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Aron, Raymond. Memórias. mas décadas, amigo e parceiro de teorológico OM 1" lp. 1181.

A ca-
2. ed. Rio de Janeiro, Nova discussões- ambos se conhece- pitulação francesa em maio de
Fronteira, 1986. 855 . Trad. ram na Sorbonne nos enos20e lo- 1940 lava-o à Resistência France-
Octávio Alves Velho. go se entenderam, a ponto de Sar- sa no exftiofem Londres), para on-
tre confidenciar a Simone de de se dirigiu em junho de 1940.
Baeuvoir o seguinte: Passados alguns meses. tor-
Só me sinto bem quando Aron nou-se um dos edítores da revista
Nilo é tarefa das mais fáceis fa· chega." Aron fez sua agr6gation I La France Ubre, ao longo de qua-
lar das Memórias de Reymond em 1928, tendo obtido a primeira se cinco anos, assinando artigos
Aron 11906-831. professor, pensa- classificaçilo com uma diferença com o pseudônimo de René
dor e jornalista francês cujas considerável (1 O pontos) sobre Avord. Em agosto de 1939, pouco
idéias e atividades sempre estive· Emmanuel Mounier, o segundo antes da 11 Guerra, Aron foi no·
ram estreitamente ligadas à histó- colocedo. Nesse mesmo ano, Ser· meado "mestre de conferências"
ria política e intelectual de seu tre nilo foi aprovado, tendo obti- na Faculdeda de Letras de Toulou-
pela. Autor de vasta obre - cerca do a agr6gation apenas em 1929, se. Quando retornou, com o fim
de 40 livros e centanas de artigos com um total de pontos superior das hostilidades, optou por não
acadêmicos -, colaborador do ao de Aron. Ainda nesta perte IA seguir a carreira universitária.
jornal Le Rgaro por mais de 30 educação polftica - 1906-39), fala "Para falar cruamente, estava ata-
anos(1947-771, do semanário L'Ex- dos anos passados na Alemanha, cado pelo vfrus polftico. Nilo que
presa (e partir de 19771. professor tendo sido, já em 1931. assistente sonhasse (...) com uma carreira
da Sorbonne e do College de Fran· de francês ne Universidade de Co- polftica. O que me decidiu a intar·
ca, Aron começou e escrever suas lônia, no departamento de llnguas romper a carreira universitária à
reminiscências epenas aos 74 romllnicas. Dois anos depois 131. qual me destinava, meus estudos
anos, depois de vitimado dois 1. 33), assiste à ascensl!o de Hitler (...)foi a transformação de minha
anos antes por uma embolia que à Chancelaria. Os anos em que própria pessoa, em virtude dos
lhe prejudicou ligeiramente a fala permaneceu em Colônia lhe fo- anos em Londres, que passara
e lhe frustrou o projeto de elabo· ram de grande utilidade, tendo si· bem próximo dos atores da Hlstó·
rar outros estudos teóricos - as do atraído pela sociologia e Max ria no exercício do jornalismo. NÔ
memórias, no seu entender, exigi- Weber (do qual foi um dos introdu- fundo, não confessava nem para
ram um "menor esforço intalec- tores na França!, tomado contato mim mesmo, a universidade tal
tual" (p. 7641. Pode ser, mas o fa. com a fenomenologia de Edmund como a conhecens, tal oomo a edi-
to é que Aron trabalhou cerca de Husserl e os trabalhos de Martin vinhei antecipadamente, entedie·
quatro anos nos originais, edita· Heldegger - apesar de n!io se in· va-me (...)Em 1944-46. outra ambi·
dos somente em 1983 pela Jul- teressar muíto, teve o mérito de ção desviou-me provisorlamenta
liard. levá-los a Sartre - e, também, se do que hoje denominarie meu lu·
Divididas em cinco partes- A ligado em polftica lo que Sartra só gar naturat a emblç!io de partici-
educação polftica (1906-39); A ten- faria muitos anos depois).2 par dos grandes debates naclo·
tação da polltica 11939-55); Um Aron, entre 1928 e 1933, se nals, de servir à minha pátria, de
professor na tormenta (1955-89); aproximou da Nouvalla Revua niio ter de suportar impaciente·
Os anos do mendarim (1969-771 e Française, através de artigos es- mente caso a França novamente
O adiamento 11977·821- e um epf- critos para Europe e Ubres Pro· se afundasse no declfnio. Meu
logo, as Memórias silo agradáveis pos, artigos esses que tratam pais estava libertado a restava tu·
