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1982-1670

NÚMERO 96 JUNHO 2015

ECONOMIA
COLABORATIVA
A emergência
de uma sociedade
pós-capitalista

Tendências
O paradigma deve
mudar em 50 anos
Entrevista
O esvaziamento
das instituições

Tecnologia
Abolindo os
intermediários
EDITORIAL Use o QR Code para acessar Página22
gratuitamente e ler esta e outras edições ÍNDICE
Caixa de entrada
Economia reinventada
Não vamos falar de escassez; é a abundância que rege o assunto desta
edição. Uma economia irrigada por conhecimento, informação,
20 COMENTÁRIOS DE LEITORES
RECEBIDOS POR E-MAIL, REDES
SOCIAIS E NO SITE DE Página22

INBOX
ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS
criatividade e tempo livre capaz de transformar continuamente DE SÃO PAULO DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS [Ed 95 – Cidades Vivas]
DIRETOR Luiz Artur Brito
Queria dar os parabéns pelo número
a matéria, tal qual a natureza faz. Como é dito na Entrevista, os sobre cidades vivas, a excelente
recursos podem ser escassos, mas a capacidade de transformação é entrevista do Nabil [Bonduki], mas
também a quantidade de avanços
infinita. O tempo em que uma furadeira está parada é muito superior pontuais que buscam recuperar o
ao que está em operação, gerando oportunidades na ociosidade – convívio agradável, a cidade como
COORDENADOR Mario Monzoni
VICE-COORDENADOR Paulo Durval Branco espaço cultural, o resgate do direito
basta conectar pessoas e seus interesses e extrapolar esse exemplo COORDENADOR ACADÊMICO Renato J. Orsato
da criança ao espaço urbano, tantas
emblemático para uma economia inteira. JORNALISTAS FUNDADORAS Amália Safatle e Flavia Pardini ideias boas. O país se constrói
EDITORA Amália Safatle
também pela base, cidade por cidade.
A economia colaborativa, dinamizada de forma inédita pelo EDIÇÃO DE ARTE Marco Antonio
Ladislau Dowbor
www.vendoeditorial.com.br
advento da internet, trabalha com a fartura, e esta não é única ILUSTRAÇÕES Flavio Castellan (seções)
EDITOR DE FOTOGRAFIA Bruno Bernardi
REVISOR José Genulino Moura Ribeiro
Belém possui boas experiências de
premissa do capitalismo industrial que vem derrubar. Essa GESTORA DE PRODUÇÃO Bel Brunharo ocupação, como são o Batuque do
sociedade emergente, que muitos chamam de pós-capitalista, COLABORARAM NESTA EDIÇÃO Mercado de São Brás, o Batuque na
Bruno Toledo, Diego Viana, Eduardo Shor,
Praça e o Circular Campina-Cidade
suplanta a posse de bens e também a ideia de que o homem não Elaine Carvalho, Fabio F. Storino, Fabio Otuzi Brotto,
Fábio Rodrigues, Fernanda Macedo, Gabriela Alem, Velha, por exemplo. Merecem ser
Gisele Neuls, João Meirelles, Ivan Ryngelblum, Karina Ninni,
passa de um ser competitivo. conhecidas! Amarildo Júnior

BRUNO BERNARDI
Magali Cabral (textos e edição), Sérgio Adeodato
ENSAIO FOTOGRÁFICO Duncan Rawlinson
Com isso, além da busca de eficiência, vemos um resgate das Existem projetos arquitetônicos
JORNALISTA RESPONSÁVEL

relações interpessoais de troca, apoio e cooperação que antigamente Amália Safatle (MTb 22.790) e urbanísticos para a cidade que
CAPA excluem sistematicamente certas
se viam em nível comunitário, mas que se perderam conforme a ANUNCIE

população cresceu e o mundo tornou-se mais complexo. Tal herança


COMERCIAL E PUBLICIDADE
Nominal Representações e Publicidade
Mauro Machado
A furadeira ou o furo? pessoas, categorizando-as e
tornando-as invisíveis. São projetos
mauro@nominalrp.com.br
Ao suplantar premissas como a posse de bens e a competição, a silenciosos que omitem o genocídio
é recuperada pela era digital, que de certo modo reaproximou as (11) 3063.5677
economia colaborativa abre um universo novo, vasto e contraditório social pelo qual tanta gente passa
REDAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO
pessoas da aldeia global e criou mecanismos capazes de gerir a Rua Itararé, 123 - CEP 01308-030 - São Paulo - SP cotidianamente. Caminhar em Belém
(11) 3284-0754 / leitor@pagina22.com.br
12 Economia Verde Com a aproximação entre academia, agências pode ser uma aventura perigosa se tu
reputação e a credibilidade. Tudo isso de forma autorregulada, sem www.fgv.br/ces/pagina22
não estás "gozando de plena saúde",
de fomento e parceiros, as descobertas financiadas pelo contribuinte podem
CONSELHO EDITORIAL
instituições ou instâncias hierárquicas de poder. Ana Carla Fonseca Reis, Aron Belinky, ultrapassar os muros da universidade e retornar para a sociedade aquela tão cara ao sistema produtivo
José Eli da Veiga, Leeward Wang, capitalista. Larissa Maria
Se essa novidade vai resistir e se tornar dominante ainda não se Mario Monzoni, Natália Garcia, Pedro Telles,
Roberto S. Waack, Rodolfo Guttilla 14 Entrevista "A matéria é escassa, mas a capacidade de transformação
sabe, até porque talvez estejamos no meio da transição. Há quem é infinita", diz Camila Haddad, fundadora da plataforma Cinese de aprendizagem [(Re)Ocupai – ed. 95]
IMPRESSÃO HRosa Serviços Gráficos e Editora
TIRAGEM DESTA EDIÇÃO: 5.800 exemplares e um dos expoentes da nova geração que pensa e age de forma colaborativa Emocionante! A gente chega lá.
preveja uma mudança de paradigma acontecendo em até 50 anos, Os artigos e textos de caráter opinativo assinados por
Regina Ferreira
colaboradores expressam a visão de seus autores, não

como o economista e escritor americano Jeremy Rifkin. Claro que representando, necessariamente, o ponto de vista de
Página22 e do GVces.
34 Tecnologia De que forma o novo aparato tecnológico e organizado
em rede impulsiona o ecossistema econômico fundamentado nas noções de [Novíssimo Valor – ed. 95]
esse movimento tem imperfeições e contradições, mas é um sopro de Excelente texto do nobre José Eli
colaboração e de compartilhamento
inovação que vem colorir estes tempos soturnos de crise econômica, da Veiga. Demonstra que há muito

social e ambiental, dando sinais de que a inflexão é possível.


FSC 42 Tendências A virada do capitalismo industrial para uma economia tempo alguns já pensavam "fora da
predominantemente colaborativa ainda deve demorar, mas previsões como caixa". Prosperitate Consultoria
Boa leitura! A REVISTA Página22 FOI IMPRESSA EM PAPEL CERTIFICADO, PROVENIENTE DE
REFLORESTAMENTOS CERTIFICADOS PELO FSC, DE ACORDO COM RIGOROSOS
a do americano Jeremy Rifkin indicam ser inevitável
PADRÕES SOCIAIS, AMBIENTAIS, ECONÔMICOS, E DE OUTRAS FONTES CONTROLADAS. Valiosa reflexão e "arqueologia" do
Página22, NAS VERSÕES IMPRESSA E DIGITAL,
SEÇÕES CAPA: DUNCAN RAWLINSON termo "sustentável" no texto do Prof.
ADERIU À LICENÇA CREATIVE COMMONS. ASSIM,
É LIVRE A REPRODUÇÃO DO CONTEÚDO – EXCETO
IMAGENS – DESDE QUE SEJAM CITADOS COMO FONTES A PUBLICAÇÃO E O AUTOR.
José Eli da Veiga. Rubens Harry Born
6 Notas 9 Análise 10 Antena 11 Web 26 Retrato 33 Artigo 40 Brasil Adentro 41 Artigo 49 Coluna 50 Última

4 PÁ G I N A 2 2 J U N H O 2 0 1 5 PÁ G I N A 2 2 J U N H O 2 0 1 5 5
NOTAS
COMMONS

Um projeto no Equador
P
roduzir uma infraestrutura e uma pretende ser um repositório de propos- que se diferencia tanto da competição
ética que sustentem uma econo- tas e experiências que buscam “basear do mercado quanto do planejamento
mia sustentável, fundada sobre os a sociedade civil no conceito de com- central. Janice Figueiredo atua em um
comuns, está na raiz da Commons Tran- mons”, o que conduziria a “uma socie- de seus principais projetos, em curso
sition, iniciativa ambiciosa dos ativistas dade mais igualitária, justa e ambiental- no Equador desde 2013. Nomeado Flok
Michel Bauwens, fundador da P2P Foun- mente estável”. (Free-Libre Open Knowledge), o projeto
dation, John Restakis, George Dafermos, Segundo os propositores, o com- parte da coordenação de comunidades
e a brasileira Janice Figueiredo. mons, associado à dinâmica P2P, repre- locais do país para propor ao governo
A plataforma commonstransition.org senta um modo de organização social políticas públicas que valorizem o livre
intercâmbio de conhecimentos ances-
trais (acesse floksociety.org).
Segundo a ativista, “esta primeira
experiência Flok é uma semente que foi
plantada e um patamar que foi cruzado.
Uma primeira tentativa de oferecer um
modelo alternativo ao sistema capita-
lista foi proposta e pode inspirar qual-
quer pessoa, cidade, coletivo da socie-
dade civil, região. E pode ser replicado,
modificado e adaptado de acordo com
diferentes contextos e necessidades”.
Janice Figueiredo acrescenta que o
projeto tem suscitado o interesse de ou-
tros países, porque “o mundo precisa de
mudanças profundas. Não é mais uma
opção, e sim uma necessidade”.
Ela estima que “o ser humano é in-
trinsecamente generoso e solidário.
Um movimento de transição para os
comuns é uma possibilidade real de res-
ANA GUZZO

gatar a cooperação humana e atingir a


harmonia com a natureza”. – Diego Viana

ÁGUA E PLANEJAMENTO URBANO


Cidades precisam se preparar para incertezas hídricas, diz OCDE
A extensão e gravidade das crises hídricas enfrentadas por São o financiamento da atualização da infraestrutura e a governança
Paulo e Califórnia demonstraram que as cidades precisam começar envolvendo os recursos hídricos, que sofre com a falta de conver-
imediatamente a se preparar para o futuro. Um estudo publicado gência das normas que regem cada setor econômico.
pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econô- A boa notícia, segundo a OCDE, é que os países possuem as prin-
mico (OCDE) mostra que, embora a maioria das metrópoles tenha cipais competências para lidar com estas questões, mas a organiza-
sistemas que garantem a distribuição de água, elas não estão pron- ção ressalta que a situação exige uma atuação coordenada entre os
tas para lidar com desafios que virão (acesse em goo.gl/5UefYY) governos nacionais, municipais e o setor privado, através de planos
Entre as situações previstas está a incerteza em relação à dis- pragmáticos e de longo prazo. “As cidades nos países da OCDE que
ponibilidade de água, em decorrência da competição por acesso planejam os recursos hídricos para os desafios futuros entendem
com produtores rurais, indústrias e meio ambiente, além da pers- que atrasar ações pode aumentar os custos e limitar as opções para
pectiva de mudanças no clima. Outros problemas apontados são se adaptar a riscos”, dizem os autores do estudo. – Ivan Ryngelblum

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NOTAS
JOÃO MEIRELLES FILHO* E THIARA FERNANDES**
*Empreendedor social e escritor, dirige o Instituto Peabiru em Belém (peabiru.org.br)
**Pesquisadora do Instituto Peabiru, trabalha com agricultores familiares e grupos sociais tradicionais
análise

Crianças e adolescentes na Amazônia


Olha isso! FABIO F. STORINO
Doutor em Administração Pública e Governo Apesar de os indicadores sociais deste grupo terem melhorado na média nacional,
a situação é gravíssima na Região Norte, exigindo atenção do Estado e de empresas
Compartilhando a rua

S
erá infrutífero tratar da sustentabilidade na Amazô-

N
a coluna da edição 94 (“O direi- nia sem enfrentar as necessidades das crianças e dos
to de andar”, bit.ly/P22ed94g), adolescentes e lidar de frente com a cultura machista.
falei das ruas do início do século Se, nos últimos 20 anos, o Brasil conseguiu melhorar
XX, ocupadas simultaneamente por to- os indicadores sociais para este grupo, a situação na Amazô-
dos os modais (pessoas a pé, a cavalo, nia é gravíssima. Descrevemos questões que exigem atenção
bicicletas, carros, carroças etc.). Hoje do Estado e de empresas, levando em conta que as dimensões
adotamos o modelo de segregação continentais, a dispersão populacional e seu isolamento exigem
completa, com ruas exclusivas para maior perseverança e capilaridade das políticas públicas.
veículos ou para pedestres. Seria lou- A situação torna-se mais preocupante quando tratamos de
cura imaginar voltarmos para um mo- indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais, com
delo de uso compartilhado. Ou não? mais de 5 milhões de amazônidas. Mesmo o que parece sim-
A segregação do espaço público ples – como o registro de nascimento em cartório (primeiro ato
por tipo de modal privilegia a eficiência, de cidadania) hoje gratuito – torna-se dramático. Enquanto no
o fluxo. Por conta de sua formação em Brasil registram-se 94,74% das crianças até um 1 ano de vida,
Engenharia, essa era a principal preo- na Amazônia quase 20% das crianças não têm registro e, entre
cupação do pesquisador Daniele Quer- indígenas, 40% . Apresentamos a seguir quatro indicadores,
cia. Ao mudar-se para Boston, Quercia entre os mais críticos:
adotou uma bicicleta com seu meio de

1
transporte e, diariamente, pedalava Exploração sexual infantil Altamira, Barcarena, Juruti, Parauape- doméstico é ainda mais velado, visto que
para a vizinha Cambridge seguindo a Não se restringe a regiões isoladas. bas e Paragominas, no Pará, vivem um não há registros. São temas urgentes
rota sugerida pelo aplicativo de mapa, Esse crime ocorre de forma velada e sis- boom econômico, mas registram índices para campanha pública. Em paralelo, é
FIETS BERA AD

que oferecia a “rota mais curta” ou a têmica, sem punição aos abusadores. A de violência incompatíveis com sua capa- preciso agir diretamente com as meni-
“rota mais rápida”. maioria das mães e de cuidadores des- cidade material de agir. nas em situação de trabalho, para que
Cansado da rotina, resolveu explo- conhece seus direitos e os canais de de- reconheçam seus direitos.

