EU, TEMPO, CIDADE

POEMA EM TRÊS ATOS

De Pedro Noel (2010) Contato com autor: plnnoel@gmail.com

EU
[Fiz do meu não saber desenhar meu desenho, do não saber ver minha pintura, do não saber sentir – e dizer – minha poesia e meu não saber viver se fez a minha arte.]

mas só deserto é o que vejo.. sim serei uma outra coisa selvagem e silenciosa numa outra viagem por um outro mundo [hoje desconhecido. O que me deixará e eu deixarei.... São toda a força que sustém-me no vazio de sentido.] Da vitória e da peculiaridade..... [... e sobrepujarem-se como quem faz o melhor a fazer-se. . [. diria que agora nele há um pouco de dor.. Os homens me verão confuso e simples.... fazer de meus passos o caminho que pela vida encontraria. de amar em grandes amores. fui e voltei... As lembranças que tenho do dia de amanhã.. Ao fim. Cercado de gente e coisas. Pensei que se o mundo é perda e ilusão... Fui e voltei.... que a única coisa que posso – me acreditando certo – dizer é que tudo é deixar de ser. Ou melhor. serei disputado pelas mulheres feitas e simplesmente amado pelas anciãs das casas.. a lua e a galáxia que também deixarão de ser.. Até que decidi nunca mais voltar..... Entrei num mar de águas profundas e – por falta de caminho – naufraguei.... da opacidade do mundo e da inexistência de um lugar melhor depois.. com a sensação de estar afastando-me de meu destino.. Quanta submissão há na comunicação.] Se eu tivesse algo como um coração. Vou para esquecer-me de tudo e nada em mim manter. serei um deus e não restará mais nada que aproveitar da insensatez dos objetos e idéias da humanidade......E continuei a caminhar naquele sentido. A verdade fez eu deixar de ter coração. da morte de uns e vida de outros montou-se sempre o mundo. E não irei para nenhum lugar. morrerei por falta do que mais viver. Se alimentará uma chama móvel e intocável... Para que tudo – de uma vez – se acabasse e eu conhecesse a verdade – (que descobri) – inexistente. Não era exatamente o que queria.. sim. Mas quem é que nunca sentiu-se só deparando-se com a multidão? Sou e sinto-me diferente – e isto não é vã rebeldia... E não terei mais de escrever poesias. Morrerei.. esta metáfora fantástica. Mais ainda na concórdia. E isso é o que me parece o palpável em todo este jogo. Foi o meu cansaço de sonhar coisas lindas. a terra. Mas não tenho um coração... medo ou idolatria por minha figura fugidia... deveria acelerar e fomentar isto. na realidade de serem eles mesmos..... mas – mesmo assim – por aí continuei...] Homens que viram-se únicos e potentes em sua exclusividade.... de qualquer sentido. mas de ninguém quero lembrar. mas de aspirações grandiosas e incompreensíveis... Foi a fuga da vida que fundou-se em mim de uma maneira realista. [. mas indo na direção certa... foi a falta dela – o que também é uma verdade – que o fez.. nada além desta bomba-relógio instalada na anatomia de meu peito. fascinante e inalcançável em mim.. E apaixonarei as jovens perdidas.. Terão inveja. com ainda menos sentido].... E matar. Quero a todos com que topar ser inesquecível.. do asilo e da hermitude.... isto que se diz ser o coração. O sol que não surgirá amanhã será algo guardado na impossibilidade de minha existência. quanta força de profunda unidade não geraram as guerras..

