EU, TEMPO, CIDADE

POEMA EM TRÊS ATOS

De Pedro Noel (2010) Contato com autor: plnnoel@gmail.com

EU
[Fiz do meu não saber desenhar meu desenho, do não saber ver minha pintura, do não saber sentir – e dizer – minha poesia e meu não saber viver se fez a minha arte.]

mas de aspirações grandiosas e incompreensíveis. da opacidade do mundo e da inexistência de um lugar melhor depois.. [. fazer de meus passos o caminho que pela vida encontraria. Os homens me verão confuso e simples.. sim serei uma outra coisa selvagem e silenciosa numa outra viagem por um outro mundo [hoje desconhecido.. da morte de uns e vida de outros montou-se sempre o mundo. serei disputado pelas mulheres feitas e simplesmente amado pelas anciãs das casas...] Da vitória e da peculiaridade.. [. Ao fim.... . com a sensação de estar afastando-me de meu destino. do asilo e da hermitude. medo ou idolatria por minha figura fugidia. E matar... Foi a fuga da vida que fundou-se em mim de uma maneira realista... Fui e voltei. mas de ninguém quero lembrar.... esta metáfora fantástica... As lembranças que tenho do dia de amanhã. a lua e a galáxia que também deixarão de ser... mas indo na direção certa. Para que tudo – de uma vez – se acabasse e eu conhecesse a verdade – (que descobri) – inexistente. Cercado de gente e coisas....... com ainda menos sentido].] Se eu tivesse algo como um coração... Foi o meu cansaço de sonhar coisas lindas.. sim. fascinante e inalcançável em mim. Pensei que se o mundo é perda e ilusão. diria que agora nele há um pouco de dor.. Quero a todos com que topar ser inesquecível.... na realidade de serem eles mesmos.... E apaixonarei as jovens perdidas..] Homens que viram-se únicos e potentes em sua exclusividade. Mas não tenho um coração.. Entrei num mar de águas profundas e – por falta de caminho – naufraguei. Mas quem é que nunca sentiu-se só deparando-se com a multidão? Sou e sinto-me diferente – e isto não é vã rebeldia... Ou melhor. E não terei mais de escrever poesias.. Se alimentará uma chama móvel e intocável. Vou para esquecer-me de tudo e nada em mim manter.. Mais ainda na concórdia. Terão inveja. Quanta submissão há na comunicação. E isso é o que me parece o palpável em todo este jogo. serei um deus e não restará mais nada que aproveitar da insensatez dos objetos e idéias da humanidade.. a terra. fui e voltei.......... de amar em grandes amores. [...... Morrerei. mas só deserto é o que vejo... nada além desta bomba-relógio instalada na anatomia de meu peito.. morrerei por falta do que mais viver. Não era exatamente o que queria. A verdade fez eu deixar de ter coração. que a única coisa que posso – me acreditando certo – dizer é que tudo é deixar de ser.. quanta força de profunda unidade não geraram as guerras. O que me deixará e eu deixarei.. deveria acelerar e fomentar isto... Até que decidi nunca mais voltar.. isto que se diz ser o coração. O sol que não surgirá amanhã será algo guardado na impossibilidade de minha existência. São toda a força que sustém-me no vazio de sentido.. e sobrepujarem-se como quem faz o melhor a fazer-se.E continuei a caminhar naquele sentido. de qualquer sentido.. E não irei para nenhum lugar.. foi a falta dela – o que também é uma verdade – que o fez.. mas – mesmo assim – por aí continuei....