3
rar uma rota alternativa, e encantou- to, na verdade, tornavam as ruas mais europeias – e, recentemente, algumas núncia. Muitas mulheres que passaram Exploração do trabalho doméstico

4
-se com as ruas pacatas e arborizadas inseguras. Desenvolveu então uma so- cidades americanas – vêm testando as por esse tipo de abuso, ao não encontrar Enquanto o Brasil evolui nos direitos Gravidez na adolescência
do novo percurso. Percebeu, então, lução simples, porém contraintuitiva: ruas compartilhadas. uma solução, entendem que, mesmo dos trabalhadores domésticos, a região Embora, segundo o IBGE , a taxa
que havia mais coisas a otimizar além removeu todos os dispositivos de con- Entretanto, há grupos que se com a denúncia, nada se resolve. Daí a reproduz práticas da escravidão. Anúncio nacional seja decrescente (de 20,9%
de tempo ou distância. Em sua palestra trole de tráfego – semáforos, sinaliza- opõem à criação de espaços compar- lei do silêncio imperar nas pequenas vi- no Diário do Pará (em 2 de maio) causou em 2000 para 17,7% em 2011), o índi-
TED (goo.gl/GDB2DK), Quercia descre- ções, demarcações no solo (inclusive tilhados, como os que representam las e cidades amazônicas. A fragilidade polêmica: “Casal evangélico precisa ado- ce mantém-se alto na Região Norte (de
ve um projeto cartográfico alimentado faixas de pedestre), meio-fio –, de ma- pessoas com deficiências ou mobilida- dos conselhos tutelares, que raramente tar uma menina de 12 a 18 anos que resi- 25,2% a 23,2%). No Pará e Maranhão,
coletivamente e baseado em emoções neira a tornar menos clara a fronteira de reduzida. O modelo tampouco ser- recebem atenção da gestão municipal, da, para cuidar de uma bebê de 1 ano que mais da metade das grávidas estava na
humanas, indicando o caminho mais entre calçada e leito carroçável (por ve para todas as ruas de uma cidade agrava a situação. possa morar e estudar, ele empresário faixa entre 10 e 15 anos. Em cidades das
bonito, mais tranquilo ou mais feliz. onde circulam veículos motorizados), – Monderman defendia que houvesse e ela também empresária. Apresentar- regiões mais excluídas, como o Marajó,

2
A segregação também foi supos- obrigando os usuários daquela rua a um estudo prévio de engenharia de trá- O impacto das grandes obras -se com os Pais ou Responsável (sic)” . conforme o estudo Escuta Marajó – Ca-
tamente concebida para privilegiar a negociar passagem entre si. fego, como no caso de qualquer outra Nos territórios de influência de hi- Mesmo desmentido, o anúncio demons- choeira do Arari, Curralinho, Santa Cruz
segurança de veículos, ciclistas e pe- Essas medidas de espaço compar- intervenção urbana. drelétricas, mineração, portos etc., com tra o forte machismo e a banalização do do Arari e São Sebastião da Boa Vista –,
destres. Tal pressuposto também tem tilhado (shared space) “moderam” os A despeito de obstáculos, é possí- presença majoritária de homens entre trabalho infantil doméstico, que recai 35% das grávidas são adolescentes, o
sido colocado em dúvida por arquite- veículos motorizados e, assim como vel entender o conceito dos espaços 18 e 35 anos morando longe de suas em meninas desde os 10 anos. Meninas dobro da média nacional. É um indicador
tos e urbanistas. outras medidas de traffic calming, aca- compartilhados como um manifesto famílias, a exploração sexual infantil é “adotadas de forma ilegal”, porque são relacionado à pouca esperança, à falta
Por muitas décadas, o holandês bam por reduzir o número de aciden- político mais do que de engenharia de ainda maior. Líderes na arrecadação de pobres e servem para “criar” os filhos de oportunidade e de um projeto de vida
Hans Monderman foi um típico enge- tes. O objetivo é fazer com que o tráfe- tráfego, reforçando a noção de espa- impostos e royalties de gás, petróleo, de famílias no meio urbano, são mais co- e educação. Para seu enfrentamento, é
nheiro de tráfego, até perceber que go seja integrado às demais atividades ços públicos, cujo uso precisa ser pac- bauxita (alumínio) e minério de ferro, os muns do que parece, e a prática é aceita preciso que a educação sexual alcance as
algumas das “melhorias” implementa- humanas, em vez de segregá-lo. tuado e servir à qualidade de vida de municípios de Coari, no Amazonas, e de socialmente. No meio rural, o trabalho residências e as escolas.
das em nome da segurança no trânsi- Na última década, várias cidades seus habitantes, não erodi-la.
Ministério da Saúde, 2009, Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição de Povos Indígenas. O dado para a Amazônia é 82,03% e para os indígenas, 57,9% Veja em goo.gl/cgNcL5
IBGE, 2012, Estatísticas do Registro Civil. Gravidez até 19 anos Escuta Marajó – Diagnóstico Socioeconômico do Marajó, Instituto Peabiru, 2012. Acesse em goo.gl/VjQT3c.
A fonte específica deste dado é o Ministério da Saúde – Sinasc, publicado em 2009

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ANTENA por Bruno Toledo por Elaine Carvalho WEB
Amazônia desafia Programa ABC SINTONIZANDO PRATA DA CASA VALE O CLICK

Produzir a própria energia


N
CRISE HÍDRICA É DESTAQUE
a estratégia de redução HOSPEDAGEM ECO

MINISTÉRIO DA DEFESA/FLICKR (CREATIVE COMMONS)


DO "BODE NA SALA"
de emissões estipulada TripAdvisor Ecolíderes é um

SCHÖPE/SECRETARIA SUSANA / WIKIMEDIA


Reunindo representantes de
pelo governo federal programa para viajantes em
diferentes setores e áreas
para a agricultura brasileira busca de hotéis com boas
de conhecimento, Página22
até 2020, a Amazônia Legal é práticas ambientais. Lista as
promoveu em 27 de maio
essencial para a obtenção de ações de cada hospedaria (como
a 2ª edição do Bode na Sala,
resultados positivos. No en- comida orgânica, consumo
desta vez sobre a crise
tanto, essa região abarca ape- de água e impacto local) e as
hídrica que aflige diversos
nas 20% do total de recursos classifica em bronze, prata,
estados brasileiros desde
contratados pelo Programa platina e ouro. Disponível
o ano passado. O evento
ABC – a principal linha de fi- no site da TripAdvisor,
foi uma oportunidade
nanciamento para a agricultu- em bit.ly/1Czcww5.
importante para discutir o
ra de baixo carbono no Brasil
tema de forma construtiva e
– desde a safra 2010/11 até a JANTAR COLABORATIVO

D
reflexiva, considerando os
safra 2014/15, aponta relatório publicado pelo ao arco de desmatamento da Amazônia Legal. e novembro de 2012 até março deste Nesse sistema de geração distribuída, o Conheça sites que reúnem
problemas e as visões dos
Observatório ABC em maio. A cidade apresenta os mesmos problemas ano, o número de pequenos consumido- dono do imóvel pode compartilhar a energia estranhos interessados
diversos atores envolvidos
Sozinha, a Amazônia Legal – que compreen- identificados nacionalmente em estudos ante- res que geram a própria energia, e com com outro local (casa e escritório ou casa em jantar juntos. O local é a
nessa questão.
de nove estados do Norte, Centro-Oeste e riores do Observatório ABC: além da regulari- fontes limpas, passou de 3 para 534 no Brasil. própria e de filhos, por exemplo), desde que casa de quem vai cozinhar,
Confira os destaques em
Nordeste – possui o potencial de atingir a meta zação fundiária, a baixa atuação e capacitação Com 99 dos projetos instalados, Minas Gerais ambos estejam registrados em seu nome; e o os convidados são turistas.
goo.gl/t74CXr.
de redução de carbono para a agricultura em da assistência técnica, a falta de proximidade lidera a lista dos estados. São Paulo tem 11 e excedente vai para a rede pública, ajudando a Pela internet são fechados
2020, estipulada no Plano ABC (133,9 milhões do Grupo Gestor Estadual do Plano ABC aos outros 10 em avaliação pela AES Eletropaulo. suprir a demanda nacional. grupos, a data e o pagamento
REVITALIZAÇÃO DA PRAÇA
a 162,9 milhões de toneladas de CO2eq), em produtores locais e a pouca divulgação da li- A maioria dos adeptos (69%) é residência – por Um sistema com sete telas solares foto- ao anfitrião. Oportunidade
GINO STRUFFALDI
cerca de três anos. "Esse resultado só seria al- nha de crédito do Programa ABC dificultam o pagar o quilowatt/hora mais caro, é o grupo voltaicas (tecnologia mais usada ante a eóli- para um intercâmbio cultural e
Inspirados pelo desafio
cançado caso as tecnologias de baixa emissão acesso ao financiamento. que tem maior economia – seguida pelo co- ca e a biomassa) custa R$ 16 mil. “É o número gastronômico. Veja em
apresentado aos alunos
de carbono fossem implementadas integral- O relatório, que contou com a participação mércio (18%). “Estamos diversificando e hu- mínimo recomendável para consumidores de bit.ly/1ErdF4S.
da turma inSPira, da 10ª
mente e com alto grau de qualidade em toda técnica do GVces, levantou a aplicação dos manizando a matriz”, comemora Mauro Pas- 208 kWh (próximo da média nacional)”, expli-
edição da disciplina eletiva
a área hoje ocupada por atividades agrope- recursos nos primeiros oito meses da safra sos, presidente do Instituto Ideal. ca a bioarquiteta Isabelle De Lois. METAS MUNICIPAIS
Formação Integrada para
cuárias ou desmatada", afirma Angelo Gurgel, 2014/2015, quando foram desembolsados A mudança veio com a Resolução nº 482, da Além do valor do investimento e retorno Paulistanos podem monitorar
Sustentabilidade (FIS 10),
coordenador do Observatório ABC. "Além dis- cerca de R$ 2,5 bilhões (56% do total alocado Agência Nacional de Energia Elétrica, publicada de longo prazo, a expansão do sistema esbar- os compromissos da prefeitura
um grupo de estudantes
so, o governo precisa resolver entraves como para o Programa). A maior parte foi deman- há três anos, que permitiu abatimento na tarifa ra na ausência de crédito atrativo. Como op- no site por meio do aplicativo De
da FGV e da Universidade
a regularização fundiária e ambiental", diz. dada pelo Centro-Oeste (36,3%) e o Sudeste mensal para quem produzir até 1 megawatt de ção, empresas como a Brasil Solair, do Rio de Olho nas Metas, lançados pela
Mackenzie uniu-se para
Para exemplificar essas dificuldades, o re- (32%), bem à frente das regiões Sul (11,3%), potência. A redução varia entre 50% a 70% e Janeiro, alugam o equipamento, mas só para Rede Nossa São Paulo. O usuário
revitalizar a Praça Capitão
latório trouxe um estudo de caso sobre Para- Nordeste (11%) e Norte (9,5%). o investimento se paga entre oito e dez anos. produtores comerciais. pesquisa por tema ou região
Gino Struffaldi, em frente
gominas, município que possui 11% do total de cada meta do plano municipal
Mais informações em bit.ly/ABC0515 à sede da Fecomercio, ao Leia a íntegra da reportagem no Blog da Redação em fgv.br/ces/pagina22.
pastagens degradadas do Pará e está próximo e vê seu status de execução.
lado da Praça 14-Bis, na Bela
Acesse deolhonasmetas.org.br.
Vista, em São Paulo.
Por enquanto, o grupo

LOUISE DOCKER_WIKIMEDIA
Internacionalização a partir da sustentabilidade está estudando o MUNDO AFORA

ERIC WITTMAN_WIKIMEDIA
O projeto Inovação e Sustentabilidade nas Cadeias Globais de Valor (ICV Global) realizou em
local e a demanda dos
frequentadores, além
Vida autossuficiente
maio um evento especial para marcar a conclusão de seu primeiro ciclo de atividades. Parceria Movimentos interessados em compartilhar ABELHAS E AGRO
de buscar ajuda para
entre GVces e a Apex-Brasil, o projeto tem como meta criar bases para a internacionalização conhecimentos para uma vida mais autossufi- Agricultura e Polinizadores
realizar essa tarefa. Se
de micros, pequenas e médias empresas, que se diferenciam por seus atributos de inovação e ciente e que aproveite melhor os recursos na- é um e-book para a troca de
você tiver interesse em
sustentabilidade. turais mostram, por exemplo, como montar conhecimentos nas duas áreas.
participar e contribuir para
Para Ana Coelho, pesquisadora do GVces e gestora do projeto, "a internacionalização da biodigestores no quintal, gerar energia eólica Um dos capítulos é sobre o
a recuperação da praça,
sustentabilidade como estratégia de negócio e a oferta de produtos e serviços que tenham in- e solar, dessalinizar água por meio de calor do impacto da agricultura sobre
entre em contato pelo
corporados atributos socioambientais são certamente fonte de vantagem competitiva". sol e até como erguer uma casa boa para morar. os polinizadores e formas de
e-mail pracastruffaldi@
A publicação com os resultados finais do trabalho está disponível na biblioteca do site do Muitas dessas tecnologias têm código aberto e mitigar seus efeitos. Pode ser
googlegroups.com.
GVces (fgv.br/ces). Mais em icvglobal.com.br. são simples de fazer. O site waldenlabs.com lis- baixado pelo site abelha.org.br.
ta 21 delas, leia em bit.ly/ZGnUnE.

10 PÁ G I N A 2 2 J U N H O 2 0 1 5 PÁ G I N A 2 2 J U N H O 2 0 1 5 11
ECONOMIA VERDE
Da academia para o mercado
As gorduras trans
contêm ácidos
Com a aproximação entre academia, agências de fomento e parceiros,
graxos insaturados
e seu consumo está
as descobertas financiadas pelo contribuinte podem ultrapassar os muros
associado a doenças
do coração. Pela
da universidade e retornar para a sociedade
norma, as indústrias
POR Sérgio Adeodato
podem informar que

H
o alimento é “zero
trans” se o teor não oje em dia é comum encontrar nos su- mo, transferência de tecnologias e desenvolvimen-
superar 0,2 g de
permercados alimentos com rótulos to de soluções por demanda, entre outras modali-
gordura por porção
indicando “zero trans” e “low sat” dades de parceria. Em 2014, foram recebidos 103
(baixo teor de gordura saturada) como comunicados de invenção, dos quais 77 renderam
forma de atrair consumidores que buscam uma vida pedidos de patentes – um recorde que gerou ganho
mais saudável. Depois que a Agência Nacional de Vi- econômico de R$ 1,1 milhão, com um terço dos royal-
gilância Sanitária tornou mais exigentes as normas ties se destinado aos pesquisadores.
para exibição da mensagem, surgiu a necessidade O resultado é fruto da prospecção de empre-
Em 2014, a
Inova Unicamp de mudar a fórmula e adequar os produtos a novos sas e também de pesquisadores, seguindo o mode-
prospectou 110 padrões. Em decorrência disso, a Cargill, gigante do lo recomendado pela Universidade de Cambridge a
empresas, gerando setor alimentício, recorreu aos cérebros da Univer- partir de convênio com a Unicamp para treinamen-
11 licenciamentos
de tecnologia, entre sidade Estadual de Campinas (Unicamp) para achar to em propriedade intelectual e negociação com

diego sevilla ruiz


os 60 atualmente uma solução viável. indústrias. Em cada uma das 25 unidades e centros
vigentes Na corrida tecnológica, o desafio foi desenvol- de pesquisa da instituição, há um líder encarrega-
ver insumos que permitissem reduzir gorduras sem do de identificar inovações com potencial de ir para
alterar a estrutura física e a consistência de bola- o mercado. “No passado, quando não havia regras
chas, biscoitos, bolos e sorvetes, por exemplo. A para esse relacionamento, as universidades entre- internacional de patentes como forma de pressão. de aprimorar os negócios. É o caso do desenvolvi-
inovação, alcançada pelos pesquisadores Renato gavam tecnologias de mão beijada”, diz Mori, tam- Desde o fim da década de 1980, a Fiocruz, reco- mento de fórmulas que tornam mais eficiente o uso
Grimaldi e Lireny Gonçalves, da Faculdade de Enge- bém chefe de um laboratório que transfere conhe- nhecida com maior centro brasileiro de pesquisas de defensivos agrícolas, permitindo sua redução, o
nharia de Alimentos, gerou uma das mais lucrativas cimento sobre refino de petróleo para a Petrobras. em saúde pública, tem percorrido um longo cami- que significa menor risco de impacto ambiental.
patentes até hoje obtidas pela instituição. No entanto, há restrições que emperram o ím- nho de aprendizado para levar ao mercado desco- “Buscamos modelos mais abrangentes de par-
A transferência do saber científico para o mer- peto empreendedor. Pela lei, os professores não bertas como vacinas, medicamentos e métodos ceria”, revela John Biggs, diretor da indústria quími-
cado é mediada pelo trabalho conduzido no primei- podem abrir empresa para vender a inovação de- para diagnóstico de doenças. Hoje a instituição tem ca Dow, patrocinadora da pesquisa. Na última dé-
ro andar do prédio da Prefeitura Universitária, onde senvolvida por eles na universidade, mas apenas 150 projetos aptos a parcerias com empresas. Um cada, a multinacional intensificou a interação com
funciona a agência Inova Unicamp. No local, o am- licenciá-la. “Por isso muitos se aposentam para biolarvicida inédito para controle da dengue deverá universidades para lançar novidades no mercado.
A Lei nº 10.973, biente de design moderno contrasta com a sisuda montar o próprio negócio”, lamenta o diretor, ao ser lançado nos próximos meses, após a transfe- A estratégia agora é promover desafios para atrair
de 2 de dezembro
cultura acadêmica e com a arquitetura dos edifícios reclamar maior agilidade e flexibilidade nas transa- rência da tecnologia para a empresa BR3. O alvo boas ideias. Um deles, voltado para o “colchão do
de 2004, estabelece
incentivos à do seu entorno. Ao lado, a Praça das Bandeiras – ções com o mercado, inclusive envolvendo riscos. atual está nas pequenas empresas inovadoras que futuro”, resultou na apresentação de 60 projetos
inovação e à símbolo dos velhos tempos – abriga um monumen- Não raro os cientistas que detêm o know-how se buscam nichos de mercado, como a Biomédica, do para pesquisas com poliuretano, na Universidade Espuma existente
pesquisa científica
to em memória da pedra fundamental da universi- preocupam mais em publicar os resultados de suas Rio de Janeiro, que desenvolveu o protótipo de um Federal de São Carlos, interior de São Paulo. nas paredes de
e tecnológica no
dade, lançada em 5 de outubro de 1966. pesquisas para subir na carreira acadêmica do que copo de plástico com bico especial que imita o seio Na linha da “inovação aberta”, a multinacional refrigeradores e
ambiente produtivo,
freezers. É útil como
com vistas ao Lá se vai quase meio século. De lá para cá, muita manter o sigilo para registrar patente. Levar novi- da mãe e ajuda a alimentação de crianças recém- realizará em agosto o Innovation Fair, evento que isolamento térmico
desenvolvimento
coisa mudou, principalmente no que se refere ao es- dades do laboratório para as prateleiras não é fácil. -nascidas. A solução, desenvolvida pela Fiocruz, engajará no Brasil iniciativas de universidades, mi- na construção
industrial do País
forço de dar um viés comercial às engenhosidades A Lei de Inovação, sancionada em 2004, foi um tem patente depositada no Brasil e nos EUA. croempresas e start-ups em áreas como alimentos, civil e, na forma
flexível, compõe
Além dos 19 dos Professores Pardais. “Desde a década de 1980, marco. “Flexibilizou e trouxe clareza à relação entre Hoje há no País mais de 400 instituições de ciên- segurança hídrica, produtos químicos renováveis e estofados de móveis
pequenos negócios quando era maior a cisma dos cientistas em rela- o público e o privado, para que o conhecimento cien- cia e tecnologia voltadas para a proteção por pa- infraestrutura. A feira – espera-se – deverá render e colchões
tecnológicos hoje
incubados na ção aos interesses econômicos, houve evolução tífico se tornasse produto”, avalia Celeste Emerick, tentes e parcerias com empresas para inovações. no mínimo seis novas tecnologias para a empre-
Unicamp, existem na abertura para as demandas do mercado, mas o coordenadora de gestão tecnológica da Fundação “É importante fazê-las chegar à sociedade”, afirma sa. Mas o importante, para Biggs, é a aproximação
outras 254 desafio de maior aproximação ainda permanece”, Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. Antes, Denise Petri, professora do Instituto de Química da entre academia, agências de fomento e outros po-
“empresas-filhas”,
criadas fora da ressalta o professor Milton Mori, diretor-executivo segundo ela, os processos de transferência de tec- Universidade de São Paulo, onde coordena o progra- tenciais parceiros. Assim, descobertas financiadas
universidade por da Inova Unicamp. nologia eram bastante demorados, devido à inse- ma de mestrado profissional. Nele, especialistas de pelo imposto do contribuinte podem sair dos labo-
professores, alunos O relacionamento com o mundo dos negócios gurança jurídica, ainda mais no setor de saúde, do- empresas se capacitam e usam laboratórios bem ratórios, ultrapassar os muros da universidade e
ou servidores
ocorre através de fomento ao empreendedoris- minado por oligopólios hábeis em utilizar o sistema equipados para chegar a novos produtos capazes beneficiar a sociedade.

