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Introdução

O objetivo do texto é mostrar a importância da pesquisa em todos os estágios do ensino


educacional. De forma a popularizar e deixar o mecanismo palpável, auxiliando não apenas no
entendimento histórico da sociedade e da realidade, mas também harmonizar a teoria e a prática
e expandir o conceito de Universidade.
Importante ressaltar o caráter produtivo da pesquisa, que substitui o absorver e
reproduzir, pelo diálogo crítico e produção própria. Tonando assim, o aluno/estudante
emancipado, seja qual for o nível educacional, para então caminhar para a formação de mestres.
I. Pesquisar - O que é?
1. Desmitificando o conceito

Atualmente um dos maiores desafios da pesquisa é estar dentro das especificações para
produzir tal. Além de ter que dominar todas as técnicas, e ter um tempo exclusivo para isso,
faz-se necessário destacar-se no meio acadêmico e conseguir um bom financiamento.
Certamente, não se trata apenas de produzir conhecimento, é preciso comprovar o que
se defende: empiricamente, projeções, índices, taxas são todas ferramentas bem-vindas.
A separação entre ensino e pesquisa é cada vez mais evidente. O professor que só
ensina torna-se monótono, reproduzindo sempre o mesmo, desatualizado. Em contrapartida, o
pesquisador menospreza o ensino, sendo que é o ensino que introduz o conhecimento na
realidade. Acomodar-se na pesquisa traz igualmente malefícios ao praticante, como alienação,
imobilidade em relação às transformações sociais, certo conservadorismo e falsa neutralidade,
devido à especulação dedutiva.
A pesquisa também é um fenômeno político à medida que se desdobra em interesses.
Embora isso nada queira dizer na prática: produzir conhecimento não significa aplicá-lo. Assim
surgiu o conceito de extensão, uma lacuna que erroneamente ficou entre o que se faz na pesquisa
e no ensino.
É claro que existem diferenças nos níveis de conhecimento produzido, mas isso deve
ser gradativo durante todo o processo educativo, desde a base até o ponto mais alto. A pesquisa
é/deve ser um conhecimento de consciência social, e ir além dos limites sociais impostos,
formando uma cultura própria ao mesmo tempo que emancipa o indivíduo, independentemente
do nível crítico.
Professor, informações, materiais diversos são apenas instrumentos de apoio. E saber
usá-los é o que diferencia a domesticação da emancipação. Emancipar-se é ser capaz de ter as
próprias ideias, formular projetos, criar novas perspectivas e elaborar a ciência.

2. Horizontes múltiplos da pesquisa

Embora, em muitos casos, pesquisar seja reduzida a um levantamento empírico, deve-


se ressaltar que ainda muito importante, não é só disso que se trata. É notório a necessidade de
unir teoria, método e prática. E isso demanda uma gama científica de diversos horizontes de
conhecimento. Não é real, nem significativo prender a pesquisa em apenas um mecanismo de
estudo, isso restringe o campo da realidade estudada e a torna duvidosa.
É evidente que a dose de parcialidade da pesquisa é determinada assim que se decide
sobre qual realidade estudar. Isso ocorre porque tudo é construído através da perspectiva de
quem produz, em circunstâncias adversas, e não somente pelo que se observa.
Ter domínio teórico implica em saber interpretar todas as possibilidades de
conhecimento. Saber captar o subentendido, conhecer os pontos alternativos, capacidade de
propor consciência crítica e utilizar a teoria como instrumento e condição para a produção da
pesquisa.
Não menos importante que a teoria e a prática está a metodologia. A forma pela qual
a produção será feita desencadeia uma série de novas concepções, questionamentos e caminhos
possíveis; e tudo isso contribui para alcançar o objetivo real do estudo. No método estabelece-
se que aquele saber não foi copiado ou reproduzido, mas foi uma linha de discussões científicas
que pode ser pelo viés clássico como o empirismo e o positivismo ou pelo alternativo como a
avaliação qualitativa e a hermenêutica.
A prática nunca poderá ser bem realizada sem um método e uma teoria. A prática deve
confrontar a teoria, e vice-versa, de forma a tornar a ciência mais palpável e colocar a realidade
na teoria. Isso obriga a teoria a se adequar ao que se observa, complementar ou até mesmo,
mudar.

