EU, TEMPO, CIDADE

POEMA EM TRÊS ATOS

De Pedro Noel (2010) Contato com autor: plnnoel@gmail.com

EU
[Fiz do meu não saber desenhar meu desenho, do não saber ver minha pintura, do não saber sentir – e dizer – minha poesia e meu não saber viver se fez a minha arte.]

Para que tudo – de uma vez – se acabasse e eu conhecesse a verdade – (que descobri) – inexistente.] Se eu tivesse algo como um coração.. diria que agora nele há um pouco de dor. mas – mesmo assim – por aí continuei.. [. Terão inveja.. da morte de uns e vida de outros montou-se sempre o mundo..... mas só deserto é o que vejo... Morrerei... E não irei para nenhum lugar. E isso é o que me parece o palpável em todo este jogo. nada além desta bomba-relógio instalada na anatomia de meu peito.. Vou para esquecer-me de tudo e nada em mim manter.. Quanta submissão há na comunicação. [.. Ao fim.. Mais ainda na concórdia. medo ou idolatria por minha figura fugidia. E não terei mais de escrever poesias. esta metáfora fantástica. Foi o meu cansaço de sonhar coisas lindas.] Da vitória e da peculiaridade. Fui e voltei. Pensei que se o mundo é perda e ilusão.. Mas não tenho um coração... Os homens me verão confuso e simples... .. mas de ninguém quero lembrar.] Homens que viram-se únicos e potentes em sua exclusividade.. de amar em grandes amores. sim serei uma outra coisa selvagem e silenciosa numa outra viagem por um outro mundo [hoje desconhecido.. São toda a força que sustém-me no vazio de sentido.. Cercado de gente e coisas. fazer de meus passos o caminho que pela vida encontraria. Ou melhor... O sol que não surgirá amanhã será algo guardado na impossibilidade de minha existência. e sobrepujarem-se como quem faz o melhor a fazer-se.. serei disputado pelas mulheres feitas e simplesmente amado pelas anciãs das casas... Mas quem é que nunca sentiu-se só deparando-se com a multidão? Sou e sinto-me diferente – e isto não é vã rebeldia..E continuei a caminhar naquele sentido.. E matar... [.... Entrei num mar de águas profundas e – por falta de caminho – naufraguei. mas indo na direção certa. na realidade de serem eles mesmos.. isto que se diz ser o coração. Se alimentará uma chama móvel e intocável.... O que me deixará e eu deixarei.... fui e voltei. serei um deus e não restará mais nada que aproveitar da insensatez dos objetos e idéias da humanidade. a lua e a galáxia que também deixarão de ser... As lembranças que tenho do dia de amanhã..... morrerei por falta do que mais viver.. do asilo e da hermitude.. com ainda menos sentido].. a terra....... da opacidade do mundo e da inexistência de um lugar melhor depois. com a sensação de estar afastando-me de meu destino. Até que decidi nunca mais voltar. mas de aspirações grandiosas e incompreensíveis. foi a falta dela – o que também é uma verdade – que o fez........ que a única coisa que posso – me acreditando certo – dizer é que tudo é deixar de ser.. Quero a todos com que topar ser inesquecível.. de qualquer sentido. Foi a fuga da vida que fundou-se em mim de uma maneira realista. quanta força de profunda unidade não geraram as guerras. A verdade fez eu deixar de ter coração. sim.... E apaixonarei as jovens perdidas... Não era exatamente o que queria. fascinante e inalcançável em mim. deveria acelerar e fomentar isto.