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ENTREVISTA CAMILA HADDAD

Mudar o mundo
sem tomar o poder
POR AM ÁLI A SAFATLE FOTO BRUNO BERNARDI

Com a cena estonteante da cidade contornada pela linha do horizonte, raramente vista
na cidade de São Paulo, Camila Haddad visiona um futuro que pode até não se concreti-
zar em grande escala. Mas que já coleciona sementes aqui e ali, espalhando-se no chão
nem sempre a céu aberto. E geram pequenas trincas no cimento do status quo, pelas
mãos de pessoas que simplesmente se juntam para fazer coisas e resolver problemas
de forma independente das instituições. Nesta última frase ela resumidamente define
o que é a economia colaborativa.
Leitora de Mudar o Mundo sem Tomar o Poder e de Fissurar o Capitalismo, de John Hol-
loway, a jovem que estudou economia e trabalhou com sustentabilidade não vê outra
mudança para este mundo — sob vários aspectos em crise — que não seja pela trilha da
colaboração. “Esse movimento não tem a pretensão e não é organizado politicamente
para revolucionar. Mas justamente por isso tem muito mais capacidade de mudança”,
diz, em entrevista concedida no apê que divide com os amigos.
É fundadora, junto com a irmã, do Cinese, uma plataforma de aprendizagem colabora-
tiva. O Cinese, conta ela, nasceu muito para responder a angústias pessoais da irmã,
que havia ticado todas as caixinhas definidas pelo mainstream como sucesso, mas
não a de encontrar sentido para o que faz. Então as duas criaram uma iniciativa com
o espírito de que a educação deve fazer a pessoa se conhecer, conhecer o que gosta e
descobrir como pode atuar a partir disso no mundo. Da mesma forma, a economia co-
laborativa provoca um repensar sobre a forma como as pessoas se organizam social
e economicamente, e o que esperam dessas relações.
A entrevista foi montada também de forma colaborativa, inspirada em perguntas que
o Conselho Editorial da Página22 fez ao debater a pauta desta edição.

Formada em Administração de Empresas na FGV, trabalhou na ONG Artemisia e no Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-Eaesp (GVces). Fez mestrado
em Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável na University College London, onde tomou conhecimento sobre consumo e economia colaborativa

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CAMILA HADDAD

Parece que estamos vivendo um florescer vez mais tem notícias de que o modelo atual não cialmente para se manter a longo prazo exige co- do que prestam serviços colaborativos, o que já é
da economia colaborativa. A crise financeira responde às nossas necessidades. Colaboração e laboração. Quando a gente se organiza de forma bastante interessante. Mas eu falo mesmo é da co-
dos últimos anos tem a ver com isso? competição são inerentes às pessoas, mas cria- industrial, entende a perenidade dessa forma: essa laboração da porta pra fora e da porta pra dentro.
Os processos de colaboração sempre acon- mos um sistema que estimula só um dos lados. empresa vai existir para sempre, fazendo as coisas Boa parte das empresas percebe a colaboração da
teceram, a gente não teria conseguido se manter A economia colaborativa pode ser só um arca- assim, e aí a capacidade de transformação se perde. porta pra fora, mas ainda continua se organizando
como estrutura social se eles não existissem. Mas bouço de outras coisas, mas tem, sim, um aspecto de forma hierárquica, vertical, compartimentaliza-
foi ficando menos presente quando mais coisas muito transgressor e revolucionário que desafia Dá pra colocar uma empresa como o Uber no da – muita gente pensa que não funciona se não for
foram se convertendo em produto ou serviço, por duas premissas básicas da economia. Uma é a es- balaio da economia colaborativa? Ou está na assim. Só que isso tudo é construído socialmente.
exemplo, alimentação. Antes não fazia sentido pa- cassez, só precisa ser gerido o que é escasso, e só economia do compartilhamento?
gar para comer, as pessoas cozinhavam dentro de tem valor econômico o que é escasso. Então a gente O compartilhamento é uma parte da economia Também deve haver dúvidas no que se refere
casa. E mais coisas foram sendo convertidas em gera escassez artificial para criar valor econômico, colaborativa. É a gente perceber que não precisa à capacidade de gerar renda. No exemplo do
produto ou serviço conforme a gente foi atingindo ou seja, cria escassez na tentativa de administrar possuir recursos, só precisa acessá-los. A colabo- aplicativo que substitui o Uber, as pessoas
um certo padrão de desenvolvimento. Processos a escassez, o que não faz muito sentido. E a outra rativa é mais ampla, inclui iniciativas como a Rede não conseguiriam viver disso. Mas no Uber,
inerentemente sociais ou colaborativos foram se premissa é a do Homo economicus, segundo a qual Nossas Cidades, com pessoas se conectando para sim, é uma empresa que pode proporcionar o
distanciando. Mas o atual modelo está obviamente a gente é competitivo e precisa criar um sistema transformar a política local. No Uber, a ideia da co- ganha-pão de muita gente.
em crise, tanto financeira como em termos de re- que transforme competição em mais bem-estar laboração está sendo usada sem desafiar as pre- Tem alguns pontos aí. Existe um processo de
cursos naturais. Além disso, o fenômeno da inter- social, na história de que, quanto mais autointe- missas da economia. O CEO do Uber, por exemplo, longo prazo. O dinheiro surgiu para os recursos cir-
net foi muito importante, porque agora a gente per- ressado e competitivo a gente for, mais vai gerar falou que o único problema deles eram os motoris- cularem, para as coisas que estão em um espaço
cebe que pode se conectar com as pessoas. Essa produtos e serviços que são bons para a sociedade. tas! Então tem um entendimento muito errado aí. chegarem de forma mais eficiente em outro. Essa
possibilidade sempre existiu, Mas uma economista de Não é à toa que já tem união de motoristas contra única moeda, que está tão presente, não é a única
mas com a internet ficou que gosto muito, a Elinor Os- o Uber. Se o valor da empresa é conectar pessoas, resposta para uma economia que funcione. Econo-
mais tangível. Vejo a internet
como a primeira organização
A matéria é escassa, trom, diz que, quando a gente
acha que as pessoas são ine-
como se pode dizer que o problema são as pes-
soas? Essas empresas podem até crescer muito
mia é troca de valor. Penso que no futuro teremos
diversas moedas, pode ter a da carona, a da alimen-
humana distribuída, não hie- mas a capacidade rentemente egoístas, con- a curto prazo, mas estão cavando a própria cova. tação, e a gente vai conseguir moeda na medida
rárquica. E a não hierarquia e cebe sistemas que premiam que coopere e gere valor na sociedade. Não terei
a horizontalidade são o pres- de transformação pessoas egoístas e garante O que motivou a declaração do CEO? o emprego que me dá moeda corrente com a qual
suposto para que qualquer
organização colaborativa se
é infinita que de fato elas se compor-
tem da maneira que achou
A criação de um sindicato de motoristas do
Uber. Ele falou que já existem carros autodirigidos
conseguirei fazer todas as coisas. Se gero valor, se-
rei reconhecido, terei reputação, outras moedas e
constitua. Economia colabo- que iam se comportar. Se do Google e que, quando não precisarem de moto- isso permitirá com que eu faça todas as coisas para
rativa é basicamente isso, uma rede de pessoas co- formos pensar em todas as estruturas hierárqui- ristas, não terão mais esse problema. Mas isso não continuar existindo. É quase como, de forma mais
nectadas para fazer coisas e resolver problemas cas, óbvio que o único caminho é o topo, e nem todo tem capacidade de se manter por muito tempo, pois, ampliada, voltar para processos muito tribais.
de forma independente das instituições. mundo vai chegar lá. E pensando no cenário de re- quando as pessoas percebem que não está sendo
cursos escassos, obviamente vou querer competir gerado valor real para elas, vão simplesmente pu- É o caso de relativizar o aspecto inovador
E que não necessariamente pressupõe uma e garantir o meu, é uma dança das cadeiras. E com lar o Uber. Já está nascendo um “uber” descentrali- da economia colaborativa? Ou há algo
transação monetária? a previsão ruim, ainda que eu não queira sentar na zado, um aplicativo que não tem uma empresa por realmente novo devido às tecnologias?
Em qualquer relação que a gente faça, existe cadeira agora, vou guardar lugar porque vai que eu trás, as pessoas se conectam diretamente e têm Quando a gente olha para os processos tribais,
uma troca de valor. Em todos os sentidos. O dinhei- precise sentar lá na frente... uma moeda própria, gerada no processo de carona. a existência estava garantida. Se tinha alguma pes-
ro é uma forma de tangibilizar essa troca, mas não Desafiar a premissa da escassez e da competi- Se te dou carona, consigo uma moeda que é usada soa doente, todos iam prover recursos para ela,
é a única. E não é um problema. Só que é muito limi- ção não é pouco. Como falar de abundância em um quando eu precisar de carona. Então as pessoas vão porque sabiam que, quando ela estivesse bem, ia
tado para dar conta. O dinheiro serve para facilitar cenário no qual os recursos estão se exaurindo? É criar alternativas, é a história do protagonismo. Não voltar a gerar valor, caçar etc. Só que isso não con-
fluxos de bens e serviços, para girar a economia, uma mudança de ótica. A matéria é escassa, mas precisamos mais das instituições e dos intermediá- segue se estender para além de uma comunidade
mas às vezes não é necessário, é possível fazer a capacidade de transformação é infinita. A gente rios que não nos agregam valor. pequena, porque não conheço todas as pessoas e
muitas coisas sem recurso monetário. é única espécie que pensa de forma linear, mas a a sua reputação. O dinheiro serviu para estender
resposta está na capacidade contínua de transfor- A economia colaborativa pressupõe a isso, respondendo à pergunta: “Se não te conheço,
Você vê a economia colaborativa sob qual mação. E esta só acontece quando a gente inova. descentralização de poder e a quebra de como a gente vai fazer uma troca?”
prisma? Pelo caráter revolucionário ou E a gente só inova quando as pessoas colaboram. hierarquia, mas ao mesmo tempo o mundo
rejuvenescedor da internet? Pela maior digital tem como expoentes grandes Daí a palavra crédito, no sentido de confiar...
conscientização sobre os limites do planeta? Então a sustentabilidade necessariamente corporações. Como fica isso? Exato. A gente não joga fora tudo o que conquis-
Ou pela ótica psicológica e cultural, de como passa pela trilha da economia colaborativa? Se a minha resposta é ter de remunerar o acio- tou esses anos, não se trata de todos voltarem a
e por que humanoides desde a Pré-História A meu ver, sim. Inclusive o meu caminho para nista, eventualmente vou chegar em um momento viver em comunidades. Porque a tecnologia traz
resolveram fazer coisas em conjunto? a colaboração veio a partir da sustentabilidade. Eu contraditório em que me pergunto: “É melhor pra a possibilidade de pegar esses processos e fazer
Uma mistura de tudo, porque a gente cada compreendi que a única forma de se organizar so- quem?” Tem muitas empresas tradicionais surgin- com que se ganhe muito mais escala, gerando in-

