Você está na página 1de 32

Secretário;

Wilson de Figueiredo
Redator-Chefe;
Valdomiro flutran Dourado

Redatores:
Sábato Magaldi
EDIFÍCIO Otto Lara Resende
Edmur Fonseca
«E AGORA, JOSÉ ?» — Carlos Drummond de Andrade Pedro Paulo Ernesto

ANO □ Belo Horizonfe, Janeiro, 1946 □ NUMERO

ESCREVEM NESTE NUMERO

PEDRO PAULO ERNESTO

VALDOMIRO AUTRAN DOURADO

VANESSA NETTO

OTTO LARA RESENDE

LUCY TEIXEIRA

FERNANDO SABINO

PAULO MENDES CAMPOS

WILSON DE FIGUEIREDO

JAGQUES DO PRADO BRANDÃO

HÉLIO PELLEGRINO •

PEDRO GIANNETTI

OTÁVIO ALVARENGA

FRANCISCO IGLESIAS

AMARO DE QUEIROZ

J. ETIENNE FILHO

PONTES DE PAULA LIMA

PREÇO - CR 2,00

13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23

. -kj £

, -i '. 1 V

• ■m

♦ '

l3"

mm ^ 'ÍC •: -■•■• ; ' ,•■ i

- 'V ^ •
- -

f\.
" • "-■ "

-r • Vv Wif

■.

/' -
f?-
Éii-/ .

f;

mm
*
cm 1 10 2 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22
mm

O prazer de passar alguns


momentos de bom entretenimento
com os amigos em um ambiente
de finura exemplar, animado por
duas grandes orquestras de danças,
com dois "shows" diários de que
participam os maiores artistas na-
cionais e estrangeiros, eis o que
oferece, tôdas as noites, a V. S.,
a Pampulha, o refúgio elegante
da sociedade Belorizontina.

5 A A: ' ^

....

l 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22
mmmm. -
V' vh ife'v ('
: /■•
, ^

V . "
fr
-
-

■:; :í
,> <

• • '•
í<
-.
'
'

n.% : ' ., . / v--


A .
' ■ . «
/

. ■ ■ r::- " .
■ í
t■ ,, , ■ >,;v- . ■
.» > • *
s-:'v..v ;/ úí
v'! (; " , v' :

mm

kífê • •é; - ■ ( ' , ■• • ' . . - ■

x
' mmm
jgSpyjry ■ , ■■■■
:
■ ■ = ■' .;

Mi'f - V:-: - "V- a. ; : à -


•i, .:v--a--
- ■ ■ ■
.




- ,
»;a''a;--^:,;:.a'';.. aaa^á^:;- ■■ '' %&Êi
,
' ' '■■■ a- a ■ :í u
y -M
■-lt
:■ ■ l
ám-m

■ v ■ ..r' -v'' a.
, a.
.... . v.^er.^.. a ^^a^a"':a':
*.■ . ' '
1
" kstes.
a'.: ,

• .
:

-
- á:::í,a-':'h:;a; „ aa',^^-:'-'! ^"a" * ' I BH
I I I I /~1
9 li 12 13 14 15 16 17 1Q 1Q on OI
Esboço para apresentação de "EDIFÍCIO"

— Que século meu Deus! diziam os ratos. do tempo, mas cedem a elas nas possibilidades das suas
E começaram a roer o edifício. prerrogativas intangíveis.
Onde encontrar, então, o laço que une o grupo de gente
Carlos Drumond de Andrade nova dos cafés de Belo Horizonte ?
Se olharmos um por um, veremos que as diferenças
não são tão grandes. Ao lado da semelhante formação li-
"J-RATÁ-SE de uma revista de moços. E' de se presu-
terária, que dá à linguagem uma gíria particular, os pro-
mii, portanto, que tenha veleidades revolucionárias,
blemas de todos tem aproximações incontestáveis. Algu-
deseje conquistar o mundo ou salvar a honra da pátria.
mas horàs pela noite, e a angústia estabelece um clima que
Não ouso dizer que uns não acariciam o propósito de res-
desfaz a aresta mínima. Ademais, o caminho literário tem
taurar a dignidade humana. Mas o nosso "edifício", em
muito de comum.
geral, é habitado por tristes moradores.
Agora, a neva geração de Belo Horizonte em conjun-
Seria difícil estabelecer um denominador comum a essa
to. Não esquecemos os perigos de generalizar, e os casos
turma de jovens. A heterogeneidade das tendências, de-
pessoais que fogem ao processo sistematizador. Porém,
íeiminada sobretudo com os acontecimentos políticos, lan-
existe o mesmo problema do homem, em face do mundo,
| "0U í?ac,a Um a uma PosiÇão definida, obrigando a distân- que permite a busca de unidade.
| cias irrecusáveis em certos princípios.
Não há húvida em afirmar que à nossa geração coube
| i_ início, havia um grupo que se afirmava católico, a mais deplorável das situações. 0 passado não tinha sei-
j a.>as rnadiugadas confidenciais, o ódio ao apodrecido mun-
va para oferecer-lhe apôio, com a descrença nos valores que
do burguês era aceso com o compromisso ao heroísmo da
fcle reputava universais. Faleceu o mito das verdades eter-
| í eligião primitiva, Essa atítrirlD oi<(( desajústamento.
nas, em que uns procuram ainda se proteger, econômicos e
necessidade inquieta de não estar alheios. No .fundo to-
medrosos do aniquilamento.
dos precisavam de metáforas, úteis ao cultivo individual
i das._fJocubrações literárias. Quando se tentava reconhecer a base íntima da perso-
Ainda hoje alguns confessam testemunhar o sangue de nalidade, vieram as definições precipitadas, origem de ati-
Cristo. Insuflados de um suposto vigor maritainiano, que- tudes dúbias.
renx imprimir à sociedade desvitalizada a fôrça pura do E' através da posse de si mesmos que muitos afirmam
cristianismo. Talvez sinceros, talvez presos ao receio de 0 coletivo, levando a um coletivismo vesgo, diferente das
se negar e admitir os avanços do tempo, ou presos aos ar- acutrinas reais.
|iemedo3 familiares, formaram um sólido núcleo à parte, A vertigem do presente só faz crescer o desencanto.
j eme-se que por preguiça mental; curiosidade pouca de es- 1 cicebem-se vazios os impulsos nos quais se empenhava a
! tudo serio, e exploração incansável da infância perdida, "vida, reduzindo os sentimentes a uma indefinição completa,
j Js postulados católicos permanecem num plano de absolu- o mesmo que morte para êles. Os despejos guardam ape-
to longínquo, que a vida e as afirmações individuais se en- nas a ridícula presença do ser, que traz o egoísmo de afir-
; carregam de negar. Para romper a contradição a queda mar-se secretamente. Não se encontra solução para a tra-
sinal doloroso da contingência humana, passou a ter o valor gédia, mas é preciso um pretexto capaz de manter a apa-
dc mito, presente nos gestos mais vulgares. Pior há sofri- lência. Êsse pretexto é conseguido na crença do mundo
mento verdadeiro ás vezes. novo.
Outros membros do grupo inicial, insatisfeitos com a
Na verdade, pela experiência que se tem, sabe-se que
sua definição intimamente falsa, acabaram por tomar um
não passa de um engano, buscado conscientemente na cer-
rumo oposto. Apesar do esforço de segurar algum destro-
teza de que é frágil, porém o último possível de sobrevi-
ço da doutrina que falia, já tinham mergulhado no deses-
vência. A entrega ao homem novo é uma espécie de morte
pero e no desencanto. para prosseguir a vida, já que no fundo tudo existe como
Precipitou-se a política nacional, exigindo uma reno- morte.
vação de energias. O movimento de luta ao fascismo ofe-
Há, também, um esforço heróico no sentido de ver se
recia vários aspectos, por um dos quais era necessário de-
se constrói, pelo atrito, qualquer coisa durável. Talvez seja
ímir-se imediatamente.
o testemünho vibrante da nossa fx-aqueza, da covardia em
^ Certas preferências, mais imposição de um equilíbrio não aceitar o profundo aniquilamento. Por ser racional e
salvador, embora sincera se ainda não amadurecidas foram almejar o sustento (mesmo ridículo) do mundo, encerra
abraçadas num impulso total. Estava aceito o extremismo também generosidade.
de esquerda.
Numa visão simples da vida social, nota-se uma injus-
Em meio a essa turma, talvez mais coerente^ uns con-
tiça inominável, sôbre a qual se falaria somente em têrmos
tinuaram fiéis à sua solidão. Compreendem as exigências
demagógicos. A exploração do homem pelo homem, no