... em nenhuma estância – ou instância – determinada do tempo.. Penso se realmente haverá o outro lado do mar. A mensagem de meu espírito que confundiu-se com mitos antigos e desaparecidos e que hoje é a cara das moedas de minha calça sem bolsos. a folha em branco antes de ser escrita.. Mas sobre antes.... Eu não sei.. E no dia em que eu me der conta de que minha existência passou enquanto eu esperava contemplativo na estoa.. os meus olhos se apagarão e finalmente serei um marinheiro morto. o ponto de origem aonde nascerão as ondas que vêm estourar ao meu olhar.......] [. [Sabendo se existe algo lá fora. .. Oh. foram parar em minha alma em forma de pó..... Eu e o lugar nenhum. de que nunca entendi a natureza do que é viver um dia. sobre sempre.. Mas escrever...Os olhares inconsistentes e remotos que pairam em meu vagão de trem Talgo. meu coração em transformação a ser mais uma pedra na praia. Tudo se perdeu ou foi perdido – isto eu escutei de algum poeta afastado no vento marítimo.ou significa – algo ter significado...... estar num bar... destino Zaragoza. noto haver assumido um pacto estranho. Talvez não existirá. sina que não me arrependo. o motivo de minhas viagens que foi tragado pelos moinhos da vida ou levado a esmo dentro de garragas naufragadas... no balcão de um bar. Tornei-me alguém que escreve.] Parei para ver o que havia feito de minha vida. escolhi o que noto haver escolhido... as vozes de quem nunca foi ouvido e o esquecimento das frases que em nenhum tempo tiveram interlocutor. A minha paixão – e nada mais que uma paixão – que evito repetir nos perdidos movimentos de meu pensamento. E sigo tomando a cerveja. As fugas de mim... Desconcentrou-me a mulher que rapidamente se pousou ao meud lado para pedir mais rum à sua mistura...? Ter de escrever!? ... Minha arquitetura aquática.. Então lisonjeei o fato de naquele ponto. naquela altura irreal de minha viagem por sobre esta terra.. São eles e não eu.. Eu sou um grande cinzeiro lotado de palavras com letras faltando e erros de semântica.. escrevendo poesia.......... Será que em algum tempo é necessário definir a maneira em como se viverá toda a vida por vir? Sinistramente percebo que em nenhum momento exato.. Tornei-me um poeta? Diz-me o dono do bar que os bares levo em mim. pela impossibilidade das coisas. naqueles momentos onde se desconhece – ou se sente desconhecer – todo o significado do que representa .. E as flores que faleceram sem jamais haverem sido vistas.. Sempre este desejo de um outro lugar... O fim dos meus tempos. agora sem medo de que alguém que me conheça – e desconheça – venha a saber disto quando me venha ler. A sensação de que se a morte chegasse nada mudaria. A distância atlântica onde desapareceram as memórias de minha quebrada infância... sempre esta idéia de um sempre a incomodar.. alimentado pela crueldade. o beco de saída para os labirintos metafísicos que sem passar construo nos domínios de minha cabeça seca de maresia das coisas passageiras que um dia qualquer amei ou sonhei.

Minha vida montou-se assim... o que quer dizer. que tipo de gente..... englobando tanta coisa quanto as coisas que cabem na vida.. comunicar.ou corpo. que rimasse comigo. Não posso não ser mais um poeta.. o conteúdo impalpável – até a mim – do que quero compartilhar será sujeito de um sistema cognitivo que jamais entenderemos e. algo será extraído daquilo que agora faço com minha mente – e.. acredito..... Pessoas qye houvessem pensado sobre o sentido tosco das cidades. CIDADE A dor da partida é ver que a vida é uma constante partida. De que os poetas não podem ser amados. Gente como eu. um colégio de crianças paquistanesas e catalãs... A cidade um a vive.... que ela mesmo está partindo.. quase feia. ..Não? E o mais curioso é que o que agora pinto sobre o papel não adianta sem uma bizarra estrutura que tem o poder de tirar alguma coisa da tinta sobre papel.. Mas o que significa a minha vida. mais que isto.. Eu.. o uso deste termo? So-o como um modo de tratar de algo que não sei sobre meu passado. mostrar . das Ramblas. Qualquer pessoa que neste banco também houvesse pensado sobre a simplicidade daquela praça.. Escrever é querer – a menos a mim – dividir. o tipo de mulher que é incapaz de permanecer comigo.. sem tirar nem pôr.. Um largo que guardava uma igrejinha... A poesia matou todos os meus amores.... sobre o engraçado que é ver pequenos catalães e pequenos paquistaneses correndo juntos sob o distinto olhar dos pais. incapazes de suportar-me.. Partir é ser para os lugares e pessoas o que a vida é para nós.] E é uma ocasião no mínimo desesperadora quando nos conhecemos disto. [Talvez sejam como eu..Foi algo gradual com um toque assustador de predestinação.. por exemplo. É ser este deixar de ser. transferir este termo.. faz parte disto.. Você que me lê... Eu sentei numa praça desconhecida. equiparar-se com o devir e sentir-se também executor da realidade passageira do mundo. por exemplo. Talvez por isso amem tanto os poetas. tanto Picasso e Miró.. seja anexada a um alfabeto caligráfico determinado e conhecido – como agora que me lê -.... E perguntei-me quem. sobre os nomes e famas que não têm nada que ver com lugar nenhum.. É difícil escrever.. eu gostaria que houvesse aí estado. Mesmo que minha letra cheia de emoção – agora quando escrevo -.... aprumando-se para fazer realmente letras desde os espasmos confusos da mão... E de uma maneira que só você sabe. * Na Barcelona de tanto Gaudi. E de uma maneira que sempre só pode ser impossível. porfim. Olhei pro banco onde sentava e consolei-me em pensar sobre quem já havia estado alí. me dei conta de que o tipo de mulher que gosto é exatamente ....

