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Para ANGELO JORGE FORASTIERE SILVEIRA A HONESTIDADE é 0 tino impulso a comandar cada esto daquele homem enquanto ele coloca seis balas no Taurus, trinta ¢ oito, eano curto, Nome, iade © profissio passam a ser informagies.dispensaveis diante da firmeza com que 4 tarefa € posta em pri ca. No caso dele € possivel que a justiga seit uma an- titese da bondade. Embora nem todos os seres justos. sejam maus, a maioria dos seres injustos sio bons Devido a isso prefere-se a bondade a justga, ¢ quem afirma 0 contririo treca favores com a memtira. A bbondade sabe de cor e salteado as leis do prazer e toma a desonestidade atraente. A justia € cepa, en- ‘quanto que a bondade & miope. Dai a superioridade ccanhestra dos bons sobre 03 justos. ‘O domingo & chuvoso, a tarde é fia, as ruas estao desertas © o homem do Taurus se sente justo. Desce pelo elevador de servigo e caminha sete quadras an- tes de pegar o taxi, Salta dez mirutos depois e anda por mais trés quadras. Digere uma sensagao de vit6- ria na contagem das pulsagdes apressadas, Os olhos. se fixam no que interessa: 6 edificio de tijlos aparen- tes. Aproxima-se da porta dos fundos. Nao hi teste- ‘munhas. Ele sabe que as coisas terminarao daquele {ito porque € a tiniea maneira de recuperut 0 eqtil brio social, cujo prémio € a reconquista da familia es- 38 tragalhada de modo tio desumano. Nio suportava tropesar no olho do filho menor, grudado numa vi- ‘rine de bringuedos, ou as condenagdes da mulher. ‘sob insisténcia dos cobradores. Quando se viu abandomido, nao chorou como pretendia, mas perm tin que a revolta se oficializasse e Ihe indicasse a me- Thor providéneia a ser tomada. Agora, is trés da tar- de, faltam $6 alguns minutos para executé-la. Tudo The soa como um réquiem para a desgraca. Sobe os ‘dois lances da escada e bate quatro vezes na porta do. ‘apartamento duzentos cinco. Um velho aparece, sorri e manda o homem do Taurus entrar. Sussurr ‘mea diizia de formalidades sobre 0 domingo e a cchuva e enaltece a visita, vislumbrando 9 cumpri- ‘mento de alguma promessa. homem do Taurus se- ‘gue o dono da casa até a sala atulhada de moveis ant ‘quados ¢ recusa um oferecimento de licor, na0 30 pelo medo de impressdes digits, como também pela repulsa ao cilice empoeirado. Aiém do mais, os se- ‘aundos sio escassos. Enquanto 0 velho repoe a gar- ‘afa na cristaeira, o homem do Tairus tira revélver do bolso, embvullaro una alofada Micid © pon two dis costas da vitima, Os trinta centimetros entre 0 ‘atilho e 0 alvo favorecem a pontaria do assassino, tiro € seco e eficaz. O corpo do velho se parte a0 ‘meio e desmorona entre as mios do homem do Tau- ‘us. Quase com carinho ele 0 acomoda no tapete’a tempo de assistir aos tremores finais da cabega. O. olhar ja esta morto, No fim de um minuto permane- ‘cem 6 silencio e o cheiro de pélvora. Ambos suport: veis. O homem do Taurus guarda a arma, calea um par de lavas de Iie inicia uma racional inspegio as sgavetas. Encontra partes de cachimbos, um album dg, 9 retratos amarclados, dois isqueiros defeituosos, uma ccaneta sem pena, quatro anéis de prata, um deles com ‘um Gnix retangular incrustado, um relogio de bolso de fouro macigo, uma dentadura rachada, um envelope lamarrotado contendo um cacho de cabelos pretos. tum canivete enferrujado e, numa caixa com cantonei- ras de bronze, trinta e sete magos de notas de mil. Conta sessenta e vito notas e eparte-as nos bolsos do palets. Em seguida, retira de sua carteira uma nota de ‘uinhentos, uma de cem, outra de cinquénta e colo ‘caeas na caixa. Abre mais duas gavetas localiza uma pasta de papelio com oito promissérias. Retira a que sté com sua assinatura e mete-a no bolso da calea. ‘Guarda a pasta e 0 dinheiro, fecha as gavetas, assus- ta-se com a mancha de sangue que escurece o tapete ce sai. Desce a escada, aspira o ar da rua como quem faz um exercicio respiratsrio e caminha mais trés ‘quadras. De repente nota que 0 pulso esta recupe- ‘ando o ritmo normal. 4 vida também. Mais cedo ou ‘mais tarde conseguird outro emprego. Pega um dni ‘bus e senta-se num dos bancos da frente, a0 lado da > Costava de apreciar a cidade vazia. Por um ins- tante lembrou-se dos colegas que riam dele pelo fato ‘de preferir condugbes mais baratas, apesar de ser sol- teiro ¢ no ter de economizar. Mesmo sem compro- ‘missos de familia, considerava um absurdo esbanjar 0 salrio com taxis e outras bobagens. Mas nao dava importincia aos colegss. Aquele dnibus tinha a van- tagem de deixi-lo bem em frente ao centro de pesqui: sas, As sete em ponto jé se encontrava na Avenida Pasteur, em plena sala de reunides. Como sempre, 0 primeiro a chegar. Ble e a inseparavel pasta de couro © ‘marrom, lembranga da segunda turma de alunos. Os ‘outros, os que 6 andavam de carro, manteriam 0 atraso costumeiro. Ninguém gosta de trabalhar 208 sdomingos, Com ele se dava 0 contririo: detestava perder os domingos na cama. Portanto, abre a pasta, Fetira um volume com quatrocentas e onze paginas ‘datilografudas ¢ passa a examins-lo. Pensa em possi veis corregées a serem efetuadas. Nas formulas, nao. E claro. Se houvesse acusagdes, ele saberia como de- fender-se. Afinal, os colegas formavam o mais simpa- tico bando de idiotas. Visdes estreitas demais, inca- pazes de alcangar todos 0s niveis de uma letura filo- S6fiea. No fundo, recusavam qualquer tcoria a res- peito da intuigto como celula mater das grandes des- ccobertas. Uma vez, um deles foi explicito: retirou-se gritando que nio existe intuigio quando se trata de ciéncia. E acrescentou que nesse tipo de pesquisa, lsofia é pura estupidez e que s6 os cientistas de men- irinha flosofam. Mentirinha foi ofensivo. No dia se ‘euinte, apareceu com uma linguagem desfeita em pausas —"Doutor,... eu sei perfeitamente aonde senhor ‘quer chegar. Mas desse Jelto,.. desse jeito € bem possivel que ndo chegue a parte alguma. Seu método e trabalho €... €inseguro. Por outro lado, as verda- des... as verdades cientificas nao t€m nada a ver com ‘essas... com esas... vent ‘Nesse ponto as pausis cessaram ¢ 0 discurso re- adquiriu o vigor da véspera: —'Nosso caso € muito simples, doutor. As res postas que procuramos vio ser fornecidas pelo feraseépio mais infantil. pela reagdo quimica mai ‘lementar © por um sistema de equagoes da terceira série ginasial. 6