3. A pesquisa como descoberta e criação

Descobrir é diferente de criar. Na descoberta cria-se um novo conhecimento, mas não


uma nova realidade. É objetiva, lógica e de forma invariante. A criação é subjetiva, já que não
surge do nada. Sempre há uma história como antecedente da criação, o novo é chamado de
revolução e esta não se determina. Os parâmetros históricos de análise são fundamentais para
o processo, só não se deve negligenciar que é condicionada pela ação humana, o que a torna
cada vez mais subjetiva. Novamente é perceptível uma dicotomia entre os termos, mas isso não
impede que ambos sejam igualmente importantes para a pesquisa.
Formalmente a ciência separa o objeto do sujeito e a partir das partes e suas relações a
pesquisa cria o conhecimento novo. Metodologicamente todas as separações são inevitáveis,
mas atuar de forma distinta minimiza a atuação do cientista e o alcance da ideologia, e por isso
deve se atentar no limite dessa separação.
Pelo fato de que a pesquisa está sempre pela perspectiva de quem a produz, não se
trata então de uma realidade absoluta e é a todo momento passível de questionamento. Isso
ocorre pela possível manipulação implícita, que fica mais evidente ao constatar a construção
simultânea de saber a partir da mesma realidade por olhares diversos.
Na área política o cientista se vê obrigado a uma falsa neutralidade, tendenciando um
conteúdo conservador voltado para os interesses da classe dominante da época. Já a história
pede por questionamento, pela formação de uma consciência crítica voltada para a sociedade.
Nessa altura, e diante do que já foi apresentado, o autor ressalta um ponto muito
importante que sintetiza indiretamente: sem pesquisa não há universidade, sendo por
universidade o significado mais amplo do conceito. De forma que o princípio da ciência é a
pesquisa.

4. A pesquisa com diálogo

Diálogo é uma comunicação, com riscos, desafios e desigualdade entre os dois sujeitos
relacionados. E assim há um questionamento de mão-dupla: ao criticar, recebe outra crítica, por
outro ponto de vista, o que torna os indivíduos capazes de refletir, acrescentar conhecimento ou
até mesmo mudar de opinião frente às novas evidências. Entretanto, para isso, o requisito básico
é a emancipação. Somente dessa forma os sujeitos são capazes de contribuir com algo próprio
delimitando seu espaço.
A comunicação pode atuar pela convivência ou pelo desencontro. Existe todo um
contexto interpretativo, que cria a circunstância de produção do diálogo. E nota-se que o termo
usado foi produção, porque vai muito além de reproduzir o que sabe.
A desigualdade social é um grande desafio da comunicação à medida que enquanto os
sujeitos iguais não criam relações novas, os desiguais são capazes de criar, destruir e
transformar.
A motivação para adquirir saber normalmente vem de dois caminhos distintos: pela
curiosidade, ou pelo poder. Sendo o último a maior influência da pesquisa. Seja o poder político
para ter informações e com isso o domínio, ou poder econômico para desenvolver cada vez
mais o acumulo de capitais e lucros mais altos. Vale ressaltar que esses poderes desencadeiam
o poder social, e com isso leia-se sobre a sociedade, já que interfere diretamente em tais
interesses.
Por isso, valorizar a pesquisa, ainda mais como formação histórica do sujeito social é
necessário, mas cautela para identificar quando é comunicação e quando é manipulação é
essencial.
Ao afirmar que pesquisa é o diálogo com a realidade é no caráter científico e educativo.
De maneira a dar o devido espaço à criatividade, tal qual que embasa a identidade cultural e
tradições de nações e etnias, o progresso e a cidadania da sociedade, e principalmente,
aprendendo e ensinando pela elaboração própria e crítica.

Questionamentos para o debate


 Fala-se na importância da presença da pesquisa em todos os níveis educacionais. Mas
como introduzir o processo de maneira natural nos níveis mais básicos, de forma a
incentivar o processo crítico e criativo desde cedo?
 A barreira encontrada pela produção de conhecimento, já que é necessário uma série de
requisitos, impede que diversas classes sociais tomem iniciativa para tal. O que se pode
fazer para que o conhecimento seja elaborado de todos para todos, e não somente pelos
olhos de uma classe selecionada?
 Se é a partir da pesquisa que a sociedade constrói uma consciência crítica, porque na
área política o cientista precisa ser neutro? A neutralidade não leva a alienação? Se o
cientista produz um conhecimento raso e alienado, não estará contribuindo para a
propagação de tal linha de pensamento?