. deve deixar de ser uma coisa à parte. e a levamos. Apesar de ser o pior banco a sentar para fumar. A cidade não tem nada a ver com nada. É comunicar-se em dialetos.. A cidade não são as ruas e as construções. A cidade é o cansaço por estar na cidade... conversando naquele bar... vendo os turistas. – elas são daqui.. E não reporta nada. A cidade é o cenário da vida que segue e continua.. e eu continuei – pois não sou de aqui.. um a vive. As vias da cidade apenas continuam a cidade.. Passar na padaria e comprar pão. A cidade. É o ir. é situação.. Se conhece pelo cheiro.. é saber onde ir..Está nos becos e nos viadutos. pelo número do ônibus e a linha do metrô... indivisível. são estas pessoas que me passam correndo.. é continuação..... Mas a cidade é atual.. A cidade.. O exterior da cidade é seu passado.... o plano urbano sequer... A cidade é o que não está dividido na distância. xingar da mesma maneira. Ela se foi. Ninguém vive em Paris até que o Louvre ou o Sena sejam coisas normais e cheguem a passar desapercebidos por vezes... um a vive.. Cometer os mesmos erros.. Olhar com os olhos de quem está conhecendo.. como se vê... apontando que têm horário e direção certa.. como uma coisa fatídica e não como um encanto. A cidade é invisível. não da vida parada e comtemplativa. pelo atalho.. Desta vez sentou ao banco comigo uma moça..... A cidade não é cidade até que esteja simplesmente aqui.. reparar nos estrangeiros.. metrô e ônibus. A cidade é costume.. deve entranhar-se nos sapatos. despedir-se até amanhã.. . Marcar um encontro em quinze minutos. está dentro. A cidade... um a vive. é cada passo que novamente a cruza. hábito compulsório. no meio do Paseig des Graces.. É como se diz. de quem está fora. ver isto. rumo à cidade..... mesmo com tanto sapato. o encontrar. ela veio e pôs-se a acompanhar minha solidão contemplativa e eu a ela e a sua... É a rua pela qual baixamos todos os dias e as vezes nos perguntamos o porquê dela e de nós a baixála.. A cidade é ir pra casa pelas ruas mais calmas. O lado de fora adveio disto. A cidade é a atmosfera onde se pisa.. Mas ver isto de longe.. aderindo....... é única. ter humor próprio.... nos cemitérios e nas igrejas.. A cidade é de onde não se pode fugir. A cidade.... um a vive. as fotos. é apego insconsciente. O contínuo da cidade é móvel.. Não é opção. A cidade é o que fica e dela faz parte quem nela fica. pela hora do dia.. Para ser cidade.. de quem quer ter notícia. o que se come e bebe. pelo bairro de gente assim ou assado... Atrevessar no sinal vermelho.. como seguir.. o que dela fez-se... cumprimentar pela rua.. nas pequenas praças e nos monumentos. Notar que o inverno está chegando... A cidade é o que cada um leva de cidade por estar na cidade. Ir no lugar do outro dia.... ir ao estádio. o que se faz. ofender-se com as mesmas coisas. carro. moto. é por onde caminhamos e querendo algo distinto do caminho.... Não..

