!
Wava sorriu surpreendendo-o— Agora se importa?
— Claro que me importo!
— Não faz diferença. — disse a mulher soltando seus braços. Roald deu um
passo atrás e olhou pra Maisey— Eu não posso fazer nada. Pode ser capaz de
pari-lo. — disse indo para a porta — Nunca se sabe.
Kolina a olhou assombrada quando se foi— Nunca fez isso…
— O quê?— perguntou Tavie histérica.
— Ir embora antes de que nascesse o menino.
Roald passou uma mão pelo cabelo desesperado e se aproximou de Maisey—
Vamos preciosa, tem que pô-lo pra fora.
Maisey já não podia pensar por causa da dor e com os olhos vermelhos de
chorar, negou com a cabeça.
— Não diga que não! Vais parir!
Outra contração fez que Maisey arqueasse as costas de dor suplicando que o
tirassem.
— Me escute!— Roald a agarrou pelo queixo — Tem que pari-lo! Agora vais
empurrar.
— Não. — respondeu chorando.
— Maisey! Empurra!
Ela empurrou com força enquanto Kolina se colocava entre suas pernas—
Muito bem, Maisey. Outra vez.
Roald lhe acariciou a cabeça, enquanto ela por causa do esforço agarrava seu
outro braço, cravando suas unhas nele arqueando o pescoço gritando de dor
ao empurrar tudo o mais forte que podia. Esgotada deixou-se cair na cama e
olhando nos olhos de Roald sussurrou— Não posso.
— Está fazendo muito bem. — disse com os olhos cheios de lágrimas—
Vamos, preciosa, um pouco mais.
— Um último empurrão. — disse Kolina insegura olhando pra Tavie.
— Empurra!— gritou ele — Empurra, Maisey!
— Chama papai. Quero me despedir.
— Não!— agarrou-a pelo queixo— Vai empurrar! Agora! Não me faça isto—
disse ao ver que não se movia— Tem que empurrar. Por favor, preciosa,
empurra.
Maisey empurrou com todas as forças de que dispunha quando sentiu que a
pressão diminuía.
— Só falta um pouco, Maisey. Um empurrão mais. — disse Kolina
alegremente — Já está quase fora. É um menino.
Sentindo as forças renovadas, voltou a empurrar com força e Roald lhe
agarrou a mão animando-a. Quando ouviu o pranto do menino suspirou
aliviada e sorriu pra seu marido. Antes de deixar cair sua mão sem forças
sobre a cama e seu rosto caísse pra um lado desmaiada. Não escutou os
gritos desesperados de Roald chamando-a.
Despertou com o pranto de um menino, sentindo-se esgotada e ao abrir os
olhos viu Roald de pé na frente dela com um vulto nos braços, sorrindo como
nunca tinha visto. Era todo um espetáculo vê-lo tão contente — Maisey?—
virou a cabeça para ver Tavie olhando-a preocupada— Como se encontra?
Roald se aproximou dela. Tinha perdido o sorriso e a olhava preocupado—
Cansada.
Tavie sorriu— Não me admiro.
— O que aconteceu?
— Você desmaiou. — disse Roald sentando-se na cama a seu lado.
Raio subiu à cama e lambeu sua cara fazendo-a sorrir— Te assustei,
pequeno?
— Assustaste a todos. — disse Tavie levantando-se de sua cadeira— Irei
buscar algo pra você comer. Precisa recuperar as forças.
Maisey acariciando a pelagem de Raio olhou pra Roald— Não vai me deixar
vê-lo?
Seu marido olhando-a fixamente se deu conta que ela não tinha visto o
menino e o estendeu para que o pegasse. Quase não tinha forças nem para
segurá-lo, mas ver o rosto de seu filho pela primeira vez era algo que não
esqueceria nunca. Estava roliço e era lindo.
— É grande. — disse emocionada acariciando sua cabecinha.
— É perfeito. — disse Roald com um sorriso nos lábios— É loiro como sua
mãe.
— Sim. — acariciou seu cabelo loiro com amor— Não é porque é nosso, mas
saiu bonito.
Roald pôs-se a rir assentindo— Vai ser um rompe corações.
— Sim ele será. — disse concentrada em seus pequenos punhos.
— Maisey eu…
— Pode me trazer água?— perguntou sem querer olhá-lo.