Página 3
EDIFÍCIO

#
cm l 2 3 4 5 6 7 9 10 11 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
trabalho, não pode ser aceita, e isso conduz ao ideal de uma çao iiierana irooia sei Cl V ClJLLUi cl * toLiuecimemu u
ordem mais justa. Nesse ponto, os jovens da nova gera- África de Rimbaud. Não acreditamos mais em África. O
ção tem secretos contactos. destino parece traçado: a quase fuga pela literatura.
Depois, a descrença não é tão definitiva. Pouco im- Certos caracteres foram vistos com exagerada ênfase e
porta que as afirmações mais veementes não passem de um impiedade. Contudo, esconde-se em todos um coração enor-
grito de desespero. No fundo, mesmo descrendo de tudo, me, cuja maior tragédia é talvez compreender demais.
todos acreditam demais em seus fantasmas. Resta uma lembrança: que o amor não seja a genero-
Já não é intenso o apêlo do filho pródigo. A sua ex- sidade do rico, pródigo por não lhe interessar uma ou ou-
periência foi superada, e se exteriofiza através da realiza- tra migalha.

"... observamos que a natureza, que se nos mianifesta na segunda


parte da nossa vida, não é sempre nossa primeira natureza desen-
volvida, ou fanada, ampliada ou diminuída; ela é algumas vezes uma
natureza inversa, uma verdadeira vestimenta ás avessas". (Prousl).

Página 4
EDIFÍCIO
Um casual ajuste de contas

Pedro PAULO ERNESTO


{Retrospecto sentimental)
i Talvez zombes com menos unção do que eu. Talvez teu lápis
LIANTOR... ura nome e uma época. O tempo nois con- que traça cruzes no calendário risque mais decidido e rápido que o
cede a ficha dos amigos que perdemos. Êste, Aliantor, meu. Se acontecesse de maneira diferente eu protestaria contra o
eu o seguiria para que ao cabo do passeio êle, involuntariamente, milagre em nome da lei, da ternura, por que eu, e não você, se en-
me chamasse de bom ou, sem dizer nada, me fizèsse um daqueles tregou todo nessa amizade.
gestos que só apreciam sob as mangas de seu paletó quando- >se en- Revivo a cena do despeito. A' bordo da quadra de boches es-
ternecia. Aliantor, ... hoje, suponho, sou superior quanto à
magava nos dedois o ramo de pinheiro que, nervoso e distraído, apa-
essa lembrança, adoto um jeito carinhoso para amparar os esboços nhara; com êle surrava a outra mão; doía fisicamente e me des-
de fatos, que vivemos, juntos, e esse carinho deixou de me assus- viava da outra; que me arranhava o sorriso mau com que via e
tar ao descobrir que precisava dela pela sua raridade. Posso la- ouvia você, Aliantor, acompanhar Alberto nos planos de colegial apli-
mentai que o tempo haja encerrado o Ginásio e seus pinheiros con- cado. Não ponho aqui a natureza se ela me escurecia outro tanto
tiitos num corapaitimento do meu coração cuja chave perdi; um
ao lado do egoísmo navalhado. 0 fio da navalha me arrepia.
dia uma querida mulher a encontrar e, entre beijos, m'a devol-
Se Deus somos nós mesmos prolongados numa audaciosa inde-
verá. Mas, nas tardes de passos limpos, pelos pavimentes cruzados pendência testemunho a verdade quando digo que o chamava em
de linhas, somos aéreos, tanto que desejaríamos vagar no sôpro du- socorro para que eu vencesse Alberto no coração de Aliantor, Co-
ma recordação que apenas nos arrancassem os olhos para as nuvens. mo as folhas, da poeira que recebiam, com o tempo começam a re-
Estranho que Aliantor esperasse uma proclamação para surgir. becer chuva, meus sentimentos me arrimavam ou me deixavam só
Falando sem mentira, na verdade não surgiu. Nesta manhã eu o conforme acasos que conduziam ambos, Alberto e Aliantor, por ata-
procurei. lhos em que eu só me embrenhava humilhando-me. Naquele tem-
Não é certo que nada se perdeu em nós ? A maior verdade não po colocaria dilemas entre a humilhação e amizade ? Não, impos-
diz que vivemos com um cemitério dentro de nós ! A falta de há- sível imaginar essa prova de vontade.
bito me acanha para não confessar que ignoro o lugar do amigo, eu Alberto morreu com alguns dias de infecção . , Acreditei que •
o digo que não sei fé para perdoar-me basta que pense mais delibe- comprara a sua morte e Aliantor me desgastava já como um idolo
radamente na nossa despedida, na notícia que tive dêle, na carreira bárbaro a quem as oferendas cruentas não saciassem. Orgulhava-me
que o ligou àquela Escola guardada pelas montanhas. menos de ser seu companheiro.
Taniuem, paia erguê-lo mais e mais, elegendo o tempo em que Enfim, gostaria de afirmar hoje que tudo experimentei solità-
ims vimos, afirmarei que nenhuma outra amizade me alargou tanto riamente, daí por diante, afim de romper a submissão criada pelo teu
•ao sentimento como a sua. Até lhe diria, se o encontrasse, que de- fascínio. E, hoje, recapitulo a noticia que de li chegou a mini.
pois da sua viagem e da minha, por linhas diversas, me esgotei no
empenho de esterilizar impulsos generosos, afeições, passos incon-
tidois na direção de outros. Encontrei Wilson na esquina duma cidade oiide nunca marca-
Não. me livro de imaginar se Aliantor voltaria o rosto, emocio- ríamos entrevista se nos fôsse permitido traçar itinerários. Sur-
nado, admirado com os sulcos pelos quais voltava ao meu coração! presa! Surprêsa por revermos subitamente duas criaturas que vol-
Como devo a vantagem da ICcidez à insensibilidade estudada, creio tavam, no apêrto de mão, à sombra dos antigos pinheiros. 0 que
que não -só lhe esconderia rainha saudade como apoiaria modos frios
os padres chamavam de "mundo" apagara os nossos rostos, ura
que convertessem nosso encontro numa casualidade banal.
para o outro, das retinas que, cinzentas côr de chumbo nele, eram
E, Aliantor, tão longe alcançou a transformação operada pelos mais claras em mim. 0 abraço que nos dávamos refaziam um desa-
muitos janeiros! Não voltarei ao que era e, não se iluda, meu de- jeitamento colegial e uma vontade de inventar apelidos carinhosos.
sejo de voltar só seria possível quando, todo vencido, procurasse As ruas daquela cidade se comoveram conosco; entramos no bar
às pressas um refúgio. onde com as garrafas de cerveja esvaziávamos lembranças cheias;
Não o encontraria em você, é outra certeza que me reafirma no percorremos jardins; êle me contou para onde ia e eu lhe esbocei,
avanço. Se saltar naquela estação, atravesar aquela alameda de pi- assim por cima, as aventuras da minha ausência, o que despertou as
nheiros, encostar-me naquele posto que um remoto alarido de .rapa- suas, ligadas à nomes que as edrêlas vêm todo o dia e eu es-
zes enche de significado, não encontraria seu rosto moreno, nem sua queci.
voz que, então, me aparecia sonora, descrevendo o mundo desco- Me levou ao seu quarto de hotel, aconchegou na parede um tra-
nhecido. Poderia, no máximo da sorte, e ainda assim se os má- vesseiro que me facilitasse o recosto e cora sua cabeça pequena e
gicos fôsisem os governadores das regiões, poderia deparar-me com o tenaz ritmava palavras que, aumentando, passaram a criar ura ritmo
eu retrato, grande e de contornos imprecisos, no cavalete dos moc- só de dedos, pois para as lembranças isomos uma face extátic.
os. Tardaria a desvendar a ilusão para reconhecer que eu era o — "E Aliantor? O que sabes dêle?"
pintor ?... Logo as matas por onde passeávamos refletiriam o en- — "Que bons amigos vocês foram no Eolégio!"
velhecimento que eu ocultava. E a história veio, nasceu de noticias que se combinavam para
Amigo, não saltaria naquela estação! Os barrancos onde os gru- me decepcionar. Meu amigo sofrerá tanto quanto eu. Teria sido
pofs desfeitos se imobilizavam para a máquina de fotografias. Êles viril no caminho ambicionado? Acima de outras admirações, não
não me seduziriam com as noções de geologia que tenho na cabeça, respectiva nele a coragem em agir com quaisquer meios ? Wilson
que embaçam de vapor úmido esses enternecimentos. detalhou fatos que cresciam numa esbatida distância um rosto enér-
Caminharia de canto a canto; indagaria o chafariz da rua; a gico, que se consumia em febre para não se libertar nas lágrimas.
Igreja caída em rugas na caliça, podre; uma isurprêsa me esperaria O amigo, armado só de seu talento matemático, embarcara para
no auxílio de uma velha memória; andaria até cansar para descobrir a Escola Militar, em cujos exames obteve primeiro lugar, mas sen-
aquilo que a saudade me impedia de reconhecer: que você, Alian- do demorada a sua incorporação pela necessidade de atender a casta
tor, cresceste noutro, ganhaste a capa dos deformados pela idade, e, dos privilegiados, sua permanência na região já lhe custava a humi-
como eu, estudas a melhor maneira de zombar do que passou. lhação de não ter pão, quando, para conservar as forças, se empre-