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CAMILA HADDAD

terações com pessoas de todas as partes do mun- e a média de tempo para isso ser corrigido era de nessas habilidades me remuneram, ou a platafor- Quando a gente fala em quebra de estruturas
do. Mesmo quando a gente fala de uma economia 10 segundos! Que outro lugar tem tanta acurácia e ma ajuda a me remunerar. hierárquicas, a maior é o Estado, a forma como a
monetizada, respondendo à sua pergunta sobre o rapidez? Só em alguma coisa com muita gente co- gente se organiza politicamente. A nossa capacida-
substituto do Uber, vou falar da nossa experiên- nectada. E por que as pessoas editam artigos na E, quanto mais troca tiver, é possível viver de de regular vai muito aquém da transformação
cia no Cinese, que entendemos não como empre- Wikipédia? Alguém paga? Alguém organiza? Não, com menos dinheiro? da realidade. A gente vai encontrar uma forma de
sa, mas como uma comunidade de aprendizagem. é o próprio sistema de reputação. Se tem uma dis- Você pode viver com menos dinheiro e man- regular e medir essas relações. Só que não preci-
Cada vez mais a gente anda no sentido de a plata- puta por edição, quem está muito tempo editando ter a mesma qualidade de vida, no sentido de que sa impedir que elas existam porque ainda não sabe
forma ser autogerida, o código é aberto, qualquer pode dizer o que é o certo. Não tem um cargo para pode acessar muita coisa de forma não monetá- como regulá-las. As instituições é que têm de evo-
um pode propor uma mudança, copiar e fazer outro definir o editor, qualquer um pode ser, então o edi- ria. Muitas coisas das quais a gente depende hoje luir, e não a gente voltar para trás. E há muitas alter-
etc. A ideia é que a plataforma está aí para servir às tor é reconhecido pelo seu trabalho de qualidade. tem a ver com o estilo de vida tradicional: comer nativas para medir progresso além do PIB. Vai pas-
pessoas e elas se conectarem, e não para as pes- Acredito que todos os processos podem ir nes- fora, terceirizar os cuidados com os filhos, educar sar muito por isso: como medir troca de valor que
soas servirem à plataforma. Não é a plataforma se sentido. A mídia pode ser distribuída desse jeito. os filhos, hospedar-se em hotéis. São coisas que não seja exclusivamente pela troca monetária. A
em si que precisa gerar renda para pagar alguém, Gosto muito da Reportagem Pública, de jornalismo antes estavam inseridas nos processos da vida em questão da arrecadação seria no caso de não haver
e sim ser um ponto de partida para as pessoas ge- investigativo, que os leitores financiam e definem comunidade. nenhuma transação monetária. Mas por que isso é
rarem sua própria renda, cobrando, se quiserem, a pauta, o assunto que querem ver investigado. Os um problema, se a gente está fazendo os recursos
por suas habilidades. Embora iniciadora do Cinese, papéis de leitor, financiador e editor ficam mistos A impressão que dá no público em geral circularem de forma mais eficiente?
eu sou apenas uma usuária dela, a comunidade não e isso permite que as coisas continuem existindo é que os casos de sucesso da economia
tem de me remunerar. Enquanto as pessoas virem (mais sobre mídia à pág. 48). Outro exemplo de colaborativa são poucos. Outras turmas desafiaram estruturas de
valor e quiserem que o Cinese continue existindo, que gosto bastante é theSkyNet, que é uma rede Tem muita coisa acontecendo fora do radar. A poder e paradigmas, como os anarquistas, os
vão contribuir com o finan- de processamento de dados maioria das pessoas só ouve falar do que é suces- comunistas, os hippies, os punks. São ondas
ciamento coletivo da plata- e pesquisas espaciais. Para so no sentido tradicional de sucesso, ou seja, que que sempre questionam e propõem outros
forma. Faz sentido?
Você pode viver isso, precisaria de uma ca-
pacidade de processamento
viraram grandes empresas, como Uber e Airbnb.
A gente ouve falar muito menos do Couchsurfing,
modos de vida. Será que estamos em uma
nova onda, protagonizada por esta geração?
Parece que sim. Mas com menos muito grande, supercompu- que não gera dinheiro, mas é uma rede enorme de Tem muito a ver com geração, internet, globa-
é se de perguntar se tadores etc. – o que demanda viajantes que se recebem uns aos outros nas pró- lização, conexão. Invariavelmente surgem movi-
o mundo tradicional, dinheiro e manter uma grande instituição, uma prias casas, com o princípio da reciprocidade. Eu mentos sociais contra o status quo. A única diferen-
que opera com regras
tão diferentes, tende a
a qualidade de vida grande universidade, um
grande investimento. A ideia
cedo meu sofá e sei que vou conseguir um sofá em
outro lugar do mundo, sem precisar pagar um ho-
ça é que a gente não precisa acabar com o sistema
e implantar um novo. Tem dois livros de que gosto
migrar para isso, ou se deles foi a seguinte: por que tel. A Laboriosa 89 é um exemplo de sucesso, é um muito, Mudar o Mundo Sem Tomar o Poder e Fissu-
essa experiência ficará restrita a nichos. O a gente precisa de um superprocessador, se tem espaço de trabalho colaborativo em que qualquer rar o Capitalismo [ambos de John Holloway]. Não
que você pensa disso? várias pessoas com computador e capacidade de um pode fazer a cópia da chave, e quem deseja que preciso pensar tanto no macro, em qual é a solução
Que tem muita capacidade de ganhar escala. processamento sobressalente? o espaço continue existindo contribui para pagar as para o mundo. Eu crio uma solução local, conectada
Não é nada de outro mundo. Eu percebo isso acon- contas. Não tem instância de tomada de decisão. com outras pessoas, para melhorar a nossa quali-
tecendo cada vez mais. Quando a gente fala de hor- Isso é a economia da ociosidade? dade de vida aqui, para ter uma relação mais justa
tas urbanas, ocupação de espaço público, como o Exatamente. Se a gente fosse pelo lado da es- Tem aquele ditado de que cachorro com aqui, para se reconectar com a natureza aqui. A gen-
Parque Augusta, tudo isso tem a ver com empode- cassez, precisaria entender como montar uma es- muitos donos morre de fome. Isso não te tem as ferramentas para fazer isso. E ponto.
ramento, com a percepção de que é a gente que faz trutura para prover os recursos. Já a abundância acontece no Laboriosa, por exemplo? E, se está nas nossas mãos, tenho a impressão
a política, a economia. Podemos optar em ser parti- é perceber que os recursos de que a gente precisa Não. Parece que ou tem muito processo ou não de que as instituições vão se esvaziando. Não há ten-
cipante de um sistema que já existe, que foi pensado já existem, a gente só precisa conectá-los. Então tem nada, e aí é o caos. Lá a gente está começando tativa de mudar por cima. A gente vai fazendo... Esse
antes da gente, ou criar coisas novas. basta qualquer pessoa baixar um aplicativo e, toda a prototipar os processos para que a casa continue movimento não tem a pretensão e não é organizado
a vez que seu computador está ocioso, pode pro- funcionando, mas sem hierarquias ou um grupo politicamente para revolucionar. Mas justamente
É o power to the people? Na hora em que esse cessar dados espaciais. E você escolhe quais pes- tomador de decisão. Criamos, por exemplo, caixas por isso tem muito mais capacidade de mudança.
poder se dá, não se volta mais atrás? quisas você quer que o seu computador processe. E distribuídos para pagamento de água, luz, aluguel. Quem é capaz de acabar com o sistema? Ninguém
É difícil. Mas o que falta é o nosso entendimento essas pessoas não ganham nada em troca. Se faltou dinheiro para a luz e ela é cortada, os inte- e todo mundo. Então a gente está mudando a nos-
de que coisas muito transformadoras podem acon- ressados em que a luz volte se juntam para pagar. sa vida em nível local e a de quem está ao redor. E,
tecer sem uma estrutura de controle. Porque dá Mas essas pessoas também precisam pagar porque é um movimento social e de baixo para cima,
um medinho, né? “Se a gente não se organizar, será as contas no fim do mês. Como dá para viver Qual o impacto da economia colaborativa é capaz de gerar mudança de forma tão rápida. Eu
que as coisas vão acontecer? Vai virar uma bagun- de economia colaborativa? para as contas nacionais e para a visiono esse futuro, mas pode ser que ele não acon-
ça.” Tenho cada vez mais visto que é possível pensar Tudo isso é mais dificil se for pensado dentro arrecadação de impostos? Uma furadeira teça. Nem por isso eu jogo essa experiência fora.
em contornos e estruturas horizontais que geram das estruturas industriais, empresariais. Eu, por pode ser compartilhada entre muitos, mas
Leia sobre a história e o funcionamento do Cinese e assista
coisas incríveis. Tem o exemplo básico da Wikipé- exemplo, gero minha renda dentro desse mundo. o sistema contábil e fiscal só registra uma a trechos da entrevista em vídeo na versão digital desta
Entrevista em fgv.br/ces/pagina22.
dia. Fizeram um teste de inserir erros na Wikipédia, Eu presto meu serviço e as pessoas que veem valor transação, que foi a compra da furadeira.

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REPORTAGEM CAPA

O furo do capitalismo
Ao suplantar premissas como a competição e a posse de bens,
a economia colaborativa se desdobra em um universo novo,
vasto e muitas vezes contraditório. Outra forma de sociedade
emerge, baseada na informação e no conhecimento
POR DIEGO VIANA FOTO BRUNO BERNARDI

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CAPA

A produção doméstica de lixo poderia cair 20% mas de consumo: empresas como FarmDrop
e Open Food Network conectam consumido-
xões e, assim, prosperam. A filosofia por trás
das avaliações é recuperar o sentido da con-

e o orçamento das famílias ser reduzido em 7%


res urbanos diretamente a produtores rurais: fiança, fundamental para o funcionamento de
os primeiros recebem dos segundos produtos qualquer economia, mas que andava abalada
agrícolas fresquinhos, em casa, sem passar pelo menos desde a crise de 2008. Assim, a re-

À
pelas gôndolas dos supermercados. putação tomaria o lugar da regulação – sobre-
primeira vista, aplicativos para enorme variedade de vertentes. Para a soció- Para Dora Kaufman, da ECA, não temos o tudo estatal – como garantia de que os partici-
pedir táxi, alugar casas em viagem loga Juliet Schor, da Universidade Harvard, hábito de pensar no consumo como um fato pantes das transações agem honestamente e
ou financiar projetos culturais va- a economia colaborativa é difícil de definir, social. Mas isso é um erro. Por meio dele “nos com responsabilidade.
lem sobretudo pela praticidade que mas existem quatro categorias principais: relacionamos, nos expressamos, nos incluí-
oferecem, ao levar desconhecidos fazer bens (usados) circularem; aumentar a mos ou não em grupos”. A pesquisadora afir- REPUTAÇÃO E REGULAÇÃO
a uma relação direta, sem o intermédio do intensidade de uso de ativos duráveis; trocar ma que “o ato de consumir transcende a sim- Mas há sinais de que a mera reputação não
mercado. Mas esta é a superfície visível de um serviços diretamente; e compartilhar ativos ples compra de um produto por necessidade basta. Casos envolvendo o Uber – assédio se-
universo novo, vasto e muitas vezes contradi- produtivos. Tudo isso remete ao ano de 1995, básica. Já consumimos de forma distinta do xual; um seguro que não cobre atividades co-
tório, que envolve desde utopias ultracapita- quando surgiram o eBay, site de venda de pro- que consumíamos na economia industrial”. merciais – e o Airbnb – sublocação irregular;
listas até projetos de um mundo pós-capita- dutos usados, e a Craigslists, página de clas- Em outros casos, a economia do compar- abuso por parte dos locatários – mostram que
lista. E mesmo essa nova praticidade suscita sificados on-line). tilhamento aproveita as possibilidades das pode ser necessário criar um ambiente regu-
questões muito profundas: o que vai significar Fala-se em colaboração quando a relação tecnologias da informação para oferecer seus latório para a economia colaborativa. Trebor
o trabalho nessa “nova economia”? Quem será entre os indivíduos da rede é direta, ou seja, produtos não como bens a vender, mas como Scholz, professor de mídia e cultura na nova-
responsável pela regulação, e como? Qual é o peer-to-peer (consulte Glossário à pág. 24), mas serviços a contratar. A ideia é a de que o con- -iorquina New School for Social Research,
impacto sobre o meio ambiente? isso não significa que, em muitos casos, a pla- sumidor gaste menos por algo que, de qual- chama atenção para o fato de que a nova eco-
“A economia compartilhada é um fenô- taforma não seja oferecida por enormes em- quer modo, só usaria por um tempo curto. E nomia implica novas formas de trabalho, que,
meno muito recente, que tem distintas for- presas. Hoje, por exemplo, o valor de mercado não precisa se preocupar com um trambolho sem regulação, podem se tornar predatórias .
mas. Não se trata de um segmento da econo- da plataforma Airbnb, de aluguel de aparta- quando não está usando. É o caso dos serviços “Tudo que se torna digital pode ser explo-
mia; é antes uma forma de conectar atores mentos, é calculado em US$ 13 bilhões. Segun- de aluguel de carro, como ZipCar e Car2Go: o rado. Coisas como carros autoguiados, com-
que permeia, em princípio, qualquer setor de do a consultoria PwC, os principais ramos da usuário não precisa se preocupar em achar panhias de táxi baseadas em aplicativos e
atividade” , resume Dora Kaufman, pesquisa- economia colaborativa com fins lucrativos vão vaga, pagar IPTU ou fazer a revisão. sistemas de crowdsourcing podem ser benéfi-
dora da Escola de Comunicações e Artes da movimentar US$ 335 bilhões em 2035 . A redução dos desperdícios e o incentivo ao cos, mas também implicam vulnerabilidades
Universidade de São Paulo (ECA-USP). “Um reúso levaram pesquisadores do Instituto de para trabalhadores” , argumenta Scholz. “O
dos seus atributos mais inovadores é permitir CONSUMO COMO FATO SOCIAL Desenvolvimento Sustentável e Relações In- digital permite novos modelos de negócios,
que indivíduos se agrupem e produzam algo Uma das formas mais simples da eco- ternacionais (Iddri), de Paris, a se perguntar novas cadeias de extração de valor e formas
compartilhado.” nomia colaborativa é o chamado consumo se a economia colaborativa tem uma tendên- de divisão do trabalho, muitas das quais es-
O papel da tecnologia digital é enorme na colaborativo, em que pessoas alugam, em- cia inata à sustentabilidade. Afinal, uma das tão obstruindo seu potencial humanizador e
construção da chamada economia colabora- prestam ou até mesmo dão coisas entre si justificativas para as cidades adotarem, por emancipatório, ao mesmo tempo que com-
tiva, em todas as variantes que assume. Em- (mais em Artigo à pág. 41). Um efeito impor- exemplo, sistemas de compartilhamento de prometem a seguridade social.”
bora tenha se consolidado a convicção de que tante do consumo colaborativo é a redução da bicicletas – a primeira foi a francesa Lyon – é o Scholz lembra também que grande parte
o motor das economias modernas é a compe- ociosidade: se um carro passa a maior parte controle da emissão de poluentes. Os pesqui- desses negócios apoia-se em infraestrutura
tição, sempre houve espaço para colaboração: do tempo na garagem ou estacionado na rua, sadores Damien Demailly e Anne-Sophie No- já existente, gerando renda através da otimi-
no interior das firmas, nas famílias, nas coo- por que não compartilhá-lo? Outro resultado vel concluíram que o potencial é grande: com zação do uso e nada mais. Ao menos por en-
perativas. Desta vez, muitos acreditam que é a redução do desperdício: há aplicativos que uma boa administração de bens compartilhá- quanto, a economia colaborativa baseia-se,
a competição pode ficar em segundo plano permitem repassar a outros a comida que foi veis, a produção doméstica de lixo poderia cair em grande medida, na boa e velha economia
(mais sobre cooperação em Artigo à pág. 33). comprada, mas não será consumida. 20% e o orçamento das famílias ser reduzido tradicional. E Kaufman argumenta que a ló-
“As tecnologias digitais estão engendran- Nessa rubrica podem entrar coisas tão em 7% . Mas o potencial sustentável da co- gica que regeu até hoje a economia industrial
do um novo tipo de sociedade, esta baseada na diferentes quanto o Airbnb, o RentEver, que laboração só será atingido, eles afirmam, se começa a ser superada. A pesquisadora cita
O smart grid é uma
informação e no conhecimento” , prevê Kauf- ajuda os usuários a alugar qualquer coisa uns houver um marco regulatório eficaz. a convergência entre o ato de produzir e o de
tecnologia que permite
man. “Alguns autores creem que o trabalho para os outros, ou as comunidades Freecycle, Em todos esses campos, um ponto comum consumir, além das perspectivas oferecidas às residências gerar e
e a posse dos bens não são mais o centro da presente em inúmeras cidades do mundo, é fundamentar-se na confiança e na reputa- por impressoras 3D e os nascentes projetos trocar energia elétrica
de acordo com a
estrutura social, e que o contexto geral do in- em que as pessoas oferecem a desconhecidos ção. Usuários do Airbnb, do Uber ou do Prosper de geração e distribuição individualizada de
necessidade
tercâmbio social e econômico, que foi com- aquilo que, de outro modo, pararia no lixo. são avaliados uns pelos outros; os que recebem energia, favorecida pelos chamados smart
petitivo na era industrial, será colaborativo.” Até a agricultura é atingida pelas novas for- boas avaliações conseguem fazer mais cone- grids, para afirmar que as transformações da
Uma transformação econômica de esco-
Saiba mais em: goo.gl/QYEEE0 Veja em goo.gl/c7wkix Saiba mais em: goo.gl/ELgnZS
po tão amplo não poderia deixar de ter uma