... Desconcentrou-me a mulher que rapidamente se pousou ao meud lado para pedir mais rum à sua mistura.. no balcão de um bar....Os olhares inconsistentes e remotos que pairam em meu vagão de trem Talgo. meu coração em transformação a ser mais uma pedra na praia.. o ponto de origem aonde nascerão as ondas que vêm estourar ao meu olhar.. E sigo tomando a cerveja. a folha em branco antes de ser escrita..... E no dia em que eu me der conta de que minha existência passou enquanto eu esperava contemplativo na estoa...] [. Talvez não existirá. foram parar em minha alma em forma de pó. E as flores que faleceram sem jamais haverem sido vistas..? Ter de escrever!? . .. Será que em algum tempo é necessário definir a maneira em como se viverá toda a vida por vir? Sinistramente percebo que em nenhum momento exato.. de que nunca entendi a natureza do que é viver um dia. Eu sou um grande cinzeiro lotado de palavras com letras faltando e erros de semântica. Sempre este desejo de um outro lugar.... o motivo de minhas viagens que foi tragado pelos moinhos da vida ou levado a esmo dentro de garragas naufragadas. Eu não sei.. [Sabendo se existe algo lá fora. as vozes de quem nunca foi ouvido e o esquecimento das frases que em nenhum tempo tiveram interlocutor... A sensação de que se a morte chegasse nada mudaria... Mas sobre antes... Tornei-me um poeta? Diz-me o dono do bar que os bares levo em mim. sobre sempre. São eles e não eu. estar num bar.... alimentado pela crueldade. noto haver assumido um pacto estranho. Tornei-me alguém que escreve. o beco de saída para os labirintos metafísicos que sem passar construo nos domínios de minha cabeça seca de maresia das coisas passageiras que um dia qualquer amei ou sonhei.. pela impossibilidade das coisas.... agora sem medo de que alguém que me conheça – e desconheça – venha a saber disto quando me venha ler.. A minha paixão – e nada mais que uma paixão – que evito repetir nos perdidos movimentos de meu pensamento. escolhi o que noto haver escolhido.. Eu e o lugar nenhum. Penso se realmente haverá o outro lado do mar..] Parei para ver o que havia feito de minha vida.. sempre esta idéia de um sempre a incomodar. em nenhuma estância – ou instância – determinada do tempo. Tudo se perdeu ou foi perdido – isto eu escutei de algum poeta afastado no vento marítimo. O fim dos meus tempos... os meus olhos se apagarão e finalmente serei um marinheiro morto.... naquela altura irreal de minha viagem por sobre esta terra. A mensagem de meu espírito que confundiu-se com mitos antigos e desaparecidos e que hoje é a cara das moedas de minha calça sem bolsos. Minha arquitetura aquática.. Então lisonjeei o fato de naquele ponto.... Oh........ Mas escrever.. destino Zaragoza..... A distância atlântica onde desapareceram as memórias de minha quebrada infância. As fugas de mim. naqueles momentos onde se desconhece – ou se sente desconhecer – todo o significado do que representa . sina que não me arrependo.. escrevendo poesia.ou significa – algo ter significado..

.Foi algo gradual com um toque assustador de predestinação.. algo será extraído daquilo que agora faço com minha mente – e..... . das Ramblas. É ser este deixar de ser.. porfim. A cidade um a vive.... quase feia.] E é uma ocasião no mínimo desesperadora quando nos conhecemos disto. comunicar.. Eu. De que os poetas não podem ser amados. sobre o engraçado que é ver pequenos catalães e pequenos paquistaneses correndo juntos sob o distinto olhar dos pais.. Não posso não ser mais um poeta.. faz parte disto. A poesia matou todos os meus amores. E perguntei-me quem. Um largo que guardava uma igrejinha. um colégio de crianças paquistanesas e catalãs. Minha vida montou-se assim..... CIDADE A dor da partida é ver que a vida é uma constante partida... sobre os nomes e famas que não têm nada que ver com lugar nenhum. Você que me lê. o uso deste termo? So-o como um modo de tratar de algo que não sei sobre meu passado.. Escrever é querer – a menos a mim – dividir. Eu sentei numa praça desconhecida.......... o tipo de mulher que é incapaz de permanecer comigo. Mas o que significa a minha vida... que rimasse comigo.. E de uma maneira que sempre só pode ser impossível.. Qualquer pessoa que neste banco também houvesse pensado sobre a simplicidade daquela praça... E de uma maneira que só você sabe... Gente como eu. por exemplo.. Partir é ser para os lugares e pessoas o que a vida é para nós.ou corpo..Não? E o mais curioso é que o que agora pinto sobre o papel não adianta sem uma bizarra estrutura que tem o poder de tirar alguma coisa da tinta sobre papel... * Na Barcelona de tanto Gaudi. que tipo de gente. Olhei pro banco onde sentava e consolei-me em pensar sobre quem já havia estado alí. tanto Picasso e Miró. sem tirar nem pôr. aprumando-se para fazer realmente letras desde os espasmos confusos da mão.. me dei conta de que o tipo de mulher que gosto é exatamente . Mesmo que minha letra cheia de emoção – agora quando escrevo -.... mais que isto.. seja anexada a um alfabeto caligráfico determinado e conhecido – como agora que me lê -. transferir este termo. englobando tanta coisa quanto as coisas que cabem na vida. equiparar-se com o devir e sentir-se também executor da realidade passageira do mundo. acredito... É difícil escrever.. [Talvez sejam como eu. eu gostaria que houvesse aí estado. que ela mesmo está partindo. Talvez por isso amem tanto os poetas. por exemplo. mostrar ... o conteúdo impalpável – até a mim – do que quero compartilhar será sujeito de um sistema cognitivo que jamais entenderemos e. Pessoas qye houvessem pensado sobre o sentido tosco das cidades. o que quer dizer. incapazes de suportar-me..