Página 5 EDIFÍCIO

Iplííll
-r
cm l 14
gou no restaurante dos oficiais. Serviu nesse emprêgo meses de prato. Se Aliantor se recusasse a atender o novo freguês, disfar-
abatimento e de descrença. Afinal, por intermédio de uma tia, çando-se com súbita indisposição, a gerência seria bastante carran-
amante de qualquer major, escolheram-no para substituir alguém que cuda para lembrar-lhe seu preciosismo. Ao sair, o jornalista lar-
se desligara. No momento, êle e sua farda foram destacados para garia na mesa uma larga gorgeta. Conduzia com essa liberalidade
o Sul. uma das cenas do meu reencontro com Aliantor.
Wilson enriquecia de detalhes, a meu pedido, cenas como a da Mas, ise o jornalista não reconhecesse o amigo no garção, Alian-
visita em que Aliantor resolveu perdoar a tia para utilizá-la ermo tor se salvaria, continuaria ausente da mesma forma. E, para a
instrumento de sua ambição. Ignorava se a carreira lhe desvendaria ntória da minha superioridade, Aliantor devia convencer-se que ha
seus desejos queridos. Pensava que, como cultivara mentirosa- via sentido na gorgeta exagerada. Se o encontro ocorresse, e o jor-
mente, a amizade dos padres, no Colégio, com seu impudor de pobre nalista ignorasse o nome querido do companheiro ginasial, Alian-
arranjaria um método de ser inestimável aos seus superiores mili- tor, pelo seu orgulho, jamais se daria a conhecer. Sim, não se des-
tares . viaria num canhenho, mas, confiante e admirativo, assentaria à
— "Êle vencerá, não?" mesa, chamaria o servente e, numa linguagem universal de freguês,
Wilson me respondeu que os fatos um dia chegariam para nós exporia ao rapaz as exigências de seu apetite.
sabermos. Pelas costas,, ou defronte (não era êle que ocupava o lugar mais
baixo) examinaria, com nitidez de profissão, o quanto corroera no
rosto moreno o tempo e o fracasso.
Retardaria o almoço por um prazo de preguiça. Observaria,
Os sonhos que encenam atos de vingança contra humilhações bem visivelmente, sua atitude perante fregueses totalmente desconhe-
passadas são os que me ocorrera de olhos abertos. Agradeci a Wilson cidos. Até o chamaria, autoritário, para informar-se o Comandante
e ipedi-lhe que na gerência do hotel S... chamasse o n." 15. E me D... almoçava ali, àquelas horas. Oh! os cardápios lançara tais
desprendi dos gracejas com que rememorávamos os anos de Co-
associações no cérebro que, por respingo, não duvidava que alu-
légio .
disse ao Colégio, ao passado de ambos. Se Aliantor se vingaisse...
Na rua comecei a rir imaginando o bravo Aliantor a carregar
pratos em pilhas, sério. A dolorida maneira como seu corpo me Eu parava, molhado na garganta pela emoção, enxergando a
aparecia curvado. cena daquela vingança. E, Aliantor, meu caro Aliantor, poderia
Vi-me entrando no restaurante, transformado numa forte perso- desde então, eu, pensar em outras barreiras, de frente, e não me em-
nalidade, talvez jornalista enviado à entrevistar algum comandante. baraçar nessas cêrcas de arame que nos agacham, entre uma e outra
Não reconhecia o rapaz que me devia servir. Colocaria sôbre a região de nossa vida.
mesa um canhenho e, perdido em anotações, só levantaria o queixo
rapidamente para ordenar minha preferência por êste ou aquele 11-11-1945.

"Para trás, não conduz nenhum caminho, nem para o lobo, nem
para a criança. No princípio das coisas não há simplicidade nem
inocência; tudo o que foi criado, até o qu'e par&ce mais simples é
já culpável, já complexo, foi lançado ao sujo torvelinho do desenvol-
vimento e já não pode, não poderá nunca mais, nadar contra a cor-
rente. O caminho para a inocência, para o incriado, para Deus, não
se dirige para trás, mas sim para diante; não para o lobo ou a crian-
ça, mas cada vez mais para a culpa, cada vez unais fundamente den-
tro da encarnação humana". (Hermann Hesse).

EDIFÍCIO Página 6

2 3 10 11 13 14 15 16 17 lí 19 20 21 22 23
Cardinal! Cardinal!

Valdomiro AUTRAN DOURADO

(Discurso surrealista para José Augusto Pereira Zeka,


com gravata vermelha)