Roald se levantou e da jarra lhe serviu água. Quando lhe entregou o copo
seus dedos se roçaram e ela desviou o olhar.
— Sobre ontem…
— Pode chamar meu pai?
— Sei que isto foi minha culpa e…
Maisey o olhou nos olhos— Pode ir chamar a meu pai, por favor?
Ele apertou os lábios e assentiu antes de voltar-se pra porta — Virá em
seguida. Está impaciente por vê-la.
— Obrigada. — sussurrou olhando seu filho que franziu o queixo como se
fosse a chorar— Ei, nem pense nisso ouviu?
O menino balbuciou e Maisey sorriu — Assim eu gosto, você me obecece. —
depois de uns segundos olhando-o, a porta se abriu e seu pai entrou com
Tavie que trazia a comida em uma tigela.
— Como está filha?— sua preocupação era evidente
— Muito melhor. Viu o menino?
Seu pai assentiu e a beijou na testa— Não tinha passado tanto medo na vida.
Ouvir seus gritos de fora e não poder fazer nada.
— Sinto ter te preocupado. — olhou seu filho com amor — Mas valeu a pena.
— Tem que comer, Maisey. Dê o menino pra seu pai.
Maisey o fez— Se tornou uma mandona.
— Fará bem ao Tage — disse seu pai as deixando atônitas— O quê?—
perguntou olhando as duas— Era um segredo?
Tavie ficou como um tomate e Maisey pôs-se a rir— Pois todo o povo sabe,
assim ele saberá em seguida.
— Papai!— Tavie gemeu tampando o rosto e saiu correndo para seu quarto—
É muito jovem e a envergonhaste.
— Vá, sinto, mas é a verdade. Todo mundo sabe.
Maisey entrecerrou os olhos — E o de…
— Kolina? Todos sabem a muito tempo.
Quando sua amiga soubesse iria gritar até o céu — Sabe…
— Sorem? Não acredito que se deu conta.
— Algo mais que eu deva saber?— perguntou irônica.
Seu pai a olhou nos olhos— Ficou como louco. Pensava que tinha morrido e
até que Kolina lhe disse que estava desacordada, pensei que ia fazer uma
loucura.
Deu-lhe um tombo o coração— Sério?
— Em realidade eu também estava fora de mim, assim não escutava o que
dizia enquanto te abraçava. Tiveram que separá-lo de você para que Kolina
comprovasse que estava viva.
— Abraçava-me?— perguntou sem fôlego com a tigela na mão.
Seu pai assentiu e olhou seu neto— Este safado nos deu um bom susto.
Maisey sorriu e olhou para a porta— Onde ele está?
— Ficou no salão. — disse seu pai tocando a cabeça do menino— Como lhe
chamarão?
Ficou em branco pois não tinha nem ideia. Com todo o tempo que tinha tido
para escolher um nome e não se decidiu por nenhum— Temos que decidi-lo
juntos. — disse para sair do impasse. Tinha todo o direito de pôr em seu filho
o nome que lhe desse vontade depois das palavras de Roald, mas não queria
fazer isso. Queria que seu filho tivesse relação com seu pai embora eles não
se dessem bem.
Bebeu seu caldo e seu pai foi embora quando ia dar de mamar ao menino.
Tavie a ajudou e quando estava trocando o seio, entrou Roald como se
entrasse em sua casa. – O que faz aqui?
— Vim vê-la. — disse cruzando os braços como se tivesse todo o direito do
mundo a estar ali. Maisey corou quando lhe olhou o seio ao que seu filho se
aferrava — Tem apetite. — disse ele incomodando-a mais.
— Sim. — sussurrou.
— Maisey, sobre ontem…
— Tavie pode colocar outro travesseiro nas minhas costas?
Roald se aproximou antes de poder impedi-lo e lhe colocou um travesseiro a
suas costas. O roce de seu fôlego em seu pescoço deixou tensa e o menino
protestou trazendo-a ao presente— Obrigada.
— Está claro que não quer falar sobre ontem…— lhe sussurrou ao ouvido—
Mas, cedo ou tarde teremos que discuti-lo.
— Que nome lhe pomos?
Roald suspirou erguendo-se e olhando seu filho— O que te parece Harald?
Maisey também tinha pensado no nome de seu pai e lhe alegrou que ele
também o fizesse— Já que é o único pai que conheceremos, acredito que é
boa ideia que nosso primeiro filho se chame como ele.