alimentado pela crueldade. em nenhuma estância – ou instância – determinada do tempo. sobre sempre. As fugas de mim. Tudo se perdeu ou foi perdido – isto eu escutei de algum poeta afastado no vento marítimo.... destino Zaragoza. Tornei-me alguém que escreve. no balcão de um bar. sina que não me arrependo.. Penso se realmente haverá o outro lado do mar. E no dia em que eu me der conta de que minha existência passou enquanto eu esperava contemplativo na estoa. A distância atlântica onde desapareceram as memórias de minha quebrada infância.. E as flores que faleceram sem jamais haverem sido vistas. o motivo de minhas viagens que foi tragado pelos moinhos da vida ou levado a esmo dentro de garragas naufragadas. O fim dos meus tempos.. os meus olhos se apagarão e finalmente serei um marinheiro morto.... Sempre este desejo de um outro lugar..... o ponto de origem aonde nascerão as ondas que vêm estourar ao meu olhar.... a folha em branco antes de ser escrita. agora sem medo de que alguém que me conheça – e desconheça – venha a saber disto quando me venha ler. o beco de saída para os labirintos metafísicos que sem passar construo nos domínios de minha cabeça seca de maresia das coisas passageiras que um dia qualquer amei ou sonhei.... estar num bar. Tornei-me um poeta? Diz-me o dono do bar que os bares levo em mim.. naquela altura irreal de minha viagem por sobre esta terra.. Será que em algum tempo é necessário definir a maneira em como se viverá toda a vida por vir? Sinistramente percebo que em nenhum momento exato.ou significa – algo ter significado.] Parei para ver o que havia feito de minha vida... São eles e não eu. A mensagem de meu espírito que confundiu-se com mitos antigos e desaparecidos e que hoje é a cara das moedas de minha calça sem bolsos. escolhi o que noto haver escolhido... sempre esta idéia de um sempre a incomodar..? Ter de escrever!? . A sensação de que se a morte chegasse nada mudaria.. naqueles momentos onde se desconhece – ou se sente desconhecer – todo o significado do que representa ..... A minha paixão – e nada mais que uma paixão – que evito repetir nos perdidos movimentos de meu pensamento. Então lisonjeei o fato de naquele ponto. de que nunca entendi a natureza do que é viver um dia.. Oh.... as vozes de quem nunca foi ouvido e o esquecimento das frases que em nenhum tempo tiveram interlocutor. Eu sou um grande cinzeiro lotado de palavras com letras faltando e erros de semântica.. E sigo tomando a cerveja. escrevendo poesia.. Mas escrever..Os olhares inconsistentes e remotos que pairam em meu vagão de trem Talgo.. foram parar em minha alma em forma de pó. Minha arquitetura aquática....... Desconcentrou-me a mulher que rapidamente se pousou ao meud lado para pedir mais rum à sua mistura... Eu e o lugar nenhum.. Talvez não existirá.. Eu não sei..... pela impossibilidade das coisas. [Sabendo se existe algo lá fora... meu coração em transformação a ser mais uma pedra na praia. Mas sobre antes. ..] [... noto haver assumido um pacto estranho.....

Minha vida montou-se assim. sobre o engraçado que é ver pequenos catalães e pequenos paquistaneses correndo juntos sob o distinto olhar dos pais... E de uma maneira que sempre só pode ser impossível.. E perguntei-me quem.... A cidade um a vive. Partir é ser para os lugares e pessoas o que a vida é para nós..... o tipo de mulher que é incapaz de permanecer comigo.Foi algo gradual com um toque assustador de predestinação. mostrar .. eu gostaria que houvesse aí estado.. Olhei pro banco onde sentava e consolei-me em pensar sobre quem já havia estado alí. que ela mesmo está partindo. que rimasse comigo. que tipo de gente. o conteúdo impalpável – até a mim – do que quero compartilhar será sujeito de um sistema cognitivo que jamais entenderemos e. sem tirar nem pôr. por exemplo. me dei conta de que o tipo de mulher que gosto é exatamente .... um colégio de crianças paquistanesas e catalãs.. . o uso deste termo? So-o como um modo de tratar de algo que não sei sobre meu passado..... tanto Picasso e Miró. De que os poetas não podem ser amados..... Escrever é querer – a menos a mim – dividir. * Na Barcelona de tanto Gaudi.. quase feia..] E é uma ocasião no mínimo desesperadora quando nos conhecemos disto. Não posso não ser mais um poeta. aprumando-se para fazer realmente letras desde os espasmos confusos da mão. faz parte disto. equiparar-se com o devir e sentir-se também executor da realidade passageira do mundo. É difícil escrever..ou corpo.... CIDADE A dor da partida é ver que a vida é uma constante partida. Eu sentei numa praça desconhecida. Talvez por isso amem tanto os poetas. seja anexada a um alfabeto caligráfico determinado e conhecido – como agora que me lê -.. englobando tanta coisa quanto as coisas que cabem na vida.. Você que me lê.... Gente como eu. das Ramblas... Eu. mais que isto.... E de uma maneira que só você sabe.. Qualquer pessoa que neste banco também houvesse pensado sobre a simplicidade daquela praça. acredito... o que quer dizer.. comunicar. Mas o que significa a minha vida.. sobre os nomes e famas que não têm nada que ver com lugar nenhum. É ser este deixar de ser. Mesmo que minha letra cheia de emoção – agora quando escrevo -.. Um largo que guardava uma igrejinha.. algo será extraído daquilo que agora faço com minha mente – e. por exemplo. [Talvez sejam como eu. Pessoas qye houvessem pensado sobre o sentido tosco das cidades.... incapazes de suportar-me. porfim.Não? E o mais curioso é que o que agora pinto sobre o papel não adianta sem uma bizarra estrutura que tem o poder de tirar alguma coisa da tinta sobre papel... transferir este termo. A poesia matou todos os meus amores.