"O PREÇO DA LIBERDADE E' A ETERNA


Gala. "Minha Vida Secreta" não serve para donzelas. Em todo
VIGILÂNCIA". (Brigadeiro)
caso...
Desejava Breton uma arte sem super-ego, sem nenhuma cen-
CERTO é que nunca travei relações, pessoais com Salvador sura moral.
Dali. Tampouco corai ostras nos desertos de seus quadros Nas outras espécies de correntes artísticas (preciso consertar
em Miami. Mas, apesar disso, seus finos bigodes sempre me im- o meu relógio), a imaginação poética havia servido apenas de tin-
pressionaram. Também entraram pelas narinas a dentro do dr. tura" para que a obra de arte, principalmente a literatura, não se
Freud, fazendo-o espirrar essas palavras, que serão, posteriormen- transformasse em fastigioso documentário, mera análise, com algum
te, inscritas no monumento do cabotinismo universal (sem nenhu- elemento criador e de coisa vivida, de experiência racional enfim.
ma referência, é lógico) : "Nunca conheci um espécime espanhol Apegados ao controle da razão, do verossímil, procurava-se solu-
mais completo. Que homem fanático!" cionar o problema artístico, recorreudo-se mais ao elemento cria-
dor: Agora mesmo passou um cavalo voando sobre a cabeça de
Dali, portas abertas em paredes isoladas no deserto, sustenta- Guilherme Tell. A criação, ligada ao conhecimento, era um gran-
das por muletas!- de passo para que a arte conseguisse fugir, se libertar do concei-
O racionalismo que se iniciou no século passado, atravessan- to intelectual da vida e da realidade. Tudo isso obediente à ra-
do de muletas que o apoiavam, sob outras formas, o novo século, zão.
de encontro com a guerra de 1914 e com o estado de espírito dela Ora, do que o homem mais necessitava, no após-guerra de
resultante, daquela desordenada libertação pelo sexualismo, gerou, 1918, naquele "ambiente sexual de derroche", era de imaginação
sem dúvida, o surrealismo, com a fuga do inabitável mundo ra- poética. De imaginação poética como escafandro para descobri-
cional. Admirável construção plástica pressentindo a guerra ci- mento do inconsciente, naquela balburdia de relaxamento moral do
vil. 1936. homem europeu.
Tentar viver sufocado naquele ambiente de desordem era, de Telefone, em um prato com sardinhas, comida excelente,
fato, impossível. As contradições burguesas advindas de uma mento plástico diário.
guerra imperialista; a aurora retemperante da revolução proletá- Sem dúvida, a imaginação poética conseguiria escapar, em
ria; tudo isso não fazia nada mais do que refletir a instabilidade parte, da consciência, da experiência de vida racional. (Estou re-
do homem ocidental europeu. Marx, Engels e Lenine. petindo muiío a palavra racional). Fugindo à experiência banal
O homem eufórico e em busca de libertação, como se houves- de vida, não negavam os surrealistas a realidade. Chegavam
se há bem pouco descoberto o sexo, aceitou Freud — o mais mar- mesmo a dizer que "sem realidade não há vida". Mas, a realida-
cante característico da confusão existente. de era outra. O mundo do subconsciente, doS sonhos, dos acon-
Abaixo as preocupações morais! Que a razão não se intro- tecimentos intrapsíquicos. Ai sim é que deveria o artista buscar
meta! !: c material resultante do entrechoque de complexos instintos. O
Uma navalha corta o globo ocular da mulher, o material or- inconsciente daria de beber era suas águas a to~dos os sequiosos de
gânico começa a escorrer, sangrento, inundando tudo. (De um libertação.
filme de Dali). Medusa, Apoio e São Sebastião explicam bem, na paisagem
O homem havia se esquecido do inconsciente. A doutrina do onírica e terapêutica.
dr. Freud veiu esmerilhar. Sorriu, satisfeito de se haver desco- Ao contrário do abstracionismo, o surrealismo parte de for-
berto tão belo material. Viva o pansexualismo! Tratou de ar- mas inconscientes, procurando concretizá-las. 0 primeiro é mais
quivar os complexos, em metódico processo de aforamenfo, co- uma forma consciente de se separar do concreto, dêle Dartindo.
locando em ordem alfabética, data e despacho do sr. diretor. Toma, de início, a forma real, daí concebendo a "dissolução" do
Mas o inconsciente, simplesmente êle, não serviria de nada, a material.
uao ser enfadonho material de neuróticos, paranóicos e outros ca- Os seios de Gradiva avançam impetuosos e de seu ventre nas-
valheiros que tais. A humanidade estava na época da mecaniza- cem rosas.
ção. Havia, pois, necessidade de mecanizar o inconsciente. Au- O surrealismo libertou o homem pela imaginação poética,
tomatismo psíquico pela imaginação poética, não em borbolhões, precisamos levar isso em conta, ao analisarmos suas produções.
mas demoradamente, pelo cálculo e trabalho de pesquisa. Sob a Embora vendo os lados negativos, devemos reconhecer os ca-
aparência de combustão em transe dos elementos, havia o traba- minhos novos que abriu, longos estudos da vida psíquica, dando
lho frio, demorado. maior possibilidade de conhecimento da vida interior, observada
Asnos sob a tampa de um piano com cauda (outro filme de através de concepções que quebravam o desenvolvimento lógico e
Dali). o controle da razão .
* l
Breton aparece, então, com o manifesto surrealista, que revo- Aos seis anos, Dali queria ser cozinheiro. Aos sete, queria ser
lucionaria todo o mundo artístico (como todos os manifestos), Napoleão. Daí por diante, seus desejos foram aumentando. Eu
mostrando a saturação das idéias freudianas, a conclamar o artis- não quis ser nada disso, senão somente o grande Nabucodonosor.
ta à procura da "verdadeira função do cérebro, sem o controle da E' preciso avisar que não tenho nenhuma relação com a ima-
razão, fora das preocupações estéticas e morais". gem medionímica paranóica. Dali, também, não é culpado desse
E' incrível o número de quadros inspirados pelo olhar de artigo.

Página 7 EDIFÍCIO

13 14 15 16 17 18 19 20 21 22
O Natal de Gl oríana

QUEM pela rua passasse, veria Gloriana ctançaudu. Vanessa NETTO


Enquanto o edifício era velho e sujo e a hera murchava na
■ hostilidade das paredes, a silhueta leve surgia na última janela. Ela contornava a cozinha até o pequeno terraço e pelos vidros
E porque era feia, lúcida e sabiamente feia, ela dançava assim, de côr espiava a casa dentro. No azul tudo se encolhia, como
sempre assim, pelos quartos, loucamente, fazendo estremecer no num quadro esquecido, um momento passado; as flores espiavam
leto o abajur de papel crepom rosado com pedacinhos de espelho ouietamente; tudo era um só instante. Mas as coisas vibravam no
brilhantes. amarêlo estranhamente luminoso. Também o vestido de Clemên-
Quem passasse nas calçadas e nos bondes, veria Gloriana dan- cia era outro. Uma vez, pusera do lado de lá um espelho, onde seu
çando. Eram um grito de alegria impossível Gloriana e as flores rosto espiava azulado, como se refletido num poço profundo e tris-
de papel colorido pendidas da janela miserável. te. Ali, ela morria lentamente, para depois, sorrir numa onda de
Naquela tarde Gloriana se debruçou, espiando o avião que amarelo vivo.
passava,. e uma rosa vermelha despencou na calçada em baixo. À noite, Gloriana contemplava a cidade, até que os bondes ces-
Um homem levantou os olhos e ela se escondeu, sorrindo, morden- savam e tudo era um silêncio dolorido, um vácuo, uma porção de
do os lábios. pontinhos escuros nos seus olhos como o pêso de ura mau sonho.
Às vêzes pensava: nem sei porque mamãe ensinou Clemência O silêncio na noite era tão grande, apertava de tal modo os seus
a fazer flores, pois que ela jamais fará outra coisa. ouvidos, as suas mãos, que ela inclinava a cabeça e escorregava
Nunca soubera porque, mas na época do Natal, a irmã fazia numa dança, balouçava os braços a princípio pesados pela tristeza
lírios, as mãos apressadas, piscando os olhos; não compreendia, porém leves depois como os de uma pessoa livre, sem espelhos que
mesmo porque aquelas flores jamais sairam da casa e durante o denunciassem os cabelos curtos e sem côr, o nariz triste anulando
outro ano resistiam dolorosamente à poeira e aos mosquitos. o que poderia haver de vi.da em seu olhar.
Gloriana se afastou numa valsa: Já tao tarde, nas trevas, Gloriana revia as pessoas que passa-
— Clemência, porque não fazes rosas azuis? Às vêzes... ram nos bondes daquele dia, rostos melancólicos do ritmo monó-
— Não compreendo tuas coisas, Gloriana. Rosas azuis? Não há tono, mulheres de vestidos sem côr, ou de vestidos vermelhos, mas
rosas azuis. sempre muita gente que ia e vinha, e apesar de serem tantos e tan-
— Pois é, murmurou ela. tos, ela pensava neles como sendo eternamente os mesmos. E en-
Além disto, não compreendo porque danças tanto. Não há tão, que importância havia, se ela apenas os espiava da janela, e
motivos para alegria. Que é isto Gloriana? Não devias dançar, a vida continuava muito longe? Para ela eram as mesmas pessoas,
nada aconteceu. Toma, enrola esta pétala. na mesma luta; tôdas, pessoas que passavam num bonde.
Gloriana deixou-se despencar no banco. Nem sabia porque, Pela manhã, Clemência remexia os papéis, combinava as cOres
nem como dançava assim, num quarto tão cheio de coisas velhas. e resolvia qual a flor daquele dia.
E dançar sem música, com apenas aquela cadência seguida instin- Agora, que o Natal vinha próximo, eram os lírios e tôda a casa
tivamente, segurando seu vestido sem babados e sem flores. Ela rescendia estranhamente.
passava rapidamente em frente ao espelho como uma sombra. E Clemência se lembrava da tia e da mãe mortas, segurava um
a música continuava sempre, mesmo quando a tarde engulia a côr lírio de cabo comprido e tinha uma lágrima no canto dos olhos.
das flores nas janelas, e Clemência guardava a tesoura, rangendo — Ah! que admiráveis tinhorões fêz nossa mãe para a festa de
na penumbra as folhas de papel crepom. Mesmo no escuro, Glo- posse do novo governador. E' claro não podes lembrar, tiveste ca-
riana arrancava os sapatos e corria ao redor da mesa, porque sa- chumba naquela ocasião. Penso que jamais conseguirei fazer an-
bia de olhos vendados o lugar do armário amarelo e saltava sem- gélicas tão perfeitas: flores, botões entreabertos, botões fechados,
pre a alraofada de setim pintado que a irmã colocava no chão. pareciam de setim! E depois, que perfume!
Enrolava a pétala côr de sabonete e de repente viu como era Gloriana, vai até a esquina e vê o efeito desta coroa de cravinas.
tola, rodopiando enquanto as flores de Clemência permaneciam — Está tão perto do Natal — falou a outra.
tão abandonadas, nas janelas, num convite inútil. Mas ela nunca Clemência se agitou. Espiou em volta os vasos, piscou os olhos
parava, como se vivesse apertada de encomendas. preocupados.
— S i que andas plantando amores-perfeitos naqueles vasos da Gloriana atravessou a rua olhando o céu, enrolando nos dedos
copa — começou com irritação — acho isto horrível, Gloriana, quan- uma faixa de cabelo liso. Levantou o olhar até a janela, de onde
do sabes que minhas flores são inegualáveis. Dás aos outros a im- Clemência fazia sinais, chamando sua atenção para as cravinas.
pressão de que reprovas minha profissão. Devias saber que nossa --- Aquela é minha irmã Clemência, a florista.
mãe foi uma famosa florista. Era pequenina naquele tempo, mas Pensou e riu.
se pudesses ver o entêrro de nossa tia, que lírios! Trabalho dela, Esqueceu a outra, só via cores imóveis, pedaços que juntos in-
de nossa mãe. Não vejo razão para teres flores plantadas nos sultavam a péssima aparência do edifício. Queria atirar lá de cima
vasos. Àlém disso, murcham e perdem o perfume, ao passo que aquelas côres que se apertavam sem espaço.
minha essência... E de novo sem saber da música veio-lhe a vontade de dançar
Gloriana contemplava os ramos de flor de pessegueiro. Ela muito. De não sei mais que um ritmo, uma alegria, uma prova
desejava flores úmidas como a beira de um rio, flores que espa- de vida.
lhassem sol, perfume de terra molhada.
Apenas rodar, até que as coisas passassem por seus olhos, in-
Levantou-se, pensando que Clemência era tão mais bonita que distintas, alegres côres, sem forma, e a rua se derramasse larga, as
ela, o nariz menor, os olhos azuis. Talvez por isto suas rosas saiam
tao comportadas, certas, enquanto que ela, jamais conseguira uma pessoas, Clemência, velozes como pássaros. Ela própria, como um
fôlha lisa; diante das flores amassadas, poucas aliás, que tentara vento misturando e revolvendo aqueles pedaços sacrificados e colo-
fazer, tivera sempre a mesma impressão de haver reproduzido seu ridos'. O mundo passaria a ser nada mais que suas voltas, sua
rosto sem harmonia e sem riqueza. dança, e todo o resto, o quarto, o copo dourado escrito "Lembran-
A voz de Clemência apanhou-a no caminho: ça", os lírios dissolvidos como passado, como coisas mortas.
Não importai a que fôsse feia, era leve, era música e ninguém
Gloriana, vou mandar trocar os vidros coloridos desta ja-
nela, para que não fiques aí parada, enquanto trabalho. percebia suas feições vulgares.