de serem lidas. Escritas na primei- "quase todos das relações franoo- do por fazer (. .. ) Minha ambição
ra pessoa, com muita ironia, bom elemiis, da ascensão do nacional autêntica, estritamente intelec·
humor e estilo çativente, o livro de socialismo e da revolução hltlerls· tuat cedeu por uns tempos ao so-
Raymond Claude Ferdinand Aron ta" (p. 835). Já de volta il França, nho do serviço pllbllco e à intoxi·
(seu nome completo) oomeça en- por recomendação de Célestin cação polltica. Eu me pergunto ra-
focando sua infância, como o ca· Bouglé, foi encarregado do ourso ramente acerca do que teria sido
çula de um casal que "partenoia à de Filosofia na Escola Normal Su- minha existência e minha obra se
médie burguesia do judaísmo perior, de ensino primário, mais tivesse ocupado e cadeira de
frencês" (p. 141. Aron fala da seus conhecida pelo nome de Escola Bourdéua, que provavelmenta me
Irmãos (Adrien e Robert), das difi- de Saint-Cioud. E antas que a 11 tarie conduzido à de Pais, nl!o em
culdedes financeiras enfrentadas Guerra Mundial estourasse, ficou, 1955 mas em 1948... " (p. 216-216).3
paios pais ap6s perderem tudo na entre 1937 e 1939, na Universida-
Bolsa em 1929, bem como de sua de de Bordéus, lecionando Sooio- Aron começou a esorever para
formação escolar, ocasião em que logia (p. 167}. Combatam março de 1946, entiio
foi oolega de Jean Maugüé (pro- A segunda parte IA tentação da o jornal mais famoso nos meios li-
fessor da USP logo no infcio da polftica -1939- 55ltem infcio em terários ou pollticos de Paris. Os
constituição desta universidade), setembro de 1939, com o alista- editoriais eram feitos por Albert
em que refinou sua formaçlio cul- mento de Aron no exército fran- Camus e a equipe se compunha
turel através do aprendizado da la- oês para enfrentar as tropas de Hi- de uma plêiade de intelectuais
tim, grego e história e, também, tler - ele se apresentou e partiu que, "saldos de Resistência. nlo
em que conheceu Jean Paul Ser- pera a fronteira belga, ulá onde de- haviam ainda reconquistado seu
tre e dele se tornou, durante algu- veria estabelecer-se o posto me- lugar natural" (p. 228). Na patota

Resenha bibliográfic4 61
se destacavam, entre outros, Al- gina; "Esperei da Sorbonne a dis- vez sofrida e vencida a prova, o
bert Olivier, Jacques Merleau- ciplina que perdera. O nascimen- eleito é aceito por todos, tanto os
Ponty (primo de Maurice, profes- to de uma filhinha mongolóide, que o combateram como os que o
sor de filosofia em Nanterret em julho de 1950, a morte de apoiaram. Outras contendas, ou-
Pierre Kaufman (professor na Emmanuelle* poucos meses de- tras ligações subterrâneas substi-
mesma universidadei,Aiexandre pois, levada por uma leucemia ful- tuem as alianças que se tinham te·
Astruc, Rogar Grenier e Aron - minante, haviam-me mortificado c ido antes da eleiçiio e em função
todos dirigidos por Pascal Pia. As mais do que saberia dizer. Nilo dela" lp. 367). Em meados dos
colaborações de Aron no Combat existe aprendizagem da desgraça. anos 50, cada professor dispunha
impressionaram a Pierre Brisson, Quando ela nos atinge. temos ain- de um assistente, que corrigia as
redator-<:hafe de Le Figaro até sua da tudo a aprender. fui um mau dissertações, dirigia os trabalhos
morte, em 1965. Assim, na prima- aluno, vagaroso e revoltado. Bus- dos alunos e ministrava também
vera de 1947, P. Brisson "conven- quei refúgio no trabalho. Quanto cursos. Pouco mais de uma déca-
ceu-ma a escrever uma série de ar- mais me afundava nesse refúgio da depois, modificou-se o regime
tigos por mês. fui pago por cola- ilusório, mais me perdia a mim para se receber o titulo de doutor
boração publicada" (p. 2421. • mesmo. Consciente de me per- e, ao invés de apenas um, Aron
Aron foi militante, de 1948 a der, sofria mais ainda, além da dispunha de dez assistentes que
1952, do RPF (Reagrupamento do própria infelicidade. feridas que o se ocupavam dos estudantes lp.