. Ser um dos que são dos seus... É interromper-se e fixar-se.. se pensam criadores e querem ser os próprios deuses. Calçadas. ao final... Como uma forma de reconhecer a inacessibilidade da verdade.. Ver com olhos de quem está aqui. Estar dançando junto..A cidade. recheado de não-saber. sobre os mesmos emblemas culturais. partiu a barca que hoje me faz esperar na estoa...] .. Saberão os deuses a razão de Apolo haver revoltado-se contra a Teogonia. Fazer algo distinto de visionar a si e suas aspirações...... Na verdade.. buzina. Emergindo-o na mandala civilizatória. Agora homens crêem que algo sabem.. É não ir pra lá.. É ser apanhado........ sob a mesma perspectiva do firmamento.. Saberão os deuses se no passado as oliveiras também davam mais frutos e sabiam a mais alma. Saberia Tales sobre o que fazia? Há mistério que desaparecem ao horizonte humano e seus deciframentos colocamos sob a responsabilidade do desconhecido.. zunido. estar emparelhado. saber onde está.. E daqui.. polícia e ambulância. [..... lojas.... A cidade é caminhar acompanhado. A cidade barulho.... Está em minhas roupas.. É deste sub-mundo que vivemos hoje.. E do pouco que podemos ancorar nos portos do enigma. um a vive.. pausar um pouco o redemoinho interno e juntar forças para o moínho que alimenta a todos dos seus.. A cidade que acalma os homens. o Olimpo e os Grandes Mitos.... sonhamos o divino... velocidade. É [poder] voltar.. E eu me pergunto o que doença foi essa que assolou aos de Mileto... imagens e templos ao incognoscível. no modo como aqui cheguei e – principalmente – na maneira em que penso. gritos. Esqueceram do sonho.. [.. Ter um endereço.... Eclipsar-se e raiar no astro comum.. desta estoa.... Antes. Dúvida e orgulho colonizaram a terra sob heréticos estandartes anunciando luz e certezas. é ter um lá. Numa disposição metafísica para o incrível. o qual só entende-se com o espírito..... dúbio à razão. Saberão os deuses o que os golfinhos ensinaram aos homens... Cidade que traslada o homem do frio mar de viver por si mesmo. na roda-viva em que a humanidade constantemente recria-se. Assim fomos até que coisas dexaram de ser coisas e um pseudo-universo de explicações foi feito na marginalidade do mundo..] De Mileto não restaram somente as pedras em que me sento... erigimos idéias. de que a verdade é sempre um axioma oracular... A cidade é fuga... mas manteve vivos os campos de oliva...

Com aparência de eterna. gentes e luzes também fundaram-se-me em uma maneira que sonho. Sequer o mesmo deus parmanece.. uma coluna.. a terra será mais uma cidade abandonada por onde o homem passou.. pois já a tenho comigo. esquinas. Cidades levo comigo. E o sonho de minhas cidades vai assim construindo-se constantemente pelas viagens.. bares. o tempo que falta para a realidade do que sonhamos.. O rio de Heráclito já não passa mesmo por Éfeso.. Quando eu atingir o Bósfoto...... becos.... mortais.. caminho por ruas distorcidas por minhas viagens. ou muito. As cidades em que outros passaram e vamos nós passar... E à cidade se implantará em minha alma de um outro modo ianda mais forte e palpável e a levarei em meu mapa interno para mais plantas concretizar no meu sonho de cidades. cidadãos. peles escuras e olhos claros falando a mesma língua.. E quando chegar lá..... para além e para cá das cidades do mundo. por isso é o tempo a dor no mundo. Do mesmo modo em que também talvez vieram parar neste planeta para gerar homens. uma esquina.. * .Vou à cidade.. pronunciando a mesma verdade sobre à cidade. um cheiro ou qualquer coisa da qual constitui-se uma cidade. TEMPO O tempo é a espera para que as coisas aconteçam. E por dentro de mim. será como um reencontro entre as cidades de mim e à cidade. Em nós guardamos as vontades – pro futuro – e o tempo é o interlúdio do sonho... não será como se eu houvesse chegado.. nunca existiu algo como um rio senão também dentro de nós..... Mas Éfeso ainda está lá. Pois à cidade é onde as coisas não permanecem. viajando pelas vias lácteas e novas cidades se farão pelo universo. No fim.. arrastando consigo o que há de sonho pelas cidades das cidades.... O sonho é a ausência do tempo... uma rua...... E a linha do tram chega ao Haja Sofia. E à cidade era mesmo assim.. é o essencial para que as coisas passem. Como mais uma pedra. A outra coisa que é à cidade fora do meu sonhar cidades irá juntar-se ao casco de minha história. E sempre sofre quem espera.. É mais uma estrada por onde coisas passam. E somente quando ela inteira vaporizar-se – saiba lá por qual razão cosmogônica – terá então terminado a história da humanidade. Pois a cidade é estar indo à cidade justamente. A ponte entre os sonhos do futuro e os sonhos do passado.. O tempo é relativo na medida em que ansiamos a ocorrência das coisas deste mundo. cada qual empilhando um pouco..... é a passagem e por isso só ela permanece. com suas ruas e com gente – outra gente – por elas passeando.. de seus sonhos.. Mas à cidade já e ainda existe aqui comigo no ônibus que acelera à cidade que vou... Pedaços e vestígios acumulados por distintas bandeiras e exércitos... E as restantes partículas de pó de cidade talvez colonizarão novos astros. placas....... vejo..

não guardar só para mim a cronologia e as causas daquilo que só a mim detona.. Tenho vontade de contar minha história. a dor daquele som que se vai acabando.. a única pouca coisa que vi ser digna de ser querida... No passado das coisas. com aquela dor do som dos caminhões de estrada.. é a minha garantia de que minha existência não passou somente sem sentido – que é como me sinto em todo e cada presente. É estranho. É o outro lugar.. entre as quebradas imagens de meus deuses que não sei.. Querendo ir. ou ao menos como a minha vida: ir para onde não se sabe... A viagem. E são estes duas que demoram a passar ou que passam sem serem vistos. Nada senão o que sinto..... relevante ou real.... sugerindo-me suicídios. que o criamos e é relativo na medida em que o utilizamos para ver o que queremos ver do mundo. ordenamento ou coerência nas coisas que já se foram.. guardo-os como num altar. esta tendência de tornar-se que permeia o intervalo que acessamos do tempo. Eles me alimentam de uma impaciência para o ter-de-viver-a-vida que muitas vezes beira ao insuportável... Os meus desenhos são rascunhos.. ou seja. o ir.... . Por isso não sou do jeito que deveria ser. passando.. do tamanho do que se é capaz de ser nostáligo ou lembrar. diz-me que tudo que não. querer. Mas nada irá ficar. Os meus sentimentos e tudo o que acontece ou ocupa a vastidão de mim. O que foi ou é o que vale ou valeu? A vida é nada ou pouco mais do que um“valeu”bem grande.. é ilusão – enquanto só é o que existe num aparentemente eterno e constante agora. sinto..... Aí muitas vezes o motor da vida me parece ser este por-vir. que o vê literalmente como tempo perdido. Mas o único interessante até hoje..... sempre rostos. Seja morrer como viver.. Sofro de problemas para sentir o tempo. Talvez seja pois passei a acreditar que ele não existe.. projetar. Mas é a vida a maneira mais dura de morrer e o único motivo para que ainda não tenha terminado este lento – mas aparentemente rápido – processo é a desconfiança sobre a morte ser algo pior do que ainda não estar morto. fazendo-me sonhar. Muitas vezes só vejo sentido. A minha primeira questão é sobre o poder do hábito no status do tempo.. desejar.... Viver é perder! Me é duro dizer. mas este instante incolor e insoço. dos mundos...Uma vez mais. Um roto mais religioso que também vive em mim..... As memórias se me viram mais dôces do que o foram quando não eram memórias. neste caso.. tudo se me torna mais claro. Esta mesma inferência me arremeça ao futuro.... palavras ou não-formas destroçados por minha inata capacidade de não ver nada merecer importância. Pois ao mesmo tempo tenho uma intuição curiosa que não acredita no valor do passado..