EDIFÍCIO Página 8

13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
• ■ ' .■ j1
■■■
Mas Clemência berrou indignada. Atravessou a rua, subiu as Quando bateram à porta, Gloriana se debruçou tanto na ja-
escadas e se precipitou na sala. nela, que teve mêdo de despencar na calçada.
— Gloriana, tu és louca — gritou a outra. O que viste na rua? Clemência entrava, as violetas na mão.
— Suas flores -— Gloriana sorriu. ■— Isto é demais, Gloriana. E' demais. Receberes flores quan-
No Natal, Clemência contou cento e cinqüenta lírios. do todos sabem que tens a casa cheia delas. E muito mais boni-
Guardou na mala os restos de papel e pôs um vestido de gase tas, cores mais vivas; nem parecem flores, são como doces. Não
ciclame, com babados na barra. De vez em quando acertava ura sei, tudo foge à minha compreensão. Anda daí, Gloriana. Não
lírio nas jarras. sei porque sorris. Estás amando com certeza. Não há motivo para
Gloriana sacudiu o elefante vermelho, um cofre tirado numa estares feliz. Só porque recebes flores de qualquer um. Nem ou-
barraquinha, e os níqueis cairam na cama. tras flores estremecem nas jarras como estas.
Desceu as escadas e atravessou muitas ruas. Cedia passagem Olha esta rosa. Esta pétala, que beleza, que perfeição! E aque-
às pessoas apressadas, e que sorriam porque era Natal, todos de- las? São misteriosas, são pássaros!
viam sorrir muito e ninguém se importava de carregar embrulhos. Clemência apertou os olhos. Atirou as flores na mesa e desa-
Gloriana apertava o dinheiro nas mãos. pareceu na outra porta, carregando seu vestido ciclame, tremulante
Entrou na casa de flores. e leve como uma bandeira.
Comprou violetas, dando o seu endereço ao empregado sorri- Mas Gloriana queria estar como todos, inteiramente parte do
dente, uma espécie de obrigação de ser feliz. Natal luminoso.
Esperou em casa, dando voltas, muito séria. Jogou-se no divã, apertando as flores, rindo.

"Bemaventurados os que livraram do desespêro um coração de


criança", (liernanos).

"Souffrir passe; avoir souffert ne passe jamais". {Léon Bloy).

Em certos estados das coisas de minha vida, o trabalho da poe-


sia constituiu uma maneira de me separar do mundo". (Paul
Valery).

Página 9 EDIFÍCIO

rr
#
cm 12 3 10 11 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
A c a s a