Não é opção. hábito compulsório... O exterior da cidade é seu passado.. A cidade é o que fica e dela faz parte quem nela fica.. deve deixar de ser uma coisa à parte.. Ninguém vive em Paris até que o Louvre ou o Sena sejam coisas normais e cheguem a passar desapercebidos por vezes. rumo à cidade. A cidade é costume. as fotos. como uma coisa fatídica e não como um encanto. indivisível.. Marcar um encontro em quinze minutos.. um a vive. A cidade é o que cada um leva de cidade por estar na cidade... É como se diz. A cidade é o cenário da vida que segue e continua. é cada passo que novamente a cruza. é apego insconsciente. A cidade é o que não está dividido na distância. no meio do Paseig des Graces.. apontando que têm horário e direção certa. pelo número do ônibus e a linha do metrô. o que se faz. e a levamos. .. é por onde caminhamos e querendo algo distinto do caminho.. ver isto. carro. A cidade é ir pra casa pelas ruas mais calmas. É o ir... Atrevessar no sinal vermelho.. é continuação. Desta vez sentou ao banco comigo uma moça.. nas pequenas praças e nos monumentos... A cidade é a atmosfera onde se pisa. o plano urbano sequer. o encontrar. despedir-se até amanhã. e eu continuei – pois não sou de aqui..... Ir no lugar do outro dia. um a vive.... E não reporta nada... Passar na padaria e comprar pão..Está nos becos e nos viadutos... A cidade... aderindo. ter humor próprio.. Olhar com os olhos de quem está conhecendo. pelo atalho. o que se come e bebe.... como se vê.. Cometer os mesmos erros.... A cidade é de onde não se pode fugir. de quem quer ter notícia.. metrô e ônibus..... não da vida parada e comtemplativa. nos cemitérios e nas igrejas. A cidade é o cansaço por estar na cidade. como seguir... o que dela fez-se... A cidade não são as ruas e as construções.. vendo os turistas. A cidade não é cidade até que esteja simplesmente aqui. são estas pessoas que me passam correndo.. de quem está fora. Para ser cidade..... ir ao estádio.. ofender-se com as mesmas coisas.. É comunicar-se em dialetos........ conversando naquele bar.. A cidade. é situação.. é única.. um a vive. Se conhece pelo cheiro. moto. A cidade não tem nada a ver com nada. Mas ver isto de longe. O lado de fora adveio disto.... A cidade.. cumprimentar pela rua.... está dentro.. Não. A cidade. Apesar de ser o pior banco a sentar para fumar.. mesmo com tanto sapato... Mas a cidade é atual. ela veio e pôs-se a acompanhar minha solidão contemplativa e eu a ela e a sua. reparar nos estrangeiros... pela hora do dia. O contínuo da cidade é móvel.. pelo bairro de gente assim ou assado. Notar que o inverno está chegando... É a rua pela qual baixamos todos os dias e as vezes nos perguntamos o porquê dela e de nós a baixála. – elas são daqui. é saber onde ir. deve entranhar-se nos sapatos. xingar da mesma maneira.... A cidade é invisível. As vias da cidade apenas continuam a cidade.. um a vive.. Ela se foi.