— Será nosso único filho. — disse ela perdendo o sorriso.
Ele disse algo baixo e Maisey lhe perguntou— O que disse?
— Nada.
— Disse que veremos. — disse Tavie que os observava com os braços
cruzados ao pé da cama — Harald terminou.
O menino ficou dormindo com o mamilo em sua boca e Maisey lhe olhou
surpresa— Que afortunados são alguns. — disse seu marido fazendo que se
ruborizasse intensamente. Sabia que seus peitos estavam maiores e a
envergonhava que a olhasse. Tavie reprimiu uma risada enquanto Maisey só
pensava em matar Roald.
Sua amiga pegou o menino e o pôs com delicadeza no ombro lhe dando
tapinhas nas costas. O arroto de seu filho fez inchar o peito de orgulhoso do
pai. Maisey levantou uma sobrancelha divertida por sua atitude. Quando
dissesse sua primeira palavra faria uma festa.
Maisey ficou confortável enquanto Tavie colocava o menino no berço que uma
das mulheres lhe tinha dado.
— De onde tiraste esse berço?— perguntou Roald com o cenho franzido.
— Da aldeia. — disse deitando-se na cama para descansar um momento.
— Por que ninguém fez um pra ele?
— Para quê? Esse serve. — disse fechando os olhos. Roald grunhiu e ela
abriu um olho— O que foi?
— Teria que ter um berço mais bonito.
— Pois deveria ter estado aqui para fazê-lo!— replicou lhe fechando a boca.
Voltou-se lhe dando as costas e Tavie saiu do quarto silenciosamente.
Sentou-se a seu lado na cama e escutou um suspiro. Sentiu como pegava
uma mecha de seu cabelo e o acariciava, mas ela não se moveu— Me diga
uma coisa. Sentiu minha falta?
Maisey não queria responder que tinha sentido sua falta todos os dias, mas
logo recordou as palavras da Wava sobre bater-lhe com a porta no nariz,
assim respondeu – Talvez.
Roald perdeu o fôlego e seguiu acariciando seu cabelo— Talvez eu também
tenha sentido sua falta.
— Sim, percebi. — replicou sem poder evitá-lo.
— Está com ciúmes?— o tom da pergunta a fez esticar-se. Estava rindo dela?
Voltou-se para ver sua cara e sim estava rindo. Indicavam-no seus olhos e ela
entrecerrou os seus— Estou cansada.
— Vamos, não seja assim…— disse esticando a mão para tocar seu ombro.
Ela se afastou e lhe deu as costas enquanto Raio grunhia ficando de pé na
cama — Ataque Raio!
O cão o fez em seguida e Maisey esperou. Um suspiro a suas costas e uns
passos afastando lhe disseram o que esperava. Que a tinha deixado sozinha.
Outra vez.
Os dias passaram rapidamente e a neve foi desaparecendo embora
continuasse fazendo frio. Maisey se levantou da cama embora as garotas
protestavam e Roald gritou quando a viu.
— Está louca, mulher?— gritou ao vê-la entrar no salão lentamente. Todos o
olharam como se quisessem matá-lo — Melhor dizendo, está louca, meu Jarl?
Vários puseram-se a rir e Lala cobriu a boca com a mão para que não vissem
que ria. Ignorando-o se aproximou de seu lugar e sentou lentamente. Seu pai
a olhou preocupado— estiveste a ponto de morrer. Ninguém espera que esteja
em pé.
— Aborreço-me na cama.
— Pois, cuide do menino. — disse seu marido entre dentes.
Sorem pigarreou— Se encontra melhor?
— Parecia que estavam matando um porco. — disse Tage ganhando uma
joelhada de Thorbert.
Maisey pôs-se a rir e Tavie olhou Tage como se ele fosse idiota.
— Como vai tudo?— perguntou servindo-a de comida.
— Seu pai já me explicou seu plano. — disse Roald olhando-a atentamente.
Afastou-lhe uma mecha loira da bochecha e todos ficaram em silêncio
observando sua reação. Ao sentir o olhar de sua gente fez de conta que não
notou e continuou comendo— É muito inteligente.
— Obrigada. Faste sabe algo de seu clã?
— Enviei um homem a cada clã para ter notícias o quanto antes.
— Muito bem. Alguma imperfeição depois do degelo?