um a vive. Ninguém vive em Paris até que o Louvre ou o Sena sejam coisas normais e cheguem a passar desapercebidos por vezes... é continuação.. pela hora do dia. o encontrar. É comunicar-se em dialetos... conversando naquele bar.. e eu continuei – pois não sou de aqui.. é cada passo que novamente a cruza.. como se vê. metrô e ônibus..... A cidade é o cenário da vida que segue e continua. Passar na padaria e comprar pão.. O exterior da cidade é seu passado. o que se come e bebe.. Não.. as fotos.. Ir no lugar do outro dia. de quem está fora. Marcar um encontro em quinze minutos.. ir ao estádio. – elas são daqui..... cumprimentar pela rua... Se conhece pelo cheiro.. A cidade não tem nada a ver com nada. aderindo... não da vida parada e comtemplativa. deve deixar de ser uma coisa à parte.. É como se diz.. o que dela fez-se. despedir-se até amanhã. ter humor próprio.. O contínuo da cidade é móvel... A cidade é invisível... A cidade não é cidade até que esteja simplesmente aqui.... pelo atalho.. mesmo com tanto sapato.... nas pequenas praças e nos monumentos.. Não é opção. As vias da cidade apenas continuam a cidade. A cidade.. Notar que o inverno está chegando. está dentro.. o plano urbano sequer. pelo bairro de gente assim ou assado. A cidade é o cansaço por estar na cidade.... xingar da mesma maneira. indivisível. A cidade não são as ruas e as construções. Para ser cidade. A cidade.. É a rua pela qual baixamos todos os dias e as vezes nos perguntamos o porquê dela e de nós a baixála. reparar nos estrangeiros. vendo os turistas.. A cidade.. A cidade é costume.. Cometer os mesmos erros. A cidade é o que fica e dela faz parte quem nela fica. é saber onde ir.. O lado de fora adveio disto.. e a levamos. A cidade. Mas a cidade é atual... ofender-se com as mesmas coisas.... Mas ver isto de longe. . A cidade é de onde não se pode fugir.. nos cemitérios e nas igrejas.. é apego insconsciente. rumo à cidade.. hábito compulsório. como seguir.Está nos becos e nos viadutos. é situação. o que se faz. são estas pessoas que me passam correndo. moto.. ver isto. apontando que têm horário e direção certa. A cidade é a atmosfera onde se pisa.... Apesar de ser o pior banco a sentar para fumar. A cidade é ir pra casa pelas ruas mais calmas... um a vive.... como uma coisa fatídica e não como um encanto... Atrevessar no sinal vermelho..... É o ir. um a vive... um a vive.. A cidade é o que cada um leva de cidade por estar na cidade.. pelo número do ônibus e a linha do metrô. E não reporta nada. A cidade é o que não está dividido na distância. Olhar com os olhos de quem está conhecendo. carro. de quem quer ter notícia... é por onde caminhamos e querendo algo distinto do caminho... ela veio e pôs-se a acompanhar minha solidão contemplativa e eu a ela e a sua... no meio do Paseig des Graces. Ela se foi. Desta vez sentou ao banco comigo uma moça.... é única. deve entranhar-se nos sapatos.

imagens e templos ao incognoscível. é ter um lá. buzina. dúbio à razão. se pensam criadores e querem ser os próprios deuses... sob a mesma perspectiva do firmamento.... estar emparelhado... o Olimpo e os Grandes Mitos... polícia e ambulância. Ter um endereço. Eclipsar-se e raiar no astro comum. saber onde está. Saberia Tales sobre o que fazia? Há mistério que desaparecem ao horizonte humano e seus deciframentos colocamos sob a responsabilidade do desconhecido. Na verdade...... sonhamos o divino... Ser um dos que são dos seus. Numa disposição metafísica para o incrível... Como uma forma de reconhecer a inacessibilidade da verdade.. É [poder] voltar..... erigimos idéias..... Antes.. A cidade que acalma os homens. Saberão os deuses a razão de Apolo haver revoltado-se contra a Teogonia.] .... Calçadas....] De Mileto não restaram somente as pedras em que me sento.. zunido. Emergindo-o na mandala civilizatória. [.. Saberão os deuses se no passado as oliveiras também davam mais frutos e sabiam a mais alma. gritos....... É interromper-se e fixar-se.A cidade.. no modo como aqui cheguei e – principalmente – na maneira em que penso.. E eu me pergunto o que doença foi essa que assolou aos de Mileto... partiu a barca que hoje me faz esperar na estoa.. E daqui. velocidade.. sobre os mesmos emblemas culturais. [. Assim fomos até que coisas dexaram de ser coisas e um pseudo-universo de explicações foi feito na marginalidade do mundo. É não ir pra lá..... E do pouco que podemos ancorar nos portos do enigma... de que a verdade é sempre um axioma oracular.. Está em minhas roupas.. Estar dançando junto. Esqueceram do sonho.. É ser apanhado... o qual só entende-se com o espírito.. Cidade que traslada o homem do frio mar de viver por si mesmo. lojas..... desta estoa.. A cidade barulho.. na roda-viva em que a humanidade constantemente recria-se. Agora homens crêem que algo sabem... recheado de não-saber. É deste sub-mundo que vivemos hoje. A cidade é caminhar acompanhado.. mas manteve vivos os campos de oliva. Ver com olhos de quem está aqui... Dúvida e orgulho colonizaram a terra sob heréticos estandartes anunciando luz e certezas. um a vive.. Saberão os deuses o que os golfinhos ensinaram aos homens.. pausar um pouco o redemoinho interno e juntar forças para o moínho que alimenta a todos dos seus.. Fazer algo distinto de visionar a si e suas aspirações... A cidade é fuga. ao final.

. E a linha do tram chega ao Haja Sofia.. becos...Vou à cidade. E à cidade se implantará em minha alma de um outro modo ianda mais forte e palpável e a levarei em meu mapa interno para mais plantas concretizar no meu sonho de cidades.... será como um reencontro entre as cidades de mim e à cidade.. Com aparência de eterna.... é o essencial para que as coisas passem. para além e para cá das cidades do mundo.. cidadãos... uma coluna. E sempre sofre quem espera. A ponte entre os sonhos do futuro e os sonhos do passado.. O tempo é relativo na medida em que ansiamos a ocorrência das coisas deste mundo.. uma esquina. por isso é o tempo a dor no mundo.. com suas ruas e com gente – outra gente – por elas passeando. Pedaços e vestígios acumulados por distintas bandeiras e exércitos. bares.. caminho por ruas distorcidas por minhas viagens... E quando chegar lá. Mas à cidade já e ainda existe aqui comigo no ônibus que acelera à cidade que vou.. o tempo que falta para a realidade do que sonhamos. Quando eu atingir o Bósfoto.. E somente quando ela inteira vaporizar-se – saiba lá por qual razão cosmogônica – terá então terminado a história da humanidade. Pois a cidade é estar indo à cidade justamente. Mas Éfeso ainda está lá..... No fim... Cidades levo comigo.. O rio de Heráclito já não passa mesmo por Éfeso.. a terra será mais uma cidade abandonada por onde o homem passou. Em nós guardamos as vontades – pro futuro – e o tempo é o interlúdio do sonho... peles escuras e olhos claros falando a mesma língua. TEMPO O tempo é a espera para que as coisas aconteçam. É mais uma estrada por onde coisas passam.. As cidades em que outros passaram e vamos nós passar. cada qual empilhando um pouco. um cheiro ou qualquer coisa da qual constitui-se uma cidade.... pronunciando a mesma verdade sobre à cidade.. ou muito.. Do mesmo modo em que também talvez vieram parar neste planeta para gerar homens.. A outra coisa que é à cidade fora do meu sonhar cidades irá juntar-se ao casco de minha história. arrastando consigo o que há de sonho pelas cidades das cidades.. Pois à cidade é onde as coisas não permanecem. E à cidade era mesmo assim.. E as restantes partículas de pó de cidade talvez colonizarão novos astros.. placas... nunca existiu algo como um rio senão também dentro de nós. mortais.. viajando pelas vias lácteas e novas cidades se farão pelo universo. uma rua. vejo. O sonho é a ausência do tempo...... não será como se eu houvesse chegado. de seus sonhos. gentes e luzes também fundaram-se-me em uma maneira que sonho.. * .. esquinas.... E por dentro de mim...... pois já a tenho comigo. E o sonho de minhas cidades vai assim construindo-se constantemente pelas viagens.. Como mais uma pedra. Sequer o mesmo deus parmanece. é a passagem e por isso só ela permanece..