EU já não sou dono de minha infância. Mas ela ai está, viva


na memória, doendo em cada canto dêste casarão assombra- Ofto LARA RESENDE
do. Parece que a vivi apenas sem função de minha vida presente,
que agora não é senão a inserção obsedante e violenta de um tempo
que já se foi nos dias que suporto com estranha submissão.
Alguma coisa me amarra a êste delírio manso em que me en- vel. Mas o passado se abateu sôbre mim e me sinto imobilizado,
contro, atirando-me sem cessar à análise exaustiva de mim mes- encrustado nesta melancolia lenta que me amarra doir.inadoramen-
mo. Às vêzes, acho que seria possível libertar-me, mas sou frá- le a um sentimento de tédio e desencanto, de abandono e cansaço.
gil demais para resistir a êsse mergulho emocional em uma rea-
lidade sombria, que dificulta meus passos e me impossibilita por
completo na impossibilidade da vida cotidiana. Busco e rebusco A VOZ familiar de dona Augusta me chama à realidade e é
incessantemente os pormenores mais dolorosos, nessa contempla- preciso que eu atenda ao seu chamado para o almoço. Per-
ção doentia que estranhamente me consola de meu cansaço. E' cebo que ela está estranhando o meu procedimento, assim pregui-
impossível fugir à onda doce que me invade e me aniquila, esta- çosamente em casa, absolutamente longe de tudo e de todos. Mas
gnado diante do lodo escuro de minha vida, como se eu próprio nada diz, pois certamente adivinha a agressividade que escondo
amasse essa ginástica da infelicidade a que me entrego tão por atrás de minha atitude. Sinto-a constrangida, falsamente solícita,
inteiro. respeitando em mim o patrão que represento para ela.
O passado me envolve como névoa, me inebria da irrealidade, Meu pai cedeu a casa a dona Augusta e ela aqui se mstalou
banhando-me em distância e ausência, forçando-me a êsse nevoei- com tôda sua família. De certo modo, isso me desgosta, pois
ro em que eu não enxergo senão a mim mesmo, o meu próprio preferiria a solidão inteira de tôda a casa, e não apenas esta ala
passado. sombria que passei a ocupar. No outro lado, a casa não é a
Talvez tudo se dê assim tão obsecadamente porque estou exa- mesma de antigamente. Foi violada pela família de dona Au-
tamente em Morro Alto. Não sei como vira parar aqui. Jamais gusta, que não deixou de lhe modificar o aspecto grave que meu
passara pela minha cabeça essa idéia de retornar ao lugar onde pai sempre fez questão dé conservar com tanto carinho. Em todo
nasci. Nada me prende a êle, nenhum laço forte de afeição per- caso, reconheço nestas peças amplas e sombrias os locais onde se
maneceu. Sei perfeitamente que a cidade se modificou, já é outra, passou minha infância. Até quase todos os móveis são os mes-
outras são as pessoas. Tudo se perdeu com o tempo, a vida me mos e guardam a mesma gravidade silenciosa e solene d«. outros
afastou daquilo a que algum dia estive apegado. Sei que aqui tempos.
me sinto mais só. Posso tocar a-extensão concreta de minha so- A casa ficou mais velha, ganhou êsse ar de coisa abandonada
lidão Mas nem isso me satisfaz. e esquecida que não é perturbada por vida humana. Examino ne-
Sei apenas que não era possível continuar onde estava. Uma la os mínimos detalhes para encontrar o correspondente no passa-
fuga se impunha imperativamente e foi essa imposição que me do. Os trincós funcionam cora dificuldade, as portas rangem pe-
atirou para frente, que acabou dando comigo em Morro Alto. Na sadamente. Há janelas emperradas, falta de vidros aqui e ali. O
verdade, não alimentava nenhum plano sôbre o destino a tomar. assoalho estala sob os meus passos, como se tivesse se desacos-
Era preciso somente partir, pouco importa para onde, abandonar tumado dos pés que tanto o pisaram antigamente. Frequéhtemen-
o simulacro de família em que vivia, sufocado por mil e uma li- te, ruídos soltos se despencam no ar parado, quebrando o silêncio
mitações que me impediam dolorosamente o domínio pleno de por um instante. A casa mergulhou numa sonolência paralisada,
mim mesmo. A sensação de abafamento me era insuportável, to- quase sufocante, mas esquisitamente acolhedora.
lerá-la seria uma covardia. Senti que algo misterioso me atraia Novamente a voz de dona Augusta me chama, agora mais lon-
para outros caminhos, algo me empurrava para uma aventura a gínqua, como se tivesse certeza de que caminhar até a porta do
que não me poderia recusar. De-repente, tudo perdeu o, sentido quarto seria perder tempo. O chamado me irrita momentânea-
para mim, se esvaziou de realidade essencial, e eu senti subir mente, pois detesto que me gritem pelo nome.- Mesmo irritado, é
não sei de que mundo um apêlo irresistível. Não fiz mais que preciso ir, é preciso mostrar que não sou um maníaco que dis-
obedecer a essa fôrça acima de minhas forças. pensa o almoço, mas, pelo contrário, necessito fazer tudo o que
Mas não posso compreender porque Morro Alto se impôs di- êles fazem, como êles fazem.
ante de mim. Sem pensar, embarquei. Sei que aqui não está
a vida que me espera. Sei que aqui nenhuma aventura é possi- (Fragmento de Distância", novela)

Nao se pode ■,
v encerrar uim homem nos seus atos, nem nas ■ suas
obras; nem mesmo nos seus pensamentos, pois sabemos, poi expe
... própria
nenciai . . e continua
. que nao. e, nosso aquno nue
u pensamos e
fazemos a cada instante; mas ora um pouco mais, ora um pouco me-
nos, ou muito menos do que podemos esperai de nos . au
Valery).

EDIFÍCIO Página 10

#
cm 1 2 3 4 5 6 7 9 10 11 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
Crisálida

Lucy TEIXEIRA
DOZE anos. Fôra-se a despreocupada alegria. Cristina achava
horrível isso de não ser criança nem gente grande. Positi-
vamente desamparada. E, cada manhã, se sentia outra criatura menino? Mandava tudo pra caixa prego! Ia ao cinema sozinha,
como se uma vasta coleção de Cristinas fôsse desfilando dentro dela. ficaria na rua até tarde e ninguém viesse contar vantagem pra cima
Tôdas, porém, mal acabadas, incompletas. Em compensação, a ti- dela. isso sim! Infeliz! Infeliz e desamparada! Santo Deus!
midez, essa marca de sensibilidade potencial*aperfeiçoava-se ago- Por que então aquilo não parava de crescer? Ou então por que não
ra. Podia-se compará-la a hera que rastejando encontra o muro, virava logo moça duma vez? Ser como a prima Antonieta: tôda
agarra-se, sobe, estende-se e o envolve. Assim, aquele nariz terri- cheia de corpo, tôda harmoniosa. Os moços olhavam pra ela dum
velmente arrebitado nada significava no que se pretendia afirmar jeito tão diferente... A prima parecia gostar. Quando virasse
de insolência ou abelhudice. Não passava de "blague" da na- moça queria ser como a Antonieta.
tureza. O diacho é que, com os outros, ninguém reparava; a tia Fer-
nanda, a dona Letícia então... Só porque ela estava crescendo
Quando a criança diminui a gente cresce. Eis a verdade. A achavam de ficar assim plantado, grelando. Se pudesse, virava
regra é perder a criança para o alargamento do espírito e prepara- fumaça nessa hora."
ção à dor. Que as pernas de Cristina, pois, se alonguem e que o Cristina cabeceou. O livro se lhe figurava voar pela janela.
corpo desengonce pela extensão dos membros. Quando o sono firmou-se sonhou que era fumaça subindo pro céu.