Roald a observava falar com seus homens e levantando uma sobrancelha
olhou pra Harald que estava orgulhoso. Quando terminaram o café da
manhã, Roald se levantou e a mulher que havia trazido da viagem se
aproximou apressadamente.
— Meu amo posso ir contigo?
Todos da mesa se voltaram para eles e Roald pigarreou— Melhor que fique
aqui.
— Se for caçar, posso ir contigo— disse insinuando que não iriam caçar
precisamente.
— Sim, Roald. — disse ela levantando-se de seu assento— Leve isso para
caçar. Pode ser que alguém a confunda com uma raposa e a transpasse com
uma flecha.
A mulher ofegou e deu um passo para ela. Toda a mesa se levantou de
repente e a mulher deu um passo atrás.
— Fiquem tranquilos, meninos. — disse divertida— Ainda posso com ela.
Os homens puseram-se a rir enquanto que a mulher a olhava como se
quisesse matá-la — Vai trabalhar. — disse Roald irritado— Lala te dirá o que
tem que fazer.
— Será um prazer. — disse Lala com malícia.
Maisey saiu do salão para ir ver o menino e Roald a agarrou pelo braço
girando-a— Temos que falar disto.
— Não tenho nada que falar contigo!— disse soltando seu braço.
Seguiu caminhando para sua casa e quando já estava em seu quarto olhando
o berço do menino a porta abriu novamente — Pois vai me escutar!
Ela cruzou os braços e Roald furioso deu vários passos para ela — Não podia
aceitar o desafio! Não podia brigar com minha esposa pra continuar casado
contigo, porque todo mundo saberia que não teria sido justo e além do mais
não queria fazê-lo! É minha esposa! Ponto!
— Disse que o faria. — disse com lágrimas nos olhos — Não lutou por mim.
— Estava ferida!
— Rejeitou-me diante de todos!
Roald passou uma mão por seu cabelo negro olhando-a nos olhos— Não
podia fazê-lo.
— Não era pra que continuássemos casados, idiota! Era para que fosse o Jarl
dos três clãs!
Roald surpreso deu um passo atrás— O que está dizendo?
— Se me tivesse vencido teria conseguido os três clãs. Meu pai imaginou, por
que você não? Quer saber por quê? Porque é idiota!
— Maisey…— arrependido tentou se aproximar, mas ela o rechaçou.
— E ainda por cima foi embora!— gritou ela — Quando cheguei aqui já não
estava! Deixou-me!
— Maisey eu…
— E volta com essa vagabunda! — disse com desprezo — Dizendo que Harald
não é seu filho. Não tem palavra!— gritou ela.
Roald empalideceu vendo-a chorar — Preciosa…
— Não me chame assim! — Virou cobrindo o rosto.— Já não é meu marido!
Foste-me infiel e já não é meu marido! — disse desequilibrada — Procurarei
outro. Outro que me queira!
Ao ver que não lhe respondia se voltou e estava sozinha. Tornou-se a ir.
O rancor porque não a tinha consolado a percorreu de cima abaixo. Jogou-se
na cama furiosa. Podia esperar que recuperasse as forças. Então iria ver.
Passaram os dias e não o viu muito. Em realidade só o via no jantar e
virtualmente não falavam. Ele só falava do que era estritamente necessário.
Uma noite voltou para sua casa depois de jantar e encontrou um bracelete
sobre a cama. Era precioso com desenhos de dois pássaros que voavam para
unir-se. Emocionada o pôs acariciando-o. Olhou seu anel e o pente que lhe
tinha dado. Por que lhe tinha dado o bracelete? Então sorriu entendendo que
queria consertar sua relação. E sentia sua falta. Desejava que a abraçasse a
noite.
Saiu com o bracelete posto depois de dar de mamar ao bebê a manhã
seguinte e se decidiu ir buscá-lo. Ao não estar na casa de seu pai perguntou
ao Tage.
— Foi caçar. — disse seu amigo olhando Tavie que estava com o bebê nos
braços ao lado do fogo.
Ela olhou a sua amiga e sorriu porque estava bonita — Quer casar sabia?
Tage a olhou surpreso— O que quer dizer?
— Pediu-me que encontre marido.
— Mas é uma criança!
— Tem quinze anos.
Tage a olhou novamente— Não pode casá-la ainda. É muito jovem.