22 PÁ G I N A 2 2 J U N H O 2 0 1 5 PÁ G I N A 2 2 J U N H O 2 0 1 5 23
CAPA

Para Jeremy Rifkin, o grande motor dessa nova Uma marca


da eficiência
na “economia do custo marginal zero”. É o
caso de bens digitais: cada cópia nova de um
da ineficiente, a ponto de conduzir à chamada
tragédia dos comuns. O argumento é que os

revolução econômica é a internet das coisas


econômica é que o arquivo sai praticamente de graça, de modo agentes econômicos têm incentivos para es-
preço de um bem que ele pode ser livremente distribuído pelo gotar os bens comuns, principalmente a terra,
seja igual ao custo
de produção de mundo, em que pesem as questões de proprie- porque competem entre si mas não se sentem
cada nova unidade dade intelectual. responsáveis pelo coletivo. Mas a economista
economia colaborativa desafiam “o modus um caminho viável para tornar a agricultura (o custo marginal). Para Rifkin, o grande motor da nova revo- Elinor Ostrom, Prêmio Nobel de Economia em
Se a produção da
operandi da economia industrial”. sustentável ao redor do mundo, facilitando nova unidade não lução econômica é a internet das coisas, que 2009, demonstrou que a tragédia dos comuns
De fato, a realidade peer-to-peer há mui- a implantação de lavouras orgânicas. Pear- custa (quase) nada, conecta bilhões de objetos físicos à rede (hoje, não é tão trágica quanto parece. Ao contrário,
to deixou de ser assunto de transferências de ce lembra que um terço do cultivo orgânico o preço eficiente algo em torno de 11 bilhões no mundo; Rifkin os usuários de um bem comum sempre encon-
seria zero
arquivos de mídia. Já é possível, por exemplo, ocorre em países em desenvolvimento e, para estima que serão 100 bilhões em 2030), permi- tram meios de cooperar para administrá-lo
encontrar bens de uso corrente sendo fabri- os agricultores dessas regiões, a aquisição de tindo que sejam administrados com custo bai- satisfatoriamente para todos, contanto que se
cados colaborativamente, usando impres- maquinário por open-source design pode re- xíssimo. “Centenas de milhões de pessoas es- sintam em contato próximo com ele.
soras 3D ou em laboratórios de fabricação presentar uma significativa redução de custos. tão transferindo pedacinhos de suas vidas dos Seguidores de Elinor Ostrom procuram es-
comunitários (os FabLabs). Essas impressoras Por trás da interação direta entre pessoas, mercados capitalistas para o mundo comum e tender a lógica dos comuns à economia global.
são um dos caminhos pelos quais os novos ativistas como o italiano Franco Berardi e fi- colaborativo global” , escreve Rifkin. O jurista Brett Frischmann, autor de Infrastruc-
modelos econômicos transbordam o digital lósofos como o francês Bernard Stiegler en- Com efeito, a economia da colaboração tam- ture: The social value of shared resources, acredita
para ocupar o mundo físico. xergam uma automatização das relações in- bém recuperou um antigo conceito econômico: que o exemplo da administração de recursos
Em 2012, o jornalista e empresário Chris terpessoais. Embora nem sempre seja fácil os “comuns”. Na cultura digital, é cada vez mais naturais a partir da noção de commons pode
Anderson lançou o livro Makers, em que a pro- notar, muitos dos encontros colaborativos frequente o uso das licenças Creative Commons, ser um ponto de partida para formular as po-
dução de bens físicos através de tecnologias são mediados por algoritmos controlados por que permitem modular o nível de reserva da líticas públicas e as legislações que organiza-
digitais é tratada como uma nova revolução empresas, cujo modo de funcionamento nem propriedade intelectual. Mas os comuns refe- rão o uso das ferramentas da nova economia,
É a distribuição
livre e on-line do industrial, porque as novidades tecnológicas sempre é explícito. Por isso iniciativas como rem-se a tudo que não é propriedade individual além das relações de produção e trabalho. E,
desenho industrial, liberam o “excedente cognitivo” de uma mul- a Open Source Initiative (opensource.org) in- nem é consumido individualmente: é o que per- quando os conceitos de comuns, colaboração e
com a qual alguém
tidão de indivíduos que, até então, apareciam centivam o uso de software de código aberto. tence a todos, ao menos em tese, como o ar, em cooperação estiverem servindo de base para a
pode criar um novo
projeto de máquina, como meros consumidores. Por exemplo, o A combinação de tecnologias da comuni- certas sociedades a terra e, no caso do Creative formulação de marcos legais, estará claro que
móvel ou o que engenheiro Joshua Pearce, da Universidade de cação, novas fontes de energia e revoluções do Commons, também o conhecimento . a economia da colaboração veio para ficar.
for e permitir sua
Tecnologia de Michigan, acredita que o cha- comportamento levou o sociólogo americano Na tradição do pensamento econômico, a
reprodução
mado open-source design está se tornando Jeremy Rifkin a afirmar que estamos entrando propriedade comum costuma ser considera- Mais em creativecommons.org.br. A Página22 é adepta da licença

GLOSSÁRIO Crowdsourcing, crowdfunding – Multidões digitais e


anônimas viraram fonte de conteúdo e financiamento.
de imprimir objetos cada vez mais complexos a partir
de arquivos transmitidos pela internet, é possível,
entre membros de uma rede, sem passar por uma
instância central. Usada para referir-se a tecnologias
Alguns verbetes do universo colaborativo
Sites como a Wikipédia são crowdsourced: recebem por exemplo, transmitir instruções para criar bens de digitais, como torrents (extensão que permite a
usados ao longo desta edição:
conteúdo da multidão. Sites como o Catarse são consumo ou ferramentas. transferência de arquivos entre usuários), também
Comuns – Originalmente, os commons, ou plataformas de crowdfunding, o financiamento coletivo. designa redes de solidariedade no mundo real.
comuns, designam recursos compartilhados pela Internet das coisas – Aos poucos, os objetos do dia a
sociedade, como o ar, a terra e o conhecimento. DIY, FabLabs, Makers – Do-it-yourself, fabrication dia vão sendo conectados à rede, enviando dados sobre Wiki – Criada por Ward Cunningham, a tecnologia
Na internet, o termo ganhou um cunho cultural e laboratory e movimento maker são vertentes de novos seu uso para os algoritmos que regem sua gestão. A da Wikipédia é simples: consiste numa aplicação
político, fundando novas formas de propriedade modos de produção usando tecnologias digitais. Os administração de fluxos e estoques, por exemplo, fica de texto com código fácil, que permite adição,
intelectual, como as propostas pela organização não FabLabs são pequenas oficinas que se dizem capazes mais eficiente. supressão e modificação por qualquer pessoa. Na
governamental Creative Commons. de fazer "quase qualquer coisa". língua havaiana, wiki significa "ligeiro".
Moedas complementares – Dos clubes de troca aos
Consumo colaborativo – Em vez de comprar um bem Hackerspaces – Assim como os Fablabs, são espaços algoritmos conhecidos como criptomoedas (por exemplo, Uber, Airbnb, Prosper – Essas empresas estão entre
que será pouco usado, é possível alugá-lo, tomá- de encontro onde as pessoas trocam experiências e Bitcoin), buscam escapar à instabilidade das moedas as mais bem-sucedidas da economia colaborativa
lo emprestado ou trocá-lo com desconhecidos. podem trabalhar juntas em projetos digitais. Também oficiais, além de promover trocas comunitárias e evitar as visando o lucro. Por meio de uma plataforma,
Do compartilhamento de carros à livre doação, o são espaços de aprendizado, com workshops e cursos. taxas dos bancos. permitem que os usuários interajam e negociem de
acesso aos serviços é mais importante que a posse forma direta serviços de transporte, de hospedagem
dos bens. Impressoras 3D – Com esses dispositivos, capazes P2P – Corruptela de peer-to-peer, ou a relação direta e financeiros, respectivamente.

Elaboração: Diego Viana

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RETRATO

Festival
de sonhos
FOTOS DUNCAN RAWLINSON
TEXTO MAGALI CABRAL

Um retrato do espírito colaborativo, mais do que


possível, é inevitável quando o cenário é o Festival
Burning Man, em Black Rock, região do Deserto de
Nevada (EUA). As imagens feitas por Duncan Raw-
linson são o extrato de um encontro especial. De
dezenas de milhares de pessoas doando uma for-
ma de expressão qualquer. Ou tentando descobrir
dentro de si algo que possa compartilhar. Ou es-
tando lá apenas por estar. Para olhar, se divertir e
experimentar. O fogo coroa o festival-poema e no
deserto fica só o deserto.

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DIEGO VIANA
Jornalista, doutorando no Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos da FFLCH/
USP (Diversitas). Professor convidado na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo
artigo

Monopoly e frescobol
Perscrutando qualquer sistema social e econômico, o que encontramos é a convivência
de formas de competição e colaboração, concorrência e cooperação

U
ma anedota pode servir para colega uma ferramenta emprestada
ilustrar o bailado de opostos dificilmente ouvirá como resposta: "O
em que estão sempre envolvi- que eu ganho com isso?" Se essa fosse
das as noções de colaboração a regra, a economia sucumbiria a uma
e competição, como uma espécie de yin vertigem de negociações.
e yang econômico. Essa anedota pode Entretanto, os recursos são escas-
ser chamada de "estranho caso do Banco sos: entra em cena o segundo princípio,
Imobiliário". O tradicional jogo de tabulei- a "troca", e com ela a competição e o cál-
ro, cujo nome original – Monopoly! – tem a culo de equivalências, implicando uma
vantagem da sinceridade, consagrou-se relação determinada no tempo, que pode
como sucesso mundial com um formato ser reiniciada, ao contrário da pura cola-
praticamente oposto ao imaginado por boração, que sugere continuidade. Mas
sua inventora, e por isso é interessante. existem diferenciais de poder, que se cris-
Em 1906, a professora americana talizam em "hierarquia", e se desviam da
Lizzie Magie queria ensinar a seus alunos equivalência na medida em que formam
o pensamento do autor socialista Henry identidades precisas. As relações se dão
George. O eixo principal dessa teoria era a por hábitos adquiridos e é preciso eficiên-
ideia de que a concentração da proprieda- cia para que as coisas aconteçam.
de fundiária seria a grande causadora da Graeber mostra como atividades
miséria. Magie criou então o Landlord's sempre, colaborar jamais. Parece ser a diversas clamam por diferentes modos
Game, que pode ser traduzido como versão lúdica da divisão caricatural entre de organização, convivendo em diferen-
"jogo do senhorio", ou, para dar ares bra- competição e cooperação, que se cristali- tes graus, segundo o ponto de vista do
sileiros, "jogo do latifundiário". Uma das zou na imaginação moderna. observador e as idiossincrasias da so-
alternativas era jogar do modo que ficou Mas no jogo, como no mundo, a cari- ciedade. Um mundo fundado na compe-
consagrado mais tarde: cada um tentan- catura esconde nuances bem mais finas. tição, como o moderno, deixa espaços,
do dominar o máximo possível do territó- Perscrutando qualquer sistema social e embora marginais, para a cooperação
rio para extrair renda. Ganha quem obti- econômico, o que encontramos é a convi- (nas famílias, nas firmas) e a hierarquia
ver o monopólio dos territórios e levar os vência de formas de colaboração e com- (nas empresas, no Estado). Um siste-
adversários à asfixia financeira. petição, concorrência e cooperação. Se ma hierárquico, como o feudal, envolve
Mas havia uma outra possibilidade: um dos extremos fosse alcançado, acon- enormes competições (entre nobres,
cada um contribuir com suas próprias teceria como no jogo de Magie: ou bem a por exemplo) e a profunda necessidade
posses para que, em colaboração, to- perda de interesse por falta de disputa, de cooperação.
dos prosperassem juntos. É claro que, ou uma economia morta por asfixia, com Por isso, quando começa a tomar
para dizer o mínimo, a repercussão foi a absoluta concentração dos recursos na corpo a economia da colaboração, o
decepcionante. Fora o frescobol, não mão do monopolista. mais relevante não é a mudança da prá-
consigo imaginar um jogo bem-sucedi- Para o antropólogo David Graeber, tica, mas a do foco. A colaboração não
do em larga escala no qual os interesses todo sistema de trocas é regido por três suplanta nem a competição nem a hie-
dos jogadores convirjam . O jogo didáti- princípios. O ponto inicial é a colabora- rarquia. Seria uma ilusão pensar que a
co de Magie apelava a uma racionalidade ção pura e simples, ou "comunismo co- escassez desaparecerá, ainda que cer-
de longo prazo inexistente no universo tidiano", e envolve os serviços e gestos tos bens, e até mesmo a energia, tenham
dos jogos, que apelam a um instinto de que as pessoas fazem umas para as ou- custo marginal zero, como aponta Jere-
rivalidade e vitória. tras sem contrapartida, a cooperação my Rifkin. Antes, o que a economia cola-
A trajetória do jogo para tornar-se entre colegas de trabalho, a organiza- borativa traz de transformador é a am-
como o conhecemos é contada por Chris- ção interna das firmas – teorizada por pliação de um horizonte que, por tanto
topher Ketcham no artigo “Monopoly Ronald Coase em 1937. No exemplo de tempo, esteve encerrado nos antolhos
is Theft” . O que chama atenção é que Graeber, um trabalhador que pede a um da pura competição. E isso não é pouco.
Monopoly alcançou o sucesso quando O Celsius – o desafio dos 2o C é um exemplo de jogo que premia a colaboração e articulação entre os players:
assista a vídeo em goo.gl/UKWr34 Leia em goo.gl/1SZbX
extirpou uma das alternativas: competir

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REPORTAGEM TECNOLOGIA

Aldeia
2.0
Como o novo
aparato tecnológico
impulsiona o
ecossistema
econômico
fundamentado
nas noções de
colaboração e de
compartilhamento
POR FÁBIO RODRIGUES
FOTO DUNCAN RAWLINSON

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TECNOLOGIA

Em meio às inovações que a internet tornou em massa começa a pensar que já está na hora
de os átomos entrarem também na dança. “A
nossos carros estão constantemente sendo
utilizados”, arremata.

possíveis, talvez a mais disruptiva seja ela mesma


internet foi o primeiro boom. Agora estamos De acordo com Tomás de Lara, a intensi-
descobrindo o que dá para fazer no mundo dade de uso dos veículos no modelo carshar-
real indo além da internet” , adianta a arqui- ing chega a se multiplicar por seis. “Imagine