Usava uns vestidinhos estampados que sempre ficavam desajei- Recreio. À ordem de debandar os meninos corriam disputan-
ladíssimos. Mas isso não a preocupava. 0 que a fazia sofrer eba do os balouços. Dora e Júlia-avançavam para a mesa de pingue-
aquilo aparecendo. Esforçava-se a todo o custo para esconder. pongue. Cristina vinha atrás, sozinha. Há muito não jogava, em-
Quando ia para a escola carregava a bolsa contra o peito num abra- bora morresse de vontade. Sentava-se num banco a desenrolar va-
ço forçado. As colegas indagavam: garosamente a merenda. Pão com goiabada. Comia devagarinho,
— Cristina, que jeito é êsse de segurar a pasta? abrindo e fechando a bôea, alheada do mundo. Às vêzes, o in-
Poi q Dr. Braga que me recomendou — mentia tropeçando lerêsse pelo jôgo a dominava. Então, a cabeça não tinha descanso;
nas palavras — que a gente fica torta levando a pasta só dum lado. acompanhava o ir e vir da bola — teque teque, teque teque. Es-
Sabe, é porque estou crescendo... quecia a merenda, o rosto adquiria tal arrebatamento que os om-
As companheiras se entreolhavam relutantes. Não enguliam bros, sem que ela percebesse, voltavam espontaneamente ao natural.
a desculpa. Cristina percebendo o "risco" cuidava de rechear o — Que saque formidável, Dorinha! Quanto está?
silêncio. — Oito a seis. Não fala agora! E' a "negra"!
Dona Letícia marcou uma lição do tamanho dum bonde!
Cristina abria mais os olhos pequenos e verdes. Tinha a ca-
Vocês já viram? Guerra do Paraguai não se aprende só assim! Pre- beça como pêndulo. Ritmo infalível. Direita, esquerda, direita,
cisamos reelgmar. esquerda. A bolinha branca saltitava incessante, surrada pela ra-
— Deixa de ser tola, . Cristina — atalhava Rosinha. Com Dona quete. 0 peito de Cristina subia e descia como onda atormenta-
Letícia ninguém pode. E' uma fera! A gente decora ou deserta! da. A respiração era curta, rápida. E os seios (a razão de suas
Cristina se via salva. Graças a Deus desviara o perigo . desventuras), os seios despontavam livres sôbre a carne lisa do
Aquêle assunto de pasta a horrorizava. Perdia o fôlego. Porque busto. Vinham como frutos de duas sementes iguais, irrompendo
não queria que notassem. Tinha uma vergonha incrível. Tremia na pele., idreandõ-se, firmando-.se irreverentes e claros. Agora, fi-
só a ura olhar mais demorado. Em casa, curvava os ombros e as cavam. tumescentes e rijos quase a romper a blusa, Como flores
clavículas salientes pela posição forçada. que ameaçassem desabrochar simètricamente em quatro pétalas.
— Desce os ombros, Cristina! - a mãe gritava — que mania Doia. A vida, com certeza, latejava ali. Mas logo no pátio a. si-
é essa de andar tôda encolhida? Por detrás é ver um caramujo en- neta batia e ela se levantava atontada.
roscado! ]7m forma! — grilava a vigilante Eudóxia a bater palmas
Cristina automàticamente obedecia. Mas, daí a pouco, estava pelos corredores. As meninas enfileiravara-se risonhas e barulhen-
de novo procurando disfarçar. tas. Cristina, porém, não se alegrava; era uma ilha que tragicamen-
À noite, ao estudar as lições, ficava muito sofrida por causa te se isolara. Durante o resto da aula não compreendia mais nada.
daquela martelagem do pensamento. O teque teque do pingue-pongue sobrepunha-se às .explicações de
"Por que aquilo havia de nascer logo agora? Agora que iam
dona Letícia. Cada palavra que ela dizia parecia sair da bôea
passar as férias na praia, agora que Rosinha, Dora e Júlia tinham em forma de bolinha branca. A cabeça doia muito. Dentro, havia
organizado o time de vôlei, agora... Deus! Como usar maiô?. Na
de ter uma bol.a de pingue-pongue. Sem sossêgo. Teque, teque,
certa notariam. Iam dizer gracinhas, mexer com ela, atentar. As teque. . . teque. . .
blusas já estavam apertando. E, cada dia, êles ficavam maiores...
Era ver a hora dos vestidos romperem. Que horroí !
/]Síão sg gsqugÇcI de tomíir leite, menina a mae passava pia Naquela tarde, à saída, Rosinha segredou-lhe, ao portão;
rezar. E so fique até às nove. Não sei onde vai parar com .essa — Cristina, quero falar contigo.
Que é? e comprimiu ligeiramente a bolsa sôbre o peito.
magreza!
— Não nota que estou crescendo feito bananeira? — arriscava. Olha, tu não sabes, o Marcelo, aquêle de testa larga que
A senhora vê pelos meus vestidos: tudo curto. E preciso ir até às senta do meu lado?
dez, mamãe. Tenho prova amanhã. — Sei sim, que tem êle? — indagou sem qualquer juízo.
Êle me disse... bem — e fingiu hesitar procurando des-
— Não senhora, só até às nove.
— Mas mamãe, dona Letícia... pertar curiosidade.
-— Dona Letícia nada. Nove horas. Já disse. — Que disse êle? — perguntou já afobada. E' sôbre minha
Cristina emburrava. Metia o rosto no livro. As letras fu- pessoa?
giam. Lia o pensamento que êle não a descansava. — Naturalmente. Se fôsse sôbre a velha Eudóxia eu vinha te
"Infeliz! Muito infénz que ela era! Por que não tinha nascido procurar? — Rosinha tinha um jeito brusco; era sempre muito des-

ED1FÍCIO
Página 11

ii|iiii|ir^^^P
2 3 4 5 6 7 9 10 11 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22
pachada. Cristina invejava a amiga. Mas logo se consolava. "Ela olhar de Marcelo. Tinha mudado de côr não sei quantas vêzes.
é mais nova do que eu. Quero ver quando tiver doze anos. Vai No caderno, o mar que ela coloria, transbordava, ameaçando in-
ficar asúm... Também é tão entanguida... " vadir uma terra pintada de marrom.
— Escuta, tu agora deste pra andar apatetada. 0 Marcelo raan- De repente, algo caiu em sua carteira. Apanhou disfarçada-
Oou perguntar se tu queres namorar com êle. mente. Era um pequeno envelope branco. Quis abri-lo. Não teve
— O quê?! Èle está ficando maluco? coragem. Pôs o envelope dentro dum livro. Marcelo a observava
— Parece que estou falando de coisa do outro mundo — mas mais que nunca; tinha agora um riso desconfiado. Cristina fêz
Cristina fez-se séria e a amiga puxou-a pelo braço. como quem mergulha a cabeça no mar imaginário, e bem desejou
— Vem cá. Debaixo daquela árvore a gente conversa melhor. que fôsse água de verdade.
Que sol mais danado!
— Conta logo. Aliás, isso não me interessa. (Estava mentindo). Dentro do envelope havia dois corações de cartolina. Uma
— Se não te interessa por que queres saber? seta os traspassavaj Num, estava escrito eu com tinta verde.
— E' se quiser contar. Se vens me amolar vou andando. Noutro, tu com tinta azul. Havia também um bilhete em letra in-
— Cristina, deixa de ser trouxa. Olha, vou te dizer o que certa e grossa:
Marcelo conversou. Foi assim: (Cristina fitava a bôca da amiga e
via os lábios de Marcelo a se moverem) disse, que na nossa clas- "Cristina, ■
se só tem pirralhada, que êle tem treze anos e meio, que não vai
namorar criança, que a Dora. é engraçadinha mas muito faladeira e se você aceita (aceita vinha escrito com s) o meu amor
que tu... a voz baixou de tom — és o tipo dêle... Bem, está dado me dê amanhã o seu coração. Se não quer me
o recado. Acho que não deves perder esta "chance". (Rosinha or- volte o meu.
gulhava-se de falar um "chance" americanizado). Marcelo é bamba
cm matemática. Além disso, tem máquina de retrato e um riso Marcelo."
lindo, Eu só não namoro com êle porque sei que me acha pirralha.
"Bamba em matemática, máquina de retrato, riso lindo" — À noite, Cristina pôs o envelope debaixo do travesseiro. Não
soavam como sinos em torres que para o céu se erguiam desa- tinha sossêgo. Daí a pouco tornou a tirá-lo. Colocou-o sôbre o
fiantes e móveis... Mas, foi como se clelirasse. Logo tornou, coração. Sentiu um pêso enorme. Os seios pareciam perdidos sob
assustada com a ousadia do pensamento. a camisola de laçarotes. .Fechou os olhos mansamente. Marcelo
— Está doida, Rosinha? Se mamãe soubesse eu morria de era o bamba em matemática. As outras eram pirralhas. Aos pou-
apanhar! cos, um riso alcançou a bôca de Cristina. Dormiu.
— E quem disse que ela vai saber? Só se tu disseres!
— Deus me livre! — "Bamba em matemática, riso lindo..." — Escola-Modêlo "Duque de Caxias". Algazarra geral no portão
soavam agora os sinos como em festa de largo, um largo imenso, de saída. Marcelo esperava na ponta da calçada, disfarçando. Ro-
com bandeirolas, carrocéis e lanternas multicores. sinha e Cristina, juntas se aproximavam. A primeira cochichou de
— Mas eu não sei namorar. repente:
— E' mesmo trouxa! Ninguém me ensinou e eu sei. Escuta, — Emrega agora. Fico espiando dali.
amanhã na certa êle vai te olhar (Cristina apertou a bolsa no seio Cristina, num passinho de boneca, distanciou-se da amiga.
em antecipada defesa). Tu olha também. Pronto. Se êle rir, Marcelo aguardava ansioso. Quando ela passou mais perto, mur-
ri também. murou :
— Mas Rosinha, se êle vier falar... — Cristina...
— Fala! Ela deixou cair qualquer coisa. Marcelo abaixou-se. Era o
—- Não, Rosinha, não quero. Meu Deus, amanhã vai ser hor- coração que êle queria. Suas mãos tremiam, frias e assustadas.
rível encontrar cora êle. — Cristina...
— Até amanhã, tola. Quando estiveres "posando" não te es- Esta voltou-se já no fim da calçada e, ao encontrar o "riso lin-
queças de me reservar uma chapa. do", inexplicavelmente a bolsa lhe foi escorregando das mãos...
E Rosinha, acenando irônica, saiu a correr. Cristina ficou um Mas, em vez de envergonhar-se como sempre, pareceu não perce-
instante a olhá-la. "Como que ela é sabida!" — pensou. Cuidou ber, porque Marcelo... bem, Marcelo olhava o nariz arrebitado, de-
porém de andar. Estava atrasada. pois ficava preso à blusa bnancai e, agora, voltava ao nariz que se
erguia triunfalmente vitorioso.
Aula de desenho. 'Cristina pintava de azul ura mar imaginário Como se ambos se adivinhassem, com a naturalidade que dá o
a se estender na folha branca do caderno. Desde o início conser- velho hábito se foram a andar, um ao lado do outro. Cristina ia
vara-se calada, cabeça baix;». Rosinhla, por duas vêzes a chamara, num passo harmonioso, tinha o busto ereto e o queixo levantado.
com desculpa de pedir emprestado a borracha. Sem se virar ela E foi ao atravessarem a larga avenida que ela perguntou:
estendia o braço para trás. Sabia que Rosinha se danava c/ora — Marcelo, você acha que -eu pareço caramujo enroscado?
isso. Queria que ela olhasse. Não podia. Estava sentindo o — Ora Cristina... que idéia! Nunca! Você ,é linda!