... é ter um lá. sobre os mesmos emblemas culturais.... Antes. Ver com olhos de quem está aqui..... A cidade barulho. Esqueceram do sonho. no modo como aqui cheguei e – principalmente – na maneira em que penso........ zunido. É não ir pra lá.. polícia e ambulância. lojas... na roda-viva em que a humanidade constantemente recria-se... É interromper-se e fixar-se.... Agora homens crêem que algo sabem. [.. partiu a barca que hoje me faz esperar na estoa. É [poder] voltar. Calçadas. É deste sub-mundo que vivemos hoje.. Saberia Tales sobre o que fazia? Há mistério que desaparecem ao horizonte humano e seus deciframentos colocamos sob a responsabilidade do desconhecido... E daqui. mas manteve vivos os campos de oliva.. A cidade que acalma os homens. Como uma forma de reconhecer a inacessibilidade da verdade. [. Cidade que traslada o homem do frio mar de viver por si mesmo.. gritos.. Ter um endereço. Assim fomos até que coisas dexaram de ser coisas e um pseudo-universo de explicações foi feito na marginalidade do mundo... Ser um dos que são dos seus. velocidade. E eu me pergunto o que doença foi essa que assolou aos de Mileto.. se pensam criadores e querem ser os próprios deuses.. sob a mesma perspectiva do firmamento...... A cidade é fuga. E do pouco que podemos ancorar nos portos do enigma.] De Mileto não restaram somente as pedras em que me sento. Saberão os deuses o que os golfinhos ensinaram aos homens. Na verdade. estar emparelhado... Saberão os deuses a razão de Apolo haver revoltado-se contra a Teogonia. Fazer algo distinto de visionar a si e suas aspirações.. um a vive. pausar um pouco o redemoinho interno e juntar forças para o moínho que alimenta a todos dos seus.. Estar dançando junto... erigimos idéias.... saber onde está...... Emergindo-o na mandala civilizatória.... Eclipsar-se e raiar no astro comum... o Olimpo e os Grandes Mitos. sonhamos o divino.. Dúvida e orgulho colonizaram a terra sob heréticos estandartes anunciando luz e certezas.... ao final. imagens e templos ao incognoscível. É ser apanhado.] .A cidade.. Numa disposição metafísica para o incrível. buzina... de que a verdade é sempre um axioma oracular.. dúbio à razão. Está em minhas roupas. Saberão os deuses se no passado as oliveiras também davam mais frutos e sabiam a mais alma... recheado de não-saber. A cidade é caminhar acompanhado.. desta estoa.. o qual só entende-se com o espírito.....

... Cidades levo comigo.. pois já a tenho comigo.. E por dentro de mim..Vou à cidade.. E à cidade se implantará em minha alma de um outro modo ianda mais forte e palpável e a levarei em meu mapa interno para mais plantas concretizar no meu sonho de cidades. o tempo que falta para a realidade do que sonhamos. pronunciando a mesma verdade sobre à cidade... esquinas.. a terra será mais uma cidade abandonada por onde o homem passou. peles escuras e olhos claros falando a mesma língua. gentes e luzes também fundaram-se-me em uma maneira que sonho. por isso é o tempo a dor no mundo.. uma rua... Em nós guardamos as vontades – pro futuro – e o tempo é o interlúdio do sonho. bares.. viajando pelas vias lácteas e novas cidades se farão pelo universo. Pois à cidade é onde as coisas não permanecem. um cheiro ou qualquer coisa da qual constitui-se uma cidade.. uma esquina.... para além e para cá das cidades do mundo. Como mais uma pedra. becos.. mortais.......... E as restantes partículas de pó de cidade talvez colonizarão novos astros... Quando eu atingir o Bósfoto. * .. nunca existiu algo como um rio senão também dentro de nós. A ponte entre os sonhos do futuro e os sonhos do passado. arrastando consigo o que há de sonho pelas cidades das cidades...... Pois a cidade é estar indo à cidade justamente.... caminho por ruas distorcidas por minhas viagens. ou muito.. cidadãos. E sempre sofre quem espera. O tempo é relativo na medida em que ansiamos a ocorrência das coisas deste mundo. Mas Éfeso ainda está lá. TEMPO O tempo é a espera para que as coisas aconteçam. No fim. A outra coisa que é à cidade fora do meu sonhar cidades irá juntar-se ao casco de minha história... E quando chegar lá. Com aparência de eterna. E somente quando ela inteira vaporizar-se – saiba lá por qual razão cosmogônica – terá então terminado a história da humanidade...... E o sonho de minhas cidades vai assim construindo-se constantemente pelas viagens. é a passagem e por isso só ela permanece.. é o essencial para que as coisas passem. E a linha do tram chega ao Haja Sofia.. não será como se eu houvesse chegado. Sequer o mesmo deus parmanece. O rio de Heráclito já não passa mesmo por Éfeso. uma coluna. As cidades em que outros passaram e vamos nós passar. Do mesmo modo em que também talvez vieram parar neste planeta para gerar homens. O sonho é a ausência do tempo.. placas... de seus sonhos.. É mais uma estrada por onde coisas passam.. cada qual empilhando um pouco.. Mas à cidade já e ainda existe aqui comigo no ônibus que acelera à cidade que vou. com suas ruas e com gente – outra gente – por elas passeando.. Pedaços e vestígios acumulados por distintas bandeiras e exércitos.. E à cidade era mesmo assim...... será como um reencontro entre as cidades de mim e à cidade. vejo.