F
teta e diretoria-executiva do FabLab (consulte se isso vira mainstream? A demanda por car-
oi o típico caso de mirar o que via e veis que a internet tornou possível, talvez ne- Glossário à pág. 24) Brasil Network e funda- ros novos poderia cair seis vezes! É menos
acertar o que não tinha como ter vis- nhuma seja tão disruptiva quanto ela mesma. dora da consultoria We Fab, Heloisa Neves. borracha para pneus, alumínio para lataria,
to. Em 1962, quando o filósofo cana- Segundo Max Nolan Shen, que se autoiden- Esse aspecto mais cultural também é aço para estrutura, vidro... é algo disruptivo”,
dense Marshall McLuhan cunhou o tifica como um cultural hacker, da consulto- destacado por Mikel na hora de justificar por pondera, ressaltando que a economia colabo-
termo “aldeia global” para descrever ria Dervish, esse foi o primeiro contato real que razão essa transformação está aconte- rativa “ajuda o mundo no uso eficiente de re-
o sentimento de que a comunicação de mas- do público em geral com o conceito das redes cendo agora. “A questão não é só tecnoló- cursos materiais, financeiros e intelectuais”.
sas estava tornando o mundo menor, não abertas e distribuídas que, aos poucos, está se gica, a evolução das ideias também é muito A Sampa Housing ataca outro tipo de pro-
havia como antecipar que a revolução digital espalhando para outras áreas. “Isso tudo está importante” , opina. blema: o excesso de imóveis vazios na capi-
abalaria o mundo em ondas sucessivas pe- influenciando a sociedade, que está ficando É uma mudança de paradigma que tem po- tal paulista. “Existe uma quantidade grande
las décadas seguintes. Tampouco o quanto mais aberta e transparente. Sistemas centra- tencial para oferecer respostas interessantes de apartamentos não locados em São Paulo” ,
O termo isso desdobraria o conceito que descreveu no lizados estão em crise, sejam eles os gover- aos – cada vez mais – evidentes limites da explica Alexandre Lafer Frankel, CEO da Vi-
popularizou-se
clássico A Galáxia de Gutenberg. nos, as religiões, sejam as empresas” , analisa. economia de consumo. “Hoje, nosso mode- tacon, incorporadora que há cerca de nove
a partir de 2004
para descrever a A popularização da internet a partir dos lo econômico é unidirecional: você extrai a meses comprou a start-up.
onda da internet anos 1990 subverteu absolutamente tudo. REVOLUÇÃO matéria-prima, processa e faz produtos que A proposta da Sampa Housing é fazer com
em que iniciativas
Onde só havia sistemas centralizados e hie- Mas a internet pode nem ser mais o fator são quase descartáveis. Esse sistema está se que os proprietários cadastrem seus imó-
voltadas para o
user generated rárquicos nos quais os fluxos partiam ne- dinâmico no processo que estamos vivendo O Uber é um tornando inviável” , analisa Cezar Taurion. O veis na plataforma. Estes então passam por
content ganharam cessariamente de um único ator até chegar agora. Talvez não seja coincidência o fato de serviço similar consultor acrescenta que o grande pulo do um processo de “curadoria” – para verificar
proeminência ao dos táxis, mas
a vários milhões de usuários/consumidores as novas formas de economia terem ganhado prestado por gato tem sido encontrar maneiras de usar se atendem aos padrões de qualidade – e, se
Rede
começaram a proliferar sistemas não linea- tração só depois que o bom e velho computa- motoristas comuns essa nova camada computacional para con- aprovados, são oferecidos em um sistema de-
res em que qualquer pessoa poderia produzir dor pessoal começou a ceder espaço para as que só precisam verter produtos em serviços. “Estamos indo senhado com simplicidade. “Alugar um imó-
internacional de
cadastrar-se na
origem francesa e distribuir o que quer que fosse. tecnologias móveis. Essa é a opinião de um de uma economia do produto para outra ba- vel é uma experiência desgastante, mas pela
plataforma da
dedicada ao tema
da economia
É nessa emergência da chamada web 2.0 dos pioneiros do Vale do Silício e fundador do empresa seada em serviços. Um produto é algo que internet fica tudo muito mais fácil. A beleza
colaborativa. que o embaixador da OuiShare no Brasil, Burning Man (quadro à página 38 e Retrato à precisa ficar sempre com você para ser usado, desse modelo é que ele junta o físico e o vir-
Fundada em 2012, O Airbnb permite
Tomás de Lara, identifica um dos pontos de pág. 26), Michael Mikel. “A internet permitiu que indivíduos
já um serviço é ‘comparti- tual para reinventar ati-
sua face mais
partida de uma nova forma de pensar a eco- a troca de informações, mas isso não é mais lhável’”, completa.
Soluções para
visível é o ofereçam espaços vidades que já existem há
OuiShare Fest nomia pautada pela colaboração, e não pela novidade. O que há de novo nesse cenário são para aluguel, seja muito tempo” , explica.
um imóvel vago,
competição e o acúmulo desmedidos. “Quan-
do o usuário vira o gerador do conteúdo, ele
os aparelhos e os aplicativos móveis que, por
sua simplicidade de uso, são fundamentais na
seja um quarto.
Normalmente
OTIMIZAÇÃO
O compartilhamento
converter produtos Os benefícios dessa
abordagem não são ape-
deixa de ser o consumidor e passa a ser o pro- propagação dessas ideias” , opina. é usado para
locações por
veio a ser a pedra angular em serviços são nas difusos. Há bons mo-
tagonista” , afirma, apontando a Wikipédia O que alimenta esse processo ainda é a de uma nova geração de
o pulo do gato
Lançado em curta temporada
tivos pessoais para tro-
1999, foi a pioneiro – projeto lançado em 2001 – como o grande expansão quase miraculosa do poder de fogo em substituição serviços on-line que pro- car a posse definitiva de
entre as redes de exemplo de criação colaborativa. “Ela tem dos microprocessadores que – ao fim e ao a hotéis curam criar valor otimi- alguns bens por sistemas
compartilhamento convencionais
de arquivos no
esse aspecto da multidão fazendo algo junto” , cabo – nos permite fazer cada vez mais coi- zando bens amplamente que permitam acesso a
modelo P2P. diz o entrevistado. sas com cada vez menos equipamento. “Em disponíveis. Foi esse o truque que levou start- eles quando necessário. “Não tem passivos
Fechou em 2001 em Não quer dizer que o tiro de largada te- média, a capacidade computacional dobra a Na computação -ups como Uber e Airbnb a torna-se em- como impostos, seguros e manutenção. Claro
decorrência de um em nuvem, um
processo movido
nha sido dado só depois dos anos 2000. O cada dois anos. Um smartphone de hoje tem presas bilionárias em uns poucos anos. “Há que esses custos ainda vão existir, mas serão
terminal pode
pela indústria Napster e o movimento do software livre a mesma capacidade do data center que a Nasa acessar dados e uma abundância enorme que não está sendo distribuídos” , afirma Tomás de Lara.
fonográfica foram precedentes importantes ao popula- tinha quando levou o homem à Lua” , destaca recursos de outro devidamente utilizada” , resume Max Nolan. As vantagens são tão palpáveis que, em
rizarem a noção de que o público podia gerar computador por A verdade é que a economia do produto to-
Taurion. mais ou menos um semestre, a Basf – um
Filosofia de meio da internet
desenvolvimento abundância. “O software livre mostrou que Junte nisso novidades como a compu- lera quantidades surpreendentes de desper- dos clientes corporativos da Joycar – saiu de
de softwares que dava para desenvolver produtos complexos tação em nuvem e a geolocalização e estão Capacidade de dício. “Um carro chega a ficar 90% do tempo 1 carro compartilhado para 7. “Os resulta-
permite a qualquer de forma colaborativa” , aponta Cezar Taurion, dadas as condições para que muita coisa in- identificar com parado e isso não faz sentido” , exemplifica dos foram além da expectativa. Eles queriam
usuário o acesso precisão a posição
e a possibilidade que atuou por 12 anos como diretor de novas teressante aconteça. E o que está emergindo geográfica de um Rafael Taube, que há dois anos fundou a Joy- oferecer só uma solução extra de mobilidade,
de modificar os tecnologias na IBM antes de fundar a Litteris desse caldo extrapola, em muito, os limites do aparelho como car, empresa de aluguel de automóveis por mas tiveram retorno financeiro” , afirma Tau-
códigos-fonte dos Consulting. mundo virtual. A geração que cresceu acos- um celular ou períodos curtos por meio de uma plataforma be. Frankel também comemora o potencial do
programas computador
Em meio à imensidão de inovações incrí- tumada a socializar seus arquivos de música digital – conhecida como carsharing. “Já os crescimento da Sampa Housing, que já conta

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TECNOLOGIA

Chega ao Brasil o hoffice, compartilhamento de um movimento que vai explodir”


lan, confiante.
, diz No- deu nas grandes cidades – o próprio nome do
site surgiu da imagem nostálgica da vizinha

de home offices entre profissionais


E que tal se, além do escritório, desse que aparece para pedir uma xícara de açúcar.
para compartilhar uma fábrica inteira? Bem “Nossa meta é resgatar essas relações que-
ou mal, essa é a proposta dos fab labs e dos brando o gelo de bater na porta de um vizinho.
maker spaces . “Um fab lab é uma plataforma Você não precisa bater em 30 portas diferen-
com mil imóveis cadastrados e planeja tri- ção a ter um escritório próprio, esses espaços onde pessoas se encontram para materia- tes para encontrar o que quer, mas tem de se
plicar esse número até o fim do ano para dar querem ser mais do que uma “república de lizar ideias através de máquinas de fabrica- abrir para esse contato pessoal [de receber
conta de uma fila de espera que já chega a 2 empresas”. “Você traz as pessoas para com- ção”, explica Heloisa Neves, da rede Fab Labs quem vai buscar ou devolver um objeto]” , explica
mil pessoas. partilhar porque fica mais barato, mas acaba Brasil, que contabiliza 11 desses espaços em Camila Carvalho.
compartilhando ideias. Graças a esse fluxo de plena atividade “e mais um a caminho”. De Já os empreendedores Arthur Felizzola e
FATOR DE PRODUÇÃO informações constantes e randômicas você acordo com ela, esses es- os irmãos Fábio e Marce-
Usar a colaboração para economizar uns abraça causas que nem imaginava e gera no- paços acabam se tornando lo Chaar estão tentando

O Tem Açúcar? é
Espaços trocados com imóveis e carros pode ser ape- vos negócios” , avalia. o ponto focal para o apa- encontrar um caminho
compartilhados
que oferecem toda nas a ponta do iceberg. Há outras possibilida- Radicalizando sobre esse conceito, Max recimento de novos negó- do meio. O primeiro de-
a infraestrutura
de um escritório
des. Em muitos casos, a colaboração tem sido Nolan está trazendo para o Brasil o hoffice, cios. “O Garagem foi um um projeto que les é cocriador do Closit!,
um vetor para a geração de riqueza. no qual profissionais que trabalham em re- dos pioneiros e funcionou por meio do qual os usuá-
para empresas
ou profissionais Novidade há alguns anos, os espaços de gime home office abrem suas casas uns para mesmo como uma incu- aproxima vizinhos rios podem vender peças
autônomos coworking já são parte consolidada da pai-
sagem, tanto que o House of Work vem se
os outros. Criado no fim de fevereiro, o grupo
Hoffice São Paulo do Facebook já conta com
badora” , conta.
As facilidades trazidas
no Rio de Janeiro de roupa e acessórios de
segunda mão. “Ele per-
desdobrando para incluir projetos ligados à 535 pessoas. “Você só precisa de um espaço pelas estratégias de cola- mite que peças usadas
gastronomia e educação. Segundo o seu pro- agradável onde as pessoas possam trabalhar boração para os empreendedores são celebra- sejam recolocadas no mercado e que se crie
prietário, Wolfgang Menke, embora o atrati- sem aperto, um bom wi-fi e generosidade de das por Cezar Taurion. “Você quebra o modelo valor nesse processo. Nossos usuários po-
vo inicial seja o preço mais em conta em rela- abrir sua casa. Acho que estamos no começo em que era preciso ter acesso ao grande ca- dem redistribuir o que não usam, diminuindo
pital para conseguir uma série de coisas que, o consumo e aumentando o ciclo de vida dos
hoje, a tecnologia me permite fazer quase de produtos” , descreve.
graça” , comemora. É um espírito similar ao do Avisaí de-
senvolvido pelos irmãos Chaar. O aplicativo
ENCONTRO OFF-LINE Em quase três décadas, o festival Burning Man RETOMANDO A VIZINHANÇA – que, por enquanto, só funciona na área da
Esse barateamento de processos de gran- Grande Belém – conecta moradores e forne-
tornou-se um propagador de ideais comunitários e de colaboração. E chegam
de escala torna viáveis iniciativas que colo- cedores locais. “Isso permite aos pequenos
a influenciar muitas empresas pontocom no Vale do Silício cam de lado a ideia de operar como empresas comerciantes fomentarem seus negócios” ,
convencionais e apontam para uma direção explica Marcelo Chaar.
Em 1986, um par de doidões da Califórnia – Larry Harvey e Jerry James – construiu um boneco de madeira
mais comunitária. Para que isso dê certo é preciso que haja
que carregaram até uma praia ao norte de São Francisco onde, sob aplausos de alguns amigos e umas poucas
Há cerca de um ano, a estudante carioca confiança entre os usuários. Esse é um pro-
dezenas de curiosos, botaram fogo na criação. Gostaram tanto do feito que resolveram fazer disso um
de publicidade Camila Carvalho lançou o site blema que, aos poucos, a tecnologia também
compromisso anual. Foi desse começo improvável e espontâneo que nasceu o Burning Man, festival anual que,
Tem Açúcar?, por meio do qual é possível pe- está ajudando a resolver por meio de meca-
em 2014, reuniu quase 66 mil pessoas em Black Rock, uma região no Deserto de Nevada onde fincou raízes.
dir emprestado praticamente qualquer coisa nismos que rastreiam a reputação de cada
“O Burning Man é um experimento em comunidade”, resume Michael Mikel, que participa do evento desde
para outros usuários que morem nas redon- usuário e indicam se ele é – ou não – confiável.
sua terceira edição e é um dos seis membros do Conselho dos Fundadores. “Muita gente tem sua primeira
dezas. Bancado de seu próprio bolso, o su- “Quando vivíamos em tribos, você conhecia
experiência comunitária real quando vem ao festival”, completa (mais em Retrato à pág. 26).
cesso do site – que já tem 40 mil cadastrados as pessoas e podia desenvolver a relação de
O caso é que não se trata de uma festa turbinada, mas de um evento de vanguarda cuja espinha dorsal é
– superou as expectativas da criadora. “É um confiança necessária ao compartilhamento
um conjunto de 10 princípios que favorecem reflexões profundamente identificadas com o tema da economia
número bem maior do que a gente esperava, de recursos” , afirma Michael Mikel.
colaborativa (veja em goo.gl/O4fniH). “O que o Burning Man quer é criar uma forma alternativa de pensar, e
o que mostra como a vontade de comparti- Como o mundo mudou radicalmente de lá
quebrar preconcepções que temos do mundo”, diz.
lhar é grande” , informa. Hoje, a estudante para cá, Mikel destaca a necessidade de en-
Não seria nenhum exagero ver o DNA do Burning Man na forma como o Vale do Silício vem abraçando o
está em busca de investidores para ampliar contrar outros caminhos. “Somos uma tribo
novo paradigma da economia colaborativa. Nesses quase 30 anos, o festival se tornou o ponto de encontro
a plataforma. muito maior agora e, com as tecnologias, po-
não oficial da indústria de alta tecnologia. “Afetamos muitas companhias pontocom, não somente por meio dos
A grande inovação do Tem Açúcar? foi demos colaborar em escalas muito maiores
indivíduos que as fundaram, mas também nas ideias que estão por trás delas”, confirma Mikel.
olhar para o passado e tentar resgatar um que no passado” , conclui o uns dos pioneiros
Ele mesmo é prova dessa influência. Além de incluir passagens por muitas das pioneiras do mundo hi-tech,
pouco do espírito de vizinhança que se per- do Vale do Silício.
Mikel foi o responsável pela primeira linha de produção robótica nas fábricas da Apple em 1986.

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G A B R I E L A A L E M * E F A B I O O T U Z I B R O T T O **
brasil adentro SÉRGIO ADEODATO
Jornalista
*Pesquisadora do Programa de Consumo e Produção Sustentáveis do GVces
**Cofundador do Projeto Cooperação – Comunidade de Serviços
artigo

Água a qualquer custo? Colaboração na economia de mercado


Rio protegido por reserva ecológica está na mira das obras para Na “evolução” do comércio tradicional, é possível consumir e compartilhar recursos
o abastecimento de São Paulo, sem estudo de impacto ambiental sem perder as liberdades individuais nem sacrificar o estilo de vida

