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O FILHO DO SHEIK

Colecção Minerva
SÉRIE BRANCA
Cecil Roberts - CANÇÃO DA PRIMAVERA
lorence Barclay - AURÉOLA QUEBRADA
Florence Barclay - A DAMA DE SHENSTONE
Alba de Céspedes - VALÉRIA
Ethel M. Dell - UMA LUZ NO DESERTO
Ethel M. Dell - PORTA FECHADA
Ethel M. Dell - LUA AZUL
Florence Barclay - O ROSÁRIO
Florence Barclay - O MURO DA SEPARAÇÃO

Editorial Minerva LISBOA


O FILHO DO SHEIK
EDIÇÃO PARA PORTUGAL CONTINENTAL E ULTRAMAR PORTUGUÊS
1ª edição - Julho 1956
IMPRESSO EM PORTUGAL - PRINTED IN PORTUGAL
E. M. Hull
O FILHO DO SHEIK
ROMANCE
TRADUÇÃO DE
JOSÉ SILVA PEREIRA
REVISTA POR R. M.
TÍTULO DO ORIGINAL
«THE SONS OF THE SHEIK
Ofic. «Editorial Minerva»
I

O vento da madrugada soprava rijamente no deserto.


Três cavaleiros, envolvidos em albornozes rigorosamente
fechados, as costas voltadas às correntes atmosféricas, trotavam pela
obscuridade, procurando passagem pelo chão pedregoso que se
ocultava manhosamente debaixo de espessa camada de areia movediça,
tendo aqui e ali sinais de patas de cavalo, o que constituía verdadeira
armadilha para os incautos e suas montadas.
Não havia caminho que permitisse passagem na treva.
A despeito, porém, da insofreguidão dos cavalos, que mordiam
nervosamente os freios e sorviam o ar em longos haustos que lhes
traíam a inquietação e apesar do cansaço que se estampava no rosto de
dois dos membros da comitiva, esta pôs-se decididamente em marcha.
O chefe do grupo, embuçado num negro albornoz, cujas
extremidades pendiam de cada lado dos arreios e que pareciam emergir
imperceptivelmente da lustrosa negrura do cavalo, era quase invisível
na escuridão, enquanto os seus companheiros, que o seguiam a poucos
passos, pareciam dois esguios espectros.
Avançavam, milha por milha, dando aos animais plena liberdade
na escolha do caminho pelo perigoso trilho, confiando mais no instinto
das cavalgaduras do que nas suas próprias sugestões.
Subitamente cessou o vento, e fez-se um silêncio tão profundo
que o mais imperceptível ruído podia ser facilmente ouvido.
Somente o incessante bulício da areia e o ruído surdo das pedras
em contacto com as ferraduras quebravam o silêncio. Mas a calma
passou e o vento voltou de novo a soprar, agora mais frio. Os dois
árabes que fechavam a comitiva apertaram mais os albornozes, entre
pragas e imprecações, e inclinaram-se para o pescoço dos cavalos.
O chefe, entretanto, mostrava-se indiferente tanto ao rigor da
temperatura como aos murmúrios dos camaradas. De cabeça erecta,
insensível aos grãos de areia que lhe açoitavam o rosto, parecia
esquecido dos companheiros, imerso em profundos pensamentos que
lhe deveriam ser amenos, pois trauteava entre os dentes uma pequena
e alegre canção francesa. O cântico era muito baixinho, o que não
impedia, contudo, que as notas atingissem o ouvido atento dos dois
homens que o seguiam.
Um deles puxou as rédeas do cavalo e tocou levemente no outro.
.- Alá! - murmurou. - Ele canta!
- É bom ser-se jovem e amar .- disse o outro sentenciosamente.
Nestas palavras não se podia vislumbrar o menor toque de ironia,
pois eram repassadas de doce simpatia, tanto mais que eram proferidas
por quem poucos anos mais contava que o cantor.
A obscuridade do ambiente tornava-se cada vez mais densa.
Pouco a pouco, porém, o negrume da noite cedia aos clarões da manhã
de um novo dia. A Estrela da Manhã começava já a espargir a sua luz
ainda indecisa, como se a timidez a fizesse receosa da sua força, mas
fortalecia-se gradualmente, expondo à vista a total desolação do cenário
na fria apoteose da madrugada.
O áspero deserto desenrolava-se em solitária grandeza - um
oceano de areia semeado de pequenos outeiros pedregosos, que
corriam em cadeias diagonais de norte a sul. Na meia luz, aqueles
montículos assumiam proporções fantásticas.
O dia clareava. No firmamento as estrelas empalideciam e, uma a
uma, iam morrendo. Depois, no horizonte longínquo, um traço rubro de
luz explodiu, cresceu e adensou-se
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até se tornar semelhante a uma chama de fogo que esbraseasse o
céu.
Era uma orgia de cores. Do seu leito carmesim o Sol surgia como
imensa bola de oiro. Com a sua vinda, cessou o vento matinal.
Os árabes puxaram as rédeas e apearam-se. A oração matutina
que os dois camaradas resmungaram foi apressada e curta, enquanto o
guia, conquanto não se ajoelhasse, se limitava a apoiar a cabeça no
cavalo negro em que viajava, que, por sua vez, acariciava com o focinho
o peito do dono, traduzindo dessa maneira rude o afecto que lhe
dedicava.
Cinco minutos depois estavam todos novamente erectos na sela, e
galgavam a primeira orla de outeiros; os cavalos a galopar
corajosamente, na ânsia de vencer distâncias.
Na luz matinal, o deserto assumia um aspecto menos
desagradável: misterioso ainda e alguma coisa assustador; em razão da
sua vastidão desolada respirava entretanto uma estranha atmosfera de
quietude, em curioso contraste com a aparência selvagem.
Para os três homens que percorriam a movediça superfície, o
deserto era um livro aberto. Desde a mais tenra infância se haviam
identificado com ele, de maneira que o conheciam bem através das
múltiplas fases de suas súbitas transições - toda a calma sorridente e as
subitâneas fúrias tempestuosas. Nenhuma das suas feições lhes
escapava, quer quanto aos elementos, quer quanto ao ponto de vista do
homem.
O conhecimento que tinham era filho da experiência. Naturais de
uma região onde os perigos ocultos se dissimulam perfeitamente,
tomavam certas precauções, mas nunca mostravam inquietação,
aceitando o inevitável com a indiferença fatalista que é a herança da
raça. Soberbamente montados e bem armados, pareciam preparados
para todas as contingências e desinteressavam-se das consequências
que porventura lhes pudessem advir. Aliás, naquele momento não se
lhes divisava motivo algum para apreensões. Tanto quanto os olhos lho
permitiam, o deserto estava ermo.
Um terreno despovoado, evitado pelas caravanas e onde as
pegadas dos nómadas não eram frequentes nem recentes, por não
existir água nem vegetação. Plana, esta parte da região não
apresentava nenhum local em que um inimigo pudesse ocultar-se com
vantagem, posto que ali existissem desfiladeiros onde um regimento
pudesse facilmente entrincheirar-se. Mas o temor de uma emboscada,
se existia, não parecia perturbar nenhum dos três cavaleiros.
A paz inundava-lhes o ser enquanto se aproximavam do termo da
jornada. Os cavalos, altos e imponentes, alimentados de modo a
poderem vencer impàvidamente as peripécias da viagem,
correspondiam galhardamente aos esforços que lhes exigiam. Firmes
um atrás do outro, corriam o deserto como se fossem insensíveis à
fadiga.
E os árabes, como centauros, cavalgavam-nos magnificamente.
Imóveis nas selas, com as dobras dos albornozes a ondular-lhes ao
redor do corpo, os rifles de prevenção nos joelhos, pareciam tão
incansáveis e orgulhosos como os altivos animais que montavam.
Na ilusória atmosfera, os vales pareciam mais altos e distantes do
que realmente eram, mas havia momentos em que surgiam mais
próximos e de proporções atenuadas.
Os dois camaradas colocaram-se ombro a ombro com o chefe: era
o primeiro vale que atingiam, com alegria também das cavalgaduras,
que se detiveram subitamente junto da base de uma rocha alcantilada
que ali surgia, abrupta.
O chefe apeou-se e fixou os olhos durante momentos na direcção
percorrida. Aparentando vinte anos de idade, alto e delgado, largos
ombros que denunciavam físico desenvolvido, a sua aparência tinha
muito de arrogante e solene. O rosto agradável, magro e bronzeado
pelo sol, limpo e escanhoado, disfarçava uma barba firme e obstinada. A
boca era apertada, denotando um carácter um tanto cruel. Sobrancelhas
negras e carregadas davam-lhe um ar carrancudo, sombreando-lhe dois
olhos azulados que naquele momento se mostravam sombrios,
pensativos.
Expressões várias lhe transmudavam a fisionomia. Os olhos
estavam cravados na vastidão do deserto. Nada de
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concreto lhe povoava a mente. Dava ideia de que no seu cérebro
se travava um conflito entre uma dúvida e uma incerteza, que finalizaria
por uma decisão muito firme.
Encolhendo os ombros, como a disfarçar uma lembrança
desagradável, repuxou o pesado albornoz e, rodando nos calcanhares,
foi juntar-se aos seus homens, que o aguardavam com ansiedade,
entretendo-se em amistosa palestra.
Dos companheiros, um era alto e imponente como o chefe e o
outro mais baixo e pesado, mas uma inconfundível similaridade de
aspectos e de expressão mostrava que ambos eram irmãos.
Os dois desviaram-se à chegada do chefe e o mais baixo ofereceu-
lhe tâmaras de uma sacola presa nos arreios. O jovem recusou a oferta.
Atirou-se à areia e, encostando os ombros numa pedra, tirou do bolso
uma cigarreira de oiro e acendeu um cigarro.
Quase meia hora se demorou a fumar, guardando um silêncio que
os demais julgaram prudente não quebrar. Mas os olhos dos outros
denunciavam a inquietação íntima que lhes sombreava a mente,
exprimindo o constrangimento que assaltava cada um deles a seu modo
- o mais velho, imóvel, carrancudo como o chefe, enquanto o outro
denotava desassossego, brincando com pedrinhas que havia guardado e
dirigindo para as rochas um olhar de interrogação, como se temesse que
lhe interrompessem a quietude.
Por último o jovem levantou-se e fez um sinal a pedir o seu
cavalo. Mas o gesto que lhe acompanhou a ordem paralisou-se-lhe
quando viu os homens voltarem, trazendo também os próprios animais.
Fez um gesto de desaprovação.
- Esses animais não eram necessários. Vou só - disse com acento
peremptório, galgando os estribos que o mais velho segurava.
- Esperar-me-á aqui, Ramadan, está entendido! Você também,
S'rir - ordenou ao mais novo.
A isso seguiu-se uma tempestade de protestos, um dueto de
explosões de desagrado que exprimiam franca revolta contra a ordem
dada. Nada, porém, demoveu o chefe da decisão
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anunciada. Montado e sofreando com dificuldade o animal
impaciente, parou perto dos camaradas excitados, rebeldes e,
visivelmente incomodado, perdeu a paciência.
- Calem-se! - gritou furibundo. - Quem aqui dá ordens sou eu ou
são vocês? Ouviram bem ou preciso repetir: «Vou sozinho! Vou
sozinho!»
Ramadan levantou a mão do estribo que ainda segurava.
- Iremos também - obtemperou.
- E por que motivo?
Os olhos do homem nadavam-lhe nas órbitas, mas não se deu por
achado.
- Ameaça-o um perigo - resmungou com relutância, como se as
palavras lhe escapassem da língua.
Durante segundos, os olhos do chefe relampejaram. Mas, como o
vendaval que passa, a ira transmudou-se-lhe num sorriso quase infantil.
- Perigo, meu tímido rapaz, onde? De que perigo queres guardar-
me, Ramadan?
- Velo pela sua segurança e não pela minha, senhor - respondeu
Ramadan com calor.
- Minha segurança ou sua é tudo tolice. Bem, Ramadan, basta!
Vou sozinho. Espere que eu volte.
- E se não voltar?
O chefe esporeou o cavalo, fazendo-o erguer-se
perpendicularmente.
- Se não voltar - gritou zombeteiro - procure-me no céu ou no
inferno, pois que num ou noutro lugar você entrará à minha procura.
Com um adeus com a mão partiu, no meio duma nuvem de pó e
areia.
Os dois irmãos contemplaram-no até que uma saliência das rochas
o furtou às suas vistas. Entreolharam-se e, enquanto o mais velho
soltava pragas e maldições, o mais moço sorria enigmaticamente.
- Se algum mal lhe suceder, que será dele? - interrogou Ramadan
subitamente.
O sorriso de S'rir transformou-se num trejeito em que não
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havia a mínima alegria e com um gesto muito significativo
respondeu:
- Diz antes: que será de nós?
Daí a pouco, porém, encolheu os ombros com real ou fingida
indiferença, e voltou os olhos na direcção do Sol.
- Três horas, de acordo com o que ele nos disse na última noite -
observou com a maior calma.
- Seja! Três horas o esperaremos, mas, meu irmão, se em três
horas não voltar, teremos de ir procurá-lo no céu ou no inferno.
Entretanto, vou dormir.
Com um leve sorriso, puxou as dobras do albornoz, com que
cobriu a cabeça, e deitou-se na areia, deixando o seu menos filosófico
irmão às voltas com um sentimento de responsabilidade que, pouco
pesado durante alguns anos, ultimamente se tornara ameaçador para a
paz do seu espírito.
Além, nas dobras das rochas que o ocultavam dos seus aflitos
companheiros, o ousado cavaleiro corria no grande corcel negro sem
que a menor inquietação lhe anuviasse a fisionomia. Esquecido da
insistência dos seus homens, na inconsciência da sua rígida têmpera, só
se lembrava da sua mocidade, da sua força e dos prazeres que o
esperavam, e assim demandava, rédeas soltas, a segunda base dos
alcantis, que, como a precedente, se projectava adiante por uma ou
duas milhas de areia.
Nos dois braços de rocha havia um anfiteatro natural, que se
assemelhava a uma grande ferradura: dois dos lados apertavam-se na
curva dos montes e o terceiro dava para um deserto aberto.
Avermelhada pelo sol da manhã, a massa denteada da rocha erguia-se
altaneira, de pé, num relevo apertado que desafiava o azul-claro do céu
sem nuvens, projectando sombra para a areia que, na base, o vento
agitava.
O local era um cenário de grandeza e amenidade quase sem
paralelo, mas o pensativo cavaleiro não tinha olhos para extasiar-se na
selvática majestade do espectáculo. Lançando olhares à direita e à
esquerda, montado com o habitual aprumo dos árabes, não lhe sobrava
outra preocupação que não fosse o objectivo da jornada.
Desfrutando irreprimida liberdade, que era a sua máxima
aspiração, a fim de desembaraçar-se de sentimentos que o
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acompanhavam desde a infância, o rosto iluminou-se-lhe e os
olhos pensativos brilhavam com ardor.
Desde a partida, só agora cantava com voz fresca de barítono
aquela melancólica canção de amor, muito conhecida de todo o coração
apaixonado habitante dos estados bárbaros:
- «Chora, chora, coração quebrantado» - trauteava
plangentemente, à maneira dos seus patrícios, candidamente esquecido
de que tais palavras dificilmente se lhe poderiam aplicar, a ele que,
longe de ser um desanimado, requeria da sua montada o máximo que
lhe poderiam dar as patas para que o levassem aos pés de um ente
amado.
Pensou que era necessário ser prudente e a doce canção morreu-
lhe nos lábios ao avistar a raiz do monte, que assinalava o fim da
viagem.
Havia no labirinto daqueles outeiros alguém que o esperava - a
mulher esbelta, virginal, dos seus sonhos. Mas estava ali em terra
estranha e nada mais era que um forasteiro e cumpria-lhe por isso
proceder com a maior prudência. Quem sabia que ouvidos, que não os
dela, estariam atentos à sua chegada?
Dirigindo o cavalo para um caminho que circundava a base do
outeiro, trotou vagarosamente até chegar à face pétrea que formava o
elo meridional da elevação.
Aparentemente inacessível, havia ali um estreito desfiladeiro,
porventura cortado por antigo ribeirão que havia muito secara.
Rebentando obliquamente, disfarçada por pedregulhos caídos, era
difícil encontrar a boca da passagem, mas ele estava ali e não lhe eram
possíveis hesitações.
De resto, o grande cavalo negro também tinha boa memória, pois
que, havendo-se o cavaleiro apeado para tentar com ele atravessar a
sombria passagem, recuou a tremer, como assaltado de grande terror.
Foi somente após longa e teimosa luta que o animal consentiu em
avançar, os olhos desmesuradamente abertos espreitando lado a lado a
cetinosa capa molhada de suor, e estremecendo nervosamente
enquanto o amo o dirigia e impelia com paciência que os árabes
raramente revelam.
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Embrenhando-se pelos penhascos, tropeçando seguidamente
naquele terreno pedregoso, prosseguiram através dos intrincados
ziguezagues do leito do rio, até que uma curva abrupta lhes revelou um
vale encoberto que se assemelhava a uma algibeira no coração dos
montes. Aí os muros que rodeavam o vale eram menos espessos e no
rigor do dia o sol penetraria para aquecer a raquítica vegetação que,
aderindo teimosamente à vida, a espaços crescia entre os rochedos.
Liberto por fim do terrificante desfiladeiro, os nervos do animal
acalmaram-se e ele amansou, enquanto o dono, acariciando-o com as
mãos e a voz, o amarrou a uma tamareira e aí o deixou com uma carícia
de despedida.
Atravessando a pequena depressão a passo largo, o homem partiu
em demanda da direcção oposta do valado. Era caminho mau, onde as
pedras escorregadias e o chão frequentemente lhe fugiam sob os pés.
Mas, como um gato em perfeitas condições físicas, ele subia
firmemente, amparado pelo largo albornoz e pelas rijas botas.
Parou somente uma vez durante a caminhada, para melhor
acomodar o pesado revólver oculto no cinto que lhe envolvia o
abdómen. O contacto da arma fez-lhe lembrar os homens que o
esperavam onde os deixara. Sorriu à lembrança da relutância com que o
haviam deixado partir sozinho, da inquietação que mostraram quando,
no dia anterior, lhes falara dos seus planos.
Sacudiu a cabeça com impaciência. Não lhes cabia discutir os seus
passos e fazer oposição aos seus desejos, pensou desdenhosamente,
entreabrindo os lábios com ironia. Nunca antes o haviam contrariado.
Em todas as estúrdias infantis e em todas as peripécias da sua precoce
virilidade, sempre lhe tinham sido auxiliares voluntários, verdadeiros
protectores. Como se explicar a nova atitude que assumiam? O tempo,
porém, não lhe sobrava agora para cuidar desse assunto, que relegava
para quando novamente se lhes juntasse. Naquele momento,
contentava-se somente em pensar nas coisas agradáveis que lhe
povoavam a mente.
Seguindo os traços apagados de um velho trilho que serpenteava
o escarpado declive, atingiu finalmente o cume
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do outeiro, onde havia um pequeno planalto, e de pé, durante
momentos, contemplou o local.
À sua esquerda, o terreno sumia-se pontiagudo, desviando-se
para uma estreita garganta de que emergiam espinhaços de rocha.
Voltando-se para a direita, olhava o deserto. Poucos passos o
levariam a uma suave descida que se entranhava por vastos pedregais e
que terminava na garganta que em direcção ao norte dava acesso a
montes como aqueles nos quais penetrara no sul.
Esperava encontrá-la no planalto, mas aquele tabuleiro de terra
apresentava-se-lhe vazio de vida.
Sacudiu de novo a cabeça impacientemente, no ardor da sua
índole por demais ardente. Quão distante ela o imaginaria, para
responder à mensagem ambígua que lhe mandara? Tinha galopado
furiosamente durante a noite e devia passar o dia à procura de uma
mulher que se havia rebaixado em olhar? Com o cenho carregado
hesitou por momentos entre o desejo de seguir para diante e o de
retroceder, vencido pelo orgulho.
Sorriu grotescamente. Castigá-la seria castigar-se a si próprio e,
tendo vindo de tão longe, de maneira alguma poderia pensar em voltar
sem a ver.
Arremessando para trás o albornoz, para dar liberdade aos braços,
procurou vencer a subida do caminho, com a mão no gatilho do revólver
que trazia ao cinto.
Livre do planalto, o trilho tornava-se mais e mais invisível, porque
os pedregais existentes de cada lado pouco permitiam a visão da sua
direcção. Com os sentidos firmemente alerta, ele vadeou rápida e
silenciosamente pelas reentrâncias e prosseguia através do vale, quando
um ruído inesperado o fez deter-se instantaneamente, com os ouvidos
atentos.
Era um som metálico que ecoava nas rochas, à direita.
Voltou-se para a direcção de onde surgia aquele ruído e procurou
segui-la palmilhando os pedregais mansamente, e assim chegou a um
pequeno recesso semicircular, existente entre as paredes do rochedo.
Do lado oposto, no rasgão da face penhascosa, distendia-se-lhe uma
vista aberta do deserto, como se fosse a janela escancarada de um
edifício em ruínas.
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Oculta naquele desvão natural, estava ela sentada - delgado
esgalho de uma rapariga que mal parecia haver saído da infância.
Vestida com um saiote debruado e uma curta jaqueta, com uma
capa a envolver-lhe o busto e uma touca a cobrir-lhe a pequena cabeça,
ela caminhava inconscientemente, prendendo um guesbo nos lábios.
Desatenta a tudo que a cercava, toda a atenção se lhe fixava
numa cesta de que emergiam a cabeça estreita, achatada, e o corpo
sinuoso de uma grande serpente. Coleante, a fazer artifícios com a
cabeça, o réptil respondia, fascinado, ao ritmo dolente de uma terna
melodia que a jovem arrancava de uma pequena flauta árabe.
Por instantes, o rapaz contemplou as evoluções do réptil e o busto
flexível da juvenil tocadora.
Falou então:
- «Salamalik».
A saudação fora dita em voz grave, como tartamudeada.
Com um irado assobio, a cobra subiu rapidamente à borda da
cesta e sumiu-se entre os rochedos, enquanto a rapariga saltava para
perto do recém-chegado e o encarava com grandes olhos espantados.
Na atitude de um animal selvagem em fuga, ela parecia meio
alegre e meio aborrecida com a chegada dele e, como se lhe
aproximasse, voltou-se-lhe com um pequeno gesto petulante e
murmurou em tom de reprovação:
- Demorou-se muito.
- Mas vim - respondeu ele docemente.
Decididamente, aquela saudação não era a que ele esperava, e
chocara-lhe o temperamento apaixonado.
- Porque veio esperar-me aqui, quando lhe mandei dizer que me
esperasse no planalto, de madrugada? - perguntou abruptamente.
Com feminina intuição ela percebeu que não lhe seria conveniente
replicar dizendo a verdade, que a madrugada a encontrara tiritante de
frio e medo no cume do monte, que a superstição popular assinalava
como o habitáculo de duendes, e o terror a havia impelido para os
rochedos, onde encontrara agasalho amigo.
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Sacudiu a cabeça e afastou-se um pouco dele.
- Aqui é mais seguro - murmurou com voz fugitiva, mas logo os
olhos o procuraram apaixonadamente.
Dirigindo-lhe um olhar carrancudo, como se sentisse um protesto
da arrogância natural dos temperamentos juvenis, ele devorou-lhe o
olhar em que havia um misto de respeito e de súplica, o que lhe fez
sentir uma emoção que suavizava o golpe do sofrimento que lhe
sobreviera.
As suas mãos delgadas, trigueiras, agarravam-lhe os ombros. Era
a primeira vez que a tocava e o coração pulsou mais quando os dedos
apertaram aqueles ombros femininos.
- Jasmim! Jasmim! - exclamou, colhendo-a nos braços.
Novo como era, sempre a tratara com amor e era assim que
queria tratá-la naquela manhã, mas os factos haviam-lhe transtornado
esse desejo. Já agora, o íntimo contacto com o seu corpo esplêndido de
mocidade despertava nele o conhecimento de alguma coisa mais
profunda e estranha, diferente do que havia sentido até então.
Devorava-a com o olhar abrasado, e apertava-a mais e mais
contra o peito, mas o plano que havia arquitectado durante toda a noite
parecia-lhe agora de todo impossível. Ele próprio não se compreendia e
não tentava sequer dominar o impulso que o constrangia. Só uma coisa
havia para ele bem real: era o sentimento de um desgosto íntimo que
lhe sobreviera. E lutando consigo mesmo enquanto a sentia estremecer
contra ele, o flexível corpinho a ele unido naquele abraço, podia
perceber o terror que lhe perturbava os grandes e límpidos olhos.
Com um tremendo esforço, conseguiu repelir o desejo que quase o
dominava.
- Porque receia tanto, minha tímida pequena? - murmurou. - O
meu amor é tão mau que a perturbe assim? É tão horrível o meu beijo?
E, inclinando a cabeça rapidamente, pousou em cheio os seus nos
lábios rubros da jovem.
Era essa uma forma de carícia a que os árabes não estão
habituados e ele não estava preparado para o grito agudo que ela
soltou, nem para a histérica torrente de lágrimas que manava dos seus
olhos.
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- Alma da minha alma, magoei-a? - perguntou aflito.
Durante algum tempo, ela não pôde responder. Cedendo aos seus
abraços, por fim ela apertou-o também e cobriu o rosto com o albornoz,
chorando como se o coração lhe estivesse a ponto de rebentar. Vencido
por alguma apreensão que lhe fosse superior ao entendimento, ele
esperou em silêncio a explicação de tudo aquilo. Finalmente, ela
levantou a cabeça e encarou-o com timidez.
- Perdoe-me, senhor - ciciou num longo suspiro. - Não me
magoou. É que antigamente, quando eu era ainda criança e feliz, era
assim que me beijavam.
Ele encarou-a com um inquieto franzir de sobrolhos.
- Que te beijavam, quem? - perguntou com o acento da sua
anterior arrogância.
A jovem sacudiu a cabeça como se não quisesse ou não pudesse
esclarecer-lhe esse ponto.
- Esqueci-me - respondeu evasivamente, e desviou dele os olhos.
Ele desvaneceu a sua traiçoeira curiosidade, disposto a não
continuar a tratar de um assunto que positivamente nada tinha que ver
com a familiaridade que entre eles nascera naquele momento. Não
havia motivo para ciúmes em simples reminiscências da infância.
De mãos dadas, o juvenil par subiu a uma saliência da rocha,
onde ambos se sentaram, com o olhar perdido no deserto.
Longo tempo se conservou ele em silêncio, a face descansada na
palma da mão, os cotovelos apoiados aos joelhos, estudando-a como se
a estivesse a ver pela primeira vez.
A jovem suportava aquele exame com a sua característica
resignação, sentada calmamente ao lado dele, os macios dedos
fechados em redor dos joelhos apertados um ao outro, esperando
serenamente que o companheiro sentisse prazer em dirigir-lhe a
palavra.
Era uma linda face pequenina a que ele contemplava,
estranhamente simples e perfeita. Opulentos cabelos negros como a
noite sombreavam feições muito regulares e bem talhadas: nariz
aquilino, a boca pequenina, de traços assaz delicados, e olhos negros
discretamente expressivos.
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O seu rosto ainda parecia tomado de espanto, até que moveu
mansamente os olhos, as maçãs do rosto enrubescidas.
As suas mãos trigueiras procuravam subtilmente o jovem.
- Agrado-lhe? - aventurou ela com ar desconfiado.
Com um sorriso meio irónico e meio terno, ele atraiu-lhe a cabeça
e encostou-a ao peito.
.- Você afinal não é má - disse ele.
Mas a luz que brilhava nos olhos negros satisfê-la e durante
alguns momentos ela permaneceu quieta, brincando com as borlas
douradas do albornoz, com um sorriso lânguido ao ouvir o relato
fortemente fantasioso dos perigos da jornada nocturna, com que ele
agora a distraía. Mas a sua atenção era apenas aparente, pois que os
pensamentos lhe esvoaçavam na mente, tanto que interrompeu a
narrativa, encarando-o com firmeza.
- Mas, finalmente, quem é o senhor? Nunca mo disse. Ignoro-lhe
até o nome.
Os lábios do jovem entreabriram-se num meio sorriso.
- Sou aquele que a ama, ó filha da curiosidade!
Estimulada pela evasiva da resposta, ela persistiu:
- Diga-me o seu nome!
O sorriso fugiu dos lábios do jovem e o seu rosto tornou-se um
pouco sério.
- Para quê? Que lhe adianta saber o meu nome? - resmungou. - É
coisa insignificante, creia-o, para passar de lábio em lábio, para ser
murmurado pelos cantos das casas e chegar ao mercado, onde todos
começarão a dizer que isto e aquilo se passou de tal modo!
- Que mercado existe aqui? - replicou ela, apontando para o
deserto - e eu, note bem, eu não ando a cochichar pelos corredores das
casas - acrescentou, com altiva dignidade. - É por mim, somente por
mim, que desejo saber o seu nome.
E como ele ainda hesitava, ela lançou-lhe os braços ao pescoço,
baixando-lhe a cabeça, com os olhos brilhantes, fazendo-lhe o ardoroso
apelo que lhe bailava nos lábios vermelhos.
- Diga-me - pediu ternamente.
Ele não respondeu logo. Os seus negros cílios apertavam-se-lhe
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carrancudos, a boca obstinadamente fechada, encarando-a
profundamente, como se estivesse a sondar a razão oculta de tamanha
insistência. Então, com um leve sorriso desviou-a um pouco, acendeu
um cigarro e ainda a segui-la com os olhos através da fumaça, disse
finalmente:
- Chamo-me Ahmed.
Um olhar de medo sombreou o rosto da rapariga.
- Ahmed! - repetiu vagarosamente. - Ouvi falar num grande
senhor que existe além das montanhas do Sul - um príncipe da tribo de
ben Hassan - que tem esse nome. Acaso será o senhor esse príncipe?
Surpreso, ele lançou-lhe um olhar perscrutador que disfarçava por
detrás de indolentes olhos semicerrados e depois sorriu
displicentemente.
- Quem sabe? - respondeu, encolhendo os ombros. Durante algum
tempo fumou em silêncio; depois inquiriu:
- Porque o pergunta? Que ouviu dizer de Ahmed ben Hassan?
Estas palavras disse-as ele com indiferença aparente, sacudindo a
cinza do cigarro numa pedrinha que sobressaía da rocha.
Um leve tremor perpassou pelo corpo da rapariga, que se arrastou
para um pouco mais longe, espreitando nervosamente para um lado e
outro, como se a assaltasse o temor de ser ouvida por qualquer
testemunha invisível.
- Sempre ouvi dizer que Ahmed é um demónio - aventurou ela
com receio, os grandes olhos presos de inquietação. - Não é um
verdadeiro árabe, nascido de mulher, mas um vampiro que todos
temem porque a sua força e poder estão acima de todos os mortais. Ele
governa as suas tribos com feitiços e encantamentos, galopa mais que a
tempestade e os seus olhos são rajadas semelhantes aos raios que
riscam os céus em dias de tormenta. E, além disso, é imortal, pois já
houve muita gente que tentou matá-lo e não pôde. É isto o que dele
tenho ouvido e mais não posso dizer - declarou, horrorizada, a tremer
de terror supersticioso, procurando ler no rosto impenetrável do seu
interlocutor. - O senhor está bem «certo» de não ter com ele qualquer
parentesco?
Sorriu mais uma vez e segurou-a firmemente nos braços.
21
- E se assim fosse, não mais me amaria?
Durante segundos ela hesitou, estremecendo. Depois um suspiro
profundo lhe explodiu dos lábios.
- Não! Não! - exclamou, agarrando-o. - Homem ou demónio, amo-
o como nunca amei.
A pequena capa que a envolvia caiu ao lado e o cheiro dos seus
cabelos negros era como um tóxico subtil. Ele curvou-se para ela,
triunfante e jubilosa no esplendor da sua beleza.
- Jasmim, meu amor, minha flor da alegria, jamais vi
uma rapariga tão linda!
Estas palavras mergulharam no silêncio e, atraídos para um local
um pouco mais adiante, sentaram-se, a contemplar os olhos um ao
outro, perdidos no abismo da sua felicidade. Mas através da sua rápida
e tempestuosa explosão de amor, ele refreava ainda os lábios, não
parecendo ter pressa de fazer revelações e elucidar o mistério que
envolvia a sua personalidade.
E como se se contentasse somente com o conhecimento do seu
amor, ela não fez mais nenhuma tentativa para penetrar-lhe o segredo.
Tão silenciosos estavam que os próprios passarinhos lhes
ignoravam a presença e um brilhante lagarto verde desceu da rocha e
aproximou-se deles com a máxima naturalidade.
Os causticantes raios do sol não lhes davam noção alguma da
passagem do tempo e eles não davam acordo dos longos momentos que
decorriam pesadamente. Ahmed estava esquecido dos seus homens,
dos perigos que abundavam naqueles montes, esquecido de tudo que
não fosse aquela rapariga sentada ao pé de si, com as mãos delgadas
pousadas no colo.
Absorto, os seus ouvidos nada mais ouviam que a música das
suas doces palavras, e os seus olhos ardentes nada mais viam que o
encanto daquele talhe delicado.
Foi ela que, olhando para o que estava por detrás dele, viu alguma
coisa. Foi ela que soltou o grito agudo que o fez tropeçar aos seus pés
quando uma bala foi disparada contra a rocha, seguida logo de uma
segunda que lhe passou perto
22
da cabeça. Tirando o revólver da cinta, ele empurrou a jovem para
trás de si e procurou ver os assaltantes.
Mas, ao voltar-se, uma chama de fogo crepitava pela sua testa e
ele cambaleou. A sua arma estava descarregada.
Viu, em rápido relance, três vultos altos, vestidos de branco, e
sentiu que o sangue lhe escorria do rosto. Cambaleou, dando um passo
à frente, e lançou-se por um buraco da rocha. Era um recôncavo muito
aberto, onde o ombro direito bateu na ponta de uma pedra, quebrada
ou deslocada, que ele procurou remover com os dentes, enquanto com a
mão direita procurava a arma, que caíra para trás. Atordoado pelo
choque e sofrendo forte dor, levantou-se sobre os joelhos, quando uma
nova pancada o atingiu na cabeça e o fez debater-se. Como algo que se
parecia com o bramido do mar nos ouvidos, pareceu-lhe que caía
vertiginosamente no negror de um abismo.
Com abundantes náuseas, lutou para voltar à vida. Teve a
princípio consciência somente de uma dor fortíssima na cabeça. Uma
sede febril atormentava-o.
Um mero sentimento de perigo fê-lo tentar mover-se, mas o
primeiro esforço prostrou-o, com vertigens na cabeça, o corpo a suar
horrivelmente.
Por momentos ficou quieto, com os olhos cerrados, esforçando-se
para recobrar o domínio de si mesmo e vencer uma como nuvem que
parecia toldar-lhe o cérebro. Não tinha lembrança do que se passara e
até a sua vida lhe parecia um mistério de que somente uma coisa
emergia clara e distinta. Lembrava-se do seu nome. Era Ahmed ben
Hassan e alguém lhe havia dito que seu pai era um demónio.
Mas isso era uma estúpida crendice. Se fosse verdade, como
poderia sua mãezinha, que conhecia bem e sabia ser de facto um anjo,
ter casado com tal demónio? E, ainda, quem era essa «mãezinha» e
quem era verdadeiramente Ahmed bem Hassan?
Pensar era sofrer, mas mesmo sofrendo ele via-se às voltas com
problemas angustiosos que a cabeça pesada recusava resolver, até que
percebeu que lhe era de todo impossível pensar e uma irritação
desesperada se apoderou dele e o deixou exausto.
23
Sobreveio-lhe o medo na forma aguda de verdadeiro terror, medo
de si mesmo, medo da treva mental que o envolvia. Com um grito
estrangulado recaiu na inconsciência.
Uma ou duas horas mais tarde, despertou na plena posse dos
sentidos.
Sentindo dores por todo o corpo e devorado de sede, o seu
primeiro desejo foi beber água. Mas o local em que se encontrava era
completamente seco. Mesmo, porém, que ali existisse água,
compreendia que lhe seria impossível alcançá-la porque tinha feridos os
pés, as mãos e os ombros, o que o tornava de todo inerme, incapaz de
qualquer movimento.
O seu rosto estava duro e embebido do sangue que gotejava da
ferida que fizera na testa, e o rapaz sentia um gosto salgado quando
alguma gota lhe atingia os lábios secos, fazendo-o reviver os
acontecimentos que se haviam desenrolado pela manhã.
Soltou um gemido e durante algum tempo debateu-se
desesperadamente, sentindo a morte no coração. Logo, porém,
compreendeu que qualquer esforço que fizesse seria malbaratar
inutilmente o que lhe restava de energia e tratou de aquietar-se, o rosto
ainda convulsionado. Não era em si que pensava. Poderia aguardar a
sua sorte com a estóica indiferença que nele era, em parte, uma
herança e em parte o resultado de um longo treino nas experiências da
vida. Viver ou morrer era coisa que naquele instante pouco lhe
importava. Era a jovem que lhe ocupava a mente. Era por ela que
estava a sofrer muito. A que perigo a havia induzido a sua loucura? Em
que situação desesperada estava ela naquele momento, enquanto ele ali
estava amarrado como um animal impotente para a socorrer!
- Jasmim! Jasmim! - anjo da minha alegria!
Outra mão, mais rude e grosseira que a dele, seria a eleita para
cultivar a tenra flor que ele pensara acarinhar no jardim do seu amor!
Louco, três vezes maldito, tinha sido!
Fora por sua causa que ela havia afrontado os horrores daqueles
mal-afamados montes. Fora a sua tola arrogância que o fizera partir
sozinho para a encontrar, desprezando a
24
escolta cuja vigilância teria evitado a catástrofe que havia
sobrevindo tão súbita e tragicamente.
Em si confiara, mas ei-lo ali impotente, havendo falhado
miseravelmente, quer como homem quer como amante. Ela olhara para
ele, a fim de que a protegesse, e na cega confiança do seu egoísmo ele
havia descurado até os rudimentos daquela prudência que aprendera
desde a infância. Confiado em si, tinha-se ocupado somente do seu
amor, e deixara-se apanhar, como um rato imprudente que cai numa
ratoeira.
Remorso e vergonha apoderavam-se dele e um temor mortal
fazia-o agitar-se furiosamente até que o sangue borbotou da ferida da
cabeça e ele caiu da posição em que estivera, meio sentado, e ficou a
contorcer-se em atroz agonia mental, como se o seu espírito torturado
conjurasse mil quadros, mil possibilidades de um arremesso ao reino da
loucura,
- Jasmim! - balbuciava com lábios trémulos. - Meu doce amor!
Jasmim!
Até pouco antes, ela fora para ele mera distracção passageira,
uma diversão que buscava até que perdesse o interesse, e eis que não
podia agora compreender a vida sem ela!
A filha de um mouro errante, um encantador de serpentes, fora
pelo destino colocada no seu caminho, certa vez que viajava pelo norte
longínquo do seu território. Acampando uma noite nas imediações de
uma estreita vilota, fora matar uma hora de tédio num ridículo café
onde lhe ministraram horrenda beberagem com o nome da esplêndida
rubiácea que rotulava a casa, enquanto aguardava qualquer
divertimento que, como excepção, lhe parecesse suficientemente
suportável. Mas o espectáculo proporcionado pelo encantador de
serpentes interessou-o mais que de costume. O mouro, um disforme e
taciturno gigante possuidor de um rosto brutalmente sinistro, havia-lhe
inspirado nada mais do que aborrecimento. A filha que o acompanhava,
essa, sim, era um novo tipo que lhe surgia da fantasia errante.
Embora não se ocultasse com um véu e pertencesse a uma classe
que inspirava pouco respeito, ela nada tinha do estouvamento da sua
espécie. Ao contrário, revestia-a uma dignidade natural, discreta, que
constituía um verdadeiro contraste com a profissão.
25
Indiferente aos olhares curiosos que lhe lançavam daqui e dali,
desempenhava o seu papel com estranho ar de despreocupação, os
olhos a brincar-lhe nas órbitas como se os pensamentos lhe voassem ao
longe. E não se misturou aos frequentadores do café: retraiu-se para
um canto junto aos músicos, onde se sentou, brincando com a grande
serpente negra que ainda se conservava enroscada nos seus ombros.
Contemplando-a, o interesse ia crescendo nele.
Na baixa atmosfera de um café de última classe ela parecera-lhe
uma coisa à parte e maravilhara-o com aquele ar elegante, de delicada
frescura, e com a pureza das suas feições infantis.
Intrigado, tratou de procurá-la no dia seguinte e ficou sabendo
que ela deixara a aldeia pela madrugada, em companhia do pai.
O fracasso inflamara um interesse que de outro modo talvez
morresse com a mesma facilidade com que nascera. Com o cérebro
vazio, sem nada mais que os caprichos de uma vaga fantasia, seguira-a
pelo norte, conseguindo encontrá-la em furtivas entrevistas, a última
das quais fora a daquela manhã.
Quem os surpreendera, desgarrara a jovem e o aprisionara, não
havia meio de ele o descobrir, nem mesmo em sonho. Este trecho da
região era infestado por bandidos e ladrões e certamente algum divisara
nele uma presa rica que lhe propiciaria gordo resgate.
A ignomínia da sua posição, devida exclusivamente a imprudência,
acabrunhava-o. Mas este penoso pensamento desvanecia-se e anulava-
se ante o facto esmagador de que permanecia chumbado à impotência
para socorrer aquela cuja vida lhe era muito mais preciosa do que a
própria.
Esta lembrança atormentava-o. Às vezes, mergulhava em meia
consciência quando lhe era possível esquecer a miséria mental que o
acabrunhava. Mas a vida moça estuava nele e os momentos de repouso
eram muito fugazes. Deveria levantar-se e andar, embora como um
animal enjaulado, os olhos penetrantes a errar incessantemente pelo
quarto para onde fora conduzido, procurando ansiosamente alguma
coisa que o ajudasse a sair dali.
26
Mas aquele pequeno e sujo aposento estava totalmente
desprovido de quaisquer utensílios, nem sequer um prego lhe perfurava
as paredes limosas. Sujo pela acção de anos incontáveis, tinha a
aparência de estar de há muito desabitado.
Pela luz que penetrava por estreita fresta existente na parede um
pouco acima da sua cabeça, de onde ele jazia podia ver a porta baixa
que dava acesso ao aposento. Construída de madeira maciça encimada
de ferro, a sua solidez emprestava-lhe fascinação a que ele não pôde
resistir. Atraía-lhe a atenção de maneira que olhava aquilo tão
fixamente que os olhos lhe arderam e ele se achou contando
mecanicamente as cabeças de prego que guarneciam a sua superfície.
Estaria eternamente fechada aquela porta?
O escoar lento das horas aumentava-lhe os desvarios e foi num
desses momentos que finalmente chegou a suspirada interrupção
daquela solidão. Não ouvira o abrir da porta.
Uma pancada brutal num ombro dorido despertou-lhe a
consciência. Rangendo os dentes para abafar o gemido que quase
deixara escapar, enfrentou com penetrante desconfiança os seus
raptores. À vista deles o coração bateu-lhe violentamente. Dos três
homens que ali estavam ao seu lado, reconheceu um, e esse era
justamente o que menos poderia esperar encontrar. O mouro sorria
perversamente, com aqueles olhos que eram porventura mais frios e
cruéis do que os mais repulsivos répteis.
Foram, porém, os dois estrangeiros que primeiro falaram,
dirigindo-lhe perguntas que, confuso e irado como se achava, mal
compreendia. Embora vestidos como árabes e falando essa língua
correntemente, a dureza gutural da sua voz assim como a sua aparência
geral tornavam-lhes duvidosa a nacionalidade. Árabes bem vestidos e
bem penteados não são raros, mas estes eram diferentes de qualquer
que ele houvesse visto. De modos arrogantes, de falar duro, imperioso,
parecia que pretendiam arrancar dele alguma confissão.
Não estava costumado a ser tratado com aspereza como se fosse
qualquer irracional e o seu temperamento ardente despertou ao ouvir as
perguntas que lhe faziam, sobre o seu nome, a sua tribo e sobre a
natureza dos assuntos de que tratava naquele recanto do país, sobre a
qualidade dos
27
homens que com ele viajavam, não contando as palavras com que
o acumulavam de acusações que ele não compreendia e nas quais a
palavra «espião» surgia com irritante frequência.
Estivesse ali somente o mouro e compreenderia de qualquer modo
o que dele queriam. Dos três, porém, era o mouro o que menos
interessado parecia. Os dois estrangeiros é que manifestavam maior
interesse.
Não compreendendo porque o privavam da sua liberdade, jurava a
si mesmo que, se vivesse, haveriam de pagar-lhe caro a ousadia.
Cheio de ira, mas votando-se ao silêncio, estudava-os com muda
passividade.
Ambos eram robustos, com aspecto de atletas, um orçando por
meia idade e o outro por uns trinta anos.
Quanto mais os fitava, mais perturbado ficava. A despeito da sua
atitude senhorial, era evidente que qualquer inquietação os
amedrontava. E embora agissem conjuntamente, era palpável que não
estavam inteiramente de acordo um com o outro, porque com muita
frequência se interrogavam e discutiam demasiadamente numa
linguagem desconhecida para o seu involuntário ouvinte.
Foi numa dessas discussões que o mouro interveio pela primeira
vez.
Com uma imprecação de impaciência, arrancou uma faca da cinta
e chegou-se rapidamente ao prisioneiro.
- Mato-o e pronto! - grunhiu, com a faca levantada para
descarregar sobre a vítima. Os outros, porém, empurraram-no para
trás.
- Não o matarás enquanto ele não falar - gritou o mais velho, com
um gesto autoritário.
- Não to disse esta manhã, ó cabeça de vento? Até sabermos o
muito que ele sabe, viverá.
Começou uma nova e interminável discussão, mas o ferido nada
compreendia. Havendo-se-lhe clareado o entendimento por momentos,
este se enfraquecera devido ao esforço que fazia, de maneira que de
novo lhe fugira o sentimento da realidade. Tudo aquilo lhe parecia
hediondo pesadelo. As perguntas eram feitas agora com aspereza
sinistra e por último nova pancada brutal o despertou.
28
- Nada sei, viajo somente por prazer - balbuciou, obedecendo ao
obstinado orgulho que o fazia não declinar a sua identidade. Não era
para o filho de Ahmed ben Hassan admitir que se rebaixasse o nome
poderoso do pai para obrigá-lo a declarações, que ele retinha a todo o
custo.
Por misericórdia de Alá, só ele deveria estar preso, porque fora
um mouro que o capturara, e portanto Jasmim deveria estar salva. Com
visível alívio, diminuiu o domínio que mantinha sobre si e, no meio das
fantasias que lhe povoavam a mente, a voz dura de um dos estrangeiros
despertou-lhe os sentidos.
- Tragam a rapariga. Ela deve ter mais alguma coisa que dizer.
Ele ficou rígido, com ar de horror que traía uma suspeita terrível
que lhe perturbava a mente. Vira o mouro sacudir a cabeça e ouvira a
recusa que havia resmoneado.
- Não! Ela cumpriu o seu papel: disse tudo o que sabia. A sua
boca agora fechar-se-á.
E então, como se uma verdade amarga lhe requeimasse o ser, não
pôde evitar um grito que lhe explodiu dos lábios:
- Jasmim! Jasmim!
- Eis aí Jasmim, Jasmim - ironizou o mouro. - Pensavas que ela te
amava, louco que não soubeste aproveitar aquilo que era teu! Viste a
última de Jasmim: ela fez o que devia e mostrou-te que não era tua, ó
cão do deserto.
A sua voz parou subitamente, convertendo-se num murmúrio,
enquanto os dedos magros lhe tremiam e pairavam, como famintos,
sobre o rosto agoniado do cativo.
- Queres viver? Queres de novo apertá-la nos braços? Fala, então,
porque, caso contrário, farei de ti opróbrio e objecto de escárnio que
levarão a fugir de ti as próprias bestas do mato.
Tais palavras foram ditas com acento pausado, traindo-lhe o rosto
o gozo infernal que lhe inundava o ser.
Vagarosa e persistentemente pôs-se a delinear os métodos
diabólicos com que pretendia extorquir a Informação desejada.
29
Ouvindo-o, pela primeira vez na vida o filho do sheik conheceu o
medo, um medo entorpecedor que lhe gelava o sangue nas veias.
Compreendera que de qualquer forma havia levado o pescoço a uma
forca de que não poderia libertar-se; que de qualquer maneira se
achava envolvido numa trama de circunstâncias misteriosas, totalmente
superiores à sua compreensão e que lhe ameaçavam a própria
existência. Havia visto a incredulidade claramente escrita nos rostos dos
três homens, quando procurara convencê-los da ignorância das coisas
que lhe imputavam; tinha ouvido o riso de zombaria que acolhera as
suas palavras e compreendeu que toda a negativa era inútil,
compreendendo, também, que a ameaça de tortura não era uma
palavra vã, mas uma certeza que em breve se concretizaria, a não ser
que um milagre se operasse para salvá-lo. O homem com quem tratava
era um mouro e não um árabe e dos costumes dos mouros conhecia
alguma coisa. Bagas de suor inundavam-lhe a testa enquanto se
dispunha a aguardar os acontecimentos, orando para que a força não o
desamparasse e lhe permitisse defrontar qualquer tormento como filho
digno de seu pai.
Ainda se somente o matassem!... A morte era mil vezes preferível
à tortura e à mutilação, E a vida poderia ser-lhe coisa preciosa, a ele
que naquele dia perdera o amor, a fé e a esperança que lhe enchiam o
coração?
Desviou de si tais pensamentos e congregou todas as forças de
que podia dispor para suportar as provações que agora lhe pareciam
inevitáveis.
Mas um clarão de esperança lhe sobreveio de modo inesperado.
Os dois estrangeiros, que se haviam retirado por momentos para
um canto, aproximaram-se de novo e o mais moço parecia querer impor
um ponto que ao outro repugnava aceitar. Porque, interrompendo a
eloquência do companheiro, com o mesmo gesto breve de autoridade de
que pouco antes se servira, voltou-se para o encantador de serpentes e
bateu-lhe docemente nos ombros.
.- Torna-se tarde, amigo - disse baixinho - e há perigos que, como
sabes, podem sobrevir à noite. Não há já
30
tempo para gozares este longo divertimento. Deixemo-lo pensar
nas coisas que lhe prometeste e pode ser que amanhã se resolva a falar
para salvar a pele.
Um estrepitoso riso de prazer acompanhou estas palavras e
durante um momento os seus olhos pousaram no prisioneiro com um ar
de afectada indiferença. O tom da voz então transmudou-se-lhe:
- Eia, homem! - disse com acento de comando. - Amanhã também
é dia.
Com relutância, o mouro ergueu-se sobre os pés, a face lívida
transtornada por fria maldade, as mãos crispadas como se lhe
repugnasse largar a presa.
- Amanhã pode ser demasiado tarde - replicou com raiva, e
encostou brutalmente o calcanhar no estômago do cativo.
Contorcendo-se de dor, o filho do sheik atingiu o limite do que
podia sofrer.
- Alá te devore! - murmurou, desmaiando.
Quando voltou a si estava sozinho e o pequeno quarto imerso em
trevas.
A solidão e a obscuridade, porém, eram-lhe gratas. Não tinha já
necessidade de manter o aprumo de estóica indiferença que se esforçara
por aparentar momentos antes. Sozinho, poderia vencer a angústia
mental que naquele momento lhe varrera toda a sensação de sofrimento
físico, assim como o mistério que o envolvia e o perigo que ainda o
ameaçava, jasmim, a quem amava, e amava com amor que sabia
impossível ser igualado, Jasmim, que ele poupara em razão desse amor,
Jasmim traíra-o!
A sua alma passou então por uma agonia que lhe parecia maior do
que poderia suportar.
Enfraquecido pela perda de sangue e pela necessidade de comer,
torturado pelo conhecimento da traição da sua amada, ele sentia-se
completamente vencido e, voltando o rosto para a parede, chorou como
uma criança, todo o corpo a tremer-lhe ante as lágrimas que lhe
marejavam os olhos e que ele nem sequer tentava conter... Chegara-lhe
a hora da fraqueza. Exaurido física e mentalmente, mas ainda senhor
31
de si, aquietou-se, perscrutando as trevas com olhos esgazeados,
enquanto sentia que um grande amor aos poucos se convertia num
grande ódio.
Doze horas antes havia ele compreendido o que significa o amor
verdadeiro. E naquele momento recuperava a virilidade, tendo adquirido
uma nova compreensão das coisas, uma nova ternura que a sua
natureza ardente dantes não conhecia.
Mas o amor morrera na brutalidade da traição e com essa morte
desvaneciam-se-lhe a fé e a confiança. Desiludido e amargurado pela
experiência terrível por que passara, a nova ternura que lhe surgira
evaporava-se como se nunca houvesse existido.
Somente nele permanecia a selvajaria primitiva, impondo-se como
se fosse a única coisa que lhe restasse.
O seu rosto jovem endureceu-se e rictos cruéis se lhe espessaram
pela boca, mostrando que unicamente sentimentos de vingança
exerceria - se vivesse. E, por Alá! viveria, sim, para exigir total
pagamento daqueles que o haviam injuriado! Tal qual agora sofria,
teriam eles de sofrer. E ela também! Nem o sexo, nem a lembrança do
amor que lhe dedicara a salvariam. Amor? Zombou de si mesmo em
íntimo sarcasmo. Tinha procedido com amor! Jamais pouparia uma
mulher que assim o condenava à horrível humilhação que agora o
estava acabrunhando.
Louco e tolo tinha sido! Enganara-o uma rapariga que havia feito o
que lhe era próprio, que tinha desempenhado o seu papel com a firmeza
de uma actriz consumada!
Desde a primeira vez, certamente, o havia enganado. Confiante
na atracção dos seus raros encantos, ela arquitectara os seus planos
com incrível astúcia, iludira-o com uma falsa timidez e embrulhara-o
com afectada modéstia, até o enredar subtilmente nas suas tramas
sinistras, e finalmente havia jogado com a castidade de que se jactava,
porque adivinhara o que lhe ia pela mente quando o encontrara naquela
manhã fatal. Não poderia esperar, portanto, que ainda a poupasse. Para
se assegurar da vitória não havia ela vacilado mesmo em correr esse
risco!
32
E a trama de mentiras que os seus lábios infantis engendravam!
Rendida em seus braços, arrancando-lhe beijos, havia ela tramado
uma centena de romances para o manter a seu lado, dando tempo a
que os seus cúmplices chegassem.
Lembrava-se das suas insistentes perguntas a seu respeito,
lembrava-se de uma dezena de incidentes aparentemente
insignificantes, que agora serviam para prova da sua duplicidade. E
durante tudo isso ela se rira dele, zombara do ardor da sua mocidade,
escarnecera dele como de um louco cego!
Ódio e orgulho ferido agitavam-lhe o ser enquanto sorvia, gota a
gota, o cálice da amargura. Amaldiçoando-se a si e a ela, enveredou os
pensamentos por outra via.
A jovem não teria sido somente um instrumento dos infames que
haviam urdido a armadilha em que tão facilmente caíra? Qual seria o
motivo verdadeiro da sua captura? Sabia que penetrara em região mal
afamada, onde a ilegalidade campeava com a desenvoltura permitida
por um governo que não encontrava jeito de impor a sua autoridade,
que, de resto, era ali apenas nominal. Sabia também que há muitos
meses corriam rumores de desacordo entre as tribos ali existentes. Mas
que tinha ele com isso? Jamais servira de mediador nas contendas que
surgiam entre as tribos. Absorvido pelos prazeres e divertimentos,
nunca lhe passava pela cabeça a ideia de administrar o poderoso clã que
seu pai governava com mão de ferro. Como, pois, se encontrava
envolvido em enredo tão misterioso? De todo impossível se lhe
afigurava
resolver esse problema.
E, de resto, o motivo da captura não era tão importante como a
necessidade de salvar-se da situação em que estava.
Mas, ligado e impotente como estava, como poderia fugir?
Amarrado de pés e mãos por cordas sólidas, ali jazia como um cão
incapaz de dar um passo.
Sem se alimentar durante vinte e quatro horas, abrasado de sede,
admirava-se de o não vencer uma inconsciência completa. Já achava
dificuldade em concentrar os seus pensamentos.
33
Incidentes completamente destituídos de importância e
divagações desconexas, fantásticas, povoavam-lhe o cérebro. Por vezes
parecia que não estava só: figuras sombrias acotovelavam-se perto
dele, assobiando para as trevas, uma procissão de duendes que iam e
vinham confusamente. E de vez em quando voltava-se com uma praga
ciciada, um suor frio a percorrer-lhe a espinha, quando de novo lhe
parecia ver a face má do mouro curvar-se perto dele e mais uma vez
ouvia as suas sinistras ameaças, claras como se fossem faladas. Ante a
frequência da visão, amaldiçoava-se como cobarde, e tentava afugentar
as loucas fantasias que lhe enchiam a cabeça. Forçou a mente para
calcular quanto tempo ali estaria.
Faltaria muito para amanhecer?
Um fugitivo clarão da Lua, filtrando-se pela janela, advertiu-o de
que o tempo estava correndo e que, antes de passarem muitas horas,
ele teria de se defrontar com uma realidade que a sua imaginação não
poderia sequer entrever. Rangeu os dentes e repeliu para longe tais
ideias. Por bem ou por mal, estava nas mãos de Alá e a manhã não
havia ainda chegado.
Rendendo-se por último ao cansaço, não mais procurou combater
a sonolência que o vencia, mas ficou quieto, vendo as sombras
desaparecerem do quarto, à intensificação da luz do luar.
Estava quase adormecido quando um som muito brando se fez
ouvir na completa quietude do quarto e o despertou subitamente.
Pôs-se à escuta, a princípio negligentemente e depois com
interesse crescente. As pancadas redobravam, parecendo-lhe de
estranhar que não as tivesse ouvido antes.
O som continuava a chamar-lhe a atenção e, ao aplicar os ouvidos
para percebê-lo, um tremor lhe percorreu o corpo e o coração bateu
sufocado. Aquelas pancadas eram singularmente persistentes e soavam
com monótona regularidade. Quase inconscientemente pôs-se a contar
os segundos que decorriam entre cada pancada.
- «Cinco-sete». «Cinco-sete».
34
Ramadan e S'rir - por Alá! - serviam-se de um código que há
muitos anos arranjara numa febre de excitações para se unir a
rapaziada árabe, nas suas estúrdias nocturnas. Ramadan e S'rir, como
poderia tê-los esquecido?
Nova esperança lhe inundou o ser e os seus olhos cansados
flamejaram enquanto se esforçava por corresponder ao sinal. Mas a sua
língua estava seca e som algum podia ser emitido pelos seus lábios
ressequidos.
Uma espécie de frenesi se apoderou dele à compreensão das
consequências que lhe poderiam advir do silêncio.
Estava convencido de que os seus homens estavam ali. Não
deveria ficar sem correspondência a sua nobre dedicação. Poderiam
afastar-se dali somente por falta da resposta que lhe cumpria dar?
Perder-se-ia essa perspectiva de salvação?
Se lhe fosse possível ao menos fazer qualquer movimento que
pudesse ser percebido do outro lado daquela espessa parede!
Mas, incapaz de falar, incapaz de se mexer, sabia que cada
momento que passava era a probabilidade de salvação que mais e mais
se desvanecia.
A esperança já quase cedia ao desespero, quando de repente uma
sombra ténue levantou o trinco da janela, onde os seus olhos se haviam
fixado. Os segundos pareciam-lhe horas enquanto esperava, sacudindo
a cabeça com apreensão, esforçando-se penosamente para respirar,
quando os rudes ferrolhos da janela cederam, vencidos por duas mãos
possantes.
Um por um foram os ferrolhos removidos calmamente e uma
abertura se foi clareando até permitir a passagem do corpo de um
homem.
Certamente era Ramadan, cuja força era proverbial. Houve o
intervalo de um momento, um desconcertante lapso de tempo que
produziu na mente atribulada do prisioneiro a sensação de mil temores,
quando uma figura, mais delgada e ágil que a de Ramadan, penetrou
pela abertura como um gato que pelo chão desliza sem fazer o menor
ruído.
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No momento que se seguiu, S'rir curvava-se sobre ele com uma
enorme faca na mão.
- No céu ou no inferno, senhor - disse alegremente, e cortou as
cordas que o atavam.
II
Era a hora da sesta.
O grande acampamento móvel dos sheiks estava imerso em
pacífica quietude que dentro em breve seria vencida pela febril
actividade que o agitava mesmo quando os olhos de águia do chefe
estavam ausentes. A disciplina militar que vigorava no acampamento
nunca se afrouxava.
Uma tribo combatente que se elevara à preeminência na região
passara muitos anos na esperança de uma guerra que nunca vinha.
Poderosa de mais para ser molestada pelas tribos adjacentes, os
seus homens eram temidos e detestados em razão da sua força e das
estranhas crenças que por muito tempo os converteram numa raça à
parte. Heréticos, sustentando dogmas que privativamente lhes
pertenciam, desde há muito eram olhados com supersticioso terror, que
lhes dava singular prestígio entre os seus vizinhos. E eles, orgulhosos
daquela curiosa reputação, agarravam-se tenazmente às suas
peculiaridades, dando vida ao mistério que os cercava.
E os acontecimentos desenrolados nos anos mais recentes não
eram de molde a fazer diminuir esse mistério. As circunstâncias fora do
comum que rodearam o nascimento de Ahmed ben Hassan e sua
subsequente sucessão no governo da tribo tinham dado margem a
contos extravagantes e fantásticos que se haviam tornado quase
legendários no país. Durante vinte e cinco anos governara ele o seu
povo despoticamente, mas para os seus súbditos ele era o chefe
enviado do céu e cuja miraculosa vinda lhes garantiria a perpetuidade
de um nome antigo.
Situados no extremo norte do vasto território que os sheiks
consideravam seu, o acampamento estava assentado
36
ao pé de um outeiro rochoso que era o último elo de uma cadeia
de montanhas que constituía o ornamento do horizonte oriental.
Algumas árvores raquíticas e duas ou três palmeiras esguias meio
sepultadas na areia prenunciavam a proximidade de água e pareciam o
produto de uma tentativa de lavoura não há muito abandonada.
Espalhado em pitoresca confusão, um pequeno exército de tendas
defrontava o sul, de sentinela para o deserto aberto em que milhas e
milhas de areia se comprimiam interminavelmente, com a sua superfície
ondulante semeada de arbustos espinhosos e de caniços de drim que
proviam de alimento aos camelos que diariamente ali eram levados a
pastar.
Patrulhado por sentinelas, o acampamento modorrava
confiantemente ao sol do meio-dia e havia ali pouco sinal de vida
humana, posto que daqui e dali emergisse de vez em quando uma
figura a espreguiçar-se, provinda de uma das tendas, para sossegar os
brancos e altivos cães de guarda da Cabila que rosnavam à entrada, e
depois os recém-vindos iam tratar de cumprir qualquer obrigação
algures. Pombos arrulhavam ao sol, e alguns destros e bem alimentados
corcéis espojavam-se alegremente na areia, roçando os focinhos em
tudo que passava, somente evitando os cavalos que ali ficavam erectos,
cabeças erguidas com imponência, açoitando preguiçosamente com a
cauda as moscas que os importunavam e ficando activos somente
quando algum deles relinchava para repelir o avanço de um vizinho mais
ousado.
O ladrar de um cão e o raro zurrar de um jumento eram os únicos
ruídos que quebravam a perfeita quietude local.
A pequena distância do acampamento principal, meio oculta na
folhagem das palmeiras, jazia a enorme tenda dupla dos sheiks.
As portas de pano estavam escancaradas e sob o toldo dormiam
dois compridos e sujos cães caçadores, com a calma garantida por
aduncas unhas.
Ali, também, tudo era silêncio.
Mas a solitária ocupante da tenda não estava a dormir.
Só, entre os bárbaros utensílios que de há muito eram o seu lar,
Diana Glencaryll, que antes fora Diana Mayo,
37
estava sentada a uma pequena escrivaninha, o olhar absorto e
sonhador, uma carta meio escrita esquecida em suas mãos! A passagem
dos anos pouco a afectara.
Esbelta ainda, infantil nas vestes limpas que envergava, parecia
pouco mais velha que a robusta rapariga que tinha partido de Biscra,
alguns anos antes, à cata de aventuras que a tinham levado a
experiências penosas e que haviam tido termo muito diferente do que
esperava, mudando todo o curso
da sua vida.
Os meses terríveis do seu cativeiro pareciam-lhe agora apenas um
sonho fantástico; a angústia da sua alma e os sofrimentos do seu corpo
nada mais eram que uma prova - da qual passara para um gozo
indizível.
Feliz como poucos podem esperar sê-lo, esquecera já o que é uma
tristeza e diariamente dava graças a Deus por havê-la impelido para o
deserto.
Amando a vida nómada que levava, ligada a um esposo que a
adorava, contente no isolamento que certamente teria enlouquecido
muitas outras mulheres, os seus dias eram dedicados às tarefas que a si
própria impusera.
Nunca tinha tempo ou inclinação para sentir fadiga.
Isso até aqui.
Agora, porém, a sua testa denunciava os anseios que a
assaltavam, contando as semanas em que ficara sozinha. Fazia quatro
meses que o sheik estava ausente.
Há quatro meses aguardava ela o seu regresso, atormentada pelo
temor do que de mau lhe houvesse talvez ocorrido.
Era a primeira longa separação, e saudosa do timbre da sua voz e
do apertar dos seus braços vigorosos, agora compreendia bem o que o
amor significava para ela e, mais do que até então, sentia quanto a
presença dele era necessária à sua felicidade.
Os dias arrastavam-se interminavelmente. A sua partida fora
misteriosa. Algum tempo antes, ela tinha notado que ele se mostrava
mais pensativo e preocupado que de costume, mais silencioso do que
nunca. Mas, habituada aos seus modos e hesitando sempre em intervir
quando o seu conselho
38
não era directamente solicitado, tinha-se guardado de fazer-lhe
perguntas, até que por último uma crescente ansiedade a fez falar-lhe.
As suas respostas, entretanto, tinham sido vagas, nada satisfatórias.
Um facto somente pudera ela colher e lhe dera algum sossego.
Não eram os negócios da tribo que o acabrunhavam. E tudo o que
se passasse por fora dos limites do seu território tinha para ela a
natureza das coisas imateriais. Mas para o sheik não era assim.
Profundamente versado nos costumes do seu povo, com um
conhecimento completo da natureza inconstante dos orientais, era
impossível que lhe fossem desconhecidos os rumores de inquietação e
desassossego que corriam por todo o país. Confiava na lealdade dos
seus homens, mas percebia os perigos externos que o ameaçavam, e
ultimamente convencera-se de que somente por investigação pessoal
poderia chegar à verdade e esmagar, na origem, a ameaça que pendia
sobre a tribo.
Não querendo acrescentar à sua ansiedade a que pudesse advir da
revelação da natureza do que ele sabia ser uma empresa perigosa,
muito pouco contou a Diana, e partiu uma noite, inesperadamente e
sozinho.
Idolatrada pela tribo, ficara, confiada ao principal ajudante de seu
marido, Yusef, e ao seu criado francês, Gastão, o que significava não
haver dúvidas quanto à sua segurança: sobre isso podia ficar
perfeitamente tranquila. Somente em relação a ele a assaltava o medo,
pois os dias sucediam-se vertiginosamente e ele não voltava. Quatro
meses!
Pôs de lado o livrinho de bolso com um olhar fatigado. Porque
vinha agora essa inquietação, justamente quando a situação já era
suficientemente difícil?
Lágrimas furtivas lhe marejavam os olhos quando ela se voltou
para um tamborete mouro que lhe estava ao lado e dele tirou um álbum
de fotografias, encadernado em couro. E os seus lábios tremiam ao
contemplar firmemente o rosto dos dois filhos que ela dera ao homem
que adorava. Eram gémeos, mas que diferença entre eles!
39
Instintivamente, olhou para o retrato do mais moço e mais amado
dos seus filhos. Era um retrato que ela mesma tirara e no qual a pose
natural, a graça livre e descuidada do seu modo de sentar, tornava a
semelhança ainda mais real, mais natural.
Um trémulo sorriso passou-lhe pelos lábios ao contar um por um
os pontos de parecença que tornavam tão querida aquela efígie. No
rosto e no busto era a reprodução exacta do sheik. Era a mesma altura
e o mesmo porte arrogante, a mesma fisionomia atraente, a mesma
boca cruel, os mesmos olhos penetrantes debaixo de sobrancelhas
petulantes, semicerradas - o sheik tal qual o conhecera pela primeira
vez, antes que o amor viesse suavizar-lhe a dureza da expressão. O
amor, entretanto, não o havia modificado muito - reflectiu ela com outro
leve sorriso fugitivo. - Era somente para ela que a dureza da boca se
suavizava, somente para ela que os seus grandes olhos negros e
penetrantes se iluminavam por uma luz que tinha o poder de fazer
pulsar-lhe violentamente o coração.
Como nas formas e nas feições, também no temperamento o filho
parecia o pai, uma semelhança que nem sempre produzia perfeita
harmonia entre os dois.
Tal se dava porque ambos eram de índole apaixonada e obstinada,
de uma firmeza de vontade que chegava ao extremo.
Embora secretamente fosse orgulhosa do seu encantador filho, o
sheik era intolerante para as faltas do jovem Ahmed, as quais lhe faziam
lembrar dolorosamente a sua própria mocidade tormentosa.
Desgostava-o também o facto de o filho já ter idade que o fazia homem,
sem que se preocupasse com o que não fosse prazer: era menos
prudente do que deveria ser para que o seu governo fosse menos
arbitrário. E perpetuamente em diabruras, o filho estava muito longe de
mostrar o amor verdadeiro e a admiração que nutria pelo pai, que
entretanto era, para ele, o ideal do que um homem deveria ser.
Era Diana que formava o traço de união entre essas duas
naturezas opostas, contraditórias. Adorada por ambos, era
40
ela que amenizava a dureza do pai e que refreava as
extravagâncias do filho - isso tudo como lhe fosse possível. Cabeçudo
como era o filho, só ela conhecia o que de bom existia nele e só ela
podia fazer concessões que o sheik não podia.
Quantas vezes ela se colocou entre eles! Quantas vezes o
conhecimento profundo que ela tinha do carácter de um lhe fazia
compreender o ponto de vista do outro! Nunca deveria, pois, existir
concordância entre eles? Diana curvou-se na cadeira com um pequeno
tremor.
E se as discórdias frequentes que entre eles se suscitavam
terminassem na aberta ruptura que ela sempre temera?
Havia somente uma lei no acampamento do sheik - era a sua
própria vontade. Ele exigia implícita obediência e fazia executar as suas
ordens com o despotismo que sempre lhe caracterizava os actos.
Deveria o filho, que ela amava tão entranhadamente, passar pelas
mesmas experiências cruéis pelas quais ela anos antes passara?
Esforçou-se por desviar tal pensamento, que lhe parecia
concretizar uma deslealdade.
O sheik era um homem recto, embora fosse severo nos seus
actos. Somente uma cabeça poderia existir na comunidade - a sua. E o
rapaz tinha de aprender como outros tinham aprendido.
Mas, oh! Deus querido, só ela poderia poupá-lo à dor de tal
aprendizagem!
E mesmo agora ela sabia que se o sheik voltasse hoje, haveria
motivo para desinteligência entre os dois, porque o jovem Ahmed
estava também ausente do acampamento e isso apesar das ordens
severas que o pai havia dado.
Os seus olhos sombreavam-se de ansiedade. Depois, a despeito
de si mesma, riu-se à lembrança da sua impetuosa aparição no seu
quarto, uma manhã cedo, para lhe pedir insistentemente uma licença de
alguns dias para retirar-se, pois que um repouso se lhe tornava
absolutamente necessário para lhe restituir a paz de espírito, e também
se riu das advertências que lhe fez quando montou a cavalo, em
companhia dos dois filhos de Yusef, que desde a infância lhe serviam de
guarda-costas.
41
Fora isso há seis semanas.
Habituada às suas constantes excursões, ela argumentava consigo
mesma, procurando fazer luz sobre esta última escapada, que era
somente uma entre muitas. Com certeza esperava ele o regresso de
Ahmed!
Ahmed! O amado esposo, cuja devoção lhe tornava suportável a
vida solitária! Ela ciciava o seu nome com doce ternura enquanto
procurava afugentar os temores que já se lhe tornavam quase
insuportáveis.
Para distrair os pensamentos, ela voltou-se para o outro retrato -
o retrato do desconhecido filho mais velho, a quem ela não via desde
que completara cinco anos de idade e cuja próxima visita lhe fora
anunciada, enchendo-a de um misto de alegria e de apreensão. Amá-la-
ia este como o outro? Saberia ele que a separação lhe havia causado
lágrimas amaríssimas, compreenderia quanto a ela custara tal renúncia?