O que foi ou é o que vale ou valeu? A vida é nada ou pouco mais do que um“valeu”bem grande. com aquela dor do som dos caminhões de estrada. Muitas vezes só vejo sentido.. É estranho. Esta mesma inferência me arremeça ao futuro. sinto. guardo-os como num altar. Mas o único interessante até hoje. desejar... Os meus sentimentos e tudo o que acontece ou ocupa a vastidão de mim. a dor daquele som que se vai acabando.. dos mundos........ Mas é a vida a maneira mais dura de morrer e o único motivo para que ainda não tenha terminado este lento – mas aparentemente rápido – processo é a desconfiança sobre a morte ser algo pior do que ainda não estar morto. Os meus desenhos são rascunhos.. ou ao menos como a minha vida: ir para onde não se sabe. Um roto mais religioso que também vive em mim. As memórias se me viram mais dôces do que o foram quando não eram memórias.... E são estes duas que demoram a passar ou que passam sem serem vistos... ou seja. Viver é perder! Me é duro dizer.. Por isso não sou do jeito que deveria ser. neste caso. Nada senão o que sinto.... diz-me que tudo que não. A viagem.... a única pouca coisa que vi ser digna de ser querida.. relevante ou real. tudo se me torna mais claro... Eles me alimentam de uma impaciência para o ter-de-viver-a-vida que muitas vezes beira ao insuportável. Pois ao mesmo tempo tenho uma intuição curiosa que não acredita no valor do passado. ordenamento ou coerência nas coisas que já se foram.. sempre rostos.... Aí muitas vezes o motor da vida me parece ser este por-vir. do tamanho do que se é capaz de ser nostáligo ou lembrar. . mas este instante incolor e insoço.... fazendo-me sonhar.... que o vê literalmente como tempo perdido. esta tendência de tornar-se que permeia o intervalo que acessamos do tempo. É o outro lugar. que o criamos e é relativo na medida em que o utilizamos para ver o que queremos ver do mundo. Seja morrer como viver. sugerindo-me suicídios... Mas nada irá ficar... projetar. A minha primeira questão é sobre o poder do hábito no status do tempo.. Querendo ir. Tenho vontade de contar minha história.. Sofro de problemas para sentir o tempo. é ilusão – enquanto só é o que existe num aparentemente eterno e constante agora... No passado das coisas. entre as quebradas imagens de meus deuses que não sei.. é a minha garantia de que minha existência não passou somente sem sentido – que é como me sinto em todo e cada presente.. Talvez seja pois passei a acreditar que ele não existe. palavras ou não-formas destroçados por minha inata capacidade de não ver nada merecer importância.Uma vez mais. não guardar só para mim a cronologia e as causas daquilo que só a mim detona. querer. passando.. o ir...