Povo francêsl, o partido do Gene- tempo não cicatrizou. Esperei da 373). Nesse meio tempo, a Socio-
ral Charles De Gaulle. Entretanto, Sorbonne um socorro e não fui en- logia também ganha legitimidade,
antes e depois de 1948 e 1952, foi ganado em minhas esperanças. difundindo-se dentro e fora da uni-
militante da Unidade e Comunida- Ela não me devolveu o que o ano versidade. O primeiro curso públi·
de Européias: "Reuniões públicas, de 1950 me arrebatara para sem- co de Aron na Sorbonne teve co-
colóquios, seminários de estudos pre, ela me ajudou a me reconci- mo tema a sociedade Industrial,
foram bastante numerosos duran- liar com a vida, com os outros a onde se enfocava os planos qilin-
te os anos da guerra fria e os anos comigo" lp. 365). qilenais, a coletivlzaçlo agréria,
seguintes para que me lembre de Em seguida, Aron descreve as os processos de Moscou -enfim,
todos" (p. 2601. Continuou no jor- polêmicas e os bastidores da fer- a União Soviética e sua polltica
nalismo, mas, em nenhum mo- vilhante vida acadêmica francesa, que tinha como mata" alcançar os
mento. renunciou ao ensino ou focalizando os embates por oca- Estados U nldos e desenvolver as
deixou de escrever livros. Minis- sião de seu Ingresso como docen- forças de produção num sistema
trou cursos na Escola Nacional de te. suas divergências acerca do socialista". Seus cursos Iniciais
Administração e no Instituto de papel da universidade, sua com- acabam abordando temas que
Estudos Pol!ticos, conferências panhia através de artigos em jor- "aproximavam a Sociologia dita
em universidades estrangeiras - nais e revistas a respeito da ne- acadêmica dos boatos da praça
particularmente em Manchester cessidade de reformas. as bancas pública." Assim, Dezoito lições
e em Tilbingen. Escreveu dois li- de tese. o Maio de 19681tema que sobre a sociedade industrial, A lu-
vros, Le grand schisme (1948) e é retomado no capitulo XVIII, "Ele ta de classes e Democracia e tota-
Lesguerresenchainel1951), "ten- não nos entendeu" ou Maio de litarismo corresponderam aos
tativas de uma espécie de filoso- 19681. etc. Aron afirma que tinha cursos de, respectivamente,
fia imediata da história em pro- 50 anos em 1965. quando concor- 1955--1956, 1966-1967 e 1967-1958
cesso que deveria servir de con- reu com G. Balandler, "uns quin· (p. 3751. Ainda nos anos 60, Aron
texto e de fundamento para meus ze anos mais moço do que eu", cu- <:rlou, no âmbito da VI Se911o da
comentários cotidianos ou heb- ja candidatura fora suscitada por Ecole Pratique das Hautes Etudes,
domadários e para meus posicio- Georges Gurvitch, "que, entre ou- um centro de pesquisas denomi-
namentos" lp. 3111. Le grand tras qualidades, possuía a do 'ati- nado Centro Europeu de Sociolo-
schisme desenhava em grandes vismo universitário' los telefone- gia Histórica, sendo Plerre Bour·
linhas, ao mesmo tempo, o mapa mas, as visitas eleitorais da porta dieu seu secretário-geral e anima-
da política mundial e o da politica em portal", tendo afirmado, "a dor, "na verdade. o diretor efetivo
francesa. Afirmou, neste livro, quem quisesse ouvir, que meus li- até a ruptura provocada pelos
que o relacionamento entre as vros e artigos me destinavam acontecimentos de 1968" {p. 3801.
grandes potências poderia serre- mais a uma parte de ministério do Os anos 1955-1968 foram os
sumido pelas seguintes palavras: que a uma cétedra de sociologia" mais universitários da vida de
"paz Impossível- guerra impro· (p. 36). No contexto da Sorbonne Aron, pois, dos treze cursos que
vável", sábias palavras. qua con· - na verdade, era esse o nome ministrou, cinco serram sob a for-
tlnuam verdadeiras até hoje (p. que muitos ainda davam à Facul- ma de apostila antas de serem edi·
312). dade de Letras da Universidade tados em livros, expôs uma parte
Um professor na tormenta de Paris-, "a eleição, precedida de Paz e guerra entre as na-
11955-19691. com pouco mais de pelas visitas, constitui o equiva- ções,deu no Instituto de Estudos
200 páginas. vem a ser a terceira lente de um rito de iniciação. Uma Pollticos "o primeiro curso jamais
parte das Memórias de Aron. Tem ministrado na França sobre a es-
início com a sua volta à Sorbonne, tratégia nuclear e redigi em três
em 1955. Nãorasistoetranscrevo, N. do A Sua segunda filha, nascida em 1944, semanas, a posterior!, La grand
agora, as palavras da primeira pá- na tngillt4tl'ra, débat. Em 1957, sob otftulo Espoir

62 Revista de Administrrtção de Empre$D$


et peur du siecJe, reuni três en- de amigos e companheiros de tra- talha o perlodo de 30 anos am que
saios sobre La droite, Ja décaden- balho. Análise detalhada dos colaborou no La Figaro, fala de
ce, la guerre; em 1965, para a En- acontecimentos demandaria uma suas concepções acerca da con·
ciclopaedla Britannica, escrevi série de considerações que não é juntura polltica internacional, te·
um roof article, de fato um livro posslvel realizar no momento. ce considerações sobre a "deca·
que só foi publicado na França em Apenas chamaria a atançlío para dência do Ocidente", detalha a
1968, les désillusions du progres. o virulento artigo de Sartre contra
presença dos Estados Unidos no
Em compensação, não utilizei um as posições de Aron, que conside- cenário polftico contemporâneo.
curso de um ano sobre o pensa- rava reacionárlas.e Atacava bas· enfatizando o papel, desempe-
mento polltico de Montesquieu, tante o General Charles de Gaul- nhado durante os anos 70, por seu
um outro sobre o de Spinoza, um le e fazia várias criticas a Aron,amigo Henry Kissinger, e dedica
curso de um ano (duas horas por sendo que nos trechos mais co- algumas linhas sobre sua entrada
semanal sobre Marx. outro ainda nhecidos afirmava:"( ...) o profes-
no College de France, a mais legí-
(duas horas por semana) sobre a sor da faculdade quase sempre é tima instituição acadêmica de seu
igualdade. Essas aulas origina· (...!um cavalheiro que fez uma te· país.
vam-se em parte da atualidade, se e a declamao resto da vida( ... ) A quinta parte (O adiamento -
dos problerrtall que a área nos pro- Quando Aron. envelhecendo, re- 19n-82J é dedicada à embolia que
punha" (pp. 381/382). pete indefinidamente para seus sofreu em abril de 19n, quando ti-
Em outros capftulos desta ter- alunos a idéia da tese. escrita an-nha 72 anos, e que lhe prejudicou
ceira parte (A tragédia argelina, A tes da guerra de1939, sem que os ligeiramente a fala. Dois anos de·
sociedade industrial. O grande que o escutam possam exercer pois. decidiu escrever as Memó-
projeto do general; Paz e guerra), sobre ele o menor controle crítico,
rias. Aron ocupa-se ainda, em 10
Aron transcreve longos trechos exerce um poder real, mas que páginas, com suas colaborações
de seus livros, artigos publicados certamente nlio está baseado em L 'Expresse faz um balanço de
na imprensa e anotações de cur- num saber digno desse nome(...) sua geração, no último capitulo.
sos, merecendo destaque suas to- Dou a minha mão a cortar se Ray- No Ep0ogo(p.811-33J,napanúl·
madas de posição acerca do con- mond Aron jamais se questionou. tima página, faz uma espécie de
flito argelino. Para não me alon- balanço de sua atividade ao l011go
e é por isso que. a meu ver, é indig·
gar, acho que Wilson Coutinho de mais de 50 anos de militância.
no de ser professor(. .. ). Isso supõe
!ver o artigo citado na nota 21 re- sobretudo que cada docente acei- concluindo com as seguintes pa-
sumiu com propriedade o pensa- te ser julgado e contestado por lavras: "Se me entregasse a meus
mento de Aron, a respeito: "Foi aqueles a quem ensina, e que se humores negros, diria que todas
contra a guerra da Argélia, que di· convença: 'Eles me querem intei- as idéias, todas as causas pelas
vidiu o pafs, nos anos 60, sem ape- ramente nu'. É vexatório para ele,quais lutei aparecem postas em
lar para nenhum estribilho ruído· mas é preciso, agora que a França perigo no momento mesmo em
so. Apenas demonstrava com inteira viu De Gaulle todo nu, queque se concorda, retrospectiva-
frieza que era uma bobagem em os estudantes possam encarar mente, em que não andei errado
termos econômicos manter a Ar· Raymond Aron todo nu. Não se na maior parte de meus comba-
gália associada à França. Sartre, lhe devolverão as roupas se não tes. Não quero, porém, ceder ao
ao contrário, queria que os solda- aceitar a contestação." desencorajamento. Os regimes
dos desertassem. 'Sartre faz isto Na verdade, as acusações de pelos quais advoguei e nos quais
porque niio se preocupa com o fa- Sartre com relaç6o a Aron niio alguns niio viam mais do que um
to de que um desertor pode ser fu- eram lá as mais corretas. Em pri- disfarce do poder, por essência ar-
zilado', opôs-se Aron". Em Paz e meiro lugar, Aron sempre deu cur· bitrário e violento, são frágeis e
guerra,s reflete sobre a conjuntu- sos"novos". que a cada dois anos turbulentos; porém. enquanto
ra internacional e a disputa entre !ou no máximo três) inevitavel- permanecerem livres, guardarão
os Estados Unidos e a União So· mente se transformavam em li- recursos insuspeitados. Conti·
viética. No seu entender. as duas vros ou em artigos. Aron pub6cou nuaremos a viver por muito tem·
grandes potências partirão para quase 40 livros, cantenas de arti· po à sombra do apocalipse nu-
um conflito total. mas acabam es- gos acadêmicos e foi colaborador clear, divididos entre o medo que
tabelecendo zonas periféricas on- de dezenas de periódicos univer- inspiram as armas monstruosas e
de deverão ocorrer confrontos sitários além de sua atividade a esperança que despertam os mi·
polltlco-militares (tais zonas se- na imprensa por mais de 40 anos. lagres da ciência" (p. 832).
riam, em especial. o Oriente Mé- Nilo se deve esquecer, também, A maioria das pessoas que ho·
dio, a África e regiões da Asia). que Aron sempre foi um critico do je se encontram na faixa dos 35-40
Além disso, Aron tece uma série sistema de ensino universitário anos não deve ter lido muita coi-
de considerações acerca da estra· francês. o que lhe carreou, duran· sa de Aron. Eu mesmo li apenas
tégia nuclear, conforma já se fa- te certa época, a antipatia de boa As etapas do pensamento sacio·
lou no parágrafo anterior. p11rte dos chamados "mandarins lógico, Dezoito /içlJes sobre 11 so-
Finalmente, merecem ainda ai· do ensino". ciedade industrial e capítulos de
gumas considerações o capítulo Paz e guerra entre as naçlJu e de
"Ele não nos entendeu" ou Maio Na parte quatro (Os anos do O ópio dos Intelectuais. Li, tam·
de 1968(p. 51344). onde Aron nar· Mandarim- 1969-nl. que abran· bém, muitos de seus comentários
ra seu rompimento com uma série ge cerca de170 páginas, Aron de- políticos reproduzidos em O Esta·

Resenha bíhlíográfica 63
do de Silo Paulo. Ardoroso critico "1 •.. ) havia três candidatos, G. Gur- Lyotard, Jean-François. O
do socialismo e cético em relação vitch, J. Stoetzel e eu; J. Stoetzel es-
pecificou que nilo agia como candida- pós-moderno. Rio de Janei·
ao comunismo, Inevitavelmente
to diante de mim, mas os favores do ro, José Olympio, 1986. 123
assumindo posições que pode· diretor da seçllodeFilosofla, J.l.apor· p. Trad. Ricardo Corrêa Bar-
riam ser classificadas como con· te, eram pam ele. Os boletins que se bosa.
servadoras, perdi a conta do nú- inclinaram por ele da primeira vez de·
mero de vezes em que Aron me veriam normalmente ter sido por
deixou irritado. Entretanto, a leitu· mim. As palavras comunicadas por
Davy deslocaram provavelmente as
ra de suas Memórias, mesmo pa- poucas vozes que garantiram o suces~
ra aqueles que desconhecem so de Gurvltch" (p. 240). Oue posição ocupa atualmente
completamente sua obra. não dei· o saber nas sociedades mais de-
xará dúvidas de que Aron foi um 4As p. 243. 244 e segs .. Aron detalha senvolvidas? Esta é a questão
o pepel de P. Briuon na reconstrução
dos expoentes do pensamento li- do Ls Rparo. que logo depois da guer- central do livro de Jean-François
beral contemporâneo e, sempre, ra se tornou. em poucos meses, ~~o lyotard. De acordo com ele, tra·
coerentemente com sua postura matutino nacional"' (p. 243). ta-se de um esforço de situar o co-
critica, desafiou os dogmas da es- nhecimento cientifico na chama-
querda até o fim de sua vida, não SEm português, foi editado pela Uni- da condição "pós-moderna". Es-
versidade de Brasllia ltrad. Sérgio
cansando da sa preocupar com a Beth) com o titulo Paz e guerra entre ta designação é empregada para
dialética entre totalitarismo e de- as naçlles, 482 p. A ed'lçlio original, em referir-se ao "estado da cultura
mocracia. llngua francesa, data de 1962. após as transformações que afe-
taram as regras dos jogos da ciên·
60 artigo de Sartre, publicado na re· ela, da literatura e das artes a par-
vista semanal L8 Nouve/ Observateur
(19 jun. 19681, se intitula As Bastilhas tir do final do século XIX" !Intro-
de Raymond Aron. Ver, em especial. dução. p. XVI. O autor interessa-se
Afrânio Mendes Catani as páginas 631 e632das Memórias, de especificamente pelo jogo que
Professor no Departamento de onde foram extraldas as cltsçi!es que
Administração da Faculdade de produz a ciência hoje e pelo seu
aparecem ao longo deste parágrafo.
Educação da Unícamp. espaço nas sociedades informati-
zadas.
Uma das marcas registradas da
..
pós-modernidade, enquento con-
dição da cultura, está na rejeição
aos metadiscursos ou aos "gran-
des relatos", empregados para
1Agrolgatlon: "é o concurso que dá di- justificar o conhecimento cientlfi·
reito a lecionar nas escolas secundá·
rias. Nas cadeiras da Direito, Medici- co em momentos anteriores. A
na a Farmácia, dáacassoeoensino su- contribuição da ciência para o
perior neoaas especialidades" - No- avanço da humanidade deixa de
ta do tradutor das Msmórias de Aron, ser uma justificativa. A fim de
Octávio Alves Valho. p.16. A agréga-
tlon é constltulda de sete provas, es- mostrar o significado e o alcance
critas e orais, nas queis o candidato dessa recusa às juetlflcativas que
pode atingira um máximo de 110 pon- apelam para as "potencialidades
tos IAron. op. cit. p. 41). Aagrágation emancipedoras ou revolucioná-
em Filosofia, por exemplo, inclui "a rias" do saber, Lyotard examina o
traduçllo e o comentário de um texto
em grego" (p. 29). que considera alterações de pers-
pectiva quanto à questão do pro-
2Ver, a respeito, o artigo de Wilson cesso de legitimação da ciência.
Coutinho (Folha de São Paulo, 10 sat. Em caprtulos dedicados ao en·
1988. p.55). em que são discutidas as
MemórlasdeAroneablografiadeAn- sino e à peequisa, o autor cuida do
nie Cohen-Solal intitulada Sartre: exame da forma pela qual circula
1905-19/IOIPorto Alegre, L&PM 1986, socialmente, e em especial entre
692 p.). os cientistas, a noção de "desem-
penho". Ao analisar o funciona-
3Aron fracessou em 1948, num con-
curso de ingresso à Sorbonne. afir- mento do ensino superior e suas
mendo que Georges Gurvitch foi o as- peculiaridades, demonstra-se
colhido. De acordo com Aron. sua par- que. quando o grande critério de
tlclpeçllo como articulista do LB Figa- pertinência é o "desempenho", o
ro acabou por prejudicá-lo. pois duran-
te sue vislts de candidato aos mem- ensino passa a "fornecer ao siste-
bros da bam:a. Georges Davy interpre- ma social as competências cor-
tou que, se ele se visse obrigado a op- respondentes às suas exigências
tar entre a Sorbonne e o jornal L8 F'~ próprias, que são as de manter
garo, nilo renunciaria eo jornalismo. G. sua coesão Interna. Anteriormen-
Devyrapetiu &IIS81nterpretaçllo na as-
sembléia de professores, "por mallcia te, esta tarefa comportava a for-
ou ingenuideda, e decidiu assim ume mação e a difusão de um modelo
eleiçilo aperteda"'. Aron afirme que geral de vida. que legitimava ordi-

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