Fora-lhe necessário deixá-lo ir para longe.
E o seu coração ainda sangrava à lembrança da sua partida com o
suposto espírito de humanidade que o arrastara para Inglaterra,
arrancado ao sheik pelos apelos do coração quebrantado do pai deste.
Decidido a ficar na terra em que nascera, tinha mandado o filho para ser
educado e treinado para a posição que ele mesmo jamais assumiria.
Para o conde de Glencaryll nada significava ser o chefe da tribo de ben
Hassan. E na Inglaterra, para o ancião solitário, o filho chegara como
uma dádiva quase divina, em resposta directa às suas orações, a
realização de uma esperança que por vezes lhe parecia uma louca
quimera inatingível. Prodigalizava-lhe todo o recalcado afecto de anos e
vira-o atingir a virilidade correspondendo aos carinhos do avô, cujo
amor pagava com devoção partida de um coração simples e bom.
Era a sua própria face que Diana nele contemplava, eram como os
seus próprios olhos os que ela fixava no retrato que tinha entre as
mãos. Era um retrato bem diferente do outro, contendo a imagem de
um jovem cujas feições sérias e cuja atitude convencional lhe
emprestavam um ar de gravidade prematura, em flagrante contraste
com a sua idade tenra. Longa e ardorosamente ela considerou a
semelhança.
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Que teriam feito dele o tempo e as circunstâncias? Que significaria
a sua vinda ao seio do país que ele esquecera?
Dele só recebera poucas cartas, que não passavam de rápidos
comunicados de factos, nunca dizendo nada de si próprio, nada do que o
coração materno almeja saber. Ao menos se ela o pudesse ver algumas
vezes! Se Ahmed consentisse ao menos que ela fosse visitá-lo de vez
em quando!
Mas as suas súplicas nesse sentido tinham encontrado uma recusa
tão categórica que não se arriscara a reiterá-las.
Agora, finalmente, ele vinha, mas vinha somente compelido por
negócios.
Os lábios tremiam-lhe penosamente à lembrança das palavras da
sua última carta, mais frias e formais do que as anteriores, nas quais
não deixava entrever o menor prazer pela sua próxima chegada à casa
de sua família, mas falando secamente apenas nos negócios.
Não era a carta de um filho ao pai, mas o relatório de um agente
aos seus patrões ausentes, sem emoção, sem carinho. Porque o velho
conde de Glencaryll morrera havia cerca de um ano. E, inflexível na
determinação de não auferir nenhum lucro pela morte do pai, Ahmed
ben Hassan passara para o filho, total e incondicionalmente, os vastos
territórios que não o interessavam e a enorme fortuna na qual, mesmo
que não fosse rico, jamais tocaria.
Mas haviam surgido certas formalidades, certos pontos a discutir,
que tornaram necessária uma entrevista entre pai e filho.
Correspondência trocada durante meses, insistentemente pedantesca de
um lado e casualmente brutal do outro, finalizara com a combinação de
uma entrevista. O coração de Diana bateu mais aceleradamente ao
lembrar-se de tal entrevista, prestes a realizar-se.
Caryll estava mesmo agora a chegar à pequenina cidade de
Touggourt, e talvez não demorasse uma carta a anunciar a sua chegada
ao acampamento paterno.
Era somente de Raul que ela tinha sabido alguma coisa do filho
que lhe era estranho. Era este o único elo que ainda a ligava ao passado
e à sua família dividida, de maneira que as suas visitas espaçadas
significavam para ela mais que a
43
chegada de um amigo de confiança e estima. Ela jamais
adivinhara o amor que ele trazia oculto no coração durante vinte anos,
jamais suspeitara que tais visitas lhe causavam dor. As suas vindas
sempre significavam notícias de Caryll, notícias da casa senhorial na
Inglaterra, onde ele era sempre acolhido como hóspede bem-vindo. Vira
ele o seu filho crescer da infância à puberdade, da puberdade à
adolescência. E, entretanto, quão pouco podia ele dizer! A devoção
apaixonada e a pródiga generosidade de um melancólico ancião a um
herdeiro muito amado e guardado com ciúme; a ternura quase feminina
do rapaz a tudo quanto dizia respeito ao avô - era tudo quanto ela
pudera respigar, juntamente com outras pequenas minúcias da sua vida
diária. Sabia que ele era mais sério do que era de esperar do verdor dos
seus anos, sempre absorvido na administração dos territórios que
seriam seus um dia, um moço discreto e reservado, que sempre se
conservara como um quase enigma, mesmo para os franceses que toda
a vida o haviam conhecido.
Assim, do Caryll verdadeiro ela nada sabia. Tinha de contentar-se
com as exterioridades de factos comezinhos, enquanto ansiava pelo
conhecimento mais íntimo, profundo, de factos que dela o desviavam.
E quando ele chegasse, qual seria a sua atitude? Tanto quanto
suspirava pelos momentos propiciados pelo encontro, temia a sua vinda.
Lendo nas entrelinhas da sua última carta, percebera a relutância com
que ele encarava a sua próxima visita, surpreendera dolorosamente na
mesma um tom de mal disfarçada hostilidade.
Estremeceu a tal pensamento. Mas, amargo que fosse o facto,
era, entretanto, natural. Não era razoável esperar que ele conhecesse
as causas desse aparente abandono.
Havia muita coisa que o rapaz não podia saber. Era impossível
supor que o velho e orgulhoso conde confiasse ao neto a vergonhosa
história da sua curta vida conjugal, alguma vez lhe contasse o trágico
acontecimento que o fez perder mulher e filho e lhe imprimiu no rosto
longos anos de tristeza, remorso e solidão. Por outro lado, parecia
igualmente impossível que ela ultrajasse a memória de mortos,
revelando agora
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a Caryll o motivo que causara a separação entre o sheik e o seu
pai.
Cumpria que se deixasse Caryll pensar o que quisesse, embora
custasse vê-lo lançar culpas sobre quem era inocente.
Havia mais uma única pessoa que conhecia a verdadeira história
da família Glencaryll, e Diana esperava do cavalheirismo inato do
carácter de Raul de Saint Hubert que mantivesse fechados os lábios, a
menos que a necessidade algum dia o obrigasse a falar.
No seu apaixonado amor pelo marido, Diana quase chegava a
desejar que tal necessidade viesse a surgir.
Era-lhe horrível pensar que ruins propósitos lhe fossem atribuídos,
que a separação que se iniciara numa geração passasse para uma
segunda, unicamente por uma errónea compreensão que jamais se
elucidaria, pois que ela conhecia Ahmed ben Hassan o bastante para
saber que ele nunca tocaria nesse assunto: ele desprezaria a possível
condenação do filho. Nos primeiros dias de vida conjugal, Diana havia
empregado toda a sua influência para promover uma reconciliação, mas
os seus esforços haviam fracassado, porque o sheik, inflexível como
sempre fora, tinha feito ouvidos moucos aos seus apelos e acabara por
lhe declarar terminantemente que com ela não mais trataria do assunto.
Havia feito quanto lhe fora possível. Só Deus sabia o que traria o
futuro.
Lançou um olhar mais pelas fotografias, pô-las de lado e releu
uma carta que começara e que estava em cima da escrivaninha.
Mas a tinta secava-se-lhe na pena e não achava mais palavras
para lançar naquele papel. A sua carta era endereçada a Raul, em
Touggourt. Já lhe falara na ausência do sheik, tinha-lhe mandado
instruções sobre o encontro do acampamento e pedira-lhe que se
pusesse a caminho imediatamente. Nada havia a acrescentar ao que já
estava escrito. Embora fosse grande o seu desejo nesse sentido, era-lhe
impossível pedir a Raul que explicasse a Caryll a história da família.
Assinou e lançou o endereço no sobrescrito com um frio
45
sentimento de temor mental, em luta com uma sensação de mau
agouro que parecia ter-se apoderado dela tenazmente. Enraivecida
consigo mesma, mas sentindo-se incapaz de sacudir de si as apreensões
que a acabrunhavam, fincou os braços na escrivaninha e enterrou o
rosto nas mãos.
Depois de tantos anos de paz, tudo lhe parecia haver mudado e
um estranho sentimento instintivo dizia-lhe que qualquer coisa
perturbadora se aproximava. A expressão concreta do que vagamente
lhe passava pela mente chocava-a e fazia-a murmurar palavras
ininteligíveis.
Não lhe eram da natureza as desconfianças. Era-lhe contrário ao
temperamento deixar o mal em meio caminho. Que história era essa,
portanto, de uma opressão ante a antevisão de desastres futuros?
Era verdade que se sentia inquieta por Ahmed, inquieta pelo filho,
tanto que nem sequer podia dormir. Mas, já anteriormente, não era
pequena a ansiedade que a cruciava por causa deles. Não era só o
temor pelo que lhes pudesse acontecer que a oprimia: era um terror
que antes nunca sentira. Reprimiu os seus trágicos pensamentos num
leve estremeção dos nervos.
Conhecia o perigo do solitário choque que lhe sacudia os nervos e,
apiedada de si mesma, conhecia o perigo da irrefreada introspecção
mental que nascia da solidão.
Resolveu conter-se. Nenhuma força que possuísse poderia deter
ou alterar aquilo que estivesse para acontecer. Devia deixar para o
futuro as coisas que pertencem ao futuro e viver dia a dia como lhe
fosse possível, lutando contra os vãos temores que a sobressaltavam.
«Deus me fortaleça», orava, e «me salve tanto dos homens como
de mim própria».
Sorriu subitamente, para conter as lágrimas que lhe marejavam
os olhos, que enxugou nervosamente, como se aquelas lágrimas a
envergonhassem. Quantas vezes sentiu a agonia da sua ausência e
quantas vezes elas voltavam maldosamente! Porque, pois, as não
suportaria agora? Porque atormentar-se sem necessidade?
Isso, porém, era fácil de dizer mas difícil de praticar.
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Difícil, mas não impossível. Decidida a vencer a fraqueza, sentou-
se subitamente, olhando para o relógio.
Já a tarde enfraquecia e os sons de actividade repercutiam pelo
acampamento. Breve viria Gastão com o chá e ela daria, então, um
passeio a cavalo para aliviar a dor de cabeça que uma noite de insónia
lhe causara.
Abaixou-se para acarinhar um leitão que se deitara aos seus pés,
e depois foi ao quarto para pôr o chapéu e as luvas.
Quando voltou, o criado francês estava a dispor os preparativos
para servir o chá, pondo nesse serviço a destreza que lhe era peculiar.
Já com a cabeça branca, mas ainda de aparência vigorosa, continuava a
ser o servo dedicado que sempre fora.
O criado saudou-a com o sorriso calmo e agradável do costume e
colocou o serviço de chá num tamborete, perto do divã.
E colocando-se entre a fumarada que se desprendia da infusão,
Diana olhava-o a servir-lhe o chá e percebia a muda simpatia com que
ele a tratava solicitamente.
Sorriu para ele e disse-lhe:
- Mais um dia, Gastão.
Vendo-a tão ansiosa, ele percebeu o que se passava na mente
dela e, posto que o pungisse a fraqueza que havia na sua voz, manteve
a feição amável com que a saudara.
- Mais um dia, senhora - concordou delicadamente - mas talvez o
último - acrescentou com confiança maior do que realmente sentia.
Ela encolheu os ombros suavemente e pegou na chávena que lhe
era oferecida:
- In cha Allah! - murmurou na linguagem que se lhe tornara tão
familiar como a língua materna.
Gastão acolheu a saudação com uma inclinação da cabeça.
- Na verdade, se Deus quiser, como a senhora disse - respondeu,
e mudou de conversa. - A senhora falou de uma carta para o senhor
conde.
Sentindo inveja daquele real ou improvisado optimismo, Diana
esboçou um sorriso e apontou para a escrivaninha.
- Está pronta, Gastão, e peço-te que a mandes a Touggourt
47
à noite, com dois homens, para evitar algum acidente. A escolta
não deve partir imediatamente. Eu disse ao senhor conde onde a devia
esperar. E, Gastão, os cavalos em dez minutos, por favor.
Com um calmo Bien, madame, ele pegou na carta lacrada e
atravessou o quarto. Mas, ao chegar à porta, Diana chamou-o:
- Gastão!
Ele deteve-se e inquiriu:
- Senhora?
Voltou vagarosamente e ficou na expectativa, a olhá-la com ar
grave, compassivo. E quando, por último, ela falou, inclinou-se para
ouvir-lhe o ténue murmúrio:
- Gastão, pensa...?
Se pensava! Bon Dieu, não se lembrava ele do mês que passara,
pensando e temendo tanto quanto ela? Mas ninguém lhe arrancaria a
verdade. Respondeu-lhe em tom penetrante: - Não, senhora, eu não
«penso» - mentiu com firmeza - e longe esteja de mim o que a senhora
está pensando.
Mas a própria veemência com que proferiu essas palavras mais
serviu para confirmar-lhe os temores que a assaltavam e ela fez um
pequeno gesto com as mãos, no qual traiu o desespero que a
acabrunhava.
- Não posso mais - murmurou. - O senhor foi há tanto tempo e
estou com medo, com medo! - fez com voz tremente. - Sou cobarde,
Gastão, miseravelmente cobarde.
Por momentos pareceu que ia desmaiar; conteve-se, porém, com
um esforço supremo. Mas o riso convulso que se seguiu era perigoso
como um desmaio.
Os pequeninos olhos do devotado francês resplandeceram
inopinadamente e por pouco não o abandonou a sua habitual
compostura.
- A senhora, uma cobarde! Faça Deus muitas cobardes desse jaez
- desabafou, fugindo da tenda.
Não recuperou a habitual serenidade enquanto não despachou
dois cavaleiros que havia aprestado para levarem a carta a Touggourt;
procurou e teve uma entrevista com
48
Yusef, cuja ansiedade crescia proporcionalmente à sua; tinha
inspeccionado com cuidado os cavalos que estavam a ser selados para
saírem.
A sua involuntária emoção reagira sobre o seu temperamento
habitualmente plácido e ele amaldiçoou os cocheiros em árabe,
enquanto colocava freios e apertava cilhas com uma opulência de
sarcasmos que espantava os subordinados. Não podia admitir, mesmo a
sós consigo, que o seu zelo fosse grandemente necessário, pois que a
fraqueza era coisa inexistente no acampamento de Ahmed ben Hassan -
mas era preciso convir que ele estava retardando o momento em que de
novo tornaria a ver a sua angustiada senhora.
Mas era somente diante de Gastão que Diana se permitia aquelas
fraquezas. Ela estava calma, mesmo sorridente, quando saiu da tenda e,
saudando Yusef que a aguardava, ficou uns momentos a calçar as luvas,
enquanto olhava o nervoso corcel negro que lhe havia sido preparado
para montar.
Era o cavalo favorito do sheik, e ela havia-o exercitado
regularmente durante a sua ausência. Parecia o diabo, selvagem e
intratável para aqueles que dele se aproximavam, com excepção de
Ahmed ben Hassan, a quem temia, e de Diana, que o fizera render-se
pelos seus carinhos. Destemida e devotada aos animais, ela tinha um
modo próprio de tratá-los, e Eblis era um entre os muitos outros
incorrigíveis que haviam sido atraídos pelos seus métodos peculiares.
Hoje a sua índole parecia pior do que de costume, e quando Diana
se chegou a ele, pinoteou furiosamente com o seu corpo forte, quase
atingindo, com as patas elevadas, os demais animais que lhe estavam
próximos. O homem soltou um grito de terror e agarrou-se furiosamente
às rédeas.
- Diabo e pai do diabo! - gritou. - Acalma-te, besta maldita! - e
desviou a cabeça para evitar uma dentada que tinha por alvo o seu
rosto, que cuidadosamente envolveu nas dobras do albornoz.
Gastão e Yusef deram um salto instintivo. Mas foi Diana quem
dele primeiro se aproximou, acalmando-lhe a raiva das irritadas patas.
Trémulo e arquejante, mas obediente à sua
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voz, o animal deixou-se montar sem oposição, posto que os olhos
inflamados se lançassem raivosamente em direcção a Yusef que
segurava os estribos.
Diana sorriu ao enorme e imponente árabe e voltou-se para
saudar com um gesto sorridente os demais. Deu dois ou três passos que
lhe duplicaram o sorriso vitorioso.
Que crianças eram aqueles homens do deserto! - filosofou
partindo vagarosamente do acampamento, seguida por Gastão. Crianças
a divertir e a corrigir também, conforme as ocasiões. Apaixonados e
temerários, sempre prontos a vingar uma ofensa e a retribuir uma
injúria, eram também amáveis e leais como os que mais o fossem.
Quanto tempo levara para compreendê-los e quão profundamente
avaliava o afecto que lhes conquistara!
Na estima que lhe dedicavam era ela mais que um ser humano -
era uma espécie de anjo que entre eles habitava para cuidar-lhes das
necessidades. Era adorada por toda a tribo.
O conhecimento desse facto, porém, tornava-a cada vez mais
humilde. Que poderia ela fazer mais do que amá-los, repartindo com
eles o amor pelo chefe que era o seu deus! Distante dos toldos do
acampamento, Diana guiou o cavalo em direcção a um pequeno monte
para o transpor. Era uma escarpa rasgada, mas o animal deteve-se um
momento na base, como que a considerar a dificuldade da ascensão.
O corcel negro escarvou alegremente o chão à vista da subida a
vencer e, como sentisse as rédeas soltas, galgou o monte com
facilidade, sacudindo a cauda febrilmente e calcando as pedras com as
patas. Entre os seus joelhos, Diana sentia-lhe o corpo estuante de vida
e vigor, sentia-lhe os fortes músculos contraírem-se e distenderem-se
através dos ombros sadios, e segurava-se à sela para facilitar a
ascensão, a mão pousada com leveza no seu acetinado pescoço, as
maçãs do rosto resplandecendo de prazer, por momentos esquecida das
dúvidas e temores que a tinham assaltado. Uma chicotada desajeitada
fez saltitar um chuveiro de pedrinhas no rosto de Gastão.
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Eblis atingiu finalmente o cume do monte e dilatou
voluptuosamente as narinas, sorvendo ruidosamente a brisa refrigerante
que vinha do norte.
Diana olhou em redor com olhos brilhantes.
Habituada de há muito aos esplêndidos panoramas que se
desenrolavam à sua vista, nunca, entretanto, deles se cansava. Deste
lado do monte as ondulações do deserto eram débeis, e a vista
alcançava milhas - uma vasta amplidão de areia dourada que parecia
desvanecer-se imperceptivelmente ao azul-claro do céu da tarde.
A oeste, estendia-se a negra e sombria dentadura de montes
distantes, nevoentos e intangíveis, porque o Sol ainda se mantinha
muito alto no céu para lhes patentear a estrutura.
Por um momento, Diana voltou-se para contemplar o
acampamento que ficara atrás, mas a visão larga do norte logo tornou a
atrair-lhe a atenção.
Uma serena plenitude encheu-lhe os sentidos na contemplação da
maravilhosa beleza que dali se desenrolava. Era, na verdade, o deserto,
o deserto que era a sua casa. Ali estava tudo quanto lhe fazia a vida
digna de ser vivida, ali estavam os seus interesses, o seu dever, o seu
amor. A despeito da sua selvajaria e dos seus perigos, a despeito das
suas limitações e da sua solidão, ela amava-o - amava-o nas próprias
contradições da sua paz, das suas fúrias, do seu estranho encanto. Há
longos anos se submetera à sua fascinação e o decurso do tempo mais
contribuíra para lhe fortalecer os laços. O deserto a «agarrara» e não
mais a deixaria.
Tremendo na sua imensidade, misterioso e flamejante, o deserto
atraíra-a como a tantos outros, enlaçando-a no seu estranho
desassossego, deleitando-a com a sua imutável amplidão. Como fora no
princípio era agora e assim seria por toda a eternidade.
Chamou o criado que estava imóvel ao lado dela.
- Olha, Gastão! Não é maravilhoso? O espaço... Milhas e milhas de
vácuo, e... - Calou-se, com um leve sorriso, pegando no binóculo que
trazia preso à sela.
Que era aquela mancha escura que, à distância, parecia haver-se
destacado da monótona uniformidade da planície
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que resplandecia amarela? Levantou o binóculo rapidamente,
procurando o objecto que tinha ou cuidara ter visto.
Duas manchas e não uma. Duas manchas que cresciam e não
assumiam aspecto definido.
As mãos começaram a tremer-lhe e uma névoa sombreou-lhe os
olhos, mareando-lhe a vista. Entregou o binóculo a Gastão.
- Por cima disso - murmurou, apontando para eles - nada posso
ver. Que há?
Durante alguns momentos ele não respondeu e ela esperou com
ar de impaciência, o coração a bater-lhe furiosamente.
Quando ele se voltou para Diana, foi com um gesto de tristeza.
- Spahis, senhora - disse quase com relutância. - Somente spahis!
Um relance lhe escapou dos olhos e, quando falou, a voz era-lhe
pesada e cansada.
- Podemos ir esperá-los.
E, juntando as rédeas, ela impeliu Eblis para o lado norte do
monte. Movendo a cabeça e relinchando ruidosamente, o enorme animal
desde logo se pôs a correr com o desabalado galope que tornava
famosos os cavalos do sheik.
Por algum tempo abandonou as rédeas, deixando-o caminhar à
vontade, enquanto ela permanecia em luta com o desapontamento que
lhe fizera ressuscitar toda a ansiedade, todas as apreensões.
Gradualmente, porém, foi-a invadindo um pouco de sossego.
Inconscientemente acalmada pelo ar do deserto, a sua dor de
cabeça dissipara-se. Amazona por demais destra em cavalgar corcéis,
não podia fugir ao prazer que experimentava no rude exercício físico que
amava, decidida a arrancar dele todo o gozo que lhe pudesse
proporcionar, e desta maneira vencer a angústia mental que dela
parecia querer tomar posse total. Hoje dera ela ensejo a lamentável
fraqueza. Cansada por uma noite de insónia, havia descurado os muitos
deveres que habitualmente lhe enchiam o tempo e encerrara-se na
tenda, dando pasto à morbidez. Deveria
52
fazer com que isso não mais acontecesse. Deveria inventar novos
serviços, novas tarefas com que encher os dias que lhe corriam com
tamanha insipidez. Precisava fazer com que a tribo não percebesse o
menor sinal das angústias que a pungiam. Exteriormente, cumpria-lhe
manter a todo o custo o ar de confiança que faria que ninguém
compreendesse o que havia de sinistro na prolongada ausência do seu
chefe.
Entretanto, o tempo fê-la entender que alguma coisa lhe dava
uma espécie de ordem. Deixado ao seu próprio instinto, já pouco
sentindo o peso que havia sobre si, Eblis mastigou os freios e dava
mostras de querer trotar em regresso.
Gastão estava longe, atrás, e ela nenhum desejo tinha de
encontrar-se a sós com os spahis.
Era uma luta terrível que tinha de sustentar para manter a
direcção do cavalo, e força e paciência já lhe faltavam, para isso. Mas,
adulando-o com consumada habilidade, ela conseguiu fazer parar o
cavalo, e esperar pelo criado. Surrado mas impenitente, Eblis ficou tão
quieto quanto lhe permitia a sua natureza irrequieta, disfarçando a
contrariedade com o abano da cauda, calcando a areia, enquanto Diana,
esfregando as quentes sobrancelhas, aguardava a rápida aproximação
dos spahis, que agora estavam tão perto que já podia distinguir-lhes as
feições.
Cavalgando com imponência animais de magreza quase incrível,
pitorescos com os seus mantos tremulantes e os seus alvos albornozes
tecidos, prega por prega, com pêlos de camelo, eram espadaúdos
espécimes bem urdidos da sua raça, parecendo maiores do que
realmente eram nos seus apertados uniformes azuis, que exibiam
manchas que apenas denunciavam uma longa viagem. Bem armados,
podiam enfrentar com vantagem os bandoleiros que encontrassem.
Tinham aparência suficientemente formidável, mas Diana percebeu que
eles se retesavam nas selas com fadiga e que os cavalos estavam quase
exaustos.
Apertaram as rédeas com dramática subitaneidade e um deles
apeou-se rapidamente. Com ar de extrema fadiga, o seu rosto
bronzeado era uma máscara de pó e areia. Caminhou em direcção a
Diana e saudou-a com elegância militar.
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Perfeitamente seguro, na aparência, da sua identidade, ele
perguntou pelo sheik e, ao ter conhecimento da sua ausência,
prontamente tirou do interior da túnica um ofício e o estendeu a Diana.
Dominando Eblis, que relinchava com desconfiança para os dois
cavalos que lhe estavam perto e os quais, de cansados, nada podiam
responder-lhe, Diana tomou a carta e fez algumas perguntas antes de
prosseguir no caminho, deixando Gastão levar os spahis ao
acampamento.
Colocou a carta no bolso do casaco. Finda a leitura da mensagem
recebida, pouco apreendeu do conteúdo. Havia outra carta igual na sua
escrivaninha, recebida há quatro meses, poucos dias depois da partida
do sheik. Esta última era-lhe tão indecifrável como a primeira. Sentia-se
incapaz de suportar a situação que havia sobrevindo. Só lhe restava
aguardar o regresso de Ahmed, mas - santo Deus! - quando viria ele?
Os seus profundos olhos azuis perturbaram-se tanto que se
tornaram insensíveis à beleza circundante e à glória esplêndida do pôr
do Sol no ocaso purpúreo. O coração pesava-lhe de horror ante os
temores que se lhe amontoavam na mente pensativa. Forte e expedito
mais do que o comum, ela bem o sabia, mas poderia ser que algo
anormal, de mais força, lhe sobreviesse... Sacudiu os ombros
violentamente e um prolongado suspiro se lhe exalou do peito,
horrorizando-a com o barulho produzido. Ela não compreendia quão
perto havia chegado do ponto culminante e, rangendo os dentes, forçou
a calma a voltar-lhe.
Ela «não» cederia; «não» se entregaria àqueles pensamentos
sombrios. Para distrair o espírito, voltou-se para Gastão, que se
aproximara, e interrogou-o demoradamente.
- Donde vieram eles, Gastão?
- De Touggourt, senhora.
Ela fitou-o firmemente.
- O general está, então, em Touggourt?
- Sim, senhora.
Os seus pensamentos voaram para o filho, que deveria estar
então na cidade.
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- Alguma novidade má por lá? - perguntou, esforçando-se por
conservar a voz firme.
Gastão sorriu imperceptivelmente.
- Umas leves desordens locais, senhora. Nada de importância.
Descontentamento produzido pelo novo imposto e um pequeno raid a
Touareg.
- A Touareg, tão longe ao norte! - exclamou Diana com
incredulidade.
Gastão sorriu novamente e procurou afastar de si qualquer
responsabilidade pela informação.
- Isto é o que eles dizem, senhora - respondeu secamente. - Mas
a senhora sabe como eles são, que não dizem nada, ces gens là! A
Touareg - disse, rindo como se tal ideia o divertisse. - Há muitos
descontentes que hão-de fazer tudo para prejudicar o governo ou para
atingir os seus fins. O «véu negro» é muitas vezes útil - acrescentou
significativamente, aludindo à corda de enforcar os condenados.
Diana compreendeu desde logo o que significavam aquelas
palavras e sorriu, guiando a cabeça do cavalo em direcção ao
acampamento.
- Útil, talvez - comentou - mas é necessário que ninguém seja
castigado injustamente.
Mas Gastão, que se sentia perturbado à lembrança de haver certa
vez surpreendido um relance de olhos do seu jovem senhor em direcção
às terras da tribo temível e jamais dominada, não estava desejoso de
continuar a conversação, que poderia levar a inesperadas revelações.
A senhora estava suficientemente abatida em razão da ausência
do senhor. Seria, portanto, um crime aumentar-lhe o sofrimento com o
relato das imprudências e diabruras do senhor Ahmed. Alguma coisa já
ela sabia, mas não tanto como o senhor e como ele, Gastão. E não
havia necessidade, de resto, que ela soubesse mais. O senhor Ahmed
era moço, cheio de vida e vigor. Com o tempo tornar-se-ia mais velho e
mais prudente, renunciando - queira Deus! - às loucuras da mocidade
que, talvez, fossem devidas a um grande espírito que desabrochava. A
vida era selvática no deserto, cheia de tentações, cheia de abismos.
Além disso, era somente
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mente um rapaz, um amável rapaz que não pensava. Ainda havia
tempo para ele aprender o que são as duras necessidades da vida.
Assim, com tais pensamentos, o devotado francês pôs-se a
caminho, tagarelando sem cessar, enquanto os excelentes animais de
raça venciam, rapidamente, a distância a percorrer até ao
acampamento.
Ele era por vocação um contador de historietas, possuindo certa
maneira humorística de manifestar as suas opiniões, e hoje,
ardentemente desejoso de distrair os pensamentos de Diana, ele próprio
se surpreendia com o acento dramático e original com que relatava uma
engraçada altercação que tinha surgido entre dois homens da tribo e
sentia-se bem pago vendo a angústia da senhora apagar-se pouco a
pouco dos olhos e o riso com que ela acolhia o final da história contada.
- Que tempestade num copo de água! Que «crianças», Gastão!
Traga-os amanhã para que me contem os seus males, se Yusef não
puder dirimir a contenda.
Yusef poderia facilmente acomodar o caso, mas seria muito de
duvidar que a esposa do seu chefe aprovasse os seus métodos. Diana
dirigia o povo do mesmo modo com que dirigia os seus cavalos
indómitos, mas os meios de que se servia não eram os mesmos do
sheik, nem os de Yusef. Na ausência do marido sentia que era de seu
dever pôr de acordo quantos fossem ao acampamento e tomavam lugar
nos pequenos tribunais semanais de inquérito, acalmando brigas e
ouvindo queixas pacientemente, por triviais que fossem os assuntos que
lhe eram afectos. Conhecia aqueles pequeninos males que, não
cuidados, fariam amadurecer frutos que seriam causa de não pequenas
perturbações na vida da tribo. O Sol quase se tinha posto quando
chegaram ao acampamento e, antes de entrar, Diana apertou as rédeas
por alguns instantes, extasiando-se com o esplendor magnífico do céu e
contemplando a longa procissão de camelos vagarosos que para ali
eram levados a fim de passar a noite. Altaneiros e desdenhosos, os
grandes animais desconformes caminhavam um a um, blaterando
prazenteiramente ao passarem por
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alguma coisa que pudessem comer, indiferentes às pragas e
imprecações dos rapazes de pernas finas que os conduziam. Os maiores
já haviam atingido as linhas de limite, de onde provinha um horrendo
coro de impertinências raivosas e protestos: somente alguns erradios
tomavam todas as direcções e mostravam o seu descontentamento
quando eram levados ao lugar que lhes competia.
Eblis detestava os camelos e corcoveou furiosamente quando um
enorme, brutal, o incomodou com o seu talhe erecto e com as suas
abertas e duras mandíbulas.
Gastão soltou um grito de aviso e uma dezena de árabes que
estavam perto arremessaram-se em direcção ao animal enraivecido.
Mas Diana dominou-o logo e afastou-o no momento em que ele
pretendia exibir a rudeza do seu temperamento, empinando-se
perpendicularmente e lutando com ela durante minutos em que as suas
cabriolas teriam atirado ao chão um cavaleiro menos destro.
Rindo e arquejando, ela desceu para o chão e tratou de amenizar
os seus revoltos sentimentos com um torrão de açúcar, com que lhe
lambuzou as narinas macias, aconselhando o cavalo a que não
reincidisse naquele mau procedimento. Os modos do animal
modificaram-se como se se convencesse da justiça da repreensão, mas,
não deixando de mostrar-se um tanto contente por ter demonstrado
independência, pôs-se a aparentar um ar de grande inocência e
consentiu em ser guiado pelos rapazes com docilidade quase igual à de
um carneiro.
Depois de uma palavra a Gastão, Diana desapareceu na tenda
para tomar banho e mudar de roupa. Uma hora mais tarde voltou à sala
de visitas, onde Yusef a esperava com o relatório diário do costume.
Fazendo-o sentar-se perto do divã, Diana dispôs-se a ouvir-lhe o
preciso e minucioso relato dos acontecimentos do dia, lançando-lhe um
olhar de tempos a tempos e falando-lhe ora em árabe, ora em francês.
Havia nele uns restos daquela cómica mocidade elegante que tanto a
divertia quando o conheceu pela primeira vez. Bem posto nos seus
trajes ainda se mostrava, mas a esbelteza abandonara-o
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para sempre. E embora tivesse apenas quinze anos mais que o
filho do sheik, parecia consideràvelmente mais velho que o seu chefe.
Casara cedo e já era pai de dois filhos que eram agora mais velhos do
que ele era quando Diana foi trazida ao acampamento de Ahmed ben
Hassan, e tinha adquirido a gravidade de maneiras que o fazia mais
velho do que realmente era.
Os pensamentos de Diana voaram para esses dias ao sentar-se
para lhe ouvir a voz apressada, alta, e, quando ele cessou de falar, teve
de deter-se num momento de reajustamento mental antes de trazer o
espírito para a hora presente. Ela conservou-o junto de si por mais
alguns minutos, pedindo o seu conselho sobre as questões intrincadas
que lhe apresentara e referentes a certas dificuldades sobre as quais ela
queria mais conhecimento e experiência.
Nada lhe disse, porém, sobre a prolongada ausência do sheik,
nem fez qualquer alusão ao filho estouvado que lhe estava causando
tanta inquietação. E Yusef, também, seja que tivesse sido industriado
por Gastão, seja por seus próprios instintos, absteve-se de mencionar o
nome de qualquer deles durante a conversa. Era como se uma
conspiração de silêncio tivesse sido tacitamente combinada entre todos.
Mas cada um deles sabia o que ia pela mente do outro.
E como se desejasse fazer compreender o que não exteriorizava
em palavras, os modos de Yusef eram mais atentos que de costume,
bem como as suas saudações eram diferentes
quando resolveu retirar-se.
Diana contemplou-lhe a figura e lançou-lhe um olhar furtivo.
Quase desejava que ele tivesse falado. Mas que
poderia ter dito?
Ele não conhecia mais do que ela as façanhas do sheik. Não era
possível a este censurar o filho. E, de resto, o assunto tanto interessava
a um como a outro. Se ela estava ansiosa, ele também o estava e com
dobrada razão. Os seus filhos eram responsáveis pela segurança do
rapaz, mas não tinham autoridade e jamais haviam manifestado a
menor inclinação para lhe dirigir as acções. Ela encarava a situação com
mais largueza de vistas que Yusef. O que quer que
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fosse que a ira paterna o levasse a fazer ou dizer, ela sabia que,
do que pudesse ter acontecido, Ramadan e S'rir não seriam culpados.
Só o rapaz podia responder pelas suas imprudências.
Com profundo dissabor mental ela dirigiu-se à escrivaninha, que
abriu, e leu a mensagem que os spahis tinham trazido.
Era, como calculara, do governador militar do Saara e repetia,
quase palavra por palavra, o que dizia na primeira carta, se bem que em
tom de mais urgência, com termos mais expressivos, num apelo franco
ao favor de um chefe que, embora independente e que não reconhecia
qualquer suserania, era considerado como um amigo do governo
francês. Pedia, implorava a cooperação de Ahmed ben Hassan, a quem
fazia ver que os instigadores da desordem surgiam de cada canto da
terra e procuravam febrilmente instigar as tribos minadas pelo
descontentamento, e anotava as que poderiam ser contadas como leais
ao governo.
Algum tempo depois da leitura da carta, Diana sentiu-se imersa
em pensamentos, balançando nervosamente as pernas, seguindo com
os olhos Gastão nos seus preparativos para o jantar. O general não se
alongara em minúcias. Era patente que o Ministério do Interior, em
Paris, estava alarmado. Qual seria a causa de um levantamento na
Argélia? Que é que Ahmed tinha com isso?
Por um momento o rosto se lhe tornou mais pálido e a tenda
pareceu dançar ao redor dela. Depois, com um esforço, retomou o
domínio de si mesma.
Tinha fé no seu povo. Se as coisas piorassem e se tornasse
necessário que Ahmed fosse tomar parte em operações militares, fora
do seu próprio território, Deus lhe daria forças para que ela não o
embaraçasse.
Leu a carta mais uma vez e guardou-a cuidadosamente.
Não lhe daria resposta nessa mesma noite: deixá-la-ia para o dia
seguinte, pois não se sabe o que pode trazer o dia de amanhã.
E, durante o jantar solitário, conservou à distância as
59
suas apreensões, palestrando com Gastão sobre frivolidades e
comendo mais do que desejava, apenas por lhe ser agradável, apesar
de sentir quase completa inapetência.
Quando acabou de ingerir o café e Gastão se retirou, embrulhou-
se num albornoz e saiu, dando alguns passos para longe do toldo a fim
de contemplar as estrelas.
Os pequenos candelabros do firmamento pareciam-lhe nessa noite
menos brilhantes que de costume. Era noite de plenilúnio.
A Lua dos viajantes brilhava, admirada de tantas caravanas
vagarosas que, naquele momento, palmilhavam grande amplidão de
areia, aproveitando a luz clara, branca, que lhes facilitava a jornada.
Via-as pela luz do espírito: - guardas armados que seguiam na frente,
com os rifles nas mãos; longas fileiras de camelos, pisando com firmeza
apesar de suas pesadas cargas de mercadorias, de grande valor, alguns
trazendo envoltos nas cortinas alegremente dispostas os basours
pendentes sobre que viajavam mulheres e crianças; e na cauda da
procissão uma multidão muda de árabes cavalgando camelos e um
pelotão de rapazes, que tinha a seu cargo a vigilância da longa linha de
dromedários, e eram auxiliados por uma matilha de cães de guarda de
selvático aspecto.
Quantas vezes tinha visto a realidade da cena! Tais caravanas
tinham-se tornado uma parte da sua própria vida aquela vida estranha,
primitiva, que era sempre a mesma, através dos séculos. Era sempre
daquele jeito que os árabes viajavam, desde que o Islão penetrara na
Argélia, e daquele mesmo modo viajariam nos dias de gerações ainda
porvindouras.
A noite era calma e silenciosa e o ar macio, acarinhando-lhe o
rosto, transportou até Diana os ruídos de uma festa distante: os sons
lamentosos de uma gaita árabe, o bater rítmico de uma dança oriental,
o cantar profundo de muitas vozes humanas. E longinquamente, do
outro lado do acampamento, ela percebeu o ígneo reflexo de duas
enormes fogueiras, entrevendo ao derredor delas, amontoados, os
árabes.
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Os risos que ecoavam naquele amplo cenário fizeram que Diana
sentisse profundamente a tristeza da sua solidão e ela voltou-se para o
criado com um sentimento de momentâneo
alívio.
- Os homens estão alegres esta noite, Gastão.
- Sim, senhora. Promoveram uma festa em homenagem aos dois
spahis que chegaram esta tarde. A senhora não gostaria de ir apreciar,
por momentos, essa festa? Isso dar-lhes-ia prazer.
Diana sacudiu a cabeça.
- Hoje, não, Gastão. Não estou disposta. Estou cansada e aqueles
homens notá-lo-iam logo. Não quero empanar-lhes a alegria. Mas esses
spahis, Gastão, com certeza são feitos de ferro. Estavam mortos de
cansaço quando chegaram.
Gastão riu-se da observação.
- Quando se trata de um divertimento, um árabe nunca está
cansado. A senhora sabe disso. Dormirão amanhã e no dia seguinte, se
assim o entenderem. Os seus cavalos também precisarão de dois dias
de descanso, pelo menos. O barulho incomoda-a? Vou falar-lhes...
- Não, não - interrompeu ela - o barulho não me incomoda.
Alegra-me vê-los contentes e felizes - concluiu, com um ligeiro tremor
na voz.
Poucos minutos depois voltou à tenda. Quão vazia esta lhe
pareceu! Quão fria e sem vida, sem a forte e vigorosa personalidade
cuja dominadora influência lhe parecia estar em tudo quanto a rodeava.
Toda a sala lhe falava dele, lembrando-lhe tantas coisas de uma longa
coabitação, de dias e de noites de delirante felicidade, de um amor
maravilhoso que nascera e se fortalecera numa mútua compreensão.
Naquela noite tudo lhe parecia insuportável e com um leve suspiro
correu para o dormitório, para se despojar dos vestidos, e caiu no leito,
esperando encontrar, no sono, consoladora inconsciência. Mas o sono
fugiu dela teimosamente e no leito lembranças mais íntimas, mais
persistentes, a acabrunhavam.
No grande leito vazio, deitada sozinha, não precisou
61
ocultar o sentimento de miséria e solidão que a desalentava e,
enterrando o rosto nos travesseiros, chorou como nunca antes havia
chorado.
Precisava dele. Sim, oh, Deus! Precisava dele! Mais vezes,
anteriormente, durante muitos anos, ele partia com Raul de Saint
Hubert e ela ficava angustiada naquele mesmo leito, temendo que o seu
regresso fosse o fim do breve romance que tão estranhamente se
desenrolava na sua vida. Então era ela somente a sua escrava, a vítima
do seu capricho e paixão. Mas agora era sua esposa, uma parte
integrante do seu ser. E, sem ele, parecia que uma parte da
personalidade lhe fora arrancada, como se horrível amputação física lhe
fizesse perder uma parte da vitalidade, toda a sua força, e o que ficara
era apenas um frágil fragmento mutilado cuja única capacidade era a de
sofrer.
- Ahmed, querido amigo!
Murmurou esse nome ansiosamente, com amor e desejo. Sentisse
ela novamente o aperto dos seus fortes braços e ouvisse novamente o
débil sussurro da sua voz, que tantas vezes a arrancara até das portas
da morte! Quase morrera na noite em que os filhos nasceram, e
somente a voz dele lhe dera força para lutar pela vida!
Exausta de emoções, cerrou os olhos, curtindo dores morais que
jamais conhecera. Mas o sono teimava em não vir e hora por hora ela
agitava-se febrilmente, ficando cada vez mais nervosa. A barulhenta
alegria do acampamento cessara havia muito.
Somente o monótono tiquetaque dum relógio quebrava o pesado
silêncio e ela, extremamente enervada, levantou-se para fazer parar,
com dedos trémulos, gélidos, o pêndulo irritante.
Não voltou ao leito. O quarto tornara-se-lhe subitamente
insuportável.
Envolvendo-se num quente casaco, saiu do quarto e dirigiu-se a
outro em que havia luzes esquecidas, deixadas acesas, como sempre
que ficava só.
Escolhendo ao acaso um livro, instalou-se num divã e procurou
ler, já que o sono lhe era impossível. Mas depois de
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alguns minutos de leitura a atenção fugiu-lhe e ela sentou-se,
afastando febrilmente da testa os cabelos em desordem.
A tenda parecia-lhe sem ar e quente, estranhamente quente,
apesar da estação do ano. Talvez fossem as luzes que a aquecessem,
pensou. E indo à porta, sem fazer barulho, descerrou-a, procurando não
acordar Gastão que ali dormia, como sempre que o sheik se ausentava.
Voltou a acomodar-se no divã, tentando ler, e gradualmente os nervos
se lhe serenaram, a rigidez dos membros e do corpo amainou e ela
descansou afinal, deixando de ouvir sons que nunca vinham.
Foi talvez a mudança da temperatura que a acalmou. Ou talvez o
sono cedesse aos seus desejos e viesse. O que quer que fosse nunca ela
o compreendeu, mas o facto é que a novela que estava tentando ler lhe
fora arrebatada das mãos. E cabeceava, quando um som a despertou de
repente, fazendo-a rodopiar nos pés, toda olhos e ouvidos.
Sem sentir a respiração, as mãos apertaram-lhe o coração, que
batia, e ela pôs-se à espreita, procurando ouvir com um esforço que
chegava às raias da loucura. O som foi repetido: o som duro dum
camelo que protestava contra o tratamento dos seus condutores. Vozes
humanas chegaram-lhe, também, aos ouvidos.
Então perpassou pela porta uma pessoa alta, que entrou pela
tenda dentro.
Um momento depois apertavam-na os braços do marido, que ria
entrelaçando-a. E apertando-a como se não a quisesse deixar fugir, o
sheik cobria-lhe de beijos apaixonados a face transtornada.
- Ma mie, ma mie - murmurava com voz trémula, os olhos
penetrantes envolvendo-a em profunda ternura. - Demorei-me, minha
pobre e doce mulherzinha? Pensas que me demoraria tanto se o
contrário me fosse possível? Sabes como contei dias e noites, esperando
tornar a ver-te? Bon Dieu, como eu estava faminto de ti, Diana!
O aperto dos braços fortes era excessivo, mas Diana nada sentia.
Os seus lábios nos dele, confessava-lhe a felicidade de que se sentia
possuída e os temores que a sobressaltavam,
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as mãos tacteando-lhe o peito largo, como se procurasse
convencer-se de que ele lhe voltara são e salvo, os olhos procurando
penetrá-lo para lhe ler nas faces a resposta a perguntas que a sua voz
não ousava articular.
E assim foi até que o abraço terminou, até que os dedos
perscrutadores encontraram o pano de uma ligadura na parte superior
de um braço, o que a fez empalidecer, horrivelmente assustada.
- Ahmed! Estás ferido?
Ele sorriu complacentemente e empurrou-a com uma quente
carícia.
- Não é nada, chérie. Não tenho ossos quebrados. Estarei curado
em um ou dois dias - disse displicentemente, voltando-se em busca dum
cigarro.
- Mas... como? - murmurou, opressa, com os olhos a sondar-lhe
todos os movimentos.
Ele encolheu os ombros, como se a insistência o impacientasse, e
chupou demoradamente o cigarro, aspirando uma grande baforada, com
o ardente prazer de quem havia muito não sabia o que é bom fumo.
- Foi num desfiladeiro que me surpreenderam com atroz fuzilaria -
disse numa expansão.
A experiência de Diana fê-la compreender que nada mais ouviria
sobre o assunto. Não era do agrado do sheik falar de si mesmo ou
exagerar o que ele considerava ninharias.
Ela acompanhou-o até o divã, onde se acomodou.
- Achaste o que procuravas, senhor? Queres contar-mo esta noite,
ou estás cansado demais? - perguntou hesitante, notando pela primeira
vez, à luz da lâmpada, quanto os seus olhos pareciam enfraquecidos.
Ele apertou-a nos braços, atraindo-lhe a cabeça.
- Estou cansado - concordou, em tom que mostrava que tão
pequena concessão lhe custara um penoso esforço. - Estou tão cansado
que acredito que vou dormir uma semana inteira - volveu meio
envergonhado - mas posso contar-te um pouco esta noite, até Gastão
chegar. Ele me trará alguma coisa que comer. Há dois dias que não sei
o que é isso.
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Riu-se novamente ao ouvir a exclamação de espanto que ela
soltou, e procurou outro cigarro.
Durante momentos ele ficou sentado em silêncio. - Sabes o que
fui procurar - disse finalmente. - Foi a origem desta estranha
inquietação, deste inexplicável desassossego que se apoderou de todo o
país. Assim vinha sendo há muito tempo. Começou, tanto quanto posso
saber, há muitos meses e Deus sabe quanto tempo antes. A princípio,
eram vagos rumores que rebentavam de todos os lados, tomando, por
último, uma expressão definida. Por toda a parte aonde eu ia, era a
mesma coisa. Parecia-me alguma influência misteriosa e sinistra
distendendo-se por todo o país, estimulando o povo para um propósito
que ele não podia discernir. Velhos ódios reviviam, velhas reivindicações
ressurgiam. Mas não eram somente questiúnculas antigas que
levantavam as tribos. Deliberaram um levantamento contra os
franceses. Ouvi anciãos pregando um jedah. Urdiam-se histórias de um
povo oprimido. Impostos que dantes se consideravam razoáveis foram
discutidos e proposta a sua rejeição. Ouvi narrativas que tinham o sabor
duma fantasia mórbida. Falava-se dum conquistador que vinha do Norte
para subverter a administração actual e dominar o país como Sidi Okba
ben Nafi, quando trouxe o Islão para a Argélia.
«O seu advento é tido como o milénio, que descerrará a cortina
duma pátria de prosperidade e liberdade sem limites. Todos os
estrangeiros e todos os que simpatizam com os estrangeiros seriam
expulsos e a Argélia seria dos argelinos - não franco-argelinos, como
compreendemos o termo, mas árabes, bem entendido. Como isso
poderia acontecer com a dominação de outro conquistador estrangeiro,
é coisa que não me é possível compreender. Tudo isso é absurdo e
contraditório até o infinito. Mas é o boato que circulou e sobre isso todos
argumentavam e especulavam. Era um vento de maldade que soprava
sobre o país, como na Índia antes de Mutiny. As suspeitas avolumavam-
se e ninguém sabia em quem confiar, em quem acreditar.
O sheik calou-se subitamente, com o rosto endurecido. E,
conquanto as revelações feitas a aturdissem, Diana
65
sentou-se, patenteando irresistível interesse por descobrir o
sentido das palavras ditas. Era, pois, pior do que ela imaginava. Que
resultaria de tudo isso?
- Foi isso somente o que descobriste? - perguntou num murmúrio.
- Não! Descobri mais algumas coisas - volveu ele vagarosamente.
- Descobri algumas coisas que serão deveras desagradáveis para certas
pessoas, se o governo francês tiver conhecimento da tempestade que se
prepara. Há um facto de que cheguei ao conhecimento, após aturadas
pesquisas, e vem a ser, em toda a sua natural brutalidade, o seguinte: o
povo está sendo excitado por agitadores a soldo dalgumas nações
estrangeiras. Não pude chegar ainda à raiz de tudo, mas já estou nas
pegadas dos demónios que engendraram toda essa trama - acrescentou
num tom de voz que a encheu de terror.
Ela tinha-o de volta, mas horrorizava-se com o resumido relato da
obra perigosa em que se aventurara. Afugentou de si os pensamentos,
disposta a ser feliz enquanto lhe fosse possível.
- Mas como chegaste a saber isso tudo, Ahmed? És muito
conhecido. Como conseguiste que falassem tão abertamente? -
perguntou espantada.
Ele mostrou-lhe as vestes sujas do disfarce que usara no
desempenho da missão a que se votara, vestes essas tão diferentes das
ricas e limpas que sempre usava.
- Eis aqui os meus trajes - disse com acento infantil - e dá graças
a Deus por me haveres encontrado somente depois que lavei a
imundície que havia no meu rosto. Representei o papel dum errante
menestrel, um domador de cavalos e um santo - um nojento homem
sujo, ma mie! Havia vezes em que não sabia se te desejava mais do que
a um banho - acrescentou, calando-se, porque Gastão chegava com a
ceia. Ela compreendeu que de momento nada mais podia esperar dos
seus lábios e que ele tinha dito tudo o que poderia dizer naquela noite. E
estava tão contente que de bom grado deixaria o resto para depois. Era-
lhe bastante saber que ele ali estava salvo ao seu lado, ao menos por
algum tempo. E mais alguma coisa a fazia guardar silêncio enquanto ele
66
comia aquela rápida refeição que lhe fora posta. A despeito da
felicidade que sentia, ela temia a pergunta que ele inevitavelmente lhe
faria.
Ele levantou-se finalmente e, chegando-se a ela, arrebatou-a nos
seus braços, com os olhos negros a reluzirem como se procurassem
alguma coisa oculta nos dela.
E as suas palavras trémulas ruborizaram-na. Trémula também, ela
encostou o rosto dele ao seu peito, sussurrando coisas incoerentes. Mas,
com um macio riso de satisfação, ele levantou a cabeça, forçando-a a
corresponder aos seus olhares apaixonados.
- Depois de tantos anos, Diana, ainda és uma criança. Não
cresceste ainda, minha esposa?
E, com outro riso, deixou-a ir e voltou-se para apagar as
lâmpadas.
- Creio ser inútil perguntar-te porque encontro a tenda
resplandecendo de luz a esta hora, mas com humildade te pergunto se
dormiste enquanto estive ausente ou se trocaste as noites pelos dias.
Que fizeste, ma mie, daquele menino que deixei para te fazer
companhia? Creio que ele não te fez perder muitas horas de sono por
minha causa.
Foi o silêncio e alguma coisa que lhe baniu do rosto o sono que lhe
emprestaram à fisionomia algo que a fez mudar completamente de
expressão. Ele despiu o velho albornoz com um gesto de raiva.
- Onde está o rapaz, Diana? - disse em tom incisivo, esperando
em vão uma resposta. - Responde-me!
Era a velha voz de comando a angustiá-la tanto como se durante
muitos anos não a ouvisse, os olhos cheios de lágrimas e as mãos
levantadas para ele num gesto de misericórdia implorada.
- Não sei, Ahmed, e nem quero saber! - gritou com um gesto de
desespero.
Ele apertou-a, beijando-a com irresistível ternura.
- Pelo amor de Deus, não grites, querida. Nem hoje nem em
qualquer outra noite. Não estou a censurar-te. Mas avisei o rapaz antes
da minha partida. Fi-lo compreender que era o responsável, grand Dieu,
e deixei-te ao seu cuidado!
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- Mas Ahmed é ainda uma criança. E há Yusef e Gastão...
O sheik balançou iradamente a cabeça.
- É um homem já, Diana! - replicou com súbita dureza - e terá de
responder por isto como homem. Bon Dieu, se ele tem tão pouca noção
da honra, tão pouca noção da decência!... Há quanto tempo partiu ele?
- Seis semanas - ciciou, tremendo.
- Quem foi com ele?
- Ramadan e S'rir.
- Um trio completo - ironizou com um sorriso amargo.
- Sem nenhuma outra escolta? Quando ele sabe em que estado se
encontra o país. Que imprudente!
Ela desfaleceu e agarrou-se a ele, com um suspiro.
Soltando uma praga ele agarrou-a nos braços e carregou-a pelo
quarto.
- Não te apoquentes, querida - murmurou, deitando-a no leito. -
Ele voltará sem novidade. É assim que fazem os carneiros negros. Sei-o,
porque também já fui assim. Deus me ajude, Deus o ajudará -
acrescentou, despindo-se.
III
A paz do céu pousava sobre o único hotel que existia na pequena
cidade árabe de Touggourt.
Na fria, sombria sala de entrada, o forte patron francês,
resguardado por sua caisse, estava enterrado em pretensiosa cadeira de
braços, roncando sonorosamente, com a enorme cabeça coberta por um
lenço de seda de cores berrantes, que ondulava maciamente ao sopro
da respiração pesada do hoteleiro.
Por uma janela aberta, que do lado oposto à caisse levava a um
quarto grande que era meio salão de jantar, meio de recreio, provinham
sons semelhantes, de uma soneca mais ou menos pacífica dum
numeroso grupo de caixeiros-viajantes que, bem alimentados e
cansados de outras sociedades, auferiam
68
as melhores vantagens duma estação de forçada ociosidade.
Perto da porta do salão, três ou quatro mensageiros árabes,
ligados ao estabelecimento pelos interesses de sua profissão, de
cócoras, as costas voltadas à parede, as cabeças caídas sobre o peito,
perdiam-se em insone meditação.
Do lado de fora o beco estava deserto. Durante uma hora nenhum
ser vivente passara pela frente do hotel, a não ser um gato que fugia à
perseguição de dois enormes cães famintos, sem raça, que se
entregavam àquele exercício venatório com entusiasmo. Um miserável
jumento, meio faminto, de ar tristonho, tinha vagueado pela rua toda e
agora parara por um momento em frente à porta do hotel, soltando um
zurro prolongado, de intensa tristeza, para depois prosseguir em sua
caminhada ziguezagueante, escarvando furiosamente o chão.
Em cima, no seu quarto particular, Raul de Saint Hubert estava
sentado a uma mesa grande e escrevia.
Durante as duas horas que haviam decorrido após o lanche, não
tinha deixado de trabalhar, a não ser para acender um ou outro cigarro
e juntar mais algumas pontas à pilha que se amontoava no cinzeiro e
para responder brevemente, às vezes por monossílabos, às perguntas e
observações dum baixo e bonito rapaz que dormitava numa cadeira ao
pé duma janela aberta. Essas interrupções, contudo, estavam a tornar-
se cada vez menos frequentes e por último cessaram, convencendo-se
Raul de que o seu companheiro dormia a sono solto. Mas Caryll João
Aubrey, visconde de Caryll, estava longe de dormir.
A barba firme sobressaía, as sobrancelhas cerravam-se em
formidável carranca que lhe era o único ponto de parecença com a
família de seu pai, e o visconde estava mentalmente passando em
revista uma situação que a cada momento mais lhe parecia insípida,
desagradável.
Odiava a necessidade que o tinha arrancado do país em que vivia,
onde tudo lhe parecia bom e onde residiam os seus interesses e,
amargamente hostil ao pai que para ele não era mais que uma como
reminiscência da fantasia, deplorava a
69
cada minuto estar fora da Inglaterra, e lamentava ter-se
empenhado na empresa em que se metera e pela qual era o único
responsável. Tinha procedido bem? Ou tinha sido somente um louco
inconsciente, por demais escrupuloso?
Semanas a fio vinha fazendo essa pergunta a si mesmo, sem
poder chegar perto da solução do problema. Ouvindo agora o ruído que
fazia a pena solícita com que Raul escrevia, achou-se de novo às voltas
com essa obsessão e carregou ainda mais o cenho.
Estava, porém, convicto de que procedera bem. E, graças a Deus,
estava seguro das suas razões. Não fora o interesse próprio o que o
trouxera à Argélia. E, estando aqui, o negócio tinha de ser levado ao
fim, fosse agradável ou desagradável, e por enquanto poderia
descansar.
Resolutamente desviou a corrente dos seus pensamentos,
ladeando a dificuldade com uma presteza que era o resultado dum
treino deliberado.
Era modesto demais para admitir, mesmo de si para si, que um
nítido sentimento do dever o tinha impelido para um caminho que,
agora, no seu próximo término, lhe causava profundo aborrecimento.
O dever sempre fora a força motriz da sua vida. Imbuíra-se dele
desde que se sentira com idade suficiente para compreender alguma
coisa, isso juntamente com um elevado sentimento das suas obrigações
morais e das responsabilidades a que o céu fora servido chamá-lo.
E ignorante, como era, da tragédia que havia abalado a vida do
avô, jamais lhe perpassara pela mente a ideia de que a cuidadosa
educação que recebera era um dos muitos meios pelos quais o coração
quebrantado do ancião procurara reparar os seus próprios desatinos.
O seu crescimento fizera-se em condições excepcionais. Desde a
infância ordenada e metódica, a constante companhia daquele velho
tinha fortalecido os seus preconceitos e tinha-lhe imprimido um ar de
gravidade que não condizia com o verdor dos seus anos.
Não tendo conquistado lauréis académicos e não tendo muita
destreza nos jogos, era, contudo, popular e querido
70
como um bom desportista. A sua carreira em Eton não fora cheia
de peripécias. Sempre preocupado com o precário estado de saúde do
avô, pouco frequentara escolas, para se lançar, de coração, na tarefa
que era o objectivo da sua vida.
Era trabalhador tanto por instinto como por educação e durante
dois anos tinha trabalhado como um escravo para se assenhorear das
minúcias da administração dos vastos territórios que considerava como
um depósito sagrado.
Manter as tradições do seu nome antigo e ser um proprietário
modelar, eis em que consistia a sua única ambição, ao mesmo tempo
que só nos desportos encontrava alguma distracção.
E era nesse seu único divertimento que pensava enquanto Raul
escrevia. Até o desporto lhe faltava neste pobre país - pensava, a mente
submersa na saudade da sua espingarda de caça, que deixara solitária
no seu quarto na Inglaterra.
- Espera até estarmos mais longe no sul. Sentia-se cansado dessa
reiterada observação. Tudo estava bem para aquele pachorrento tio
Raul, que não perdia momento algum para prosseguir na sua
interminável escrita, qualquer que ela fosse - pensou consigo. - E o tio
Raul era francês e era difícil supor que um francês fosse tão activo como
um inglês. E, entretanto, isso não era exactamente verdade - continuou
Caryll nas suas divagações, renegando o criticismo mental com um olhar
contrito para aquela figura sentada à mesa. O tio Raul era um
desportista tão arrojado como os que mais o eram. Era só esperar,
esperar até que chegassem «mais longe no sul». Mais longe no sul! Oh,
sul maldito! E ele que pensava que havia batido àquela porta só por um
ou dois dias! O famoso sobrecenho de Caryll carregou-se mais ainda ao
galopar de intrusos pensamentos que turbilhonavam na sua mente
agitada. Foram as taciturnas passadas do pobre jumento que vieram pôr
fim às suas penosas reflexões. Com uma imprecação desceu ao estreito
balcão que se projectava da janela e chegou à rua.
O rosto anuviou-se-lhe ao ver o pobre quadrúpede prosseguir,
faminto, o caminho que levava à praça do Mercado, então vazia.
71
- Quase morre de pé e ninguém se apieda dele - murmurou com
ira. - Que terra, meu Deus! Que povo, Deus meu!
Condoía-se muito daquele animal e, praguejando, tornou a
recolher-se ao seu quarto.
- Quanto tempo mais teremos de esperar neste buraco que Deus
esqueceu?
Foi um tanto neste tom que se dirigiu a Raul, que, mirando-o por
cima do trabalho em que estava empenhado, o fitou sem responder. E
quando falou não foi para responder à pergunta:
- Que é que agora vos apoquenta, Caryll? - inquiriu calmamente
com simpatia e, contrariamente aos seus hábitos, em língua inglesa.
O rosto do jovem corou e os seus olhos irados submeteram-se ao
interrogatório de Raul.
- Oh! Sempre a mesma coisa - resmungou com impaciência, como
se estivesse meio envergonhado dos seus próprios sentimentos,
tipicamente inglês na relutância em admiti-los. - Um pobre bruto, um
jumento, que seria obra de caridade matar com uma bala.
A sua voz foi tomada de súbita indignação.
- Porque será que o diabo não arranca de tal miséria estes
desgraçados animais? Este lugar é pior do que qualquer outro em que
tenhamos estado. Preciso sair daqui, senão adoeço. Bom Deus! É
revoltante, execrável! Por amor de Deus, porque não deixamos esta
cidade idiota?
Raul fez uma careta e pôs-se a coordenar a papelada que enchia a
mesa. Dotado de sentimentos humanos, mas endurecido para os
quadros tristonhos que o outro achava insuportáveis, procurou evitar o
reinício duma controvérsia já tantas vezes surgida.
- Não posso dizer mais do que já disse - redarguiu pacientemente
- e não podemos sair daqui sem saber para onde. Devemos esperar até
que nos cheguem notícias sobre o lugar em que está agora o
acampamento. Devemos estar prontos para partir logo que tais notícias
cheguem - continuou, empilhando as folhas de papel escritas e
balançando-se na cadeira enquanto acendia outro cigarro.
72
«Em vista das recentes desordens, as autoridades estão a negar
licença para quem quer que seja seguir para o sul. Considerai os
protestos desses caixeiros-viajantes lá em baixo, que tiveram ordem de
deixar o sul imediatamente.
«Somente por causa de vosso pai ser muito conhecido, e por
minha causa, porque também sou mais do que conhecido, nenhuma
dificuldade nos foi criada. Mesmo assim, o comandante insiste em
mandar connosco uma escolta até encontrarmos gente de vosso pai. Eu,
pessoalmente, não acho que isso seja necessário, mas o coronel Mercier
está mais ansioso do que nós de evitar alguma contrariedade e de nos
facilitar tudo que seja possível.
Disse isto e olhou profundamente para o companheiro.
- Penso que ignorais qual é aqui a vossa posição - continuou
vagarosamente. - Neste país é alguma coisa ser filho de Ahmed ben
Hassan. Tendes motivo para vos orgulhardes de vosso pai, Caryll.
Era uma provocação calma mas directa. E, embora esperasse uma
resposta desagradável, não estava preparado para a violenta explosão
que as suas palavras causaram. Como se Raul o houvesse ferido, Caryll
deu uma punhada violenta na mesa que estava entre ambos e o seu
rosto tornou-se lívido.
- Orgulhar-me de meu pai! - exclamou com calor. Orgulhar-me de
ter por pai um árabe híbrido!...
Nem mesmo a severa reprovação de Raul conseguiu deter o
dilúvio da amargura, que, recalcado durante anos, rebentou por fim.
Passeando pelo quarto com passo duro, irritado, Caryll fez com as
mãos um gesto de supremo escárnio.
- De resto, quem é ele? - indagou furiosamente. - E que fez
jamais para que dele se tenha orgulho? Devo ter orgulho de ele me
haver abandonado durante tantos anos? Orgulhar-me porque ele
quebrantou o coração do seu próprio pai deixando o pobre ancião
morrer sem ir vê-lo? Pensais que posso esquecer isso? Pensais que
posso esquecer a morte do meu avô e as suas palavras trémulas,
murmuradas no derradeiro instante: «Meu filho, meu filho!» Meu Deus,
como isso
73
é atroz! E ainda quereis que me orgulhe dele! Foi somente uma
fresta que me permitiu compreender a dor da vida do meu avô, quando
vi bem o que significavam para ele as vossas visitas. Infundia piedade a
agitação que dele se apoderava quando chegáveis e pior ainda vê-lo na
ocasião em que partíeis. E quando ficáveis connosco e sucedia estarmos
juntos no quarto, eu procurava ouvir-vos falar de meu pai, invejando-
vos porque podíeis vê-lo e eu não podia. E, então, amaldiçoava o
homem que fazia sofrer aquele nobre ancião. Meu Deus, como eu o
odiava! E pensais que me era agradável ser conhecido, toda a vida,
como «o filho daquele povo extraordinário que vive no deserto»? É
talvez uma amabilidade, mas eu odeio o convencionalismo. Já na escola,
por causa disso, a minha vida era um inferno que me acompanhou a
Eton. Cresci detestando as próprias sílabas do meu nome e o mistério
que o rodeava. Mas todos pareciam conhecer esse mistério ou
supunham conhecê-lo. Eu era apontado como uma espécie de raridade
aos ouvidos de outras mães e irmãs. Era «um dos estranhos Caryll» e
meu pai era uma espécie de estróina, que, por ter feito das suas, fora
expulso do seio da família. Como poderia explicar-lhes que era um chefe
árabe? Um chefe árabe, bom Senhor! Eu queria ser filho de pais
decentes, iguais aos outros, semelhantes aos seus concidadãos. Mas
isso não é o pior. Quem não sabe o que é a tagarelice das comadres,
que em mim viam o filho de um homem que... que...?
Sentou-se exausto, arrastou a cadeira para perto da mesa e
enterrou a cabeça nas mãos.
Era um desabafo franco, maior do que Raul podia esperar, apesar
de nunca anteriormente haver o magro, sensível rapaz, derrubado a
barreira de reserva que tinha levantado ao derredor de si, deixando nela
encerrados os seus sentimentos íntimos, sem jamais deixar sequer
entrever a morbidez chocante que lhe envenenava a vida jovem.
E agora, ante o seu encolher de ombros, viu-se Raul novamente
às voltas com o problema que durante tantos anos o perturbara.
Teria justificação que continuasse a esconder o conhecimento
74
que tinha, ou era seu dever esclarecer Caryll, como só ele poderia
fazê-lo?
O amor que ligava o avô e o neto era maravilhoso e para Caryll o
velho era o protótipo de tudo o que é recto e honrado. Deveria destruir
a fé do rapaz e derrubar o seu ideal, dando-lhe brutalmente
conhecimento de factos verídicos, de uma velha história de sofrimento e
maldade? Já uma vez tivera necessidade de contar essa história. Mas
Caryll recebê-la-ia como sua mãe a recebera? Daquela vez a história
fora contada para justificar o homem que era o melhor amigo de Raul. E
não havia agora a mesma razão, talvez maior ainda? Era impossível que
Caryll concordasse em ficar na ignorância, sem oportunidade para julgar
por si mesmo depois de conhecer os factos que haviam ocorrido entre o
pai e o avô.
Raul foi vagarosamente para o outro lado da mesa, mas, ao
colocar as mãos nos ombros de Caryll, foi tomado de chocante
indecisão, e reteve a revelação que estava prestes a fazer.
Ainda não. Esperaria um pouco mais, esperaria até que se
reunisse, como se projectava, a família, até que o jovem ficasse
conhecendo o amor de sua mãe e que um conhecimento melhor do pai,
que odiava agora, lhe facilitasse a narrativa. Mas tinha de dizer alguma
coisa.
- Meu caro rapaz - começou, para logo parar com hesitação.
E já sem sentir descanso para a cabeça entre as mãos, foi a voz
fresca de Caryll que se fez ouvir.
- Tudo está certo, tio Raul - disse, sacudindo-se, conservando a
cabeça nas mãos. - Entristeço-me de ter sido um tolo. Esquecei, peço-
vos. Tinha de falar, aquilo já durante anos me agoniava. E não me
fiqueis considerando um bruto. Compreendeis tudo. Tendes sido sempre
para mim um óptimo amigo.
A voz tremia-lhe horrivelmente na garganta. Levantou
subitamente a cabeça e agarrou a mão de Raul com tanta força que o
francês gemeu.
- Porque sois tão bom para mim, tio Raul? Porque
75
tanto fazeis por mim? Vós e aquele santo ancião conseguistes
fazer-me sentir a necessidade de um pai e fizestes-me compreender,
mesmo mais do que o possível, quanto ele me amava. Desejo dizer-vos
o quanto vos sou grato. Mas a minha língua trai-me e eu não sei
expressar-me. Tendes sido para mim mais do que um pai, tio Raul, e eu
gostaria, por Deus, que fôsseis meu pai!
Atrás dele, Raul de Saint Hubert permanecia silencioso, satisfeito
por o seu rosto estar oculto, em luta com emoções que quase o
estrangulavam.
As últimas palavras, que nada mais eram do que a expressão dum
afecto, assumiram uma significação mais profunda para aquele que as
ouvia. Seu filho, poderia ter sido. Era a imagem viva da mulher que ele
adorava. Esse pensamento era como uma espada levantada sobre uma
ferida aberta, gotejante. Os seus olhos negros encheram-se de dor e
teve de lutar de novo com o amor imperecível que há tanto tempo trazia
oculto, causando-lhe uma dor que nunca o deixava.
Durante vinte anos havia representado o seu papel e guardado o
seu segredo. Tinha permanecido como amigo dela.
Era o amor de Ahmed, não o seu, que ela queria. Satisfazer-lhe o
desejo do coração, era coisa que o levaria até a morte, mesmo que
fosse restituir aos seus braços o homem que tanto mal lhe fizera. E a
felicidade que constituía o objecto das suas orações chegara a ela, e a
felicidade daquele ser era para ele de mais valia que a sua própria.
Ahmed jamais suspeitara de coisa alguma.
Sem egoísmo, não havia amargura no coração de Raul e a sua
amizade ao sheik tinha resistido às maiores provas.
Amigo de ambos, visitava-os sempre que as circunstâncias e o
ânimo lho permitiam. E ninguém, a não ser ele mesmo, sabia a dor que
lhe causavam tais visitas.
Sempre as temera e ainda agora tremia à visita próxima, cobarde
e tolo que era! Fechou brutalmente o espírito ao presente, admirado de
Caryll haver falado tanto. A sua agitação passara despercebida.
Temeroso de si mesmo, temeroso duma situação que chegara
76
à máxima tensão, compreendeu que uma resposta banal seria a
única possível. Forçou um riso que, embora algo agitado, parecia bem
natural.
- Isso faria de vós um francês, quando não sois mais que um
súbdito de John Bull - disse vagarosamente. - O que dissestes
penhorou-me muito, naturalmente. Mas deixai de proferir palavras
molestas quando alguma coisa vos angustia. Esperai até ver vosso pai.
A sua sinceridade e a profunda admiração que transpareciam da
sua voz não davam azo a dúvidas. Caryll proferiu alguns sons
inarticulados e aproximou-se da janela aberta, ali ficando com as mãos
enterradas nos bolsos.
- Deve haver alguma coisa de bom nele - disse por fim - visto que
o acompanhastes todos estes anos. Mas sois seu amigo e isso torna-vos
suspeito. Não podeis vê-lo como eu o vejo e como os outros o vêem.
Deus sabe que não quero julgá-lo superficialmente, mas há muita coisa
que quero que me expliquem. Pouco sei. Sei somente que por qualquer
motivo, que ele conhece melhor que ninguém, toda a vida a tem
passado no deserto, como árabe, no meio de árabes. Que encontrou
aqui minha mãe e com ela se casou. Mas mesmo que ele prefira passar
por um potentado oriental e ser o chefe duma horda de ladrões sujos,
não pode afastar o facto de que tem responsabilidades e obrigações fora
da Argélia...
- Ele reconheceu essas obrigações quando vos enviou para a
Inglaterra a fim de o substituirdes - interrompeu Raul - e não podeis
lançar-lho em rosto porque com isso só tivestes a lucrar
consideràvelmente.
- Mas, bom senhor, é justamente isso o que eu discuto - replicou
Caryll, prontamente. - Está errado, fundamentalmente errado. Ele é
Glencaryll, não é? Não tem ele outros deveres além de o vir viver entre
estas bestas árabes? - rosnou com indignação, franzindo a testa em
direcção a Raul, que havia voltado para o seu lugar junto à mesa.
- Era ele mais velho que vós, Caryll, quando soube que não era
árabe e ouviu falar em Glencaryll - replicou Raul. - Nascera no deserto,
crescera no deserto e aprendera os seus deveres para com a tribo antes
de lhe passar sequer pela
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mente que possuía outra herança. O conhecimento disso veio
tarde de mais para poder influenciá-lo.
«Por instinto era um árabe, amava os árabes, e desde cedo se
educara para se conservar fiel àqueles de cujo seio havia surgido. Se
supondes que a coisa era fácil, estais enganado. Os homens da tribo de
ben Hassan são muito diferentes dos árabes que até agora
encontrastes. São um povo guerreiro, o que torna necessário que haja
um homem que governe. A vida do vosso pai tem sido árdua e
trabalhosa. E mesmo que não houvesse razões que o impedissem de
visitar a Inglaterra, duvido que fosse possível achar um político sábio
que o pudesse substituir.
O rosto atribulado de Caryll fez-se zombeteiro.
- Concordo plenamente. Que belo lugar para a gente viver! - disse
com ira mal disfarçada. - Mas, dado que tudo assim seja, presumo que
as mesmas razões se aplicarão à minha mãe.
Havia uma estranha mistura de sofrimento e provocação na voz
daquele jovem, o que fazia com que Raul compreendesse, mesmo mais
do que antes, quão profundamente enraizado e amargo era o
ressentimento que Caryll nutria contra os pais. A sua posição parecia-
lhe cada vez mais difícil e embaraçosa.
- A vida da vossa mãe também tem sido muito afanosa - afirmou
vagamente, traindo o desejo apaixonado de defender a mulher amada e
o temor de tornar ainda maior a injúria. - Mais afanosa do que podeis
supor. Ela tem trabalhado infatigavelmente para melhorar a sorte das
mulheres e crianças que a cercam. Por exemplo, foi graças inteiramente
a ela que a oftalmia quase foi extirpada da tribo.
- Os próprios filhos têm sido o alvo principal das suas actividades -
interrompeu Caryll com amargura.
O rosto de Raul encheu-se de ira.
- Serenai, Caryll - disse a custo. - Se tivesse havido necessidade
real, vossa mãe teria movido céus e terras para satisfazê-la. Mas na sua
vida não há sequer um dia de ociosidade. Sois tão forte como um touro
e duplamente sadio. Ora, sendo assim, nunca houve causa de ansiedade
a vosso
78
respeito. Não creio que vossa mãe jamais precisasse ver-vos. Esta
separação tem sido a única tristeza da sua vida. E, além de tudo, ela
não tem tido liberdade de fazer o que entende - acrescentou ainda mais
vagarosamente, com indisfarçável embaraço. - Vosso pai sempre esteve
muito ligado a ela e, naturalmente, ele tem os instintos do povo no meio
do qual habita. Ela nunca pôde ir ver-vos, isto é, nunca lhe foi
possível...
Raul gaguejava e Caryll despertou-o com cáustica presteza.
- Não batais nessa tecla, tio Raul, quereis dizer que ele não
consentiu que ela fosse...
Raul desviou o olhar. Sem desejo de prolongar uma discussão que
já tinha ido muito longe, e repugnando-lhe pedir desculpas pelo que lhe
ia no coração, respondeu com um rápido gesto de aquiescência, não
tomando em consideração os comentários que se sucediam.
Profundamente ligado a Caryll como era, e compreendendo
perfeitamente a dificuldade da sua posição, Raul começava a sentir a
dureza de uma situação que, desde o princípio, tinha sido insustentável.
A intolerância do jovem e os preconceitos britânicos que o
oprimiam, fazendo-o descortês, certa ocasião tinham sido minorados
numa breve permanência em Paris. Uma vez na Argélia, porém, tinham
novamente rebentado sem reserva. Durante a viagem de comboio a
Biscra e subsequente cavalgada a Touggourt, não tinha guardado
segredo sobre os seus sentimentos, criticando e condenando livremente.
Não encontrara beleza no país e parecia votar ódio aos seus habitantes.
Sob o seu pitoresco exterior ele só vira imundície e fealdade que lhe
faziam afastar-se fastidiosamente e evitar, tanto quanto possível,
qualquer identificação com aquele país.
E agora, quase no fim da jornada, a sua atitude ainda mais hostil
se mostrava.
A estada forçada em Touggourt, excitando-lhe ainda mais os
nervos agitados, mais fortes tornara os seus preconceitos e a sua
intolerância. Tinha sido reservado e nada
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cordial tanto com as autoridades militares francesas, como com os
chefes árabes locais, que tanto desejavam entreter relações com ele, e
muitas vezes o tacto e a paciência de Raul operaram milagres para
aplainar dificuldades e desfazer aparências.
E não tinha sido coisa fácil, pois que já no primeiro intercâmbio de
hospitalidade Raul tinha sido compelido a deixá-lo entregue aos seus
próprios defeitos. Não fora somente a necessidade de acompanhar
Caryll que tinha levado o francês à África. Viera também para realizar
uma empresa que muito de perto lhe falava ao coração e, imerso na
obra relativa a essa empresa, fechava-se sozinho no quarto horas e
horas, escrevendo por disfarce, e recebendo grande número de nativos
que tinha recrutado e de chefes e marabutos que fingiam de mendigos e
cuja imundície e andrajos provocavam no sobrinho o máximo desgosto.
E solitários vagabundos, não os considerava companheiros de modo que
nem o servo árabe de Raul e o mensageiro do hotel que os
acompanhara podiam reconciliar Caryll com o ambiente, nem suavizar-
lhe a índole. Era o pensamento de que tinha de deixá-lo de novo que
angustiava Raul, enquanto punha em ordem os seus papéis, deitando-os
num portefeuilles que fechou à chave, e que depois foi acomodar sobre
uma mesa ao lado. Depois dos seus desabafos, Caryll votara-se a
absoluto silêncio, sentado na cadeira de vime para onde voltou. Não se
movia nem levantava a cabeça quando Raul foi até a janela aberta e,
cruzando as pernas, falou, de costas meio voltadas para o quarto.
- Entristece-me ter de deixar-vos mais uma vez, meu caro, mas é-
me forçoso fazê-lo esta tarde. E à noite vou jantar com o cádi e com o
filho, que ontem vieram visitar-nos. Sei que não gostaríeis de ir comigo.
E como o cádi não tem intérprete francês, farei do vosso
desconhecimento da língua árabe uma desculpa suficiente.
Os seus esforços para fugir ao assunto das conversas anteriores
pouco resultado produziram. Ainda sentindo sangrar-lhe as feridas
abertas, as respostas sarcásticas de Caryll eram uma provocação para
novas discussões.
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- O meu irmão mais novo parecer-se-á com aquele sujeito?
Quase com a paciência esgotada, Saint Hubert sentiu a reacção do
temperamento, mas o riso que a observação lhe causou casava-se com
um sentimento de piedade ao fazer um paralelo entre o vigor atlético e
as sadias faces do Ahmed ben Hassan mais novo e a grosseira e
debilitada figura do jovem cádi, cujas feições pálidas e olhos sensuais
lhe haviam produzido no dia anterior impressão tão desagradável.
- Não vejo vosso irmão há uns dois anos - afirmou. - Mas, como já
vos disse, porque não esperais até poderdes ver e julgar por vós
mesmo? E porque fazer comparação com aquele infeliz rapaz? Em todas
as nações há degenerados. Tendes mesmo de confessar que, desde que
estais na Argélia, tendes visto inúmeros árabes de físico soberbo que
não envergonhariam qualquer país. Não críeis mais obstáculos, Caryll.
Vejo que o vosso ódio abrange tudo. Sei que tudo vos é difícil.
Provavelmente, tudo será difícil também para eles, isto é, para a vossa
gente. Devo acrescentar que também para mim assim é.
Caryll cruzou as mãos em sinal de contrição.
- Sou uma besta, uma besta quadrada - respondeu. - Porque não
me pondes umas palas, em vez de argumentar comigo? Mas aqui tudo é
inteiramente bestial. Odeio o país e odeio o povo que o habita. Cumpre
lavrar um e fornecer calças ao outro.
Raul riu-se e voltou para o quarto.
- Não sejais tão exigente - disse, bem-humorado - há gente limpa
neste povo.
- Não vi nenhum - principiou Caryll, e parou repentinamente, com
o rosto corado.
Mas Raul, que estava a procurar uma carta que tinha arrumado
mal, não notou a confusão e, depois de achar a carta extraviada, lançou
um olhar rápido para o relógio e fez um gesto de espanto.
- Caramba! - exclamou. - Não supunha que fosse tão tarde.
Preciso de correr. Tenho pena de vos deixar sozinho esta tarde, Caryll,
mas não há outro remédio. Tenho razões
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para não desprezar o cádi. Se sentirdes tédio após o jantar, há lá
em cima o patron. É boa pessoa e joga razoavelmente. Sei que o café
maure não tem atractivos - acrescentou. E com outro riso e um adeus
de mãos, deixou o quarto. Novamente o sangue se aqueceu no rosto de
Caryll, que sacudiu a cabeça iradamente quando se deteve ante a porta
que Raul havia fechado ao partir.
Não era Raul que o fazia irar-se. Era o conhecimento da sua
própria inconstância, o conhecimento de um novo interesse que nele
despertara, contrário às suas veementes asserções. Tal sentimento
apossara-se agora dele. Entretanto, rigorosamente falando, não se tinha
desviado da verdade, argumentava consigo mesmo. Tudo o que dissera
até aqui era exacto, não tendo de retractar-se de uma palavra sequer.
Mas ao mesmo tempo que odiava sinceramente o país e o seu povo,
certamente podia sentir compaixão pelo membro de uma raça que,
diferente dos outros, causava estranheza em razão mesmo dessa
diferença. Fora esse vívido contraste que lhe despertara a atenção e lhe
excitara o interesse.
Era, pois, somente piedade que sentia, a mesma piedade que
experimentara ao ver o mudo sofrimento de um animal torturado, o
pobre jumento que encontrara de manhã. E novamente se inflamou com
honesta indignação a outra lembrança que lhe surgiu.
Fora há mais de duas semanas.
Tinha partido a cavalo para Temacim, certa manhã, acompanhado
apenas de um criado inglês, e, cansado da intérmina e desagradável
estrada, fizera uma volta.
Entre os bancos de areia, depois dos Túmulos dos Reis, encontrou
um árabe gigantesco a espancar implacàvelmente uma rapariga magra
que, embora sofresse sem protestar o horrível castigo, procurava,
gemendo de dor, desesperadamente libertar-se do suplício.
Sem pensar nas consequências possíveis, esquecido das
reiteradas advertências de Raul, consciente apenas da ira e desgosto
que experimentava, Caryll galopou em direcção ao bruto e com a mão
aparou um golpe que ele ia desferir sobre a pobre pequena.
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O enorme chicote riscou o ar, apanhou o corpo do árabe, que
rodou nos calcanhares e procurou agarrar Caryll, soltando, ao cair, a
rapariga. Levantara-se furioso, com uma faca reluzindo na mão, e
lançara-se contra o intruso com o rosto horrivelmente contraído, os
olhos quase cegos de raiva. Esporeando o cavalo, Caryll evitou o golpe
terrível que o visava.
E, como nada mais pudesse fazer, o árabe abaixou-se novamente
na sela e brandiu o chicote, mas nesse instante chegou o criado que
viera com Caryll e que, em atenção a essa façanha, foi promovido de
criado a guarda pessoal; veio em auxílio do amo e carregou de rijo
contra o bruto, procurando derrubá-lo do cavalo. Perante o segundo
inimigo, o monstro fugiu ignominiosamente, correndo com rapidez
incrível, ao passo que o criado, com um alegre e estridente «Foi-se
embora», lhe correu no encalço até achar que a perseguição se tornara
desnecessária.
Apeando-se, Caryll procurou com dó a menina, que jazia imóvel
na areia.
Habituado a tratar com mulheres e admirado de a sua intervenção
não lhe haver causado mais mal do que bem, tocou-lhe nos ombros
receosamente, preferindo, mil vezes, estar dali distante algumas
centenas de léguas.
Estremecendo ao contacto das suas mãos, ela sentou-se
vagarosamente, olhando-o com uma espécie de estranho espanto, em
que não havia nem curiosidade nem medo. Não tinha gritado e não
havia lágrimas nos seus olhos. Somente um fio de sangue lhe escorria
dos lábios, mostrando que o suplício fora cruel.
A compaixão cedera, em Caryll, lugar à admiração.
Ele gaguejou algumas palavras sem muita esperança de que
fossem compreendidas. Mas ela respondeu em francês corrente, com
voz macia e cansada.
- Já estou habituada!
Ela habituara-se àquilo! Um ímpeto de ira o sacudiu. Tentou
interrogá-la, mas as respostas obtidas eram evasivas. Ela parecia
esmagada, indiferente tanto à sua intervenção como à sua presença. E
sem saber o que fazer, se retirar-se,
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se ficar, sofria por tudo aquilo, mas, como fora tão longe, reflectia
se não devia fazer algum esforço para lhe dar protecção posterior,
embora estivesse muito longe de perceber como deveria agir nesse
sentido.
De vez em quando, contemplava-a disfarçadamente, os seus olhos
irresistivelmente atraídos por ela, e ficara espantado da beleza não
comum do seu rosto, da pureza infantil da sua expressão e da fresca
doçura que parecia rodeá-la. Pobremente vestida como estava, mesmo
assim, do alto da cabeça aos seus pés pequeninos, ela era «limpa».
Foi a jovem que deu por encerrado o incidente. À volta do criado,
com um pequeno gesto gentil, mas inconfundível, ela despediu-se e pela
primeira vez murmurou algumas palavras de agradecimento. Nada mais
havia a fazer que partir dali e Caryll montou a cavalo novamente e
voltou ao hotel, ainda sem saber se procedera imprudentemente ou se
fizera a única coisa que podia fazer; sem saber se o marido, pai,
amante, o que quer que fosse o monstro, aproveitara a lição ou se
exerceria duplicada vingança sobre a sua vítima indefesa.
Doía-lhe lembrar-se da frágil rapariga nas mãos daquele infame
bruto.
Desde então vira-a e falara-lhe algumas vezes, em encontros
inesperados em vários pontos do país. E era sempre a mesma, tão
indiferente à sua chegada como à partida.
Recebia-o sempre como na primeira vez, fria e muda.
Não havia embaraço, nenhum traço de coquetterie feminina nos
seus modos e não deixava entrever nenhum sentimento sexual
enquanto falava com ele, parecendo que nem sequer reparava que um
era homem e outro mulher. Era coisa que ele não esperava de uma
mulher oriental. E, muitas vezes, ficava sem saber se a razão estava
com ele ou com ela e se o habitual enleio dela não seria a causa da
imperturbável e desapaixonada atitude que mantinha em relação a ele.
Mas, mesmo assim, havia nela uma coisa que não era humana.
Diferente de todas as crianças e mulheres que ele jamais vira, parecia
que lhe faltava vitalidade, que aquela estranha criatura só se movia
impelida por influências externas,
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que estava morta para as emoções. E havia um estranho ar de
atordoamento nos seus olhos, uma falta de vida nos movimentos, que
faziam dela um lindo e insensível autómato.
Nunca falava muito.
Fumando os cigarros que lhe dava, mantinha-se silenciosa durante
longos períodos, fitando o espaço extáticamente, como se os
pensamentos lhe voassem ao longe, se é que tinha pensamentos.
Todavia, sempre conseguira arrancar dela alguma coisa.
Sabia agora que aquele árabe brutal era seu senhor, a quem ela
muitas vezes chamava pai, para logo depois negar que entre eles
houvesse parentesco, que com ele havia ela viajado através de todos os
estados bárbaros, ajudando-o nos seus serviços, escravizada,
espancada e faminta.
Ficara a saber em que se ocupava a fera e certa vez viera buscá-la
com uma enorme serpente negra enroscada ao pescoço e o desprazer
havia cedido lugar à admiração ao ver a maneira hábil como ela tratava
o réptil repulsivo. A curiosidade crescera de modo a vencer-lhe a
repugnância e a arrastá-lo até ao horrível café maure, onde, com ofensa
aos seus sentimentos íntimos, se sentou para assistir a um espectáculo
que não lhe dava prazer, onde presenciava cenas que atraíam ao café
verdadeiras multidões de espectadores.
O café maure!
Caryll despertou da sua longa abstracção e sorriu.
Aquela partida do tio Raul, levando a espingarda, seria
propositada ou aquelas poucas visitas eram somente pretexto de
caçadas que Caryll, na primeira chegada a Touggourt, havia
enfaticamente condenado como insuportavelmente revoltantes?
Tinha ido com Raul ao café uma ou duas noites depois que
chegaram à cidade. Lembrando-se então do seu amargo criticismo e
meio envergonhado do impulso que agora o dominava, havia ficado
silencioso, como nas visitas subsequentes.
Mas o mensageiro árabe que viera com ele poderia facilmente
falar. E se falasse? Caryll levantou a cabeça com altivez. O tio Raul não
era seu guarda. E ele era senhor de
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si mesmo, com completa liberdade para fazer o que entendesse.
Tinha perante si a perspectiva de uma tarde solitária que deveria
passar de qualquer maneira e cá fora seria decerto mais interessante do
que lá dentro, naquele pobre hotel.
Com a espessa barba bem penteada, Caryll entrou no quarto
próximo para buscar o seu chapéu. Aí encontrou o seu criado, bem
parecido, bem disposto, dando mostras de estar gozando a Argélia tanto
quanto o amo a odiava. Estava de pé, no meio de uma montanha de
cartuchos, preparando a carga de um rifle. Voltou-se com respeitosa
saudação à entrada de Caryll.
- Estou a fazer do quarto um horroroso chiqueiro, senhor -
balbuciou, lançando um pesaroso olhar para o chão, que se enchera de
todo um arsenal de limpeza. - Há já muito tempo que ninguém limpava
estas espingardas. E vossa senhoria compreende que eu deveria aqui
fazer isso.
- Está tudo muito bem, Guilherme - disse Caryll com um rápido
sinal de aquiescência. - Quero somente o chapéu.
Guilherme lançou um olhar contrariado para as mãos e tossiu
embaraçado.
- Deve estar em cima da mesa, peço perdão a vossa senhoria -
balbuciou. E com o ar mais cândido do mundo, acrescentou: - Estou
cheio de azeite, senhor - disse, apanhando uma escova com que se pôs
a escovar furiosamente os dedos finos.
Caryll riu.
- Não é preciso incomodar-vos - disse. - Penso que ao menos uma
vez eu mesmo poderei pegar no meu chapéu. Se pudésseis, faríeis de
mim um paralítico, Guilherme. Não preciso de ama-seca - acrescentou
sorrindo.
Guilherme corou ainda mais e tossiu.
- O senhor Roberto, senhor... - começou.
Mas Caryll protestou com a mão, como se estivesse sendo
procurado por uma visão mental do velho e solícito criado do avô.
- Poupai-me o Roberto - ordenou. - Roberto é uma excelente
pessoa e sem dúvida vos deu muito conselho. Mas
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estais procedendo tão bem como ele, Guilherme. Se tivesse de
que me queixar, logo o diria. - E chegando à porta para sair, perguntou:
- Isto aqui é confortável? Tem tudo o que precisais?
- Sim, senhor. Obrigado, senhor.
O tom de satisfação que havia na resposta de Guilherme fez Caryll
olhá-lo com um pouco de inveja.
- Gostais disto aqui? - perguntou.
- É de primeira classe, senhor. É um circo perfeito este lugar. Não
que eu não gostasse de ir para diante. Não chegámos ainda bem ao fim,
não é verdade, senhor?
Havia tal animação na voz do criado que Caryll se voltou para o
fitar, ao deixar o quarto. O que de há muito temia era que Guilherme se
envolvesse nalguma grande aventura, nalguma experiência excitante de
que ele próprio gostaria de participar.
E Caryll invejou-o ainda mais.
Em baixo, o salão estava vazio e, satisfeito por escapar às
persistentes atenções dos mensageiros árabes que sempre se
mostravam excessivamente servis, Caryll saiu e dirigiu-se à praça do
Mercado. Era dia de feira e o grande espaço aberto estava cheio de
vendedores e compradores, de grupos de nativos que gesticulavam, de
pequenos jumentos sobrecarregados e de caravanas de camelos ao
serviço de homens de aspecto rude e selvagem.
Perto de montes de vassouras e escovas, expostos à venda, havia
bodes enormes e ovelhas que baliam, bandos de pombos brancos
arrulhavam e revoavam com ousadia aos pés dos transeuntes.
Multidões de compradores acotovelavam-se ao redor das barracas,
perto de vendedores de doces e vegetais, instalados em cima de panos,
no chão. O ouriço bravo, ubíquo, era encontrado por toda a parte,
arrojando-se pelo meio das turbas, impedindo a passagem dos
jumentos, metendo-se debaixo dos vagarosos camelos, lutando, caindo,
provocando inenarráveis contendas e agarrando vorazmente qualquer
coisa que lhe fosse oferecida.
Grupos de árabes, aos dois e aos três, amontoavam-se no
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meio da multidão, falando muito alto, indiferentes à babel que os
cercava.
Aqui e ali um chefe montado soberbamente e seguido por um
pequeno séquito, marchava através da praça, altivamente indiferente a
tudo que houvesse no caminho. De tempos a tempos um oficial francês
com bem talhado uniforme, constituindo uma nota distinta no meio
daqueles enormes albornozes, caminhava elegantemente em direcção
às barracas.
O coro de vozes era desafinado e o cheiro que se desprendia de
animais sem trato e de muitos seres humanos refractários aos banhos
enjoava as delicadas narinas de Caryll. Mendigos cantarolando as suas
eternas lamúrias passavam para diante e para trás com passos
arrastados, levantando pó e areia, e finalmente Caryll foi cair
literalmente nos braços dum cego de aparência feroz, que também
implorava «uma esmola por amor de Alá!», em tom que mais parecia
uma ameaça que um pedido.
Caryll encolheu-se, a resmungar, a um canto, para fugir a
desagradáveis contactos que lhe sujariam o casaco, e teve de afastar
energicamente vendedores de facas e pequenos utensílios, que se
amontoavam ao redor dele.
Fugindo ao imprudente caminhar de um camelo manco que se
sustentava sem firmeza sobre três patas, chegou em frente dum garoto
que fazia caretas junto a um montão de pêlos escuros, vestido de
andrajos gandoura. Examinando-se bem, aquilo não passava dum
jumento salpicado de sangue.
Molestado pelo pó, sacudido e comprimido pela multidão, Caryll
tratou de chegar ao outro lado da praça, onde um branco e aberto
parapeito dava para uma alameda de palmeiras que assinalava os
limites da praça do Mercado.
Aqui neste recanto relativamente vazio, achou um bendito espaço
banhado de oxigénio e por momentos ali ficou, contemplando o tumulto
por onde passara, esfregando a testa quente e hesitando se devia ou
não voltar para o hotel.
Permanecia ainda indeciso quando um grito rouco, que não
parecia humano, o fez tomar a direcção de onde partia aquele ruído
chocante, vindo ali a encontrar uma figura selvagem que desde logo lhe
chamou a atenção.
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Com olhar estúpido e a boca espumante, com o corpo seminu
apenas resguardado por pequenos fragmentos de albornoz vermelho
que algum dia pertenceu a um spahi, o louco ou fanático - palavras que
Caryll considerava sinónimas - pôs-se a sacudir os braços furiosamente.
Caryll já o tinha visto antes muitas vezes. Mas ainda não se
afizera a olhar aquela repulsiva criatura, nem a simpatizar com um
sistema que faz pública exibição da desgraça.
Para os árabes, de resto, a loucura tornava santo aquele infeliz,
mas o governo francês tinha obrigação de fazer alguma coisa em favor
dessa classe - murmurava para si mesmo, virando o rosto ao
espectáculo e mostrando no lábio superior um ar de desdém.
Ao virar as costas, a atenção foi-lhe atraída para uma densa
multidão que se comprimia em torno dalguma coisa que ele ainda não
podia ver.
Movido pela curiosidade, juntou-se à turba e, sem nunca saber
perfeitamente como, viu-se bruscamente admitido na roda de nativos
grosseiros. Não tardou, porém, a sentir o desejo de sair dali, maldizendo
a curiosidade que o fizera ingressar naquele meio.
- Outra vez os fanáticos, bom Senhor! - exclamou ao perceber um
«santo» com aparência de fantasma, que representava o seu papel para
ganhar algumas moedas, entregando-se a exercícios horríveis que em
certas fases do ano faziam parte das suas práticas religiosas.
A dose de coisas horríveis era suficiente para o dia, pareceu-lhe.
Tinha ouvido falar dos dervixes, da fraternidade dos Aissaonia e sabia o
que tinha de esperar, com os cenhos carregados e as mãos
mergulhadas nos bolsos, olhando com piedade as contorções e trejeitos
daquela figura semidesnuda, que, com duas lâminas de metal fino
enterradas nas faces, parecia atacada de loucura no meio daquela
multidão de curiosos, com a cabeça derrubada para trás, os músculos
do rosto e do tronco horrivelmente convulsionados, levantando uma
tocha que flamejava num suspiro lento através de cicatrizes que
denunciavam antigas lacerações.
Era o epílogo da representação, quase a concluir.
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Por mais alguns momentos o dervixe permaneceu como em
transe, os olhos semicerrados, em êxtase, palpitante e abrasado como
um animal em tortura.
Teve uma vertigem e caiu prostrado. Um espectador adiantou-se
para recolher numa rede aquele corpo miserável.
Caryll tinha visto mais do que o suficiente, mas sair daquele
círculo em arrebatamento era tarefa um tanto difícil.
Por último, forçou o caminho, toda a sua sensibilidade magoada,
furioso consigo mesmo. Havia no mundo alguma força que o obrigasse a
ver aquela cena horrorosa? Devia concordar que havia alguma coisa
desconhecida dele saía do ser daqueles imundos mendigos, tão calmos e
sossegados.
Caminhou apressadamente, mas tinha dado apenas alguns passos
quando uma mão o puxou pelo casaco, fazendo-o parar subitamente.
- Um guia, senhor, não precisa dum guia? Mostro-lhe Touggourt
inteira, senhor. Levo-o ao café maure, à noite. Verá as jovens
bailarinas! Que pedaços!...
A voz macia, sussurrante, em que havia francês de contrabando,
soou-lhe bem aos ouvidos e ele voltou-se para examinar o abjecto
sujeito que o fitava com um sorriso hediondo no rosto vicioso.
Os nervos de Caryll, já tensos, quase não puderam suportar esta
última provação.
- Não, não! Deixe-me! - ordenou, levantando os braços. Mas não
era fácil expulsar o homem. Impudente, lisonjeiro, seguia Caryll com
persistência, falando com volubilidade, até chegar a fazer veladas
sugestões que fizeram o moço esbugalhar os olhos e sentir forte calor
no rosto.
- Cala-te, besta imunda! Vai para o inferno! - exclamou irado,
desatento aos interessados espectadores que se haviam ali aglomerado
quase instantaneamente, acotovelando-se sussurrantes.
Brados de animação e gritos de zombaria saudavam-no, pois que
a multidão, seguindo as pegadas de todas as multidões do mundo
inteiro, tomava partido na disputa, embora desconhecesse a causa que
a motivara, e gritava, gesticulava,
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grunhia à medida que a excitação aumentava e o interesse
pessoal dos dois partidos mais e mais se elevava. Era um pandemónio.
Empurrado de um lado e doutro, com uma porção de mãos a tocá-lo e
outras tantas vozes sussurrando ininteligivelmente aos seus ouvidos,
Caryll encarou a mole humana com mal contida raiva, deplorando a
indignidade da sua posição e pela primeira vez sentindo não poder
fazer-se compreender.
Não era temor o que ele sentia: era somente ira e um íntimo
sentimento de humilhação. Possuísse ao menos um rudimentar
conhecimento da língua, e teria posto o assunto em pratos limpos em
poucos instantes. Entretanto, naquelas condições, estava condenado a
suportar tudo, o que lhe chocava horrivelmente o orgulho. E não poderia
aguentar aquilo por muito tempo, reflectia, com o temperamento a
levantar-se num protesto. Não estava para ali ficar o dia inteiro como
um louco, para ser açoitado... Se não houvesse outro meio de resolver a
dificuldade, tinha duas mãos e podia usá-las, graças a Deus. Se alguma
coisa não acontecesse dentro de um minuto, teria de tomar uma decisão
e fugir dali - com dignidade ou não, pouco lhe importava.
Percorrendo com os olhos aquele oceano de faces excitadas,
deteve-se um instante, mas naquele momento a algazarra cessou
bruscamente e a multidão, que o cercava impedindo-lhe a saída, deixou
um espaço aberto diante dele.
Aquele espaço aberto foi ocupado por uma linha de cavalos
brancos formando uma ala que um árabe solitário atravessou com
grandes passadas vagarosas. Passando já da meia idade, alto e com ar
distinto, tinha um rosto grave e barbudo, sombreado por um haic de
neve. Do seu albornoz bordado a oiro pendiam medalhas. Aquele
estrangeiro não podia deixar de ser, a julgar pela aparência externa, um
chefe de elevada proeminência e o mais belo espécime da sua raça que
o jovem inglês jamais vira.
E, ainda ofegante e desnorteado, Caryll esperou a sua chegada
com um ar de ressentimento e gratidão. Mas mesmo esse ressentimento
não demonstrava desprezo pela cortesia que o visava. Com um rápido
salamaleque que não era um
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acto de deferência, mas simplesmente a polida saudação de igual
para igual, o chefe estendeu-lhe a mão.
- Senhor visconde, queira aceitar as minhas desculpas e esquecer
a rudeza dos meus patrícios - disse com voz lenta, bem modulada. -
Estas desagradáveis contrariedades ocorrem algumas vezes quando se
viaja. Eu também fui vaiado em Paris - acrescentou com um sorriso que
mostrava perfeitos dentes brancos debaixo dum bigode bem tratado.
Havia naquelas palavras alguma coisa mais que as maneiras
simples dum homem de voz bem educada, alguma coisa indefinível e
convincente que fez Caryll sentir que, a despeito da diferença de raça e
de cor, estava em frente duma pessoa da sua classe, de educação tão
elevada como a sua e com infinitamente mais tacto e savoir faire.
Os olhos sérios e bondosos que estavam olhando os seus fizeram
o jovem inglês sentir-se de súbito mais pequeno e enleado. E,
gaguejante, achou-se explicando com dificuldade a causa da desordem
ao novo amigo que tão prontamente havia chegado em seu socorro e
que parecia perfeitamente a par da sua identidade.
Touggourt em peso conhecia-o então?
Lembrou-se das palavras que pouco antes Raul lhe dissera e a
observação parecia-lhe agora que realmente exprimia a verdade. Era
aqui conhecido mais amplamente do que jamais suspeitara.
Desinteressado de si mesmo, nunca imaginara, mesmo por um instante,
que poderia ser objecto do interesse de outrem. Mas reconhecia agora
que era, de facto, objecto de interesse e foi com um sentimento de
humilhação que ele compreendeu que para aquele povo a sua única
distinção consistia na circunstância de ser filho do famoso Ahmed ben
Hassan. Esse pensamento era desconcertante e fê-lo andar
silenciosamente em demanda do hotel com o chefe emir com que
principiava agora a manter relações de amizade, ouvindo-lhe a palavra
fluente, com uma deferência que jamais mostrara a nenhum árabe e
admirando-se por estar na presença, como tudo mostrava, dum amigo
íntimo não só do sheik como de Raul de Saint Hubert.
Mas mais conhecedor, provavelmente, do seu embaraço
92
que o próprio Caryll, o chefe resolveu a dificuldade com aquele
tacto subtil que já antes revelara. Quando os dois chegaram à porta do
hotel, ele montou o magnífico cavalo branco que puxava atrás de si e
com reiteradas expressões de boa vontade e corteses palavras de
despedida desapareceu, seguido pelo séquito de auxiliares.
Quando Caryll subiu ao seu quarto entrechocavam-se no seu
íntimo os sentimentos mais díspares.
O incidente daquela tarde tinha sido um choque para ele sob
muitos pontos de vista. Consciente de que tinha representado a parte
mínima na rixa selvagem travada na praça do Mercado, o seu orgulho
ainda ardia à lembrança da triste figura que fizera aos olhos do digno
árabe que tinha acorrido em seu auxílio.
Era grato, naturalmente, a uma intervenção que o tinha salvo
duma situação penosa. Mas a essa gratidão misturava-se profundo
ressentimento. A despeito de todos os seus preconceitos e de todo o seu
ódio de raça, devia uma obrigação a um árabe. E aquele mesmo árabe o
tinha forçado a compreender o que nunca havia resolvido compreender,
tinha derrubado todas as suas preconcebidas noções e dera ao seu
espírito elementos que lhe desordenavam os pensamentos.
Não queria reajustar as ideias. Não queria dever obrigação a árabe
algum.
Estava ainda argumentando iradamente consigo mesmo quando
desceu, mais tarde, ao salão de jantar para tomar a sua solitária
refeição.
E sentado a uma mesa à parte, as costas voltadas à barulhenta
multidão de caixeiros-viajantes, nada lia no livro que estava aberto aos
seus olhos, mas continuava a argumentar consigo mesmo durante as
sucessivas fases do jantar, até que finalmente se encontrou olhando
vagamente para a xícara de café.
À noite, como nada o atraísse, com uma leve inclinação em
direcção aos ruidosos circunstantes, retirou-se para o quarto.
Acendendo um velho cachimbo, consultou o relógio.
Somente vinte horas, isto é, pelo menos duas horas mais
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cedo do que a decência lhe permitia que se metesse na cama.
Pondo de lado as grandes almofadas macias que estavam na cadeira de
junco, arrastou esta para perto da lâmpada e pôs-se ansiosamente a
ler.
O livrinho bem encadernado que tinha à mão era um tratado
sobre florestas, assunto que noutras ocasiões sempre lhe despertara
interesse absorvente. Hoje, porém, julgava-o intragável.
Procurando, como lhe era possível, concentrar a atenção, o seu
espírito vagueava, e entre ele e as páginas impressas interpunha-se um
tipo gracioso com uma cabeça delicada, uma face oval de olhos negros e
melancólicos, semiocultos por longos cabelos que se espalhavam pelas
faces morenas. Desesperado, deixou cair o livro na mesa. Há três dias
que não a via e agora, distante dela mais ou menos uma milha,
acreditava que provavelmente se estava preparando para divertir uma
sórdida canalha cuja simples proximidade era já um insulto. Como havia
ela podido conservar-se pura, virginal, em tal ambiente?
Pura e virginal, era assim que ele a queria toda a vida. Consultou
novamente o relógio, tremendo com o brusco impulso que lhe
sobreviera, e entrou no quarto. Depois de acender uma pequena
lâmpada eléctrica que trazia no bolso, envergou um sobretudo leve e
desceu rapidamente as escadas. Sons orgíacos ecoavam ainda no salão
de jantar. Só, no refeitório, o patron estava sentado à caisse, sorvendo
copos de vinho e somando cerradas fileiras de algarismos.
Quando Caryll apareceu, levantou-se com servil curvatura.
- Um guia? Num momento, senhor visconde... - disse
com respeitosa unção a que Caryll respondeu com um curto, seco:
- Não, obrigado!
- Mas, senhor visconde - protestou com as gordas mãos
espetando o ar. - Está escuro, isto aqui não é seguro e tem havido
desastres nas ruas à noite...
Mas Caryll saíra e ninguém ficara para lhe ouvir as oportunas
recomendações, senão um gato que a um canto
94
lavava imperturbavelmente o focinho, na pitoresca atitude com
que esses animais praticam a higiene. Então, sacudindo os fortes
ombros, como que declinando qualquer responsabilidade pelo que viesse
a acontecer, o patron lançou os olhos bem-aventurados para a caisse,
amaldiçoando a loucura dos ingleses em geral e deste em particular.
Fora, nas trevas, Caryll dirigiu-se à praça do Mercado. Não
procurou discutir o motivo que o levava novamente ao café maure.
«Mas que havia a discutir?», perguntou a si mesmo com brusca
irritação. «Era piedade e interesse o que sentia, nada mais que piedade
e interesse».
A praça estava menos frequentada do que de tarde, mas nela
ainda se agitava a multidão. O confuso arrastar de chinelas e o baixo
sussurro de palestras ao derredor prenunciavam desusada actividade
para aquela noite.
Com o chapéu desabado a cobrir-lhe os olhos, Caryll evitava os
transeuntes tanto quanto possível e, atravessando o espaço aberto,
chegou ao outro lado da praça sem que o
estorvassem.
Ali deteve-se por um momento. À direita estava um enorme
edifício, profusamente iluminado, no qual ele reconheceu as barracas. O
seu caminho era à esquerda. Até ali houvera luz em abundância, mas
agora diante dele só haveria trevas. Sentindo no bolso a lanterna
eléctrica, lançou-se confiadamente pela viela que levava ao café maure,
que ficava situado num extremo da cidade. Do outro lado dele
levantavam-se altos muros e atrás ficavam pequenos jardins em que
altas palmeiras se erguiam como torres, sobre figueiras e granadinas
cobertas de folhas. Estava muito escuro para as enxergar, mas podia
ouvir o vento sibilando pelos galhos daquelas árvores e o sussurro das
frondes secas das palmeiras. E, andando, percebia outras figuras
horríveis que por ele passavam, umas indo, outras vindo, e, acendendo
a lanterna eléctrica, procurou o caminho, cautelosamente, através das
trevas.
95
Tropeçou em qualquer coisa e quase caiu. Recobrando os
sentidos, acendeu a lanterna e maldisse a sua própria estupidez ao ver
o foco da luz alumiar dois trilhos de aço que cruzavam o caminho. Havia
esquecido a linha do «eléctrico» que, atravessando aquela rua estreita,
levava às barracas distantes. Devia ter-se lembrado. Ali hesitou largo
tempo. Decidido agora a fazer funcionar a lanterna, por ali andou
apressadamente até que a travessa terminou tão abruptamente como
havia começado, os muros do jardim fazendo ângulos rectos, deixando
um espaço aberto diante dele.
Perto podia ver a espessa contextura das sórdidas e pequenas
tendas em que se hospedavam as dançarinas que só ali achavam
agasalho em Touggourt.
Uns poucos passos além estava o café maure, esplendidamente
iluminado e do qual voavam os sons álacres de trombetas que tocavam
nas portas abertas.
Parou um momento, olhando para trás e para diante, onde jaziam
a vacuidade silente das dunas de areia e a estrada solitária que levava a
Temacim.
Puxando ainda mais o chapéu para os olhos, pôs-se a caminho,
quase esbarrando na esquina com a solitária sentinela sudanesa que
permanecia como uma estátua de bronze no ângulo do muro.
O café estava cheio. Pareceu até a Caryll que estava mais cheio
que de costume.
Deslumbrado pela luz subitânea, atravessou o sujo andar térreo e
foi tomar a cadeira que ocupava habitualmente. Aí tirou o chapéu,
acendeu um cigarro e olhou ao redor.
Uma sala longa e estreita, com paredes mal caiadas, era alumiada
por lamparinas baratas que esfumaçavam para o tecto coberto de teias
de aranha. No fim estava uma platibanda em que se colocavam os
músicos e os trombeteiros e uma meia dúzia de raparigas, com olhos
sonolentos, sob ténues vestes transparentes que mais pareciam sacos
pendentes dos ombros; perto da entrada havia bancos e pequenas
mesas de ferro, onde se sentavam os habitués, que bebiam café ou chá
com cheiro de erva-cidreira.
Quase atrás da cadeira que Caryll ocupou havia uma
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porta que levava a um aposento reservado - o quarto verde do
estabelecimento, que estava cheio de bailarinas e através do qual
passava uma verdadeira multidão de homens sedentos de prazer, que
frequentavam aquele meio.
Aliás, por todos os lados havia frequentadores. A classe melhor
era composta da escuma dos esgotos, soldados sudaneses e franceses
de qualquer classe, nómadas do deserto e, aqui e ali, europeus de
aspecto duvidoso - espanhóis a maior parte, e indivíduos de outras
procedências.
A expressão de todas aquelas fisionomias era idêntica. Era o vício
nas suas formas mais degradantes, mais repelentes. Era uma
viciosidade indisfarçável que parecia cochichar-lhe a cada canto da sala.
Com um pequeno, involuntário gesto de desprazer, Caryll voltou-se para
pegar na xícara de café que lhe fora colocada em frente.
A sua entrada parecia ter servido de calmante. O espaço
reservado às danças, no meio da sala, estava vazio; somente a obesa e
velha proprietária do café se mantinha no salão, discutindo
violentamente com um enorme flautista de olhos em cruz, que
finalmente a agarrou pela cintura e a arrastou até o quarto,
gesticulando e gritando.
Ela voltou dentro de poucos segundos, trazendo consigo um par
de dançarinas que se colocou no meio da sala, para iniciar as tediosas
evoluções duma dança dos Cabilas, que a orquestra acompanhava com
maior ou menor desafinação. Acompanhando os lânguidos, desgraciosos
movimentos, Caryll espantava-se sem saber como dança e dançarinas
tais logravam acolhida mesmo numa assistência por demais
complacente. Mas a verdade é que eram bem acolhidas, pois o sussurro
das conversas cessou e os olhos faiscavam intensamente, olhos
famintos, animais, que provocavam repulsa, olhos que causavam
náuseas.
O pesado e impaciente arrastar da sua cadeira no chão cimentado
constituiu uma como nota dissonante àqueles ouvidos encantados pelas
notas musicais que assinalavam o fim
da dança.
A orquestra invadiu o meio do salão, ainda ressoando
voluptuosamente, em busca de gorjetas, e as dançarinas meteram-se
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pelo meio dos espectadores até encontrarem indivíduos
complacentes que se dispusessem a pagar-lhes café e cigarros. Houve
nova calma. Conhecedor profundo do ambiente, Caryll pedira um café e
oferecera-o a um homem do deserto que estava sentado perto dele e
que parecia faminto.
Havia ali, naquela noite, muitos moradores do deserto. Verificou-o
quando os seus olhos percorreram a sala repleta. E a sala, que se
achava quase cheia quando ali entrou, nos últimos minutos acabara de
se encher.
Junto dele estavam dois europeus enormes, musculosos, bem
penteados, que ali não estavam quando começou a dança dos Cabilas.
Falavam bastante calorosamente e de vez em quando deixavam escapar
um som gutural que não lhe era possível compreender. Eram alemães
que falavam e Caryll julgava-os caixeiros-viajantes, que provavelmente
enchiam a Argélia como enchiam o mundo, vendendo óptimas e baratas
mercadorias. Ele sacudiu os ombros com ódio instintivo e virou-lhes as
costas. Pagou, então, uma segunda chávena de café que fora trazida
pelo solícito criado.
Houve mais um intervalo dalguns momentos e então a velha
proprietária emergiu do quarto de dentro e, meneando os quadris no
tablado, sentou-se atrás dos músicos, acomodando as gordas ancas,
lançando olhares e fazendo sinais com a cabeça, com evidente
excitação.
Houve o súbito atroar de sons discordes e desarmónicos, partidos
daquilo que ali estava a título de músicos, numa horrenda desafinação
de que sobressaíam os flautistas, que dos instrumentos arrancavam
notas que mais pareciam ecos distantes.
Seguiu-se um novo silêncio tumular. Um murmúrio de ardorosa
expectativa encheu o salão.
Vieram primeiro, dois rapazes negros, solenes, como pequenas
estátuas de ébano, trazendo consigo uma cesta bem coberta que
colocaram no meio do espaço vazio. Retiraram-se depois para o tablado,
onde se baixaram, ficando sem movimento, os braços envolvendo os
joelhos.
Então veio «ela», que avançava vagarosamente com uma
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olhadela à direita e à esquerda, com olhos semicerrados,
sonhadores, que pareciam não ver nada, e um rosto moreno,
inexpressivo. E, encimando-lhe o busto, o hediondo encantador de
serpentes, magro e de olhar repelente, os braços descarnados,
desnudos, o tórax apenas coberto pela cauda coleante duma enorme
serpente negra.
Foi o homem que começou a trabalhar. Mas, por extraordinário
que fosse o seu trabalho, não era ele que Caryll viera ver. Só olhava
para a rapariga encantadora que com ele trabalhava. Ela, porém, não o
sentiu nem viu, a princípio. Colocando-se perto dum dos rapazes
negros, ajoelhou-se no chão poeirento, desatenta, absorta, à espera da
sua vez de se exibir.
O aplauso que festejou o primeiro trabalho foi interrompido por
qualquer som na outra extremidade da sala. Mas o ruído, qualquer que
fosse, cessou logo. E, olhando para trás, Caryll apenas percebeu que
qualquer nova deslocação se fizera na assistência e que o morador do
deserto agora estava mais em evidência, emergindo no meio das duas
fileiras de espectadores, encostado às paredes.
Havia entre os assistentes uma porção de olhos selvagens -
notou-o ao examiná-los curiosamente - e provavelmente mais
entusiasmados pelo espectáculo que os habitués do café. Mas o
interesse despertado por aqueles homens evaporou-se logo, porque
chegara a vez «dela», que vagarosamente se levantou e lentamente se
dirigiu à enorme cesta fechada que o mouro vigiava, acocorado, com um
canudo na mão.
A música soltava agora sons graves, rítmicos. Por último, do
canudo que o encantador de serpentes segurava, partiu uma melodia
menor, que melhor se diria o assobio do vento. A tampa da cesta foi
afrouxada e caiu. De dentro saiu uma cabeça chata, lisa, com
mandíbulas abertas de que se projectava comprida língua. Levantou-se
mais e mais, arrastando enorme cauda em que finalizava um corpo
sinuoso, rastejante. Articulando-se de modo fantástico, o réptil
arrastou-se até o estrado da música. A jovem dirigiu-se para ela, com
uma das mãos estendida e a outra levantada para o tecto.
Com um silvo agudo, a serpente voltou-se hesitante para
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ela, avançando e recuando, e finalmente pulou para o seu braço
estendido, onde se enroscou. Dali, passando aos ombros, foi-se
enroscar no outro braço.
Por um instante, a jovem ficou rígida segurando o réptil; depois,
com um movimento rápido, sacudiu-o livremente, levantou-o pela cauda
e estendeu o corpo com ambas as mãos em cima da cabeça. E, pela
primeira vez, a rapariga levantou os olhos, para fitar o oceano de olhos
que ali estava. Mas o exame durou apenas um segundo.
Houve novo ruído perto da porta e um estremeção de fisionomias
lívidas. No meio delas Caryll, alçando-se nos pés, tinha o coração a
pulsar furiosamente.
Os homens procedentes do deserto haviam tomado posse da sala.
Armados agora com rifles que haviam trazido ocultos nas vestes, de pé,
pareciam formar uma muralha por entre os terrificados habitués do
café. O encantador de serpentes, a orquestra, os dois alemães e Caryll
contemplavam as armas de fogo e os rostos dos portadores, de dentes
arreganhados. Uma porta bateu violentamente e, tão subitamente como
nascera, o tumulto amorteceu e, no silêncio que se seguiu, Caryll ouviu
um grito agudo de mulher.
Possuído de temor pela jovem, que conheceu e amou no mesmo
instante, procurou aproximar-se dela, mas pesada mão de ferro o
arrastou para trás e, trémulo no meio dos nómadas que o seguravam,
sentia horrorosa agonia vendo a terrível mudança que se operara no
rosto da rapariga.
A serpente deitara-se aos pés dela e animada de novo, mas com
as feições convulsionadas de terror, ela esbugalhou os olhos, transida.
Havia um homem que a olhava. Um homem que se erguia erecto, costas
voltadas à porta fechada, que seguiu para a frente, vagarosamente,
movendo os passos com negligência e altivez por entre as fileiras de
nómadas lívidos, que, comprimindo-se, abriram espaço que lhe permitia
a passagem para o salão.
Moço, alto, de porte arrogante, o seu rosto agradável estava
marcado por uma cicatriz mal fechada que se insinuava pelas borlas
cetinosas do turbante, os cenhos carregados, tudo lhe dando uma
aparência sinistramente estranha.
100
Ele caminhava com altiva indiferença ao terror que inspirava, os
olhos ardentes fitos na jovem, que se contraía, trémula, à sua
aproximação. O salão mergulhara no silêncio, apenas interrompido pelos
passos do desconhecido. Os lábios da jovem tremiam quanto mais ele
se aproximava. Ao chegar perto dela, o homem deteve-se. Com um
suspiro de medo, ela caiu ao chão, cobrindo o rosto. E, como ele
estacara, bruscamente entre ambos se ergueu, ameaçadora, a grande
serpente negra, que assobiava sinistramente e nele bateu com a
hedionda cabeça. Com um fino sorriso, ele afastou-a e fê-la voltar aos
pés da rapariga.
Febricitante, agarrou a jovem pela cabeça e forçou-a, meio
desfalecida, a olhá-lo.
Durante um momento de ansiedade, encarou-a com fixidez.
Depois riu, um riso lento, cruel, que tinha tanto de amargura
como de triunfo, e enlaçou-a com um ar de subtil crueldade.
Aterrorizada ou inconsciente, ela permaneceu inerte. E por mais um
momento ele a apertou nos braços, fixando os olhos no salão, o revólver
tremulando-lhe nas mãos esguias, trigueiras. Houve um momento de
geral estupefacção, durante o qual os seus olhos esgazeados,
perpassando por entre as figuras impotentes, raivosas, dos mouros e
dos alemães impassíveis, tinham um relance de alegre desprezo, e
pareciam perscrutar Caryll.
Então, com um novo ar de mofa, levantou a mão e, acendendo a
lâmpada, bateu com a porta.
Enquanto percorria o salão, uma descarga pesada soou em
resposta e o salão ficou imerso em treva. No inferno de barulho que a
isso se seguiu, Caryll sentiu novamente os dedos de ferro que o
agarravam. Depois, braços vigorosos apertaram-no e, apesar dos seus
esforços desesperados, foi levado para um quarto escuro, onde ficou
mergulhado na fresca escuridão da noite.
Indiferente ao que a si próprio sucedia, pensando somente na
rapariga, lutou desesperadamente para reconquistar a liberdade,
tomado do indómito desejo de a salvar, se tal lhe fosse possível. Mas
enquanto lutava desesperadamente, o
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coração dizia-lhe que tudo havia chegado a um ponto inatingível à
sua intervenção, percebendo instintivamente que o que acontecia
naquela noite nada tinha de casual, que ali havia uma série de
circunstâncias que faziam parte dum mistério que ele não podia
esclarecer e que parecia envolvê-la sinistramente.
Era palpável que o audacioso assalto ao café havia sido planeado
e executado por algum interessado. Lia-se isso nos olhos assustados da
jovem.
Compreendia que o seu pequeno romance de amor chegara ao
epílogo, que ele estava fora desse drama do deserto. Posto que a
houvesse chegado a amar, nada tinha com ela. Não tomava parte no
esquema da sua existência. E agora afastara-se da sua vida, tão
estranhamente como nela penetrara.
Mesmo que estivesse livre para a procurar e encontrar, sabia que
todos os esforços seriam infrutíferos. E não estava livre.
Lutador que fosse, a sua força não era igual às forças combinadas
dos dois homens que, um de cada lado, o conduziam a caminhos
desconhecidos. E nada podia perguntar, porque mão grosseira,
musculosa, lhe fechava a boca. E quem quer que fossem, pareciam ter
olhos de gato, porque aqui e ali se desviavam de obstáculos que ele, na
escuridão, não notaria.
Por tempo que lhe pareceu interminável foi levado para diante.
Vencido e confuso, com o coração a bater-lhe ansiosamente, começava
a admirar-se da sua sorte, quando os homens pararam, lhe retiraram as
mãos das goelas e com grande espanto se viu à porta do hotel.
Não podia perceber como ali chegara, e aspirava o ar, procurando
interrogar os homens, que agora sabia amigos e não assassinos. Mas
um já havia desaparecido e o outro mergulhara na noite enquanto Caryll
o procurava com os olhos.
- Diga ao senhor conde que Daoud ben Ali pagou uma parte das
suas dívidas.
Esse recado misterioso retinia-lhe nos ouvidos ao entrar no hotel.
102
IV
Fora do café, o jovem Ahmed ben Hassan conservou-se um
instante nas trevas, ouvindo os sons do tumulto que havia dentro do
edifício, e olhando ao derredor de si. Depois arrancou dos ombros o
albornoz e com ele envolveu o corpo inanimado da rapariga.
Um sorriso bailava-lhe nos lábios ao tomar nos braços aquele
corpo delicado. Lançou um olhar para o local em que antes estava a
sentinela, não a encontrando. A densa escuridão nada permitia ver, mas
o silêncio que reinava no quarteirão mostrou-lhe que Ramadan e S'rir
tinham desempenhado bem o papel que lhes fora destinado para aquela
noite.
Apertando mais o peso leve que carregava, ele voltou-se e correu
em direcção aos Túmulos dos Reis, como que deixando Touggourt para
trás de si.
Era muito arriscado voltar pelo caminho por onde viera. Havia
outros caminhos e desvios que desnorteariam os que tentassem
acompanhá-lo e pelos quais poderia voltar à cidade. A noite estava
propícia. Durante mais de uma milha não afrouxou o passo, correndo
fácil e incansavelmente pelo chão arenoso, quase sem sentir o peso leve
da rapariga.
Desde que deixara o café não vira ninguém e estava certo de que
também não fora visto por quem quer que fosse. A pesada solidão do
local, a serena beleza da noite estrelada pareciam em estranha
harmonia com os seus modos. Semanas a fio havia entrevisto o que
significaria para ele aquela noite e o seu coração estava cheio de feroz
orgulho enquanto estugava o passo através da escuridão.
A despeito de dificuldades intransponíveis, tinha feito o que se
propusera. Estava cumprida a primeira parte da vingança.
Tinham sido Ramadan e S'rir que haviam tornado possível essa
almejada desafronta. Sem eles nada poderia ter
103
feito, porque sem eles nem sequer estaria vivo para cumprir o
juramento que tinha feito quando jazia amarrado e desamparado no
antro sórdido em que ambos foram encontrá-lo. Sabia sem a menor
sombra de dúvida qual teria sido a sua sorte se eles não fossem
arrancá-lo de lá. Tinha ouvido o suficiente e havia adivinhado muito
através das palavras dos homens que o haviam assaltado.
Não o salvassem Ramadan e S'rir e teria morrido no dia seguinte,
de maneira horrorosa.
A lembrança daquelas horas de infernal sofrimento ter-se-ia
apagado com a sua vida. Pensando nisso, o seu rosto suava. Quase
tinha perdido toda a esperança quando os ombros robustos de Ramadan
surgiram na pequena janela. Parecia-lhe que esperara uma eternidade,
sentindo a esperança desvanecer-se à medida que lhe cresciam as
apreensões, à medida que os dois irmãos forçavam a entrada. Quase
desfaleceu quando S'rir cortou as cordas que lhe atavam os membros
pisados e sem força.
Das poucas horas que se seguiram não tinha lembrança, como
não a tinha também dos sobre-humanos esforços dos seus salvadores
para fazer passar o seu corpo inerte pela estreita abertura, nem da
corrida a cavalo, nos braços robustos de Ramadan, enquanto S'rir os
seguia no cavalo que ele deixara amarrado e que os dois encontraram
seguindo em direcção à aldeia deserta de onde fora salvo.
Foi a dor de um ombro destroncado que o fez despertar. Depois,
teve de resistir corajosamente às tentativas dos dois homens para
convencê-lo a voltar ao acampamento do pai. Tinha feito um juramento
e nada deste mundo o desligaria desse juramento. E pouco a pouco
conseguiu convencê-los de maneira que passaram a nutrir um desejo de
vingança maior que o dele mesmo.
Mas o pronto e sumário castigo que eles propunham fora rejeitado
em favor de uma forma bem mais subtil e pitoresca de resposta ao
ultraje recebido. Mereciam a morte que sem escrúpulo queriam dar-lhe,
mas ele tinha alguma coisa mais particular a considerar no caso.
Com este fim em vista, tinha esperado pacientemente na
104
vizinhança dos seus inimigos e havia resolvido aguardar ocasião
azada para a realização dos seus planos. O tempo de espera, porém,
fora curto. Inconscientemente, o mouro caíra-lhe nas mãos. Com a
rapariga e os dois estrangeiros, havia-se escapulido no dia seguinte,
deixando sinais evidentes da pressa com que abandonara a aldeia em
que havia permanecido durante uma semana. E, passo a passo, o
pequeno bando havia seguido até Touggourt numa caravana.
Viajando sem criados, um camelo somente bastava para os dois
estrangeiros e um camelo e dois pequenos jumentos transportariam
todo o material e as provisões do encantador de serpentes. Para os bem
montados perseguidores a jornada era aborrecida, mas as curtas
caminhadas e longas paragens do bando maldito tinham dado tempo a
Ahmed para sarar dos maus tratos recebidos. Uma força renovada tinha
tornado mais firme a sua decisão.
Dia a dia antegozava o seu triunfo, cada vez mais próximo, e noite
após noite, enquanto o sono não o vencia, ficava, ouvindo o pacífico
ressonar dos seus companheiros, a planear a vingança.
Touggourt foi finalmente atingida. Não querendo mostrar-se desde
logo abertamente numa cidade em que era tão conhecido, antes de ali
entrar esperou que escurecesse, poucas horas após a chegada do
mouro.
Assim resolvido, foram hospedar-se na casa de um amigo árabe,
um moço de hábitos indolentes e gostos caros e cujas inclinações o
faziam morar mais em Paris do que na sua própria terra. O acaso
protegia Ahmed, pois fora encontrar o amigo em casa, embora estivesse
em vésperas de partir para uma das suas visitas periódicas à capital
francesa,
Depois de poucas palavras de explicação, casa e criados foram
postos entusiasticamente à disposição do árabe, manifestando o
hospedeiro tão-sõmente o desgosto de não poder ficar para tomar parte
numa aventura que tão fortemente lhe falava à imaginação, mais activa
que o seu corpo.
Em Touggourt, os criados do hospedeiro juraram guardar segredo
e Ahmed lá ficou escondido.
Não fazia parte dos seus projectos que as autoridades
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soubessem da sua presença antes de o plano de acção estar
amadurecido. A rapariga deveria ser segura antes de ele ajustar contas
com o mouro e seus apaniguados.
E de princípio a fim o golpe delineado fora executado mais
facilmente do que jamais sonhara. Com o auxílio de gorjetas liberais,
pagas com prazer, Ramadan e S'rir não haviam encontrado dificuldade
em reunir um magote de árabes legítimos, vagabundos, ardorosamente
entusiasmados por tal empresa, por ela visar directamente um mouro
errante, cujas opiniões religiosas lhes eram contrárias, e um par de
estrangeiros nojentos, que, como o seu assalariador, estavam ocultos
na cidade. De resto, naquele tempo, Touggourt estava cheia de
descontentes que teriam arriscado mais do que isso por amor do lucro
inesperado que tão facilmente lhes caía nas mãos.
Por intermédio de Ramadan e S'rir, Ahmed ficara sabendo o êxito
que o encantador de serpentes conseguira no café maure e pelos
mesmos soubera que a rapariga tinha permissão para andar livremente
pela cidade. Mas a ideia de a apanhar daquele modo fácil não lhe sorriu.
Tinha tramado uma vingança mais dramática e satisfatória.
Abertamente com a exibição da força de que podia dispor, poderia
apanhá-la mesmo aos olhos daqueles que dela se serviram como
armadilha para o capturar.
Feito isso, e não antes, trataria de recolher-se ao seu esconderijo
e saber alguma coisa mais dos movimentos dos estrangeiros cuja
misteriosa linguagem e comportamento tanta suspeita lhe despertaram.
Meras suposições não eram suficientes para movê-lo: precisava de
factos actuais - alguma coisa clara que pudesse confiar às autoridades
francesas e por meio delas satisfazer a sua sede de vingança, ao mesmo
tempo que prestaria bom serviço à administração pública.
Ele estava mais interessado que seu pai acerca dessa estranha
inquietação que parecia estar pairando sobre o país e a experiência pela
qual passara fazia-o pensar mais profundamente do que nunca.
Em busca de seus próprios prazeres havia surpreendido
106
um segredo que parecia cheio de sinistra importância, e a louca
aventura, em que tão imprudentemente se envolvera, tornara-se um
brinquedo que quase lhe custara a vida. Que tinha sido enganado por
outros, estava certo desde o princípio. Mas, trazendo à lembrança as
perguntas que lhe tinham sido feitas e as ameaças com que procuravam
extorquir-lhe declarações, tudo o convencia de que aquela ocasião lhe
proporcionara a visão de manobras que até agora permaneciam bem
escondidas, e que aquele trio híbrido estava de qualquer modo
tenebroso e imperscrutável em ligação com o mistério que se difundia
pelo país.
A sua reaparição repentina não deixaria de os advertir do perigo a
que estavam expostos e de os pôr em guarda. Mas agora tinha-os nas
mãos porque, a menos que os recursos lhes sobejassem e fossem
maiores que os seus, não poderiam sair de Touggourt sem seu
conhecimento. Tudo tinha acautelado. Dias e semanas havia estudado
planos e naquela noite colhia os primeiros frutos da vitória. Naquela
noite tinha nos braços mais uma vez a mulher que chegara a odiar, mas
que ainda desejava. Porque a queria? Porque a posse daquele ser lhe
parecia muito mais preciosa do que o castigo que queria infligir àqueles
aos quais ela servira de instrumento?
Nesta terra de amores tempestuosos e de paixões primitivas,
muitas mulheres eram punidas com a morte por muito menos do que
aquilo que ela havia feito. Mas ele não a queria morta. Queria que
vivesse para sofrer como ele sofrera, para que ela pudesse conhecê-lo
senhor e dono do seu destino. A nativa selvajaria da sua natureza era-
lhe superior e franzia o rosto perante ela e os seus lábios descerravam-
se num ricto de íntima crueldade. Percebeu que ela despertara do
desmaio e, embora nenhum ruído fizesse, sentia-a trémula nos seus
braços, sentia-lhe o palpitar apressado do coração que tão perto estava
do seu.
Podia temer aquela que fora tão traidora! Temesse aquela que o
condenara, com mentiras e beijos hipócritas, a uma morte quase certa!
Agora já não tinha ilusões sobre ela, ele, que fora tão tolo e louco. Não
a pouparia por amor
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daquela inocência infantil que aparentava com tanta arte. Guardá-
la-ia até que compreendesse a indignidade da beleza com que o
procurara enredar, guardá-la-ia até que o seu desejo desaparecesse - et
puis, bon soir! O seu rosto estava tomado de atroz ironia quando parou
no cimo de um banco de areia para olhar em redor.
Não muito longe, fogos mortiços de um acampamento de
nómadas indicaram-lhe a direcção da cidade.
Olhando para diante, caminhava com longos e rápidos passos,
passando por outros acampamentos solitários, que contornava de longe,
lembrando-se de que bravios cães de guarda poderiam ladrar se o
farejassem e fariam acordar os inquilinos adormecidos. A Lua nascia
quando chegou ao triste e pequenino cemitério europeu que dormia
desolado, em abandono, nas cercanias da cidade. Um tremor
involuntário perpassou-lhe pela medula ao contemplar as carcomidas
paliçadas e as sepulturas cobertas de areia.
Tinha encarado a morte recentemente, com a sua habitual
indiferença. Com a cabeça curvada, passou rapidamente. Chegando aos
muros internos de Touggourt, encostou-se à sombra das casas,
caminhando com cautela, sem que os seus passos fizessem barulho na
areia macia, movediça, os olhos firmes através das trevas, o coração a
bater mais rapidamente à medida que se aproximava do destino.
Certa vez, quase tropeçou no corpo de um ente humano que,
agarrado a uma porta, era quase invisível na escuridão. De outra feita, o
ladrar furioso de um cão fê-lo quase perder o ar. Não encontrou, porém,
outros vagabundos nocturnos e, palmilhando as ruas vazias e
silenciosas, chegou finalmente em frente ao portão maciço, de ferro, da
casa que procurava.
Abriu-lhe os trincos e fechou-o rapidamente, enveredando pelo
estreito corredor que levava a uma varanda, onde arbustos em flor se
alinhavam ao redor de uma palmeira solitária que alteava a cabeça
desfolhada para as estrelas brilhantes.
Cruzando o estreito quadrângulo coberto de telhas, passou por
uma pequena antessala, ornamentada de antigas
108
armas de fogo e acessórios de caça, e chegou a uma sala maior,
onde valiosos utensílios árabes e franceses se misturavam em alegre
camaradagem. Era uma sala mobilada com luxo enervante e
subtilmente sensual, em que parecia respirar-se uma atmosfera de
voluptuosa indolência.
Exalante de incenso e cheia de flores, ornada com grossos tapetes
de Guémar, em que morriam os passos dos que ali penetravam,
parecia, apesar do luxo com que fora cuidada, uma prisão dourada para
os filhos do deserto que nela entravam. «E prisão seria até estar
concluído o seu trabalho em Touggourt», pensou zombeteiramente. A
sala dava para um dormitório, de que estava separada por estreitos
arcos de onde pendiam cortinas sedosas.
Menor do que a sala contígua, estava mobilado com o mesmo luxo
e capricho, cheio de vasos e ornamentos orientais e europeus.
Neste quarto, nesta prisão dentro de outra, depôs o seu fardo,
descalçando-lhe os pés e libertando-a das dobras sufocantes do
albornoz. Cerrando os olhos à luz, estonteada e trémula, ela agitou-se
nervosamente, sem dar atenção ao que a cercava, os olhos medrosos
fitos no rosto sinistro, carrancudo, tão diferente daquele rosto juvenil,
de que tão bem se lembrava.
O espanto e a admiração pareciam confundir-se nela com o terror
que lhe convulsionava as faces ao encará-lo, levando as mãos à
garganta sufocada. Vagarosamente ela arrastou-se para mais perto.
- Penso, agora ainda, que foi o vosso espírito - murmurou, cheia
de medo. E, com um grito estrangulado, meio soluço, meio gemido, ela
esbracejou e saltou para junto dele.
- Eles disseram-me que estáveis «morto»! - exclamou. Mas a
brusca alegria que inundara os seus olhos desapareceu subitamente
quando ele se levantou em atitude ameaçadora.
Com um riso breve e penetrante afastou-se do alcance dos seus
dedos trémulos.
- Não morremos tão facilmente, nós os da casa de meu pai -
respondeu vagarosamente. - Vivemos para destruir
109
aqueles que intentam destruir-nos. Oh, imprudente menina, nunca
pensaste que algum dia cairias nos teus próprios laços?! Representaste
o teu papel somente uma vez, mas essa foi suficiente, pequena louca!
Ela pulou para trás com um gesto de espanto.
- Que papel representei? - perguntou em resposta.
Lançou os olhos, pela primeira vez, em derredor, rápida e
furtivamente, os seus olhos penetrantes e bravios, como os de um
animal preso na ratoeira. Ele seguiu-lhe o olhar terrificado com um
sorriso irónico.
- Aqui não há janela. É uma prisão mais segura do que aquela
para onde me levaste...
As lágrimas rebentaram-lhe dos olhos e ela ergueu as mãos com
desespero.
- Que quereis dizer? Oh, amor da minha alma, que fiz eu para
estardes tão mudado?!
- Que fizeste? - volveu ele. - Ainda o perguntas? Representaste
com tamanha perfeição o papel que eles te confiaram; tu que me
prendeste com mentiras, beijos e falsas juras de amor, até que eles
chegaram e te ensinaram a enganar e trair-me.
Com um grito de angústia ela lançou-se-lhe aos pés, envolvendo-o
com os braços.
- Nunca vos menti, nunca vos enganei, senhor! Embora não o
creiais, eu amo-vos!
- E quantas vezes amaste anteriormente? - retorquiu ele com
amargura. - Quantos homens enlouqueceste e traíste antes de me
enlouqueceres e traíres?
Ela tremeu violentamente, com um olhar de incrédulo horror a
nadar-lhe nos olhos.
- Pensais, então - murmurou, trémula - pensais então que vos
traí?
Ele fitava-a, imóvel, sombriamente.
- Não penso - disse duramente. E então a sua voz mudou
bruscamente. - Julgas que sou ainda o mesmo cego e louco que era? -
tornou apaixonadamente. - Digo-te, rapariga, que tive tempo para
pensar e lembrar, enquanto estava esperando a morte naquele antro
medonho para onde me
110
levaram. Ouvi o que eles disseram quando procuravam arrancar-
me revelações. Fiquei, então, sabendo de que espécie era o amor que
me dedicavas. Fiquei, então, sabendo porque vieste cair nos meus
braços naquela manhã, tu que dantes te mostravas tão recatada. Riste
quando te poupei por causa do meu amor - o amor que morreu quando
soube da tua traição. Por Alá! Nunca mais rirás para mim daquele modo.
Como sofri, assim também sofrerás, até que me canse do teu
sofrimento.
A sua voz era grossa e trémula de furor. Tremendo, ela
levantou a cabeça e fitou-o estranhamente.
- Não vos apiedais de mim, senhor? Não sofri já bastante? Não me
batiam eles quando eu chorava por vós, não me açoitavam quando não
me queria entregar a Alman, que me desejava? Ele jurou prender-me e
só me dar a liberdade em Touggourt. E eu, eu preferia morrer a
suportar-lhe a paixão. Como poderia amá-lo, quando só a vós eu amo?
- Amavas-me ou àquele elegante estrangeiro que ontem à noite
estava no café maure? Foi para falar-lhe no teu amor extinto que com
ele te encontraste nos lugares solitários de Touggourt? Isso
impressiona-te? - chalaceou. - Então, impressiona-te? Ou queres
prendê-lo, como a mim querias, para dar lucro ao diabo que te possui?
Ou ama-lo, mulher de muitos amantes?
Riu com crueldade.
- Nunca o amei, nunca amei senão a vós, senhor! Não acreditais?
- perguntou ela com aflição.
Com uma imprecação, ele afastou os dedos trémulos que o
apalpavam febrilmente.
- Nunca, por Alá! Nunca!
Mas, confiadamente, ela agarrou-se a ele, o peito estreitado aos
seus joelhos, a cabeça pendida, os olhos lacrimejantes esgazeados.
- Senhor, se eu jurar...
- Não jures! - bradou. - Não juraste anteriormente, e não foste
falsa?
E, afastando-lhe os braços, levantou-se.
Na perfumada atmosfera da sala contígua, ele ficou
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alguns instantes com as mãos ao alto, respirando com dificuldade.
Então, pôs-se a dar grandes passadas pela sala, caminhando para
trás e para diante com passo lento, silencioso, afastando as tapeçarias e
ouvindo os sons surdos que provinham de detrás das cortinas. Uma
onda de raiva perpassou-lhe o ser. Pobre louca! Pensava ela convencê-
lo com lágrimas e mais mentiras? Pensava salvar-se com protestos de
inocência? Pensava tentá-lo mais uma vez com a rara beleza do seu
rosto e das suas formas, para o seduzir como anteriormente o seduzira,
a fim de o fazer esquecer a sua vingança? A fé, tão cruelmente desfeita,
poderia renascer com tamanha facilidade?
Dera-lhe o seu amor e ela traíra-o. Nela confiara e ela mentira-
lhe. E agora, para evitar o castigo, mentir-lhe-ia novamente. Educada
na escola da mentira e da traição, falsa como já se mostrara, até agora
havia desempenhado o seu papel com consumada perfeição, chorando e
abraçando-o com um semblante de sinceridade que chegaria a
convencê-lo se não tivesse a guiá-lo a lembrança de anteriores lágrimas
e abraços, seguidos da traição. Pensaria ela que o amor ainda se lhe
aninhava no coração? Pensaria que ele era um grande louco? Era
necessária alguma coisa mais do que lágrimas e abraços para curar a
ferida que lhe abrira, para fazê-lo esquecer aquele breve sonho de
felicidade que, traído, lhe matara a ilusão, lhe destruíra a fé. O amor
fora-se. Só o prazer da vingança lhe restava. Com dedos trémulos,
acendeu um cigarro e deixou a sala, fechando a porta atrás de si. Na
pequena antecâmera encontrou alimentos que o esperavam. Mas,
demasiadamente excitado todo o dia, não lhe apetecia comer. Só sentia
uma sede abrasadora e bebeu chávenas sobre chávenas de café
escaldante, fumando inúmeros cigarros, enquanto, sentado à mesa,
olhava para a ceia intacta.
Por fim, chegaram Ramadan e S'rir, o primeiro com ar grave e
sério, como de costume, e o outro sorrindo o seu eterno sorriso
enigmático.
Pela primeira vez, ocorreu-lhe saber se as suas ordens,
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bem arquitectadas e severas, haviam sido executadas com rigor
ou se a ilegal quadrilha de sectários que ele havia congregado teria, em
momento de excitação, excedido as suas instruções, aproveitando a
oportunidade para auferir lucro pessoal, para praticar desregramentos
ou coisa pior.
Havia entre eles muitos que faziam vida fácil, muitos,
indubitavelmente, que tinham contas a ajustar com as autoridades, que
passaram a ser tidos como mãos-rotas de dinheiro, pelo menos no meio
da turba de frequentadores do café maure. Percebeu que havia passado
por um risco perigoso e tal pensamento enrugou-lhe as faces, ao voltar-
se para os dois irmãos a fim de lhes fazer um breve interrogatório.
- Nada de novo?
Ramadan sacudiu de leve a cabeça.
- Nada, senhor - respondeu com uma ponta de despeito na voz
grossa. - Tudo foi feito de acordo com as suas ordens, graças a Alá!
Haverá algumas cabeças feridas amanhã, mas isso não tem
importância. Nada se pôde fazer ao mouro, que combatia como dez
demónios, o cão infiel! Quanto aos estrangeiros, isto. - E colocou uma
volumosa agenda de algibeira na mesa. - Deixámo-los amarrados numa
vala, com uma faca perto deles. Libertar-se-ão antes de raiar a manhã.
Alá os amaldiçoe! Seria melhor tê-los matado, senhor. Eles envenenam
a terra.
Indiferente aos comentários do camarada, Ahmed pegou no livro e
analisou-lhe rapidamente o conteúdo. Mas aquelas folhas estavam
cheias de escritos numa linguagem que lhe era desconhecida, pelo que o
arremessou à mesa, deixando transparecer um gesto de repugnância, e
depois limpou os dedos como se houvessem tocado numa coisa imunda.
- E as sentinelas? - perguntou, olhando novamente para os dois
homens.
Desta vez foi S'rir que respondeu com um sorriso de prazer:
- Dormem docemente em lençóis de vinho, senhor. Ramadan teve
de chegar com alma, a esses negros de cabeça de ferro.
Ahmed deteve-os ainda algum tempo, ouvindo a narração
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de mais alguns pormenores sobre o trabalho da noite, Depois,
dando-lhes ordens para serem executadas no dia seguinte, despediu-os.
E durante muito tempo, depois que eles se foram, esteve sentado
à mesa e examinou o livro que arremessara entre os pratos e talheres.
Se esse livro contivesse o que ele estava convencido que continha,
quanto mais depressa fosse entregue às autoridades melhor seria, mas,
se estivesse em erro, devolvê-lo-ia ao seu legítimo dono - com elogios.
Mas estava certo de que não seria devolvido. Tinha profunda convicção
de que não se enganara em relação a esses estrangeiros suspeitos, cuja
presença constituía uma ameaça para a terra que ele amava. E para
servir o país estava disposto a arriscar alguma coisa.
Se a aventura daquela noite tivesse findado com perigo, sabia que
só uma coisa lhe restaria fazer: entregar-se ao comandante francês e
aceitar as consequências. Mas do modo como as coisas haviam corrido
não havia necessidade de medidas heróicas e as autoridades não
ligariam importância a um caso liquidado sem derrame de sangue. Se
algum mal lhe sobreviesse, era ainda tempo de ele ir fazer a sua
amende honorable.
Entretanto, o livro deveria ser remetido ao comandante no dia
seguinte, acompanhado de uma nota que poderia ser mais ou menos
ambígua. E no dia seguinte trataria de regressar à sua terra. Mas o dia
seguinte - amanhã - ainda não chegara. Uma tola vermelhidão tomou-
lhe a face requeimada de sol e, levantando-se, pôs-se a caminhar pela
sala contígua durante cerca de uma hora.
Dando passadas nervosas pela sala, com o coração a pular, não
houve canto que não percorresse.
Que o detinha? Que escrúpulo importuno lhe impedia o
cumprimento do seu firme propósito?
O amor morrera, mas o desejo ficara, desejo que lhe requeimava
o sangue nas veias, enquanto lhe dava força momentânea, artificial.
Logrando desfazer-se da paixão, a cor desapareceu lentamente das suas
faces, que empalideceram horrivelmente.
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Os seus olhos percorriam o quarto angustiosamente e de tempos
a tempos palavras desconexas lhe borbotavam dos lábios comprimidos.
Parou depois no limiar da porta de comunicação e ficou imerso
num olhar fixo, as mãos cruzadas nas costas.
De há muito havia arrojado de si o pesado turbante e a luz duma
lâmpada pendente projectava-se resplandecente nos seus cabelos
curtos, castanhos. O calor da luz, penetrando-lhe a epiderme, parecia
oprimi-lo e ele moveu a lâmpada ao mesmo tempo que arrancou do
corpo a sua curta jaqueta bordada e a camisa de seda que vestira antes
de iniciar a sua monótona viagem. Pôs-se novamente a caminhar, até
sentir os pés cansados. Então, com um suspiro, atirou-se a um divã,
apoiando a cabeça nas mãos.
Ela mentira-lhe... Então porque a pouparia?
Ela traíra-o... Porque não a puniria então?
Não sentiu piedade pelo desamparo dela. O que havia de
cavalheiresco no seu temperamento morrera com o seu amor.
Tinha feito um juramento e, por Alá, haveria de cumpri-lo! Que
escrúpulo poderia detê-lo? Que fizera ela para merecer misericórdia?
Ela pertencia-lhe... para fazer o que ele quisesse!
O domínio de si mesmo abandonou-o. Torturado pelo anelo físico
que já se estava tornando insuportável, tendo consciência somente da
necessidade avassaladora que o abrasara, caminhou com pressa, o
coração a bater e o pulso a fugir-lhe. Mas ao chegar à soleira do quarto
parou com as mãos crispadas, o rosto atormentado.
Então, com uma praga, afastou violentamente as cortinas.
A madrugada havia há pouco passado quando a deixou. Andando
silenciosamente, na ponta dos pés, padeceu por um momento, olhando
o quarto com ar cansado, esgazeado.
Ela dormia pesadamente, com graciosa inconsciência infantil,
tendo uma das suas delgadas mãos mergulhada na cabeleira negra
espalhada pelo travesseiro e a outra crispada a um lado, apalpando
maciamente a colcha de seda.
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Mesmo adormecida, o seu rosto era tristonho, murchos os lábios
entreabertos, os olhos ainda húmidos das lágrimas vertidas.
Ele curvou-se, fitando-a fixamente.
Quão jovem lhe pareceu e quão bela!
Mas para ele que valia aquela beleza? Alá misericordioso! Se
pudesse ao menos perdoar! Mas nunca perdoaria a traição!
Tremeu à lembrança da noite passada.
Que lhe tinham trazido aquelas horas de vingança?
Tinha feito o que jurara fazer - mas o prazer que antegozara era-
lhe agora negado. Ela pagara a infidelidade com lágrimas e angústias,
como havia prometido que ela lhe pagaria, e o seu triunfo tinha o sabor
de cinza na sua boca. Falhara a satisfação por que tanto ansiara e havia
no seu coração uma dor que ele não podia compreender. Com um pouco
de impaciência e um pouco de amargura, pôs-se a caminhar e retirou-se
do quarto.
A atmosfera da sala vizinha, pesada de incenso e do aroma das
flores emurchecidas, encheu-o de fundo desgosto.
Naquele momento, tudo daria para sacudir dos sapatos o pó de
Touggourt e galopar na limpa e doce frescura do deserto, para deixar
para trás tudo o que queria esquecer, voltando para casa como o filho
pródigo, para começar de novo a vida.
Mas a sua obra de Touggourt estava apenas em metade e ali, a
poucos metros, estava a rapariga.
Não podia, ainda, deixá-la ir-se embora. Queria-a ali ainda,
embora a odiasse!
O seu rosto sombreou-se ao curvar-se para retirar o albornoz do
cabide em que à noite fora deixado. Passou depois para a antecâmara.
Era muito cedo e por isso os criados ainda não haviam limpado a
mesa, de maneira que o livro de notas ainda estava no lugar em que
fora deixado. Pegou nele e com ele foi para a varanda e dali a outra
fileira de quartos, na outra ala da casa, que ele ocupara até a véspera.
Um banho, numa magnífica banheira de porcelana que
116
desafiava todo o conforto moderno, embora sem o necessário
suprimento de água, mas que na véspera fora cheia, deleitou-o. Depois
de se barbear sentou-se à mesa para escrever a pequena nota que
deveria acompanhar o livrinho que pretendia mandar ao comandante.
Era uma carta anónima que nada o comprometia, mas que prometia
informações posteriores. Feito isso num abrir e fechar de olhos, pôs-se a
fazer os preparativos dos seus próximos movimentos.
Uma hora mais tarde, um nómada maltrapilho, esquálido, deslizou
subtilmente através da casa ainda adormecida, em direcção à varanda,
da qual uma porta dava acesso a um estreito corredor que saía na rua
em que estava situada a porta principal...
Através dos subúrbios meridionais de Touggourt, ao longo da rua
ajardinada que levava às dunas, e além, à longínqua cidade de El-Qued,
Luciano Maria, barão de Préfont - ocioso por inclinação e spahi por
necessidade - viajava com dois auxiliares árabes que trotavam
vagarosamente atrás dele.
Arrancado ao leito em hora que lhe parecia pouco natural e
empenhado em empreender o que ele considerava mero trabalho de
polícia, dava curso ao seu mau humor no quase rebentado corcel que
recentemente se tornara sua propriedade como pagamento duma
dívida. - O trabalho foi feito para os cachorros - grunhiu para si mesmo
enquanto esporeava e acalmava alternativamente a sua maltratada
cavalgadura. O serviço do polícia ia bem, mas cumpria contornar-lhe as
durezas, com um melífluo bien entendu, e não varrer as ruas deste
sacré pequeno buraco de cidade à procura dum maltrapilho vagabundo
ou dum brinco qualquer. Se houvera uma desordem no café maure, que
diabo tinha ele com isso? Não houvera outros prejuízos além dalgumas
lâmpadas quebradas e um êxodo geral das bailarinas. Caminhariam sem
destino um dia ou dois e se o não fizessem, que se perdia com isso?
Todo o mundo parecia agora sofrer dos nervos. O próprio velho Mercier
já não era o mesmo que antigamente e isso somente por causa dalguns
boatos! Que asneira, essa de
117
revistar as ruas à procura de pessoas de aparência suspeita! Bon
Dieu, que vida!
Estava em estado de extrema exasperação quando um mendigo,
surgindo subitamente dum lado da rua, fez o já citado cavalo dar um
salto quase perpendicular.
- Alá te fulmine, filho dum burro! - praguejou batendo na
andrajosa figura com o cabo do chicote e puxando brutalmente o freio
do cavalo.
- Burro sejas tu, Luciano - retorquiu o mendigo em perfeito
francês. - Esse teu cavalo ainda cai num buraco, se não tomas tento.
O rosto do mendigo, envolto num pano escuro, estava escondido
pelas dobras do albornoz, mas a voz era perfeitamente reconhecível.
Contendo a custo o cavalo, de Préfont bateu no arreio com uma grande
explosão de riso.
- Ahmed! - exclamou ele, estendendo-lhe logo a mão enluvada.
As mãos do falso mendigo acolheram-na pressurosamente.
- Devagar, meu velho - murmurou - e dize aos teus homens que
esperem um pouco atrás.
Tendo ordenado aos dois árabes que se distanciassem deles, de
Préfont abrandou o andamento do cavalo e fez sinal ao suposto mendigo
para que o acompanhasse.
Fora do alcance dos ouvidos dos seus homens, voltou-se de novo
para o companheiro.
- Que diabo é isso, Ahmed? Para quê essa mascarada? Há quanto
tempo estás em Touggourt? Ouviste falar na pagodeira de ontem à noite
no café maure? Creio que estou agora a varrer os restos. O velho
Mercier farejou qualquer coisa naquilo, posso dizer-te. Tudo aquilo é um
mistério e como tal ficará enquanto eu quiser. Pelo que posso ajuizar,
parece que foi apenas uma brincadeira arranjada por algum jovem
velhaco vindo do deserto. Com a devida deferência, meu caro, os teus
patrícios estão a tornar-se intragáveis!
Ahmed mudou de assunto, saltitando com as suas vestes
esfrangalhadas.
- Provavelmente eles não te dão todo o prazer que esperavas,
pobre diabo - disse com um riso meio amargo. - Mas
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basta - acrescentou enfastiado, quando de Préfont lhe lançou um
olhar de muita curiosidade. - Não temos tempo de sobra e os teus
homens já devem estar desconfiados, vendo-nos conversar tanto
tempo. Esquece-te de que me viste esta manhã, Luciano, e entrega este
embrulho ao coronel Mercier. Dize-lhe que o achaste ou arranja
qualquer mentira para disfarçar. É importante, mas não quero que o
meu nome apareça por enquanto. Tenho razões para isso, mas agora
não posso dizer-tas. Podes, entretanto, confiar em mim.
E, aproximando-se do cavalo do oficial da polícia, colocou-lhe nas
mãos o pacote. De Préfont apanhou-o e guardou-o na túnica.
- Muito bem, meu bravo - disse com um sinal de inteligência. -
Serei surdo, cego e tudo o que for preciso. Que novidades há lá pela tua
terra? Sabes naturalmente que Raul de Saint Hubert está na cidade?
Ahmed estremeceu. Os acontecimentos das últimas semanas
tinham-lhe desviado os pensamentos de Raul e do seu desconhecido
irmão. Não tendo lidado com ninguém desde que estava em Touggourt,
só saindo à rua à noite, não ouvira nenhuma tagarelice. Mas Ramadan e
S'rir deviam sabê-lo. Porque não lhe disseram nada? Sacudiu a cabeça
em resposta à pergunta de de Préfont.
- Não sabia - respondeu - e não há necessidade de lhe falar a meu
respeito quando o encontrares, Luciano.
A curiosidade, porém, venceu-lhe a reserva.
- Será porque meu irmão esteja com ele? - perguntou, meio
hesitante.
De Préfont fitou-o fixamente.
- Teu «irmão»? - repetiu. - Naturalmente é teu irmão. Tinha-me
esquecido disso. Oh! «lá! lá!» - fez, batendo no arreio num paroxismo
de alegria.
- Porque «lá, lá»? Que te parece?
De Préfont puxou as rédeas e fez saltar o cavalo.
- Espera até o encontrares! - exclamou. - Não terás de caçá-lo,
monsieur, ao teu precioso e estimável irmão a fazer raids ao café maure
e pondo toda Touggourt em polvorosa. Au revoir, meu bandido! E fica
sossegado, serei mudo
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como um sepulcro. Agora toca a trotar, meu amigo, e não receies
que eu vá uivar por aí. Sabes que temos de guardar as aparências.
E, picando o cavalo, foi juntar-se aos seus homens.
Quando estes se lhe juntaram, fingiu lançar o excitado animal
sobre a figura sórdida do mendigo, contra quem disse os maiores
palavrões em língua árabe.
Reassumindo o seu disfarce, Ahmed soltou um grito de terror e
precipitou-se para junto do muro do jardim mais próximo, enquanto de
Préfont chicoteava o cavalo e com uma praga galopava de volta a
Touggourt.
Então, Ahmed, com um sorriso quase imperceptível, rodou nos
calcanhares e, afastando as dobras do albornoz, procurou um cigarro
entre os seus andrajos.
Encontrar de Préfont tinha sido um acaso mais feliz do que
esperava. O embrulho seria entregue directamente ao comandante e o
seu segredo seria guardado pelo jovem francês.
Mas o seu rosto ensombrou-se de novo ao lembrar-se do gesto
ridente do spahi. Sim, seu irmão era «o precioso, estimável irmão» que
encontrara nos lugares solitários das cercanias de Touggourt! O seu
irmão era aquele homem que vira na última noite no café maure. No
momento em que se encontraram os olhos de ambos, alguma coisa na
aparência do estrangeiro lhe atraíra a atenção, uma parecença que lhe
tornava familiar o rosto do jovem! Não lhe restava já dúvida alguma a
tal respeito. Era a parecença com sua mãe. Alá! Que complicação! Com
violentas exclamações arremessou o cigarro para longe.
Foi, então, por amor ao seu irmão que ela lutou com ele na última
noite? Era então o seu próprio irmão que vinha colocar-se entre ele e a
mulher querida? Sacré Dieu, nem todos os irmãos do mundo a tirariam
dele!
Colocando sobre si os andrajos, retomou o caminho por onde
viera. Tratou, então, de não pensar mais nisso. Havia tempo de sobra
para se entender com seu irmão. De momento, cumpria-lhe concentrar
os esforços em busca daquilo pelo qual estava em campo desde muito
cedo.
120
Na estrada havia agora mais tráfego. Um constante vaivém de
cavaleiros, montando animais bem nutridos ou miseráveis, atarracados
ou magros, que perpassavam num vendaval de pó e areia; mulheres
com véus marchavam pacientemente com os filhos ao colo; jumentos
magros cambaleavam sob o peso de cavaleiros cujos pés se arrastavam
pelo chão ou empilhados com gravetos, e, no meio deles, grupos de
operários seguiam em direcção aos numerosos jardins que faziam
Touggourt tão linda. Perto da praça do Mercado encontrou uma
caravana que seguia para El-Qued, e admirou-se como muitos desses
árabes guardavam o oiro nos bolsos.
Era para a parte mais antiga da cidade que se dirigia, para aquele
estranho labirinto de ruas estreitas, onde os habitantes viviam como
ratos na ratoeira, um labirinto de buracos, passagens varridas pelo
vento, cujos lodaçais faziam ecoar misteriosamente os movimentos dos
pés e figuras movediças esbarravam frequentemente contra os
transeuntes cujos rostos não podiam ver. Foi à entrada desta cidade
dentro de outra que ele parou, pisando o caminho de areia onde
autênticos mendigos esfarrapados dormiam, passando o tempo em
descuidado lazer.
Com as dobras do albornoz a cobrir-lhe o rosto, fingindo dormir,
examinou a multidão em torno, enquanto de hora a hora soavam os
relógios nas barracas, ao longo da praça. Viu muita coisa que o intrigou,
muita coisa que o interessou, mas dos três homens que procurava não
viu nem sombra.
O relógio da barraca soou mais uma vez com badaladas
barulhentas e o som morreu-lhe aos ouvidos.
O acaso estava contra ele, parecia. Começou a sentir uma fome
impertinente. Poderia, também, conceder-se algumas horas de
descanso. Nada lhe cumpria senão confiar em si próprio. Ramadan e
S'rir tinham ordens a executar e estavam ao seu serviço espiões a vigiar
os diversos pontos da cidade.
Lembrando-se da sua aparência exterior, rumou preguiçosamente
por caminhos calmos e não frequentados até chegar
121
ao portão por onde passara às primeiras horas da manhã. Na
varanda, S'rir esperava-o, dando doces a uma gazela aleijada e
fumando, contemplativo, um cigarro, que desapareceu numa lata de lixo
à chegada de Ahmed.
- Não havia novidades - informou, após rápido salamaleque. -
Ramadan ainda não voltara. O pessoal da casa esperava as suas
instruções e a «camela velha, esbranquiçada», a cujo cargo estava a
rapariga, tinha justamente naquele momento solicitado licença para ir à
mesquita, pois, ao que parecia, era muito devota. E que lhe restava
naquela idade, a não serem os consolos da religião? - acrescentou,
sacudindo os ombros e fazendo uma careta. Mas a careta sumiu-se-lhe
do rosto ao ver o aspecto sombrio do chefe, a quem perguntou
solicitamente onde sua senhoria havia almoçado.
Determinando que lhe levassem o almoço ao quarto, Ahmed
precedeu-o na casa, para mudar de roupa.
Com um suspiro de alívio despojou-se dos andrajos do seu
disfarce e, lavando o pó do rosto e das mãos, trocou as roupas velhas
por outras limpas e bem talhadas, que ali estavam dispostas para ele.
Terminado o lanche simples, sentou-se alguns momentos a fumar,
com uma xícara de café à mesa, imerso em profundo cismar. Afinal de
contas, não estava a gastar tempo e dinheiro procurando lá fora a
informação que desejava obter, quando ali estava à sua disposição uma
pessoa de quem podia saber muito mais do que com o auxílio de espiões
pagos? A rapariga sabia onde se ocultara o mouro e provavelmente
sabia quem eram os seus estranhos companheiros. Sendo deles
instrumento e sócia, ela deveria conhecer forçosamente as suas
secretas maquinações. E o que sabia poderia dizê-lo!
Levantou-se abruptamente e, deixando cair o resto do cigarro na
borra do café, arrancou dos ombros o albornoz e saiu do quarto.
A casa estava imersa em silêncio, como de manhã aqueles criados
de Sliman ou eram muito dorminhocos ou eram bem ensinados para
desaparecerem, pensou enquanto
122
passava pelas salas desertas e pelos corredores vazios que
levavam à pequena antecâmara.
Foi no salão quente e perfumado que a encontrou, e logo à
primeira vista verificou que determinadas ordens suas haviam sido
escrupulosamente atendidas e que a «velha camela esbranquiçada» de
S'rir cumprira perfeitamente a sua missão.
A mudança que se operara na aparência da rapariga era notável.
Nos farrapos de ontem era bonita, mas nas ricas vestes de agora
parecia dez vezes mais encantadora!
Uma jaqueta curta, de seda, cobria dois vestidos alegres de cores
contrastantes, que realçavam um vestido interno de gaze dos mais
finos, o qual revelava um tronco delicado e a maravilha de opulentos
seios; o seu peito delgado estava enfaixado pelas muitas dobras deuma
fouta de seda às riscas, que lhe chegava até aos quadris. Os seus pés
pequeninos estavam nus, dentro de finas chinelas francesas. Anéis,
braceletes e jóias constituíam-lhe adorno abundante. Encarou-a com
firmeza ao notar tantos enfeites. Ondeando entre as almofadas de um
grande divã, ela não fez movimento algum quando ele entrou, o que o
fez supor que estivesse a dormir. Chegado, porém, mais perto, notou a
colorida chama das suas faces e um súbito estremecimento perpassar-
lhe o corpo, enquanto ela parecia afundar-se mais na macieza dos
travesseiros.
Ele abordou o assunto com característica rudeza, fazendo as
perguntas em tom que, embora fosse baixo como de costume, era duro
e francamente autoritário. E durante o interrogatório ela ouviu-o em
silêncio, sem mudar de posição, nem levantar os olhos baixos. Parecia
surda e muda para toda a impressão visível provocada pelo
interrogatório. Aquele silêncio e aquele domínio sobre si mesma
exasperaram-no, mas à ira juntava-se admiração ao examinar-lhe a
figura esbelta, da cabeça aos pés.
Compreendia ela que se achava à mercê dele? Em que confiava
para o contrariar? Fez um rápido movimento em direcção a ela.
123
- Fala, menina! - disse ameaçadoramente.
Então, pela primeira vez, ela levantou a cabeça e fitou-o com um
olhar que era singularmente intencional e penetrante. Os lábios
tremiam-lhe e durante um momento parecia que se esforçava por
evocar palavras que não vinham.
- Acusais-me de traição - volveu por fim - e agora quereis que
traia meu pai?
Ele sacudiu a cabeça com um gesto de impaciência. - Já milhares
de vezes me disseste que aquele sujeito não é teu pai. Queres mentir-
me mais ainda?
As pestanas velaram-lhe os olhos. - É o único pai que jamais
conheci - murmurou.
Ele ironizou com súbita cólera:
- É um parentesco fácil que reconheces ou negas à vontade -
resmungou - mas repito que inúmeras vezes me declaraste que não é
teu pai.
Ela estremeceu ante a fúria concentrada da sua voz, mas a boca
ficou-lhe obstinadamente fechada.
- Podeis matar-me, mas não falarei.
Por um minuto ele esteve junto dela com silenciosa ira. Mas o
sangue inglês que lhe circulava nas veias impedia-o de tentar arrancar a
verdade, e no estado em que se encontrava foi com dificuldade que
reteve as mãos para não a agarrar. Então, com um riso sarcástico,
desviou-se dela e pôs-se a caminhar pelo quarto.
- Não és digna de morrer - disse numa provocação. Há outros
meios de te fazer falar.
Ela estremeceu de novo e um olhar estranho lhe sobreveio ao
mover-se devagar no divã, as mãos agarrando a cinta larga que lhe
envolvia o corpo.
Fitava-o firmemente através das pestanas cerradas enquanto ele
ia e vinha e os seus membros flexíveis tremiam enquanto os músculos
se retesavam. Ele parou de novo ao lado dela, o rosto como que
mascarado pelo esforço que fazia.
- Por amor de ti própria, rapariga, dize-me o que sabes - convidou
mais gentilmente. - Com que fim esses homens estão na Argélia? Que
segredo os trouxe do seu país para
124
semear a discórdia entre os moradores de outro país? Que ligação
existe entre o teu «pai» e esses estrangeiros? Não podes compreender
quanto depende das tuas palavras - quanto mal para esta terra pode
resultar do teu silêncio.
- Pensais que me importa o mal que pode advir a esta vossa pobre
terra? - respondeu zombeteiramente. - Que vos adiantam os segredos
de meu pai a vós, filho de uma raça conquistada? Que sabeis de
liberdade, se o vosso pescoço está sob o jugo da França - que Alá a
destrua se ela quiser escravizar-nos como vos escravizou! Mas em
Marrocos «somos» livres e as nossas velhas mulheres são melhores que
os vossos famintos patrícios, cuja energia é reservada só para o prazer,
como também a vós vos acontece. E em Marrocos nós, mulheres, não
trememos, não nos acobardamos como as valentonas daqui quando um
homem quer fazer-nos mal. Nós lutamos, como eu luto.
O ataque foi feito tão subitamente que apenas os seus olhos
atentos e os seus firmes nervos o salvaram.
Com o pequeno corpo, bem treinado, atlético, retesado, ela
movera-se quase imperceptivelmente para o atacar com a faca
reluzente na mão, arrancada da fouta que lhe cobria o peito.
A ponta aguda da arma estava perto do coração dele mais ou
menos na distância de uma polegada, quando ele agarrou a lâmina com
dedos de aço, empurrando a rapariga violentamente para trás. Ela
moveu a faca ao redor, comprimindo o corpo trémulo até se admirar
como as suas costelas não rebentaram sob a impiedosa pressão que
parecia querer arrebatar-lhe a vida. Ansiosa por falta de ar, encarou o
seu rosto lívido, apaixonado, enquanto vagarosa e cruelmente ele lhe
apertava o pulso até perceber que a ela já não era mais possível
suportar a dor da compressão e um fundo suspiro lhe explodiu dos
lábios ao sentir a mão liberta, deixando cair a faca no tapete. Durante
um momento ela debateu-se, com os olhos em estranha mobilidade e o
peito a arfar tumultuosamente. Então, a jovem congregou toda a força
dos músculos enfraquecidos e com um grito desesperado caiu nos
braços dele, a chorar copiosamente.
125
Aquelas lágrimas, porém, não impressionaram Ahmed, que com
um riso terrível a fez prostrar-se aos seus pés.
- Alá tenha misericórdia de ti, minha pequena louca - gritou
furiosamente - porque tu nada terás de mim.
Ela ouviu o estalo da porta como se houvesse sido fechada
violentamente atrás dele e muito tempo depois da sua saída ficou no
lugar em que havia caído, tremente e suspirosa como em estado de
agonia, soluçando como se o coração lhe rebentasse em pedaços. Que
tinha feito? Oh! Alá! Que loucura fora a sua! Que mau espírito a tinha
tentado, levando-a a retirar da sala de armas aquela faca, para matar
aquele que amava e que já a amara? Planeara a morte daquele cuja
vida lhe era mais preciosa que a sua própria
- não, não, mil vezes não, não fora ela, mas aquele espírito mau
que lhe forçara a mão, que tinha fugido quando ela começou a perceber
o erro em que quase havia caído. Se o magoasse, oh! Alá! Se ferisse o
seu senhor! É verdade que ele fora cruel - mas todos os homens são
cruéis, e não era certo que lhe pertencia para fazer tudo quanto ele
quisesse? E já que ele a fizera amá-lo, amá-lo até à loucura, deveria
saber que isso passara e que em breve a amaria de novo. Algum dia
viria a saber que ela não lhe mentiu, que ela não sabia que os seus
passos eram seguidos naquela manhã sinistra, que jamais soubera da
traição premeditada e que a fizera passar como falsa. Ainda agora, na
sua loucura, para fazê-lo irar-se, fingira saber mais do que realmente
sabia. Fizera-o supor que a chave do conhecimento por ele desejada
estava nas suas mãos. Mas o esconderijo do mouro era tudo quanto ela
poderia contar-lhe - nada mais do que isso. Que tinha ela que ver com
as obras secretas do homem, argumentava, que dela se utilizara desde
a infância e cuja lembrança estava impregnada de coisas subtis,
fantásticas, que eram como sonhos sombrios de um tempo em que
mãos bondosas a tocavam, e uma voz doce, melancólica, sussurrava
cantigas que ainda agora viviam no seu espírito? E que tinha ela
também com Alman, árabe brutal cujos olhos concupiscentes a enchiam
de terror mortal? Por causa de um sentimento que não sabia definir, não
poderia
126
provar-lhe que não o traíra e que todos eles nada valiam para ela,
que vivera sempre como escrava no meio deles, e que tinha suportado
uma vida de miséria e de revolta, até que ele - o amado estrangeiro,
cuja magnificência a havia deslumbrado - começara a abrir-lhe os olhos
para o amar. E durante curtas horas fugitivas de felicidade, ele também
a amara! Oh! Que Alá fizesse que ele a amasse de novo - fizesse com
que ele acreditasse nela e confiasse nela novamente!
Com o rosto mergulhado na macia almofada, ela orou, chorando
até não ter mais lágrimas para derramar, até que, alquebrada pela
comoção, caiu exausta, o cérebro cansado, estalando, e todo o corpo
quebrantado, dorido, ainda sentindo a violência das suas mãos fortes.
Embora a vida não fosse senão sofrimento, ela admirava-se como
o seu espírito voltava às semanas de agonia que passara e que lhe
pareciam como uma morte viva, que dela tinha feito uma coisa
insensível a tudo o que não fosse a lembrança da alegria que dela se
afastara. Sem querer, eles tinham-lhe falado da sorte do seu amado e a
angústia que ela mostrara provocara-lhes a ira.
E na sucessão monótona dos dias, só vivia com um pensamento,
com a esperança de depressa estar também ela ao abrigo da crueldade
do carrasco que a torturava desde que ainda era uma criança
desamparada. Sempre o temera, sempre fugira dele com horror
instintivo. Mas ódio não sentira, a não ser quando ele foi torturar-lhe o
coração, fazendo-a ver as suas mãos manchadas com o sangue do seu
amado. Seu amado! Um soluço forte produziu-lhe um choque violento.
Amado algum faria o que ele fez na noite anterior. O seu amor morrera.
E quando ele voltasse... Trémula, levantou-se na ponta dos pés e ficou a
olhar tristemente em redor de si, palpitando com os soluços que ainda
lhe fugiam dos lábios.
Quando ele voltasse, o amor lhe daria forças para suportar tudo
quanto ele quisesse. Porque nada poderia matar a paixão que era uma
chama viva, a crepitar dentro dela.
Os seus olhos tristes, girando incansavelmente, passeavam
127
pelas jóias com que zombeteiramente se adornara até pousarem
ao lado da faca que deixara cair no tapete, quando contra ele investira.
Com um grito de desespero, agarrou-a com frenesi e, arremessando-a
com toda a força para longe, deixou-se cair no divã, imergindo o rosto
nas almofadas.
V
- O último acampamento, meu caro!
Para Caryll, sentado comodamente num monte de areia, com as
costas voltadas para o vento matinal, chupando um cachimbo que
obstinadamente se negava a acender, a voz de Raul de Saint Hubert
soou quase agressiva.
Ele não estava, de modo algum, alegre consigo mesmo e a
consciência da sua atitude inquieta - que honestamente admitia que
fosse infantil até ao último grau - não tendia a fazer dele outra coisa.
Mas, com os demónios, como poderia alegrar-se naquele ambiente
venenoso? - argumentava consigo mesmo. - O tio Raul tudo achava
bem, porque amava o país e parecia não dar pela «abominação da
desolação» por que tinham passado. Mas ele sentia-se cansado de tanta
areia, cansado de tão insípidos dias de ininterrupta monotonia, porque
não considerava como alívio aceitável a hospitalidade que lhes fora
oferecida, a primeira vez pelos marabutos de um zaonia do deserto e a
outra por um chefe de distinção.
Desde o dia em que haviam deixado Touggourt, achara que a
viagem era de um tédio horroroso, e ainda não viera uma ocasião para
lhe modificar esse parecer. E o cúmulo do aborrecimento era a
lembrança daquele fútil espectáculo de alguns dias antes, quando mais
ou menos cinquenta homens da tribo de seu pai tinham chegado para
render a escolta que com eles viera de Touggourt! Um horrível
espectáculo circense que tanto calor e tanta febre lhe causara, tanto
desconforto e aborrecimento, que o deixavam doente só ao lembrar-se
daquilo. Deveria ter parecido um verdadeiro louco, quando uma horda
de maníacos o cercou, como um
128
bando de demónios, fazendo uso dos rifles com sublime
indiferença pela vida e pelos membros do corpo! Um ridículo desperdício
de munições. Honra ao filho de seu pai - bom Senhor, ele poderia ter
agido sem distinção, loucamente.
O seu rosto tremia enquanto esvaziava o cachimbo com
desnecessária violência e murmurava uma tardia e ininteligível resposta
a uma observação de Raul.
O conde deixou de contemplar os camelos que estavam sendo
carregados com a bagagem e sentou-se perto dele, acendendo um
cigarro com dificuldade.
- Que dizeis? - perguntou ocultando do vento, com as duas mãos,
um palito de fósforo.
Caryll levantou mais alto a gola do casaco, enterrando
petulantemente os calcanhares na areia.
- Eu disse «graças a Deus» - respondeu secamente.
Raul sorriu com a sua paciência habitual.
- De modo algum - concordou serenamente - posso pretender que
a viagem esteja sendo divertida, especialmente para quem não se
interessa pelo país. Admito que é um péssimo caminho, esse que temos
de fazer. Mas, pouco a pouco, tornar-se-á mais interessante e logo que
estejamos no acampamento haverá mais distracções e menos
monotonia. Examinareis aquelas famosas espingardas e achareis que os
famosos cavalos do vosso pai são mais do que interessantes.
Caryll franziu o sobrolho e lançou um rápido olhar para a figura
indolentemente estendida ao lado dele. Estaria sendo escarnecido? Que
diabo pretendia o tio Raul ao falar-lhe como se fosse uma criança
manhosa a quem se fazem promessas de brinquedos e de
divertimentos? Mas o rosto de Raul estava sério e, longe de se mostrar
interessado pelo companheiro, parecia que todo o seu interesse se
encontrava na aproximação do acampamento. De costume, a esta hora
da manhã já as caravanas de camelos estavam prontas para partir.
Hoje, porém, não havia necessidade de partir muito cedo. O
equipamento de viagem não seria reclamado no acampamento do sheik
e tudo contribuía para facilitar a última etapa da jornada, agora aliviada
da necessidade de
129
levantar tendas e cozinhas. Alguns camelos já estavam carregados
e vagueavam sem direcção, mostrando certa impaciência; outros, ainda
ajoelhados, rugiam e blateravam, enquanto as cargas eram amarradas e
desamarradas, afrouxadas e apertadas, pelo bando de barulhentos
carregadores, cujo clamor se erguia cada vez que uma carga se achava
mal ajustada nos animais. Uma cena de confusão aparentemente
inextricável, de que emergiam figuras pernaltas de roupa branca,
voando de um lado para outro, recambiando, excessivamente zelosos,
alguns animais que se desgarravam em direcção errada ou fazendo
esforços hercúleos para levantar alguma carga mais pesada ou dizendo
impropérios em torno de algum objecto esquecido que passava de mão
em mão até achar um lugar em que pudesse ser colocado.
Era uma confusão, entretanto, que tinha um certo método próprio,
porque a ordem alvoreceria finalmente do caos sob a hábil direcção do
criado árabe de Raul, Mohamed, um cabila delgado mas de aspecto viril
que era seu ajudante há dez anos, e sucedera a Henrique, que, casado e
pai de família, fora promovido à mordomia da propriedade do conde, em
França.
Finalmente, um dos homens da turma de Caryll estava
empenhado em preparar o magnífico corcel que o sheik tinha mandado
para uso do filho. Sem se deixar perturbar pelo grupo de camaradas que
o cercavam, crivando-o de piadas, com superior indiferença, o jovem
inglês continuava o seu serviço, respondendo às chalaças com qualquer
picante anedota que o auditório não podia compreender, mas que
depois, embrulhada num misto das línguas árabe e francesa, com
palavras de uma intercaladas com as de outra, levaram os camaradas
ao paroxismo do gozo.
De tempos a tempos, o seu riso sadio ecoava alacremente. Os
dedos manchados de nicotina de Raul apontaram em sua direcção.
- Guilherme, em todo o caso, parece alegrar-se bastante -
observou. - Ele é já popular entre os homens e Mohamed é estrondoso
nos seus elogios. Somente Deus sabe o quanto lhe custa fazer-se
compreender, porque Mohamed, como
130
sabeis, tem alguma tintura da língua inglesa. Mas parece que
geralmente está como quer. Os homens fizeram uma festa a última
noite, quando estáveis dormindo e roncando, meu caro...
- Eu não estava a dormir - contestou Caryll. - Era lá possível
alguém dormir com aquele barulho infernal?
Raul riu.
- Não estáveis a dormir? Então fazíeis alguma coisa muito
parecida. Bem, fui vê-los, porque eles gostam dessa prova de interesse,
e lá encontrei o vosso senhor Guilherme todo rígido num albornoz e
num turbante. Parecia muito divertido no seu colarinho corta-gargantas,
maltratando uma dança da última moda e trauteando qualquer
cançoneta dos cabarés, com enorme delícia da selecta assistência.
Receio que ele não ficasse lá muito alegre ao ver-me, mas mandei-lhe
que continuasse o divertimento. Certamente, ele está muito contente
com a vida e parece ter encontrado o seu métier. Tornar-se-á um
admirável viajante, bem depressa. Estou disposto a seduzi-lo e a tirá-lo
do vosso serviço quando estiver finda a vossa excursão, Caryll.
Caryll seguiu-lhe a tagarelice com um olhar ardente.
- É um bom rapaz - disse.
Então, o mesmo sentimento de inveja lhe sobreveio mais uma
vez. Porque não levava ele a vida alegremente como Guilherme? Que
lhe faltava no temperamento para que a seriedade da vida a tudo se lhe
sobrepusesse? Dois anos de árdua responsabilidade tinham-lhe
arrebatado as prerrogativas da mocidade e fizeram dele um homem
ainda antes de deixar de ser uma criança. E entretanto, nas últimas
semanas, ele não tinha sido um homem, propriamente falando. Tinha
sido somente uma máquina - uma criatura rotineira e metódica, mais do
que um ente vivo, um mortal que respira, movido por paixões humanas
ordinárias. Em Touggourt, Guilherme, que era cinco anos mais velho do
que ele, tinha sido uma espécie de menino em férias, procedendo com
interesse e penetrando com ardor em tudo o que se lhe deparava, sem
se deixar impressionar pela ignorância da língua. E Caryll espantava-se
vendo-o gozar à vontade.
131
Mas foi em Touggourt que ele próprio, pela primeira vez, tivera
consciência da sua virilidade. Touggourt! Conteve a respiração. A
pequena cidade árabe que ele odiava estaria, de agora em diante, ligada
na sua lembrança ao pequeno romance que se tinha desenrolado como
um clarão do sol do estio, iluminando-lhe o calmo horizonte da plácida
existência, levando-o a um profundo sentimento de que anteriormente
não se sabia capaz.
Pela primeira vez, o amor vencera-o, o amor estranho,
incompreensível de um homem por uma mulher, e durante algumas
semanas fugazes deixara-se prender na trama de emoções e impulsos
que eram totalmente desconhecidos pela sua natureza.
Tinha sido tudo bem real para ele, embora aquilo lhe começasse a
parecer agora como um sonho fantástico, improvável. Mas fantástico e
improvável que pudesse ser e dominado pela vergonha, como agora
estava, da forte impressão que a rapariga nele causara, sabia que
jamais poderia esquecê-la. Mesmo que amasse novamente, a lembrança
do primeiro amor estaria sempre com ele - lembrança meio triste, meio
terna, que o importunaria. O rosto dela ainda lhe vivia na memória.
Pobre amor ocasional, movido como desamparado náufrago no
tormentoso oceano da vida! Onde estava ela agora? Qual seria a sua
sorte nas mãos daquele jovem desesperado, sorridente, sinistro,
diabólico, que a raptara? Teria sido metida numa prisão dourada para
ser mimada ou maltratada segundo os caprichos do seu raptor, ou já
teria sido jogada, como um brinquedo partido, às fileiras de desgraçadas
iguais? Tremeu ante o horror deste último pensamento. A sua parte
nesse negócio parecia-lhe revestida de indigna cobardia. Mas que
poderia ter feito? As circunstâncias haviam impedido que levantasse a
mão em sua defesa e, quando chegou ao hotel, Raul não havia voltado.
Na manhã seguinte, enquanto consultava os seus sentimentos a
respeito da rapariga, tinha procurado interessar Raul na sorte dela, mas
o conde havia-se negado a aceitar as suas sugestões para mover as
autoridades em busca de uma bailarina raptada. Era impossível,
132
disse, que Caryll se metesse num caso de que fora simples
espectador desinteressado, um caso, entretanto, que causara às
próprias autoridades muita inquietação e aborrecimento. Essas coisas
tinham acontecido naquela terra e, infelizmente, a Argélia não é a
Inglaterra. Noblesse oblige, mon ami, concluíra, e não vos é próprio
envolver-nos nos amores e raptos de raparigas de um café de reputação
duvidosa. E a argumentação de Raul trouxera-lhe de novo a lembrança
dos seus deveres e responsabilidades de herança e as injunções de um
amor juvenil tinham-se apagado antes do correr dos anos.
Tudo tinha sido um trecho de romântica loucura, um sonho que
nada mais fora. Mesmo que a nacionalidade dela não fosse uma barreira
intransponível entre ambos, não era na viciosa atmosfera de um café
maure ou nas ruas insípidas de uma cidade árabe que ele deveria
escolher a futura condessa de Glencaryll. Mas se pudesse ter feito
alguma coisa em favor da rapariga, sentiria pelo menos diminuído o
sentimento de vergonha e desgosto que agora o acabrunhava!
O seu rosto corou fortemente e ele baixou a cabeça, moendo a
areia com dedos nervosos e impacientes.
- Nada mais se soube daquele caso do café, tio Raul?
Raul, atento à cena, levantou-se rapidamente.
- Lá vão eles, finalmente! - exclamou. - Penso que deveríamos
partir primeiro.
Sentando-se, sacudiu a areia da jaqueta e consultou o relógio.
- Que foi, Caryll? A embrulhada do café maure? Não, nada mais
ouvi a esse respeito, desde que deixámos Touggourt. O coronel Mercier
recebeu um misterioso livro de notas que lhe foi remetido por alguém
que está a par do caso, mas enviou-o ao quartel-general e eu não ouvi
contar o que continha o livro. O encantador de serpentes que era dono
da rapariga desapareceu de modo esquisito e agora parece que a ideia
geral sobre o assunto é que se trata de uma questão particular, entre
ele e o raptor da rapariga. O astuto moço também desapareceu e todos
os esforços
133
feitos para o encontrar e identificar falharam. Ele ou era realmente
um estranho na cidade ou conseguiu um bom disfarce. Ninguém
confessa que esteve aquela noite no café e Touggourt em peso jura uma
cândida e encantadora ignorância sobre o que se passou. Na minha
opinião, aquilo não passou de um negócio particular, provavelmente
ligado a roubo de mercadorias de ambos os lados, mas as autoridades
estão agora inclinadas a considerar o caso como suspeito. O tempo o
mostrará. Seria interessante ver se alguma coisa nasce disso.
Entretanto, se estiverdes pronto, é tempo de partir.
Foi com um sentimento de prazer que Raul viu que Caryll era
capaz de guiar o belo, mas fogoso animal que o sheik enviara ao filho
como primeiro presente. Teria Ahmed algum motivo para mandar este
intratável animal experimentar capacidades que ele desconhecia ou ver
de que qualidade de estofo era esse filho desconhecido? Os lábios do
conde entreabriram-se num pequeno sorriso de satisfação.
De qualquer outro modo Caryll poderia deixar de ganhar a
aprovação paterna, mas na equitação, não. Aí, era ele irrepreensível.
Sabia montar a cavalo e isso significava muita coisa naquele país.
Raul estava possuído de um forte sentimento de responsabilidade,
cavalgando ao lado do sobrinho. Por muitas razões, embora diferentes,
tinha tanto motivo para estar tão nervoso como Caryll, em vista do
encontro que daí a algumas horas se realizaria. Sabia qual era a opinião
preconcebida de Caryll sobre o pai e seria o sheik capaz de fazer as
concessões devidas para que pudesse surgir um acordo entre ambos?
Caryll teria a graça de responder às primeiras perguntas ou fechar-se-ia
naquele poço de reserva que exteriormente o tornava inatingível?
Lançou uma olhadela para o companheiro. O ar de prazer e interesse
que havia animado o rosto do jovem durante as primeiras horas de
montaria perigosa tinha passado e, como o animal amansara, Caryll
cavalgava com os lábios firmemente fechados e com um ar de
concentração sombria.
Raul olhou-o meio impaciente, meio piedosamente, mas
134
prudentemente absteve-se de qualquer comentário. Além de tudo,
que tinha a dizer? Tinha feito todo o possível para aplanar o caminho e
Caryll agora teria de fazer por si, arrostando as consequências.
Os seus pensamentos mudaram logo de direcção. Por muito que
quisesse ajudá-lo, as dificuldades de Caryll tinham assumido um lugar
secundário nas suas cogitações desta manhã.
Tinha uma dificuldade mais íntima para vencer. O seu rosto
sombreou-se e uma profunda tristeza se lhe aninhou nos olhos à
lembrança do próximo encontro, não do sheik com o filho, mas do seu
próprio encontro com a mulher que amava. Durante anos procurara
arrancar do coração aquele amor e esmagar aquele ciúme que lhe
parecia indigno e desleal, mas por demais arraigado; ele a tudo resistia
e por fim deixou de lutar contra ele. Não podia prever as consequências
da renovação dessa luta. Poderia ainda amar e encontrar consolação na
sua felicidade.
Havia dois anos que a vira, dois anos desde que deliberadamente
se torturava em presença do contentamento que aquela mulher exibia.
Era penoso olhar para a felicidade através dos olhos de outro homem,
penoso testemunhar aquela ideal camaradagem, que tornava ainda mais
agudo o sentimento da sua amarga solidão. Mas quão maior seria a
miséria da sua vida se o amor do sheik por aquela mulher que ele
tomara tão violentamente fanasse, como ele temia que acontecesse.
Isso seria um inferno impossível de suportar. Mas Ahmed amava-a
apaixonadamente, ternamente. Por isso, o sacrifício que fazia não era
vão.
Era bastante que ela lhe mostrasse amizade e que ele, por sua
parte, a ajudasse a ser feliz.
Havia ela mudado nalguma coisa nestes últimos dois anos? Porque
supor, então, que qualquer alteração nela se houvesse operado? Para
ele nunca ela parecera mudar. O «seu» amor tê-la-ia conservado cheia
de mocidade, tão perfeitamente satisfeita? Os lábios tremeram-lhe
dolorosamente. Ele nunca teria ocasião de experimentar. Não a
conhecera antes de o amor lhe haver insuflado o seu indómito
135
e imperioso espírito. Fria e sem emoção que ela tivesse sido,
nunca o desdenhara como fazia a todos os homens. Teria vivido
indiferente ao amor, indiferente a tudo que não fossem os desportos e
aventuras para que existia neste mundo. Ele nunca teria empregado os
métodos terríveis com que o sheik a subjugara. Nunca a teria
compelido, primeiro a uma involuntária admiração e depois ao seu
afecto, como Ahmed tinha feito pela força de brutal senhorio, que a
fizera reconhecer uma imperiosidade que era maior do que a sua, que a
levara, finalmente submissa, aos pés do seu raptor.
Era somente a um homem como Ahmed que ela se teria rendido.
E Deus sabe que, embora o invejasse, jamais roubaria ao seu amigo a
felicidade que lhe pertencia. Como ele próprio não a pudera conquistar,
achava melhor que antes Ahmed do que outro a tivesse conquistado.
Endireitou-se na sela, desviando um pensamento em que pedia que a
força nunca o abandonasse em tais conjunturas.
O que escondera por muito tempo, continuaria a esconder, assim
Deus o ajudasse! Além do mais podia dar muitas graças ao Senhor. Ele
teria de suportar novos sofrimentos, se a visse maltratada ou
abandonada. Como estava agora, era feliz e nada a preocupava senão a
felicidade. E, certamente, ele agora não tinha já idade para chorar como
uma criança que quisesse agarrar a Lua!
Um sorriso de íntima ironia brilhou na melancolia do seu rosto e
Raul contemplou Caryll com atenção bondosa.
O vento da manhã havia cessado e o dia prometia grande calor. Já
o horizonte se fizera vago e obscurecido, brusco, com fitas de fumaça
que espiralavam do seio do deserto. E o calor do sol num céu sem
nuvens fazia a areia arder, levantando miríades de partículas de oiro.
Cotovias pequenas e cinzentas voavam silenciosas em bandos e aqui e
ali uma avezinha do deserto fugia às patas dos cavalos.
Durante algum tempo, Caryll estivera examinando as pegadas de
um animal que mais de uma vez lhe atravessara o caminho e finalmente
Raul notou o seu interesse.
- É uma gazela - disse, puxando as rédeas - mas não passou por
aqui recentemente, receio.
136
Caryll riu-se pela primeira vez naquela manhã.
- Estou principiando a crer que as vossas gazelas são mitos -
retorquiu. - Vimos já anteriormente essas pegadas, mas parece que os
próprios animais têm o dom de iludir. Não posso perceber como elas
possam viver numa terra destas - acrescentou com uma olhadela ao
redor.
E a imensa e desolada solidão para a qual olhava fez-lhe por
último explodir a pergunta que há muitos dias lhe pendia nos lábios.
- Como tem ela podido suportar isto, tio Raul? Falo de minha mãe.
Como pode ela permanecer nesta horrível solidão, neste horroroso
ermo?
Raul empalideceu.
- Isto não a impressiona de maneira alguma - respondeu
vagarosamente. - Isto exerce grande fascinação sobre muita gente;
sobre mim, por exemplo. Há anos que vossa mãe ama este deserto e
para ela o seu encanto compensa o desconforto. E se ela não o amasse
intrinsecamente, amá-lo-ia pelo que significa para ela.
- Porém, ela deverá ter perdido muito - objectou Caryll.
- Ela terá sacrificado muito a... a... - disse com súbita indignação
gaguejante. - Santo Céu! Um homem não tem o direito de exigir tanto
de uma mulher! - exclamou com veemência.
Raul empalideceu novamente.
- Mas se a mulher o quer? Neste caso, ela quis e portanto não tem
de que se queixar.
Caryll olhou-o com o cenho carregado.
- Ela deve ser... mais que maravilhosa - disse quase
imperceptivelmente.
Raul aprovou sem pestanejar.
- Ela é maravilhosa - confirmou calmamente.
Durante a sesta do meio-dia Caryll voltou a falar na mãe.
Terminara o lanche e todos ao redor estavam envolvidos nas mantas,
como mortos sepultados. Mesmo Guilherme, o adaptável, tinha
sucumbido ao costume do país e estava deitado ao comprido, no típico
sistema inglês de bruços, a cabeça apoiada nos braços, o capacete caído
para a nuca.
137
Raul estava desperto, contemplando curiosamente as esforçadas
tentativas dum pertinaz escaravelho para carregar um pedaço de pão
nas costas e olhando de tempos a tempos Caryll, que estava deitado ali
perto.
Desde o lanche, o jovem não se movera nem falara. Com os
nervos acalmados pelos efeitos dum cachimbo que por último consentira
em se deixar acender, estava procurando vencer a nervosa reserva que
dele se apoderara desde a manhã e que ameaçava aumentar à medida
que se aproximava a hora do encontro com seus pais.
Quebrou, por fim, o longo silêncio.
- É mais do que uma rara espécie de sensação - começou
hesitando - não saber sequer o que pensa uma mãe. Não me lembro
dela nem um pouco, e a única fotografia que dela possuo é duma
cabeçuda criança em cueiros. Não se deve parecer com ela, com
certeza. Deve ter sido tirada há muito tempo. Creio que minha mãe
mudou muito. Naturalmente deve ser... deve ser...
Parou vacilante, o rosto corado denotando embaraço.
Raul fitou-o com um leve sorriso. Com as suas precisas e velhas
maneiras, Caryll não se chocaria com a aparência juvenil da sua mãe?
Aquela mocidade, que constituía um dos seus maiores encantos, seria
causa para aumentar o pesar deste moço cheio de preconceitos?
- Ela não é bem um Matusalém - respondeu secamente - embora,
naturalmente, a vida no deserto tenha acção muito forte sobre as
mulheres. Algumas dessas velhas senhoras enrugadas que vimos em
Touggourt são provavelmente mais novas que vossa mãe.
E Caryll, curvado e fazendo distraidamente pequenos montes de
areia, ouviu somente a seriedade daquele tom de voz, mas não viu a
alegria bailar-lhe nos olhos. Ao contrário, ele tinha uma súbita e
acabrunhante visão de certa velhice encanecida que encontrara na sua
peregrinação nesta terra de belezas fugazes.
- Oh! - exclamou quase imperceptivelmente.
Raul nada o esclareceu a este respeito.
A caravana com as bagagens já há muito os surpreendera
138
e ultrapassara e não dera mais sinal de si quando a cavalgada
prosseguiu rumo ao sul.
A paragem do meio-dia fora mais rápida que de costume, e não
havia necessidade de fazer hoje concessões aos vagarosos camelos,
para enveredar pelo caminho em que as tendas deveriam ser
levantadas, nem era preciso preparar comida para quando os cavaleiros
penetrassem no acampamento.
Posto que fizesse calor, os raios do sol haviam-se suavizado em
intensidade e o nevoeiro tinha desaparecido, prometendo uma visão
mais límpida e distinta.
Estavam cavalgando há cerca de uma hora, quando Caryll, viu,
ainda de longe, uma coluna de pó que parecia aproximar-se
rapidamente deles. A garganta tornou-se-lhe seca e uma involuntária
pressão nervosa nos joelhos fê-lo espicaçar violentamente o fogoso
cavalo.
Puxando as rédeas, voltou-se para Raul com uma ansiosa palavra
de interrogação.
O conde também estava atento.
- Está ainda muito longe para sabermos com certeza, mas creio
que é vosso pai que se aproxima.
Pela primeira vez na vida, Caryll sentiu uma espécie de pânico. O
temido encontro avizinhava-se e ele daria mais do que lhe era possível
para poder virar as costas e voltar na direcção oposta. Com que se
pareceria esse seu pai árabe? Que faria quando se encontrassem? Que
diria? Tinha elevado ao máximo, mentalmente, este encontro, muitas
vezes. Febrilmente procurava lembrar ao menos um dos seus planos e
das suas preparadas falas, que, longe do pretenso ouvinte, tão fáceis
lhe ocorriam e que formulara com tamanha prontidão.
Ele forçava os miolos, suando nervosamente, mas o cérebro
parecia-lhe uma densa, profunda perplexidade.
Entretanto a coluna de pó aproximava-se com espantosa rapidez.
Então, gradualmente, surgiu um redemoinho que, limpando a
perspectiva, deixou visível um pequeno bando de árabes que galopava,
com a habitual desenvoltura, atrás dum cavaleiro solitário que vinha um
pouco adiante.
139
Por alguns minutos, Caryll agarrou-se desesperadamente à
esperança de que talvez ainda não houvesse chegado o momento fatal,
que aqueles seriam outros árabes que não os que estavam sendo
esperados. Mas o alarido que se fez ouvir por detrás dele, promovido
pela escolta, fê-lo compreender que a esperança que alimentara fora
errónea e uma sensação mista de nervosismo e excitação perpassou-lhe
pela espinha. Irado consigo mesmo e invadido por aquela estranha
sensação que ele não sabia que era emoção, sentiu o velho
antagonismo, a velha intolerância. O alarido da escolta lembrou-lhe a
barulhenta manifestação que lhe foi feita quando ela o encontrou. Seria
agora uma demonstração idêntica? Por que diabos, então, não traziam
uma banda completa, com trombetas e clarins ou o que o diabo
quisesse? - reflectiu aborrecido, os lábios entreabertos com ironia.
Raul fez sinal ao seu pessoal para parar e, em luta ainda com os
seus sentimentos, Caryll entusiasmou-se com a rapidez do avanço dos
cavaleiros, embora a admiração que de outro modo poderia sentir fosse
vencida por iroso preconceito que o fez olhá-los com desdém de crítico.
Era um bando de homens de aspecto magnífico, soberbamente
montados, e poderiam, admitiu sarcàsticamente, galopar, mas somente
para apascentar o gado. E paravam, era de presumir, com a mesma
horrível brutalidade que caracterizava esses cavaleiros sem graça, sem
contar com as feridas abominàvelmente cruéis patentes nos seus
cavalos.
O da frente deveria ser seu pai - esse pai árabe. As vestes
regionais, mesmo preparado para vê-las, davam-lhe um aspecto
chocante e novamente a sensação de terror lhe percorreu a espinha.
Desmontado agora, tinha as mãos mergulhadas nos bolsos da jaqueta, e
o coração pulsava-lhe furiosamente.
Nunca mais refreariam a pressa? Tinham enlouquecido? O brusco
estrugir da mosquetaria fê-lo parar e o seu rosto tornou-se endurecido
ao ouvir a selvática explosão de gritos e o disparo dos rifles. Aquilo era
um pandemónio - pensou agressivamente - uma representação teatral
infantil, tão estúpida como desnecessária. Os lábios tremeram-lhe
novamente
140
quando o bando oposto parou, rapidamente como ele supusera,
pó e areia a voar dentre as patas dos cavalos, e outro alarido
ensurdecedor explodiu com o relinchar dos cavalos excitados, com o
tinir das facas e o duro estalar dos rifles. Somente o chefe desmontou.
Quando ele pisou o chão, Caryll contemplou a erecta figura,
pitorescamente vestida, apear-se do grande cavalo preto e caminhar
vagarosamente para ele.
Assim, «este» era o seu pai - «este» era o conde de Glencaryll!
Um árabe dos árabes! Um árabe, entretanto, cuja escura face lhe era
estranhamente familiar! Não era a primeira lembrança, mas uma
semelhança vista mais recentemente que lhe fazia recordar alguma
coisa sinistra.
Onde vira antes aquele rosto? Estava ainda a divagar quando um
empurrão de Raul o chamou à realidade presente e ele voltou o rosto,
que estava branco, em resposta à chamada urgente do francês.
- Pelo amor de Deus, ide primeiro, tio Raul - pediu, e quando Raul
seguiu para a frente arrastou-se com esforço e seguiu-o, como
agoniado, trémulo e constrangido.
Os dois velhos amigos encontraram-se como franceses. E, vendo
as suas entusiásticas saudações, Caryll tremeu com tristeza, ofegando
nervosamente. Que aborrecido costume! Que se podia esperar dali?
A curta, delgada e erecta figura permaneceu com os lábios
fechados, esperando a prova.
O sheik, porém, não fez pergunta alguma sobre seu filho inglês.
Voltando-se para ele com um grave sorriso, estendeu-lhe a mão delgada
num gesto de saudação.
- Enfin, mon fils - disse com voz profunda, macia. - Soyez le
bienvenu.
O tom sincero da voz, o calor com que estreitou a sua mão, era
tudo quanto um filho poderia desejar. Mas Caryll tinha consciência
somente da linguagem em que a cordial saudação fora proferida e o
ressentimento que ele havia tentado vencer surgiu de novo
irresistivelmente. Raul havia-o prevenido do preconceito de seu pai pelo
país que ele recusava reconhecer, mas advertira-o da má vontade do
pai em
141
falar a língua materna, que conhecia perfeitamente. Mas
certamente neste caso deveria fazer excepção. Decerto que, nesta única
ocasião, o preconceito deveria ser posto de lado. Ele tinha-se preparado
para encontrar o pai concordemente, respeitando-lhe os preconceitos
tanto quanto possível, mas esta saudação em francês parecera-lhe uma
bofetada na cara. Hesitara se deveria responder também em francês.
Procurava tornar claras as suas simpatias desde logo. Mas a fala não lhe
veio com facilidade e as faces enrubesceram violentamente quando
correspondeu à pressão daqueles dedos que seguravam os seus com a
dureza do aço. Teve uma brusca e curiosa impressão de inferioridade;
um sentimento obstinado de que estava face a face com alguém cujas
determinações eram superiores às suas. Com a língua presa e furioso
com o seu próprio embaraço, encontrou-se gaguejante como um
verdadeiro menino de escola.
- Agradecido, senhor - balbuciou em inglês - estou bem contente
por ter vindo.
Corou ainda mais ao compreender que a mentira lhe fora
arrancada por uma força estranha. E o bondoso ar de alegria que
brincara momentaneamente nos olhos negros penetrantes que o fitavam
tão intensamente não lhe fez acalmar os sentimentos desordenados.
Mas o sheik não pareceu notar a falta de espontaneidade na resposta do
filho, nem a frieza da sua voz. Fez algumas perguntas de delicadeza
acerca da jornada e então, com uma pequena inclinação de cabeça,
voltou-se amigavelmente para Raul, que em vista dos espinhos deste
primeiro encontro se movera para deixar a sós pai e filho. Abandonado a
si mesmo, Caryll lutou com emoções contraditórias, em perplexidade. A
despeito de todas as tentativas em contrário, parecia-lhe que ficara
novamente louco! Mais uma vez o acabrunhava aquele sentimento que
experimentara naquele dia em Touggourt, quando o chefe árabe o
arrebatara à populaça excitada. Então, muito claramente, tivera
consciência do acanhamento e inexperiência que nunca antes
compreendera. Mais do que nunca, sentia-o agora de novo. Donde
derivam estes árabes inescrutáveis a sua calma dignidade de
comportamento? Que os faz parecer tão seguros de
142
si mesmos? Embora classificando-os como selvagens, tinha sido
forçado a reconhecer-lhes a cortesia e tacto irrepreensíveis. Com
profundo descontentamento, teve de reconhecer que a sua própria
cortesia o abandonara.
Era talvez natural que o pai viesse ao seu encontro, mas fora,
entretanto, uma delicadeza que ele recebera muito grosseiramente.
Embora o odiasse pelo pesar que causara ao velho avô, o ódio não lhe
devia fazer esquecer a civilidade. A visita tornava-se cada vez mais
desagradável e inatingível o objectivo que a inspirara. Demais, posto
que lhe desagradasse o facto, era seu filho e seu hóspede. Perdera a
serenidade por coisa muito insignificante. Inglês até à medula, sentia o
menosprezo feito ao país que amava. Mas, embora fosse difícil de
compreender, o pai lá teria suas razões para justificar a atitude que
assumira, e nesse caso ele tinha tanto direito como Caryll para ter as
suas opiniões. Não se pode compreender que quem também alimenta
preconceitos desaprove os dos outros. Sacudiu a cabeça irado,
descontente consigo mesmo. Principiara mal, dera causa, logo de início,
a uma impressão má. Há muito o pai deveria saber, por intermédio de
Raul, que o filho falava francês correntemente. A sua recusa de falar-lhe
nessa língua deveria parecer uma estudada impertinência, uma
provocação a alguém cujas vistas eram as suas próprias. Em lugar de
mostrar ressentimento pela sua idiotice e incivilidade, o pai somente
sorria, como sorriria ante as travessuras duma criança. Era um começo
bem humilhante.
Triste e irritado, mas afastando resolutamente o orgulho, foi
juntar-se aos outros, antegozando o que seria a sua recepção e receoso
de interromper-lhes a palestra. Mas os momentos que lhe haviam
parecido muito longos tinham sido realmente muito curtos e, absorvidos
um pela palavra do outro, os dois amigos pareciam não lhe ter notado a
ausência.
E alguns momentos depois da sua chegada continuaram a
conversar sem interrupção.
Quando finalmente o sheik se voltou mais uma vez para o filho
nada nos seus modos indicava desprazer ou aborrecimento.
143
- Deveis desculpar-nos - disse com o mesmo sorriso grave. -
Temos de conversar sobre coisas acumuladas durante dois anos. Não
devemos fazer esperar vossa mãe, pois ela anda contando os dias e as
horas, creio, a aguardar a vossa vinda.
Novamente Caryll sentiu os seus olhos penetrantes a sondar-lhe
os mais íntimos recessos da alma e sobreveio-lhe nervoso embaraço.
- Espero que ela esteja passando bem - articulou, sentindo-se
humilhado por ver a dificuldade com que fazia uma pergunta tão simples
e trivial.
- Ela está sempre passando bem, graças a Alá! - replicou o sheik
com um gesto involuntário que Caryll não pôde compreender.
Nada mais se disse até que montaram de novo e prosseguiram o
seu caminho, e então Caryll venceu o embaraço para agradecer ao pai o
esplêndido cavalo que lhe mandara. Desde logo percebeu que olhos
atentos o acompanhavam e, conquanto fosse bom cavaleiro, aquele
exame perturbava-lhe os nervos. Começava já a supor que não resistiria
a tal exame e que a única coisa que sabia fazer bem viria a resultar em
fracasso. E então, com prazer, achou-se ansiosamente desejoso de ao
menos nisso conseguir a aprovação do homem que odiava. O facto
surpreendeu-o bastante. Que lhe importava a aprovação ou
desaprovação paterna? Porque cuidar de uma coisa ou outra?
Mas, a despeito de si mesmo, sabia que cuidava disso tanto que
se sentiu bem ao vir a aprovação do sheik:
- Alegra-me ver-vos igualar-me. Raul havia-me dito que sabíeis
montar.
Tais palavras produziram-lhe indizível prazer.
Seguiu admirado de si mesmo, irado da sua inconstância, irado
porque tão poucas palavras houvessem dado tanto prazer.
O Sol transpunha o ocaso quando chegaram ao seu destino. Aos
olhos de Caryll o acampamento pareceu imenso, todo o cenário
estranho e pitorescamente lindo, mais do que ele jamais imaginara, e,
absorvido por essa apreciação, esqueceu
144
a obsessão, que lhe torturava a mente, de criticar e condenar a
todo o transe. A descarga de rifles que lhe anunciou a chegada passou-
lhe quase despercebida e o alarido com que foi saudado já não lhe
sombreou o rosto. Esquecia-se de que era a causa de todo aquele
barulho alegre. Transportado para fora de si mesmo, parecia-lhe que
assistia a um espectáculo teatral de flagrante realidade ou que
contemplava um quadro de maravilhosa pintura e vitalidade. Com um
fantástico sentimento de irrealidade, ele marchava entre o sheik e Raul,
através de uma longa fileira de árabes que haviam sido seleccionados
nos diversos acampamentos, em honra ao filho do chefe, e se estendia
pelo deserto como uma avenida viva. Depois passava-se por numerosas
tendas baixas, por linhas de camelos barulhentos, por extensas
cocheiras e depois por fileiras de homens da tribo, que gritavam
alegremente, mas cujas vozes se perdiam ante a de suas mulheres, de
rostos cobertos por véus, e ante a gritaria da criançada.
Uma chegada parecida com a de um rei, um acolhimento de rei
que despertava dentro dele alguma lembrança esquecida, que lhe
acelerava a respiração.
Depois, com o coração a bater, chegaram a um largo espaço
aberto e logo lhe surgiu perante os olhos a tenda principal, diante da
qual estava uma mulher esbelta, de longa cabeleira.
Espanto e confusão lhe sobrevieram ante aquela figura de aspecto
juvenil. Aquela «jovem» era, pois, sua mãe! Sentiu o tio Raul puxar-lhe
uma perna!
Indignado, voltou-se para lhe fazer uma censura, mas viu que não
havia nos olhos de Raul intento de se divertir, e que o seu rosto se
mostrava lívido, perplexo.
- Ide, Caryll - disse bruscamente. - Ela espera-vos há catorze
anos!
VI
- Estás contente com «a nossa filha», ma mie?
Havia uma nota irónica na voz do sheik, que fazia tremer sua
mulher. Por momentos ela não respondeu e continuou a
145
passar o pente pela linda cabeleira que lhe caía pelo busto como
uma nuvem de oiro, ocultando-lhe o rosto de olhos que a contemplavam
com oculta intenção.
Dez minutos antes tinha-a ele arrancado, bem disposta, do
vestiário próximo, e desde então comodamente instalado num divã,
fumando em silêncio, esperava que se vestisse para o jantar.
Um sorriso breve se lhe esboçava nos lábios vendo passar o
tempo sem que ela lhe respondesse.
Acomodando melhor as pernas, sacudiu a cinza do cigarro e falou
de novo, mais compassadamente.
- Fiz uma pergunta, Diana.
Ela encarou-o e, afastando a cabeleira, fez um gesto algo nervoso.
- Ahmed! Não és justo - observou em tom repreensivo.
- Não? - riu brandamente. - Bem, de qualquer modo, tens de
convir que não é, pelo menos, papel de uma senhora. Não é de uma
senhora da tua idade, de maneira nenhuma - acrescentou, rindo
novamente.
Ela corou, mas sorriu sem vontade.
- Eu? Oh! Eu era uma coisa horrível. Não tinha maneiras. Caryll
tem belas maneiras e, como sabes, «as maneiras fazem o homem».
O sheik experimentou divergir.
- É um provérbio antiquado. Pessoalmente, procedo sem
maneiras, mas com um pouco mais de virilidade.
Diana voltou à mesa e de novo manejava, vigorosamente, o
pente.
- Porque pensas que ele não é um homem? - perguntou por detrás
da nuvem dourada de cabelos. - Admites que ele cavalga bem e Raul diz
que atira maravilhosamente.
- Também tu, minha querida - tornou o sheik secamente. - Montas
tão bem ou melhor do que teu prendado filho. Esses requisitos não
bastam. Montar e atirar não é tudo. Quero mais alguma coisa que,
infelizmente, nele não encontrei.
Essas palavras marejaram de lágrimas os olhos de Diana, que
depôs na mesa o pente com dedos trémulos.
146
- Não viste ainda nele muita coisa - murmurou. - Não podes julgá-
lo somente em vinte e quatro horas. Ele é medonhamente tímido e há
muita coisa aqui a que não está acostumado. Se fosse somente um
hóspede comum, a coisa seria mais fácil. Mas porque ele é quem é,
porque não se pode esperar que saiba a causa da horrível separação,
deve ser tudo tão difícil para ele como para nós. Ele vê somente um
lado e não sabe tudo. Amava o velho avô e para ele nada somos.
Provavelmente, não sabe que eu... que nós... precisamos do seu amor.
A voz dela tinha qualquer coisa que fez o sheik levanlar-se e dar
pela sala algumas passadas.
Feminilmente, ela havia feito do tom da voz, inconscientemente, o
principal argumento, no qual havia um desapontamento igual ao dele. A
sua angústia fez-lhe esquecer o próprio enfado.
Gentilmente, levantou-lhe a cabeça.
- Lágrimas, Diana? - arriscou com um sorriso, meio terno, meio
extravagante. - Torço a garganta do nosso filho ou a minha? Nenhum de
nós merece essas lágrimas.
E, levantando-a nos braços, levou-a ao divã.
- Oh, malvado jantar! - exclamou em resposta às suas
advertências quando ele se sentou e a apertou nos braços.
- Que importa o jantar quando te fiz gritar, besta que sou! O rapaz
pode esperar mais uma vez na sua vida e Raul tem alma superior à
comida, bendito seja! Como achas Raul desta vez, minha querida? -
disse com brusca mudança no tom da voz, cruzando as mãos no peito.
Ela compreendeu que ele estava deliberadamente procurando
desviar o assunto da conversa e, agarrando-lhe as mãos, levou-as aos
lábios, com um sorriso a cantar-lhe nos olhos.
- Era sobre Caryll que estávamos discutindo, querido, e não sobre
Raul - recordou com gentil insistência.
Ele sorriu para ela.
- Era Caryll? - respondeu quase com indiferença. - Muito bem!
Além de tudo, o melhor que temos a fazer é esperar. Como disseste,
sapientíssima mulher, vinte e quatro
147
horas não é tempo que permita firmar um juízo. Talvez esteja
enganado, esperei talvez demasiadamente, talvez nunca pensasse nisso
- acrescentou com um leve encolher de ombros.
Mas ele havia pensado nisso e só Diana sabia quão
profundamente.
Ela afagou-lhe a cabeça, com olhos súplices.
- Sê bom para ele, Ahmed! - implorou. - E procura, procura
compreender o seu ponto de vista, que deve ser bem diferente do
nosso. Ele não é como aquele outro rapaz que nunca conheceu outra
coisa senão a vida selvagem que aqui levamos. A vida deve ser-lhe
regular, bem metódica. Viveu sempre com um ancião que o fez calmo,
reservado - e pontual. Sabemos, por intermédio de Raul, quanto teu pai
nele confiava, quanta responsabilidade pesava sobre ele,
responsabilidade, essa, excessiva para pessoa tão nova. E diz Raul que
nos dois últimos anos - quando Caryll percebeu que teu pai morreria a
qualquer hora - a sua devoção pelo velho tornou-se idolatria. Tudo
deixou por ele. E nem tudo foi fácil. Não era natural para uma criança
daquela idade. Quantas vezes não aspirou ele à liberdade para fazer o
que fazem as outras crianças! Ao invés, todo o seu tempo o passou ele
entre um quarto de doente e um escritório. Isso não podia deixar de
influir nele e fazê-lo diferente daquilo que esperavas que ele fosse. Mas
aquilo que queres está ali, estou convencida, se tão-somente te baixares
a tentar encontrar. Mas tens de fazer-lhe, também, as concessões
possíveis. Promete-me, Ahmed! Sim, promete-me que serás bondoso
para com ele - tão bondoso quanto és para comigo. Porque ele é mais
meu que teu filho, penso - finalizou ela com um pequeno sorriso
trémulo.
O sheik sacudiu a cabeça.
- Duvido-o - disse vagarosamente. - Ele parece-se contigo no
rosto, minha querida, mas aí termina a semelhança. Não posso
encontrar outro ponto de parecença.
- Mas, Ahmed, promete-me...
- Tudo prometerei, dentro do razoável, que enxugue desses lindos
olhos essas lágrimas - interrompeu bruscamente
148
- mas não posso prometer fazer o impossível. Caryll é obstinado
nos seus preconceitos e parece que veio preparado para tudo dificultar.
As concessões devem ser recíprocas. Se eu tenho de fazê-las - também
ele! E, pondo os pontos nos ii, direi que a sua atitude de hoje esteve
longe de ser conciliatória.
Diana baixou os olhos.
- Sei-o - declarou com amargura. - Parece que ele se mantém
sempre na defensiva. Ele não ajuda, não dá entrada. É como se fosse
preciso tirar uma pedra da parede - e, oh! Ahmed! eu «quero» tirá-la.
«Quero» fazer com que ele me ame. Dói-me ter de deixá-lo ir, não
sabes quanto isso me custa!...
Ela tremeu ao dizer essas palavras.
Os olhos do sheik estavam semicerrados quando puxou com
ternura para o seu peito a cabeça dela.
- E eu? - murmurou com um doloroso sorriso. - Diana, sempre o
soubeste. Mas não é falando nisto que removeremos a dificuldade. Foi-
me penoso, também. Mas tinha de ser, o resultado era inevitável. Sei
que, mandando-o voltar, provavelmente continuaríamos sem ele para
sempre. Mas que outra coisa poderia eu fazer? Ele tem de nos deixar.
Durante algum tempo, ficou calada, trémula em razão da emoção
a que tinha dado motivo e evitando que as lágrimas lhe caíssem dos
olhos. Depois, como estimulada por brusco impulso, moveu-se nos
braços e sentou-se, afastando da testa os cabelos e fitando nele um
olhar cheio de timidez.
- Se ao menos se lhe dissesse... - arriscou, os dedos a
esconderem-se nervosamente entre as dobras do albornoz.
Mas ela notou a recusa no rosto dele, mesmo antes de aventurar
essas palavras. Com um negativo sacudir de cabeça, ele levantou-se,
afastando-a gentilmente.
- É impossível, Diana - afirmou com acento que ela bem conhecia
como não admitindo contestação. - Nenhum de nós poderá dizer-lho.
Anos antes ela havia já apreendido a futilidade do argumento e
assim não fez nenhum esforço para o persuadir, e guardou silêncio ao
vê-lo deixar a sala. Mas o rosto dela
149
estava perturbado, as pesadas cortinas haviam-se cerrado atrás
dele, e com um ar acabrunhado Diana voltou a terminar os seus
preparativos para a toilette do jantar.
Eles não poderiam dizer-lhe, mas Raul poderia.
Mas, agora, como pedir-lhe que o fizesse?
Pouco tempo depois, num dos luxuosos aposentos da tenda dos
hóspedes, que fora plantada no deserto ao lado da tenda do sheik,
afastada do tumulto do acampamento principal, o filho estava sentado
naquele mesmo instante, esperando comodamente a chegada de Raul
de Saint Hubert.
Já vestido para o jantar, naquele momento havia dispensado o
criado. O rosto excitado de Guilherme traía o prazer de se achar
finalmente no meio daquilo que pomposamente denominava a «coisa
real». Tinha mais satisfação ainda agora do que Caryll podia perceber.
Este estava longe de sentir igual prazer.
Do princípio ao fim, o dia fora de fracassos.
Na última noite, passadas as primeiras saudações, sentira um
estado de tensão nervosa que ele sabia devida exclusivamente a si
mesmo. E, se assim era, que é que poderia socorrê-los? - pensou
raivosamente. - Que outra coisa esperavam eles? Era razoável supor
que pudesse manifestar deleite num encontro com pais que lhe eram
estranhos, cuja atitude passada não hesitava em condenar, cujo modo
de vida deplorava? Era este tardio reconhecimento da sua existência
compensação suficiente do abandono de muitos anos? Tinha de perdoar
o afastamento que amargurara a vida ao querido velhinho, cuja morte
parecia deixá-lo só no mundo? Os seus preconceitos não lhe valiam de
nada? O momentâneo e incompreensível desejo de obter a aprovação
paterna, a onda súbita de emoções que sentiu quando sua mãe lhe
passou os braços pelo corpo e quando os seus lábios tocaram nos seus,
tinham-se desvanecido com a mesma facilidade com que haviam
nascido e tinham cedido lugar ao velho sentimento de amarga
hostilidade, fazendo-o voltar a ser friamente reservado, pouco
expansivo, com a língua presa.
Na última noite, ao jantar, durante as horas subsequentes,
150
tinha sido presa de um sentimento de distância, de um embaraço
que lhe aumentara a timidez e o condenara a um silêncio quase
completo.
A despeito de todas as tentativas feitas para o envolverem nas
conversas, sentira-se um homem longe de tudo. Fora-lhe difícil
encontrar um assunto sobre que conversar. Queimado pelo despeito,
não podia falar do lar na Inglaterra que ele tanto amava, e da Argélia
não poderia falar. Durante toda a noite sentira olhos penetrantes,
cravados na sua direcção, que pareciam dissecá-lo mentalmente. Sob
tal exame havia corado, até que um sentimento de ira lhe tornou tudo
insuportável. Sentindo sobremaneira não poder disfarçar as suas
emoções, a calma, a impassível atitude do sheik encheu-o de uma
espécie de furor nada razoável. Tinha um sentimento instintivo de que
aquela calma impassibilidade era disfarce tecido por forças tremendas,
postas em movimento pela força de uma vontade de ferro. Que se
ocultava debaixo daquele exterior tão suavemente cortês? Que haveria
dentro daquele rosto duro, impenetrável?
Vinte e quatro horas antes havia-se proposto estas perguntas.
Agora ele sabia-o, ou julgava saber. E esse conhecimento fê-lo pensar
no que seriam as suas futuras relações com aquele pai de fala francesa
e aparência bárbara, sendo certo que entre ambos cada vez mais se
cavava um abismo intransponível.
Que base de acordo poderia vir a existir entre seres cujos pólos
eram opostos, que não tinham um pensamento, um impulso em
comum?
A noite anterior tornara esse facto bem evidente. Hoje,
igualmente, nada sucedera que o autorizasse a mudar de opinião. Muito
ao contrário, tinha visto que tudo contribuíra para lhe aumentar a
irritação, que tudo lhe fortalecia os sentimentos de ódio e antagonismo.
A manhã começara desagradàvelmente. Tendo-se erguido do leito
muito cedo, fora dar um passeio pelo acampamento e no decurso do
mesmo encontrara-se num ermo onde se procedia a um acto de justiça
com ardor e severidade verdadeiramente orientais. Não tinha,
naturalmente, conhecimento
151
do crime ou da falta que o infeliz estava pagando tão caro, mas a
punição infligida ao culpado, e que ele involuntariamente testemunhara,
fizera-o voltar à tenda cheio de desgosto e horror.
Sem ser visto, voltara para trás trazendo a horrível lembrança de
um paciente macilento, que, imóvel, esperava chicotadas que lhe
flagelavam o próprio rosto!
Aquilo era seu pai desmascarado!
Um selvagem, um tirano, um déspota cruel que não somente
tolerava, mas era o responsável por tal infâmia.
Era este, então, o homem que Raul admirava, o homem que sua
mãe amava. Bom Deus celeste! Como era possível tal coisa? Sobretudo,
sua mãe, mãe de voz doce, como podia, sabendo tais coisas, manter
afecto por tal bruto! Era a vida selvagem que ela vivia que lhe dava tal
insensibilidade? A atmosfera do deserto tornara-a, pois, indiferente ao
sofrimento?
Mais tarde, quando se encontrou com ela, fitou-a demoradamente
para nela surpreender qualquer coisa que lhe mostrasse que ela estava
a par do que acontecera de manhã.
Teria ela conhecimento daquilo ou deliberadamente fechava os
olhos a uma ocorrência a que o tempo a habituara? Mas, soubesse ou
não daquilo, uma coisa era indiscutível: ela adorava o homem que
permitia tais selvajarias e sentia-se feliz no meio de circunstâncias que
seu filho achava horríveis, indescritíveis.
Para Caryll o episódio da manhã enegrecera todos os
acontecimentos subsequentes do dia. Tudo, depois, o aborrecia. Agora
parecia ver uma justa causa para o ódio que votava ao pai.
Os homens, tanto como o chefe, pareciam imbuídos da mesma
fria indiferença. Andando pelo acampamento durante o dia em
companhia do sheik e de Raul, não tinha percebido nenhum sinal de
revolta ou sequer de lembrança do incidente que tanto o impressionara.
Parecia que o caso se apagara da memória de todos. Aquilo nada era
para aqueles selvagens, que eram governados por um selvagem tão
brutal como eles próprios!
152
Até o prazer que lhe causavam os cavalos, que, noutras
circunstâncias, seriam para ele uma fonte de sumo deleite, fora
manchado pela vista da aplicação de uma ferradura por método que ele
reputava desumano, cruel. Reprovando interiormente aquilo tudo,
tornava-se cada vez mais silencioso, mais friamente inacessível.
Com toda a sensibilidade em revolta, votara-se à reclusão na sua
tenda tão cedo quanto possível, a relembrar morbidamente as coisas
vistas e a dar maior relevo a tudo quanto lhe parecia contrário ao seu
modo de ver e sentir. Tinha passado de uma furiosa indignação a uma
raiva concentrada e então, por cúmulo, Raul veio juntar-se-lhe. Um
olhar pelo seu rosto rubro e irado convenceu o caloroso e bondoso
francês de que havia necessidade de uma íntima confidência entre
ambos, antes de chegar a hora da reunião da família. Tivera uma
inteligente compreensão do estado mental de Caryll e viera preparado
para falar-lhe francamente, quaisquer que fossem as consequências.
Que ele se encontrava em condições de ver os dois lados do caso
e que as suas simpatias estavam igualmente divididas, pensava, ansioso
por dizer a palavra de aviso que ele via claramente que deveria ser dita.
- Que há, Caryll? - perguntou Raul, instalando-se numa cadeira e
chegando ao ponto com característica prontidão.
- Não é preciso dizer-me que tudo correu mal, porque eu vos vi
durante todo o dia. Não quero que nos precipitemos no poço do
provérbio, e Deus sabe que não vos quero obrigar a confidências, mas
aqui estou para ouvir-vos naquilo que entendeis falar. Sempre fomos
francos um com o outro, sede agora também franco comigo. Que é que
especialmente vos apoquenta?
Os olhos espantados de Caryll encontraram os de Raul por um
momento.
- «Especialmente apoquenta» - repetiu. - Bom Deus, é «tudo». É
tudo tão completamente, tão superlativamente brutal!
Era uma reedição da sua primeira explosão em Touggourt e Raul
sacudiu os ombros com impaciência.
153
- Isso é generalizar - disse. - Tendes de ser mais explícito, se é
que vos posso ajudar nalguma coisa. Sei que odiais o país e viestes
preparado para não gostar de nada. Mas, já que aqui estais, não podeis
pôr de lado os preconceitos e fazer algumas concessões? Sei que a
situação é difícil. Mas ser intolerante em relação a tudo que vedes, e
mostrar essa intolerância, não é tornar a situação mais fácil. Não quero
fazer-vos um sermão, Caryll, mas, crede-me, estais a incorrer num
engano que tereis de lamentar durante toda a vossa vida. Pensai no que
a vossa vinda significa para a vossa família. Considerai o caso sob o
ponto de vista deles. Não desprezeis o afecto que estão preparados para
vos dedicar. Circunstâncias infelizes fizeram com que de vós se
separassem quando ainda éreis criança e não vos esqueçais de que foi
para vosso próprio bem que eles vos enviaram para Inglaterra. Tal
sacrifício certamente requer consideração da parte beneficiada. Procurai
recompensá-los por tal sacrifício. Procurai tratá-los com afabilidade,
como eles vos tratam. Além disso, que mais poderiam fazer eles do que
fizeram? Não vos podeis queixar da recepção que vos foi feita. A
felicidade de vossa mãe, quando vos viu, foi tão patente, que não há
necessidade de a encarecer, e vosso pai...
Caryll estremeceu e esgazeou os olhos. - Não faleis nele! -
exclamou. - «Meu pai!» Oh, Deus! Lembro-me do que vi esta manhã...
E como se as palavras lhe fossem arrancadas, descreveu com
frases rápidas, incisivas, a ocorrência que de manhã presenciara.
- Batido como se fosse um cão - concluiu com voz tremente de
paixão - coberto de sangue...
Interrompeu-se horrorizado, escondendo o rosto com as mãos.
Houve um longo silêncio, em que só se ouvia a sua respiração
ofegante. E enrolando com os dedos o cigarro que se tinha esquecido de
acender, Raul fitou-o com compaixão e perplexidade, enquanto ensaiava
uma expressão que nem ofendesse nem parecesse condenar. Nunca se
vira às voltas com tamanha dificuldade, nunca lhe parecera tão
necessária
154
a escolha de palavras. Pela primeira vez na sua confortável
existência, Caryll via-se defrontando as duras necessidades que eram
indispensáveis para governar uma comunidade turbulenta que estava
muito longe da civilização. Tinha visto a execução da justiça sumária
que era inevitável numa terra onde a represália é imediata e só se podia
responder à violência com a violência. Pela primeira vez ele se pusera
em contacto com a lei natural, a lei antiga que requer olho por olho,
dente por dente, vida por vida.
Tinha sido um brutal despertar para um aspecto da vida que, até
aqui, não conhecia, e Raul compreendeu quão grande fora o choque
para o seu supersensitivo, enfastiado espírito. Fremindo em pensamento
ansioso, o conde adiantou-se na cadeira, procurando palavras que
pudessem explicar o que ele sabia ser ao mesmo tempo imperioso e
inevitável nas condições do ambiente, palavras que pudessem levar
Caryll a compreender melhor essas condições.
O cigarro fizera-se em pedaços entre os seus dedos nervosos, até
que pôde falar.
- Alegro-me por me terdes falado nisso - prosseguiu finalmente -
porque assim se me tornou possível compreender o que fora inexplicável
durante todo o dia. É lamentável que tenhais visto isso antes de terdes
chegado a uma compreensão mais profunda das circunstâncias que
tornam necessárias essas tristes ocorrências. Em vista disso, aquilo
deve-vos ter parecido horrível e bárbaro. Mas somente vistes o castigo,
sem saber o motivo que o provocou. Isto é uma terra primitiva, meu
amigo, onde as paixões fazem explosão e abunda a licença e há certas
ofensas que exigem medidas drásticas se se quiser manter a disciplina.
Lembrai-vos, outrossim, de que, aqui, estamos fora das convenções,
fora das leis que governam as convenções sociais. Aqui é somente o
braço forte que governa. A equidade e a justiça têm de ser
interpretadas de conformidade com as várias classes da sociedade, e a
justiça que vosso pai ministra é a justiça que é reconhecida e
compreendida pelo povo que ele governa.
«As circunstâncias fizeram dele aquilo que ele é e a necessidade
compele-o a obedecer a métodos que sempre têm prevalecido
155
e continuarão a prevalecer até que a civilização varra usos antigos
e abra um caminho para o pensamento moderno e para o melhoramento
- se isso é melhoramento.
Raul sentou-se bruscamente, arrojou com um gesto impaciente a
capa que envergava e prosseguiu:
- A aspiração moderna, de melhoria e de educação para o nativo,
que bem já produziu? - perguntou com veemência.
- Que benefício nos trouxe a soi-disant civilização? Roubado da
terra que dantes era sua, sobrecarregado de impostos para custear
serviços que melhor fora não existissem, explorado para que o dinheiro
encha os bolsos daqueles que deles se servem somente para os seus
fins! Tomai a Argélia por exemplo...
Quando disse estas palavras, Raul arrependeu-se e voltou ao tom
usual, calmo, da sua voz:
- É triste, Caryll, mas não quero impingir-vos as minhas
retrógradas opiniões e receio ter-me afastado do ponto de que
tratávamos. Voltemos ao que vos apoquenta. Sei que tudo vos é
estranho, mas não quero que ideias erróneas se instalem
definitivamente no vosso espírito. Não podeis aprovar os métodos de
justiça de vosso pai. Ora, muito bem. Mas não esqueçais que esses são
os únicos métodos que o povo compreende. Ele faz o que faz, porque o
deve fazer. Tem de manter a ordem e segue uma regra reconhecida. Se
ele fosse o déspota cruel que pensais, não teria sobrevivido até agora
para governar ben Hassan. O seu povo teme-o, mas ama-o como
poucos chefes são amados. Vistes algum sinal de descontentamento no
acampamento, hoje? Não. Então não é isso uma prova do que estou a
dizer? Se o seu povo o ama, porque não podeis amá-lo também? Crede,
Caryll, ele é digno da vossa confiança e da vossa estima. Como poderia
ele conservar o amor de vossa mãe durante tantos anos - e vós mesmo
podeis ver que ela adora até o chão que ele pisa -, como conserva
também o meu afecto humilde? Como podereis, em apenas vinte e
quatro horas, conhecê-lo melhor do que nós? Como podereis julgá-lo
por preconceito? Dissestes-me em Touggourt que o odiais e a razão
desse ódio? Que será se eu vos provar que esse ódio
156
que tendes alimentado toda a vossa vida é infundado? Se eu
provar que, condenando-o por motivos insuficientes, lhe estais fazendo
grave injustiça...
Raul arrependeu-se novamente. No entusiasmo do momento, no
seu ardente desejo de conciliar pai e filho, tinha dito mais do que queria
dizer, quase chegara ao ponto de revelar, prematuramente, a história
que ele tinha decidido que, mais cedo ou mais tarde, seria contada.
Mas não era agora o tempo oportuno e já lamentava as palavras
impetuosas que lhe tinham escapado.
Com uma breve referência à hora avançada, fez menção de
levantar-se. Mas uma mão no seu braço deteve-o.
- Que quereis dizer, tio Raul? A que aludis?
Raul voltou a cabeça vagarosamente. Era um rosto estranhamente
pálido que o fitava, os olhos a traírem não se sabe se suspeita se
apreensão.
Mentalmente Raul maldizia a sua precipitação, mas, enquanto ele
hesitava, os dedos de Caryll mais se crispavam apertando-lhe o pulso.
- Que quereis dizer, tio Raul? A que aludis?
A repetição mecânica dessas palavras, a forte ansiedade que
transparecia da voz estrangulada de Caryll, fez que Raul desejasse
ardentemente que outro e não ele abrisse os olhos de Caryll à verdade e
lhe causasse a dor que provoca o despedaçar de uma ilusão.
Mas, quando Caryll soubesse tudo, seria capaz de compreender
bem? A trágica história de sua avó espanhola não deixaria de
impressioná-lo. Mas, inglês até à medula, poderia compreender a agonia
mental do sheik quando descobriu que era um estrangeiro na terra do
seu nascimento e não o verdadeiro filho do velho chefe árabe, coisa de
que veio a saber somente quando chegou à virilidade. Essas dúvidas
foram-se avolumando no cérebro de Raul e este então levantou-se,
colocando suavemente as mãos nos ombros do jovem.
- Não posso dizer-vos, agora - disse - não pretendo falar disso
esta noite. Deveis esperar, confiante em mim. É uma longa e velha
história, uma história que Deus sabe que não é fácil contar, mas, para
que possais fazer justiça a
157
vosso pai, tereis de ouvi-la. Não tendes culpa de o não julgar
rectamente, porque vos deixaram crescer sob uma falsa impressão que
cumpre corrigir. Que ele não a contará, sei-o eu. A vossa atitude não
me deixa outra alternativa. Mas tendes de ouvir essa história. No tempo
oportuno, Caryll, por amor de vós mesmo, pedir-vos-ei que a ouçais.
Não deixeis que o vosso natural bom-senso seja toldado pelo
preconceito. Procurai encontrar-vos com ele esta noite, com o coração
aberto. Lembrai-vos, acima de tudo, que há outros pontos de vista além
dos vossos.
Esperou algum tempo olhando para aquela face pálida e as suas
mãos caíram aos lados. Fez, então, menção de alcançar a porta.
Vagarosamente, Caryll seguiu-o e foi depois de estarem fora da
tenda, à branca luz do luar, que falou.
- Falastes em coisas terríveis, tio Raul, e aludistes a algo de
misterioso que existe na nossa família. Se tendes o desejo de contar-
me, preferia que o fizésseis agora. Detesto os mistérios. Mas se há
alguma coisa contra o velho... - acrescentou com voz calorosa - aviso-
vos que...
- Agora, não - interrompeu Raul - deixai isso para mais tarde, meu
caro. Fui um louco dizendo o que disse, pois não queria falar-vos a esse
respeito tão cedo. Preferia esperar que conhecêsseis melhor vosso pai.
Deveis confiar em mim até que chegue o tempo oportuno. Até então,
esquecei-vos disso e perdoai-me o sermão.
A resposta que Caryll sussurrou foi inaudível e, em silêncio, ambos
se puseram a caminhar, cada qual possuído de um sentimento de
reserva que pareceu suscitar-se entre os dois, cada qual admirado do
que passava pelo cérebro do outro.
Quase haviam chegado ao pavilhão principal, quando Raul parou
com uma exclamação e apontou para uma multidão que se tinha
juntado a alguma distância, do outro lado das tendas da tribo. À luz do
luar, as figuras moviam-se quase imperceptíveis, com aspecto
fantástico, sobrenatural. Momentos depois percebiam-se camelos e
cavaleiros, em redor dos quais se agrupavam os árabes.
158
- Parece uma caravana a chegar ou a partir - disse finalmente. -
Que há, Caryll, que vossos olhos estão menos cansados do que os
meus? Quem quer que sejam, aqueles homens estão
extraordinariamente silenciosos.
Sufocando o «graças a Deus pelas suas misericórdias», que quase
lhe escapou, Caryll relanceou os olhos na direcção indicada.
- Diria que estão a partir e para isso se põem em movimento.
O seu total desinteresse e falta de curiosidade sobre coisa aliás
rara no deserto fizeram brotar nos lábios de Raul um sorriso, mas ele
nenhum comentário fez.
- São, provavelmente, transeuntes que pedem água - observou,
mais para si próprio do que para o companheiro.
O jantar esperava-os quando chegaram à tenda principal, mas
Diana ainda não aparecera e o sheik entretinha-se com a
correspondência numa secretária pequena, colocada a um canto da sala.
Ahmed lançou-lhes um olhar à chegada e fez sinal a Raul para se
sentar a seu lado.
Entregue aos seus próprios projectos, Caryll procurou uma cadeira
distante dos dois, onde se juntou a um dos sloughis que se lhe ligara
desde a chegada ao acampamento. Apaixonado amigo dos animais,
correspondeu à saudação daquele tratador de animais e pôs-se a
estudar o homem que Raul havia defendido com tanta veemência: o
sheik. Observou-lhe o rosto que era um enigma de impenetrabilidade.
E Caryll escarnecia dele. Dentro de poucas horas vira a expressão
da sua fisionomia mudar-se da maior ferocidade à mais extrema
delicadeza e ficava sem saber, perplexo, qual era a verdadeira natureza
do pai a quem tão pouco conhecia e de quem viria a saber mais
«quando chegasse o tempo oportuno». A lembrança da promessa de
revelações, feita pelo tio, fê-lo sentir um frio tremor. Aquela história, a
velha história que teria de ouvir, clarearia ou obscureceria ainda mais a
sombra negra que sobre ele pesava desde a infância? O conhecimento
dela implicaria a expulsão de todas as crenças primitivas e dos ideais
sobre que edificara a sua fé? Sentiu-se
159
enrubescer e a si próprio se maldisse. Como se alguma dessas
coisas pudesse ser longinquamente possível! O pensamento que se lhe
instalara no cérebro parecia-lhe uma deslealdade, um insensato insulto
à memória do morto querido. Alguma coisa deveria, no entanto, existir,
pois do contrário Raul não lhe teria falado.
A confiança pareceu desertar dele. Era como se o chão firme, que
pisara por tantos anos, se lhe fugisse subitamente dos pés, deixando-o
perante um abismo, diante da dúvida e incerteza.
Que resultaria de tudo aquilo? Que mais apoquentações e
desilusões o aguardavam nesta terra, em que sentia que lhe fugiam os
últimos resquícios da paz do espírito? A vida seria sempre a mesma?
Sentiu-se assoberbado de temor.
Os seus olhos pousaram de novo no rosto do pai. E novamente o
surpreendeu a vaga semelhança que o inquietou na tarde anterior, uma
semelhança ilusória que não parecia completa, mas que era
suficientemente notável para fazer com que o cérebro se lhe
empenhasse na fútil tentativa de lembrar onde havia visto um rosto
semelhante.
Foi na Argélia ou na Inglaterra? Era um rosto parecido visto
recentemente ou há anos?
O problema mantinha-se insolúvel quando viu os dois homens
levantarem-se. Então, afastando-se do sloughi, foi ao encontro da mãe.
Todos os sinais de choro se haviam dissipado no rosto de Diana,
que, sorridente, constituía um radiante contraste, na brancura
imaculada das suas vestes, com a cor negra das cortinas.
Então, com um gesto de irónica contrição, ela avançou para a
frente.
- Estais todos famintos - disse alegremente. - Sei que já é tarde e
por isso nada mais direi. Mas tremo pensando no que será a sopa.
- A ferver, provavelmente.
- Excelente, como sempre.
O sheik e Raul falaram ao mesmo tempo e como o primeiro fosse
à porta para bater palmas a chamar os criados,
160
o outro foi sentar-se ao lado da recém-vinda, para quem se voltou
com o agradável sorriso habitual.
- Não me importa a sopa, Diana. Não penso, em qualquer
emergência, em perturbar a equanimidade do meu velho amigo Benalia.
Tive com ele longa palestra esta manhã. Homem maravilhoso que não
envelhece! Contou-me que arranjou uma nova esposa e que inventou
um novo tempero para o cuscuz. O tempero parecia interessá-lo mais
particularmente.
- As esposas de Benalia - observou o sheik voltando ao seu lugar -
só existem para lhe provar os condimentos. Se elas sobrevivem,
apanhamos uma nova iguaria. Usualmente, elas sucumbem. Espero
devotamente que a sua última aquisição lhe tenha rendido o novo
tempero, que esta noite decerto experimentaremos.
Diana sacudiu a cabeça em sinal de reprovação.
- Não o ouçais, Caryll - aconselhou, sorrindo. - Ele não é tão mau
como parece, embora eu tenha de admitir que os negócios matrimoniais
do nosso velho cozinheiro são geralmente mais ou menos confusos. E eu
não lhe aprovei o cuscuz quando ele o sugeriu pela manhã. Creio que já
estais farto disso, não?
A pergunta pareceu dirigida directamente ao centro de atenção,
enrubescendo o rosto sensível de Caryll.
- É mais um gosto adquirido, não é? - tartamudeou com
dificuldade.
Raul percebeu o embaraço do rapaz e lançou-lhe um olhar de
motejo.
- Não é bom, Caryll. Fazei de conta que nunca experimentastes
esse acepipe. A atitude de Caryll em relação ao cuscuz - continuou,
dirigindo-se aos demais presentes - lembra-me duas encantadoras
americanas que há alguns anos encontrei em Biscra. Elas haviam
chegado duma curta excursão pelo deserto e estavam entusiasmadas
com tudo, menos com o cuscuz. Parece que o cozinheiro que as
acompanhava tinha uma invencível predilecção pelo prato nacional, que
lhes servia todas as tardes. Com a mesma regularidade, todas as tardes
as duas, não querendo ferir-lhe os patrióticos sentimentos
161
culinários deixando intacto o prato querido, sepultavam o cuscuz
na areia, sob a tenda. Contaram-me elas o horror com que viram,
quando o acampamento se mudou e ao ser arrancada a tenda, os
pedaços de cuscuz serem exumados sob os olhos acusadores do
cozinheiro, perdendo elas assim para sempre o prestígio que gozavam
perante ele.
Vendo a atenção geral desviada de si, Caryll pôde aderir às
risadas que se seguiram a essa humorística narrativa. A conversação
tornou-se generalizada e pouco a pouco ele sentia-se mais à vontade,
menos consciente de si próprio.
Reservado ainda e pouco comunicativo, por natureza, ele não
podia juntar muita coisa à animada palestra que os outros entretinham
com tamanha facilidade, mas uma observação que lhe foi feita fê-lo
deixar de corar e emudecer e a sua atitude tornou-se, por momentos,
menos esquisita e comprometedora.
Muito do que foi dito lhe escapava à compreensão e ele teve
tempo de olhar ao redor de si e notar pormenores que, meio absorto,
não notara anteriormente.
Com um crescente sentimento de admiração, foi-se sentindo cada
vez mais interessado pelo ambiente. Bárbaras como eram as disposições
da tenda e por bizarras que lhe parecessem, não podia deixar de admitir
que os utensílios caros eram harmónicos na aparência e estavam
dispostos com gosto. E, olhando mais atentamente, viu muitas ninharias
que tornavam evidente a mão duma mulher.
Estranho lar para uma inglesa e estranha mulher aquela que
achava felicidade e alegria em tal ambiente!
Ele lançou sobre ela um olhar disfarçado. Certo, então, de não ser
percebido, olhou mais firmemente. Olhou ainda mais, até que lhe adveio
uma sensação que não era apenas admiração, mas que se transmudara
rapidamente num sentimento profundo, quente, que lhe fez bater o
coração.
Como ela lhe pareceu jovem, absurdamente jovem, para ser sua
mãe! Tinha dificuldade em reconhecer que era sua mãe! Tinha-a
pintado, na imaginação, muito diferente da realidade. Nunca pensara
que a verdade fosse aquela, nunca mesmo a sonhara tão linda. Tão
linda e tão doce!
162
Sua mãe! O termo, que anteriormente lhe fora apenas uma forma
de palavra, agora revestia-se duma significação maravilhosa.
Imerso no vórtice duma emoção nova, ele procurava repeli-la,
lutando por conservar a sua compostura, mas incapaz de tirar os olhos
daquela face amável que lhe parecia agora mil vezes mais bela, mais
querida. Como atraída pelo seu olhar insistente, a mãe virou o rosto e
sorriu para ele, e, por um segundo, viu-a somente através dum tecido
de lágrimas. Furioso consigo mesmo, ele procurou disfarçá-las
pestanejando e, sábia no conhecimento dos homens, Diana não deu
sinal de as haver percebido. Somente, como por acaso, as suas mãos
tocaram as dele.
E a rápida pressão dos seus macios dedos quentes deu-lhe um
arrepio estranho que antes não conhecia e, rendendo-se sem reservas
ao apelo da natureza, todo o coração se lhe abriu para ela, em fervente
gratidão e amor.
Mas, com o sentimento de desconforto ante a desconfiança de que
os outros houvessem presenciado a sua fraqueza, lançou um olhar
furtivo para o sheik e para Raul e respirou mais sossegado quando os
viu absorvidos numa conversa que lhes fez passar despercebido o
pequeno incidente.
Tranquilizado, endireitou-se na cadeira e entregou-se a nova
ordem de meditações, agora iniciada.
O jantar estava quase terminado.
Os silenciosos criados árabes já se haviam retirado e só ficara
Gastão, servindo o café, que fora preparado num braseiro do lado de
fora da tenda.
Houve uma pausa na conversação.
Foi a voz do sheik que quebrou o silêncio e despertou Caryll dos
pensamentos em que imergira.
- Ireis pelo norte ou pelo sul quando nos deixardes, Raul, ou
voltareis directamente para França?
Decorreram um ou dois minutos até Raul responder. Entretinha-se
a fazer figuras com o seu canivete.
- Não volto à França - disse. - Vou a Marrocos.
Havia uma curiosa deliberação na sua resposta, uma
163
quase sinistra inflexão de voz que atraiu para o seu rosto os olhos
do sheik.
- Com algum objectivo definido? - perguntou.
Raul fitou-o firmemente.
- Sim, com objectivo definido - confirmou calmamente. - Vou
procurar o assassino de Renato De Chailles.
O pequeno suspiro que partiu dos lábios de Diana foi abafado pela
exclamação em voz grossa do sheik.
- O assassino de De Chailles - repetiu com incredulidade. - Bon
Dieu, pensava que já havíeis renunciado à esperança de o achar. Já há
muito tempo que falais nisso, pelo menos dez anos, desde que o
governo fez circular um relatório da sua morte.
- Eu sei - respondeu Raul - mas nunca concordei em dar como
definitivo esse relatório. Não quero dizer que as autoridades foram
negligentes ou não empregaram os meios adequados à descoberta do
criminoso. Mas, para mim, a evidência não era concludente e o corpo do
assassino nunca foi encontrado. Pessoalmente, tenho sempre tido o
pressentimento de que ele ainda vive e que algum dia será encontrado e
entregue à justiça. Para esse fim tenho persistido nas minhas
investigações, mesmo depois que o governo considerou o caso perdido.
Tenho agentes trabalhando para mim em toda a Argélia. Mas ainda não
obtive resultado algum, e eu começava a desanimar quando o ano
passado recebi certas informações que me apontaram nova pista.
Recebi comunicação dum dos meus homens de que o homem, ou
alguém muito parecido com ele, fora visto em Marrocos - era um mouro,
como deveis lembrar-vos, que, segundo se supunha, se encaminhava
para o sul. Era uma pista muito frágil, mas, pelo menos, era alguma
coisa concreta, e resolvi segui-la. É curioso. Na mesma semana fui
procurado em Paris pelo representante legal da família De Chailles. Ao
tempo da tragédia, como sabeis, Ahmed, Renato tinha uma filha, uma
menina de cerca de dois anos de idade. Quando ele foi assassinado, a
criança desapareceu com a mãe, ao mesmo tempo que o assassino.
Nunca mais se ouviu falar neles e o caso envolveu-se em mistério. Mas
agora tornou-se necessário
164
provar se aquela criança é viva ou morta, porque, em razão de
muitos falecimentos ocorridos na família De Chailles, se aquela criança
estiver viva, é ela a herdeira duma enorme fortuna. Há outros
pretendentes à herança, parentes de longe que naturalmente estão
procurando fazer valer os seus supostos direitos, mas os tribunais têm-
se negado a reconhecê-los enquanto não houver informações positivas
de que o tronco principal da família, representado pela filha de Renato,
morreu ou não. Assim, no momento, o litígio está na fase probatória.
Entretanto, prossigo nas minhas pesquisas com um duplo objectivo:
punir o assassino do meu pobre amigo e achar a filha ou certificar-me
da morte desta.
Houve uma pequena pausa quando ele deixou de falar.
O seu calmo tom de voz e os seus gestos não revelavam o
implacável vingador. E dos três que o ouviam sentados, somente o sheik
lhe conhecia o inflexível propósito a que dedicara tantos anos de vida e
a coragem e firmeza com que prosseguia nas suas investigações. Para
Caryll a história e o novo aspecto sob que via o carácter do homem que
ele conhecia tão perfeitamente eram uma revelação que o deixava
boquiaberto de espanto. Incapaz de compreender a completa
significação do que ouvira, o caso, entretanto, projectava muita luz
sobre coisas que muito o haviam intrigado durante a sua permanência
em Touggourt.
Foi Diana quem primeiro falou, sacudindo a cabeça com
perplexidade.
- Mas quando aconteceu essa coisa horrível? Porque foi que nunca
ninguém me disse nada a esse respeito? Conhecias o caso e porque não
mo referiste, Ahmed?
O sheik estremeceu levemente e não levantou os olhos do cigarro
que estava a acender.
- Nada poderias ter feito, ma mie. Porque haveria de entristecer-
te sem necessidade?
Conhecendo-o como ela o conhecia, compreendeu que alguma
coisa se ocultava naquela evasiva do esposo e os seus olhos fixaram-se
por momentos na face impenetrável daquele homem. Depois dirigiu-se a
Raul.
- Quem era o senhor De Chailles e porque o mataram?
165
Raul abanou a cabeça.
- Se eu pudesse responder a essa pergunta, as minhas pesquisas
seriam muito fáceis. A causa do crime jamais transpirou. A única
sugestão que finalmente recebi veio dum condutor de camelos, que
estava ligado à expedição ao tempo da tragédia e que, sendo o único
sobrevivente, pôde contar a história do massacre da caravana de De
Chailles. Ele também, mortalmente ferido, sucumbiu algumas semanas
depois, no pequeno hospital militar de El-Oued. Foi lá que o vi e fiquei
sabendo o pouco que sei de todo este triste caso. Mas a história ficará
mais fácil de compreender se eu contar os acontecimentos pela ordem
da sua sequência.
«Renato De Chailles era um dos meus amigos mais antigos. Era o
filho mais novo do conde De Chailles, cuja família se contava entre as
mais antigas da França. Sempre visionário e sonhador, era, ao mesmo
tempo, um dos homens mais encantadores e amáveis que jamais
conheci e um dos mais obstinados. O seu património, como filho mais
novo, não era grande, mas, perfeitamente satisfeito com os seus
escassos recursos, dedicou a sua vida a pesquisas científicas, que lhe
deram reputação mundial, embora não lhe proporcionassem muito lucro
material. Mas a venda dos seus livros auxiliava-o um tanto no custeio
das suas expedições. Desde o princípio, a Argélia atraiu-o, de forma que
vagueava no deserto durante meses e, às vezes, anos a fio. Como o
dinheiro não lhe sobrava, as suas expedições tinham um cunho de
espartana simplicidade e o seu séquito era dos menores. Era muito
simpático e popular entre os árabes e os seus criados eram-lhe
devotados em extremo. Absorvido pelos seus trabalhos, pouco tempo
consagrava às mulheres. Era bacharel formado e quando chegou aos
quarenta anos caiu de amores por uma linda menina, vinte anos mais
nova do que ele, e com ela se casou. A despeito da disparidade de
idades, foi, de ambos os lados, um casamento por amor, porque ela era
pobre como ele, mas encantadora. Ela fechou os olhos à pobreza do
esposo e entusiasmou-se com a ideia de lhe partilhar a vida selvagem.
O deserto não lhe infundia medo, desde que estivesse a seu lado.
166
«Vi-os principiar a lua-de-mel, que durou até o seu assassínio, e
raramente tenho encontrado casal tão feliz. Vi-os no ano seguinte em
Biscra, justamente por ocasião do nascimento da pequenita, cujo
advento lhes veio completar a felicidade. Foi enquanto ali os visitava
que pela primeira vez ouvi falar no novo criado que haviam contratado
para substituir o velho assistente, que naqueles dias havia morrido,
após muitos anos de serviço fiel. Infelizmente, nunca vi o homem, pois
fora mandado ao sul para organizar a caravana para a próxima
excursão.
«Renato, entusiasta como era, era pródigo nos seus louvores.
Destituído, a muitos respeitos, de prática e dado a apressadas
preferências e antipatias, o meu pobre amigo pouco valor atribuía às
referências e preferia confiar, de todos os modos, no seu próprio juízo.
O precipitado contrato do novo criado foi feito assim. O homem chegara
a Biscra, sabe Deus vindo de onde, sem credenciais e sem amigos que o
afiançassem. Mas expressava-se com facilidade e ganhou a confiança de
De Chailles exibindo um conhecimento íntimo do país e um grande
interesse pela obra que Renato empreendia.
«Eu próprio ouvi Renato elogiá-lo abertamente, mas soube que
não foram poucos os que em Biscra, tanto árabes como franceses,
tentaram mostrar-lhe a necessidade de obter informes do homem em
quem ele depositava tanta confiança. Mas ninguém conseguiu dissuadi-
lo nem influenciá-lo de qualquer modo. Também lavrei o meu protesto
contra a imprudência e fi-lo com veemência, mas Renato a nada
atendeu e, pelo contrário, fez ardorosa defesa do homem. Declarou que
em Ghabah, o mouro, tinha finalmente encontrado o servo ideal, o
príncipe dos condutores de caravanas. Que somente o ciúme provocava
objecções de estrangeiros contra o mouro e que ele, Renato, estava
plenamente satisfeito, preferindo confiar na sua própria opinião.
Naturalmente, uma vez que assumira aquela atitude, nada mais se
podia fazer. «Deixaram Biscra logo que a senhora De Chailles se
encontrou forte bastante para viajar.
«Nunca mais os vi. Mas nos dois anos que se seguiram
167
recebi uma ou duas cartas de Renato, cheias de amor pela esposa
e pela filha, que pareciam admiravelmente identificadas com o deserto e
cheias de esperança no êxito final da expedição. Também falava em
termos elogiosos do seu criado modelo, Ghabah. Nunca tivera um servo
tão dedicado, nunca recebera assistência tão inteligente, na obra que
tão de perto lhe falava ao coração. O resultado da sua cega confiança
ouvi-o dos lábios do condutor de camelos, agonizante no hospital de El-
Oued. Sabendo da minha amizade a De Chailles, as autoridades
telegrafaram-me para França, logo que tiveram conhecimento da
tragédia, e eu parti para El-Oued para ouvir o único sobrevivente da
caravana.
«O pobre homem estava em estado horrível. O facto de ele não
sucumbir imediatamente e de as forças não lhe abandonarem pés e
mãos durante alguns dias e noites, enquanto não o recolheu uma
caravana que passou pelo local, mostra somente como a vida é tenaz
nesses homens do deserto.
«Ele parecia ter resolvido não morrer enquanto não revelasse tudo
o que sabia para que justiça se fizesse.
«Contou-me a história aos pedaços, conforme lhe permitiam as
forças, mas o seu cérebro permanecia claro e, posto que repetisse
muitas minúcias, nunca se desviou um ponto e nunca se contradisse em
coisa alguma.
«Selou a história com um juramento e a sua sede de vingança
nascia mais da estima que dedicava ao seu senhor, que das ofensas
pessoais que recebera.
«Fora também uma aquisição nova para o séquito de De Chailles,
como, de resto, todos os que tomaram parte na excursão fatídica.
Parece que Ghabah, conquanto exercesse extraordinária influência sobre
De Chailles, era odiado e temido por práticas que todos censuravam e
que Renato ignorava. Cruel e vingativo por natureza, entre outros
desagradáveis atributos que lhe creditavam, passava por ter mau
olhado. De aparência sinistra e diabòlicamente sagaz em suas secretas
operações, parece que resolveu ganhar completamente a confiança de
De Chailles e ao mesmo tempo afastar do seu senhor os velhos servos
que pudessem interferir nos seus planos. As suas maquinações, ao que
parece,
168
surtiram efeito sem que De Chailles tivesse a menor suspeita dos
planos urdidos para a tragédia.
«Maltratados pelo mouro e temerosos dos seus supostos poderes
maléficos, os velhos servos foram-se despedindo, um a um, sendo
substituídos por estrangeiros. O próprio condutor de camelos ficou com
eles apenas seis meses e nesse curto espaço de tempo criou estima por
De Chailles e sua esposa e adorava a pequenina filha do casal que, por
qualquer razão, foi por ele criada. Mas Renato persistia ainda na sua
cega confiança. Embora lamentando abertamente a deserção dos velhos
servos, é de supor que nunca ligasse a retirada dos mesmos ao
proceder do homem em quem confiava tão inteiramente. E ninguém
ousou dizer-lhe a verdade, ninguém ousava aventar qualquer coisa que
dissesse respeito ao favorito. Seguro da sua sinistra reputação, o mouro
continuava sem levantar suspeitas contra si. Sabia-se, entretanto, que a
senhora De Chailles não partilhava dos sentimentos do marido neste
particular; sabia-se que ela também o odiava e temia. E tamanha era a
influência daquele ser sinistro, que nem mesmo as suspeitas da esposa
abalaram a fé a De Chailles, de modo que este via na desconfiança dela
apenas um capricho de mulher e como tal deveria ser considerada essa
desconfiança. Murmurava-se no acampamento que essa divergência de
opiniões era o único ponto de discórdia na vida feliz daquele casal e que
a senhora De Chailles muitas vezes chorava em segredo por causa
disso.
«O fim veio com catastrófica subitaneidade. O séquito, não muito
grande à partida, com as frequentes dispensas tornara-se cada vez
menor, até que ficou limitado a um pequeno grupo - uns dois ou três
criados e seis ou sete condutores de camelos.
«Na noite da tragédia, o mouro, alegando negligência por parte
dos seus homens, recolheu todos os rifles existentes no acampamento e
levou-os para a sua própria tenda, sob pretexto de os examinar. As
coisas haviam chegado a tal ponto que ninguém tentou opor-lhe
resistência e os homens entregaram as suas armas, contra vontade
talvez, mas em todo o caso entregaram-nas.
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«Nessa noite o condutor de camelos que me contou a história
estava atacado de cruel dor de dentes e deixou a fogueira do
acampamento, ao redor da qual estavam sentados todos os homens, e
foi deitar-se atrás da tenda de De Chailles, onde sempre ficava, e
procurou dormir, na esperança de esquecer a dor. Mas o sono não
vinha. E, colocado como estava, da sua posição podia ver e ouvir tudo o
que se seguiu. À tarde, o mouro fora à tenda e tivera longa conferência
com o senhor. E, depois que ele saiu, o condutor de camelos ouviu forte
altercação entre De Chailles e a esposa, que soluçava amargamente e
parecia pedir instantemente a seu marido qualquer coisa a que ele
recusava anuir. Então sobreveio o silêncio e o condutor de camelos disse
que supõe que De Chailles cabeceou com sono alguns momentos. De
qualquer modo, houve um intervalo durante o qual nada aconteceu.
«Então, repentinamente, foi ele despertado por um gemido,
seguido de um grito que o fez levantar-se, gelado de terror. Parece ter
hesitado um momento, desnorteado pelo medo, e sem saber o que
fazer. Por último, a estima que dedicava ao casal venceu-lhe o terror e
abrindo, com a faca, um buraco na parede da tenda, forçou a entrada
da mesma. Nunca esquecerei o seu olhar ao relatar este passo da
tragédia. De Chailles estava caído de bruços no tapete, com uma faca
atravessada no coração. A senhora De Chailles, também morta ou
desmaiada, jazia junto ao corpo do marido, com o rosto pousado no
peito ensopado de sangue. A criança, que evidentemente despertara
naquele momento, estava deitada ao lado do casal, com as mãozinhas
agarradas aos cabelos negros de sua mãe, chamando-a e rindo - meu
Deus! -, provavelmente pensando, em sua cabecinha inocente, que
aquilo tudo era uma cena preparada expressamente para a divertir!
«Bastante trémulo, foi a vista da criança que pôs o homem em
actividade. Correu para fora da tenda, contando apenas com a sua faca
como arma, para presenciar o acto final do drama que também lhe
custou a vida. Era tarde para ir avisar os outros, pois que o mouro, com
um revólver em cada
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mão, estava diante dele. A luz do fogo tornou fácil o alvo ao
mouro, que disparou as armas contra os homens desarmados e
indefesos que ali estavam como ovelhas.
«O horror desse horrendo massacre parece que deixou o condutor
de camelos embrutecido. Sem consciência do perigo a que se expunha,
sem esperança de escapar à sorte dos companheiros, atirou-se ao
mouro, lutando como um louco, até que caiu, literalmente varado pelas
balas.
«Era madrugada quando recobrou a consciência. Tudo em redor
dele era morte, e o silêncio que tudo envolvia era terrificante. «Banhado
em sangue e exausto de fraqueza, cortou algumas tiras da roupa dos
cadáveres e fez uma faixa para envolver as partes feridas do corpo,
parecendo que isso contribuiu para infectar as feridas. Voltou, então,
cheio de dores, para a tenda. Teve de esperar até que as forças lhe
permitissem entrar ali. Acalmando um pouco os nervos, entrou. De
Chailles jazia ainda onde caíra, os olhos pávidos, bem abertos. Somente
a faca lhe fora arrancada do peito, deixando aberta uma enorme ferida
que já estava negrejante de moscas. Mas da senhora De Chailles e da
criança, não restava sequer um sinal. Tinham desaparecido na noite
com o assassino. Os camelos, também, tinham sido levados, como ele
descobriu mais tarde, e com eles os objectos de mais valor existentes
no acampamento.
«Todo o dia ficou deitado na tenda, com os cadáveres por única
companhia, esperando a noite, temendo os efeitos do calor excessivo do
sol na sua fraqueza e os abutres que já rondavam, ansiosos, o
acampamento. Mas na frescura da tarde, quando as sinistras aves de
rapina estavam fartas a ponto de já não se poderem mover, ele avançou
à luz da Lua para o deserto e iniciou aquela maravilhosa e heróica
jornada da qual ele só se lembrava, mais tarde, duma sede
insuportável, duma dor insuportável e duma fraqueza insuportável.
«Como já vos disse, ele foi casualmente encontrado e recolhido
por uma caravana que passava e levado a El-Oued. Morreu sentindo-se
feliz por ter vivido o suficiente para contar
171
a história, alegre por pensar que a vingança que jurara se
realizaria, embora já não vivesse para nela tomar parte.
Houve um momento de silêncio, quando Raul terminou a trágica
história.
Vencendo os pensamentos tristes produzidos pela narrativa que a
sua eloquência revestira de tão intenso realismo, procurou acender um
cigarro, mas os seus dedos trémulos não podiam segurar o fósforo e,
lançando-o fora, encostou-se na cadeira, olhando firmemente para a
mesa, através da qual Caryll o fitava com evidente horror. Conquanto
tivesse brancos os lábios, Diana estava sentada rígida, a boca fechada e
os olhos humedecidos pelas lágrimas. Somente o sheik estava imóvel,
em parte porque já antes ouvira essa história terrível e em parte porque
raramente se permitia, em tais ocasiões, uma expressão visível dos seus
sentimentos.
Mas a sua face estava mais severa, a sua voz mais grossa que de
costume, quando finalmente falou.
- Mas a causa do crime qual seria? - perguntou vagarosamente. -
De Chailles era conhecido como pobre para ser morto para o roubarem,
suas propriedades poucas e sem valor que justificasse a aventura
desesperada do assassino. O mouro deveria ter algum outro desejo mais
forte do que pilhar algumas ninharias. Parece que só há uma explicação:
ele queria a mulher.
Os lábios de Raul descoraram.
- Assim o suponho - concordou. - Essa era, igualmente, a opinião
do condutor de camelos. Ele tinha, uma ou duas vezes, visto Ghabah a
olhar a senhora De Chailles de modo muito estranho, mas nunca quis
falar nisso nem mesmo aos seus íntimos. Permita Deus que essa pobre
criatura tenha logo morrido.
- Deus o permita - murmurou o sheik.
E mais uma vez fraquejou a sua vontade de ferro. À sua voz,
ordinariamente firme, soou de modo constrangido, enquanto um ar de
densa tristeza lhe sombreava os olhos penetrantes, negros, que
estavam fixos na face da esposa.
Era o mesmo pensamento a passar-lhe pelo cérebro, admirava-se,
com um travo de insuportável agonia. Os anos
172
teriam voltado para ela também, para o tempo em que, naquela
mesma tenda, ela também jazera aos pés de um desapiedado raptor,
chorando, gemendo e pedindo a morte? Compreenderia agora porque
nunca lhe falara na história terrível da senhora De Chailles?
O remorso imperecível que o acompanhara em todos os
subsequentes anos de felicidade nunca lhe parecera tão pungente como
naquele momento e a sua forte cabeça balanceou com a dor amarga da
recordação.
Não havia, porém, nem sombra de tristeza nos olhos lacrimosos
de Diana. Não pensara em si na exclamação de piedade que soltara.
- Mas se ela ainda estiver viva, Raul, se ela ainda estiver viva!...
Raul fez um gesto de desaprovação,
- Oro a Deus pedindo que não esteja - disse. - Peço a Deus que
quando me entregar o homem, em minhas mãos, com ele só encontre a
criança - a criança que é a senhora condessa De Chailles - acrescentou,
com um comovido acento na voz.
- Uma mulher agora, certamente, a vossa condessa De Chailles -
sugeriu o sheik, recobrando com esforço o domínio de si mesmo. -
Estais esquecido de quantos anos passaram desde a morte do pai?
- Uma mulher, realmente, ou quase isso - respondeu. - Se viver,
deverá contar uns dezassete anos. Sempre me esqueço disso. Penso
somente na linda criança que vi em Biscra.
- Pobre criança e pobre mãe! - murmurou Diana. - Teria sido
melhor, infinitamente melhor, que houvessem morrido quando a
felicidade lhes sorria!
- Mil vezes melhor - concordou Raul - mas quem poderia imaginar
o que estava reservado para elas? Quem poderia ter sequer sonhado o
que o futuro reservara para aquela formosa criança de olhos pretos?
O sheik voltou-se para ele subitamente, com um olhar ainda mais
estranho.
- No caso de as vossas pesquisas serem coroadas de êxito e
encontrardes a menina - disse com assinalada decisão
173
- esperais ainda, considerando o que tem sido a sua vida, «poder»
levá-la a França para lhe entregar a herança?
Raul estremeceu com desesperança e meneou a cabeça.
- Deus o sabe - disse - e eu não devo pensar nisso. É-me
suficiente aguardar o dia em que espero conseguir bom resultado nas
minhas pesquisas e queira Deus misericordioso protegê-la daquilo que é
quase inevitável.
E pousando os braços na mesa, envolveu as faces com as mãos.
Houve outra vez silêncio na sala, silêncio em que os pensamentos
de todos se concentraram na história contada e que foi ouvida entre as
mais desencontradas sensações e emoções.
Durante toda a narrativa, os olhos de Caryll não abandonaram os
de Raul. A sua mente enfastiada revoltava-se com os horrores da
tragédia do deserto. Moralmente sadio, jamais cuidara de esquadrinhar
as paixões primitivas que movem a humanidade a vergonhosos actos de
violência. Sabia que tais coisas aconteciam, mas não queria habitar em
tal meio, e até à noite todas aquelas cenas se lhe afiguravam remotas
possibilidades, muito distantes da sua bem ordenada e prosaica
existência.
À noite, julgava ver a luxúria diante dele, na sua forma mais cruel,
e um crime, embora lhe fizesse mal aos nervos, despertava nele
sentimentos cavalheirescos.
O seu fôlego tornou-se agitado graças à violência das palpitações
do coração. Porque é que pensava em Touggourt e na tez delgada
daquela jovem árabe de olhos negros, que tanta impressão lhe
produzira? A herdeira que Raul procurava parecer-se-ia com «ela»
nalguma coisa? A sumptuosa tenda pareceu-lhe que se evaporava e ele
viu, novamente, o jardim sombreado pelas palmeiras, onde a encontrou
antes da noite fatal que a varreu da sua vida. Sonhando, esqueceu o
presente, tudo esqueceu, para somente lembrar o breve romance que
fora tão doce, tão transitório.
- «Salam aleikoum».
Caryll desceu dos seus sonhos à terra. Aquela voz grossa,
profunda, era a de seu pai e a princípio pensou que fora o sheik que
falara.
174
Mas uma exclamação de sua mãe fê-lo voltar-se em direcção à
porta, para onde ela corria com os braços abertos.
Com um suspiro, ele caiu numa cadeira, a face sem cor, as mãos
a tremer, ao divisar novamente o corpo alto de árabe e a face sinistra
do homem que vira no café maure, em Touggourt.
Um calor de ódio transtornou-o ao apreender a verdade.
Naquele homem existia a semelhança que tornara tão curiosa a
face do pai! Eram de igual feição. Era somente a grande cicatriz da testa
que os diferençava. Agora sabia tudo: aquele era seu irmão! Bom Deus!
Que complicação e que infâmia!
Seria possível que a mãe, que acorrera tão solícita a acolher o
filho, nada soubesse da vida que ele levava e o recebesse com tantas
expansões de alegria? Se ela soubesse o que ele, Caryll, vira em
Touggourt, não o repeliria com os mesmos sentimentos de desgosto e
aversão que agora nele actuavam? Como poderia ela dar um abraço tão
cordial a um ente que ele gostaria de afastar para não a manchar de vil
contaminação?
Cego de indignação, não viu o rosto moço e endurecido que se
pendurava nos ombros de Diana, nem ouviu a ternura com que ele lhe
dizia: «mãezinha, mãezinha», pagando-lhe dessa forma muitas
semanas de ânsia e inquietação.
E quando, finalmente, cessaram os abraços, foi somente com um
profundo sentimento de desprezo e provocação que ele acompanhou os
passos e a pose quase agressiva do jovem Ahmed ben Hassan, que
atravessou a sala em procura do pai.
Predisposto a condenar, julgou o irmão unicamente pelas
exterioridades. Não lhe era possível conhecer os anseios íntimos e os
sentimentos que estavam ocultos sob aquele aspecto bravio.
O sheik não se mexeu nem falou desde a súbita e quase dramática
aparição do filho mais novo. Continuou onde estava, em posição de ver
o que os outros não notaram, até que a voz possante do árabe,
saudando-o, lhe atraiu a atenção para a presença que ele preferia
ignorar. Não disse uma palavra, nem fez sinal algum, com a atenção
aparentemente
175
presa no cigarro que estava fumando. Mas agora os cílios
franziram e aguardou a aproximação do rapaz com o mesmo silêncio.
Nem falou até que o filho, que se curvara para lhe chegar aos ombros,
lhe estendeu os lábios e ficou de pé diante dele, encarando-o com olhos
fixos em que havia provocação e carinho, curiosamente entrelaçados. E,
então, umas poucas palavras ditas em árabe foram ouvidas somente por
aquele a quem eram endereçadas.
O rapaz nada respondeu quando o sheik parou de falar, mas a sua
mão procurou-lhe mecanicamente a testa, numa saudação que era tão
humilde e deferente como a de qualquer homem da tribo. Voltou-se,
depois, para Raul, cuja entusiástica recepção muito se prolongaria se
Diana não se interpusesse entre os dois, com uma palavra de protesto.
- Não façais monopólio dele, Raul. Poupai-o em favor de Caryll por
um minuto. Quero ver os meus filhos apertarem as mãos.
Mas, apesar da sua face alegre, havia na sua voz alguma coisa
que lhe traía a emoção que procurou dominar e as lágrimas estavam
prestes a inundar-lhe os olhos enquanto aguardava o encontro que
durante tanto tempo esperara.
Foi com uma emoção não menor que a de Diana, mas produzida
por causas diversas, que Caryll se achou junto ao irmão, gaguejando
uma resposta qualquer à cordial saudação do seu irmão mais novo,
cujos olhos negros nele pousavam com um ar de ameaçadora
advertência, que contrastava flagrantemente com as palavras corteses
do acolhimento.
Seu irmão... Seu rival!...
Não mais vexado pelo amor que, amadurecido, agora lhe enchia o
coração com surpreendente intensidade, desejou proclamar o segredo
que tão estranhamente os unia, desejou arrancar a verdade daqueles
lábios sorridentes, escarninhos.
Desde que ele ali estava, que seria feito da pobre rapariga que era
sua vítima?
Tremendo com ira e ciúme, Caryll julgou-se obrigado a pegar na
mão bronzeada que lhe fora estendida.
176
VII
Somente Caryll notou o ar de ameaçadora advertência. Para os
demais, o encontro dos dois irmãos fora perfeitamente natural.
Apesar disso, uma sensação de constrangimento se apossou de
todos os presentes na sala e houve uma pausa expectante quando
ambos se reuniram à mesa, o rapaz sentando-se perto de Diana, cujos
olhos se fixaram ansiosamente na cicatriz da sua testa, da qual, de
momento, não achou conveniente falar.
O alívio causado pela sua presença fora enorme. Mas perturbava-a
o mistério da sua longa ausência e entregava-se a indagações acerca da
sua longa permanência longe, voltando com sinais visíveis de que
passara por qualquer grande perigo. Deitou um olhar demorado e
inquiridor ao rosto que, em contraste com a sua anterior aparência
descuidada, apresentava agora o aspecto de quem envelhecera alguns
anos. Dolorosamente, compreendeu que o rapaz, que algumas semanas
antes partira com ar sorridente, tinha deixado após si, para sempre, a
puberdade e regressava agora um homem. E a sua perturbação
aumentava ao pensar na próxima entrevista entre pai e filho. A sua
desobediência não poderia ficar impune, disso estava bem certa, mas
qual seria o castigo? Olhou furtivamente para o marido, mas o rosto do
sheik estava impenetrável. Não se mostrava carrancudo; todavia, isso
nada significava. Ela compreendeu que ele estava tão-somente dando
tempo ao tempo, até à chegada do momento azado. Quando chegaria
esse momento? Tremia involuntariamente pensando nisso.
Ele seria justo, como sempre, mas, se a justiça assim o exigisse,
seria implacável, mesmo em relação ao filho. A sua lei era a mesma
tanto para os filhos como para qualquer dos homens da sua tribo. E por
uma infracção às suas leis puniria tão imparcial quão violentamente o
rapaz, como o mais desprezível dos seus camaradas.
Nas profundezas do seu espírito, Diana achava que isso
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era justo, mas não minorava a dor ao seu entristecido coração de
mãe. Apesar disso, concordou que o seu sentimento de equidade não
podia aliviar o fardo pesado que tinha de carregar.
Dominava-a a instintiva sensação de que os mesmos pensamentos
passavam pela cabeça do filho, porque uma ou duas vezes a sua
musculosa mão se agarrara aos seus delicados dedos, apertando-os
dolorosamente, e quando, de tempos a tempos, os olhos dele
procuravam os seus, percebia neles uma expressão de vergonha e
contrição que nunca antes ela surpreendera.
O que teria ele feito para a olhar daquela maneira? Porque não era
da têmpera daquele filho arrepender-se de qualquer acção errada. A sua
atitude habitual era de descuidada indiferença. Naquela noite, lobrigava
nele alguma coisa que não podia compreender e que vagamente a
inquietava.
Foi Raul, também cuidadoso do castigo que aguardava o ausente
que voltara, quem preencheu a brecha e com habilidade manteve a
palestra, evitando cuidadosamente qualquer alusão ao assunto que
causava aquela desagradável situação.
Mas achava que era enganosa bondade prolongar tanto a angústia
que agitava mãe e filho.
Que Caryll, que ignorava a falta do irmão e o desprazer do pai,
não visse o que para ele era bem claro, era admissível. Decidiu-se a
fazê-lo sair. Os métodos do sheik não admitiam delongas. O rapaz tinha
de prestar contas de si e sofrer as consequências da sua desobediência
ainda naquela noite e quanto mais depressa melhor, para todos os
envolvidos no caso. Foi pensando no sofrimento de Diana que se
decidiu. Posto que muito íntimo dele, pouca simpatia dispensava, nesta
ocasião, ao culpado. O jovem patife devia receber aquilo que tão
fartamente estava guardado para ele, reflectiu com raiva. Era tempo de
fazê-lo compreender que as suas estroinices afectavam a outros além
dele, que sua mãe sofria, mais do que ele, as consequências das suas
fugas.
Raul sabia, mais do que Diana podia imaginar, a ansiedade que a
ela causavam as imprudências do filho mais novo.
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E, agora, que sabia o que ia sofrer nessa noite, sentia já o espírito
angustiado pelo castigo que o filho ia receber.
Abreviar-lhe o tempo de sofrimento era o melhor que podia fazer.
Levantou-se com um bocejo simulado.
- Estou em estado deplorável! Desculpai-me, Diana, mas sinto-me
quase morto de sono. Sei que ainda é cedo, mas tenho preparativos a
fazer. Ahmed fez-me falar ontem à noite, até os galos cantarem; eu já
estou ficando velho para me deitar tão tarde. Ides comigo, Caryll?
Quase sempre, a qualquer hora estais pronto para vos deitardes.
Com outro sorriso, dirigiu-se para a porta.
Deitar cedo era um pretexto pouco aceitável, mas foi o único que
lhe ocorreu no momento, e a prontidão com que Caryll se dispôs a
acompanhá-lo tornou o êxito ainda mais fácil. Tremente como se
estivesse gelada de frio, Diana viu-os transpor a porta e desaparecer na
noite. Depois fitou pai e filho, ambos de pé, no outro lado da mesa.
A cabeça do filho estava desviada da direcção do pai, mas o sheik
contemplou por um momento a esposa, sem que o olhar de apelo que
ela lhe lançou suavizasse a expressão de dureza dos seus olhos, nem
lhe abrandasse as maneiras rígidas.
Abanando as mãos, ele apontou-lhe o quarto e ela dirigiu-se ao
filho desejando-lhe boas-noites. Na ocasião, aquilo tinha um involuntário
sabor de ironia.
Quando o filho se levantou para receber o beijo, mais uma vez
Diana lhe notou um estranho olhar de envergonhada contrição. Com um
soluço estrangulado, ela recolheu rapidamente ao quarto.
Um ar de compaixão tomou os olhos sombrios do sheik, vendo a
retirada precipitada da esposa.
Pretendia inquirir o jovem sobre a ausência e julgá-lo ali mesmo,
naquela sala. Mas não fora já um duro sofrimento para ela as cenas que
presenciara? Se não podia poupar-lhe a angústia causada pelo
pensamento da entrevista, poderia ao menos poupar-lhe o pesar de
ouvir coisas que lhe seriam insuportáveis.
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Envergando o albornoz, dirigiu-se para a porta.
- Se nada tens a dizer imediatamente, ouvir-te-ei no teu próprio
alojamento - disse com voz seca, em árabe.
O rapaz sentiu um choque sacudi-lo medonhamente.
- Prefiro falar aqui - declarou.
- Mas eu prefiro ouvir-te noutro lugar - retorquiu o sheik
friamente, retirando-se.
Durante algum tempo, o jovem hesitou, lançando um olhar para o
quarto vizinho, com um ar assustado nos olhos. Depois chegaram
ambos às cortinas, ainda levantadas, que davam para o quarto em que
sua mãe chorava e orava como - Alá o perdoasse - fazia sempre, porque
já não eram poucas as vezes que a fizera chorar e orar por ele.
Com uma praga quase a rebentar-lhe dos lábios, voltou-se para
seguir o pai.
Na noite enluarada, clara como um dia, o sheik estava, do lado de
fora, de pé, uns poucos passos além do toldo, com as botas batendo no
chão, com impaciência.
Fingiu, entretanto, não se ter impacientado com a demora,
quando o filho se aproximou.
Ambos silenciosos, partiram cruzando o espaço aberto que os
separava do acampamento principal. O jovem respirava ofegante, como
se procurasse encher-se de coragem para enfrentar a ira paterna.
Naquela noite o acampamento parecia mais silencioso que de
costume e somente alguns homens permaneciam acocorados ao redor
do fogo moribundo, que já era apenas um remanescente de brasas que
ardiam. No mesmo silêncio tétrico o sheik passou pelo aglomerado de
baixas guitounes que serviam de casa ao seu povo, passou pelas longas
filas de animais amarrados aos palanques, passou pelo enorme bando
de camelos que ruminavam bucòlicamente e finalmente chegaram
ambos ao local em que, até àquela noite, fora levantada a tenda dupla
do rapaz, a qual era uma miniatura da sua própria e ficava perto das
duas menores ocupadas por S'rir e Ramadan.
Mas agora o local estava vazio e, olhando para ali, o sheik viu
somente dois cavalos selados que um árabe segurava.
180
A humilde saudação com que o sheik foi acolhido não lhe suavizou
o aspecto carrancudo.
- Afinal, que história vem a ser esta?
Corando à pergunta do pai, o rapaz deu um passo constrangido,
com os olhos esgazeados.
- É que acampei em El-Hassi - murmurou por fim, com visível
relutância, citando o nome de um pequeno oásis que distava cerca de
cinco milhas ao sul.
O sheik sacudiu a cabeça raivosamente. - Em nome de todos os
demónios, porquê?
O rosto do jovem ainda mais se afogueou.
- Tinha razões para isso - balbuciou em voz quase inaudível,
passando rapidamente a língua pelos lábios secos ao perceber a
impropriedade da resposta.
Por um instante, o sheik mirou-o. Depois, sacudindo os ombros,
chamou com voz imperiosa o árabe que estava segurando os cavalos.
Percebendo-lhe a intenção, o rapaz avançou em sua direcção,
tocando-lhe no braço.
- Pai, se quiser ouvir-me aqui ou se pudesse esperar até
amanhã...
Com um gesto brusco de recusa o sheik sacudiu a mão.
- Ouvir-te-ei quando e onde quiser - replicou em tom que não
admitia resposta.
O árabe que segurava os cavalos era S'rir, tão devotado ao seu
jovem senhor e que estava acabrunhado com o que via e percebia. O
jovem pegou nas rédeas e o árabe montou noutro cavalo, dirigindo-se
ao acampamento para executar uma ordem do sheik.
Havia algum conforto, naquela noite, no afectado caminhar do
enorme corcel, cujas narinas se encostavam frequentemente nas dobras
do albornoz, polvilhando-as com brancos flocos de espuma. Curvando a
cabeça sobre o macio pescoço do animal, o jovem achava o tempo
interminavelmente longo, com o pensamento cheio de penosas
apreensões.
O que o esperava bem o podia imaginar. Amargamente
considerava a pena que teria de sofrer.
Não havia razão alguma com que pudesse justificar-se.
181
Faltara à sua palavra. Ausentara-se sem licença, e isso, em vista
das ordens rigorosas que recebera, era motivo suficiente para encher de
ira o pai. Mas algo mais tinha por que responder, quando chegassem ao
acampamento de El-Hassi.
Que outra coisa, entretanto, poderia ter feito?
As suas mãos estavam húmidas devido aos esforços que fazia
para achar um meio de mover o pai à misericórdia, enquanto era tempo.
Enchendo-se de coragem, voltou-se e lançou um olhar através dos
ombros do sheik. Compreendeu, porém, que era tarde para tais
esforços.
Já o cavalo e a escolta que o sheik havia mandado aprestar se
aproximavam, vindo na frente S'rir, que foi logo segurar o estribo para
Ahmed montar. Foi Eblis o animal trazido como que propositadamente
para agravar a agitação em que se debatia o homem que o deveria
montar. Sem lhe fazer os carinhos a que Diana habituara o fogoso
animal, o sheik puxou-o para perto de um barranco, acenando para o
filho e indicando-lhe a sela.
Folgado por um dia de descanso, Eblis debatia-se como um
demónio contra a mão potente que o retinha, corcoveando e relinchando
até o rapaz montar.
Depois, lado a lado, pai e filho seguiram, ao clarão da Lua, pelo
deserto, em direcção ao sul, os cavalos a galopar furiosamente e a
escolta a segui-los.
Era uma excursão que noutras circunstâncias teria deleitado
sobremaneira o jovem. Por assim dizer nascido na sela, desde a infância
acompanhava o pai nas suas excursões. Dia e noite devoravam espaços
sem limites, partilhando as alegrias, os perigos e os mistérios do
deserto, pondo à prova a força e energia próprias contra a força
despótica da sua amplidão. Com seu pai aprendera tudo quanto sabia da
sua terra natal, toda a ciência do deserto, na qual era bem versado e
tudo fazia dele o nómada que sabia ser.
Os seus pensamentos transportaram-no a outras excursões mais
felizes, nas quais sombra alguma pairava entre ele e o pai, quando
ambos galopavam como agora, lado a lado, e se punha a admirar o
homem que lhe parecia tão maravilhosamente, tão
incomensuràvelmente superior aos demais
182
homens, cuja coragem e espírito expedito procurava imitar e a
quem amava e temia com todo o vigor do seu coração juvenil.
Era durante essas longas expedições que ele parecia pôr-se em
contacto mais íntimo com aquele pai grave, prudente, que ainda agora
lhe infundia medo. Fora, na infância, a sombra do sheik.
A chegada, porém, da adolescência, aos poucos se fora
diferençando.
Fora do acampamento paterno, os prazeres atraíam-no e deles
não se desviava em acatamento às restrições impostas à sua liberdade,
sem prestar atenção a advertências que considerava injustificadas e
supérfluas, sem se incomodar com os constantes castigos que lhe eram
infligidos.
Por mais tempo do que supunha, a espada de Dâmocles estivera
suspensa sobre a sua cabeça. Agora, ela caíra.
Que faria seu pai? Olhou furtivamente para a figura erecta que
seguia a seu lado.
Em que pensaria, galopando com os olhos fixos para a frente,
governando o intratável cavalo com o semblante mais duro que o rapaz
jamais vira?
Teria alguma suspeita? Teria tido qualquer indício revelador da
verdade?
Com um tremor, o rapaz virou o rosto. Alá! Se fosse possível
desfazer o que estava feito! Mas não era possível. As semanas que
haviam passado jamais voltariam e a lembrança delas acompanhá-lo-ia
toda a vida.
Entretanto, não era esta a primeira vez. Pecara outras vezes e
fora perdoado. Porque julgava agora que o perdão não lhe seria dado? E
porque sofria agora?
Torturado por estes pensamentos, abaixou-se na sela, desgostoso
de si mesmo, desgostoso da noite calma e radiante que dele parecia
zombar com a sua quietude e paz.
A planície que agora percorriam ondulava gentilmente pelo
terreno. Era uma região de dunas, em que a areia amortecia o passo
dos animais e tornava impossível a visão. Passaram, uma a uma, as
dunas, e por fim, os cavalos, que seguiam a passo, atingiram o cume de
um outeiro onde
183
todos se detiveram, lançando um olhar para o pequeno oásis, que,
humedecido por um regato que murmurava lá em baixo, exibia algumas
árvores desgalhadas e cheias de espinhos, e ligeiras moitas de mato
rasteiro. E junto às árvores, estava a fonte de que o oásis tirava o
nome. Um pouco adiante, o pequeno acampamento, com as tendas
pequeninas que eles procuravam e com elas os abrigos das sentinelas.
A tenda dupla fora levantada longe das outras e da sua entrada
entreaberta jorrava a luz vermelha de uma lâmpada.
Os instantes pareciam horas ao rapaz, ao passo que o pai, ainda
silencioso, fazia parar o cavalo fogoso e, sentando-se imóvel, fitava com
cenho carregado a cena aprazível que se lhe descortinava aos olhos. Foi
com sensação de relativo alívio que o jovem viu o pai fazer sinal à
escolta para se deter ao longe e depois, montados, se encaminharam
vagarosamente por um declive abaixo.
Juntos chegaram ao local que visavam e desmontaram,
entregando os cavalos a S'rir, que os levou para longe do lume do
acampamento.
A capacidade sofredora do rapaz fraquejou.
- Meu pai...
Nunca a voz lhe fora tão humilde, tão súplice. Mas as palavras que
lhe tremiam nos lábios morriam sem resposta, pois o sheik voltou-se
para ele e impôs-lhe silêncio com a mão levantada.
- Espera - disse, e seguiu em direcção à tenda. Ao chegar, porém,
à porta aberta, parou, à escuta. Rígido ao lado dele, o jovem também
ouviu a voz que lhe atraíra a atenção e uma convulsão de medo lhe
sacudiu o rosto.
Quantas vezes, nas últimas semanas, havia ouvido aquele canto
cheio de queixume, entoado por voz doce de mulher, o qual, penetrando
nos mais íntimos recessos do coração, algumas vezes quase lhe fazia
esquecer a traição que convertera o amor em ódio! Ela entoara aquele
cântico pela primeira vez numa manhã, perto da Caverna dos
Fantasmas, e cantava-o sempre que supunha não ser ouvida.
184
Mas aquela noite não era a melhor para ouvir a terna melodia a
que estava ligada lembrança tão penosa. Com um rugido que tanto
poderia ser um gemido como uma praga, o sheik afastou o toldo meio
aberto e entrou na tenda.
Ao lado de um tamborete, em desordem, onde havia xícaras de
café e cigarros, a cantora estava acocorada, meio sentada, meio
deitada, numa pilha de almofadas, a cabecinha pendida para uma
guitarra nativa que lhe jazia entre os joelhos, o talhe esbelto
acompanhando o ritmo do canto.
Absorvida, mas à escuta, os seus ouvidos atentos perceberam o
barulho feito pelo albornoz do recém-chegado. Pôs de lado a guitarra e
levantou a cabeça. Mas a exclamação alegre de acolhimento morreu-lhe
nos lábios e ela levantou-se, com as mãos palpando o peito. Os olhos
radiantes estavam amedrontados, como os de uma corça assustada.
Lançou olhares esgazeados de um para outro daqueles rostos iguais,
somente dessemelhantes na sua expressão.
Ficou de pé um instante. Depois, com outro grito, desceu o véu
sobre o rosto e, com um movimento rápido, recolheu-se a outro quarto.
- Quem é aquela rapariga?
Pela primeira vez na sua vida, o sheik falou ao filho em inglês e
ante a fúria regelada do seu rosto o rapaz deu um passo para trás,
empalidecendo.
Hesitou um momento.
- É uma mulher que arranjei - disse, virando o rosto com um
súbito gesto de desconfiança.
Os olhos do sheik luziram de modo perigoso.
- «Que arranjaste»? - repetiu de modo cortante. - Podes falar
assim com tamanho desembaraço?
Então, como uma represa que rebentasse, a índole apaixonada
que o caracterizava explodiu sem controle, a ira há tanto tempo
recalcada ferveu dentro dele e fluiu numa torrente de palavras
escaldantes e impiedosas, requeimando até a alma do filho que ali
estava com os lábios lívidos.
Trémulo perante essas explosões, o rapaz esperava em silêncio
que a tremenda tempestade se lhe desencadeasse sobre a cabeça.
185
E durante algum tempo depois que o sheik deixou de falar, ele
nada disse.
Depois, vagarosamente, relanceou os olhos, contemplando o pai
de maneira estranha.
- Amaldiçoastes-me pelo que eu fiz - murmurou com lábios
trémulos - mas dizei-me como foi que «vós» vos apossastes de minha
mãe?
O rosto do sheik tornou-se tão branco como o do filho e ele
tergiversou como se uma bala o houvesse atingido.
- Sabes disso? - falou pesadamente.
Numa rápida repulsão de sentimentos, incapaz de suportar os
olhos negros que nele estavam cravados, o jovem desviou a cabeça, e
desvanecido o efémero triunfo que gozara, sentiu ódio de si mesmo por
haver ter tido a ideia de vingança que momentos antes lhe parecia tão
doce.
- Sempre soube disso, desde que cresci. - disse, apalpando os
joelhos - e Gastão quase matou o homem que me contou essa história.
O sheik nada comentou. Passando a mão pelo rosto, afastou o
albornoz como se o peso deste o oprimisse e, dirigindo-se à porta, ficou
com as costas viradas para o quarto, olhando a noite, em luta com a
amargura e a vergonha que o venciam.
A repetição da sua própria falta!
A lembrança do seu erro sobreveio-lhe vividamente na pessoa do
filho, o filho a quem havia transmitido o mesmo estigma vicioso que
existia no seu sangue. Como poderia julgar quem fizera coisa igual?
Como, mesmo, poderia ressentir-se do ridículo que sobre si atraíra?
Era sua a falta - mais que do filho, pois a tara era hereditária. E,
reconhecendo esse facto, fracassaria nas responsabilidades que a
paternidade lhe acarretava? Tinha-o pressentido, era verdade, não uma,
mas muitas vezes. Mas, absorvido pelos negócios da tribo, tinha feito
tudo quanto deveria ter feito, tinha chegado mesmo às origens remotas
daquele delito? Não tinha, ao invés, tomado o caminho mais fácil,
punindo quando deveria advertir e fechando os olhos ao que, em
qualquer outro país, ele não teria deixado de ver?
186
Era demasiadamente um chefe, esquecendo-se de que era pai.
Tinha dado mais liberdade do que era aconselhável em tais
circunstâncias. Tinha confiado de mais na acção do tempo, sem
compreender quão aguda se tornara a necessidade de uma intervenção.
E agora ali estava, aquela patente ligação com uma rapariga nativa!
Com um ar carrancudo, voltou ao quarto e, instalando-se num
divã, fez sinal ao filho para que se aproximasse.
- Uma vez que sabes tanto - disse, e as palavras pareciam
arrancadas a custo - é melhor que falemos claro. Achaste bom recordar-
me - e eu admito a tua provocação - que fizeste o mesmo que eu
também já fiz. Não posso negar o que é sabido de quantos estavam
comigo naquele tempo, mesmo que eu quisesse negar, o que não se dá,
mas sempre quis, por amor à tua mãe, que nunca soubesses a vergonha
que lancei sobre ela. Isso, porém, não te autoriza a abrigares-te por
detrás da minha falta. Tens de pagar, como eu paguei. Podes
argumentar que isso é uma ocorrência muito comum, que estás
procedendo como a maioria dos homens - como eu, digamos. Mas
porque fui um estróina, um sedutor, não devo protestar ao ver meu filho
seguir caminho igual? Porque tua mãe, em seu divino amor e caridade,
pode - e só o Céu sabe como - perdoar-me o erro que cometi, pensas
que eu também perdoei a mim mesmo? Deus se apiede de ti se tiveres
de experimentar a mesma tristeza e repugnância que tem sido o meu
castigo durante vinte anos. Lembrando-me o louco insulto que ela
sofreu de minhas mãos, pensas que perdoarei o insulto que estás
fazendo àquela rapariga que ali está? Deverias ter compreendido que o
dano que lhe fizeste é intolerável. Perdeste todo o sentimento de
decência ou supões que o meu exemplo é desculpa suficiente, que,
conhecendo os meus princípios morais, eu teria de fechar os olhos à tua
falta de princípios? Jamais esperei que qualquer dos meus filhos fosse
um santo, mas também nunca esperei que expusesses tua mãe a tanta
indignidade!
Os olhos do sheik eram escarnecedores, a voz de amargo desafio.
O jovem sentia o rosto brutalmente enrubescido.
187
- Nunca desejei insultá-la - contestou apaixonadamente. - Pelo
contrário, sempre quis que ela o ignorasse. É por isso que estou aqui em
El-Hassi. Ia para o sul, mas não tinha nem tendas, nem homens, a não
ser Ramadan e S'rir. Precisava de uma escolta, e tinha de vos ver para
vos relatar aquilo de que tive conhecimento em Touggourt, coisas que
dizem respeito ao estado perturbado do país. Não digo isto como
desculpa, por ter deixado o país sem prévia licença, por ter faltado à
minha palavra. Peço-vos perdão e estou pronto para sofrer o castigo
que me impuserdes. Nada pode fazer-me sentir falta de respeito por
mim próprio, nada pode ser pior do que o inferno em que tenho vivido
nas últimas semanas. Mas a rapariga... - A despeito de si mesmo, os
seus olhos cravaram-se nas cortinas que dividiam as duas partes da
tenda - ...tenho de conservá-la.
Houve uma brusca mutação na sua voz, que fez o sheik olhá-lo
mais firmemente.
- Tu ama-la? - perguntou.
Reveio-lhe uma lembrança daquele tempo passado, há vinte anos,
em que Raul de Saint Hubert lhe fez a mesma pergunta.
- Não!
A própria veemência da enfática negativa deixou o sheik
pensativo.
- Então porque não a deixaste em Touggourt? - perguntou
secamente.
As mãos do jovem alçaram-se num gesto de desamparo.
- Com quem a poderia ter deixado? - exclamou. - Com Sliman ou
outro qualquer da mesma força, para dela se servirem como eu me
servi - por um dia, uma semana, até passar o capricho, e então atirá-la
irremissivelmente à lama, a um estado pior do que aquele em que a
deixei? Por baixo que eu seja, não o serei tanto! Porque mesmo na vida
odiosa que ela levava em companhia do bruto que era seu dono, ficou
intacta, limpa como a flor de que tirou o nome, até que a raptei e fiz
dela o que é...
A voz falhou-lhe, deixando-o por momentos sem poder falar. Logo
depois, porém, voltou a argumentar:
188
- Mas mesmo que ela não fosse o que é, não poderia deixá-la,
porque tem conhecimento de factos que nos interessam, que
precisamos saber, que dizem respeito aos assuntos de que vos falei.
O pai fixou-o.
- Esse negócio é urgente?
- Muito urgente.
- Então é melhor que nele me fales agora. Da outra dificuldade... -
e o sheik fez um sinal a respeito da pessoa que estava no quarto vizinho
- da outra dificuldade trataremos mais tarde.
Era somente um pálido esboço de factos que o jovem realçou,
mas que era suficiente para fazer pensar o sheik, deixando-o mais sério
e apressado. Havia naquele relato muita coisa que coincidia com as suas
próprias deduções, muita coisa que lhe mostrava que estava de posse
do fio da meada, que as suas conclusões eram certas e que a força
oculta que estava agindo no país era, de facto, procedente de
estrangeiros. E que acaso, que notável acaso! Por felicidade, o jovem
emudecera sobre aquilo que era a sua pesquisa mais árdua e
persistente. Provavelmente, tinha encontrado a chave de tudo! E o
jovem, a quem supunha tão-somente imerso nas loucuras da mocidade,
acabava de provar que não era indiferente ao bem-estar do país, ao
contrário do que ele imaginara.
Uma expressão mais branda lhe acudiu ao rosto ao fazer uma
pergunta mais abrupta.
- Naturalmente, viste Mercier em Touggourt e falaste-lhe nisso?
O jovem tornou-se confuso.
- Não... Eu... Houve dificuldades - gaguejou, corando
excessivamente.
Omitira o pormenor do café maure na sua narrativa e isso vinha
agora perturbá-lo.
Desprezando a pergunta natural que tinha em mente, o sheik
passou a língua pelos dentes e levantou-se.
- Nesse caso, deve levar-se imediatamente um relatório ao
coronel Mercier - disse em tom decisivo. - Uma demora
189
poderia agora ser fatal. Dizes que perdeste de vista esse perigoso
trio ao deixar Touggourt, mas o relato que fizeste no-lo descreve melhor
do que pensávamos, conforme os dados que possuímos até aqui.
Voltarás agora comigo e precisamos do auxílio de Raul. Ele está a par de
toda a situação e Mercier melhor o esclarecerá.
Enquanto envergava novamente o albornoz, olhou através dos
ombros e voltou-se para o filho.
- Esta rapariga - falou calmamente - dizes que te traiu,
entregando-te aos homens que te tomaram por um agente secreto,
contra os quais lutaste, e capturaste essa mulher por causa da
informação que ela pode prestar. Mas isso não explica a posição em que
vim encontrá-la. Trouxeste-a somente por causa da vingança pela
injúria que ela te fez e pelo conhecimento que tem, ou estava eu na
verdade quando supus que era tua amante? Em vista disso e
considerando a pouca vontade que mostraste de que eu viesse até aqui,
deves admitir que a minha suspeita era fundada. Há poucos minutos,
deixaste que as minhas palavras ficassem indiscutidas, não refutaste a
acusação. Mas posso estar equivocado, ao menos em parte. Se eu
estava enganado, espero que me corrijas. Se julguei injustamente,
penitenciar-me-ei. Mas quero a verdade, meu filho! Ela é ou não é o que
pensei? Deste ocasião a um impulso de momento, que lamentas, ou
tens vivido realmente com ela?
O rapaz ficou durante um segundo sem saber o que dizer. Depois,
com uma palavra de assentimento dificilmente audível, atirou-se ao
divã, ocultando a cabeça com as mãos.
Colocando-se em frente da figura abatida do jovem que
mergulhava nas macias almofadas do divã, um súbito ar de compaixão
perpassou pelos olhos do sheik, que deu um passo impulsivo para a
frente. Mas impaciente ante essa manifestação de fraqueza, esboçou um
sorriso e, voltando-se, apanhou na mesa um cigarro da carteira que
estava aberta ao lado das xícaras vazias de café.
- Há quanto tempo está ela na tua companhia?
O cigarro estava aceso e fumado em parte, quando um vacilante
«Três meses» lhe chegou aos ouvidos.
190
O sheik olhou em redor com uma violenta exclamação.
- Três meses - repetiu - sem ter o amor como desculpa? Perante
Deus, rapaz, não te compreendo.
Enquanto falava, súbito rubor lhe passou pelas faces. O amor fora
a «sua» desculpa há muitos anos, quando arrebatara uma mulher, não
por causa de injúria que lhe fizesse, mas por mera concupiscência e pelo
ódio à raça que ela representava.
Esmagado pela recordação, pôs-se a dar passadas pela sala, mas
daí a poucos momentos parou novamente ao lado do divã e pousou as
mãos nos ombros do rapaz.
- E nunca pensaste como este caso terminaria? - disse com menos
aspereza do que antes. - Nunca pensaste o que resultaria disso tudo,
tanto a ti como a ela?
- Não sei. Não pensei nisso, eu - oh, Deus! - nunca pensei nisso!
A miséria da voz do rapaz fez o sheik obstinar-se na convicção
desagradável que desde algum tempo o assoberbava.
Tal pensamento foi mal acolhido, mas, entretanto, o sheik sentiu-
se incapaz de acreditar na decidida negativa que antes lhe fora feita.
Os seus lábios firmes fecharam-se num projecto decisivo. Não
havia modo de a deixar morar ali. Quaisquer que fossem os sentimentos
do rapaz, jamais consentiria em tal contravenção dos bons princípios.
- Agora é tarde de mais para que se cuide disso - declarou com ar
grave. - O que está feito não pode ser desfeito. Resta o futuro. Nisso
tens de pensar agora, pensar nalgum plano. Naturalmente, em vista das
informações que dizes que ela nos poderá dar, deverá ela aqui ficar até
que tenhamos conseguido essas informações.
«Depois disso, verei o que se poderá fazer e de que modo se
resolverá o caso. Não pretendo ser um Dom Quixote, mas há certas
obrigações a que não posso fechar os olhos. Fizeste a esta rapariga o
maior mal que um homem pode fazer a uma mulher. Sem entrar muito
na ética do caso - e quem sou eu, Deus me perdoe, para julgar-te -
penso que alguma coisa precisa ser feita. Segundo deduzo das tuas
191
palavras, ela é estrangeira, sem amigos na Argélia, e acredito que
a sua vida dificilmente poderia ser objecto de resgate, se ela caísse nas
mãos do homem de quem a arrancaste, isto é, naturalmente, se ele vier
a escapar, o que não creio. És, portanto, até certo ponto, responsável
por ela. Mas além desse ponto não podes passar. Não podes casar com
ela, mesmo que ela o quisesse, e sabe Deus se me disseste ou não a
verdade. Mas o facto permanece. Ela é nativa. Tanto quanto amo o meu
povo, não acho conveniente a mistura de raças. Árabe, como sabes que
sou de coração, conheces os meus pontos de vista sobre casamentos
mistos, sobre confusões nesse assunto. A Argélia está cheia desses
hibridismos. Não quero que meu filho se enfileire entre esses tais.
Compreende claramente, rapaz, que esta ligação tem de cessar «agora»
mesmo. Dás-me a tua palavra nesse sentido?
A resposta demorou um pouco, mas a demora fez o sheik olhar
uma ou duas vezes para o relógio e mexer-se sem descanso. Teve
entretanto mais paciência que de costume e esperou em silêncio.
Atrás dele o jovem, acomodado no divã, tinha o rosto apoiado nas
mãos, lutando com as emoções em conflito dentro dele, na mesma luta
que sempre manteve desde a noite em que arrebatara a rapariga, de
tudo resultando passar a viver num inferno que muitas vezes lhe fora
insuportável.
Remorso e vergonha, em luta com uma sede insatisfeita de
vingança.
Cumpria o seu juramento. Tinha-a feito pagar o que jurara que ela
pagaria, mas ainda a queria. Porquê? Não era amor. O amor fora morto
pela traição e jamais reviveria. Só sentia agora, por ela, ódio. Então
porque lhe era tão difícil fazer a promessa que lhe era requerida? Porque
se lhe obstinava ainda o pensamento em fixar-se nela? Não era amor:
era simples desejo físico que o prendia; não o amor, mas o desejo
requeimava-lhe as veias. Quase gritou ao sentir a ânsia de desejos que
o perturbava.
Queria-a, embora a presença dela fosse para ele tormento,
queria-a! Deixá-la, vê-la ir-se embora, nunca mais lhe sentir o tremor
nos braços!... Não, não podia concordar com isso.
192
Que outra coisa, entretanto, poderia fazer? A promessa que o pai
exigia era, nada mais nada menos, que uma ordem que não podia ser
desobedecida. O desejo do pai era lei, que se estendia mesmo à vida
íntima do seu povo. E embora fosse seu filho, era também um súbdito,
sujeito à sua autoridade, preso às mesmas restrições. Uma recusa de
nada lhe valeria. Essa recusa significaria somente o banimento para um
acampamento distante, um humilhante cerceamento da sua liberdade.
E a rapariga? Que significaria para ela? Significaria simplesmente
a liberdade recuperada!
Nas últimas semanas, uma mudança subtil parecia ter-se operado
nela, e ei-la refugiada agora numa muda reserva que zombava da sua
compreensão. Tinha deixado de protestar inocência sobre a traição que
lhe era imputada, tinha deixado as suas ardentes e apaixonadas juras
de amor, às quais ele voltava o rosto com escárnio e descrença. Sabia
que muitas vezes ela chorara em segredo, mas na sua presença ficava
muda, com os olhos secos, ora submissa, ora rebelde, silenciosa mesmo
quando lutava com os seus abraços. Ela mostrava ter coragem, admitia-
o contrariado. Através da longa e dura jornada de Touggourt, uma
jornada que tinha posto à prova mesmo a capacidade de resistência dos
seus homens, ela não deixara escapar dos lábios o menor queixume.
Cansada, exausta, muitas vezes vencida pelo sono, nos seus braços,
quando ele a tirava do cavalo que havia aprendido a dirigir tão bem,
jamais soltara um murmúrio, nunca fizera a menor queixa. E, assim, a
cada dia que se sucedia ela achava força para o penoso exercício que
dela se exigia.
É verdade que fora bem treinada para resistir à fadiga, mas a sua
força de vontade parecia fora de proporção com o seu delicado
organismo. Muitas vezes se admirava disso, admirava-se da fonte
desconhecida de que ela hauria tanta coragem e decisão.
Agora, jamais o saberia. Tinha chegado ao fim o idílio apaixonado
que só mal lhe produzira, só repugnância, e a vida que se lhe desenhava
para o futuro era um enigma.
193
Se ao menos pudesse ter acreditado e perdoado! Jasmim, a quem
uma vez amara! Jasmim, que o traíra?
Com um gemido, levantou-se e escondeu nas peles o rosto lívido.
- Dar-vos-ei a minha palavra - disse com voz estrangulada e
trémula - mas não posso dá-la agora, não esta noite.
Por um momento, o sheik projectou nos olhos negros e aturdidos
do jovem, bem iguais aos seus, os seus olhos penetrantes, e depois
brotou dos seus lábios um sorriso brusco, um sorriso como jamais o
rapaz vira outro igual, um sorriso que só Diana conhecia.
- Então diz-lhe que preciso de ti - disse amavelmente, em língua
árabe - mas diz-lho já. E lembra-te sempre de que confio em ti.
Ditas essas palavras, saiu da tenda.
Dizer-lho já! Dizer-lhe o quê? Que ela era livre e ele impotente
para a reter? Que, agora, ele, que a tomara tão arrogantemente e a
obrigara a ceder à sua vontade, já não lhe era senhor do destino, nem
sequer senhor de si mesmo, de si que era um simples súbdito, como o
mais humilde dos seus camaradas, sujeito a um soberano cuja palavra
era absoluta? Não, fosse o que fosse que ela lhe dissesse, nunca se
sujeitaria a tamanha humilhação.
O seu rosto denotava amargura, ao levantar as cortinas que
separavam as duas salas. O rapaz passou vagarosamente para o quarto
de dentro.
Ela não deu pela sua chegada. Sentada, imóvel, nem levantou a
cabeça à sua aproximação.
Ele, porém, percebeu que ela sabia da sua presença, porque ao
chegar perto a rapariga tremeu e as mãos finas crisparam-se-lhe
convulsivamente nos joelhos, até as articulações se tornarem tão
brancas como a pele macia e lívida.
O coração bateu-lhe com violência quando o jovem a fitou, com
olhos famintos, que lhe percorriam a beleza juvenil. A boca cerrou-se-
lhe e o corpo premiu-se ao toque dos seus dedos convulsos.
Lá fora, ao luar, o pai esperava-o, mas os momentos
194
sucediam-se e ele mantinha-se silencioso, incapaz de afastar de si
a timidez, incapaz de coordenar as palavras que os lábios recusavam
proferir.
Depois, com esforço, conseguiu falar à rapariga.
- Tenho serviço algures esta noite. Não temes ficar só? Aqui estás
a salvo, com Ramadan, S'rir e os demais.
Não era bem isso o que ele pretendia dizer, pois que jamais tivera
consideração por tais coisas, jamais se mostrara sensível à fraqueza
perante o belo sexo. Mas naquela noite a visão daquela figura pequenina
ajoelhada aos seus pés compelia-o, contra vontade, a um sentimento de
piedade que jamais sentira.
Porque, entretanto, apiedar-se dela - inquiria de si amargamente
-, se a sua ausência seria somente o alívio da tirania de um senhor que
ela temia?
Não havia, porém, expressão de alívio, nenhuma emoção visível
naqueles olhos negros, impenetráveis, que o fitaram por um momento.
- Que temeria eu? - replicou ela calmamente.
Havia, contudo, na sua voz, alguma coisa que fez afluir-lhe o
sangue ao rosto e lhe provocou brusca e inexplicável ira.
- Medo de quê, realmente? - replicou com sarcasmo. - Já que
«eu» não estarei contigo - Alá seja louvado pela necessidade que daqui
me afasta.
O rosto dela, escondido entre os cotovelos, não lhe permitiu ver o
tremor do lábio delicado, que ela mordeu com os dentes brancos, nem o
dilúvio de lágrimas que lhe correu pelas faces.
Quando ela falou, não o fez em resposta às suas palavras.
- Quem veio em vossa companhia?
Surpreso com esta pergunta, ele fitou-a com suspeita. Estaria ela
ainda a procurar resolver o problema da sua identidade, que nunca lhe
fora revelada, ou estaria à espera de qualquer meio que fosse um
auxílio para os homens de quem a havia arrancado?
Perpassou-lhe pela memória uma visão retrospectiva de tudo
quanto se passara entre ambos. E o remorso corrosivo,
195
que ultimamente se mostrara tão violento, morreu e a lembrança
da traição apoderou-se dele novamente, esmagando-lhe a nobreza das
intenções. A ideia de que ela talvez estivesse urdindo tramas,
procurando secretamente esmagá-lo, despertou o diabo que dormia
dentro dele e estimulou-lhe toda a crueldade da sua natureza.
Uma vez que a força física falhara, experimentaria outros meios
para a reduzir à submissão e de maneira alguma havia necessidade de
fazer mistério sobre si mesmo, ou de deixá-la na ignorância da
localidade para a qual fora trazida.
Saiba-o então agora e lembre-se da manhã em que o traiu.
- É o sheik Ahmed ben Hassan - declarou secamente, e
acrescentou com um sorriso irónico: - É o demónio, que galopa mais
velozmente que a tempestade e cujos olhos resplendem como fogo do
céu. É o demónio que não pode morrer: é meu pai.
Ela tremeu violentamente. Mas, como impelida por alguma coisa
mais forte que o medo, levantou a cabeça e olhou para ele com
estranha fixidez.
- É ele que precisa de vós? É somente por causa dele que ides?
Havia uma nota de intensa ansiedade na sua voz, mas, tendo
falado muito baixo, somente a primeira parte da sua pergunta o
alcançou.
Ele gemeu, repuxando o albornoz e dando um passo para mais
perto.
- Não é só de mim que ele precisa - disse de modo significativo. -
Também precisa saber o que sabes e que não quiseste dizer-me. Não
seria melhor que mo dissesses agora do que esperar que ele te force a
falar?
Era uma provocação directa que a fez tremer de novo, mas os
seus olhos medrosos fixaram-se nos dele.
- Como poderei dizer o que não sei? Já disse e repito que nada
sei.
O jovem abanou a cabeça com irada impaciência, sentindo a sua
índole apaixonada rebelar-se contra aquilo que lhe parecia somente
obstinação.
196
- Já me disseste muitas mentiras - disse asperamente - mas, aqui,
chegarás a compreender que as mentiras de nada valem. Alá te dê
juízo, minha louca.
Com passo curto e pesado, encaminhou-se para a porta.
- Senhor!
Mas aquele grito não o deteve e ela, levantando-se, foi no seu
encalço, acenando-lhe com os braços.
O jovem não pretendia molestá-la, mas, ao voltar-se para a
afastar, a sua mão bateu-lhe pesadamente no peito. Com um gemido
penoso ela parou, procurando auxílio no pano das vestes.
Durante momentos, ficou ali com os olhos fechados, tremendo da
cabeça aos pés. Depois passou as mãos pelo peito dorido, transpôs as
cortinas e correu à porta.
Abrigada pelo toldo semiaberto, ela viu-o montar a cavalo e
juntar-se ao outro cavaleiro, cujo nome a enchia de supersticioso terror.
Viu-os galoparem, um ao lado do outro, até ao cume do outeiro, onde
os aguardava a escolta, que se pôs de lado para os deixar passar, e
cerrou fileiras por detrás deles, subtraindo-os à sua vista. Viu-os
seguirem, deixando apenas Ramadan de guarda. Este pôs-se a
caminhar em direcção à fogueira distante.
Ele retirara-se!
Trémula, voltou-se e contemplou a sala vazia. Na tarde em que
fora para ali levada após longa e penosa viagem, que tinha sido como
um sonho terrível, depois de noites que passara ao seu lado, sentindo
dor sob o céu aberto, aquela tenda parecia-lhe um porto de refúgio.
E agora?...
Com os olhos toldados pelas lágrimas que lhe corriam pelo rosto,
ela deteve-se no quarto, ajoelhou-se junto à cama e pousou a cabeça
nos colchões, procurando combater o nervosismo de que se achava
possuída. De que, sobretudo, estava temerosa? - perguntou a si
mesma, enquanto os olhos tristes passeavam pelo quarto que agora lhe
parecia tão ermo e desolado.
Seria medo de fantasma ou demónio, ou seria o medo do ente
terrível com cuja ira fora ameaçada? Aquele que era
197
a luz dos seus olhos, que era o seu mundo, a razão da sua
existência, tinha-a deixado e talvez jamais voltasse!
Mesmo que não a amasse, mas estivesse perto, com isso já se
sentiria feliz.
Mas, agora?...
Ali no seio do seu próprio povo, não haveria outra que o amasse,
outra com mais direito do que ela? Era este o fim: cansado da posse,
satisfeita a sua vingança, não era ela agora um caco inútil a ser jogado
fora, desnecessário, esquecido? Antes nunca o tivesse visto, antes
nunca lhe ouvisse a voz, antes nunca sentisse os seus braços fortes e
atraentes. Como poderia viver sem ele, sem aquele que era a sua vida,
o seu senhor! Alá! Alá! Que dor terrível é o amor!
Agachada nas almofadas, despedaçada por soluços que lhe
sacudiam o frágil organismo e pareciam despedaçá-lo, chorou no
abandono da sua dor, balbuciando o nome dele. Depois, exausta, ficou
encarando a verdade que lhe parecia inevitável.
Nunca mais voltaria. Agora, ela já nada mais era para ele. Tinha-
se ido e com ele tudo.
Tudo?
O seu rosto incandescido chegou-se mais à almofada, molhada
pelas suas lágrimas. Nem tudo!
Uma coisa tinha que não poderia ser-lhe tirada. Na sua solidão e
miséria, uma esperança, uma alegria lhe restava. Uma esperança que
jamais deixou transparecer para ele, uma esperança que era a sua força
secreta e o seu consolo, até que um conforto vivo lhe viesse encher os
braços vazios e dormir no peito que ele magoara com mão irada.
Havia suspirado pela morte, mas como poderia morrer quando
dentro de si agasalhava o dom precioso que fora a sua graça única? Um
filho para amar e por causa dele viver. Um filho dele...
Um grito de angústia escapou-lhe dos lábios. Só o filho não
bastaria para lhe satisfazer o coração faminto!
Era o pai que ela queria, o pai por quem ela suspirava, cujo nome
era murmurado com apaixonado ardor no meio
198
dos gemidos terríveis que a sacudiam enquanto horas
intermináveis decorriam com atroz lentidão. A lâmpada do quarto
tremeluziu e apagou-se e ela imergiu na treva, tendo por único
companheiro o desespero.
VIII
Era ainda muito cedo quando Caryll despertou do sono por que
passara e que durara, no máximo, um par de horas. O repouso da noite
fora passado virando-se incessantemente de um lado para outro, na
estreita cama do acampamento, e dando passadas pela tenda até sentir
necessidade de ar fresco e mais espaço, quando saiu ao luar, sentindo
febricitante o tumulto íntimo das suas sensações.
Seria amor o que sentia, ou somente ciúme - um insensato ciúme
que nunca conhecera anteriormente, o qual lhe produzia uma raiva fria
e penosa que lhe fazia temer os próprios pensamentos e o ódio que
fervia dentro de si.
Naquele momento de recolhimento, quando chegara a estabelecer
a identidade do homem que vira no café maure, em Touggourt, tinha
julgado vê-lo através de uma nuvem de fogo e tudo fizera para reter a
denúncia prestes a rebentar-lhe dos lábios, reter a mão que lhe
estendera e responder de modo cortês à saudação que tanto contradizia
a ameaça que se continha nos seus olhos relampejantes.
Fervendo de ira, atormentado pela lembrança da rapariga, sentar-
se junto com ele no mesmo quarto tinha sido uma quase
impossibilidade, e havia acolhido, como um alívio, a proposta de Raul,
de se retirarem. A solidão, porém, de nada lhe valera e, incapaz de
dormir, havia cismado e meditado até que os seus pensamentos se
tornaram uma onda de confusão que, partindo de um ponto qualquer,
tornava invariavelmente à mesma coisa: onde estava a rapariga e qual
fora a sua sorte?
Uma infinidade de vezes durante a noite tinha sido tentado a sair
à procura do irmão e, face a face, perguntar-lhe essas coisas. Mas em
todo o vasto acampamento, não sabia
199
onde encontrá-lo e, esmagado pela impossibilidade, as suas
cogitações haviam-se chumbado ao sentimento de que nada poderia
fazer para remover o seu desassossego e o peso horroroso que sentia
dentro da sua cabeça.
Certa vez, a luz que ainda brilhava na tenda de Raul tornara-o
ansioso por procurar-lhe a companhia, mas o som de vozes que partiam
lá de dentro fê-lo voltar para a sua tenda ainda mais perturbado que
antes. Que mistério era esse que fazia Raul conservar-se de pé até hora
tão avançada, quando se retirara cedo pretextando cansaço e urgente
necessidade de dormir? E porque estavam com ele o sheik e o outro
filho, entretidos em animada palestra, àquela hora da noite, ou, melhor,
da madrugada, Já que uma consulta ao relógio lhe mostrara que eram
quase três horas? Tinha-se confundido apenas um instante, mas agora
podia distinguir bem nitidamente as três vozes.
Não querendo passar por intruso, voltara ao leito para se debater
febrilmente até que o sono o vencesse. Dormira, então, cerca de duas
horas, tendo sonhos perturbados, para despertar indisposto, com a
cabeça a doer, o peito em fogo e o seu problema sem solução.
A rapariga era árabe. Nunca poderia ser nada para ele. Porque
permitia então que a lembrança dela viesse molestá-lo? Em Touggourt,
o seu amor por ela fora um sentimento vago, indefinível, que não
chegara a ser sequer uma paixão física. Não obstante o encantasse a
frescura delicada da compleição dela, não fora a beleza do seu corpo,
mas a complexidade profunda da sua mentalidade e a estranha e
indizível fascinação, que ela exercia, que o atraíra, despertando-o e
compelindo-o ao interesse. Um amor nebuloso, que dificilmente havia
reconhecido como tal, que tinha sido puramente platónico, que só
nascera quando a vira sem defesa nos braços do rude raptor. E mesmo
aquele amor, ele o tinha expulsado do coração, supunha-o, até a noite
em que a aparição do homem que a raptara o tinha lançado num
redemoinho de sensações que quase o venceu. Virou-se para o lado com
um gemido, apertando a cabeça abrasada nos travesseiros, esforçando-
se por estabelecer a verdade completa.
200
O desejo físico é amor? Queria-a agora, como nunca antes a
quisera, somente por causa do estranho ciúme que lhe sobreviera tão
bruscamente - o mero ciúme animal do macho sedento? Em nome do
céu, qual a causa desse ciúme? Em sentido algum ela fora sua,
enquanto que o outro...
Sentou-se afastando as roupas da cama, com o rosto carregado, à
lembrança do ar de reconhecimento que vira nos seus olhos aquela
noite, no café. Que tinha sido anteriormente para seu irmão aquela
rapariga, por cuja inocência e castidade ele apostaria a vida? A doce
pureza que ela ostentava existiria apenas na sua imaginação?
Seria ela melhor que as vis e desprezíveis criaturas que
lhe eram associadas?
Tremeu com desgosto ao lembrar-se das raparigas de olhos e
faces sensuais que vira no café maure.
Não havia nada mais, então, que bestialidade neste maldito país?
Que história medonha o tio Raul contara a última noite e agora - isto!
- Meu Deus, porque vim a este país maldito? Esmagado, física e
mentalmente, com a mente enfastiada em revolta contra o caos de
pensamentos que lhe repugnavam, mas que não podia dominar, sentou-
se confuso ao lado da cama, com a cabeça apoiada nas mãos. Foi nessa
atitude que Guilherme o encontrou meia hora mais tarde, quando veio
trazer-lhe água quente e uma xícara de chá. A voz do homem, a
perguntar-lhe ansiosamente se estava doente, despertou-o e ele olhou
com um rosto lívido, que fez o solícito criado fazer-lhe mais perguntas
sobre a sua saúde.
- Não, não me sinto doente. Por amor de Deus, Guilherme, não
me incomode - disse, irritado. - Não pude dormir e dói-me a cabeça.
Tudo melhorará depois de eu tomar um pouco de chá. Coloque tudo na
mesa. Não, não quero nada mais. De que diabo está à espera?
Habitualmente delicado com os seus subordinados, a irritação que
sentia cedeu lugar a uma sensação de arrependimento e de desgosto
por si mesmo ao ver o ar acabrunhado do rosto de Guilherme, e
espreitou-lhe a saída da tenda. Não precisava amargurar o pobre criado
somente porque se
201
sentia indisposto - reflectiu tristemente ao encher a chávena de
chá, e sentou-se numa cadeira ao lado da mesa, entregando-se ao mais
amargo cismar.
Não esteve só, porém, por muito tempo, com as suas dolorosas
cogitações.
Mal tinha bebido o chá quando Guilherme reapareceu, detendo-se
com hesitação, muito embaraçado.
- Rogo-lhe me perdoe, senhor - disse hesitante - mas o jovem
gentil-homem que chegou ontem à noite... - balbuciou aos poucos,
como se procurasse um título próprio para atribuir ao outro, e então
mais decidido acrescentou, por fim:
- O irmão de vossa senhoria, senhor visconde.
Com os nervos excitados e rígidos, Caryll fitou-o demoradamente,
lançando a vista de modo perscrutador para a porta.
- Sim, meu senhor! - respondeu Guilherme a uma pergunta que
não fora feita.
Por um instante, Caryll ficou sentado em silêncio, com o coração a
pulsar com medonha violência.
- Peça-lhe que entre - ordenou finalmente, e a sua voz pesada,
sufocada, chegou-lhe aos ouvidos como se fosse a voz de um estranho.
Caryll não se mexeu quando a figura alta, pitoresca, do irmão lhe
surgiu na tenda, saudando-o com uma respeitosa reverência que
parecia estabelecer uma profunda diferença entre os dois, e os seus
olhos tornaram-se friamente hostis ao notar o porte arrogante, a
expressão algo insolente que havia causado, entre os dois, tão grande
antagonismo na noite anterior. Foi o visitante que, ostentando um ar de
despreocupada segurança, primeiro falou.
- Peço desculpas por uma visita tão matinal, monsieur - começou
em francês - mas o vosso criado disse-me que já estáveis de pé e não
poderia, talvez, achar melhor ocasião para vos falar a sós. É-me
permitido fumar? - acrescentou com flagrante inconsequência, rolando
com os dedos um cigarro apagado.
Sentindo renascer a ira, Caryll indicou-lhe uma caixa de fósforos
que estava perto do aparelho de chá e apontou-lhe uma cadeira do
outro lado da mesa.
202
- Não falais inglês? - perguntou quando o irmão se sentou,
dispondo o albornoz pelo corpo com exagerado cuidado e cruzando as
pernas.
O visitante deixou sair dos lábios um riso alegre, que deixava
transparecer-lhe os dentes brancos, o que fez Caryll exasperar-se ainda
mais.
- Falo... quando é preciso - respondeu na mesma língua que
anteriormente - mas prefiro falar em francês, isto é, se não
compreendeis o árabe - acrescentou com um olhar inquiridor que era
quase um desafio.
- Não falo árabe - retorquiu Caryll de modo breve, como que
querendo exceder o irmão em indelicadeza. Sem se perturbar, o
visitante sorriu com brandura.
- É pena - observou, com ironia. - É a língua de alguns dos poetas
mais antigos.
E tirando o cigarro da boca deixou evolar-se dela uma fina,
azulada nuvem de fumo, que acompanhou com o olhar, até se
desvanecer pela porta aberta.
Quase sem mais poder suportar aquilo tudo, Caryll fitou-o
sombriamente, com profunda irritação. Estaria aquela raposa do deserto
a tentar dominá-lo, ou estaria propositadamente a querer fazer-lhe
perder a paciência? Era tempo de acabar com aquela farsa ignóbil. O
árabe queria a luta e não seria Caryll quem fugisse a ela.
- Presumo que não viestes aqui tão cedo para discutir os méritos
da língua árabe ou de outra qualquer - obtemperou, em tom
causticante.
A sua suspeita confirmou-se ao ver o visitante deixar de sorrir
com brandura para responder-lhe:
- Não é esse, de facto, o fim da visita - retorquiu prontamente, e
Caryll observou pela primeira vez o indisfarçável cansaço que havia sob
o seu ar quixotesco. - Presumo que sabeis bem o que aqui me trouxe.
Ouso crer que provavelmente a minha visita era esperada. Há, suponho,
um pouco de necessidade duma explicação entre nós. É para esse fim
que aqui estou.
Interrompeu-se por segundos, perscrutando o rosto que se lhe
defrontava no outro lado da mesa.
- A última noite não foi a do nosso primeiro encontro
203
- prosseguiu, mais devagar. - Encontrámo-nos antes em
Touggourt. Vim esta manhã propor à vossa consideração um acordo,
como direi, político? no sentido de esquecerdes um incidente que,
ademais, nenhum interesse pessoal tem para vós. - Um acento irónico
transparecia na sua voz. - Foi lamentável haverdes presenciado aquilo.
Mas, já que tratamos do caso, seria ainda mais lamentável se vos
referísseis ao mesmo, perante outras pessoas a quem nada disso
interessa. Preciso ser mais explícito?
Novamente Caryll divisou nos seus olhos a ameaça que vira na
noite passada e levantou-se, trémulo, apaixonado.
- Não é preciso - exclamou furioso - dissestes o bastante, mais do
que era necessário. Que diabo entendeis, fazendo-me ameaças? Se
entendeis que dou importância a pragas dum grosseirão, a vós ou às
vossas ameaças, estais redondamente enganado. Se decidi fechar a
boca em relação àquele incidente brutal de Touggourt, não é por vosso
respeito. Se o quiserdes, tanto quanto isso vos interesse e que nada me
diz respeito, podeis ir para o diabo tão depressa quanto entenderdes.
Mas no que toca à honra de nossa família, isso interessa-me. É tudo
quanto vejo naquela cobardia. De forma alguma me empenho em
proclamar a todo o mundo que meu irmão é um bárbaro e um sedutor.
Tão-pouco cuido de saber qual é aqui o vosso código de moral, mas na
Inglaterra a coisa seria outra. Compreendeis ou cumpre que, também,
seja mais explícito?
O visitante levantou-se e durante segundos, ambos de pé,
encararam-se, um irrepreensível no vestuário e o outro desajeitado no
seu pijama, ambos lívidos e trémulos, devorados de raiva incoercível.
Momento sério, aquele, em que a atmosfera da pequena tenda parecia
bruscamente carregada de electricidade, viva no fogo de paixões
humanas desnudas, ao passo que olhos relampejantes despediam
chispas, os de um procurando penetrar os de outro, os deste a desafiar
os daquele.
Depois, com tremendo esforço, o visitante recobrou o domínio de
si mesmo. Com as mãos ainda crispadas, deu um passo e fez um
salamaleque superficial.
204
- Obrigado - disse suavemente. - Compreendo perfeitamente. A
vossa confiança e a vossa inocência tornam desnecessária qualquer
explicação entre nós. E, assim sendo, não devo continuar abusando da
vossa hospitalidade. Como presumo que a minha companhia não é para
vós das mais agradáveis, apresso-me a libertar-vos dela.
Já ele havia chegado à porta, quando um «espere» sussurrado
dèbilmente o deteve, fazendo-o olhar ao redor de si, com as mãos ainda
retendo o toldo da porta da tenda.
- Senhor? - Onde está ela?
Essa pergunta brusca reviveu o inflamado ciúme que o consumia
e, suspeitoso e ressentido, ele voltou-se rapidamente.
- Porque vos interessa isso? - perguntou resmungando.
O seu rosto, então, tornou-se inexpressivo e os olhos como que se
lhe sumiam nas órbitas. Sacudiu os ombros com indiferença.
- Desde que o perguntais, dir-vos-ei que ela está na minha tenda
em El-Hassi - e apontou com as mãos em direcção ao sul.
Contendo-se com dificuldade, Caryll chegou um passo mais perto
do irmão, encarando-o apaixonadamente.
- Que pretendeis fazer dela?
O outro riu amargamente.
- Que pretendo fazer dela? - repetiu silabando as palavras. - Bon
Dieu, sei-o tanto como vós. Se me houvésseis perguntado o que lhe fiz,
ter-vos-ia respondido que esse negócio só a mim diz respeito, monsieur
mon frère. Mas como a vossa pergunta diz respeito ao futuro, declaro-
vos que errastes quanto à pessoa que vos poderia informar. Uma vez
que fui tolo de mais e a trouxe até aqui, ela deixou de estar sob o meu
domínio. Ainda não estais no acampamento de Ahmed ben Hassan o
tempo suficiente para compreender que aqui só a vontade dele
predomina? Perguntai-lhe a ele, se é que quereis outras notícias da
rapariga.
Caryll moveu os lábios lívidos. - Que dizeis, meu Deus, que dizeis?
205
O irmão fitou-o perplexo por alguns instantes e depois riu
novamente, com um riso pleno de provocação e ironia.
- Não digo o que evidentemente vos agradaria - respondeu com
aspereza. - Além de tudo, a moral árabe não é assim tão má. E o nosso
pai dificilmente vos agradeceria se lhe alvitrásseis a formação de um
harém.
Com outro riso escarninho, rodou nos calcanhares e deixou a
tenda.
Muito vermelho, Caryll lançou-se novamente no leito, enojado de
si mesmo em razão do pensamento terrível que tão brutal e
inopinadamente lhe derivara para os lábios. Que lhe acontecera para ter
concebido ideia tão revoltante? Estaria às voltas com pensamentos e
impulsos insidiosos que, apesar de seus esforços por bani-los, lhe
desencadeavam tempestades no espírito?
Fazendo a si mesmo uma análise retrospectiva, mas
encarniçadamente disposto a ir até o abismo da estranha mudança que
nele se operara, parecia estar defrontando uma crise moral que o
deixava mentalmente desnorteado, sem poder concluir se algo sabia de
si mesmo. Seria apenas a Argélia com a sua atmosfera subtil,
perturbadora, oriental, que no momento exercia influência sobre ele, ou
seria alguma tara oculta que nele se manifestara ao chegar à virilidade,
desenvolvendo tendências cuja existência ignorava?
Mas que lhe importavam o ambiente e a viciosidade que lhe eram
inerentes? Era tão fraco, então, que não podia ser superior a ambos?
Sentou-se bruscamente, fazendo os calcanhares aprofundarem-se
no chão, e dardejou olhares furiosos por toda a tenda vazia.
Estaria bem arranjado se se deixasse influenciar por uma coisa ou
outra! A terra era pútrida, não havia que ver. E a noção de tendências
herdadas era somente um meio cómodo de alienar a responsabilidade
pessoal. Não era muito digno lançar tudo à conta das loucuras paternas,
sobre ombros alheios. Demais, quem lhe garantia que nele havia
tendências herdadas? Era esta venenosa existência ociosa, a falta de
ocupação a causa de todo aquele mal-estar. Em casa, na Inglaterra, não
206
tinha tempo para pensar, enquanto que ali... Com uma
exclamação raivosa, arrancou do corpo o pijama e meteu-se na
banheira existente num canto da tenda. Vinte minutos depois, barbeado
e vestido, sentou-se à secretária para escrever uma longa carta ao seu
correspondente da Inglaterra. Essa ocupação, entretanto, escasso alívio
lhe trouxe. Pouco podia escrever, porquanto lhe deixara instruções
minuciosas ao preparar-se para a viagem e elas eram suficientes para o
encaminhar durante a ausência. Mas não mostrando o sheik muita
disposição de tratar do assunto que o trouxera à Argélia, nada tinha a
juntar ao que já havia determinado e, portanto, a carta que estava
querendo escrever era trabalho supérfluo. E, nervoso como estava,
difícil lhe era concentrar os pensamentos.
Procurando fixar a mente em factos e pessoas, os pensamentos
fugiam-lhe. O rosto do irmão e o da rapariga misturavam-se-lhe às
divagações com obstinada frequência, levantando-se entre ele e a tarefa
que tão de perto lhe dizia ao coração.
Que adviria de tudo, qual seria o destino daquela rapariga? A
amante de seu irmão, bom Deus do céu? Mas que lhe importava isso,
porque o magoava isso tanto? Uma mulher nativa que de modo algum
poderia ser-lhe alguma coisa... Apesar de tudo, a lembrança dela
obcecava-o.
«Ela está na minha tenda, em El-Hassi». Rememorava a voz
melíflua e o riso escarninho que acompanhara essas palavras do seu
irmão e levou as mãos ao rosto, em luta com a ira e o ciúme que ainda
o venciam, enquanto em vão se esforçava por esquecer ambos - ele e
ela.
Chegara a hora do lanche quando concluiu a carta que tantas
vezes interrompeu e, sem sentir ânimo para se apresentar na reunião
da família, quase cedeu ao impulso de mandar um recado a pedir
desculpas pela ausência.
Pensando, entretanto, no mau efeito que causaria a sua falta e
nas interpretações a que daria lugar, colocou a carta no bolso e foi, com
relutância, para o acampamento paterno. Só a mãe o esperava, com o
rosto estranhamente pálido, com ar estranhamente ansioso.
207
Absorvido entretanto pelos pensamentos particulares, a ansiedade
materna e o seu silêncio passaram-lhe despercebidos. E jubiloso por lhe
ser poupado um estúpido encontro com o irmão, não comentou o facto
de a encontrar a sós à mesa e conteve-se de perguntar o que sucedera
aos demais; conteve-se em verdade, evitando uma simples pergunta
que poderia dar margem a palavras que seriam confidências íntimas.
Os seus árduos esforços para entreter a conversação, que girava
inteiramente em torno da sua vida na Inglaterra, só provocavam
respostas curtas, desinteressadas, que faziam o assunto prolongar-se
sem resultado. Finalmente, Diana, também, mergulhou no silêncio como
esmagada pela esterilidade do assunto, lembrando-se de que na última
noite nele notara qualquer coisa alarmante que desaparecera. Agora só
o que observava nele era uma sólida barreira de reserva que desafiava
todos os esforços que se fizessem para derrubá-la.
Nem após o lanche ele quis deter-se ou, ao menos, oferecer-se
para partilhar a solidão.
Quando Diana se levantou da mesa, ele tirou a carta do bolso e
estendeu-lha.
- Ficar-vos-ia muito grato se mandásseis seguir esta carta - pediu
com a frieza que manteve desde o começo.
Um sorriso lhe perpassou pelos lábios e os olhos cansados luziram
ao pôr a carta ao lado de outra volumosa missiva que ela encontrara na
mesa naquela manhã. Não saberia ele que havia um lugar para esse fim
no canto da tenda?
- Lamento, Caryll - disse com gentileza, desculpando-se. -
Esqueci-me de vos perguntar se tínheis cartas a expedir. Aqui nem
sempre se pode remeter correspondência, mas parece-me que hoje à
noite haverá portador. Talvez tenhais outras cartas a escrever. Só ao
anoitecer é que o portador seguirá.
Tendo, então, deliberadamente sufocado o desejo da sua
companhia, e havendo-lhe permitido que se retirasse, ela admirava-se
tristemente da facilidade com que o filho engendrava pretextos para a
deixar e um forte desapontamento
208
se apoderou dela quando o jovem murmurou alguma coisa
corriqueira sobre a «vinda de ocasião».
Através das lágrimas, ela viu-o ir e, mais uma vez a sós, atirou-se
ao divã, em luta novamente com o medo que a sobressaltava
incessantemente desde a noite anterior.
Que teria acontecido entre pai e filho quando se atiraram à noite
pelo deserto, deixando-a em estado de medonha apreensão que a
conservou insone até de madrugada? Hora por hora esperava
angustiada a volta do sheik e hora após hora decorria sem que ele
voltasse. Por último, exausta de forças, o sono viera.
Entretanto, ele devia ter chegado, porque, levantando-se mais
tarde do que costumava, ela vira que as almofadas e travesseiros
tinham sido deixados no divã, mostrando que ele ali estivera e depois
saíra. Ela procurou ser grata à consideração que ele mostrou evitando
incomodá-la, mas a dúvida era pior de suportar que qualquer coisa que
ele lhe dissesse. Todo o dia o marido esteve ausente. E, igualmente,
durante o dia inteiro, não vira o filho. Que ele estava na tenda de Raul
de Saint Hubert sabia-o ela porque Gastão lho dissera, mas este criado
contou também que ambos estiveram ausentes durante toda a noite e
estavam agora a dormir. Assim, era obrigada a esperar, tendo de
afastar da mente o constante «porquê?» que a torturava, incapaz de
encontrar uma resposta satisfatória para essa pergunta íntima. Se ao
menos Ahmed a houvesse acordado... Se ao menos o filho tivesse
vindo, como nunca deixara de vir, oferecer-lhe a face para beijar,
prometendo corrigir-se das suas faltas com os olhos a fingir
arrependimento... Pobre rapaz, amável cabeçudo! Que teria feito esta
vez, que não veio ver a mãe, que jamais lhe lançou faltas em rosto, que
sempre lhe perdoou, fosse qual fosse a falta praticada? Esperou muito
tempo, até que os ruídos que ecoavam lá fora lhe mostraram que
findara a hora da sesta. Esperou até se lhe tornar impossível a
inactividade e então pôs-se a caminhar sem descanso pelo quarto.
Estava agora de pé junto a uma estante, a virar mecanicamente as
páginas de um livro que ela sabia de cor, quando o sheik entrou.
209
Vagamente consolada só porque o marido aparentava estar de
saúde, ela permaneceu por um momento nos seus braços, sem falar.
Compreendendo que ela necessitava disso, apertou-a bem contra o
peito, ele também quieto, até que por último Diana o fitou com olhos
súplices, ainda lacrimosos.
- Ahmed! - exclamou. - Certamente tive de esperar-te bastante.
Sei que, por bondade, me deixaste a dormir, mas eu preferia mil vezes
ter despertado por ocasião da tua volta. Agora, não trato de saber se é
bom ou mau o que houve, mas peço que mo contes. Que mal fez o
nosso filho que até agora não veio ver-me? Nada sei. Não vi ninguém
desde a noite passada, a não ser Caryll, que só veio aqui para o lanche,
se foi embora e estava de tal modo esquisito... Oh, meu caro, que
significa isto tudo?! Preciso saber. Não posso suportar mais tempo este
mistério todo.
Olhando-lhe o rosto lívido, o sheik compreendeu que, querendo
poupá-la, a tinha feito sofrer mais e jurou intimamente aliviá-la de tal
sofrimento.
- Não sei se algum mal aconteceu a Caryll, mas quanto ao outro...
Interrompeu-se e, posto que Diana não tirasse dele os olhos, o
medo transparecia nos olhos dela.
- Ahmed, que lhe fizeste?
O sheik apertou-a nos braços.
- Nada - respondeu apressadamente. - A sua ausência,
naturalmente, era indesculpável. Mas a demora não foi totalmente por
sua culpa. Tinha ido ao norte, como me confessou francamente, sem
outro fim que não fosse o de distrair-se, mas, perto da Caverna dos
Fantasmas, parece que se envolveu numa aventura de que lhe resultou
ficar a par de algumas coisas que dizem respeito à desordem que reina
no país, e isso pode vir a ser de muito proveito para o governo. Por
motivos que só ele compreende, preferiu trazer-me tais informações em
lugar de levá-las directamente às autoridades em Touggourt. É
desnecessário dizer que a perda de tempo é lamentável e pode até ser
irreparável. Para reduzir a demora tanto quanto possível, gastámos
quase toda a noite, eu e Raul, a escrever um relatório que mandei esta
madrugada às
210
autoridades. Aquela carta que deixei na mesa e que irá à noite é
apenas uma cópia que resolvi tirar para evitar extravio. Assim, por esta
vez, deixei livre o rapaz, perdoando-lhe a ausência sem licença em troca
das notícias que trouxe - juntou com um breve sorriso.
Ela, porém, não sorriu e fixou-o mais firmemente, os olhos ainda
perturbados.
- Não é tudo, Ahmed. Há qualquer coisa além disso tudo, alguma
coisa que não quiseste contar. Vi-o no teu rosto. Vi-o também no rosto
dele ontem à noite. Que foi que ele fez que não pôde vir ver-me hoje?
Embora soubesse que mais cedo ou mais tarde ela viria
inevitavelmente a saber de tudo, o sheik ainda procurou ocultar-lhe
pormenores que só dor lhe causariam.
Agarrando-a, fê-la curvar a cabeça e beijou-a com apaixonada
ternura.
- Não tratemos disso, ma mie. O rapaz tem sido um louco, mas o
que passou, passou. Lamentar as coisas não é corrigi-las. Ele tem
brincado com o fogo e por fim queimou os dedos, como era de esperar.
Desta vez, a sua própria loucura castigou-o; um castigo que o magoou
bastante e cujas consequências durarão mais tempo do que a pena que
eu lhe aplicasse.
Essas palavras não a acalmaram, antes mais angustiados lhe
deixaram os olhos.
- Não posso deixar o assunto. Preciso saber. Que foi que ele fez? -
gritou aflita.
Ele ainda hesitou. Com um gemido, Diana afastou a cabeça,
fitando-o meio alucinada.
- Sou sua mãe e tenho o direito de saber. Ele é meu filho, Ahmed,
tanto quanto é teu.
O sheik lembrou-se das palavras dela, meio sérias, meio
maliciosas, da noite anterior e olhou para o lado com ar compungido.
- Não é teu, este, ma mie - volveu com amargura. - É meu, a
todos os respeitos. Deus nos ajude a ambos.
E amavelmente contou-lhe toda a história, poupando o que podia
ser poupado, sem omitir, porém, os pontos mais
211
importantes. Antes de ele terminar a narrativa, o rosto de Diana
estava escondido no pano preto do albornoz e, de tempos a tempos, ele
sentia os tremores que sacudiam o corpo da esposa. Ela, porém, ouviu-
o sem o interromper.
Era apenas a confirmação do que, nas profundezas do coração, ela
sabia e temia, com um medo, que, no grande amor que sentia,
procurara vencer ou negar. Agora, entretanto, o cumprimento do que
temera era coisa quase insuportável. Todo o seu amor de mãe, toda a
sua angústia e desapontamento se sintetizaram na exclamação que lhe
explodiu dos lábios:
- Oh! Ahmed, como pôde ele fazer isso?
O sheik baixou os olhos e um ar dorido transpareceu-lhe na face.
- Grand Dieu, perguntaste-me isso lembrando-te do que eu
também te fiz há anos - exclamou com amargura ainda maior do que
antes. - Se ele procedeu assim é porque é meu filho, porque a
sensualidade tem sido a desgraça da nossa família em muitas gerações.
Sabes o que era o meu pai até que o desaparecimento de minha mãe
sanou essas e outras faltas. Sabes o que eu era até que penetraste na
minha vida, minha santa querida! O rapaz procedeu conforme o modelo
e não posso censurá-lo mais do que a mim próprio. Conhecendo o mal
que em nós existe, eu deveria ter feito mais do que fiz. Deveria ter-lhe
aberto os olhos e ajudado. Fizeste-me agradecer esta dor, minha
esposa, não meu filho. Ele...
As mãos de Diana fecharam a boca do sheik, fazendo-o calar-se.
- Nada me fizeste de mal - interrompeu-o apaixonadamente -
nunca durante os anos que temos vivido juntos. Em tudo tens sido bom.
E mesmo isto, este caso penoso, não é tão difícil de suportar se
dividirmos o peso entre nós dois. Devemos ser unidos, Ahmed, mesmo
num caso como este. Se julgas haver faltado aos deveres que tinhas
para com ele, também eu faltei, porque sempre pensei na possibilidade
de isto vir a acontecer, e nada fiz para o evitar. Mas ele parecia-me
ainda muito novo... Nunca me lembrei de que os
212
anos correm com fantástica velocidade. Nunca reconheci nele um
homem, até ontem à noite. E então o rosto dele, oh, Ahmed! Meu filho!
Meu filho!
Diana soluçou com indizível amargura. O marido levou-a até o
divã, sem a largar até que se acalmasse.
Só muito tempo depois ela levantou a cabeça, não para o fitar,
mas para fitar aquelas mãos fortes que seguravam as suas.
- E ela está com ele, agora, em El-Hassi? - perguntou
estremecendo.
O sheik moveu-se inquieto.
- Em El-Hassi, sim. Com ele, porém, não. Já disse que o que
passou, passou - respondeu secamente.
Diana sentou-se imóvel, em luta com o ciúme maternal que lhe
afligia o coração e que a levou a fazer mais uma pergunta, em voz
sumida.
- Mas ela parece?...
Murmurando alguma coisa que não lhe foi possível ouvir, o sheik
pôs-se a procurar na mesa um cigarro.
- Regularmente bonita - gaguejou - porque de contrário o rapaz
nunca teria olhado para ela. Regularmente, disse eu, mas esta palavra
não diz tudo. Ela é realmente linda, inegavelmente. É um tipo pouco
comum, e não sei como classificá-la. Dizem que é moura, mas eu
duvido. É muito calma e o seu olhar é delicado de mais para uma
dançarina. Ela não me engana.
- Será que o ama?
O sheik tornou-se grave, contemplando o cigarro que acabara.
- Receio que sim.
- E ele?
- Deus sabe-o, mas eu, não. Ele jura que a odeia, mas presumo
que mente. Mas, se mente ou não, isso não vem ao caso. A rapariga é
uma nativa e isso põe ponto final no assunto. Tê-la-ia mandado para
outro acampamento, se isso me fosse possível, mas, infelizmente, ela
tem informações sobre os homens com quem vivia e recusa transmitir-
nos essas informações. Enquanto não falar, ficará em El-Hassi.
213
Vi-a hoje de manhã novamente e procurei todos os meios ao meu
alcance para quebrar-lhe o mutismo, sem empregar violência, bem
entendido; ela, porém, recusou dizer uma palavra que dissesse respeito
a essa gente e às suas actividades. Todo o tempo esteve tomada de
pavor e parecia obcecada pela ideia de que todos somos demónios, ou,
pelo menos, qualquer coisa de sobrenatural e desagradável. É o velho
mito corrente sobre o nome de ben Hassan, suponho. A sua obstinação
exaspera, mas não posso deixar de admirar-lhe a coragem. Nem mesmo
o medo pôde pôr em cheque a sua lealdade. E, contudo, não passa de
uma criança - um pequenino ente delgado com olhos semelhantes aos
de uma gazela. É dotada, entretanto, de incrível vivacidade. Nunca fui
batido em coisa alguma deste mundo, jamais cheguei a ser na minha
vida vencido como acabo de sê-lo por uma mulher!
Riu-se brandamente, como se os olhos lhe brilhassem com uma
luz muito ténue, suavizados pela recordação da mulher de que falava.
Foi somente um sorriso murcho o que ela teve para corresponder-lhe, e
depois baixou a cabeça. Durante longo tempo Diana ficou muda, em luta
com os impulsos que a cada momento se tornavam mais fortes dentro
dela.
Bruscamente, pareceu reagir, e aproximou-se dele, a sua face
linda corando com o esforço que estava fazendo.
- Ahmed, eu gostaria de a ver...
Por instantes, o marido fitou-a com espanto, com um sorriso a
morrer-lhe nos lábios.
A sua boca fechada, porém, tomou aquele aspecto que ela
conhecia tão bem.
- O caso não é contigo, Diana. Recuso terminantemente.
A sua voz tinha tal acento que ela precisou apelar para o seu amor
e encheu-se de coragem para insistir.
- Mas, Ahmed...
Ele fez como se virasse o rosto, com os olhos carregados.
- Ma mie, eu disse que o caso não é contigo, e acabou-se. Que ele
aqui a trouxesse fazendo-te um insulto, ainda admito, mas que a
queiras visitar, bon Dieu, é impossível - concluiu com veemência.
214
Conquanto empalidecesse muito, ela ficou firme, de pé, com os
dedos embrulhados no albornoz, os olhos pousados nele.
- Não compreendeste - volveu precipitadamente. - Não, porque és
homem. Mas eu sou mulher e vejo tudo de maneira diferente. Não
posso deixá-la assim. Preciso fazer alguma coisa, oh! Ahmed, percebes
o que quero dizer? Somos responsáveis - tu e eu - tanto quanto o nosso
filho. Sei que é uma nativa - é horrível! - mas se é somente uma
criança, como dizes, e se o rapaz fez... alguma coisa, se... se...
O rubor invadiu-lhe o rosto.
- Não é nada - respondeu o sheik firmemente, deixando cruzadas
as mãos. - Penso nisso também, e esta manhã chamei o rapaz.
Ela lançou-lhe um olhar irónico.
- Como se ele não soubesse que ela nunca dirá coisa alguma -
replicou Diana.
Ele estremeceu com impaciência.
- Quanto a isso, nada posso dizer - retorquiu com patente
irritação. - Mas mesmo que assim seja - o que Deus não permita - isso
em nada altera o caso, nem a minha decisão. Deixará El-Hassi em paz,
ma mie, e trata de fazer as provisões necessárias para a rapariga,
aconteça o que acontecer. E deixa de torturar o teu terno coração
imaginando o pior, quando não há necessidade disso.
Como para pôr ponto final na discussão, ele dirigiu-se à secretária,
onde se sentou para ler a correspondência, a enviar pelo portador, à
noite. Mas isso foi apenas um pretexto, como Diana bem o sabia, para
deixar sem resposta quaisquer outras perguntas, porquanto nada havia
a acrescentar ao relatório que ele e Raul haviam redigido nas primeiras
horas da manhã.
Insatisfeita, ela voltou ao divã, onde se sentou, com a testa
franzida a trair-lhe a ansiedade, os olhos fixos nas costas do marido.
Procurava ainda um meio de fazer qualquer coisa, impelida pela
consciência. O sheik fumara um cigarro e acendia o segundo, quando a
voz dela lhe chegou aos ouvidos, tão débil que mais se diria um
murmúrio.
215
- Suponhamos que a rapariga não diz o que queres saber. Deixar-
me-ás, então, ir vê-la? Ela a mim talvez o dissesse...
Com uma praga, ele deitou fora o fósforo e virou a cadeira.
- Diana - exclamou com irritação. Riu a seguir, com ar carrancudo,
fitando-a meio alegremente meio ironicamente.
- És bem uma mulher - afirmou com um sorriso. - Concordo em
que me rodeies procurando decifrar-me o pensamento, mas não é bom,
minha querida. Já te disse que não quero que a vejas. Não me faças
falar mais claro. A rapariga falará seja de que maneira for. Não quero
dizer que vá espancá-la, que vá matá-la à fome, ou que empregue
qualquer outro meio violento, embora ela pareça resolvida a tudo, e de
facto, quando estive com ela, esta manhã, ameacei-a com diversos
tormentos que ela prefere suportar a trair a sua gente.
Inconscientemente confessou certo parentesco com um deles,
derramando alguma luz sobre a vida dos outros, e aparenta um
sentimento de honra que é muito difícil de compreender. Mas eu não
afirmo que compreenda as mulheres, tu menos que todas, querida. Por
isso, julguei conveniente apelar para Raul. E nele deposito, agora, as
minhas esperanças. Ele, que é boa pessoa, ofereceu-se para
intermediário. Como sabes, é muito persuasivo, quando quer. Pode ser
capaz de convencer aquela jovem supersticiosa de que não sou um
fantasma nem uma alma do outro mundo, como parece que ela pensa,
mas um mortal comum como ela, e assim ganhará a sua confiança.
Possa Alá ajudar-lhe a eloquência - acrescentou em árabe, com um
sorriso que nada tinha de confiante.
Mal ele havia acabado de falar, entrou Raul, com o passo
arrastado do costume, voltando os olhos pequeninos com alguma
apreensão de um para outro, como se pela primeira vez temesse um
acolhimento desagradável.
Os seus olhares eram endereçados ao sheik e a Diana, os quais
atravessaram a sala para irem ao encontro dele, o primeiro com a fria
compostura habitual e a última com o coração a bater, temendo que ele
soubesse qualquer coisa.
216
Instalando-se numa cadeira que o sheik lhe indicou, Raul sentou-
se, respirando com dificuldade durante algum tempo. Foi somente ao
ouvir a voz de Diana a implorar-lhe informações, que ele olhou para
cima, sacudindo a cabeça.
- Não. Nada de novo aconteceu. - disse com esforço. - Desculpai-
me se vos assustei. Sucedeu somente que sofri um grande choque de
que ainda não estou refeito.
Voltou-se depois para o sheik, os olhos sombreados de dor.
- Estive em El-Hassi, Ahmed, para ver a pequena... - disse,
meneando a cabeça - mas em lugar dela achei um fantasma, o
fantasma de uma mulher que vi há dezasseis anos em Biscra. Era Isabel
De Chailles, em carne e osso, a voz de Isabel De Chailles que me falava,
Isabel De Chailles como a vi uma noite, vestida como árabe para
agradar ao marido.
A sua voz tremia de emoção e Raul cobriu o rosto com as mãos
para evitar o ar de horror com que Diana o fitava.
No silêncio que se seguiu, ele ouviu o estalido da frágil armação
da cadeira em que estava sentado, como se tivesse sido um palito de
fósforo premido pela mão do sheik. Ouviu também o grito atormentado:
- A filha de Renato de Chailles na tenda de meu filho. Oh, meu
Deus!...
Raul levantou-se, esquecido de que a sua própria angústia era
maior que a do sheik.
- Meu amigo...
Mas, já senhor novamente de si mesmo, o sheik estava a
defrontá-lo, com os sentimentos ocultos sob a máscara do semblante,
como sempre, a fazer-lhe o rosto impenetrável.
- Tendes de fazer a prova disso, Raul - disse quase violentamente,
como se lutasse contra alguma coisa que não podia consentir em crer. -
É somente uma parecença e uma suposição... Preciso mais do que isso
para aceitar essa vossa ideia, antes que eu possa fazer alguma coisa
para... para...
Calou-se, cerrando os lábios, com o olhar a errar de Raul para a
amada esposa, cuja infelicidade o molestava mais que a sua. Dirigiu-se
a ela com passo vagaroso.
217
Ela levantou o rosto lívido.
- Por favor, por favor, Ahmed, não me mandes retirar - balbuciou,
trémula. - Creio que não suportarei a solidão agora. Não vos
interromperei. Não direi sequer uma palavra sem que ma peças. Mas
deixa-me ficar aqui!
Incapaz de lhe negar no momento qualquer coisa, ele assentiu,
encarando-a um instante, a vê-la endireitar as almofadas do divã para
as tornar mais cómodas. Depois, depondo um beijo nos seus cabelos,
voltou-se para Raul:
- Agora, Raul.
Saint Hubert aproximou a cadeira.
- Primeiramente, a informação que quereis. Lamento, mas nada
lhe arranquei. Conquanto admita que ela odeia e teme o mouro, devido
à crueldade com que sempre a tratou, que odeia e teme os
companheiros estrangeiros do mouro por motivos que ela não
discrimina, recusa prestar qualquer informação concernente aos actos
deles na Argélia. Das suas operações secretas diz nada saber, que eles
nunca depositaram confiança nela e que nunca procurou saber em que
se ocupam e quais são as suas intenções. Assim, falharam as minhas
tentativas, como haviam falhado as vossas. Mas, ao contrário do vosso
ponto de vista, eu acredito que ela diz a verdade. Tudo o que sabe são
as regiões que tem percorrido e, mais tarde, quando se alojaram em
Touggourt. Mas isso, declara, nem os tormentos lhe arrancarão. E então
o que ela pensa que nós somos, pobre criança! Parece ter uma ideia
confusa do que seja a honra, confuso fundo de coragem em seu corpo
frágil. À primeira vista temeu-me horrivelmente. Parece plenamente
convencida de que o território de ben Hassan é a porta do inferno, se é
que já não está dentro dele. Mas eu tratei de convencê-la de que sou
um ser humano como qualquer outro, igual a ela, e então falou mais
livremente sobre a sua própria vida. Uma vida bem triste, de resto.
Aliás, não acredito que ela tenha a noção exacta de quanto a sua vida
tem sido triste e cruel. Passou-a a vaguear por todos os estados
bárbaros, principalmente em Tunes, acontecendo que o ano passado
estiveram em Marrocos, onde, parece, finalizam as suas recordações. O
ano passado
218
em Marrocos quer dizer, Ahmed, o último ano em que lá foi visto
Ghabah, o mouro.
Deteve-se um momento fitando o sheik. Mas os olhos de Ahmed
ben Hassan estavam cravados no chão, imobilizados no tapete. Após um
pequeno descanso, Raul retomou o fio da narrativa.
- Procurei arrancar-lhe recordações mais antigas, mas, além do
facto de o mouro ser excessivamente cruel, as suas lembranças infantis
parecem confusas e assemelham-se a uma sombra. Quando
experimentei fazê-la estimular a memória, falou vagamente de um
tempo em que não vivia sozinha com o seu brutal senhor, de alguma
pessoa de que tinha lembrança muito ténue e que era muito boa para
ela, que lhe pegava com mãos bondosas, ao invés de espancá-la, que
tinha uma voz agradável e que cantava para ela. Parece lembrar-se
alguma coisa de um desses cânticos, pedaços insignificantes, mas que,
pelo tom, lembram uma antiga berceuse francesa, com palavras, porém,
que são uma confusa mistura de francês e árabe, de que nada se pode
perceber. Nem sequer se lembra se essa pessoa semelhante a um sonho
é um homem ou uma mulher. Diz que nunca teve mãe e não sei como
ela explica a sua vinda a este mundo. Experimentei-a com o nome de
Ghabah, mas não lhe ocorreu nada com relação a esse nome, mostrou
nunca o ter conhecido, enquanto eu a vigiava para surpreender-lhe a
verdade. Assim, nada descobri que seja uma prova absoluta da sua
identidade, mas, de todo o exposto, concluo que ela é a menina que
procuro. A sua semelhança com Isabel De Chailles é tão evidente que
não pode ser posta em dúvida. Até que possa encontrar o mouro e
conseguir provas de que é ou não o mesmo que assassinou o meu pobre
amigo, sustento que essa menina é Isabel De Chailles, nome que herdou
da sua infeliz progenitora.
- E se provardes isso?
A voz do sheik mostrava que não estava convencido, mas Raul,
que bem o conhecia, compreendeu a luta que se feria por detrás
daquela fronte aparentemente impenetrável.
- Deixai-me prová-lo primeiro, meu caro - disse suavemente.
219
- Posso talvez encontrar o homem que conhece o segredo da
origem dessa menina. E se eu o encontrar... quem sabe o que então
sucederá? Por enquanto, só me resta esperar. Graças a Deus, a gente
pode sempre esperar! Mas, lembrai-vos, Ahmed - prosseguiu,
levantando-se - que, enquanto procedo às minhas pesquisas, seja essa
menina Isabel De Chailles ou qualquer avezinha sem nome, do deserto,
o caso pertence-me.
Por um momento, Raul ficou de pé, com as mãos pousadas nos
ombros largos do sheik e depois, irresistivelmente, a despeito de si
mesmo, foi até o divã.
E os finos, frios dedos que ele procurou para beijar, fecharam-se
nos seus.
- Raul, parece-lhe que ela quer muito ao meu filho?
O murmúrio dessas palavras quase o desnorteou e o seu rosto
tornou-se branco ao olhar para os lindos e melancólicos olhos de Diana.
Olhou com coração faminto para a graça esbelta, para a beleza daquela
árabe. E os seus pensamentos dirigiram-se para outra figurinha frágil,
que apenas uma hora antes se ajoelhara a seus pés, numa torrente de
lágrimas, suspirosa, a pedir-lhe notícias do «seu senhor, que se tinha
ido tão irado».
Os lábios tremeram-lhe e sacudiu a cabeça.
- Que sei «eu» de um coração de mulher? - disse com amargura
na voz, como Diana jamais ouvira; e saiu da tenda para a escuridão da
noite.
Na mesma noite, a cerca de cinquenta milhas do território do
sheik, dois fogos acesos davam luz a um acampamento que era militar
na sua ordem e disposição e mais silencioso do que se fosse apenas
ocupado por árabes. Não havia tendas, nem camelos bagageiros, nada,
em suma, que pudesse retardar a viagem. Nenhum som de música
bárbara se levantava do grupo de figuras morenas que rodeavam o
fogo, além do qual havia cavalos amarrados e alguns volumes pequenos
com equipamento de viagem.
Perto do fogo, descuidoso das faúlhas que lhe caíam ao redor, em
chuva, e sem dar atenção aos companheiros, estava
220
sentado o encantador de serpentes, olhando as chamas
crepitantes, com os olhos estranhos fitos imóveis num ponto, um mau
sorriso a brincar-lhe nos lábios grossos, uma das mãos passando
continuamente pela lâmina de uma faca que lhe estava aos pés e que
mais parecia a lâmina de afiada navalha - uma figura sinistra para o
qual o velho alemão, que mudava constantemente de posição ao pé do
fogo, olhava de vez em quando com mal disfarçada desconfiança.
Desconfiado também e possuído de irritação crescente, era o olhar do
outro, que estava de cócoras sobre um arreio fora do alcance das
faúlhas, com a mão apoiada nos braços.
Gott in Himmel não era o bastante para tirar a um homem o
coração - reflectia com raiva. - Ver assim o trabalho de anos em perigo,
por causa de um capricho? Que von Lepel não o fizesse fracassar! Von
Lepel, a quem ele tinha escolhido com tanto cuidado entre os muitos
associados que lhe tinham sido oferecidos, cujo conhecimento da língua
era tão proveitoso, cujos conhecimentos topográficos eram superiores
aos seus! Von Lepel, em quem confiara, cujas muitas qualidades para a
empresa a ele confiada lhe tinham contrabalançado a fraqueza, agora
mareava o brilho de todo o negócio.
Mulheres, a maldição de todas as empresas! Tinham-no avisado
em Berlim desse perigo, de que tinha tanta prova, no dossier que
estudara tão minuciosamente antes de fazer a escolha final do seu
ajudante. Em vista, porém, dos grandes e especiais predicados do seu
subordinado, sujeitara-se ao risco. É forçoso arriscar alguma coisa... E
von Lepel, que era capitão de cavalaria, obedecia à regra militar - as
mulheres haviam penetrado mais na sua vida que na de seu chefe.
Mulheres - bah! Sacudiu os ombros desdenhosamente. Que eram elas
para aquele cujo coração estava na sua empresa, cujo único amor era o
Serviço Secreto, a que dedicara toda a vida? - nada senão um meio para
conseguir um fim, somente mães possíveis, um mal necessário à
propagação da raça, a raça que era a única existente no mundo. Por
mais de um ano, von Lepel não deu sinal da fraqueza que em si também
existia e justamente agora, que mais dele necessitava,
221
viera este fracasso, esta loucura de uma paixão insana por uma
rapariga nativa, que ameaçava transtornar toda a obra. E porquê? Uma
fantasia passageira, um capricho que duraria somente o que lhe
determinasse a natureza volúvel, mas uma fantasia que, naquele
momento, tudo transtornava sem lhe satisfazer a vontade.
E por isso, ele, Carl Rost, que via nesta missão secreta na Argélia
a coroa da sua vida, tinha sido forçado ao mais difícil e perigoso período
da sua obra, tinha de gastar um tempo precioso e de se sujeitar aos
azares desta expedição militar, somente porque não o deixaram ir só.
Porque o facto é que ele era indispensável a von Lepel, tanto
quanto von Lepel lhe era rigorosamente necessário. Era um momento
crítico para ambos, um momento em que o menor desvio do dever
significaria a ruína de tudo que fora feito.
Obra que, até agora, oferecia tantas perspectivas de êxito, mas
que ultimamente tropeçara numa série de reveses, que aliás tinham
sido previstos, e eram elos quebrados na cadeia que ele tinha de reunir
para formar um todo perfeito na sua mão. Contara com a falta de
informações e com o silêncio de um ou dois dos lugares em que
operavam os agentes mais eficientes e de mais confiança. Onde, então,
o fracasso e quem era o responsável? Um passo em falso seria um
desastre. Até há três meses, tudo correra com a precisão de um
cronómetro, e os relatórios regulares para Berlim não tinham sido
interrompidos, mas nos últimos três meses já houvera duas
interrupções na regularidade das comunicações. E, para cúmulo de
inquietação, aquela lembrança chocante do roubo do seu livro de notas
em Touggourt. É verdade que os papéis estavam escritos em código e o
conteúdo dos mesmos poderia perfeitamente passar por mero relatório
comercial de um caixeiro-viajante, mas não deixava de ser uma
desastrada ocorrência, que poderia produzir resultados maléficos e que
tinha tornado imperioso o regresso ao vestuário nativo e fizera de
Touggourt uma zona perigosa, que cumpria evitar a todo o transe.
Touggourt era a sede do governo. E agora trazia consigo muitos outros
papéis, papéis
222
que, mais importantes do que os que foram roubados, deveriam
passar às mãos do agente que combinara encontrar-se com eles na
pequena guarnição da cidade, mas que não aparecera. E porque
fracassara? Se o Serviço Secreto francês, com agudeza maior do que a
que lhe creditavam, lhe espiasse os movimentos e o agarrasse? Mas
Rost desafiava com desprezo o Serviço Secreto francês. Cabeçudos e
palradores, os seus agentes operavam de modo tão infantil, ineficiente e
transparente, que provocava o riso geral, como afirmara Meyer, que os
espiara muitos anos, nos seus relatórios a Berlim. Tinham árabes ao seu
serviço, também, os porcalhões! O que ele aprendera da palavra «nº 7»
tinha-o mandado a Touggourt, posto que o nº 7 não se materializasse. A
mensagem nº 7 continha um aviso especial contra certo árabe
vagabundo que lidava com cavalos, mas que tinha feito qualquer coisa
que levantara suspeitas num espírito que era, ao mesmo tempo,
corajoso e medroso. Carl Rost lembrou-se da minuciosa descrição que
lhe fora enviada e sacudiu de novo os ombros, com escárnio. Um
operador admirável, mas alma de medroso essa do nº 7, que via a
morte em cada canto e sempre agia com nervosa apreensão!
Longamente e do coração, maldisse o nº 7 ausente. A maldição
seria ainda maior se ele soubesse que o relatório que estava no seu
bolso era o último serviço que o seu colega prestara à Pátria, que
pagava uma miséria pelos seus árduos trabalhos e perigos, a ele, que
agora jazia nos desertos arenosos do sul, um branco montão de ossos
que a bala de Ahmed ben Hassan fizera tombar no repouso eterno.
Mesmo, porém, que o houvesse sabido, é duvidoso que esse
conhecimento causasse a Carl Rost qualquer sentimento de pesar,
porque, para ele, os homens do Serviço Secreto não eram homens, mas
dentes de máquina, simples unidades que faziam o serviço e passavam,
anónimos, esquecidos...
Cansado do seu monótono raciocinar e já enfraquecido por um
longo dia de equitação, Rost aproximou-se mais do fogo e mergulhou os
pés na areia, ao lado de von Lepel. Esteve em silêncio alguns minutos.
Depois, a irritação acumulada despertou e explodiu bruscamente.
223
- Quanto tempo durará essa loucura, Hugo?
Era o início da discussão da noite, dessas discussões que sempre
se travavam entre eles desde que deixaram Touggourt. Von Lepel
levantou vagarosamente a cabeça, fitando-o com os seus olhos azuis
que dardejavam perigosamente.
- Até que eu consiga o que quero - respondeu num tom insolente.
Rost agitou as mãos em raivoso protesto.
- Que é que quereis? - perguntou com amargura. - Sois pago para
procurar aquilo de que precisais? Sois pago para passar o tempo e
gastar vossas energias em aventuras amorosas? Esquecestes que não
vos pertenceis? O vosso tempo, as vossas energias, o vosso todo não
vos pertencem, mas à Pátria. Sabia que nisso éreis um perigo quando
vos contratei em Berlim. Confiei na vossa honra - du lieb Gott - mas se
soubesse que havíeis de falhar... Justamente agora, quando é imperioso
não haver interrupção nos nossos trabalhos, quando é imperiosa a
necessidade de irmos a Touggourt para tratar do caso nº 7...
- Não tínheis necessidade de vir comigo - interrompeu von Lepel
friamente. - Disse-vos que preferia tratar sozinho desse assunto.
- Não é ocasião para qualquer de nós andar sozinho - retorquiu
Rost. - Sabeis isso tão bem como eu. Todo o êxito do nosso trabalho
depende de agirmos em conjunto. Estais-vos arriscando mais do que
julgais por causa dessa ignóbil loucura. Digo-vos sinceramente, Hugo, já
estou farto disso. Depois, com franqueza, não confio muito nesse
mouro. Não o olheis - ordenou duramente - pois que ele está a fitar-nos
através do fogo e não quero que pense que estamos tratando dele.
Von Lepel atiçou o fogo.
- O mouro é leal - afirmou confiadamente. - Não sei porque
desconfiais dele. Tem no coração o mesmo interesse que nós. E agora
impele-o o mesmo motivo que eu, embora por causas diferentes. E
conseguirá o que deseja presentemente, porque, quanto à rapariga, ele
precisa recuperá-la por alguma razão que lhe convém. Mas antes disso
ela cairá
224
nas minhas mãos - acrescentou com os olhos subitamente
incandescidos.
- Não, porque posso preveni-lo - exclamou o outro furiosamente. -
Fostes longe de mais, Hugo. Quereis a rapariga só para um momento de
prazer. Quereis vingar-vos do rapaz que impediu que saciásseis os
vossos desejos animais. Sabeis agora, porém, quem é o rapaz,
conheceis a reputação do pai dele no país e penetrando no seu território
correis um perigo insensato e arriscais a vossa vida.
«E arriscais também a minha! A satisfação de um capricho
passageiro! Louco, a vossa vida não vos pertence, para com ela
jogardes: pertence ao Kaiser - a quem Deus ajude - e, sendo assim, eu,
vosso superior nesta missão, proíbo-vos que deis mais qualquer passo
nesta louca aventura. É a minha última palavra, Hugo. Voltaremos
amanhã a Touggourt. Von Lepel voltou-se para ele rapidamente. - Não
voltaremos a Touggourt amanhã - resmungou por entre os dentes. - Vós
podeis ir, se o quiserdes, mas ireis só. Tenho o mouro comigo e o resto
dos nossos homens à retaguarda.
«Pensais que o mouro consentiria em adiar a vingança? Ele passa
as noites a afiar aquela faca e a planear o serviço que com ela deseja
executar. Acreditais que os homens adiarão o recebimento do dinheiro
que ainda lhes estais devendo, embora tivessem bastante, Deus o sabe,
antes de deixarem Touggourt? São homens da Tunísia, todos, aliás não
teriam vindo. Só o guia é da Argélia e envolveu-se nisto somente
porque tem algum motivo para odiar ben Hassan. Não, meu amigo, já
fomos longe de mais para voltar atrás. Levantais a mão, Dost - rosnou
bruscamente - mas o meu revólver está no bolso e trago-vos debaixo de
olho. Seria mau que um de nós matasse o outro. Dizeis que vos sou
necessário e não sou louco para crer que pudesse executar a minha
obra sozinho. Esquecestes a palavra que ainda há pouco dissestes,
amigo Carl? Mas deveis agradecer-me por vo-la ter lembrado. Uma
demora, por pequena que seja, fará fracassar tudo. E não haverá
demora prolongada, prometo-vos. Deus Todo-Poderoso, um homem
deve ter alguma distracção. Sou soldado,
225
um ser humano e não uma máquina do Serviço Secreto, como
vós. Tenho sangue nas veias, não tinta. A vida não dura sempre.
Durante um ano, vivi como um monge, e trabalhei como um forçado das
galés. Sede razoável, Rost. Dai-me uma semana ou duas e depois
voltaremos à vida austera de meninos bem-comportados e ganharemos
os dias com rigoroso escrúpulo. Estamos entendidos, Carl?
Agarrou as mãos do companheiro com ar de franqueza, mas Rost
retirou-as com relutância.
- É um contrato unilateral o que propondes - observou fazendo
uma careta - pois não me deixastes a faculdade de opção. Tendes a
força convosco, pois fostes vós que contratastes e pagastes a esses
homens, devo concordar, mas pagastes com dinheiro que não é nosso e
que nos foi entregue para fim muito diferente.
Von Lepel riu.
- Meu dinheiro, não... - retorquiu descuidadosamente.
- A paga de um capitão não é um barril. O dinheiro, contudo, será
reembolsado de qualquer forma, se os escrúpulos da vossa consciência
não vos permitirem considerar esses gastos como «despesas gerais»,
quando regressarmos à Pátria.
«Quando». Haveria qualquer coisa na voz de Rost que tornou
sombria a face de von Lepel.
- Que tendes esta noite, Carl? - perguntou irritado. Falais de um
modo que indica que duvidais de que um dia voltaremos à Pátria. Estais
nervoso?
- Nervoso? Não! - respondeu Rost em tom de desafio.
- Não estou pensando nem em mim, nem em vós. Penso no
serviço...
- Oh, maldito serviço! Deixai-o ao menos de noite... O serviço não
corre perigo, já vo-lo assegurei. Deixai-me pôr as mãos na rapariga e
dar àquele garoto uma lição que nunca mais esquecerá, ficando ciente
de que na vida dos outros ninguém deve meter-se. Depois, então,
voltarei a ser vosso auxiliar até ao fim deste eterno serviço. Teria sido
muito melhor que houvésseis deixado o nosso amigo ali da frente dar
cabo do rapaz quando teve ocasião para isso.
- Mais uma vez concordo convosco - respondeu Rost
226
rapidamente. - Não é crível que ele nos tenha esquecido, e esse é
o perigo. Entrar nos seus domínios é loucura!
Von Lepel fez um movimento rápido com a mão, como se quisesse
contestar as objecções do outro.
- Estamos atrasados somente um dia e eles têm a rapariga a
estorvá-los. Espero agarrá-los antes de lá chegarmos, E, se isso não se
der, algum acaso feliz há-de favorecer-nos. Não me olheis tão
aborrecido, homem! Fazei cara mais alegre. A sorte acompanha-nos,
garanto. Aquele maldito rapaz, por exemplo, não sabe que lhe estamos
na peugada. Ele não sabe, também, inocente boneco, que alguns dos
homens com quem esbanjou dinheiro em Touggourt também receberam
dinheiro nosso e espalham os seus segredos tanto quanto os nossos.
Foi, apenas, um caso de alta escola. Não o acalentará por muito tempo
o engano em que jaz, pois que a cabeça logo se lhe há-de abaixar.
Levantou a cabeça arrogantemente e um riso cruel lhe aflorou aos
lábios. Fitou Rost com confiante segurança. Rost também o fitou
firmemente.
- Pode ser - admitiu pausadamente - mas não sinto muita vontade
de continuar a discutir esse assunto. Fiz o meu protesto e vós decidistes
fazer o que entendeis. Advirto-vos, somente, que se derdes motivo para
que outros embaraços nos perturbem o serviço, nada podereis esperar
de mim em vosso favor, junto do governo em Berlim. Não vos pouparei
no meu relatório. Outra advertência, Hugo. Cuidado com esse mouro,
porque, repito, não confio muito nele!
Von Lepel olhou-o por alguns instantes e depois virou-lhe as
costas com um riso irado, cortante.
Alguns minutos mais tarde estavam os dois estirados nas suas
tarimbas, dormindo a sono solto, tal qual como se estivessem
habituados a dormir onde e como quisessem.
Ainda muito depois de se deitarem, o mouro ficou sentado imóvel,
com a faca entre os joelhos, contemplando os tições de fogo já
moribundo, com o pensamento na sua vingança e alimentando o
coração cruel com a perspectiva do sofrimento que também teria prazer
em infligir à rapariga, que durante toda a vida lhe lembrava um desejo
contrariado.
227
IX
Os dois ou três dias que se seguiram à revelação da descoberta de
Raul de Saint Hubert foram difíceis para todos no acampamento de
Ahmed ben Hassan. O próprio Raul, que diariamente passava muitas
horas com a rapariga em El-Hassi, procurando pacientemente penetrar a
nuvem que encobria as suas recordações da infância, de cada visita
voltava mais convicto de que em Jasmim encontrara a herdeira perdida
a quem procurava. A sua extraordinária parecença com a senhora De
Chailles, a notável semelhança da voz e dos gestos, em conjunto com
outras circunstâncias que não lhe passavam despercebidas, e que ele
declarava serem forçosamente reminiscências da esposa do amigo,
fortaleciam-lhe a convicção e arrebatavam-lhe qualquer dúvida que
porventura persistisse.
As visitas diárias a El-Hassi fizeram mais que consolidar a crença
firme que fazia aquele francês bondoso e compassivo desviar os muitos
obstáculos que se levantavam contra os seus raciocínios, e tentavam
desfazer a pista frágil em que baseava as suas convicções. O seu
interesse e simpatia cada dia se tornavam mais fortes, revelando-lhe
um carácter que ao mesmo tempo lhe causava pena e admiração. A
paciência e gentileza dela, a sua abnegação completa na devoção
carinhosa que mostrava pelo homem que lhe fizera mal e a sua
persistente lealdade aos seus primitivos camaradas, revelavam a
lealdade da sua natureza e faziam-no mais firmemente decidido a
considerá-la, enquanto não houvesse prova em contrário, como sendo
Isabel De Chailles, mesmo que por acaso ela mostrasse não o ser. Fazia
do futuro e do bem-estar dela a sua preocupação especial. A Diana,
predisposta, por muitos motivos, a acreditar nele, mas temendo que a
confirmação do facto acarretasse complicações em torno da falta do
filho, por horrível que isso lhe parecesse a princípio, a argumentação de
Raul parecia lógica e concludente e as suas revelações tornavam mais
profundo o sentimento de responsabilidade que se arrogava e
aumentavam-lhe
228
o ardente desejo de fazer o que o seu coração de mulher lhe
ditava. Mas argumentos e deduções não podiam mudar a decisão
inflexível do sheik.
Céptico ainda, ou querendo parecê-lo, ouvia em silêncio todas as
confiantes declarações de Raul e opunha-se obstinadamente aos apelos
de Diana. Determinara que ela não fosse a El-Hassi e mantinha essa
sentença.
Mais do que isso, por motivos que conservara consigo, recusava
peremptoriamente consentir que o filho tivesse conhecimento da origem
possível da menina. Nisto Diana teve de concordar com ele, porque a
atitude do rapaz tornava impossível prever que resultado teria sobre ele
esse conhecimento. Obedecendo literalmente às ordens do pai, nunca
mais voltara a El-Hassi, deixando a rapariga pensar o que entendesse. E
desde a noite em que de lá voltara, nem sequer fizera qualquer alusão a
ela, imerso em isolamento completo, mantendo-se distante do círculo
familiar. Até Diana só o vira uma vez, fugaz entrevista que durou
apenas cinco minutos e que se tornou dolorosa e desagradável para
ambos. Uma pequena porção de potros que devia ser domada forneceu-
lhe pretexto para ausentar-se e seus dias passava-os entre os
tratadores de animais, com quem lidava de sol a sol, exaurindo as
forças em exercícios físicos com que baldadamente tentava esquecer o
conflito mental que se travava dentro dele perpetuamente, conflito entre
o amor e o ódio que, recalcado durante o dia pela atenção que lhe
cumpria concentrar nos animais de difícil manejo que tinha de dominar,
à noite o sacudia com força irresistível, tornando eternas as horas que
passava na tenda que fora agora levantada para ele e convertendo num
inferno a tétrica solidão em que nasciam rugas que jamais poderiam
ser-lhe extirpadas do rosto. Servido somente por S'rir, porque Ramadan
ficara de guarda em El-Hassi, vivia a sós com os seus pensamentos,
sozinho com o remorso atroz que vagarosa, mas firmemente matava o
ódio que ele ainda supunha existente no seu coração.
Caryll também se tornou, como o irmão, um recluso. Friamente
reservado e impenetrável, como fora desde o princípio,
229
as suas aparições eram curtas e não muito frequentes, apenas o
suficiente para satisfazer as exigências da cortesia. Jamais aludira à
visita matinal do irmão à sua tenda, jamais dissera palavra sobre o raid
ao café maure, de que o sheik nada sabia ainda.
Raul, porém, foi o primeiro a descobrir que a rapariga que
despertou o interesse de Caryll era a mesma que estava agora em El-
Hassi. No dia seguinte ao da chegada do rapaz, tinha ousadamente
inquirido o motivo do raid e fizera uma pergunta directa a Caryll a
respeito do raptor, ao que lhe foi respondido tão-somente:
- Não o posso dizer. Só conheceria o maldito animal se o tornasse
a ver.
Raul, entretanto, leu a verdade na sua face tremente e no clarão
de ira que lhe surgiu nos olhos.
Sempre esperançoso de encontrar luz no assunto que lhe enchia a
mente, falou-lhe francamente na descoberta que fizera aquela tarde em
El-Hassi e, como confiança puxa confiança, respondeu às objecções de
Caryll, aos poucos, referindo-lhe tudo quanto sabia da rapariga. Mas
Caryll fora bastante hábil para nada acrescentar ao que Raul conseguira
apreender e a sua primeira confidência foi também a última. Desde esse
momento, Raul viu nele tão pouca coisa como os outros.
Deste modo, quatro dias de insuportável tensão nervosa
decorreram com infernal lentidão, dias de tremenda ansiedade para
Diana, que só na ternura do sheik encontrava lenitivo. Só quando
estavam a sós é que a pesada carranca, que lhe tomara a face desde o
regresso do filho, se lhe aliviava nos cílios carregados. Somente quando
se lhe deixava ver alguma coisa da luta que se travava dentro dele, luta
em que a dúvida se sobrepunha, a despeito de si mesmo, ante a
convicção firme com que Raul contendia contra uma esperança, quase
apaixonada, de que a vítima de seu filho provasse não ser Isabel De
Chailles, cuja sorte por tanto tempo o interessara. Sem saber coisa
definitiva, nada poderia fazer. E, quando soubesse, que faria?
Repetidamente perguntava isso a si mesmo.
230
Suposto que a menina fosse a filha de De Chailles, poderia ele
forçar o filho à mesma reparação tardia que fizera à mulher a quem
ofendera? O amor salvara esta, mas, no outro caso, isso podia não
existir. Os verdadeiros sentimentos do filho ainda eram uma incógnita. E
ligar a menina pelos laços de um casamento sem amor, só porque a
necessidade o obrigava, não seria sujeitá-la a uma vida de sofrimento
maior do que o que ela já conhecia?
O futuro parecia-lhe um problema desesperado, que cada dia mais
intrincado se tornava. De tudo isso era ele o principal responsável.
Oh! Os pecados dos pais!... Os seus e agora os do filho!...
Jamais lhe pareceram tão atrozes a vergonha e o remorso. Jamais
a mão de Némesis lhe parecera tão pesada!...
Noite após noite, quando Raul ia para a sua tenda, deixando-os a
sós, Diana sentia os olhos do marido fixos nela, com um ar pesaroso
que lhe sacudia o peito num gemido, fazendo-a cair-lhe nos braços num
ímpeto de compaixão a comunicar-lhe amor, tentando sufocar, com
beijos, as amargas acusações que contra si próprio explodiam dos lábios
convulsos do sheik. O passado passara, insistia, embora ela não
pensasse em lançar-lhe qualquer acusação em rosto. Que lhe seria a
vida sem o seu amor, sem a alegria que lhe proporcionava a sua
presença? Uma vida sem objectivo, incompleta.
Se não a arrebatasse, se não a forçasse a um reconhecimento de
sua feminilidade, nunca teria conhecido a perfeita felicidade que, por
meio dele, a levara à plenitude da vida, à maternidade. Torturar-se-ia a
si e a ela com a contínua lembrança do que ela, de há muito, perdoara?
Não havia suficientemente expiado, e mais que isso, os poucos meses
de infelicidade por anos de reparação e devoção que lhe tinham
ultrapassado a expectativa, que da vida em comum fizera um ideal de
camaradagem? Certamente, pagara aquela infelicidade com tristezas
maiores do que tudo que ela pudesse vir a sofrer. Um amor sofredor a
ambos havia vencido, amor tão grande que não permitia queixas, tão
perfeito que não
231
podia ser maculado por amargas recordações. Assim é que ela lhe
fazia ver todas as vezes que o remorso, como fera insaciável, procurava
esmagá-lo.
Só ela o via rebaixado do pedestal de orgulho, só ela presenciava
a funda humilhação que o torturava de modo insuportável.
Nem mesmo nos primeiros dias de vida de casal o remorso e o
arrependimento tinham sido mais patentes que nestes últimos quatro
dias. Nem na primeira realização de seu amor lhe mostrara tanta
devoção, aberta e sem reservas. Pensativo e terno como sempre fora
com ela, desde a noite do regresso do filho passara a manifestar mais
ternura e estima que nunca. Em cada acto, em cada palavra e em cada
gosto, todos os seus pensamentos giravam em torno dela e para ela.
Só numa coisa a contrariava, só numa coisa era inflexível. Mesmo
nos momentos de maior ternura, mesmo nos momentos em que se
mostrava vencido, continuava a sua obstinação com respeito à rapariga
que estava em El-Hassi, e nenhum dos esforços de Diana conseguia
levá-lo a modificar a sua decisão.
A esposa não iria, com o seu consentimento, a El-Hassi.
Mas iria sem essa licença?
Durante os últimos quatro dias, tal pensamento lhe adviera com
irritante teimosia, pensamento que ela procurava banir porque tal coisa
lhe parecia superior às forças de que dispunha para a executar. A
palavra de seu marido era lei, mesmo para ela, e durante todos os anos
em que viveram unidos nunca lhe parecera possível contrariar o menor
dos seus desejos. Em tudo, a vontade dele predominava. Teria ânimo,
agora, para se lhe opor? De há muito aprendera que a obediência vem
do temor e o amor fizera isso fácil. Mas o amor ela o sabia tão enraizado
no coração, que o temor forçosamente subsistia. Poderia ela, mesmo em
obediência aos ditames da consciência, quebrantar a regra por que se
governara durante tantos anos? Teria a força moral para decididamente
lhe desobedecer e defrontar a sua ira inevitável? Nunca ele aceitaria as
razões
232
que a levassem a isso. Veria no seu acto apenas uma flagrante
violação das suas ordens expressas, uma oposição directa à sua
vontade.
Arriscar-se a desagradar-lhe, fazer alguma coisa secreta,
clandestinamente!... Mas que mais poderia ela fazer? Argumentos e
carinhos falharam e assim só lhe restava optar entre as suas obrigações
para com ele e os deveres da consciência. A escolha era difícil e só foi
na manhã do quinto dia que Diana se decidiu finalmente, chegando a
este resultado: quaisquer que fossem as consequências, deveria fazer
aquilo que a consciência lhe apontava como sendo o seu dever.
Foi quase à hora do lanche que essa decisão foi tomada. Já que tal
lhe parecia ser o seu dever, iria a El-Hassi e à tarde, quando Ahmed
regressasse, dir-lhe-ia tudo. Não lhe mentiria, quaisquer que fossem as
consequências. Se lhe contrariara os desejos, ao menos saberia tão
depressa quanto possível aquilo que tanto desejava saber.
Se ao menos pudesse ir com sua licença! Mas nem era bom
pensar nisso! Ele jamais o permitiria. Assim, ela deveria ir, como
planeara hoje, quando a ausência do sheik lho permitisse. Quase
desejava que a oportunidade não viesse. Mas ele facilitou-lhe o plano e
isso deixou-a ainda mais perplexa. Se ela ao menos tivesse a coragem
precisa para lho dizer antes! Mas quando ele saiu, a sua decisão não
estava firmada.
O sheik fora com Caryll a um dos acampamentos distantes, em
direcção oposta a El-Hassi. Foi depois que ela os viu seguir que lhe
nasceu a ideia de que chegara a ocasião de fazer o que premeditara,
pois era impossível que o marido voltasse antes do anoitecer.
Um tremor de repulsa invadiu-a. Odiosa ocasião e odiosa
necessidade. E quando ele voltasse e quando ela tivesse de contar-lhe...
O retalho de cambraia que ela amarrotava entre os dedos rasgou-se e
ela deixou-o cair com um grito de amargura. Oh, porque era tudo tão
difícil?! Porque, pensando fazer o que era justo, fazia algo que o irritaria
e talvez destruísse a confiança que nela depositava sempre!
233
Naquele momento, a coragem quase a abandonou. Mas a ideia da
menina reforçou o seu propósito, a menina que poderia ser Isabel De
Chailles.
- Somente uma criança, traída e só! E quatro dias assim a
deixara, por cobardia!
Os lábios tremeram-lhe e por um momento ficou com o rosto
escondido entre as mãos. Depois, com um sussurro: «Oh, meu filho!
Meu filho!» foi ao quarto para mudar de roupa e vestir a de equitação.
O lanche esperava por ela quando voltou e poucos minutos depois
Raul entrou, olhando contrito para o relógio.
- Tarde como sempre, Diana, lamento-o - desculpou-se. Mas, ao
aproximar-se dela, parou, olhando para a mesa, onde só havia dois
lugares.
- Não sabia que estáveis só - disse, tomando uma cadeira ao lado
dela. - Não devíeis ter esperado por mim. Ahmed disse-me ontem à
noite que iria hoje a Ras-Djebel, mas onde está Caryll? Supus que
estivesse aqui. A sua tenda estava vazia, quando por lá passei, ainda
agora.
Diana serviu-lhe uma fritada de ovos antes de lhe responder.
- Caryll? Foi com Ahmed - declarou por fim, despreocupadamente,
como se aquilo fosse uma ocorrência diária de indiscutível banalidade.
Raul surpreendeu-se, mas conteve uma exclamação prestes a
explodir-lhe dos lábios.
- Alegro-me com isso - disse - porque ao menos terão ocasião de
melhor se conhecerem. Muitas não lhes têm sido as oportunidades para
isso. Admirava-me pensando: onde iria o nosso velho ermitão, para sair
da sua casca?
Diana fitou-o com um sorriso fugidio.
- Ele não veio. Foi arrastado - corrigiu secamente.
- Quereis então dizer que foi convite de Ahmed?
- Convite? Meu caro Raul, quando é que Ahmed convida ou propõe
qualquer coisa? Ouvi o recado que ele mandou Gastão levar-lhe de
manhã e nem por sonhos se pode chamar àquilo convite ou proposta.
Caryll foi a Ras-Djebel porque Ahmed lhe mandou dizer que era preciso
ir.
234
- Perfeitamente, mas mesmo assim acho estranho.
Diana abanou a cabeça.
- Admiro-me disso - declarou com acento de dúvida. Tenho
pensado mesmo que seria melhor que Caryll nunca tivesse vindo até cá.
Parece que o que ele menos deseja é que nos conheçamos melhor.
Procurei por todos os meios ao meu alcance fazer-lhe sentir que foi
bem-vindo e está em sua casa, mas ele não me anima. Só uma vez, no
dia seguinte ao da vossa chegada, tive a ilusão de que conseguiria atraí-
lo, que ele corresponderia aos meus sentimentos. Depressa, porém,
percebi o contrário. Depois disso, não tive outra oportunidade. Ele evita-
me, como evita o pai, e magoa-nos mais do que poderia dizer-vos. Sei
que ele nunca quis vir, as suas cartas deixavam isso bem claro, mas
nutri tais esperanças à sua chegada... Pensava que, chegando aqui, não
deixaria de ver o quanto o estimamos, quanto lhe queremos, quanto nos
custou a separação, compreenderia que só o mandámos para Inglaterra
para seu próprio bem. Mas não conseguimos esse objectivo. Tudo
fizemos, mas agora a paciência de Ahmed esgotou-se e eu... -
Interrompeu-se, presa de funda emoção.
- Porque nos odeia ele tanto? Nunca o avô lhe disse coisa alguma,
não tenho motivo para crer o contrário. Mas odeia-nos e agora, parece-
me, mais do que a princípio. E porquê? É por alguma coisa que ele
supõe tenhamos feito ou que deixamos de fazer. Oh, Raul! Vós, que
melhor o conheceis, dizei-me se a culpa é nossa ou dele, pois que o
coração se me despedaça ao pensar nisso.
Ela levantou-se bruscamente da mesa, voltando-se para ocultar as
lágrimas que já não podia conter.
Foi com emoção não menor que Raul a seguiu até ao divã, o
coração a pulsar dorido, com as mãos que já pareciam nem sequer
poder acomodar-se nos bolsos da jaqueta. A sua proximidade e a sua
angústia, assim como a doce e triste felicidade que esta hora de
isolamento com ela lhe causava, faziam-no afundar-se em profundezas
de emoções cujo perigo ele não avaliava. Nunca o papel a representar
lhe pesara tanto! Nunca chegara tão perto de declarar o amor que
durante tanto tempo ocultara. Desolado pelas lágrimas de
235
Diana, sentiu faltarem-lhe as forças e quase inconscientemente se
chegou para mais perto dela, impelido pela louca tentação que o
transtornava. Agarrá-la nos braços, render-se por um momento ao
inflamado impulso que lhe parecia mais forte do que a sua razão... O
sangue afluiu-lhe à cabeça e por um momento tudo lhe fugiu, restando-
lhe somente o desejo que por tanto tempo ficara insatisfeito. Então,
superior à loucura que lhe fazia perder o domínio de si mesmo, acudiu-
lhe uma brusca lembrança que lhe fez sentir um arrepio, e virou-se, não
querendo mais encará-la.
Deus misericordioso! Que é que quase chegara a fazer! Baixara
assim tanto? Era tão infame que chegasse a tanto, esquecido da sua
lealdade ao amigo? Sim, amigo que nele confiava. Ah, se este chegasse
a imaginar como estivera perto de desmerecer dessa confiança! E ela,
que nele depositava confiança e amizade, com que escárnio e
repugnância lhe viraria as costas se ele chegasse a proferir as palavras
que quase lhe fugiram dos lábios!
Mas o escárnio e a repugnância não seriam maiores do que as que
ele próprio sentia de si mesmo, quando a simples proximidade seria um
insulto à sua pureza.
Diana! Diana! O único amor da sua vida - mas era a esposa de
Ahmed!
Desenrugando a testa, dominou-se e voltou para perto do divã.
- Foi culpa das circunstâncias, penso - disse pausadamente,
esforçando-se por conservar a voz firme.
E Diana, por seu turno, imersa na sua própria infelicidade, não
pareceu estranhar a longa demora da resposta.
- Culpa das circunstâncias - repetiu, olhando-o sem compreender.
- E depois da chegada dele houve complicações que tornaram estes
últimos quatro dias difíceis para nós todos. Mas, como poderão essas
complicações afectar Caryll? Ele nada tem com os nossos negócios,
inclusive os de seu irmão. Nunca falou a respeito dele, nunca sequer
cuidou de saber se vive ou não. É-lhe tão indiferente como nós próprios
lhe somos. E, Raul, sempre orei a Deus pedindo que fizesse amigos - os
meus filhos.
236
Raul, que de tudo estava a par, não pôde deixar de, com
desânimo, sacudir os ombros.
- Estranho rapaz! - fez com consciência de que a consolação que
lhe era possível dar pouco aliviaria a tristeza e desapontamento de
Diana. - Extraordinariamente sensível à... atmosfera... Mas apesar de
toda a sua sensibilidade, não é tolo e pode perceber que as condições do
meio são um tanto anormais. Pode compreender que chegou num
momento mau e que lhe é difícil identificar-se com as circunstâncias
actuais. Já aqui chegou há dias, mas tudo ainda lhe é estranho. Dai-lhe
tempo, Diana, e não percais a esperança. Há um lado melhor no seu
carácter, que ainda não lhe foi possível mostrar. O preconceito ainda o
aguilhoa e torna-o reservado ao mais alto grau. Tudo isso cessará
quando as circunstâncias mudarem e as dificuldades actuais
desaparecerem... A voz de Raul sumia-se e Diana interrompeu-o. - E se
sempre for assim? Oh, Raul, qual será o fim de tudo isso?!
Raul tremeu mais ainda e respondeu:
- Deus o sabe!
Houve um curto silêncio entre ambos. Encostada às almofadas do
divã, Diana ficou a olhar vagamente o espaço, sem saber como tocar no
assunto que lhe ocupava a mente, sem saber se Raul se oporia ao plano
que ela formara, sem saber, mesmo, se devia dar-lhe conhecimento
desse plano, porque, sabendo da oposição de Ahmed, a sua confidência
poderia colocá-lo em má situação. Seria bom para ele, que sempre fora
amigo fiel de ambos? Virou-se impulsivamente para Raul.
- Não sei se há duas pessoas que tenham um amigo tão bom
como tendes sido, Raul - afirmou ela. - Sabeis o que sois para Ahmed,
mas não sei se compreendeis o quanto me tendes ajudado desde que
vos conheço. E não posso deixar de dizer que tenho a máxima confiança
em vós e que sempre vos serei grata.
A sua gratidão era tudo quanto ele poderia ter dela! As mãos
crisparam-se-lhe, e pôs-se a sacudir a cinza do cigarro para que ela não
lhe visse a angústia do rosto.
237
- E eu, nada tenho que agradecer-vos? - respondeu com voz
quase sumida. - Nunca vos ocorreu pensar no que significa a vossa
amizade e a de Ahmed para um solitário como eu?
Ela riu, meneando a cabeça em sinal de protesto.
- Loucura, Raul. Não sejais tão modesto. Tendes mais amigos do
que supões.
Já os pensamentos, porém, a venciam e os seus olhos ficaram de
novo sérios.
- Fostes hoje mais cedo a El-Hassi, não? Ahmed perguntou por
vós antes de partir, mas Gastão contou que já havíeis ido. Não, não
creio que fosse coisa de importância - disse em resposta a um olhar dele
- somente alguma coisa a respeito da guarda do norte, creio. Chamou-
os aqui, e não sei porque queria que o soubésseis. Ele estava com
pressa e não foi muito explícito. Não vejo, porém, em que poderia o
assunto interessar-vos. O que quer que pudesse haver era noutras
partes do país, nada de mal existe aqui perto. Foi somente porque estou
só que eles foram postos de prevenção. Com Ahmed em casa, não há
necessidade deles. Há já semanas que meu marido os queria mandar
chamar. Vieram a noite passada e acompanharam-no hoje a Ras-Djebel.
Muitos deles são casados e residem nesse lugar com suas mulheres.
Interrompeu-se por um instante, com os olhos velados pelas
negras tranças de cabelo que lhe invadiram as faces, os dedos a trair-
lhe o embaraço que dela se apossara.
Quando falou novamente, havia certa hesitação na sua voz.
- Descobristes mais alguma coisa em El-Hassi, Raul?
- Mais nada, Diana.
- Mas ainda estais certo, convicto...
- Ainda certo, com convicção absoluta, mas, mesmo que eu não
possa conseguir prova alguma, ainda assim continuarei seguro de que
tenho razão.
- E se estais certo, Raul, se tiverdes razão, então meu filho...
A sua voz sumiu-se numa exclamação angustiosa.
238
- Meu Deus! É horrível...
Com um gemido estrangulado, enterrou a cabeça nas almofadas
do divã.
Raul sentiu tremerem-lhe os lábios e pôde apenas balbuciar
palavras que nem sequer chegaram aos ouvidos de Diana.
O seu abatimento foi curto.
Obrigando-se à compostura, ela levantou-se e, aproximando-se de
Raul, colocou-lhe as mãos nos ombros.
- Não quisestes responder-me quando uma vez vos perguntei,
mas agora peço que me digais a verdade: a jovem gosta do meu filho?
Tremendo ao contacto das mãos dela, Raul fitou-lhe quase com
medo os olhos tristes, inquietos. Esse olhar durou um instante, depois
do qual ele também se levantou, com o rosto lívido como o dela.
- Se o ama? Deus a ajude, pobre criança! - disse com pena. - Se a
vísseis, não me faríeis essa pergunta, Diana.
- Vou vê-la esta tarde.
A esta revelação inesperada, ele deixou escapar dos lábios uma
exclamação brusca e agarrou-lhe as mãos para as levar aos lábios.
- Diana! Diana!
Então, repentinamente, deu uns passos à frente, deixando
apagar-se a luz que lhe iluminara os olhos.
Voltou-se com enfático gesto de descrença.
- Não, não. É impossível - disse com esforço - é inteiramente
impossível, porque Ahmed...
- Sei, sei - interrompeu ela. - Ahmed ficará furioso. Mas não levo
isso em conta, «resolvi» ir. Mesmo que ela não seja Isabel De Chailles,
não faz diferença. É uma menina, está em dificuldades, sozinha, tendo
só homens ao redor.
- Homens somente, não. Ahmed mandou uma mulher para ficar
ao seu serviço, logo no dia imediato ao da chegada. Não vo-lo disse?
- Não, nunca me falou nisso - respondeu ela vagarosamente, e por
um momento ficou a fitar firmemente Raul, vendo-o não a ele, mas ao
marido que ela amava, o marido
239
cuja natureza complexa ainda tinha profundidades que ela não
podia penetrar.
Ela firmou a mente errante no presente com um impaciente
meneio de cabeça.
- Isso não diminui a minha responsabilidade - declarou com
firmeza. - Procurei fazer Ahmed compreender o meu ponto de vista,
mas ele não o quer ver, ou não pode, e sabeis quem é Ahmed quando
decide alguma coisa. Não pude arrancar-lhe o consentimento para a
minha ida. Tanto pior, irei sem essa licença.
- Mas, Diana, pelo amor de Deus, pensai...
- Já pensei bastante. De tanto pensar doeu-me a cabeça. Não me
façais a coisa pior, Raul. Não me é fácil proceder contra a vontade de
Ahmed, mas neste assunto julgarei por mim mesma. Vou «agora» a El-
Hassi. Agradecer-vos-ia se fosse de vossa vontade ir comigo. Senão...
A censura que ele leu nos olhos dela chocou-o e Diana agarrou-lhe
as mãos com ar de arrependimento.
- Dizei-lhes que me tragam o cavalo. Quero ir sem pensar muito
nisso. - E, indo para o quarto, acrescentou: - Se me mandardes
Mohamed, não precisamos de mais ninguém.
Já não havia alegria nos seus olhos ao voltar da tenda alguns
minutos mais tarde e a incrível palidez do seu rosto levou Raul a fitá-la
com ansiedade, esperando o animal que a levaria.
Durante algum tempo depois de deixarem o acampamento, ela
seguiu em silêncio, os lábios cerrados, os olhos fixos nas orelhas do
cavalo.
Estava fazendo o que a consciência lhe ordenava, mas, pensando
bem, tudo daria neste mundo para poder vencer o impulso da
consciência e voltar para trás. Não era só por causa da ira do sheik. Era
também outra coisa, ainda mais profunda, um instinto vago e informe,
que parecia querer adverti-la de qualquer perigo, um instinto que cada
vez se tornava mais premente. Procurou, sem resultado, removê-lo e
por último, desesperada, voltou-se inopinadamente para Raul.
240
- Já tivestes pressentimentos alguma vez, Raul?
Ele puxou o cavalo para perto dela e encarou-a.
- Algumas vezes - concordou. - Mas porque o perguntais?
Lamentando já que a pergunta lhe escapasse da boca, não
querendo que os seus pensamentos se concretizassem em palavras,
Diana sacudiu a cabeça.
- Oh, não sei! - respondeu evasivamente. - Foi um disparate que
me passou pela cabeça. É ridículo o que por vezes a imaginação nos
arranja. São nervos, creio, ou falta de ocupação. Fiquei preguiçosa
desde que Ahmed voltou daquela excursão horrível. A todo o momento
ele me chamava e todas as minhas boas obras morriam na ideia,
enquanto aguardava o seu chamamento, como uma esposa carinhosa, e
acompanhava-o milhas e milhas em redor do distrito, única maneira de
lhe dar uma folga.
Ela falava com rapidez maior que de costume, com um leve tique
nervoso na voz, o que fazia Raul ficar ansioso, porque conhecia o mau
aspecto da questão em que ela se encontrava envolvida nos últimos
meses.
Não era, entretanto, próprio o momento para atender ao temor,
de forma que calmamente recomendou:
- Cuidado com esses nervos, Diana. São coisas perigosas e não se
pode brincar com eles.
Vendo o modo como Diana ouvia estas palavras, Raul
compreendeu, pelo seu olhar esgazeado, a significação que elas tinham.
E, caminhando lado a lado, olhava-a de vez em quando, maravilhado,
como sempre, daquele admirável altruísmo, daquele formoso espírito
indómito que não se deixava vencer pelas amargas experiências da
vida, que a muitas mulheres teriam esmagado. Pensava no amor que
tornava possível aquela estranha vida. Mas aquela era a vida da sua
eleição e, graças a Deus, nada tinha a lamentar. Apesar de tudo, sentia-
se feliz, tão feliz como se nada houvesse. Com um breve trejeito de dor
ao endireitar-se na sela, repelindo a inveja, Raul encaminhou os
pensamentos para outra direcção.
Havia muitos dias que o vento não dava um ar da sua
241
graça, de modo que a poeira levantava-se em nuvem ao passo
dos cavalos. Outra poeira que ele não vira ao apear-se para o lanche,
surgia agora bem visível. Era, provavelmente levantada por homens da
guarnição de El-Hassid - concluiu - que voltavam, carregados de
provisões, do acampamento principal.
Examinou-os com desnecessária curiosidade, porque marchavam
em direcção contrária à que seguiam.
Evidências mudas de pés de transeuntes, quantas vezes as
encontrara anteriormente, sem sentir o arrepio, a estranha excitação
que isso produz à vista ao viajante do deserto? Quem eram? Donde
vinham? Que objectivos tinham?
Os seus lábios cerraram-se. Em que se metera agora que chegara
o tempo para proceder às suas averiguações sobre o assunto que tão
imperiosamente lhe falava ao espírito? Encontrara a filha de De Chailles,
estava convicto. Mas isso não bastava. Precisava encontrar Ghabah, o
mouro, antes que outros acreditassem no que ele acreditava.
Olhou com ar pensativo, e engolfou-se em cogitações que o
acompanharam até que divisaram El-Hassi.
No alto da duna, Diana puxou as rédeas do cavalo, olhando em
silêncio o pequeno oásis, que lhe parecia uma taça emergindo da areia.
O véu espesso do chapéu cobria-lhe o rosto, mas, olhando-a
firmemente, Raul percebeu as nervosas contracções dos seus dedos,
que haviam abandonado as rédeas, no pescoço do cavalo, e notou o
rápido pulsar do coração no delicado tórax. Então, sem falar, ela guiou o
cavalo em direcção à descida.
O acampamento oferecia um aspecto de solidão, dando sinal de
que estava quase deserto. Só uma meia dúzia de homens seguia
Ramadan para lhes ir ao encontro.
E Ramadan, ocultando a surpresa que lhe causava a aparição de
Diana, parecia pensar que qualquer explicação era necessária, porque,
sondando-a com a gravidade habitual e com delicadeza ainda maior do
que nunca, se apressou em desculpar-se pela guarda pequena que a
fora encontrar, asseverando que o restante fora ao acampamento
buscar alimentos e outras coisas necessárias.
242
Correspondendo mecanicamente à saudação, Diana interrompeu-
lhe as lamentosas desculpas com uma impaciência que lhe era pouco
comum. Que importava que a recepção não fosse a que o sheik
determinara! Que lhe importavam formaturas e cerimónias num
momento como aquele! Fazendo-lhe sinal para levar os cavalos, ela
dirigiu-se à pequena tenda dupla. Mas os passos tornavam-se-lhe cada
vez mais lentos à aproximação da tenda e em frente à entrada
semicerrada parou subitamente, tremente e nervosa. A sua agitação era
tão grande que Raul lhe acenou com a mão, pedindo que esperasse.
- Deixai-me ir primeiro, Diana, para a preparar para a vossa visita
- pediu com delicadeza. Movendo a cabeça, ela afastou-o.
- Não quero vê-la preparada. Prefiro surpreendê-la tal qual ela é.
Peço que espereis que vos chame - disse, abanando a cabeça.
Compreendendo, ele deixou-a ir, passando com fria decisão em
frente dele.
Um olhar mostrou-lhe que a sala de espera estava vazia e exibia a
Diana uma escrupulosa limpeza e boa ordem, que lhe deu uma curiosa
sensação de alívio.
Mas não foi uma sala vazia o que ela veio ver e por isso, com
passo tardo, atravessou os espessos tapetes, parando um pouco adiante
do divã para tirar o pesado chapéu e afastar das têmporas a densa
cabeleira.
Enquanto hesitava, pensando na entrevista que temia, veio do
quarto de dentro uma voz de infinita doçura, baixinha.
Sem fazer barulho, ela afastou as cortinas e ficou a olhar até que
lágrimas de compaixão lhe taparam a vista, ocultando-lhe uma figurinha
graciosa sentada no chão, no meio do quarto.
Sem atenção a nada que não fosse a sua própria infelicidade, a
menina cantava tristemente como pássaro tragicamente metido na
prisão de uma gaiola, com o rosto fresco entre os joelhos, nos quais
existia algo que ela apertava suavemente nos braços. Só havia ali uma
jaqueta que Diana reconheceu com melancólica dor compassiva.
243
Era a rapariga simplesmente uma criança, como lhe disseram,
frágil, delicada, tão linda quanto é possível imaginar. Foi, entretanto,
mais que a sua beleza que fez Diana fitá-la com intensidade um tanto
febril. Teve a forte intuição, inexplicável mas absorvente, de que Raul
não se enganara. O instinto, mais forte que a razão, clamava-lhe no
íntimo que, se Isabel De Chailles vivia, era Isabel De Chailles que ali
estava sentada. Isabel De Chailles e o filho... Seu corpo pesava contra
as cortinas que ela ainda segurava. Por um momento, fechou os olhos,
sofrendo horrivelmente.
Mas passou aquela manifestação de fraqueza e ela pôs-se a tentar
levar o cérebro a fornecer-lhe um meio pelo qual pudesse chegar à
verdade.
Como prová-lo? Como proceder, se o próprio Raul nada
conseguira?
Orou fervorosamente, pedindo a Deus inspiração, e o pensamento
que lhe acudiu brotou das profundezas do seu coração de mãe.
Talvez já Raul houvesse tentado a mesma coisa, mas não seria
mais própria a sua voz feminina que a de Raul, grossa, masculina?
Mansamente, com infinita ternura, ela proferiu o nome que
poderia despertar a memória.
- Isabel...
- Mamã!
A doce exclamação ecoou pela tenda e a menina chegou perto de
Diana, com o rosto rubro, os lábios trémulos, os olhos dilatados,
banhados de alegria.
- Mamã! - exclamou de novo, olhando para os lados, como que a
ressuscitar o passado, sem que Diana pudesse vê-la bem. - Mamã! -
balbuciou mais uma vez, como uma criança amedrontada - porque
nunca mais voltaste? Ouvi os teus gritos, mas só «ele» voltou, com as
mãos vermelhas e secas... E bate-me...
As últimas palavras foram sufocadas pela emoção, convertendo-se
em débil sussurro e ela afastou-se para trás com as mãos na cabeça,
com a alegria das faces feita êxtase, como se o passado se sumisse de
novo na treva e a porta da
244
memória, que se abrira parcialmente, se fechasse outra vez,
inexoravelmente.
Como o sonhador que despertasse do sono, ela murmurou para si
mesma, olhando furtivamente ao redor, como se procurasse uma visão
que se dissipara.
Então, pela primeira vez, pareceu ver que não estava só e, com
um pequeno gesto de surpresa, afastou-se ainda mais, espantada
daquela senhora que ali estava a mirá-la, com as mãos crispadas, os
olhos piedosos, esgazeados. Novamente Diana a chamou, mas desta vez
o nome, que tão poderoso fora antes, nada produziu no cérebro da
menina, que se limitou a sacudir a cabeça.
- Aqui não há mais ninguém senão eu, e eu sou Jasmim... - disse
simplesmente.
Mas já o espanto cedia lugar à curiosidade. E olhando meio
timidamente, meio em ar inquiridor, a face docemente simpática da
visita que tão inesperadamente viera quebrar-lhe a solidão, tornou-se
vagamente consciente de um novo sentimento íntimo, um sentimento
que lhe passou a encher o coração, que lhe deu uma sensação de
confiança como jamais tivera. Trémula de emoção, projectou os seus
nos olhos piedosos e tristonhos que procuravam atingir-lhe o coração,
atraindo-a irresistivelmente. E rendida quase inconscientemente à
fascinação, ela aproximou-se mais, com um lânguido sorriso nos lábios.
.- Em nome de Alá... - murmurou, apontando para as almofadas
colocadas no meio da sala.
Grata por essa pausa momentânea, porque estava inteiramente
sem saber o que fazer, Diana foi sentar-se no pequeno divã
providencial. Esteve silenciosa algum tempo, com as mãos a apalpar os
travesseiros, enquanto infrutiferamente procurava palavras. Depois,
disse bondosamente:
- Sentai-vos aqui comigo.
Após alguma hesitação, a jovem acedeu.
Mas as palavras teimavam em não aparecer e, buscando um
pretexto para dizer alguma coisa, os olhos de Diana deram novamente
com a jaqueta que estava ali perto.
- É um paletó bem feito - comentou, examinando o
245
tecido daquela peça de roupa. - É certamente do vestuário dalgum
grande senhor?
Com gesto súplice, a jovem tirou-o da mão de Diana e segurou-o
com ciúme.
- É do meu senhor! - murmurou, com uma onda de rubor a cobrir-
lhe o rosto.
- E como se chama esse teu senhor? - perguntou Diana com os
lábios trémulos.
Como se sentisse bruscamente desconfiada, a jovem fez um
pequeno gesto negativo.
- É o meu senhor. Não posso dizer qual é o seu nome.
Um gemido rebentou dos lábios de Diana, que agarrou os dedos
frios, morenos, da jovem.
- Oh, filha, és tão leal assim para aquele que te fez tanto mal?!
Com uma interjeição nos lábios, a jovem caiu aos pés de Diana,
libertando as mãos.
- Quem és tu? Que sabes tu do meu senhor?
Então, como não obtivesse resposta, abundantes lágrimas lhe
caíram dos olhos e a jovem agarrou-se aos joelhos de Diana.
- Porque não me respondes? - gemeu. - Que mal lhe aconteceu
que não queres falar? Alá! Alá! Foi por isso que sonhei com ele a noite
passada e com o outro, aquele que quis matá-lo. No sonho vi-os
lutando, ambos cobertos de sangue, e então ele - o meu senhor - caiu,
com uma grande faca cravada no peito.
Tremendo e gemendo, ela afastou-se, com ar aterrado, a voz
sufocada.
- És um espírito e é porque ele está «morto» que vieste?
Com o rosto banhado de lágrimas e incapaz de resistir à explosão
de ternura que lhe sobreveio, Diana apertou nos braços aquele corpo
trémulo.
- Não, não - murmurou, comovida. - Nenhum mal lhe aconteceu.
Não sou um espírito, mas uma mulher como tu, que o ama tanto como
tu. Jasmim! Jasmim! Ainda não descobriste quem eu sou? Nunca ele te
falou de mim, que sou sua...
246
Não pôde terminar a frase, porque ouviu um ruído que a fez
levantar-se instintivamente, a mão a procurar mecanicamente o
revólver que não trazia consigo já há muitos anos, enquanto, quase sem
poder crer nos seus ouvidos, se pôs a escutar o horrível alarido que
vinha de fora, o troar da mosquetaria e o feroz rugido de vozes hostis
que a transportaram para um tempo de hórrida memória, o tempo de
Ibrahim Oamir.
Paralisada de susto, ela fitava, lívida, a face da jovem que por sua
vez tinha o terror estampado no rosto. Depois, no meio daquele
marulho ensurdecedor, ouviu-se a voz de Raul e, mais animada, Diana
agarrou a jovem pelo braço e arrastou-a para a outra sala. Enquanto as
duas corriam, ouviu-se por detrás delas o ruído de panos que se
rasgavam e o disparo de uma bala que parecia querer abrir caminho por
meio da tolda.
Baixando a cabeça instintivamente, Diana correu para a porta,
arrastando Jasmim consigo, e saiu da tenda, para o local em que Raul
se encontrava, de pé, revólver na mão, ainda chamando por ela. O seu
rosto estava cor de cinza e, quando ela chegou, ele balbuciou qualquer
coisa que ela não pôde ouvir e os seus braços envolveram-na
convulsivamente.
Abraçando-o sem fôlego, ela perguntou qual era a causa do
tumulto e endireitou-se com um pequeno suspiro, enquanto o coração
parecia deixar de bater.
Diante deles, Ramadan e Mohamed cuidavam dos animais,
enquanto por trás, nas tendas, fervia um pandemónio. O fumo dos rifles
e nuvens aladas de areia e pó tornavam difícil a vista, mas, firmando os
olhos, Diana pôde ver o reduzido grupo dos seus homens, que
galhardamente tentavam rechaçar invasores seis vezes mais
numerosos, e podia ver, também, que a coragem de nada lhes valia e
aos poucos cediam e caíam perante os assaltantes. Assaltantes, no
território de Ahmed! Era coisa quase incrível! Estava ali a sua gente e
podia ela conservar-se ao longe, vendo os seus massacrados? Virou-se
para Raul com um grito de agonia.
- Raul, os «homens...»
247
- Não penso nos homens! - respondeu ele. - É em vós e na jovem
que eu penso. Meu Deus! Porque chamou Ahmed a guarda do norte?
Ouvi, Diana - acrescentou aflito, os braços apertando-a
inconscientemente - se eles chegarem até nós, Ramadan e Mohamed,
ainda com tempo, deveis fugir tão depressa quanto possível. Não
espereis por mim e por ninguém e deveis galopar desabaladamente,
como nunca o fizestes. Graças a Deus, os cavalos estão folgados,
frescos.
Nem concordando, nem discordando, Diana limitou-se a apertar-
lhe as mãos. No mesmo momento, um fundo gemido partiu dele, que a
lançou violentamente para trás de si, interpondo-se entre ela e qualquer
coisa que não queria que ela visse. Diana, porém, vira e, firmando-se
contra o braço que se lhe opunha, ficou insensível ao estalar de balas
que rebentavam ao redor dela, que olhava cavaleiros que chegavam
cheios de ódio.
Os seus homens estavam longe, ocultos da sua vista, quando os
invasores os bateram. Só Ramadan e Mohamed ali estavam com ela. E,
enquanto os fitava, Mohamed caiu de bruços no chão, espojando-se na
areia. E, selados, três cavalos estavam ao pé dele. Ramadan galopava
sozinho.
Com um brado de alegria, os invasores voaram para o corpo
inanimado de Mohamed, cada vez mais perto, até que o barulho se foi
amortecendo e, com um gemido magoado, Diana viu Ramadan cercado.
Um grito penetrante fê-la voltar-se apreensiva para a jovem que, até
então, se mantivera em silêncio. Nenhuma bala perdida a atingira, mas
o terror convulsionava-lhe a face e fazia-a agachar-se no chão, com a
cabeça escondida entre os braços, enquanto ela sussurrava
continuamente o nome que também estava nos lábios de Diana.
Houve mais gritaria, outro estalar de disparos de rifle, mas as
balas passaram sobre a cabeça deles, sem os ofender. Os assaltantes
depois afastaram-se. Voltando-se bruscamente, Raul empurrou as duas
mulheres contra o toldo lateral da tenda e, ocultando-as com o próprio
corpo, encarou os bandoleiros, disparando fria e cuidadosamente a arma
que possuía, com um terror mortal no coração.
248
Durante apenas um momento, rebentou o inferno de um tumulto
e do que aconteceu naqueles instantes Diana nunca teve uma
lembrança nítida.
O temor foi esquecido pelo frio furor que nela perpassou e Diana
lamentou o desamparo em que ficou, a sua incapacidade para ajudar o
homem que as livrara das balas, colocando-as ao seu lado de maneira a,
miraculosamente, ficarem incólumes.
Ensurdecida pelo barulho infernal, incapaz de ver o que acontecia,
sobreveio-lhe um estranho sentimento de irrealidade, um pesadelo que
a deixou imóvel, que a deixou com um único pensamento: o apertar no
peito a frágil menina cujos soluços procurava amortecer.
Apertava-a ainda contra o peito, quando, repentinamente, a
parede da tenda contra a qual ela se firmava pareceu abater-se
rapidamente e com ela toda a tenda.
Como se tivesse um colapso, Diana sentiu Jasmim desligar-se dos
seus braços, viu em redor dela uma multidão de faces patibulares e
ouviu o ruído das patas de muitos cavalos. No mesmo momento, Raul
desmaiou e cambaleou e ela procurou-lhe o rosto, esmagada pelo seu
peso.
Curvada sobre a areia, jazia ela, implorando ar, doente e
angustiada pelo terror que a vencia.
Mas, sobrepondo-se ao medo, acudiu-lhe a lembrança de Raul,
Raul que talvez tivesse morrido para a salvar. Vagarosa e
dolorosamente, ela saiu debaixo dele e sentou-se, limpando os olhos e a
boca, cheios de areia, admirada do longo silêncio que sobreviera.
Tremendo da cabeça aos pés e encostada ainda ao corpo
insensível de Raul, ela forçou a vista, gemendo ao ver os corpos caídos
que jaziam na areia revolvida, coberta de sangue, e viu que a maioria
dos bandoleiros sobreviventes já estava em fuga em direcção ao norte.
Só dois deles ficaram, de pé, não muito longe, e discutiam
acaloradamente.
Olhando-os, viu que um procurava dissuadir o outro de qualquer
objectivo, porque levantava os braços e apontava com fúria para os
companheiros foragidos. Eram dois homens enormes, mas um chegava
a parecer um gigante. Argumentavam
249
e altercavam até que as palavras cederam o lugar aos insultos e
atacaram-se corpo a corpo. Depois, pareceu a Diana que chegavam a
um acordo e o mais baixo deles resolveu seguir caminho, arrastando o
outro consigo. E com o coração a pulsar, com os olhos quase fora das
órbitas, Diana então viu o gigante rolar ao chão, mas levantar-se com
uma enorme faca reluzente na mão, viu-o enterrar a lâmina afiada no
peito do outro e ouviu as gargalhadas do assassino, que se ergueu e
correu para o lado dela. Pela primeira vez viu-lhe o rosto, que mais
parecia o focinho de uma fera louca que a face de um homem, e então
percebeu que a morte estava muito perto dela e que, se quisesse
salvar-se, tinha de agir imediatamente.
Meio cega, ainda, da areia que lhe enchia os olhos e lutando
desesperadamente contra a fraqueza que a queria vencer, ela rangeu os
dentes e agarrou o revólver que caíra da mão exânime de Raul. Sedento
de sangue, o mouro arrastava-se, os olhos fosforescentes, os lábios
lívidos contraídos em horrível careta, acocorando-se como um animal
que quissesse dar um salto mortal.
Ele estava a poucos passos de distância quando Diana disparou o
tiro. E como o monstro cambaleasse e caísse pesadamente na areia,
tudo lhe pareceu ficar escuro e ela chegou-se dèbilmente a Raul,
lutando por conservar os sentidos, prestes a abandoná-la.
Gradualmente, porém, a escuridão foi-se atenuando e ela
endireitou-se, fixando os olhos aterrados no cenário que a cercava, e
que pouco antes fora teatro de tão horrorosa carnificina. O horror
daquilo tudo e o sentimento da sua solidão fizeram-na querer gritar e
por um momento escondeu a face entre as mãos, acreditando que
enlouquecera. Com um tremendo esforço, readquiriu o domínio de si
mesma.
Quando Diana levantou a cabeça e olhou para os cadáveres que ali
jaziam, verificou que não estava inteiramente só, porque uma figura
lutava para sair de um montão de corpos e vinha em direcção a ela.
Com indizível alívio, reconheceu Ramadan e correu ao encontro
dele. Ferido e roto, mal se sustendo nos pés, com
250
o sangue a escorrer de uma ferida do rosto, com o braço direito a
pender desarticulado, parecia manter-se firme unicamente por possuir
inquebrantável força de vontade. Apesar, porém, da luta terrível por que
passara, a sua aparência era calma e imperturbável como de costume.
Depois de certificar-se de que Diana estava salva, foi com ela até
junto de Raul e ambos se curvaram sobre ele.
Com uma grave contusão na testa, produzida por bala, com
ferimentos também pelo corpo, ele ainda respirava, mas Diana leu no
rosto perturbado de Ramadan um reflexo do seu próprio temor.
Lágrimas amargas banharam os olhos dela ao contemplar as feições
lívidas do homem que prezava mais que o próprio irmão e fora o
melhor, o mais fiel amigo que uma mulher jamais teve.
Morreria antes que lhes chegasse socorro? Não haveria alguma
coisa que ela pudesse fazer para lhe aliviar os sofrimentos se lhe
voltasse a consciência?
Desesperada, olhou para a tenda lá adiante e depois para
Ramadan.
- Água - murmurou. - Oh! Ramadan, não poderás ir até a fonte?
Com um sorriso sumido, ele levantou-se.
- Em cha Allah! - respondeu com estoicismo admirável.
Mas voltando-se rapidamente, parou perto da imensa, agitada
figura do mouro. Depois de o olhar com atenção, deu-lhe um brusco
pontapé e fez-lhe rolar o corpo sem cerimónia com os pés. Fitando bem
aquele rosto mau, salpicado de sangue, amaldiçoou-o com palavras
terríveis, como nunca Diana vira um árabe proferir.
- Está apenas atordoado - anunciou lacònicamente, e fez uma
careta que traía a sua indecisão, a mão esquerda apalpando o albornoz,
à procura do revólver que havia recuperado.
Mas antes que Diana percebesse a sua intenção, abanou a cabeça
e guardou a arma com um ar de tristeza.
- Ele estaria melhor no inferno - observou friamente mas não
posso matá-lo, porque me diz o coração que meu amo quer que ele
viva.
251
Explicando resumidamente o que sabia sobre o mouro, retirou
com cuidado a faca enorme que estava enterrada no peito de Carl Rost
e com ela cortou alguns pedaços de corda da armação da tenda em
ruínas. Mas com um braço inutilizado era-lhe impossível realizar o seu
propósito e solicitou o auxílio de Diana para amarrar solidamente o
gigante.
Feito isso, Ramadan caminhou em direcção à fonte.
Alguns momentos Diana ficou a apreciar-lhe o avanço e depois foi
sentar-se perto de Raul, levantando-lhe com cuidado a cabeça e os
ombros, que colocou sobre os joelhos.
Uma reacção começava a operar-se nela, mas, ainda sob a
impressão do choque, parecia-lhe que tudo aquilo era um horrível
pesadelo, pois que a verdade lhe parecia por demais brutal para ser
real.
A lembrança de Jasmim quase a pôs furiosa. Naquela curta e
estranha entrevista, entregara o coração sem reservas à jovem que
estava sofrendo o mesmo que ela já sofrera. O laço comum, tanto como
o amor comum, tinha despertado nela mais do que mera compaixão e,
quando a abraçou, parecia-lhe que Deus lhe dera finalmente a filha que
tanto desejava ter, sem jamais conseguir a realização desse sonho. Ela
poderia ser sua filha se... Mordeu os lábios trémulos, esforçando-se por
conter as lágrimas prestes a brotar-lhe dos olhos. Mesmo que o filho a
quisesse, mesmo que a viesse a amar como acontecera a Ahmed, seria
possível encontrá-la novamente? Tão perto estava o fim das devotadas
pesquisas de Raul?
Raul! Olhou-o cheia de receio. Reconhecia a sua culpa e
arrependia-se mortalmente. E, se ele morresse, Ahmed algum dia
poderia perdoar-lhe? E, ela também, poderia perdoar-se jamais a si
própria?
Ele estava agora a mexer-se nos seus braços, gemendo e falando
incoerentemente, e Diana olhava-o com incontida impaciência,
enxugando dos olhos as lágrimas, para contemplar os passos arrastados
e penosos de Ramadan, que parara junto de um dos cadáveres e se
abaixara um instante, movendo-se vagarosamente. Depois emergiu das
tendas distantes outra figura e logo os dois homens se encontraram.
252
Só dois restavam, com Raul talvez moribundo, e as horas
arrastar-se-iam até que o resto do corpo da guarda chegasse, vindo do
acampamento principal. E como poderia ela mandar pedir socorro, se
não havia nenhum cavalo vivo? Alguns jaziam mortos, espalhados no
meio dos cadáveres que ela podia enxergar, mas onde estariam os
outros? Animou-a a lembrança de que talvez alguns houvessem fugido
dos cavaleiros, correndo febrilmente para as suas moradas, dando assim
o alarme necessário.
Mas essa frágil esperança desvaneceu-se quando Ramadan voltou
acompanhado do outro sobrevivente, que trazia nos ombros um odre
com água.
Ferido e abatido, mas menos inutilizado que Ramadan, o homem
chegou e ajoelhou-se perto de Diana, levantando o odre para que ela
pudesse embeber o lenço para humedecer os lábios de Raul.
Desmontado e sem sentidos logo no começo da luta, pouco podia
contar, pois só voltara a si quando os bandoleiros fugiram, e assim pôde
dizer somente que os cavalos foram levados com eles, assim como a
jovem, a quem ele vira caída, atravessada na sela de um homem que
parecia ser o chefe do bando.
Era um dos rapazes mais moços do corpo da guarda, um pouco
mais que uma criança, mas lutara heroicamente com o raptor,
procurando subjugá-lo, no meio da fúria e da emoção dos seus
companheiros, e quando Diana proferiu algumas palavras de simpatia
ele calou-se e escondeu o rosto no albornoz. Mas recuperou logo a
calma, e com mais confiança do que antes, declarou que estava pronto
para ir buscar socorro.
Duvidando da sua capacidade de cumprir o que oferecia, Diana
fitou-o com incerteza. Parece que aquilo fora combinado entre os dois
quando voltavam da fonte, porque Ramadan pôs um termo às suas
objecções com uma curta declaração de que não havia outra alternativa.
Não dissera que estava fisicamente impossibilitado de andar tanto, mas
Diana, que percebera que ele estava mais ferido do que pensava,
compreendeu que assim era. Se, entretanto, um deles tinha de ir,
preferia ela que Ramadan ficasse, porque temia que
253
o mouro recuperasse os sentidos, embora estivesse amarrado.
Era de acreditar que o mouro estava também na mente de
Ramadan, porque, antes de o rapaz sair, convidou-o para irem arrastar
para mais longe aquela abjecta figura. E enquanto isso não foi feito e o
mensageiro seguiu pela estrada, não se sentou na areia, exausto, para
vigiar o prisioneiro, lamentando, pela centésima vez, não o haver morto
quando a ocasião se lhe deparou em Touggourt.
Muito antes, Diana tirara o casaco para fazer um travesseiro em
que pudesse depor a cabeça de Raul. Ali se instalou para esperar a
chegada de socorros, esforçando-se por conservar a lucidez da mente,
dando graças a Deus por ter sido poupada para atender às necessidades
do ferido. Era pouco o que podia fazer - apenas afugentar as moscas e
humedecer-lhe os lábios de vez em quando, mas esse pouco servia para
fazê-la suportar a ansiedade da espera.
Mal o mensageiro se retirou, o encantador de serpentes recuperou
a consciência e tentou levantar-se, enraivecendo-se furiosamente ao
reconhecer a sua impotência. Escabujando horrivelmente pela areia,
desvairava e uivava, soltando um oceano de blasfémias que esfriavam o
sangue de Diana e por último fizeram irritar o próprio Ramadan, que se
arrastou penosamente para tirar um pedaço do albornoz de um dos
cadáveres, com que embrulhou a cabeça do mouro, abafando-lhe assim
as pragas e as maldições. Estabeleceu-se o silêncio novamente, um
silêncio que agiu benèficamente sobre os nervos agitados de Diana. Era
um silêncio que parecia cheio de vozes, e a fazia olhar nervosa e
apreensiva em volta de si, mas isso não durou muito porque ali só havia
morte e silêncio, corpos gelados que a enchiam de horror. Algumas
vezes aqueles cadáveres pareciam mover-se e a brisa que perpassava
ecoava-lhe aos ouvidos como se fosse o choro de almas separadas dos
corpos. Estariam à espera daquela alma que talvez estivesse margeando
o rio da morte? Trémula, procurou afastar de si esse pensamento,
combater as estranhas alucinações que se aninhavam na sua mente
excitada.
254
Não devia pensar, não devia permitir-se tais devaneios.
Devia ser forte e acalmar os nervos até à chegada de Ahmed. Oh,
Deus! Manda-o depressa. Assim havia ela vivido há muitos anos, num
momento de perigo atroz. Assim deveria viver agora, não em seu
próprio favor, mas no do amigo que dera a vida por ela. Dera a vida por
ela!
Curvou-se sobre ele com indescritível agonia, procurando-lhe o
rosto com olhos angustiados, em luta aberta com a aflição que a
perturbava.
Os minutos pareciam horas enquanto velava e esperava, fatigada
pelo peso dele, não procurando mover-se, mas sustentando-o até que
os braços se lhe amorteceram e todo o corpo lhe doeu com o esforço
que ela fazia.
Durante algum tempo, ele não se mexeu, nem fez ruído algum.
Mas agora estava desassossegado e bruscamente começou a falar,
fazendo-a curvar-se para apanhar-lhe as palavras, a princípio confusas e
ininteligíveis.
Aos poucos a sua voz foi-se tornando mais forte e distinta. E ela
ouviu quando o ferido lhe proferiu o nome, em tom jamais ouvido,
repetindo-o mais e mais, entre palavras desconexas que a tornavam
pesarosa e inquieta. Depois, numa torrente de palavras apaixonadas,
sucederam-se frases - frases que eram a revelação de uma alma
atormentada.
Com lágrimas que ela já não podia conter, com o coração tomado
de compaixão, Diana sentou-se rígida, ouvindo o inconsciente
extravasar o amor que por tanto tempo ocultara, e ficou finalmente
conhecendo a verdade.
Durante vinte anos ele ocultara esse segredo, e eis que, agora, os
lábios insensíveis o traíram, canalizavam toda a sua dor, toda a devoção
altruísta e o desejo contrariado de uma paixão desesperada de que ela
nem sequer suspeitava!
Absorvida no seu grande amor, jamais lhe ocorrera que a sua
amizade disfarçava um sentimento mais forte e profundo. Agora
verificava que ele a amara e que esse amor só infelicidade lhe trouxera.
Por intermédio dela, a tristeza apossara-se dele. Por causa dela, passara
os melhores anos da sua vida sozinho e desgostoso. A dor que isso lhe
causava, quase não a podia suportar.
255
Ela magoara-o, arruinara-lhe a vida, a Raul - a quem ela sempre
amara, embora com um amor diferente daquele de que ele precisava.
Raul, que fora seu amigo e de Ahmed. Porque, sim, porque fora ela o
instrumento do seu pesar? Sensibilizada, tremeu perante a inesperada
revelação. Ela não tinha direito ao segredo que fora tão cuidadosamente
guardado, que ele queria que ela nunca conhecesse. Pobre Raul, pobre,
fiel, leal Raul, fiel a um amor que nunca seria satisfeito, leal ao amigo
cuja felicidade colocara acima da própria!...
Indigna aos seus próprios olhos, um sentimento de intensa
humildade se apossou dela. Que fizera para que tamanho amor lhe fosse
dedicado? Que tinha feito jamais para merecer o amor de ambos?
Lágrimas abundantes manavam-lhe dos olhos ao olhar tristemente
para o homem que dantes ela supunha conhecer tão profundamente.
Quão pouco realmente o conhecera, quão pouco realmente o
compreendera!
E agora, que tudo sabia, nada mais podia fazer que guardar
aquele segredo no escrínio secreto do coração e agradecer a Deus por
só ela ter ouvido aquele grito de desolação.
O murmúrio da sua voz cessara e ele estava agora silencioso. Tão
silencioso que um brusco temor se apossou dela. Chegou-lhe então a
mão ao peito. Mas, embora dèbilmente, o coração batia ainda e, com
um gemido de alívio, ela tratou de o colocar em posição mais cómoda.
Mas só teve alívio muito fugaz. Como hora após hora decorresse e
o socorro tão desejado ainda tardasse, olhou mais ansiosamente,
encarou o rosto lívido e contraído, que lhe estava no colo, percebendo
que a vida aos poucos se extinguia e o seu estado se tornava cada vez
mais crítico.
Se havia ainda alguma coisa que pudesse ser feita em favor dele,
devia sê-lo imediatamente, pois de minuto para minuto diminuía a
possibilidade da sua salvação e mais aumentava o perigo.
Frequentemente, desesperadamente, levantava Diana os olhos
cansados para as dunas de areia, apurando os ouvidos à espreita do
ruído de patas de cavalos. Teria sucumbido o
256
mensageiro? Passariam mais horas sem vir socorro, para chegar
quando já fosse inútil? Morreria Raul sem receber socorro humano?
Encontrariam somente um cadáver nos seus braços? Um sentimento de
dor desenhou-se-lhe no rosto. «Raul morrer»! Jamais sequer pensara
que algum dia não mais houvesse um Raul a acolher, um Raul para
levar a civilização até suas isoladas vidas. A sua chegada sempre
significava alguma coisa para ambos. Perdê-lo - e perdê-lo desta forma?
O desespero despedaçava-lhe o coração. Que faria Ahmed sem ele?
Porque, porque não chegava socorro? Mesmo que Ahmed ainda
estivesse em Ras-Djebel, havia Gastão e Yusef para providenciar na sua
ausência, porque ela havia pedido o chá e nada dissera sobre uma
ausência prolongada.
Já quase anoitecia, já o Sol se ocultava por detrás dos montes de
areia e o vento, agora fresco, fazia-a tremer como se fosse a seda do
lenço que, juntamente com as suas vestes de equitação, estava
manchado e embebido do sangue de Raul.
Ao contemplar as longas sombras cinzentas que pairavam sobre o
pequeno oásis, o terror das trevas próximas sobreveio-lhe e sentiu a
força mental enfraquecer-se.
Sozinha no meio de mortos e moribundos, que mais horrores não
lhe traria a noite!
Lutara para guardar a lembrança de tudo, mas agora vivia com o
pensamento concentrado na tragédia daquela tarde sinistra. Reviu o
horrível morticínio dos seus homens, o último suspiro do leal Mohamed;
lembrou os medonhos presságios de Jasmim, o riso cruel do assassino
ao avançar para ela. Ouviria isso tudo enquanto a vida lhe durasse?
Enlouqueceria, adoeceria antes de vir o socorro? A capacidade
sofredora, elevada ao máximo, extinguia-se bruscamente e no terror da
solidão ela contemplava, tomada de pânico, o corpo inerte dos mortos.
Olhou Ramadan desmaiado e deitado na areia. Olhou Raul sem sentidos
no seu colo e levou as mãos aos lábios para abafar um grito.
- Ahmed! Ahmed! Vinde a mim!
257
E, como se ela houvesse gritado, ele veio. Por um instante ela viu-
o a lutar com o seu cavalo meio selvagem, como se fosse uma silhueta
projectada contra o céu. Então, como uma grande onda de branca
espuma, rolando pelas praias, os seus homens surgiam, como por
encanto, das altas dunas e dele se acercaram enquanto guiava o cavalo
Eblis pelo íngreme declive, fazendo-o galopar com tamanha velocidade
que Diana, assustada, levou a mão ao peito.
Atrás dele, na mesma galopada célere, vinham juntos Caryll e
Ahmed e, perto destes, ela cuidou ver Gastão e S'rir. Os seus olhos,
porém, Diana tinha-os presos no enorme corcel negro, sobre o qual se
achava aquele rosto moreno que lhe era o mais querido do mundo.
Antes que os filhos ou os homens que os acompanhavam
pudessem puxar os animais para uma cocheira, o sheik saltou da sela e
alcançou a esposa.
Daí a um instante, Diana cingia-lhe os braços, soluçando
histèricamente e implorando perdão, mesmo enquanto lhe relatava as
minúcias do raid.
Nos olhos do sheik, porém, só se via amor, como só amor existia
na pressão dos seus braços, que a afastavam um pouco para dar lugar a
Gastão, que já estava ajoelhado ao pé de Raul.
- Ma mie, ma mie! - exclamava. - Já estás salva... - e deixou
escapar um soluço que todo o seu estoicismo não pudera reter.
Depois, com uma palavra de ternura, deixou-a e foi ver Raul.
O grupo de árabes, de rosto ansiado, reunido ao redor do ferido,
afastou-se à sua chegada, e, antes que se reunisse de novo, Diana
lançou um olhar para Gastão e Caryll, este de luvas brancas, e mais a
alguma coisa que lhe bania dos lábios a ténue coloração que por eles se
infiltrava. Quando, momentos mais tarde, o sheik regressou da visita a
Raul e ela tentou ir ao seu encontro, ele viu, embora nada ouvisse, a
pergunta que se recusava a sair-lhe da boca.
- Ainda não - disse com calma forçada - mas é somente uma
questão de tempo. Poucas horas ou talvez um
258
dia ou dois. Ainda está inconsciente, Deus louvado. Se ao menos o
pudermos levar para o acampamento...
Sacudiu os ombros quase com desespero, virando-se para
esconder a emoção que procurava dissimular, mesmo perante a esposa.
Era o que ela quisera saber primeiro que tudo, que a fazia ter
esperança contra esperança, e agora a confirmação do que temera
roubava-lhe toda a força para falar e mover-se. Através de uma gaze de
lágrimas, viu Caryll retirar-se do grupo que se achava em volta de Raul
e juntar-se ao pai. Viu depois que ambos se dirigiam ao local onde
Ahmed se achava curvado sobre Ramadan, o qual, sustentado nos
joelhos de S'rir, estava a falar rapidamente, apontando ora para o
cadáver do alemão, ora para o mouro, agora resignado e impassível.
E foi a vista de seu filho Ahmed que lhe fez lembrar-se da tristeza
que sentia por causa de Raul, de que no momento estava esquecida.
O filho tinha ladeado o sheik, as mãos erguidas como pedindo-lhe
algo de muito urgente. Longe de mais para poder ouvir-lhe a voz,
estava perto o bastante para ver-lhe o movimento dos lábios, fazendo-a
perceber que se tratava de um apelo aflitivo e mostrando-lhe, também,
a expressão de fundo desespero que havia nos seus olhos, e para que
ela pudesse observar a pesada catadura que obscurecia o rosto do
marido.
Recusaria o sheik a anuência pedida? Como poderia recusá-la se
soubesse tudo!
Os gritos da jovem ainda lhe retiniam aos ouvidos quando ambas
fugiam da fúria das balas.
- Ahmed! Ahmed! Pelo amor de Deus! Pelo amor que me tens,
deixa ir o rapaz. Ela é Isabel De Chailles. Sei-o com certeza!
Por um instante, o sheik fitou-lhe os olhos húmidos e súplices,
olhou o filho e suspirou.
- Ide com Deus - disse em tom breve, e expediu uma ordem que
fez uns cinquenta homens galgarem as selas, uivando como loucos.
259
O tumulto, porém, serenou quando eles se colocaram
regularmente em fileira. E no relativo silêncio que então se seguiu,
Diana sentiu os braços do filho, que a cingia num abraço quente, que
lhe prometia uma profunda gratidão, enquanto os lábios só conseguiram
murmurar:
- Mãezinha, mãezinha!...
Depois afastou-se, com o pai ao lado, em direcção ao cavalo que
S'rir acabava de trazer.
Quando ele seguiu, revolveu-a repentinamente um sentimento
terrível, a ideia de que, talvez pleiteando a sua ida, contribuíra para
fazê-lo morrer, mas agora só lhe restava ficar quieta e vê-lo seguir. De
novo, porém, lhe acudiu a lembrança de Jasmim, que veio abafar um
grito prestes a rebentar-lhe dos lábios, envergonhando-a do impulso
que tão insensatamente tivera.
Sentindo a dor que lhe dilacerava o coração, ela voltou-se
instintivamente para o filho que ficara ao seu lado, mas, antes que
pudesse falar, este retirou-se também.
O pé do primeiro já se metia no estribo quando Diana sentiu um
leve toque no braço, e, virando-se, viu um rosto que estava pouco
menos agitado que o seu. Por um momento, os olhos dos dois irmãos
encontraram-se. Então, com um gesto por demais expressivo, Caryll
estendeu-lhe a mão.
- É negócio que vos diz respeito e não a mim, mas, se me
levardes convosco, muito vos agradecerei.
Na sala principal do pavilhão do sheik, Raul de Saint Hubert
estava em luta, não pela vida, mas pela prolongação do pouco de vida
que ainda lhe restava. Resolvido a viver até que voltasse o filho do
sheik, ou pelo menos até que já não restasse esperança do seu
regresso, com a jovem que representava papel tão proeminente para
ambos, o enfermo parecia deter a morte a distância, por mera força de
vontade. O facto de ainda estar vivo era um milagre para quantos lhe
conheciam a gravidade das lesões recebidas e de tempos
260
a tempos consideravam extinta aquela frágil centelha de vida. Mas
cada vez que o ferido se reanimava, fisicamente mais enfraquecido, era
com indómita coragem e sempre mais firme na insistência de que o
rapaz voltaria e que antes de morrer teria a prova positiva de que as
suas longas pesquisas não tinham sido infrutíferas.
Mais de uma vez pediu que lhe trouxessem o mouro, mas o sheik
demorava-se a satisfazer esse pedido, temendo o efeito de tal entrevista
sobre aquele organismo depauperado. A jornada de volta de El-Hassi
fora lenta e ansiosa, não só porque o terreno dificultava o trajecto dos
carregadores que traziam a improvisada ambulância, mas também
porque era forçoso ter em consideração o estado de Ramadan. Tendo
recebido lesões que incapacitariam qualquer homem comum, ele
asseverava com indignação que ainda estava em condições de montar a
cavalo, e tinha vindo para o acampamento, ora esbravejando, ora
apoiando-se nos companheiros que o seguiam de cada lado para o
sustentarem na sela, em que, a despeito de todos os protestos,
obstinadamente se mantinha. Para Diana aquelas cinco milhas pareciam
cinquenta. Cheia de ansiedade pelos filhos, temia receber, a cada
momento, notícia da morte de Raul, reclinada nos braços do marido,
visto ter recusado montar sozinha, torturada pelo medo.
A noite havia caído quando chegaram ao acampamento.
Perturbada mental e fisicamente, dormira exausta de forças quando o
sheik a conduzira ao leito, não despertando mesmo quando o marido lhe
arrancou as longas botas e lhe limpou as roupas sujas de sangue.
Dormira pesadamente durante toda a noite, enquanto o sheik e
Gastão velavam na sala contígua. As forças, porém, voltaram-lhe com o
clarear do dia, permitindo-lhe também ir ocupar um lugar ao lado de
Raul, ocultando os seus temores para não contribuir para que ele
piorasse, e atendendo às suas necessidades com o sorriso franco que
sempre lhe tremulava nos olhos.
Durante algumas horas, enquanto os outros descansavam, ela
ficara a sós com o ferido e, ao ver as variadas expressões
261
que o seu rosto assumia, pensava se ele ainda teria qualquer
reminiscência da revelação que lhe fizera em El-Hassi. Certa vez quase
concluiu que assim fosse, porque, despertando repentinamente, após
alguns minutos de sono solto, lhe agarrou a mão quando ela se inclinava
sobre ele, e a olhara com estranha atenção em que ela julgou perceber
um temor absorvente.
- Tenho dito loucuras? - perguntou. E o débil sinal de alívio que
ele fez quando Diana lhe assegurou o contrário, fê-la virar o rosto para
esconder as lágrimas que quase a traíam.
Durante todo o dia, poupando as forças, ele falara muito pouco,
mas nas poucas horas em que ficara a sós com a esposa do sheik
raramente tirava os olhos do rosto dela, e o conhecimento que esta
obtivera tornava-lhe o pesar ainda mais intenso. Ela compreendeu que o
enfermo lançava o derradeiro olhar para quem fora para ele o ente mais
querido da terra, e o patético daquela muda saudação era-lhe mais
penoso do que julgava poder suportar.
Ela convencera-se de que o ferido ficava desassossegado quando
desviava dele a vista e, por isso, ficava o dia todo junto dele, raramente
se afastando de perto do leito, mesmo para tomar as refeições, a que
ela se constrangia contra a rebeldia da vontade.
Todos os dias se suspendia a vida ordinária do acampamento. Do
lado de fora do enorme pavilhão, homens sóbrios amontoavam-se
silenciosos e faziam grupos, esperando, gravemente, notícias do homem
que durante tanto tempo fora um bom amigo de todos, cuja vinda tinha
sido aguardada quase com tanto fervor como a do chefe. Entretanto,
nas pintadas guitounes, no outro lado do acampamento, as mulheres
que ainda choravam os seus mortos interrompiam as suas lamentações
para dirigir a Alá uma prece em favor do médico querido cuja
competência curara tantos que já agora estavam impossibilitados de
receber a cura.
Assim, hora após hora se arrastava no carrilhão do tempo, e ainda
Raul sofria, e nada de notícias de Caryll e Ahmed.
262
Certo dia, que parecia sem fim, excitando ao máximo os nervos de
Diana, ele começou a falar sobre o sheik.
Logo ao meio-dia, cedendo às sugestões de sua esposa, embora
ele não reconhecesse a necessidade de fazê-lo, enviara reforços para
guardar a estrada de El-Hassi e com eles um grupo de escuteiros a
cavalo, que deveriam ser colocados por intervalos ao longo da estrada
para que as notícias, tão ansiosamente esperadas, fossem recebidas
com a menor demora possível.
Tudo o que se poderia ter feito se fizera, e nada mais restava do
que esperar.
Escondendo a sua própria ansiedade, procurava sempre combater
os temores de Diana, lembrando-lhe a partida dos cavaleiros há
algumas horas, lembrando-lhe mais que os reforços tinham seguido,
circunstância, disse, de grande relevância porque o destacamento dos
filhos era muito superior ao que eles perseguiam.
Mas embora ela o ouvisse pacientemente, embora procurasse
encontrar consolo nos seus argumentos, ele notou que a agitação dela
se tornava, hora a hora, mais visível, viu a sua face tornar-se cada vez
mais lívida, mais branca, com os olhos voltados afectuosamente em
direcção à entrada semiaberta.
Nas sombras da noite, o clarão solene que anunciava a vinda das
trevas - clarão que nesse dia assumira mais significativa intensidade,
maior que a do costume - adensara a atmosfera de sombra e
melancolia, induzindo a um sentimento de aguda depressão, que quase
a fez desmaiar. No crepúsculo espesso, antes de Gastão acender as
luzes, ela estivera sentada com as mãos do sheik entre as suas, sem
falar, somente a olhar, a olhar até os olhos doerem ofendidos pela luz
ofuscante que se escoava pela porta. Esquecida até de Raul, com os
pensamentos perdidos na amplidão arenosa do deserto, ouvia, orava e
temia pelos filhos que tanto amava. O acender das luzes só lhe
aumentou a ansiedade, para lhe fazer o tempo mais longo e lembrar-lhe
que a noite chegara. E a noite viera, sem alívio, sem a palavra pela qual
esperava.
263
Cerca das dez horas, estava ela à espreita na sala da frente,
pediu-lhe o sheik que fosse descansar, mesmo que não pudesse dormir.
Temendo a solidão que alongava horrivelmente as horas, quase
desesperadamente pedira para ficar. Mas ele sabia que a sua energia
estava esgotada e por isso, pelo amor que lhe dedicava, insistiu.
Gastão, também, fora dormir um pouco e agora, à última hora, o
sheik estava sentado ao lado do amigo, cuja vida tudo daria para salvar.
A noite ainda durava, com a temperatura rarefeita. E todo o
acampamento desperto e agitado, como ela sabia estar; havia ali perto,
ao luar, congregados à porta da tenda, outros que partilhavam da
vigilância, sem que voz alguma lhe chegasse aos ouvidos e ruído algum
viesse quebrar o silêncio pesado que cada vez mais se adensava, cada
vez assumia mais notável significação.
O quarto estava meio envolto em trevas e cada canto sombrio e
obscuro. Só uma lâmpada continuava acesa, a qual, obscurecida por
causa dos olhos moribundos de Raul, projectava um pálido círculo de luz
no divã em que ela se sentara.
No limite daquele círculo de luz estava sentado Ahmed ben
Hassan, com as mãos crispadas, voltando a cabeça, em vigília, em torno
a Raul, que parecia estar adormecido, enquanto os seus pensamentos
se concentravam naqueles longos anos de amizade que tanto
significavam para ele.
Parecia-lhe impossível crer que aquela íntima camaradagem
estivesse prestes a chegar ao fim, que talvez antes da madrugada dela
já não restasse senão a memória.
Cada incidente de importância da sua vida parecia inseparável do
ferido.
Na adolescência fora ele o guia e mentor daquele casal, no meio
das novas e estranhas cenas que tinham feito a existência daquele filho
do deserto, na capital da França, verdadeiramente insuportável. - Nos
tormentosos dias da sua juventude, Raul tinha sido a única influência,
maior que a do velho sheik, a que Ahmed se rendera. Com Raul, antes
da morte de seu pai adoptivo, viajara e desempenhara os
264
papéis mais importantes em muitos recantos longínquos da terra.
De Raul viera a saber a verdadeira história do seu nascimento e do seu
parentesco. Fora por meio de Raul, depois que assumira a direcção da
tribo, que se pusera em contacto íntimo com o mundo, que de outra
maneira sempre ficaria imensamente distante da sua solidão. Fora com
Raul que mantivera íntima camaradagem, era pela chegada de Raul que
muitas vezes ansiava, em razão de assuntos importantes que se
impunha resolver, e aguardava-o com sofreguidão que lhe custava
reconhecer. E, no momento da sua maior degradação, Raul viera...
Raul, cujo cavalheirismo deveria fazer a sua própria brutalidade mil
vezes mais brutal à mulher que ele não soubera poupar na sua
vergonha, a quem fizera amante, perante um homem da sua própria
categoria.
Porque não amara ela Raul em lugar dele? Porque não o deixaram
na miséria e solidão que merecia? Se tivessem querido, provavelmente
de há muito se teria suicidado, porque a vida sem ela haveria sido
insuportável. Mas ao menos ele não teria a consciência do sangue de
Raul a manchar-lhe as mãos, como agora a tinha, porque directa ou
indirectamente essa morte se relacionava com o serviço dele.
Perdido em penosos pensamentos, foi com pasmo que viu os olhos
do ferido abertos a fitá-lo com o fantasma de um sorriso nos lábios
lívidos.
Foi aquela voz meio escarnecedora, meio afectuosa, que falou:
- Onde estais, Ahmed?
O sheik estremeceu ao tocar aqueles dedos brancos, límpidos, que
lhe eram estendidos.
- No inferno, creio - disse com infinita amargura - ou tão perto
dele, provavelmente, como nunca estive. A realidade não pode ser pior
do que nós a fazemos.
Havia muitos anos que o assunto fora entre eles discutido, mas
Raul sempre soubera que remorso íntimo mareara a felicidade do amigo
e naquela noite procurava a ordem de pensamentos que provocara
aquela frase amarga.
Fez um débil gesto de protesto.
265
- O inferno intercala-se no paraíso, meu amigo - disse com doce
censura. - Tivestes vinte anos de céu na terra, oh! demónio feliz, como
posso testemunhar. Podes ainda lembrá-lo? Se «ela» perdoa, porque
não podeis fazer o mesmo?
O sheik largou-lhe a mão em rápido protesto.
- Se houvésseis feito o que eu fiz, poderíeis esquecê-lo? - gritou
com mais amargura que antes - mas vós, bon Dieu, jamais cometeríeis
essa infâmia.
Um ar penalizado cobriu o rosto de Raul, que remexeu as mãos no
travesseiro.
- Quem sabe? - disse vagarosamente. - Para ganhar o que
ganhastes teria feito também o que fizestes. Se a mesma tentação me
viesse...
A sua voz cansada parou e, quase inconscientemente, os seus
olhos fixaram-se nas cortinas que separavam o dormitório.
- Tout comprendre c'est tout pardonner - murmurou.
Compreender tudo é tudo perdoar. Ela compreendeu e, porque amou,
pôde perdoar e esquecer. Se, desde então, lhe fizestes qualquer mal, ou
se deixastes de manter o amor, teríeis justa causa de amargura. Mas
fizeste-la feliz todos estes anos. Isso nada vale, meu caro?
- É isso o que tem feito a minha vida digna de existir - replicou o
sheik. - Sem o seu amor e sem a nossa amizade, só Deus sabe o que
me teria acontecido.
Envergonhado da súbita emoção que lhe fez tremer os lábios,
levantou-se inopinadamente e foi até a mesa em que se achavam os
papéis que foram tirados do corpo de Carl Rost, papéis que seriam de
grande valor para o governo, no que respeitava ao país que, poucos
meses mais tarde, a nuvem tormentosa da conflagração europeia
arrebatou à França.
Contemplando-o com o rosto carrancudo perto dos documentos
escritos que estava virando nas mãos, Raul agradeceu a Deus, como já
muitas vezes fizera durante vinte anos, a força que lhe dera para
conservar aquela amizade. Nem o amor que o consumia a tinha
maculado, e uma perfeita camaradagem chegara, ininterrupta, até o fim
da vida.
O fim! Um débil sorriso bailou-lhe nos lábios. Podia pensar
266
nele calmamente, pois que nada tinha a lastimar, nada de que
penitenciar-se. A mulher que amara era feliz e se somente pudesse
deter a morte até que Jasmim voltasse - como certamente voltaria,
estava convicto - morreria sem o mais leve pesar. Mas morrer sem
saber o que era feito dela - Deus! seria duro!
A mão crispou-se-lhe violentamente ao sentir a dor aumentar e,
por momentos, ficou com os olhos cerrados, lutando contra uma
fraqueza mortal que prenunciava o estado de coma.
Era um aviso, que não podia desprezar, de que devia procurar
saber o que tivesse a indagar, porque já não era possível maior demora.
A sua voz fraca trouxe de novo o sheik para perto de si.
- O mouro - murmurou. - Preciso vê-lo agora, se tenho de vê-lo
alguma vez. E quero saber ao certo, antes de me ir deste mundo.
Contemplando a face morena, congestionada, que era ainda a
mesma naqueles últimos instantes de vida, o sheik compreendeu que o
amigo estava falando somente a verdade. Hesitou, entretanto.
- Pelo amor de Deus, poupai-vos isso, rogo-vos. Deixai que só eu
o veja...
O murmúrio débil de Raul tornou-se um pouco mais forte.
- Não fará grande diferença, meu caro, e eu mesmo quero vê-lo e
ouvir a verdade dos seus lábios antes da minha morte - disse mais
firmemente. - Mandai buscá-lo, Ahmed. Isso tornaria mais fácil a minha
partida deste mundo.
Com um pequeno soluço, porque no momento lhe eram
impossíveis as palavras, o sheik foi até a porta aberta e, batendo as
mãos, deu uma ordem ao criado que o estava esperando, sem ter sido
chamado.
O amigo ansioso como que imergiu no chefe quando este voltou
com rosto fechado e duro, os cílios carregados numa formidável
carranca. Arrastou a cadeira um pouco para longe do divã e sentou-se
para esperar em silêncio a vinda do prisioneiro.
267
Cônscio de que com pouca força podia contar, Raul também
estava silencioso, sofrendo falta de ar, os olhos brilhando em febril
expectativa.
Um criado chegou sem fazer barulho, a fim de tornar a acender as
lâmpadas que haviam sido apagadas para refrescar o quarto. Após ele,
o escrivão, que deveria registar o depoimento do mouro, curvou-se em
respeitoso salamaleque e acomodou-se numa almofada perto do sheik,
espalhando pelos joelhos o material que trouxera para o fim para o qual
fora chamado.
Chegaram depois Yusef e dois subchefes, que se colocaram atrás
de Ahmed. Por último, após um intervalo que, apesar de curto, a Raul
parecera de um século, chegou o mouro entre dois guardas, a cabeça
enfaixada erguida e mostrando no rosto congestionado um ar de ira
feroz.
Lançou uma olhadela para o homem que ele ferira e outra furtiva
através do quarto grande, mobilado sumptuosamente, antes de se
voltar arrogantemente para a figura silenciosa que ali estava numa
cadeira.
Durante alguns segundos, o sheik não se mexeu nem falou.
Depois, vagarosamente, levantou os olhos. - A todos os homens e a
todas as coisas chega um fim. E porque por intermédio de ti o fim
chegou rapidamente a um dos meus servos, digo-te de coração,
homem, que o teu fim também está a chegar, mas não pode sê-lo tão
depressa. Não está escrito que «toda a alma é dada em penhor daquilo
que obrou»? Breve serás chamado para o resgate desse penhor. Antes,
porém, do julgamento de Alá, existe o julgamento dos homens. Conheço
um pouco dos males que cometeste. Mais do que isso, porém, se és o
homem a quem procuro, devo ficar sabendo. Se queres, pois, morrer
rapidamente, dize as coisas que preciso saber.
As palavras saíam da boca do sheik calmamente, quase
indiferentemente, a voz baixa mal atingindo o semicírculo de homens
armados que guardavam o prisioneiro por trás. Mas através da maciez
da voz havia um quer que fosse de ameaça final, como algo havia no
frio, firme olhar pousado no mouro, que fez os olhos deste piscarem e
as mãos crisparem-se-lhe.
268
- A morte virá em qualquer caso - murmurou com ar sombrio, e
vendo a leve sacudidela da cabeça do sheik desvanecer-lhe a última
esperança, o prisioneiro aprumou-se, sacudindo os ombros. - Já que só
me resta morrer, morrerei sem falar - gaguejou - porque nesse caso
que me aproveitará falar?
O sheik franziu a testa; os olhos assumiram um ar sinistro.
- Que aproveitará? - repetiu com um sorriso terrível. -
Já te esqueceste de que há muitos caminhos que levam ao paraíso
ou ao inferno? Ouve e, depois de eu falar, escolhe o caminho que
melhor te pareça.
E na mesma voz baixa, desapaixonada, do princípio, disse
palavras que provocaram um protesto de Raul e que fizeram tremer o
homem que, em seu tempo, muito mais fizera a muitos desgraçados
que se interpunham contra os seus malignos propósitos, mas que
gostava de experimentar, por si, o que fazia os outros suportarem. O
seu orgulho selvagem revoltou-se contra o terror sufocante que o fazia
intimamente pedir água e esforçou-se desesperadamente por manter o
aspecto ousado que a princípio assumira. O seu respirar ofegante,
porém, traía o terror que procurava disfarçar e grossas gotas de suor se
lhe amontoavam na testa, fixando o rosto impassível do juiz, perante o
qual estava, e as faces igualmente impassíveis dos homens que o
cercavam. Neles via o seu fim e o fim de todos os seus projectos e
esperanças. Rangeu os dentes num paroxismo de furor impotente. Foi
Raul que quebrou o silêncio em que caíra o quarto.
- Ahmed! Pelo amor de Deus! - murmurou, protestando, em
inglês. - Não façais assim para dele obter as informações que me são
precisas.
O sheik olhou para os seus ombros com um sorriso de satisfação.
- Ficai calado - recomendou calmamente. - Não haverá
necessidade de chegar a extremos. Esse sujeito já está a suar. Tomará
o caminho mais fácil. De resto, nos meus métodos de persuasão não há
mais do que ele prometeu ao meu filho quando lhe caiu nas garras.
Oferecer-lhe-ei menos de que ele ofereceu ao meu filho?
269
O sorriso desapareceu quando o sheik se voltou de novo para o
mouro.
- Tenho de esperar toda a noite, cachorro? Escolhe!
Novamente os longos dedos do preso apalparam as
dobras do seu sujo albornoz e um grunhido lhe escapou dos
lábios, que mordia nervosamente.
Durante um momento permaneceu irresoluto, relanceando os
olhos de um lado a outro, como se estivesse procurando um meio de
fugir. Depois, com tremor de raiva impotente:
- Uma vez que a misericórdia do meu senhor é tão grande, que
posso eu escolher? - rosnou.
Uma súbita mudança se operou nas suas maneiras e a ironia da
sua voz deu lugar a uma melíflua confidência, dita em palavras que
rapidamente lhe saíam dos lábios.
- Que deseja saber, meu senhor? - perguntou em tom de lisonja. -
Os segredos do cristão que me vi obrigado a matar ontem? Não os
conheço. Eu era o guia dele, não o seu confidente. Demais, que tinha eu
com os seus segredos ou com ele próprio? Os seus segredos estavam
anotados nos papéis que ele escondia no fato. Vi tirarem-nos do seu
corpo ontem à noite. Sem dúvida, estão nas mãos do meu senhor para
os ler, se quiser. Não tenho deles conhecimento, nem das razões que o
trouxeram da sua terra. Quanto a mim, senhor, peço-lhe que me diga
se um homem tem de expor as razões por que procurou vingar a sua
honra, por que procurou reaver a filha que lhe foi roubada...
O sheik interrompeu-o com um gesto de impaciência. - Tudo isso
é sabido - disse com dureza - e cumpre poupar o tempo. O que eu
quero ouvir respeita, não ao presente, mas ao passado...
Parou por um instante, fitando o rosto escuro, suado, do preso,
sobre o qual havia uma palidez mortal.
- Vamos ao passado - tornou significativamente. - É melhor que
dele te lembres. Ser-te-ia melhor que houvesses lidado com as
serpentes toda a tua vida, do que voltar ao teu velho ofício. Pelas
acções se conhece o homem. A noite passada mataste o teu patrão,
mas que outro patrão mataste anteriormente, ó Ghabah marroquino?
270
Com um grito estrangulado, o mouro encostou-se aos homens que
o cercavam.
- Não o matei - murmurou de modo chocante. - Ele morreu, mas
pela cabeça do Profeta juro que não o matei...
- Entretanto, pela cabeça do Profeta alguém jurou que te viu
matá-lo e a doze homens que estavam sentados desarmados, ao redor
das brasas moribundas de uma fogueira,
num acampamento.
- Mentiu, porque não houve quem visse...
Muito tarde compreendeu o mouro que caíra numa armadilha e
procurou engolir as palavras impetuosas que soltara e que eram uma
clara confissão do crime.
Anos a fio supusera o inquérito abandonado e acreditara-se salvo
e impune. Mas agora viera a saber que o inquérito não fora encerrado,
que as pesquisas haviam prosseguido e que, desconhecido para ele, o
vingador do sangue derramado viera no seu encalço, apanhando-o
irresistivelmente. Ah! Como amaldiçoava amargamente o acto de
loucura que de novo o trouxera à terra do crime! Mas quem era o
vingador?
Num súbito arranco de inspiração os seus olhos vermelhos de
sangue rolaram em direcção a Raul e num gargalhar de louco avançou.
O sheik lançou-se contra ele, para interceptar-lhe a passagem.
Entretanto, os guardas acercaram-se dele, obrigando-o a retroceder,
mas através do grupo de guardas a sua voz rebentou, em tom
triunfante:
- É verdade que o matei, ao louco, mas pergunta o meu senhor
porquê? Foi por interesse monetário, pensas tu! Perante Alá, ele era tão
pobre como eu. Mas uma coisa ele tinha e que eu desejava, uma coisa
que ele tinha e eu queria possuir, até que o fogo devastador do meu
desejo me levou a matá-lo para que eu pudesse arrebatar-lhe aquela
coisa pela qual a minha alma se abrasava. Amaste-a também, ó cristão?
Foi por amá-la que me apanhaste para me matar? Sabe, então, que eu,
sim, eu, a tomei por amante, a fiz minha. Três anos, ó cristão, estes
braços a cingiram. Três anos estes olhos lhe contemplaram a beleza
magnífica. Era escrava
271
«minha», «minha», até que a matei porque a sua frieza fez que o
meu amor se convertesse em ódio. Preciso contar-te como ela pagou
essa frieza? Preciso contar-te o que fiz antes de a matar?...
A mão crispada do sheik tapou-lhe a boca imunda.
- Basta que ela tenha morrido, besta louca - gritou com acento
fulminante. - Que foi feito da filha?
O mouro cambaleava, numa hedionda explosão de paixão
desperta.
- A filha guardei-a eu - respondeu em voz grossa - para me
recordar o ódio, para lhe lembrar também que a mãe dela não «me»
deu filho algum. Doutro modo, não a teria poupado.
Fitando-o com ardor, o sheik formulou a última pergunta:
- Essa filha é então Jasmim?
A resposta, que tinha tanto valor, foi dita prontamente pelo
mouro.
- Sim, é a menina chamada Jasmim - disse com os lábios
entreabertos com malícia. - É Jasmim, a filha do orgulhoso senhor
francês. É Jasmim, aquela que o filho do meu senhor quis tirar-me para
fazer dela seu instrumento de prazer. Querê-la-á ainda, acreditas,
depois do que Alman lhe fez?
A voz zombeteira tornou-se ténue murmúrio, e, novamente
gargalhando como louco, o mouro caiu, trémulo e espumante, nos
braços dos guardas, com sangue a escorrer-lhe do nariz e da boca.
Muito depois de ele ter sido levado, ainda as suas explosões de
raiva penetraram no quarto silencioso onde o sheik estava de joelhos
perto do divã, procurando, com a ternura de uma mulher, acalmar o
moribundo que jazia com as faces enterradas no travesseiro,
murmurando com o horror que dele se apoderara:
- Meu Deus, meu Deus! Quanto terá ela sofrido! Se ao menos eu
pudesse tê-la encontrado, poupar-lhe-ia um pouco daquela agonia. Três
anos, Ahmed? Pensai nisso! Foi por minha culpa? Poderia eu, porventura
fazer mais do que fiz? Deus sabe como pesquisei. Deus sabe que fiz o
mais que podia...
272
Com um murmúrio de protesto, o sheik pegou na mão trémula
que se agarrava ao cobertor.
- Raul! Raul! - exclamou, suplicante. - Por mim, por tudo que
amamos, cuidai de vós mesmo, peço-vos. Para ela, graças a Deus,
foram só três anos. Podia ser mais. Esquecei, amigo. Era o seu destino,
pobrezinha, e o que somos nós para lutar contra a sorte? Nada adianta
estar a lembrar. Nada há de que possais censurar-vos. Fizestes tudo
que vos foi possível, ninguém faria mais. Ele soube apagar bem as suas
pegadas, aquele diabo cruel! Estava louco naquele tempo e agora
também está louco. Eu, por mais que queiras, não posso mandar fuzilar
um louco.
O silêncio caiu entre ambos e aos poucos as contorções
espasmódicas que lhe sacudiam o corpo diminuíram e Raul acalmou-se.
Foi quando a luz hesitante da alva principiou a iluminar o quarto
que o enfermo voltou a falar. Agitando-se dolorosamente, virou a
cabeça no travesseiro, contemplando o rosto fatigado que lhe estava
próximo.
- A jovem, Ahmed - murmurou dèbilmente - quando o rapaz a
trouxer...
Havia um mundo de incerteza naquele olhar interrogativo e os
olhos do sheik cobriram-se de lágrimas.
- Meu amigo, é preciso perguntá-lo? A jovem ficará aos nossos
cuidados, de Diana e dos meus, se meu filho a trouxer de novo.
Com um sorriso cansado, Raul fechou os olhos.
- Trá-la-á, sei-o - murmurou com sonolência. - Quero vê-los e a
Caryll quando voltarem. Mas, se eu já houver morrido, falai-lhes da
minha estima, Ahmed, e, para seu próprio bem, contai a Caryll o que ele
precisa saber.
Houve uma pequena pausa. Depois levantou as mãos
enfraquecidas e disse com voz mais vagarosa e dormente:
- Quarenta anos, Ahmed, e nunca houve nada entre nós. É muito
tempo, muito tempo, meu velho Ahmed...
Durante toda a vida, Caryll jamais se esqueceu daquela rude
excursão nocturna. Com a ciência de que só restavam
273
uma ou duas horas da luz do dia, a partida fora tempestuosa.
Durante algum tempo, embora fosse bom cavaleiro, fora forçado a
concentrar toda a atenção no fogoso animal cuja força experimentava
pela primeira vez.
Havia feito excursões a cavalo, em caçadas, desde a infância e
metera-se em aventuras venatórias através do país, mas nunca
participara num furacão como aquele, numa corrida que era de vida ou
de morte, que fora iniciada com terrível propósito. A deslocação do ar, o
ruído das patas dos cavalos a galope, o pensamento do mal iminente,
excitaram-no como nunca.
A Inglaterra e a vida calma, prosaica que ali passara pareciam-lhe
coisas longínquas naquela noite. E a desordem mental que lhe sacudia o
espírito metódico, as visões estranhas e as cenas com que o haviam
posto em contacto, que eram longínquas na sua bem ordenada
existência, acharam um adequado clima nesse furioso raid que lhe
paralisava o coração e que o enchia, no íntimo, de prazer inenarrável.
Poucos momentos antes, pela primeira vez, enfrentara a morte e
vira o seu melhor amigo a morrer num cenário de dor e violência.
Completamente fora de si, havia-se rendido, por fim, aos instintos
hereditários e aos impulsos adormecidos que jamais soubera existissem.
O convencionalismo morrera e, não mais vítima dos seus preconceitos e
hostilidades, naquela noite era somente o filho do seu pai, um na mente
e outro no coração com aquele grupo de duros e inflexíveis vingadores.
Parecia-lhe subitamente que durante todo o dia se movera pelo senso
de simpatia e bondade, envolvendo a aceitação de uma filiação que
dantes repudiava.
O dia fora bem diferente do que ele esperava e a expedição a Ras-
Djebel produzira resultados que jamais tinham sido sequer sonhados.
Chocado pelos recados peremptórios do pai que todo o tacto e
cortesia de Gastão não conseguiam amenizar, restando como ordens
claras e obrigatórias, havia consentido em acompanhá-lo, com mal
disfarçada relutância e com o ar sombrio de quem não deseja
conciliação.
Mas, dominando a própria repugnância, o sheik tinha
274
feito um esforço decisivo para ganhar a confiança do filho, falava-
lhe com muita simpatia sobre os assuntos que trouxeram Caryll da
Inglaterra e atraiu-o, pouco a pouco, para uma conversa que muito
contribuíra para estabelecer uma base de entendimento entre ambos.
Muito antes de chegar a Ras-Djebel, Caryll começara a falar e, quebrado
o gelo, achara que o resto era fácil fazer. A reserva abandonara-o à
medida que entusiasticamente se aprofundava no assunto, de que ficou
a par, mesmo nas mais insignificantes minúcias, e chegara a esquecer-
se de quem era o ouvinte, à medida que falava eloquentemente de
lucros e perdas, de chácaras e fazendas, de madeiras e florestas, de
animais de raça e dos métodos modernos da agricultura.
Falar nisso era, de resto, um alívio, era um alívio tratar de
interesses que, se não fossem reais, eram, pelo menos, simulados. Em
Ras-Djebel ele não tinha, do seu lado, causa alguma de interesse. Um
oásis que era o maior que jamais vira, um dos principais centros de
actividade do sheik, e as horas que ali passara não tinham sido
assinaladas por cenas tristes que lhe empanassem o gozo. Nada achava
que lhe merecesse a reprovação nos cavalos maravilhosos que tornaram
célebre a tribo. Depois de mal-ensaiada aprovação passara rapidamente
a uma honesta admiração. E a melhor compreensão, começada durante
o dia, não diminuíra durante a excursão de regresso.
Mais descansado, em paz consigo mesmo, desde que deixara a
Inglaterra, Caryll começava a ter outra apreciação das circunstâncias do
ambiente, a ver beleza na dourada expansão do deserto, a deleitar-se
com a sua calma e encanto. Mas a sua chegada ao acampamento era
uma rude lembrança da ameaça que jazia oculta na sua ridente
tranquilidade e lhe evocava vividamente as vicissitudes de uma vida que
estava fora do alcance da sua compreensão.
Antes de ali chegarem, foram advertidos por uns ruídos de feroz
tumulto que denunciava alguma ocorrência fora do comum, e o sheik
transpusera o local com desabalado galopar.
Chegando, encontraram o acampamento em desordem com o seu
espaço enorme, habitualmente tão calmo, formigando
275
com densa mole humana, uma confusão de ruídos e movimentos,
em que cavalos meio selados, transtornados pela excitação geral,
corriam em todas as direcções. Mulheres e crianças eram empurradas
para aqui e ali, quando se chegavam à multidão de homens que
gesticulavam, passados em revista por Yusef e Ahmed, cujo rosto
cinzento o tornava quase irreconhecível.
Os acontecimentos seguiram-se com uma rapidez que não deu a
Caryll tempo para pensar.
Tinha visto o sheik, com a aparência de um cadáver, deter-se um
pouco, perto do mensageiro de quem Gastão tentava arrancar
informações. Tinha pegado e disposto na cinta, mecanicamente, a caixa
de balas e o revólver que lhe eram entregues por alguém lívido que
parecia Guilherme.
Montara o cavalo folgado que, por uma espécie de lance de
mágica, surgira a seu lado. E antes que lhe fosse possível compreender
o que se passava e desse conta da gravidade da situação, via-se
galopando para o sul, numa corrida como nunca conhecera.
Enquanto não entrara em El-Hassi, não havia chegado a
compreender bem o perigo que sua mãe tinha corrido nem o risco em
que estava Jasmim.
E o choque produziu-lhe uma impressão brutal, superior ao
entendimento humano, fazendo-o bruscamente ter uma compreensão
que lhe permitia reconhecer uma pretensão que era maior que a sua,
que o fazia capaz de abandonar ódio e inveja e levantar-se acima de si
mesmo.
Voltara uma página na história da sua vida quando fez o
espontâneo oferecimento, franco e sincero, e também franca e
sinceramente aceito. Agora, correndo ao lado do irmão, já não odiava
este, estava cônscio de que a inquietação dos últimos dias passara como
passa um pesadelo e estava em condições, finalmente, de pensar com
calma, senão desapaixonadamente, na breve loucura, pois que aquilo
lhe parecia agora que não fora mais que loucura, que nele despertara
paixões cuja lembrança agora lhe causava desgosto e acanhamento.
Não deixara de a amar. Amava-a ainda e sabia que
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vinha ainda longe o tempo em que a lembrança dela se dissipasse.
Mas a atroz febre de desejo, essa, apagara-se como nascera,
bruscamente, e o amor que lhe restava era somente a piedosa ternura
que sempre nutrira por ela.
Pensou nisso admirando-se do facto.
Havia alguma coisa que lhe faltasse na compleição? Era, talvez,
incapaz de duradoura amizade? Mais do que nunca se sentia incapaz de
se compreender. Uma coisa, porém, sabia.
Contemplando a face jovem e branca ali a seu lado, compreendia
o que o amor jamais significaria para ele, e o que significava para a
natureza ardente, apaixonada e tempestuosa de seu irmão.
E se a lembrança da sorte da jovem era para ele como uma faca
cravada no seu coração, quais deveriam ser os sentimentos do homem
que para ela tinha sido o que ele, Caryll, jamais fora e que tivera nos
braços a terna doçura que agora talvez estivesse fora do alcance dos
seus ou dos desejos de qualquer homem!
A sua mente embrenhou-se em horrível apreensão. Que
encontrariam no fim da árdua caçada e quando o alcançariam?
Os cavalos pareciam fraquejar e, perdendo momentaneamente o
domínio de si mesmo, esporeou inconscientemente o animal que
montava, mas a subsequente reacção, que o fez quase ser cuspido ao
solo, forçou-o a concentrar a atenção no enfurecido cavalo, que tão
ardentemente protestava contra o desnecessário estimulante.
Enraivecido e envergonhado da crueldade que mostrara e que era
tão contrária à sua natureza, Caryll pôs-se a acalmar o fogoso corcel e a
repelir de si os pensamentos que lhe tumultuavam no cérebro.
Os movediços montes de areia haviam dado lugar a um terreno
quase nivelado, chato e inexpressivo. O deserto desdobrava-se pela
frente em insípida monotonia enquanto os cavaleiros galopavam,
sentindo o vento sibilar-lhes aos ouvidos e o ruído seco das patas dos
cavalos e o ocasional tinido das armas, únicos sons que quebravam a
intensa quietude local.
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Galoparam durante duas horas sem afrouxar a velocidade.
Depois, como aos poucos a luz se fosse extinguindo e a treva os
fosse cercando, moderaram o passo, cada vez mais, até que finalmente
o guia, na frente, levantou a mão e, empurrando o cavalo, apeou-se,
com um grunhido.
Um sentimento apreensivo tomou Caryll ao contemplar o céu
escurecido, onde escassas estrelas brilhavam pàlidamente, e o seu
coração pulsou à ideia das horas que deveriam decorrer antes que a Lua
surgisse.
Quase antes de formular pensamentos nesse sentido terminou a
breve parada. Com uma lâmpada acesa perto do chão, o guia
recomeçou a marcha a pé, acelerando o passo num trote incansável que
aparentemente não lhe exigia esforço.
Depois uma escuridão incompleta os envolveu, de maneira que
Caryll sentia, mais do que via, as sombrias silhuetas que lhe marchavam
ao lado.
Os homens extraviavam-se por vezes e os cavalos, certa vez,
erraram o caminho. E como ele dirigisse por ali o seu esplêndido corcel,
ouviu uma voz sumida dizer-lhe: «Peço perdão, senhor!» Aquela voz,
surgida da treva, fê-lo imaginar no que Guilherme, que se negara a ficar
atrás, estaria pensando, e o seu entusiasmo de jovem achara,
finalmente, satisfação na «coisa real», que ora se consubstanciava num
caminho no qual talvez nunca pensasse.
A lembrança de Caryll fê-lo discutir consigo mesmo se fizera bem
ou não em aceder às súplicas lacrimosas que o bom servo fizera para o
acompanhar nesta expedição, que poderia vir a terminar num desastre
para todos. Era uma contingência de que não cuidara e que de modo
algum podia ser considerada como um dos deveres daquele leal servo.
Se ele, Caryll, fosse morto, isso era inteira e individualmente coisa que
só a ele interessava, ao passo que Guilherme tinha mãe viúva que dele
dependia. Enfim, se o pior sucedesse, o fundo de pensões do Estado
proveria àquilo de que ela necessitasse e Guilherme não estava
correndo maior risco que os demais. Desde que preferia vir, deveria
tomar a sua
278
parte com os outros, viver ou morrer conforme a sorte o
determinasse.
- Sorte? Bom Deus!
Os lábios de Caryll entreabriram-se numa inaudível explosão de
espanto.
Viajara bastante, reflectia, e agora filosofava sobre a sorte como
qualquer árabe ingénuo. Árabe, não. Mas, era esta a terra do seu berço
e naquela noite, pela primeira vez, ouvira o apelo desta terra. Naquela
noite, pela primeira vez, percebera que os sentidos se lhe rendiam à
subtil fascinação do seu estranho encanto. E assim renunciava à luta.
Instintos herdados suscitavam-se finalmente e tiravam-lhe toda a
capacidade de resistência. O deserto reclamara-o. E, contente com a
rendição, deixava os pensamentos voarem num devaneio, ao passo que
se rendia à maravilha daquela estupenda noite oriental e ao novo
aspecto que a vida lhe apresentava.
Ante as exigências do momento, Caryll que esquecera Raul e
quase esquecia o perigo objectivo dessa excursão nocturna, quando os
cavalos se detiveram bruscamente, impelindo-o de novo ao presente.
Levantou os olhos com ar de espanto.
O tempo voara sem ele dar por isso e na macia luz da Lua que ele
jamais vira nascer, levantou-se e viu o irmão de pé em conversa com o
guia e, ao derredor, todos desmontando e afrouxando os couros das
selas.
Apeando-se também, envergou o casaco que Guilherme segurava,
esforçando-se por aliviar as cãibras das pernas.
- Sabeis, mais ou menos, que horas são? - perguntou a
Guilherme, que ainda se detinha ali perto, com olhar crítico fixado no
árabe que estava desencilhando o cavalo do patrão.
Guilherme acendeu um fósforo e consultou o relógio.
- Faltam dois minutos para a meia-noite - informou
metodicamente, guardando o relógio. E acrescentou em sua meia língua
pitoresca: - Palavra! Este povo mexe-se, senhor! Pensava que já
conhecia o pior desta vida, mas agora temos esta aventura muito
arriscada. Estava admirado desses pobres cavalos, que não podiam
sequer tomar ar!
279
Acrescentou mais algumas palavras inconsequentes, que fizeram
sorrir Caryll, que lhe volveu com calma:
- Obrigado, Guilherme, cuidais de tudo.
Essas palavras fizeram o rosto do homem corar de prazer. Caryll
foi depois juntar-se ao irmão.
Atrás, os camaradas sentavam-se em grupos, cochichando entre
si, tirando proveito do descanso que lhes fora concedido. O guia estava
já a dormir quando Caryll por ele passou. Mas não se descortinava
desejo de dormir na atitude de Ahmed, que estava distanciado, de pé,
olhando o deserto e a Lua em direcção ao norte, um cigarro quase
apagado pendendo-lhe dos lábios fechados. O seu talhe estava
dominado por uma febre de impaciência, conservando-se imóvel por
duplicada força de vontade.
Alheio a tudo que lhe estava em redor, não parecia saber que não
estava acompanhado e Caryll achou que o melhor era não lhe
interromper o silêncio.
Por último, vencido pela inacção, o visconde principiou a mover-se
sem descanso, quando o irmão lhe fez uma pergunta brusca:
- Sabeis o que a nossa mãe queria dizer quando falou em Isabel
de Chailles? Quem é essa Isabel De Chailles?
Por um momento, Caryll fitou-o com espanto. Pois então ele não o
sabia, bom Deus do céu? Lembrou-se então de que Raul uma vez lhe
dissera que o irmão de nada sabia e Caryll sentiu-se amargurado porque
a ele ficara competindo, no meio de tanta gente, esclarecer o homem
que a raptara tão brutalmente.
Era melhor, porém, sob todos os pontos de vista, que o irmão
soubesse a verdade e que a conhecesse sem mais delongas, e assim,
calcando os próprios sentimentos, contou-lhe resumidamente, com a
cabeça erguida, a história que ouvira na noite da chegada do irmão.
Quando terminou a narrativa, o ouvinte voltou-se sem uma
palavra e retirou-se silenciosamente.
Não era o caminho que se tornara intransitável pela escuridão,
que Ahmed viu, quando chegou a uma parada, nem a brancura infinita
da planície, mas somente uma face
280
delicada, oval, embelezada por uns olhos negros que estavam
molhados de lágrimas, lágrimas que ele fizera verter!
Com sufocação, palpou as cicatrizes da ferida que fora há tempos
aberta no seu peito.
Que diferença podia advir dessa história toda? Pensavam então
que ele cuidava da identidade daquela rapariga? Condessa De Chailles
ou Jasmim, a dançarina, que significava isso? Era a rapariga que o
interessava. Somente a rapariga que ele amava, a rapariga que jamais
deixara de amar, posto a raiva o fizesse negar esse facto e jurar que a
odiava. Sem se lembrar da fraqueza dela, sem cogitar da sua própria
força, dera rédeas à inata selvajaria da sua natureza e impusera terrível
castigo à acusação que lhe imputavam.
Para satisfazer a sua cruel e insensata vingança, não se detivera
mesmo diante da violência pessoal. Satisfazendo a sua ira torturara-a, a
ela, Jasmim, flor frágil e delicada! Fizera-a sofrer física e moralmente,
brincando com o seu crédulo temor e quebrantando com as suas
impiedosas mãos o corpo pequeno pelo qual agora daria a vida - para o
poder apertar de novo, mesmo por um só momento, nos seus braços!
Que teriam significado para ela essas semanas de agonia?
Ela suplicara-lhe misericórdia e ele abusara vilmente dela.
Ela chorara a seus pés e ele zombara, rindo, das suas súplicas,
zombara dos seus protestos de inocência e amor. Ela amara-o, sabia-o
agora, amara-o até o fim, amara-o mesmo quando ele a maltratava.
Claramente, como naquela última noite, podia ver-lhe os olhos
angustiados, cheios de lágrimas, ouvir a sua voz trémula, súplice. Um
gemido escapou-lhe da boca.
- Alá, Alá misericordioso! - orava. - Que eu a encontre a tempo e
possa penitenciar-me...
Esperar mais era impossível. Os cavalos teriam de ir, mesmo que
os conduzissem à morte. Assobiou para os arredores e os companheiros
acorreram prontamente.
Antes que chegassem, o guia montou de novo, pois que agora o
luar mostrava o caminho com tanta clareza como se fosse dia.
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A corrida era agora mais fácil de suportar e o rápido movimento, o
ruído de patas por trás, a maciez do ar da noite acalmavam e davam
uma sensação de esperança renascida, de coragem.
Mas as horas sucediam-se e o caminho ainda se estendia
desoladamente e a esperança que animara o filho do sheik fraquejava.
O medo horrível que desde o princípio lhe devorava o coração
transformara-se numa agonia que o fazia sofrer medonhamente. «Tarde
de mais!» «Tarde de mais!» Esse brado parecia estar contido no cicio da
brisa, no grão de areia, na pata dos cavalos. «Tarde! Tarde!»
Antes de fazer o grande corcel negro correr como agora, as suas
esporas também não estavam, como agora, cheias de sangue. Quase
deitado no pescoço do cavalo, via por trás a distância vencida. Corria
tendo os olhos fitos unicamente nos cascos dos cavalos, que tão
eloquentemente falavam de uma raça tão ligeira e resistente, como era
a sua.
Milha após milha e então, com as esporas e com a voz, impelia o
galhardo cavalo, cujos lombos sentia tremer-lhe entre os joelhos. Caryll
e os outros seguiam-lhe o exemplo, os corpos curvados sobre as selas,
as faces morenas lívidas na fraquíssima luz da madrugada incipiente.
Avante, com um só pensamento. Avante, até a cabeça se acalmar. O
pesado pulsar do coração retinia-lhe aos ouvidos como o bater de um
relógio. Avante, até uma explosão de luz purpurear o céu. Avante,
através das ondulações caprichosas do terreno. Avante, até passar a
baixa cadeia de rochedos que se erguiam ã vista com chocante
subitaneidade, mascarando a linha de montes, transpondo-lhe a base
escarpada e pendendo inesperadamente para a esquerda.
Saltando velozmente um precipício, o jovem rodeou o rochedo
principal em desabalada carreira e depois voou para trás e puxou, com
extrema violência, o freio, fazendo o cavalo moderar a corrida.
Uma aldeia avistava-se, quase dentro da areia, abandonada, cheia
de cabanas destelhadas e muros carcomidos, jazendo, fria e desolada,
na luz mortiça. Parecia desocupada, deserta. Mas no momento em que
emergira de detrás de um
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rochedo, aos olhos atentos do jovem se deparou uma figura
emboscada, vigilante, que correu a toda a brida, desaparecendo entre
as ruínas das cabanas. Percebeu, então que chegara o termo da longa
jornada.
O cansaço desapareceu e só lhe restava a consciência de uma
agradável excitação indómita, que vencia até o temor que o torturava
por ter de esperar ainda, apalpando o pesado revólver que arrancara da
cinta, até que finalmente Caryll e o resto da expedição lhe surgiram à
vista. Então, com agudíssimo assobio, fez-lhes sinal e ainda a alguns
passos distante deles rompeu em direcção à aldeia.
Depois, uivando como os demónios que o povo supunha eles
serem, os expedicionários galopavam, seguindo-o ansiosos por ganhar
distância, com excitada alegria ao atingir a primeira pequena rua, cheia
de vento e de areia.
A galopar sem tréguas, calcando a trote os pedregulhos que
atravessavam o caminho, o grande corcel negro enveredou, após uma
alameda, por um largo espaço aberto que dantes fora a praça do
Mercado, tremendo com relutância, quando o jovem o impeliu para trás,
no meio de infernal saraivada de balas.
Os tiros partiram da entrada escura de uma colunata meio
demolida, mas quando os homens de Ahmed encheram a praça e
responderam condignamente ao ataque, a fuzilaria cessou
imediatamente. O jovem precipitou-se da sela e arremeteu pela estreita
passagem. Caryll e os demais seguiram-no em tropel.
Corriam através de um labirinto de curvas sombrias,
ziguezagueantes, admirados com a ausência de qualquer indício de
bandoleiros, atentos contra qualquer inevitável emboscada, e ao
encontrarem de novo a luz do dia compreenderam a razão daquele
silêncio aparentemente inexplicável.
Em número reduzido e com o coração esmagado pelo final de uma
empresa que resultara totalmente diferente de sua expectativa, os
homens de von Lepel, após a primeira mostra de resistência que
defrontaram, abandonaram o patrão à sua própria sorte e cuidaram de
se pôr ao fresco como
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melhor lhes fosse possível, sem sequer esperarem um pagamento
com o qual, aliás, sabiam que não podiam contar.
Quando Ahmed e os seus seguidores se retiraram através de
arcadas em ruínas e foram dar a uma rua larga que terminava em pleno
deserto, encontraram o último dos seus adversários tremendo como
varas verdes, na sela, pronto para ir juntar-se aos seus companheiros,
já em precipitada fuga. Com uma palavra, apenas resmungada, do
jovem a S'rir, este correu em perseguição dos fugitivos, seguido de uma
pequena escolta. Ahmed, porém, permaneceu imóvel, sem sequer dar
atenção ao fogo de mosquetaria que irrompera do extremo da rua, sem
dar conta da proximidade de Caryll, contemplando firmemente a entrada
sem portas de uma casa junto à qual um cavalo, preso a uma argola
existente na parede, dava mostras de intenso terror.
Depois, com um leve assobio entre os dentes cerrados, o jovem
começou a mover-se quase imperceptivelmente, escorregou vagarosa e
cautelosamente até perto da estreita abertura, da qual von Lepel, de
revólver na mão, nu até o peito e meio descalço, com a face
convulsionada a escorrer sangue, o olhava com insolente desafio que
traía atroz desespero. No silêncio completo que se fez, explodiu uma
gargalhada escarnecedora e o espião germânico deu um pulo para a
frente. Uivou e disparou um tiro, mas apenas por uma fracção de
polegada errou o alvo, que era a cabeça de Ahmed. A bala atingiu ainda
um pedaço do haic do jovem, que se havia desviado a tempo.
No mesmo momento, antes que von Lepel pudesse fazer fogo
novamente, o jovem deu um salto que era como o de uma pantera e
derrubou o revólver da mão do teutão.
O ataque fora inesperado e von Lepel não estava preparado para o
desviar, de modo que Ahmed apanhou em cheio o espião e arremessou-
o contra a parede, fazendo-o debater-se novamente para desviar as
mãos férreas que o esmagavam e que aos poucos lhe iam arrancando a
vida. Percebeu depressa a sua inferioridade e que, embora fosse um
ginasta treinado, a sua força era muito inferior à do adversário.
Percebeu, também, que a morte rondava em torno dele, em
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forma ainda mais sinistra do que podia imaginar. Sentiu-se
fraquejar e, como nunca, tremeu de medo.
Trémulo e lívido, com os olhos injectados de sangue a saltar-lhe
das órbitas, lutando desesperadamente, estimulado pelo instinto de
conservação, fixando a face fechada, impiedosa, que aos poucos se ia
chegando mais a mais perto da sua, em breve perdeu a vista, os seus
lábios tremeram numa última convulsão e a cabeça caiu pesadamente
no ombro.
Cambaleando, o jovem endireitou o corpo e dirigiu os olhos
relampejantes, não ao morto, mas aos seus próprios dedos, tintos de
sangue. Depois, com outro terrível rugido, sem mesmo enxergar o
grupo de companheiros vigilantes, nem Caryll, encostado no muro,
acabrunhado ante aquele quadro medonho, avançou passando pela
baixa abertura. Não sentia arrependimento pelo que fizera. O facto de
haver morto um homem antes que o pai o fizesse, não o incomodava.
Pensava tão-somente no que poderia encontrar nalgum canto daquele
edifício em ruínas.
Cambaleando ainda um pouco, passou com uma ligeira sensação
de torpor e medo por um pátio entreaberto, através de quartos
destelhados, tropeçando em montes de pedregulhos e imundícies, e
chegou finalmente à entrada de um estreito cubículo que era o único em
relativo bom estado, no meio de tanta ruína.
O instinto disse-lhe que era ali que estava o que ele procurava e
então, por um momento, ergueu o corpo e apalpou a porta com os
dedos até lhe caírem nas palmas das mãos os pregos e ferrolhos.
Vagarosamente, transpôs o umbral, esquadrinhando com os olhos
penetrantes a imundície daquele quarto sórdido.
Ali, num canto, estava ela, não morta, como ele temia, mas
pedindo a morte com um timbre de voz que lhe ficou tinindo nos
ouvidos durante anos. Acocorada no chão, seminua, mostrando sinais de
uma luta desesperada, com os cabelos desgrenhados ondulando pelos
ombros, lá estava a gemer e a contorcer-se em agonia, com o rosto
oculto, encostado à parede arruinada.
Respirando com dificuldade, ele permaneceu como petrificado,
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contemplando, cheio de dó, aquela figurinha quebrantada, ao
passo que, uma a uma, as linhas infantis do rosto dela se apagavam
para sempre. As feições de Ahmed endureceram, dando-lhe um aspecto
terrível.
- Jasmim!
A rude exclamação rebentou dele como o grito de uma alma que
estivesse nas labaredas do inferno. Com um suspiro, ela levantou-se.
- Senhor!
Os braços finos abriram-se-lhe em ardente saudação e ela correu,
atravessando o quarto. Ao chegar junto dele, porém, os seus olhos
encheram-se de medo e ela cambaleou, cobrindo as faces com as mãos.
Com um gemido doloroso, ela lançou-se-lhe aos pés, e rojou-se
pelo chão salpicado de areia.
- Mata-me, mata-me - gaguejou.
Um estranho nevoeiro lhe flutuou nos olhos, empanando-lhe a
vista, e o jovem sentiu pelas têmporas uma pressão terrível, como se
uma faixa de ferro lhe comprimisse a cabeça.
Matá-la e depois matar-se. Era isso somente o que lhe restava!
Lutando contra a gelidez que lhe tomava os membros e o imobilizava
pouco a pouco, arrancou da cintura o revólver.
Mas ao chegarem os dedos ao gatilho da arma deteve-se
voluntariamente, e um espasmo terrível convulsionou-lhe a face. Matá-
la... Elevá-la até aquele mundo ignoto onde o espírito inocente dela
pairava longe da sua alma pecadora! Mas, matá-la porquê?
O seu amor não era digno de mais? Com um soluço que parecia
despedaçar-lhe o coração, deitou fora o revólver, e agarrou-a nos
braços, apertando-a apaixonadamente.
- Jasmim! Jasmim! Perdoa!...
Ela ficou, meio desmaiada, apertada nos seus braços, até que,
finalmente, as tranças longas dos seus cabelos, que eram como uma
franja de seda nas suas faces macias, flutuaram sob os beijos ardentes
do jovem e aqueles olhos lacrimosos, cheios de amor e confiança,
abriram-se para cruzar com os dele.
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- Quem sou «eu» para perdoar? - murmurou humildemente. - Não
sou vossa para que façais o que quiserdes?
Depois, timidamente, uma mão fininha, levemente rosada,
insinuou-se e pousou-lhe no pescoço.
- Senhor, senhor, se soubésseis o quanto vos amo e quanto tenho
suspirado pelo vosso amor!... Acreditais-me finalmente? Sabeis agora
que não vos traí?
O rosto do jovem pousou nos cabelos negros que caíam pelo peito
dela.
- Sei, sei - respondeu ternamente. - Que Deus me perdoe como tu
me perdoaste... Jasmim, meu amor!... Jasmim!...
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Concessionária: LIVRARIA BERTRAND - LISBOA

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