— Sabe muito bem que muitas garotas se casam nessa idade e ela quer sua
própria família. Não sou ninguém para negar-lhe. — Tage a fulminou com o
olhar e Maisey conteve um sorriso— Acaso tem algo a dizer?
— Eu?— parecia assombrado com a pergunta. Depois entrecerrou os olhos—
Por que pergunta?
— Todos sabem que está louca por você e…
Tage a olhou como se tivesse duas cabeças— Eu me casar? Com ela?
Maisey revirou os olhos— Pense nisso. Senão terei que procurar outro
candidato. — encolheu os ombros aparentando indiferença— Não será difícil.
Está bonita e será uma boa mãe. Não haverá esposa melhor.
Voltou-se e sorriu para ouvir um grunhido atrás dela.
Foi procurar seu cavalo e estava chegando ao estábulo quando viu na porta
um formoso cavalo branco. Seu pai e Thorbert tentavam dominá-lo enquanto
levantava suas patas dianteiras muito inquieto.
— É lindo! — sussurrou aproximando-se— De quem é?
— Teu. — disse Thorbert sorrindo.
Então recordou quando Roald havia dito que lhe daria de presente um
quando lhe desse um filho— Roald me trouxe isso?
Aproximou-se do cavalo e aproximou a mão para acariciar o focinho— Tome
cuidado, filha. Ainda não está domado.
— Como não está domado?— perguntou surpresa.
— Roald, o domará. Não se preocupe. É muito bom fazendo-o.
— Onde ele está?
— Foi caçar no norte.
Voltou-se e não viu que os homens se olhavam sorrindo. Montada a cavalo
rodeou a casa para ir buscá-lo, quando viu Kolina levando um cesto com
roupa até sua casa. Sorem ia a seu lado lhe dizendo que a ajudava e Kolina
se deteve sorrindo. Maisey ficou estática. Era um sorriso de verdade. Aquilo
ia bem.
Dirigiu-se para o norte procurando por Roald, mas depois de umas horas se
deu por vencida. Estava chegando em casa e ia sair do bosque quando ouviu
vozes.
— Não, deixa-o. — endireitou-se sobre o cavalo, pois era a voz do Roald.
— Mas por quê? Antes não dizia isso. — a voz da escrava do Roald lhe pôs os
cabelos em pé.
Desceu do cavalo e sem fazer ruído se aproximou. Roald estava de costas pra
ela, e a puta sorria enquanto abria a parte superior do vestido mostrando uns
grandes peitos.
— Você gosta de verdade? Por isso me escolheu. São maiores que os de sua
mulher.
— Não fale de Maisey. — disse ele dando um passo para ela.
A mulher sorriu e levou suas mãos ao peito de seu marido — Ninguém tem
que saber. Só nós.
— Pois, não estão escondendo muito bem. — disse ela furiosa.
Roald girou surpreso — Não estava fazendo nada.
— Cale a boca. — disse entre dentes sem deixar de olhar à mulher que levou
as mãos ao vestido tentando cobrir seus seios — Ao que parece você gosta de
tocar o que não é seu.
— Maisey…
— Isto é entre ela e eu. — disse aproximando-se furiosa.
— Foi ele! Deseja-me, que culpa eu tenho?
Essas palavras a fizeram olhar pra Roald que as observava com os olhos
entrecerrados — Não vou me justificar. Você não me quer a seu lado.
— Disse-lhe que fechasse a boca! — olhou pra mulher — Ninguém toca o que
é meu e menos ainda embaixo do meu nariz, puta!
A mulher empalideceu— Roald!
— Maisey preciosa, eu não ia fazer nada. — agarrou-a pelo braço para detê-
la. Ela se voltou para ele. — Então você gosta mais dos seus peitos né?
— Não!
Soltou-se e antes que pudesse evitá-lo agarrou a mulher por seu cabelo negro
enquanto ela gritava— Vou te ensinar quem sou!
— Maisey, solte-a. — disse com voz cansada— Isto é ridículo.
— Vou te ensinar o quão ridículo é. — disse puxando ela para a casa. Subiu-
a aos empurrões e seus gritos fizeram que toda gente da casa saísse.
Ao chegar à porta a jogou sobre o chão lhe gritando no rosto— Acaso não
sabe quem sou?
— Sim, meu Jarl. — disse assustada.
— E por que tem que me provocar? Parece que quer que te mate!
— Maisey. Não aconteceu nada!— gritou Roald furioso.
Maisey não deixava de olhar à mulher e viu algo em seus olhos negros que
lhe indicou a verdade— Por todos os Deuses. Quer que te mate, não é
verdade?
A mulher desviou o olhar envergonhado— Faz de uma vez!
Roald a olhou surpreso— Mas o que diz, mulher?
— Odeio vocês!— gritou fora de si— Me separastes de tudo o que amava!
Prefiro morrer a continuar vivendo assim!— olhou pras pessoas que os
rodeava com ódio— São odiosos e nos tratam como putas!
Maisey endireitou as costas e olhou pra seu marido que estava espantado—
Devolve-a.
— Está louca? Sabe onde a recolhi?
— Pois não devia ter feito isso!
— Nem sequer estava em uma aldeia. Estava lavando roupa à margem do rio!
— Não terá filhos?
Thorbert se aproximou preocupado— Não perguntamos.
— Roald!
Seu marido entrecerrou os olhos— Não vou devolvê-la. Agora é uma escrava.
Venderei-a.
Maisey olhou à mulher— Tem filhos?
— Não, mas tenho marido.
— Devolve-a.
Deu-se a volta para ir ao salão quando seu marido disse— Não.
Lentamente virou para olhar pra Roald. Não podia acreditar que estivesse
contradizendo-a em público — Como disse?
— Não a devolverei. — disse cruzando os braços— E te desafio por ser o Jarl
de todos.
Os ofegos de indignação percorreram o grupo, mas Maisey se voltou olhando-
o de cima abaixo — Então agora me desafia.
Roald sorriu – Rejeita o desafio?
Olharam-se nos olhos e o coração do Maisey saltou de alegria.
— Não está ainda em condições de lutar contigo! — disse Lala zangada— Não
é justo.
— Lala, tem razão. — disse Kolina — Deverá esperar uns dias até que esteja
totalmente bem.
— Não tem porquê. — disse Sorem ganhando um olhar de ódio de Kolina—
Qualquer um pode desafiá-la em qualquer momento. É o Jarl todos os dias
do ano. Nossos inimigos não vão esperar que esteja recuperada.
— Sorem tem razão. — disse ela. Deu um passo para seu marido olhando-o
nos olhos— Não confie, Roald. Ainda posso te surpreender.
Seu marido gargalhou— Não duvido, preciosa.
Afastou-se dele reprimindo um sorriso e Faste a interrompeu— Ele seguirá
com o plano?
— Sua confiança em mim é aduladora. — disse ruborizando ao velho — Vou
me vestir confortavelmente.
— Filha…— seu pai a seguiu sussurrando— Tudo bem?
— Tudo perfeito, pai. Não se preocupe.
Entrou em sua casa e vestiu um vestido velho em cima de suas calças novas
de couro. Kolina lhe cortou o vestido como a vez anterior— Tem certeza?
— Nunca estive tão segura de algo. — disse olhando seu filho dormir. Pegou
sua adaga e saiu pra onde todos estavam esperando. Desceu a colina com
sua amiga atrás e chegou a clareira— Já estou aqui. — disse aproximando-se
do centro do círculo. Sorriu pra seu marido— Está seguro disto? Depois não
te curarei.
— Preciosa, cuida de seu traseiro. Eu me ocuparei do meu. — disse
colocando-se diante dela.
— Adverti-lhe isso e o que adverte…— deu um salto e lhe deu uma pesada
com as duas pernas no estômago atirando-o ao chão de costas. As pessoas
começaram a gritar animando um ou o outro enquanto Maisey atacou contra
ele, cravando a adaga no chão quando Roald rodou sobre o chão. Roald lhe
deu uma patada no quadril e Maisey se levantou de um salto. Enfrentaram-
se um ao outro caminhando em círculos — Preciosa, não quero deixar o
menino órfão.
— Então não morra. — disse ela trocando a adaga de mão e atacando seu
antebraço. Fez-lhe um talho e gemeu por dentro ao ver o sangue, mas não
podia se deter. Roald tampouco o fez e também trocou a adaga de mão.
— Eu também tenho surpresas, preciosa.
Maisey sorriu e quando Roald atacou, ela saltou para trás fazendo várias
cambalhotas enquanto ele a seguia movendo a adaga de um lado a outro.