Não sou daqui. ouvirão? Não. Cercado de uma maneira que sou exterior ao cerco. de uma maneira constante que não se desfaça-se no devir.. coisa que não deveria existir. A alma. São por esta causa meus passos e o que me espia é o que ficou da vida.. E já nos valeria mais morrer que qualquer outra coisa.. Não... como vindo de uma tal batalha de Valencia.! Repito: leis cruéis regem as almas dos homens.. que o acompanhe. Eu que tantas vezes falo da vida só por não entende-la. o próprio chão.. E os outros... vivemos... que é difícil estar vivo quando só se pode viver originalmente. meus passos dão esta impressão. pois é ela a quem queremos. mas também principalmente do concenso dos que me cercam. Por isso não errou aquele poeta que disse que tudo nos vale a pena. É só o que penso ao ir dormir. tentando acalmar-me ante a noção das irrealidades que constituem minha realidade.. que já passou. Mortos. a vida e o sonho não existem.... ainda querer estar – vivo..... as ruas. há este outro sentimento de estar por fora.. Pois se tudo não for igual na imagem deste prisma dos valres internos e eternos. .. Mas a morte não pode ser o objetivo. pois falo. [E o jazz é como a vida pois não sabemos o que ocorrerá.... ando a duas patas.. dela vive o que sonhamos.! Fora isto... A naturalidade de ver-se como uma caça sob os olhos de um caçador que é ele mesmo. mas numa perspectiva contrária em relação a mim.] Mas não queria fazer de minha poesia uma interrogação... mas não me sinto fazer parte no que realmente importa... Que desejamos e não temos. não sei desta batalha e não me importa... insone e sonâmbulo pela manhã. A sensação de que tudo vai para sempre ser como horas passando.... este lugar aonde nunca fui.. esta terra que é o que sempre serei... o conteúdo de meu enigma nem a mim revela-se inteiramente. Ou dos homens que sabem e sentem ter alma.. não nasci para isto.. A dor que levo é a sensação de não ser daqui. Ao menos não desta forma. A revaloração da vida. Os velhos. Sei que estou dentro..... fora não apenas de mim.. O planeta dos que simplesmente vivem a vida. Serei eu o único desta sala a ver que nada importa e tudo é permitido? Onde estão todos? E seu gritar agora.. mas a vida....... Coisa absurda!.. Talvez sequer seja a Europa o problema.. A certea e a real visão de que a vida acaba... escrevo. as placas. Ainda pouco olharam-me e disseram que eu parecia doído. invisíveis aos olhos das entranhas do mundo. estes que levam a incompreensível aptidão à autoexpectação.Ando pelas ruas como se estivesse sendo espiado. O que é real? O tempo. uma falta do que fazer sobre o fato de estar – e pior. são mais outros do que eu a mim mesmo..... Jamais e ainda não fui a Valencia e não me importa..... noto..

. A idéia de que mais do que tudo ser cíclico.] Só os meus poemas compreenderão isto... veio e vai comigo.... O que virá.] ..... vivedores de vidas.. O que somos.. que morra a e à vida! [. Foi a minha visão da vida o que fez tudo perder sentido... Janela perpétua. Apenas o que em princípio não seria. Só o que não se pode me encanta.. O cume da torre que é o presente... Só o gueto. sem parar para louvar nada que não seja a atitude de não esperar... enquanto qualquer coisa me seja ou for. Aquele momento que era belo por (parecer) único..... Só o que nunca será pode me fornecer paz.. a indiferença depois de olhar o que em vão tentou fazer parte de mim. Me perderei para sempre.. acabou... Só o tempo dirá sobre mim...] E não me adianta arrepender ou reclamar dos problemas que só a mim dizem respeito.] E um brinde a vós...! Eu. Então. E só na terra do nunca ou do jamais me abandonará. as relações sobre as quais se solidificam as vivências são compensatoriamente iguais...... É desconhecido. Nos vemos lá........... [. E mesmo esta graça empirística da exclusividade do lado subjetivo da vida... mas noutra situação ou perspectiva. os exemplos de que viver deve ser transcender.. O que foi feito de nós contra o que seremos. O presente não está em jogo. Sigo bebendo. A fisiologia metafísica de meus olhos.... Ninguém pediu para viver o agora... o deserto. Minha eterna visão por sobre as coisas do mundo.. A inacessibilidade.. Não brindo. A minha cidade é o lá e o meu tempo é a ausência do tempo. A poesia matou meus melhores amores. O mesmo lugar – o aqui -........ [...A pátria estrangeira dos que domesticam-se a saber viver. a miséria e a densa floresta...... é inútil... Espera. O mesmo amor. o mar bravo.. do inevitável de mim – que jamais pedi ou elegi... para o de forma alguma estar. O ânimo para o impossível.. fica detonada. [............ é atemporal.... E a palavra vida não é nada mais do que o que nós já vivemos. mas num outro momento e por outra pessoa.. coisa que me é verdadeiramente irreal ou distante.. O estranho gosto pelo difícil e a inexplicável frieza e leveza do olhar aonde meu olhar deito.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful