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Música popular brasileira no século XIX: O negro choro de Callado

Matheus Jürgen Franz

Resumo: O presente documento inicia com uma breve contextualização histórica da música popular,
levantando dados que influenciaram seus rumos, mas com o enfoque que visa analisar a importância da
magnífica obra do professor de flauta da Academia Nacional de Belas Artes, Joaquim Antônio Callado e
suas contribuições para o desenvolvimento da música popular brasileira no século XIX, além de levantar
dados sobre as possíveis influências que esse grande compositor brasileiro teve no decorrer de sua
atividade musical através de uma breve biografia.

Palavras-chave: Música Popular, Callado, Choro.

1. A música no contexto nacional: Sabe-se que a história da música popular


brasileira recebeu influência dos diversos povos que aqui aportaram, além dos povos
que já aqui habitavam, mas são tidos como maiores influenciadores da música popular
brasileira os negros e os portugueses, povos esses, que já tinham contato desde o século
XV, devido ao motivo de Portugal ser um dos primeiros países europeus a adotarem o
comércio de mão de obra escrava africana, “os primeiros escravos (negros) levados para
Lisboa em 1436 [...] E, ainda em Lisboa, o número de negros subira para 10000 em
1535...” (Tinhorão. José Ramos, 1972: pg. 119). Com a chegada dos portugueses ao
Brasil, chegaram junto a eles os primeiros escravos, e a necessidade de mão de obra
barata para extrair recursos da terra fez com que os portugueses trouxessem para cá
mais e mais escravos. São influenciadores da música também, fatos como, o ciclo do
café e do ouro, que culminaram as atividades econômicas gerando maior importação de
mão de obra escrava, o fim do ciclo do ouro, que gerou excedente de mão de obra
escrava, a Lei Áurea e o processo de urbanização, que juntos, deram liberdade para os
escravos viverem de forma inferior às demais classes, nos guetos das cidades,
trabalhando por salários miseráveis. Nessas aglomerações populares, todas as práticas
musicais que foram preservadas pelos negros desde sua chegada ao Brasil, ou
desenvolvidas aqui através das trocas entre as culturas, agora, tomavam maiores
proporções, pois esses passavam a ser executantes e ouvintes, juntamente dos
portugueses, das mesclas geradas da junção de batuques, umbigadas e canções, tocadas
a cordas e percussões, gerando novas formas e formações musicais, como grupos de
samba, maxixe, lundu e o objetivo desse trabalho, o choro.
“A impossibilidade de contar com diversões semelhantes às da população
branca das camadas elevadas – teatro, bailes públicos, recepções oficiais em
palácios, festas em casarões senhoriais, saraus lítero-musicais, etc. – levou os
negros, mestiços e brancos das camadas mais baixas do Brasil a inventar
sempre os mais variados gêneros de festas ao ar livre”. (Tinhorão, José Ramos,
1972: pg. 161)

2.Joaquim Antônio Callado: Nascido no Rio de Janeiro (capital do Império)


em 1848, iniciou suas atividades musicais desde cedo, tendo aula de piano e flauta com
seu pai que era talentoso músico e mestre da Banda Sociedade União de Artista,
segundo afirmações do professor Carlos Fernades (Fernandes, Carlos.
http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/JoaqASCa.htm) Callado estudou composição e
regência com Henrique Alves de Mesquita quando ainda era criança (1856).
Apresentava-se com freqüência nas atividades musicais familiares, como festas e saraus,
e teve sua estréia em concerto, tocando flauta, aos 15 anos, apresentação essa para a
família real. Compôs diversos gêneros musicais populares, polca Querida por todos
(1869), Lundu Característico (1871), além de quadrilhas, valsas, e polcas. Em 1871 foi
nomeado professor de flauta do Conservatório Imperial de Música, assim como do
Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Obteve a condecoração no grau de
Comendador da Ordem da Rosa (1879) e patrono da cadeira n.22 da Academia
Brasileira de Música.

3.O choro e Callado: A prática instrumental denominada choro, era também


conhecida na época, pelo termo pau e corda, termo esse que já era utilizado por algum
tempo quando, por volta de 1870, Joaquim A. Callado funda o seu grupo:

“A bibliografia brasileira é unânime ao escolher para o nascimento simbólico


do choro, os anos de 1870, período em que Joaquim Antônio da Silva Callado,
professor de flauta da Academia Imperial de Belas Artes formou o “Choro
Carioca”, grupo em que o solista (flauta) era acompanhado por violão e
cavaquinho executados por músicos populares.” (Taborda Marcia, 2008: pg. 3)

O choro possuía um tema, em sua maioria na forma rondó, o qual sofria


variações improvisadas pelo condutor da linha melódica (flauta) e variações nas linhas
do baixo gerando uma idéia contrapontística à linha melódica da flauta. Como
importante característica do choro, “o que mais se exigia e o que mais se apreciava nos
acompanhadores, sobretudo de violão e cavaquinho, era o ouvido, aptidão consagrada
na expressão tocar de ouvido” (Taborda Marcia, 2008: pg.5), sendo que muitas peças
possuiam essa finalidade jacosa e serem difíceis de seres acompanhadas, sendo assim
intituladas como “derrubando violões” (Joaquin A. Callado), ou “Não caio Noutra”
(Ernesto Nazareth). Composto em compasso binário (2/4), com acentuação no segundo
tempo e o uso demasiado de sincope. Elementos esses que são comuns a vários gêneros
da música popular brasileira, como samba por exemplo. Autores como Mário Séve
trazem alguns modelos práticos das características do choro, estudos das variações
aplicáveis a essa prática, e patterns do choro.

“O choro, como outros gêneros musicais, possui códigos próprios, responsáveis


por traços de sua personalidade, que geraram ao longo de sua história um
vocabulário próprio [...] esses, agrupados e arranjados caracterizam sua
composição” (Séve Mário, 1999: pg. 6)

Um gênero musical que sobrevive até os dias de hoje, considerado por muitos a
maior manifestação da música brasileira instrumental, obteve seu marco de início com o
grande Joaquim Antônio Callado e seu grupo de chorões, junto de muitos outros
compositores que o trabalho não aborda, tem claros elementos da miscigenação das
culturas africanas e européias instaladas no Brasil desde a colonização.

Referências bibliográficas:

Livros:

Tinhorão, José Ramos. Música Popular: de índios, negros e mestiços. Petrópolis, RJ,
Brasil. Editora Vozes, 1972.

Séve, Mário. Vocabulário do choro: Estudos e composições. Rio de janeiro, RJ, Brasil.
Editora Lumiar, 1999.

Periódicos:

Taborda, Marcia.Choro, uma questão de estilo? Música em contexto, Brasília, 2008. n°


1.
Sites:

Fernandes, Carlos. Biografias, Joaquin Antônio Callado. Publicado em 10 de janeiro de


2011. http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/JoaqASCa.htm Uso do arquivo dia 01 de
outubro de 2011.