Quando se deteve se agachou de repente varrendo o chão e Roald cambaleou,
mas antes de cair a agarrou pelo cabelo levando-lhe com ele. Roald caiu no
chão de costas e viu Maisey levantando o braço para apunhalá-lo, mas ele
soltou sua adaga agarrando seu pulso com força— É minha, preciosa.
— Isso está por ver. — levantou o joelho com força lhe pegando na virilha e
Roald gemeu sem soltar seu agarre — Se rende?
Olhou-a nos olhos e sussurrou com a cara congestionada— Nunca.
Voltou-se levando-lhe com ele, mas Maisey encolheu as pernas e lhe
empurrou pelo ventre fazendo-o voar para trás caindo de costas de novo.
Maisey com a mão ainda sujeita por ele, arqueou as costas apoiando-se nos
calcanhares e se impulsionou caindo sobre o Roald escarranchado sobre seu
abdômen. Seu marido grunhiu ao senti-la despencar sobre ele— E agora?
Roald estava sem fôlego pela queda. Maisey nem se deu conta quando o
punho de seu marido se estrelou sobre sua mandíbula deixando-a sem
sentido e caindo mole sobre ele.
Olav se aproximou apressadamente olhando pra Roald de cima— Está bem?
— Tire ela de cima de mim antes de que desperte. — respondeu quase sem
voz. Olav pôs-se a rir alto e outros sorriram.
Roald custou levantar-se e seus amigos tiveram que ajudá-lo, pois enjoou ao
fazê-lo. — Tenho várias costelas quebradas. — disse entre dentes segurando
seu próprio lado vendo que vários levavam a sua esposa.
Sorem riu entre dentes— Pensei que te mataria.
Roald grunhiu— Será vingativa.
— Vai pagar o caso da morena por muito tempo, amigo. — disse Tage a
gargalhadas.
— Sim. — disse sorrindo — Mas é minha.
Seus amigos riram a gargalhadas porque parecia exausto. Quando chegou em
casa Maisey estava deitada sobre a cama e um arroxeado saía em sua
bochecha. Com um gemido se deitou a seu lado fechando os olhos, pois
estava esgotado.
— Terá que te curar o braço— disse Olav sorrindo de orelha a orelha.
Ele levantou o antebraço vendo o talho que Maisey tinha feito e sorriu —
deixou de sangrar. Enfaixa-o. Depois Maisey se encarregará.
Girou a cabeça para sua esposa que ainda não despertou— Terei batido
muito forte?
— É dura de cortar. Ela vai durar muitos anos.

Harald o olhava com o cenho franzido— Não me olhe assim. Tinha que fazer
algo ou me mataria.
— Prometeu não machucá-la.
— E o que queria que eu fizesse? Que deixasse me matar?— seu sogro
grunhiu e Roald o olhou surpreso — Muito gracioso.
— Agora você é o Jarl. Espero que esteja a altura.
— Foste um exemplo que seguirei.
— Tinha que ter prestado atenção em sua esposa, mas felizmente ainda a tem
ao seu lado para que possa te aconselhar.
Roald olhou a sua mulher e sorriu— Certo. E daí não se moverá.
— É o melhor.
O menino pôs-se a chorar e Maisey despertou de repente sentando-se na
cama.
— Harald. — disse confusa olhando a seu redor.
Roald suspirou de alívio e a olhou— O que faz em minha cama?
— É minha cama. Eu a fiz.
Olav estava enfaixando seu braço e ela o olhou com o cenho franzido. O velho
se deteve — Será melhor que você continue.
— Sim, será melhor.
Todos saíram da casa deixando-os a sós e olhou-o nos olhos— Como está?
Como eu me saí?
— Preciosa, você nunca fica por baixo. — disse tocando o lado.
— Sinto muito. — disse aproximando-se para lhe agarrar o braço— Mas tinha
que ser convincente. Se não os homens não o engoliriam.
— Posso te assegurar que foi acreditável. — agarrou-lhe uma mecha de
cabelo e o acariciou— Me perdoaste?
— Não sei. Estou pensando isso. Mas vai por um bom caminho.
Segurou sua mecha enrolando-a em seu dedo— Me dê um beijo como deve
ser, esposa. Venci.
— Certo. — sussurrou contra seus lábios— Venceste justamente.— Roald
gemeu antes de apoderar-se de sua boca com paixão. Desesperado esticou a
mão agarrando sua cintura, mas ao pegá-la ele gemeu de dor. Ela sorriu
contra seus lábios — Quando estiver melhor.
— Sim.
O menino choramingou no berço e ela se levantou imediatamente— Tem
fome, meu amor?
Roald viu como o segurava em seus braços e abriu o vestido para lhe dar de
mamar. — Fica linda quando faz isso.
Maisey olhou nos olhos — Seriamente? Não são muito pequenos?
Roald fez uma cara como se ela fosse louca. — São perfeitos. Cabem na
palma da minha mão.
— Agora já não. — disse olhando ao menino.
— Estou desejando comprová-lo— disse com voz rouca.
— Pois demorará um tempo. E eu também.
— Esperarei, preciosa. Esperarei.
Levantou o olhar para ver o desejo em seus olhos — A devolverá?
— Sim.
— E me será fiel?
— Sim.
— Você me ama?
Roald sorriu— Você me ama?
— Talvez. — respondeu ruborizando-se.
— Talvez eu te ame também. — disse levantando-se e aproximando-se dela.
Acariciou-lhe a bochecha — Não posso viver sem você, preciosa. Tentei ir
embora, mas pensava em você todos os dias.
— Senti sua falta. — disse emocionada — Eu não queria isto.
— Sei, meu amor. — aproximou-se e a beijou nos lábios brandamente— Fez o
que era correto.
— Amo-te. — disse contra seus lábios. Roald gemeu beijando-a com ardor e
Harald protestou entre os braços de sua esposa separando-os de repente.
— Está claro que consegue o que quer, como sua mãe. — disse divertido
olhando a cara de protesto do bebê, que tinha o cenho franzido sem deixar de
mamar.
— Acredita que será o Jarl quando crescer?
— Se você se empenhar…
Epílogo.

— Roald você prometeu que nos banharíamos juntos. — disse ela metida na
banheira
— Preciosa, eu não entro aí.
— Ficarei por cima.
Roald pôs-se a rir enquanto se despia. Ia tirar as calças quando a porta da
casa se abriu de repente— Maisey!— gritou Kolina furiosa— Já estou farta!
Seu marido gemeu sentando-se na cama— O que ocorre agora?
— Disse-me que não se casará! Que estamos bem assim!
— Se deitou com ele?
Kolina corou— É que… é tão bonito…
— Kolina!
— Você se deitou com ele antes de se casar!
— Isso foi diferente.
Kolina cruzou os braços e Roald pigarreou — Sinto muito Jarl, mas até que
sua mulher não me dê uma solução, não irei daqui.
Roald se levantou da cama e descalço foi até a porta gritando— Sorem!— seu
amigo tentou entrar na casa, mas ele o impediu empurrando-o no peito —
Amanhã se casará!
— O quê?
Roald fechou-lhe a porta no nariz e Kolina sorriu— Bem dito, chefe.
— A sua casa!
— Sim, Jarl. — Kolina piscou um olho pra Maisey que sorriu cúmplice. O
plano tinha dado resultado cem por cento.
Quando ficaram sozinhos, Roald ia tirar as calças quando a porta se abriu
novamente e Tavie entrou furiosa— Como que ela se casa e eu não?
Roald foi até a porta agarrando-a pelo braço— Tage, amanhã se casa!— disse
aos gritos. O primo de seu marido gritou ao longe que nem louco— Te ordena
isso seu Jarl!
— Não sei do que se queixa tanto!— gritou Tavie – Está louco por mim!
— Maldita pirralha!
Roald fechou a porta e a trancou com uma tábua de madeira antes de voltar-
se sorrindo— Bem onde estávamos?
Maisey levantou uma perna colocando o calcanhar na borda da banheira. A
luz do fogo mostrava uma imagem muito sugestiva e seu marido tirou as
calças com toda pressa.
— Cada dia é mais preciosa. — disse colocando as mãos na banheira e
levantando-a fazendo-a rir— Sinto meu amor, mas aí não há lugar para mim.
Abraçou-o pelo pescoço— Estou te molhando.
— Em seguida me secará.
Quando a deitou na cama, colocou-se em cima dela acariciando seu corpo.
— Te amo. — disse-lhe em voz muito baixa, olhando-o nos olhos— Me alegro
de que tenha me encontrado.
— Eu também me alegro, meu amor. Quando te encontrei comecei a viver,
minha princesa viking. — sussurrou contra seus lábios.
— O mesmo digo, meu Jarl.