O C
cenário ao longo da escor- olaborar, compartilhar ou co– do transe de consumo em que vivemos
regadia trilha de 13 quilôme- operar não significa agir em nos últimos anos vêm acompanhados de
tros montanha abaixo entre prol do coletivo e abrir mão da um desejo de reviver formas negligen-
o distrito de Taiaçupeba, em própria individualidade. Perió- ciadas de capital social e de encontrar um
Mogi das Cruzes (SP), e Bertioga (SP), no dicos de ciência, de psicologia social e de propósito e uma história autêntica por
litoral, retrata um dilema bem diferente economia transbordam com artigos so- trás do que compramos, produzimos,
do enfrentado pelos colonizadores por- bre a auto-organização das formigas, a fazemos e criamos. Para isso, o O Que É
tugueses que viam no relevo da Serra “inteligência” de um enxame de abelhas Meu É Seu enuncia três valores centrais
do Mar um obstáculo para desbravar os e a cooperação de um cardume de peixes da nova consciência de consumo: simpli-
sertões. No início do percurso, a Mata para se livrar de um predador maior. cidade, rastreabilidade e transparência,
Atlântica encontra-se em processo de Todos esses comportamentos, cada e participação ativa.
regeneração natural, após séculos de vez mais evidentes em teorias sociais, Para que novos hábitos, ideias e vi-
impactos causados por diferentes ciclos negócios e histórias pessoais, apontam sões tenham sucesso, é necessária uma
econômicos, e é enriquecida por plantio para uma onda socioeconômica emer- meados dos anos 1950, quando oficial- rede de relações e de plataformas de
de palmito-juçara. A palmeira nativa gente, em que o ato de juntar e com- mente estreou o hiperconsumismo e um comunicação colaborativa que trans-
atrai fauna em busca de alimento e esta, partilhar está sendo reconhecido como dos nossos maiores desafios: lidar com o formem princípios em comportamen-
por sua vez, dispersa sementes de várias descida em direção do mar. Nele vivem volume menor, fora da reserva privada. forma atraente e valiosa de colaboração vício inebriante de definir uma parte tão tos em uma escala global. As mudanças
espécies para o crescimento da floresta. peixes ameaçados, como o lambari Cop- O governo estadual tem argumen- e comunidade. Segundo o livro O Que É grande de nossas vidas pela propriedade de que o livro trata, da perspectiva do
A cobertura vegetal íntegra, mantida por tobrycon bilineatus, que havia sido cole- tado que seguir o rito ambiental impe- Meu É Seu: Como o consumo colaborativo e pela interminável lista de coisas que te- ‘meu’ para o ‘nosso’, estão ocorrendo
um grande esforço de conservação em tado por cientistas pela última vez em dirá trazer a água para a população. vai mudar o seu (o nosso) mundo , essa mos de possuir. no momento em que há uma confluên-
lugar tão próximo de cidades populosas, 1915 e foi achado na área durante o levan- Apesar disso, o Ministério Público exi- onda é o consumo colaborativo. Os autores acreditam que a transfor- cia desse desenvolvimento tecnológico
protegeu valiosos estoques de água – e é tamento da fauna para o plano de mane- giu informações sobre os estudos de De acordo com os autores, o con- mação se dará em decorrência das pes- (internet) e cultural.
exatamente aí que está a polêmica. jo. Uma das 35 espécies de mamíferos é impacto ambiental da obra, ainda não sumo colaborativo busca pôr em vigor soas em seus papéis de consumidores, à Não há uma perspectiva clara para
A questão recai sobre o Rio Itatinga, o muriqui, o maior primata das Américas. apresentados. O Itatinga é importante um sistema em que as pessoas dividem medida que deixem de se identificar com traçar o futuro exato do consumo co-
manancial hoje visto pela Sabesp, a com- Voltada para a educação ambiental, a para o equilíbrio ecológico dos mangue- recursos sem perder liberdades pes- formas desequilibradas, centralizadas e laborativo. O que se percebe são carac-
panhia de abastecimento de São Paulo, reserva guarda antigas árvores de euca- zais, em Bertioga. Além disso, nele está soais nem sacrificar seu estilo de vida controladas de consumismo e migrem terísticas marcantes e tendências que
como estratégico para evitar torneiras lipto, herança dos tempos em que a área localizada uma das hidrelétricas mais – esta é a visão da cientista política da para meios de compartilhamento, agre- indicam como esse fenômeno está evo-
vazias na maior metrópole brasileira. O foi usada para experimentos pioneiros de antigas do País, inaugurada em 1910, Universidade de Indiana Elinor Ostrom, a gação, abertura e cooperação. luindo. Observa-se também que tanto a
plano emergencial de obras, arquitetado silvicultura e plantios para abastecimen- hoje responsável por 60% da energia primeira mulher a receber um Nobel de De acordo com o estudioso chileno sustentabilidade quanto a comunidade
a toque de caixa, prevê captar ali 1,2 mil to da indústria de celulose. Antes disso, a necessária às operações do Porto de Economia, em 2009. Além disso, esse Humberto Maturana , os seres huma- são partes inerentes e inseparáveis do
litros por segundo para nutrir represas Mata Atlântica era convertida em carvão Santos, o maior do Brasil e da América consumo permite que as pessoas, além nos não são apenas animais políticos, processo de mudança em curso. No fu-
que estão poluídas e obrigam alto custo para as siderúrgicas. Mas, com o aperto Latina. E a menor vazão do rio, decor- de perceber ganhos enormes do acesso mas, sobretudo, “animais cooperativos”. turo, a maioria de nós terá os pés no ‘pos-
de tratamento. “É preciso transparência das leis ambientais e a dificuldade da me- rente da captação da água, pode preju- a produtos e serviços em detrimento Para ele, a cooperação é central na ma- suir’ e no ‘compartilhar’, assim como os
para não haver conflitos, porque a água canização em relevo íngreme, constatou- dicar o funcionamento da usina. da propriedade, economizam dinheiro, neira humana de viver, como uma carac- negócios carregarão características
é da população de Bertioga”, diz Paulo -se que a floresta da região poderia valer “Após o carvão e o eucalipto, nossa espaço e tempo, divertem-se e geram terística da vida cotidiana fundamentada híbridas, tanto do comércio tradicional
Groke, diretor de sustentabilidade do mais em pé do que derrubada. Até que salvação está no turismo”, afirma Paulo benefícios ambientais significativos. na confiança e no respeito mútuo. como da economia colaborativa.
Instituto Ecofuturo, ligado à indústria hoje, diante da crise hídrica, os olhares se Pinheiro de Souza, o Zé Ferro, um conta- O resgate histórico apresentado na Nessa linha, os autores do livro de- Cooperação, confiança e respeito
de papel e celulose Suzano. Ele pergun- voltaram para a água lá estocada. dor de causos, ex-caçador e ex-funcioná- obra aponta o surgimento do termo “con- fendem que nos encontramos em uma mútuo parecem ser algumas das prin-
ta: “De que adianta conservar um rio em No fim do ano passado, com receio de rio de siderúrgica que hoje se dedica a cul- sumo conspícuo” (ou consumo ostenta- época otimista e decisiva de mudança, cipais práticas necessárias à evolução
quase toda a sua extensão, se um trecho colapso no abastecimento dos veranis- tivar cambuci, fruto nativo de mil e uma tório), trazido pela primeira vez em 1899 em pleno período de transição e re- humana, daqui para a frente.
mais abaixo sofre impactos para bene- tas no Réveillon, a Sabesp fez uma cap- utilidades. Uma atração é a trilha que para descrever os novos ricos do século criação do nosso sistema de consumo, Para isso, precisamos reaprendê-
ficiar outra região, sem compensação tação emergencial durante quatro dias, desce a Serra do Mar, beirando o Itatinga XIX, caracterizados por serem pessoas que vem sendo construído de maneira -las, desenvolvendo o interesse pelo
para quem o protege?” dentro do Parque das Neblinas, com 5 até uma vila histórica ao pé das monta- ansiosas para mostrar sua riqueza e seu a atender às nossas necessidades hu- bem comum e o compromisso com o
O Parque das Neblinas, reserva par- quilômetros de tubulação até o Guaru- nhas. No caminho há mirantes com vista poder social. Familiar à nossa era ou não, manas básicas de comunidade e de re- florescimento de uma comum-unidade
ticular de 2,8 mil hectares mantida pela já. Depois cogitou fazer uma barragem para o oceano. E também cachoeiras. o excesso do consumo de massa come- conhecimento individual. Os caminhos humana real, exercitada e cultivada no
instituição ao custo de R$ 1 milhão por para desviar 2,8 mil litros por segundo, Naquela floresta protegida, escudo con- çou na década de 1920 e explodiu em para as transformações que nos tirem cotidiano de nossas relações com-o-su-
ano, abriga as nascentes e todo o percur- o que implicaria a inundação da flores- tra ocupações urbanas irregulares, água De autoria de Rachel Botsman e Roo Rogers, foi publicado no Brasil pela Editora Bookman (Porto Alegre, 2011) mo do que é sustentável e possível para
Autor de Emociones y Lenguaje en Educación y Política (Santiago: Hachette, 1990)
so do Itatinga no alto da serra, antes da ta. No final, o projeto previu retirar um não falta. Mas é preciso saber usá-la. todos, sem exceção.

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REPORTAGEM TENDÊNCIAS

Fase de
maturação
A virada para uma economia
predominantemente colaborativa
ainda deve demorar, mas as
previsões indicam ser inevitável
POR MAGALI CABRAL
FOTO CIRCUITO FORA DO EIXO

P
equenas preocupações cotidianas, como acompanhar o
sobe-e-desce do dólar, do PIB e da Bolsa de Valores, ab-
sorvem tanta energia e espaço nobre no noticiário que
poucos se dão conta do tique-taque da “bomba-relógio”.
Nem mesmo as fortes evidências de que a saúde do sis-
tema financeiro, as tensões sociais e o limite ambiental estão por
um fio são suficientes para pôr em estado de alerta a massa que
movimenta o business as usual global. Inertes, as pessoas vão se
deixando empurrar para a beira do abismo. Vários estudiosos em
macrotendências creem que muitas das soluções para o impas-
se civilizatório testemunhado pela geração atual virão do novo
modelo de economia baseada em redes e ações colaborativas.
Que para isso ganhar escala e chegar ao mainstream é coisa para
o futuro não resta dúvida. A questão é saber se haverá tempo de
Feira de troca de brinquedos realizada em Brasília desarmar a “bomba” e evitar o pior cenário.

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TENDÊNCIAS

Poder prescindir de representação intermediária vro De Baixo para Cima , Eliane Costa, mos-
tra em seu artigo “Tropicalizando a Economia
Em 2011, JR imprimiu 100 mil pôsteres em
diferentes países pelo mundo, inclusive no
O livro De
Baixo para Cima é
aberto e traz uma

é o grande trunfo da sociedade em rede


Criativa: Desafios brasileiros na perspectiva Brasil. Em geral, as instalações estão relacio- coletânea de textos
das políticas culturais” algumas manifesta- nadas a uma denúncia ou protesto. de vários autores
ções culturais de regiões periféricas que eram Na Tunísia, por exemplo, as imagens fo- sobre as várias
abordagens da
discriminadas nesse caminho intermediário ram coladas sobre os retratos do ditador e ex- economia criativa
até o público, como o passinho, o funk e o tec- -presidente Zine Al-Abidine Ben Ali, assim
Para o economista e escritor americano no caso de trabalhos intelectuais ou artísti- nobrega, e hoje estão sendo reinterpretadas e que foi deposto. No Brasil, JR colou imensas
Jeremy Rifkin, a era do capitalismo indus- cos, os custos tendem a se aproximar do zero. revalorizadas graças às mídias digitais. fotografias de olhos a fim de chamar atenção
trial, que vem alimentando crises em três Um número crescente de autores, como Já a capacidade que essas manifestações para o cruel assassinato de um grupo de jo-
grandes eixos da civilização – o financeiro, o o próprio Rifkin, está tornando suas produ- têm de se transformar em negócio e, as pes- vens do Morro da Providência, na Zona Oeste
social e o ambiental –, já está em seu último ções disponíveis a um preço muito baixo, ou soas, de tirar o seu sustento disso, é outra do Rio de Janeiro. Em palestra TED, o artista
ato. Sairá de cena “não muito rapidamente, até mesmo de graça. Como a internet permite história. Segundo Eliane Costa, as facilidades diz que sua vida mudou quando percebeu que
mas inevitavelmente”. Enquanto isso, assis- dispensar a maior parte das etapas interme- de acesso e compartilhamento trazidos pelo não mais precisava de curadores para divul-
timos ao desenrolar de uma economia híbrida diárias de confecção de um livro, os únicos cenário contemporâneo das redes, das tec- gar o seu trabalho. As ruas são sua galeria de
que tem em sua base a mistura de colabora- custos do escritor serão a quantidade de tem- nologias digitais e das trocas peer-to-peer (ou arte e a internet o meio para difundi-la .
ção social e economia privada, na definição po consumido na criação e o custo do uso de P2P, como também é grafado; consulte Glossário
do sociólogo Ricardo Abramovay, professor um computador e sua conexão. Por isso, um à pág. 24) de fato agregaram um novo ritmo de ABALANDO ESTRUTURAS
Projeto do Departamento de Economia e do Instituto e-book custa para o consumidor final muito inovação dessas experiências que brotam em Na esfera dos bens imateriais, fruto da
que promove de Relações Internacionais da Universidade menos do que um livro impresso. muitos cantos do Brasil. criação intelectual, a economia colaborativa
conferências
internacionais de São Paulo (USP). Poder prescindir de boa parte dessa re- “No entanto, [esse avanço] nem sempre é avança rapidamente. Mas, quando se adentra
e desenvolve Pelas contas de Rifkin o capitalismo in- presentação intermediária é o grande trun- acompanhado pelas políticas públicas, ainda no mundo dos objetos, o futuro totalmente
conteúdos dustrial continuará preponderante por mais fo da sociedade em rede, conforme vem presas a uma lógica de broadcast [de um para colaborativo parece mais distante. Para ten-
múltiplos com
pensadores, uns 50 anos. E quem viver até a segunda me- afirmando o sociólogo espanhol Manuel muitos], enquanto a comunicação e a cultura tar entender e explicar a origem desse mo-
artistas, cientistas tade deste século verá a economia colaborati- Castells, professor na Universidade da Ca- do século XXI já acontecem de muitos para vimento que ousa tentar invadir o terreno da
e líderes em vários va se tornar dominante. Essas considerações lifórnia e notório pesquisador dos reflexos muitos e de baixo para cima” , conta. produção de bens físicos, o jornalista e escritor Makers – A nova
campos de atuação revolução industrial
estão em seu livro The Zero Marginal Cost da sociedade em rede na economia e na po- O economista Ladislau Dowbor, professor Chris Anderson, autor de Makers – The new
Society: The internet of things, the collaborative lítica. Em entrevista recente ao projeto departamento de pós-graduação da Pontifí- industrial revolution, enxerga dois caminhos
Em tradução
livre: Sociedade commons, and the eclipse of capitalism , publi- Fronteiras do Pensamento, Castells ressal- cia Universidade Católica de São Paulo, tem possíveis para o “tsunami” que deverá abalar
do Custo Marginal cado recentemente na in- ta que, no campo político, uma boa definição para esse descompasso. as estruturas do velho modelo industrial com a É a distribuição
Zero: A internet das
ternet, com licença Crea- se isso não elimina a de- Segundo ele, nesse momento vivemos ain- popularização das impressoras 3D combina- livre e on-line do
coisas, a economia
colaborativa tive Commons (CC). Em cerca de 50 mocracia representativa da uma espécie de “disritmia social” , isto é, das com a gratuidade dos softwares de design desenho industrial,
com a qual alguém
e o eclipse do
capitalismo
A teoria do custo mar-
ginal zero de que trata a
anos, a economia e o papel do Parlamento,
potencialmente fortale-
temos toda uma organização institucional
“analógica” gerindo um mundo que já evo-
de objetos ( open-source design).
Um deles o escritor chama de “web comer-
pode criar um novo
projeto de máquina,
obra é uma característica colaborativa deverá ce a participação dos ci- luiu para o sistema digital. cial”: tem como característica baixas barrei- móvel ou o que
for e permitir sua
importante para o desen- dadãos na resolução dos ras de entrada, inovação rápida e intenso em-
ser dominante
O potencial do P2P no meio cultural é reprodução
volvimento da economia seus problemas. “Mesmo enorme, mas ainda pouco explorado. No en- preendedorismo – um caminho para atrair
colaborativa. No merca- não sendo um futurólogo, tanto, nesse pouco já surgiram movimentos as grandes empresas. O outro tem a ver com
do tradicional, existem é possível verificar hoje como o Inside Out, o maior projeto global de o Movimento Maker, ou pessoas produzindo Grupo informal
as margens de lucro praticadas ao longo das que já vivemos hibridamente, em presença arte participativa já feito, liderado pelo fo- coisas para o seu próprio uso. de entusiastas da
informática que
cadeias produtivas. O autor de um livro, por física e presença virtual” , diz Castells. “Te- tógrafo e artista de rua francês, conhecido Nesta segunda alternativa não há cons-
se reunia a cada
exemplo, entrega o produto do seu trabalho mos de reexaminar tudo o que sabíamos so- apenas pelas iniciais JR. Ele convida volun- trução de negócios. Vai mais na linha dos 15 dias no Vale
intelectual a um editor em troca de um adian- bre a sociedade industrial, porque estamos tários, em geral de comunidades pobres ou ideais da revista The Whole Earth Catalog, um do Silício – entre
1976 e 1985 – para
tamento pelas vendas futuras. Até o compra- em outro contexto” . em conflito, a se deixarem fotografar. De- ícone da contracultura nos Estados Unidos
trocar dispositivos
dor final, o livro terá passado por diferentes O campo da arte e entretenimento tam- pois, imprime esses retratos em formato de no fim dos anos 1960, cujo conteúdo editorial eletroeletrônicos
etapas: editora, gráfica, distribuidora, ataca- bém já sugere uma mudança precoce de para- pôsteres e, com a participação dos retrata- tratava de ecologia, autossuficiência e do- e informações
relativas ao DIY
dista e varejista. A cada uma, adiciona-se um digma nas relações existentes entre o artista e dos, os aplica em paredes, em telhados de -it- yourself (DIY): “Os ideais originais do
eletrônico
custo a ser remunerado. o seu público. A coordenadora do MBA Gestão casas, em áreas públicas, ou em espaços po- Homebrew Computer Club e do The Whole
Na economia colaborativa, com a possibi- e Produção Cultural da Fundação Getulio Var- lêmicos como o muro que atualmente separa Earth Catalog eram nos libertar das grandes
lidade da desintermediação, principalmente gas e uma das organizadoras e autoras do li- a Cisjordânia de Israel. empresas” , relembra Chris Anderson.