Ando pelas ruas como se estivesse sendo espiado.. não sei desta batalha e não me importa. É só o que penso ao ir dormir. O que é real? O tempo.. o conteúdo de meu enigma nem a mim revela-se inteiramente..... Jamais e ainda não fui a Valencia e não me importa.. A sensação de que tudo vai para sempre ser como horas passando. de uma maneira constante que não se desfaça-se no devir. são mais outros do que eu a mim mesmo. Eu que tantas vezes falo da vida só por não entende-la.... as ruas... tentando acalmar-me ante a noção das irrealidades que constituem minha realidade... mas não me sinto fazer parte no que realmente importa....... meus passos dão esta impressão.. as placas... ando a duas patas.. mas também principalmente do concenso dos que me cercam.. dela vive o que sonhamos. como vindo de uma tal batalha de Valencia. este lugar aonde nunca fui. São por esta causa meus passos e o que me espia é o que ficou da vida... Ainda pouco olharam-me e disseram que eu parecia doído........... escrevo. Talvez sequer seja a Europa o problema. E os outros.. que é difícil estar vivo quando só se pode viver originalmente.. ainda querer estar – vivo. mas a vida. A certea e a real visão de que a vida acaba. fora não apenas de mim.. Cercado de uma maneira que sou exterior ao cerco... pois é ela a quem queremos. Não. pois falo. uma falta do que fazer sobre o fato de estar – e pior. a vida e o sonho não existem.] Mas não queria fazer de minha poesia uma interrogação. coisa que não deveria existir.! Fora isto.. A alma.. vivemos. ... [E o jazz é como a vida pois não sabemos o que ocorrerá. que o acompanhe. noto.. Coisa absurda!.. insone e sonâmbulo pela manhã. A revaloração da vida..... O planeta dos que simplesmente vivem a vida.. Mas a morte não pode ser o objetivo. Não sou daqui.. ouvirão? Não. Serei eu o único desta sala a ver que nada importa e tudo é permitido? Onde estão todos? E seu gritar agora.. E já nos valeria mais morrer que qualquer outra coisa.. Pois se tudo não for igual na imagem deste prisma dos valres internos e eternos. esta terra que é o que sempre serei. não nasci para isto... Mortos. A naturalidade de ver-se como uma caça sob os olhos de um caçador que é ele mesmo. Que desejamos e não temos. A dor que levo é a sensação de não ser daqui.. estes que levam a incompreensível aptidão à autoexpectação. Sei que estou dentro...! Repito: leis cruéis regem as almas dos homens... Ao menos não desta forma. Ou dos homens que sabem e sentem ter alma. que já passou. o próprio chão... invisíveis aos olhos das entranhas do mundo.. Por isso não errou aquele poeta que disse que tudo nos vale a pena. Os velhos. há este outro sentimento de estar por fora. mas numa perspectiva contrária em relação a mim.

é atemporal. veio e vai comigo. O presente não está em jogo... A minha cidade é o lá e o meu tempo é a ausência do tempo. os exemplos de que viver deve ser transcender. É desconhecido.. Só o gueto..... E mesmo esta graça empirística da exclusividade do lado subjetivo da vida.. O que virá. mas num outro momento e por outra pessoa.] E não me adianta arrepender ou reclamar dos problemas que só a mim dizem respeito.... O estranho gosto pelo difícil e a inexplicável frieza e leveza do olhar aonde meu olhar deito.. O mesmo lugar – o aqui -... a miséria e a densa floresta.. O que foi feito de nós contra o que seremos....] Só os meus poemas compreenderão isto..... Sigo bebendo.. [.. Foi a minha visão da vida o que fez tudo perder sentido... Só o tempo dirá sobre mim.. Só o que nunca será pode me fornecer paz.... A inacessibilidade........ Minha eterna visão por sobre as coisas do mundo..! Eu.. Aquele momento que era belo por (parecer) único.. Não brindo...] E um brinde a vós. [. vivedores de vidas... E só na terra do nunca ou do jamais me abandonará...... Então... coisa que me é verdadeiramente irreal ou distante........ mas noutra situação ou perspectiva... a indiferença depois de olhar o que em vão tentou fazer parte de mim.. E a palavra vida não é nada mais do que o que nós já vivemos........ do inevitável de mim – que jamais pedi ou elegi. Me perderei para sempre. O ânimo para o impossível.. sem parar para louvar nada que não seja a atitude de não esperar... é inútil.. que morra a e à vida! [. para o de forma alguma estar. fica detonada....... Espera... O que somos... enquanto qualquer coisa me seja ou for. O mesmo amor.] .. A fisiologia metafísica de meus olhos.. o mar bravo.. acabou. O cume da torre que é o presente. Apenas o que em princípio não seria. A poesia matou meus melhores amores.. o deserto. Só o que não se pode me encanta... Janela perpétua. [.A pátria estrangeira dos que domesticam-se a saber viver... Nos vemos lá. as relações sobre as quais se solidificam as vivências são compensatoriamente iguais. A idéia de que mais do que tudo ser cíclico. Ninguém pediu para viver o agora...

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