. É o outro lugar.... As memórias se me viram mais dôces do que o foram quando não eram memórias.. É estranho.. esta tendência de tornar-se que permeia o intervalo que acessamos do tempo.. Mas é a vida a maneira mais dura de morrer e o único motivo para que ainda não tenha terminado este lento – mas aparentemente rápido – processo é a desconfiança sobre a morte ser algo pior do que ainda não estar morto.. dos mundos. .. é a minha garantia de que minha existência não passou somente sem sentido – que é como me sinto em todo e cada presente. do tamanho do que se é capaz de ser nostáligo ou lembrar. A viagem. Mas o único interessante até hoje.. entre as quebradas imagens de meus deuses que não sei. relevante ou real.. fazendo-me sonhar. Eles me alimentam de uma impaciência para o ter-de-viver-a-vida que muitas vezes beira ao insuportável. desejar. Sofro de problemas para sentir o tempo. sempre rostos. Mas nada irá ficar.. Viver é perder! Me é duro dizer.. ordenamento ou coerência nas coisas que já se foram... não guardar só para mim a cronologia e as causas daquilo que só a mim detona. sugerindo-me suicídios. passando. E são estes duas que demoram a passar ou que passam sem serem vistos...Uma vez mais. Talvez seja pois passei a acreditar que ele não existe. No passado das coisas. o ir. A minha primeira questão é sobre o poder do hábito no status do tempo. que o vê literalmente como tempo perdido.. Seja morrer como viver. querer... Por isso não sou do jeito que deveria ser.. neste caso. guardo-os como num altar. a única pouca coisa que vi ser digna de ser querida.. Os meus desenhos são rascunhos...... Os meus sentimentos e tudo o que acontece ou ocupa a vastidão de mim. Tenho vontade de contar minha história.. palavras ou não-formas destroçados por minha inata capacidade de não ver nada merecer importância. ou seja. Muitas vezes só vejo sentido. é ilusão – enquanto só é o que existe num aparentemente eterno e constante agora. Pois ao mesmo tempo tenho uma intuição curiosa que não acredita no valor do passado.. Querendo ir.... sinto. projetar. com aquela dor do som dos caminhões de estrada.. Aí muitas vezes o motor da vida me parece ser este por-vir.... tudo se me torna mais claro. Nada senão o que sinto....... O que foi ou é o que vale ou valeu? A vida é nada ou pouco mais do que um“valeu”bem grande. mas este instante incolor e insoço.... ou ao menos como a minha vida: ir para onde não se sabe. diz-me que tudo que não.... a dor daquele som que se vai acabando. que o criamos e é relativo na medida em que o utilizamos para ver o que queremos ver do mundo.. Esta mesma inferência me arremeça ao futuro.. Um roto mais religioso que também vive em mim.

o conteúdo de meu enigma nem a mim revela-se inteiramente. Ao menos não desta forma. Eu que tantas vezes falo da vida só por não entende-la. ainda querer estar – vivo. que o acompanhe. as ruas..... É só o que penso ao ir dormir. ando a duas patas... invisíveis aos olhos das entranhas do mundo. Ou dos homens que sabem e sentem ter alma. de uma maneira constante que não se desfaça-se no devir. Sei que estou dentro. São por esta causa meus passos e o que me espia é o que ficou da vida... este lugar aonde nunca fui. Pois se tudo não for igual na imagem deste prisma dos valres internos e eternos. mas também principalmente do concenso dos que me cercam... pois falo.. meus passos dão esta impressão. Jamais e ainda não fui a Valencia e não me importa. mas não me sinto fazer parte no que realmente importa. Por isso não errou aquele poeta que disse que tudo nos vale a pena.] Mas não queria fazer de minha poesia uma interrogação. .... escrevo.... ouvirão? Não... Ainda pouco olharam-me e disseram que eu parecia doído. Mortos...! Repito: leis cruéis regem as almas dos homens.. que já passou. A dor que levo é a sensação de não ser daqui. mas numa perspectiva contrária em relação a mim. como vindo de uma tal batalha de Valencia. a vida e o sonho não existem.. Serei eu o único desta sala a ver que nada importa e tudo é permitido? Onde estão todos? E seu gritar agora. fora não apenas de mim. Os velhos.. O que é real? O tempo. A naturalidade de ver-se como uma caça sob os olhos de um caçador que é ele mesmo.... Não.... as placas.. dela vive o que sonhamos.. A alma....... Que desejamos e não temos. tentando acalmar-me ante a noção das irrealidades que constituem minha realidade.. [E o jazz é como a vida pois não sabemos o que ocorrerá.. Não sou daqui... não sei desta batalha e não me importa. Talvez sequer seja a Europa o problema.. coisa que não deveria existir.. Coisa absurda!. o próprio chão.. não nasci para isto. A sensação de que tudo vai para sempre ser como horas passando.. mas a vida. uma falta do que fazer sobre o fato de estar – e pior. insone e sonâmbulo pela manhã... pois é ela a quem queremos. noto. estes que levam a incompreensível aptidão à autoexpectação.. Cercado de uma maneira que sou exterior ao cerco.. Mas a morte não pode ser o objetivo.. A certea e a real visão de que a vida acaba... O planeta dos que simplesmente vivem a vida... esta terra que é o que sempre serei.Ando pelas ruas como se estivesse sendo espiado. A revaloração da vida.. que é difícil estar vivo quando só se pode viver originalmente.. são mais outros do que eu a mim mesmo. há este outro sentimento de estar por fora..! Fora isto. E os outros.. E já nos valeria mais morrer que qualquer outra coisa...... vivemos...

... Só o que não se pode me encanta.] Só os meus poemas compreenderão isto. o mar bravo... Então. O ânimo para o impossível. É desconhecido.. os exemplos de que viver deve ser transcender..... A poesia matou meus melhores amores.... veio e vai comigo.. O estranho gosto pelo difícil e a inexplicável frieza e leveza do olhar aonde meu olhar deito...! Eu...... fica detonada.... A idéia de que mais do que tudo ser cíclico.. O mesmo amor. sem parar para louvar nada que não seja a atitude de não esperar.. [... A fisiologia metafísica de meus olhos. vivedores de vidas. acabou. coisa que me é verdadeiramente irreal ou distante.. O cume da torre que é o presente. O que somos. Apenas o que em princípio não seria. do inevitável de mim – que jamais pedi ou elegi. Foi a minha visão da vida o que fez tudo perder sentido.. A minha cidade é o lá e o meu tempo é a ausência do tempo.] . Nos vemos lá... Me perderei para sempre........ mas noutra situação ou perspectiva.. Aquele momento que era belo por (parecer) único. O presente não está em jogo. o deserto... E mesmo esta graça empirística da exclusividade do lado subjetivo da vida. as relações sobre as quais se solidificam as vivências são compensatoriamente iguais. é atemporal.... para o de forma alguma estar... O que foi feito de nós contra o que seremos... Minha eterna visão por sobre as coisas do mundo.. enquanto qualquer coisa me seja ou for..... Só o gueto........ que morra a e à vida! [..] E não me adianta arrepender ou reclamar dos problemas que só a mim dizem respeito. E a palavra vida não é nada mais do que o que nós já vivemos.... Só o tempo dirá sobre mim. A inacessibilidade.. mas num outro momento e por outra pessoa..A pátria estrangeira dos que domesticam-se a saber viver. Não brindo.... O que virá.... [. Sigo bebendo.. é inútil..] E um brinde a vós.... E só na terra do nunca ou do jamais me abandonará. Ninguém pediu para viver o agora... [...... Só o que nunca será pode me fornecer paz.. O mesmo lugar – o aqui -.. Espera... a indiferença depois de olhar o que em vão tentou fazer parte de mim. a miséria e a densa floresta. Janela perpétua....

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