Acesse em digamo.free.fr/rifkin14.pdf Acesse a entrevista completa em fronteiras.com/o-projeto Acesse o livro em livro.debaixoparacima.com.br Conheça esse trabalho em jr-art.net

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TENDÊNCIAS

DESCENTRALIZANDO sua própria empresa” , analisa. mens. E a biologia, ao que tudo indica, parece corresponde à janela de tempo que sobrou até
Diante desse quadro não é difícil perceber Josh Levy, diretor da Access, uma ONG estar a favor do movimento colaborativo. É o se chegar a níveis catastróficos. Ele recorre
que o pressuposto básico para a existência das global que defende e amplia os direitos digi- que pensa a futurista Rosa Alegria, diretora ao autor do consagrado Plano B 4.0 – Mobili-
grandes empresas, que é internalizar os cus- tais dos usuários em risco ao redor do mundo, da Perspektiva, consultoria de cenários e es- zação para salvar a civilização , Lester Brown,
tos de transação de um bem material, está em publicou um artigo em maio na revista Wired tratégias, e do Projeto Millennium no Brasil, segundo o qual uma série de catástrofes está
risco. Em um texto sobre a economia híbrida, em que critica o projeto Internet.org do CEO a maior rede mundial de pesquisadores do por um fio. A que teria mais chance de eclodir
Ricardo Abramovay explica que as empre- do Facebook, Mark Zuckerberg, lançado dias futuro. Por força do ofício, ela mantém “ra- está no eixo da segurança alimentar em razão
sas existem justamente porque os indivíduos antes. A proposta de Zuckerberg é levar cone- dares” permanentemente direcionados ao do esgotamento dos lençóis freáticos em vá-
não conseguem juntar o esforço dos inúmeros xão aos dois terços do mundo ainda sem in- futuro e crê que a virada para uma economia rias partes do globo.
componentes da divisão do trabalho existen- ternet. Mas, segundo Levy, o projeto na reali- colaborativa já está em gestação. Dowbor lembra que o Estado de Bem-Es-
Tradução livre
tes no interior de uma fábrica. “Negociar, reza dade é uma espécie de “facebooknet” e o que Na mesma linha de Jeremy Rifkin, ela tar Social que elevou o status quo europeu aos para The Empathic
a economia institucional, é muito custoso” , está em jogo é o domínio dos bens comuns, afirma que a neurociência está comprovan- padrões atuais foi consequência da Segunda Civilization – The
race to global
afirma. “Daí o paradoxo de que a economia no caso a internet. Ele diz que uma internet do que o homem é um ser biologicamente co- Guerra Mundial, durante a qual morreram
consciousness in a
de mercado depende, antes de tudo, de orga- verdadeiramente aberta não pode e não deve laborativo e que não nasceu para competir. 60 milhões de pessoas. “Não parece razoável world in crisis
nizações de comando centralizado que são as funcionar como uma app store, em que uma Rosa cita o livro A Civilização Empática — A termos de esperar por um novo choque dessas
firmas e, mais ainda, as grandes corporações”. única grande companhia fica com a chave. corrida para a consciência global em um mundo proporções para conseguirmos força política
Em contraposição a esses comandos cen- Essa contrapartida de forças, como a das em crise, em que Rifkin reúne premissas para para mudar as regras do jogo”.
tralizados, Abramovay informa que algumas gigantes da internet, que tentam privatizar derrubar a teoria de que o homem é por na-
grandes empresas, como a fábrica japonesa bens comuns sempre que surge uma opor- tureza egoísta, materialista, individualista e
de impressoras Roland DG, já substituíram tunidade, representa um obstáculo impor- utilitarista. Segundo sua teoria, os humanos
as linhas de montagem tante para o crescimento são empáticos e realizam-se na compaixão, BIBLIOGRAFIA

Para saber mais sobre o tema economia


A biologia diz
por baias individuais e fortalecimento da so- solidariedade e pertencimento (mais sobre o
em que os trabalhadores ciedade em rede. As opor- assunto em Artigo à pág. 26). colaborativa e assuntos correlatos consulte:
montam os produtos do
começo ao fim. “Nota-se
que o homem tunidades de valorização
produtiva do trabalho
Rosa Alegria assina embaixo e diz que o
comportamento competitivo foi criado para
Brett Frischmann – Infrastructure: The social value of

é colaborativo
shared resources (2012)
que a coordenação cen- de milhões de pequenos favorecer o sistema econômico. “Esse espíri-
Bruce Lipton e Steve Bhaerman – Evolução Espontânea

por natureza
tralizada das tarefas dei- empreendedores que po- to competitivo adquire-se na escola, no tra-
(2013)
xa de ser premissa para o deriam se exprimir pela balho e até dentro das famílias.” Supondo que
Charles Leadbeater – It’s Co-operation, Stupid (2012),
avanço da produtivida- existência da sociedade da esteja certa e o homem seja de fato dotado de
disponível em bit.ly/1L6W9HN
de”. Em 2012, a revista The Economist publi- informação em rede, a exemplo do artista de uma natureza colaborativa, o que explicaria
Chris Anderson – Makers: The new industrial revolution
cou um dossiê prevendo que “os efeitos des- rua JR, vão ficando limitadas. a inércia diante de problemas agudos como
(2012)
ses potenciais de descentralização produtiva “O modelo de negócio que rege as empre- mudança climática, desertificação do solo, Disponível para download em: wwiuma.org.br/plano_b.pdf
Damien Demailly e Anne-Sophie Novel – The Sharing
vão fortalecer pequenas e médias empresas e sas que dominam a rede tem uma propensão destruição da cobertura vegetal, a redução
Economy: Make it sustainable (2014), disponível em
empreendedores individuais”. centralizadora que consiste em estimular ao dramática da biodiversidade, as tensões so-
bit.ly/1lWKQ7f
Para o sociólogo, essa descentralização máximo a redundância, em pôr o usuário em ciais, entre outras questões?
David Korten – The Great Turning: From empire to earth
de recursos é o que há de mais interessante contato com aquilo que ele já sabe, com o uni- Para Ladislau Dowbor, enquanto não se
community (2007)
na noção de economia colaborativa. Nesse verso que já é dele”, explica Abramovay. “Isso resolve a transição do grande sistema eco-
Eliane Costa e Gabriela Agustini – De Baixo para Cima
sentido, a internet seria inteiramente uma inibe um dos potenciais mais ricos da rede, nômico, muita coisa já vem sendo feita, prin-
(2015), coletânea de artigos, disponível em
economia colaborativa, assim como a Wiki- que seria a possibilidade de uma real diversi- cipalmente em âmbito local. Várias cidades
livro.debaixoparacima.com.br
pédia e também os softwares livres. Ou seja, dade cosmopolita. Em vez disso, há um pro- que fazem parte do G40 (grupo dos 40 países
Elisabet Sahtouris – A Dança da Terra (1998)
o caminho para o futuro, que se crê mais justo vincianismo que se manifesta na capacidade mais desenvolvidos do mundo) e estão com
Hazel Henderson – Building a Win-Win World (1997)
e igualitário a partir dessas bases descentra- de detectar gostos, orientações políticas, se- seus processos de urbanização estabilizados
Jeremy Rifkin – “The Zero Marginal Cost Society: The
lizadas da internet, já estaria mais bem pavi- xuais etc.”
, analisa o sociólogo, que por essas têm promovido transformações importan-
internet of things, the collaborative commons, and the
mentado não tivesse esse novo modelo sendo e outras razões discorda das previsões de Je- tes, entre elas as americanas Jacksonville, na
eclipse of capitalism” (2012), disponível em digamo.free.
capturado e privatizado por aqueles que são remy Rifkin sobre o fim da era capitalista na Flórida, e San Francisco, na Califórnia. “Ou-
fr/rifkin14.pdf, e A Civilização Empática — A corrida para a
os maiores grupos econômicos do capitalis- segunda metade deste século. tras cidades da Suécia, Alemanha, Canadá e
consciência global em um mundo em crise (2009)
mo contemporâneo, entre os quais se desta- China também desenvolvem sistemas cola-
Lester Brown – Plano B 4.0 (2009), disponível em
cam Facebook, Google, Alibaba, Baidu, Twit- NATUREZA COLABORATIVA borativos muito ordenados e extremamente
wwiuma.org.br/plano_b.pdf
ter e Amazon. “Mesmo que esses grupos em O ritmo de andamento de todas essas descentralizados” , afirma.
Manuel Castells – A Era da Informação: Economia,
algum nível estimulem cooperação social, tendências vai depender da vontade dos ho- No entanto, apesar dos muitos esforços
sociedade e cultura (Paz & Terra, 1999)
eles o fazem a partir de um modelo de negó- locais, Dowbor reconhece que o ritmo da evo-
Acesse o artigo em wrd.cm/1HjajH8
cios em que o objetivo central é fortalecer a lução dessa “sociedade da informação” não

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TENDÊNCIAS EDUARDO SHOR
Jornalista e autor do livro Amor do Mundo coluna

MÍDIA
Nossa entrevistada de hoje
O poder do usuário
Para a Pergunta, as pessoas acham que já têm respostas suficientes,
são cheias de certezas, não admitem a dúvida, a opinião variada

E
Repensar a relação com os consumidores é a chave para sobreviver m diversas línguas, em todos os países, épocas. Marcou presença nas casas, ruas, jornais, mas
em uma economia colaborativa. Jornalistas independentes dão exemplos nunca se importaram lá com a sua opinião. As pessoas preferiram o caminho que ela abre, o
POR FERNANDA MACEDO mistério revelado, a descoberta. Hoje vamos conversar com essa figura tão importante na
História, que sempre perdeu espaço depois de o sujeito encontrar resposta: a Pergunta.

A
internet é o grande motor da econo- acompanhar as novidades e sugerir fontes.
mia colaborativa. Graças às massas de “Nós fazemos o crowdfunding não apenas para Página22: Existe o risco de extinção das E vou dar dois exemplos: pessoas que planeta. Que pergunta você é?
usuários, plataformas digitais podem viabilizar economicamente o projeto, mas perguntas no mundo? vivem sob governos totalitários ou sob Pergunta: “Qual a cor da sua cueca”?
ser aprimoradas e desenvolvidas em conjun- para repensar o jornalismo e mudar a relação Pergunta: Esse risco nunca foi tão alto. o teto de famílias repressoras. Existem
to com consumidores. Mas aproveitar essa das pessoas com o que produzimos” , comenta Estamos vivendo um tempo em que diversas ONGs de pontos de interroga- Página22: Sugestiva, erótica, fetichista.
oportunidade é um desafio para alguns mo- Marina Dias, coordenadora de comunicação cada vez mais pessoas acreditam estar ção que ajudam as vítimas com manti- Pergunta: Nada. Sou uma pergunta de
delos de negócio tradicionais, avessos à ideia da agência, que acredita que o leitor tem mui- certas sobre o que falam ou pensam, mentos, abrigo e respostas para as suas lavanderia, feita antes de mergulhar a
de compartilhar e abrir seus conteúdos na to a acrescentar ao trabalho jornalístico. sem tolerar quem discorda, abrir de- questões. Em seu Livro das Perguntas, roupa na máquina de lavar. Cuecas cla-
rede para acesso gratuito. Cynara Menezes, que foi jornalista da re- bate. Elas acham que já têm respostas o poeta chileno Pablo Neruda provocou: ras e coloridas têm que ser enxaguadas
O jornalismo, por exemplo, tem passado vista CartaCapital por mais de oito anos, criou suficientes, são cheias de certezas, não “Por que nas épocas escuras se escreve em separado para não manchar.
por maus bocados ao não conseguir lidar com o blog Socialista Morena em 2012 . Durante admitem a dúvida, a opinião variada. com tintas invisíveis?”
a concorrência da internet. Os grandes veícu- algum tempo, o blog foi hospedado pelo site Isso sacrifica milhares de perguntas to- Página22: Você se sente uma pergunta
los têm realizado sucessivos cortes de custo da revista, mas recentemente Menezes op- dos os minutos. Página22: Você gosta de literatura? menor, perto de questões como “Qual a
e, mesmo com uma es- tou por transformá-lo em Pergunta: Gosto de tudo que me leva ao previsão de crescimento da economia
trutura mais enxuta, não um projeto jornalístico Página22: Onde esse sacrifício ocorre? questionamento. Acho curioso quando brasileira para este ano?”
conseguem equilibrar
suas contas em razão da
O financiamento independente, mantido
com doações de leitores,
Pergunta: Você nem percebe. A per-
gunta fica presa na cabeça do sujeito
o sujeito corta “amigos” de sua rede so-
cial porque é gente que pensa diferente
Pergunta: Não. Acho que cada pergunta
é grande e válida dentro de um contex-
dispersão de anunciantes coletivo de e dedicar-se exclusiva- durante 70, 80 anos e em muitos casos dele. Costumo brincar que o preconcei- to. Não adianta você conhecer a pre-

reportagens tem
pelos múltiplos veícu- mente a ele. morre com ele. É um sacrifício invisível, to deveria ser contra o igual, que deixa visão de crescimento da economia ou
los na rede . Além dis- Entre as razões para uma morte silenciosa. Já vi médico dizer a nossa vida monótona e sem graça. variação do dólar se o que deseja é sair
so, com leitores cada vez
mais plugados à inter-
dado certo essa decisão ela destaca
que, em projetos de crowd-
que uma pessoa morreu do coração, de
depressão, estômago e até suicídio. Er-
Não contra o diferente, que faz a gente
olhar a vida sob outro ponto de vista.
da lavanderia com uma cueca sem man-
chas. Veja o caso das panelas.
net – 37% dos brasileiros funding, a relação do leitor rado. Era a impossibilidade de libertar a Mas o ser humano, que em muitas áreas
mantêm-se conectados todos os dias por cer- com o veículo deixa de ser comercial para ser pergunta da cabeça. A pergunta morre evoluiu, às vezes parece ter paixão por Página22: O que tem?
ca de cinco horas –, é preciso concorrer tam- solidária. Além de consumidor das informa- antes de nascer. emburrecer. Pergunta: Perguntas sobre panelas an-
bém com conteúdos gratuitos. Qual seria, en- ções produzidas, o leitor é também um reali- tigamente eram restritas à área de gas-
tão, o futuro de um setor como o Jornalismo? zador do projeto, é ele quem faz o jornalismo Página22: Mas nem todos os casos são Página22: A pergunta é mais importan- tronomia, listas de casamento. Hoje são
Um novo tipo de relacionamento entre o acontecer e, por isso, a participação do públi- assim. te que a resposta? capazes de definir a posição política de
leitor e o veículo de informação tem surgido co na construção das matérias faz tanto sen- Pergunta: Verdade, embora sejam tão Pergunta: Essa é uma frase que gostam uma pessoa. O dia a dia das perguntas é
em iniciativas de jornalismo independente, tido. “Você não paga para ler a matéria, pois graves quanto. Conheço pessoas que de repetir, nem sempre é verdade. Veja muito dinâmico.
viabilizadas por financiamento coletivo. A elas são abertas a todos. Você paga porque têm vergonha de perguntar. Outras esta pergunta: “Quer casar comigo?”
Agência Pública, produtora de conteúdo gra- gosta do projeto e quer investir nele. É uma que deixam de perguntar por achar que Sem uma resposta para ela não adianta Página22: Você quer deixar uma men-
tuito, aposta na interação entre os apoiadores subversão incrível no modelo de negócios do não vale a pena, ou por pensar que nada nem passar na porta da igreja. Respos- sagem para o leitor?
do seu crowdfunding (consulte Glossário à pág. jornalismo” , comenta Cynara Menezes. vai mudar. Elas vivem bem durante dé- tas são mais importantes se servirem Pergunta: Aqui ou via WhatsApp?
24) e a elaboração de suas reportagens . Os usuários são o maior ativo das em- cadas, porque se conformam, o que de base para decisões. Existem, claro, as
Todo mês os apoiadores votam nas maté- presas na economia colaborativa. Entender não significa viver feliz. Uma pessoa perguntas que incomodam ou as que ge- Página22: Aqui.
rias que serão elaboradas pela Agência e, por como integrá-los ao modelo de negócio é a conformada não experimenta nem um ram debate, novas perguntas, viagens, Pergunta: Encontrar respostas é uma
meio de um grupo no Facebook, é possível chave para o futuro. novo sabor de picolé. buscas intermináveis. Essas perguntas ilusão. Boas respostas são perigosas.
podem valer mais que as respostas. Não deixe que elas interrompam o seu
Veja reportagens da edição 76 Dados da Pesquisa Brasileira de Mídia 2015, disponível em bit.ly/1B8hcUq Acesse apublica.org Página22: Muitas deixam de perguntar caminho. Há momentos em que parece
Acesse socialistamorena.com.br
por medo. Página22: Existem milhares, milhões, desgastante, mas vale a pena perguntar
Pergunta: Essa é uma situação difícil. talvez bilhões de perguntas em todo o sempre, nem que seja para si mesmo.

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ÚLTIMA land art

CROQUI ELABORADO SOBRE FOTOGRAFIA DO USUÁRIO FAS1000 DO WIKIMEDIA COMMONS


Nós e o norte
O município de Hanstholm, noroeste da Dinamarca, recebe neste início de
junho o festival Land-Shape, voltado para intervenções artísticas na pai-
sagem. Natural que a tradição pesqueira do local inspirasse o trabalho das
estudantes brasileiras Maria Beatrice Trujillo, Beatriz Alcântara e Paula
Bedin, que estão entre os 12 finalistas de 171 inscritos de todo o mundo.
Elas tramam como instalação uma rede presa ao Farol Rubjerg Knude, teci-
da colaborativamente por muitas mãos, conforme o croqui acima. O intuito
é que remeta à comunidade de pescadores e sirva também como elemento
lúdico, para escalar, deitar, brincar, descansar.
Enquanto angariavam fundos para a viagem à Dinamarca, as três jovens
fizeram uma imersão cultural bem mais perto, na vila de pescadores em
Picinguaba, litoral paulista, ansiosas para levar a experiência tropical aos
mares do Norte. – por Amália Safatle

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