* •

"O amor contém em si o princípio da sua dissolução. Apenas se


retoma a nossa unidade, o nosso eu, a nossa liberdade, mesmo que
seja só por um dia, sente-se que a vida compartilhada- só e pioviso-
ria, episódica, passageira, e que o amor acabará. A amizade nada
tem de semelhante, porque não tem ilusões no ponto de pai tida e ja-
mais sonhou cora a identificação das vontades e dos destinos .
(Amiel).

EDIFÍCIO Página 12

14
tí T~i • ' | • "
tipisodio

Fernando SAB1NO
"IVTO DIA 4 de setembro Jaques Olivério chegou ao hotel onde
' morava pouco depois de duas horas da manhã. Era um
hotel que era última análise em nada diferia dos de sua espécie ou alto, despertando num quarto vizinho. Escutou ainda um baque
da redondeza. Um hotel como os outros — e fôra mesmo essa ob- surdo, e depois mais nada, o silêncio.
servação que o fizera optar por aquele, o primeiro que lhe caira Debruçou-se febrilmente na sacada e olhou para baixo. A prin-
sob os olhos no caminho da estação para a cidade, quando ura ano cípio nada viu senão uma forma escura sôbre a calçada, os ferros
antes se mudara para o Rio. Nunca se detivera muito em pesar ua marquise que circundava o hotel amassados e retorcidos na-
as qualidades ou defeitos do hotel; viera para ali pensando em mu- quele lugar. Seu coração disparava, não conseguia pensar orde-
dar-se tão logo se arranjasse de alguma maneira na nova vida que nadamente, apenas se inclinava mais, tentando ver. O seu quarto
iria levar. Mas o modesto emprego que conseguiu inicialmente era era situado no terceiro andar, e a rua apenas um beco imundo e
o mesmo até agora, de auxiliar da revisão num jornal, e não lhe pouquíssimo iluminado que fazia esquina com a rua do hotel. Cada
havia servido como oportunidade para galgar postos mais elevados, vez via menos, a idéia agora se repetia maquinalmente na sua ca-
como a princípio imaginara. Era preciso ceder lugar aos mais beça sem despertar-lhe nenhuma reação; "alguém caiu lá de cima",
novos — justamente nisso vinha pensando naquela como em outras "alguém caiu lá de cima". Olhou para o alto, viu que no quarto
noites, de volta do serviço, enquanto ganhava a Lapa, cruzava os diretamente superior ao seu a luz estava acesa, a veneziana ainda
Arcos e percorria" longamente a pé a avenida Mem de Sá até atin- oscilava de leve, como se alguém a tivesse sacudido pouco antes.
gir o hotel. Às vêzes, quando regressava mais cedo, acontecia se Nem um minuto havia passado, e no entanto lhe parecia haver já
deter num bar para beber qualquer coisa, sem nenhuma pressa, decorrido horas desde que aquela coisa gritantemente vermelha pas-
justamente para matar o tempo e aguardar o sono, que o hábito sara como um raio diante de seus olhos, a voz do homem gritando
forçado de só dormir pouco antes de nascer o dia acabara pre- "que barulho, meu Deus" —- e agora aquêle silêncio.
judicando. Tornou a olhar para a rua. Mas seria mesmo "alguém"? —-
Dessa vez, porém, se recolhera mais cedo que de costume — pensava então. Contemplou as janelas das escuras casas em fren-
só o notou quando, já no quarto, dava corda ao relógio e o colo- te, sinistramente fechadas, cora as do próprio hotel, o silêncio cada
cava sôbre o criado-mudo. Chegou a pensar em sair novamente, vez mais angustiante, pesando como uma atmosfera dissolvente de
mas de súbito um tédio de tudo, de todos os gestos, dos pensamen- fatalidade ao redor de si.
tos mais simples, o assaltou de maneira impiedosa. Despiu-se com- A música distante já não se fazia ouvir, agora o que lhe che-
pletamente, ia vestir o pijama, mas mudou de idéia e estendeu-se gavam eram passos na noite, vindos de longe, cada vez mais ní-
na cama assim mesmo nu, pondo-se a pensar; "Um ano já se pas- tidos, cadeneiados. Seus sentidos se dilataram, tentando distin-
sou e até hoje não consegui esquecer. Nunca esquecerei, hei de' guir quem seria aquêle que viria agora, por onde êle viria. Em
querer sempre voltar. O jeito seria acabar comigo de uma vez, pouco um vulto assomou na outra esquina do beco, afravessou-o
acabar com isso, seria o jeito." Â força de repisá-las, tôdas as diagonalmente, ganhou a calçada do hotel. Ao "passa, .,.,h o globo
noites, sentia-se já cansado dessas e de outras idéias fragmentadas cie luz pôde vê-lo, era um rapaz, caminhava de mãos nos bolsos, as-
que agora lhe acudiam. Estendeu o braço e apagou a luz. "Se ao sobiando baixinho. Aproximava-se cada vez mais do volume
menos alguma coisa acontecesse! Alguma coisa de diferente, de curo sob o chão, Jaques sustinha a respiração na sacada, assns-
único, que eu não vejo todos os dias. Mas não. No máximo pode- Uido, ansioso. Súbito o assobio se deteve em meio, os passos tam-
rei estar aqui amanhã, nestó mesma posição". bém se detiveram — o rapaz olhava com surpreza hesitante o vulto
Passou a mão pelo peito magro, olhou para a^pequenina sacada estendido a poucos metros, receoso de chegar-se mais. Tudo es-
por onde uma lua meio oculta entre nuvens repontava, num dos curo, quase não se podia ver. Ganhou coragem, deu mais alguns
ângulos, projetando uma claridade fraca e informe pelo chão do passos, curvou-se, riscou um fósforo. Na repentina claridade os-
quarto. "Se há uma coisa besta nesse mundo, essa coisa é a lua", cilante da chama, como o rapaz, pôde Jaques da janela distinguir
pensou. De longe lhe chegava aos ouvidos o som de "blues" to- um vestido vermelho violentamente arregaçado, duas pernas bran-
cados em algum cabaret. Sentiu apossar-se dêle um ódio irrepri- cas estendidas, parte do corpo que sua vista alcançava por sôbre a
mível da vida, dos homens. "Dançam em cabarets, tocam música, marquesa caído de bruços entre o meio-fio e a sargeta... A chama
fazem sonetos à lua, amam, brincam, se divertem, e eu aqui sem se extinguiu logo, o rapaz olhava para um lado e para outro, deses-
fazer nada". Sob a mão espalmada no peito nu, a aspereza dos perado, sem saber o que fazer •— não vendo ninguém disparou a
pêlos lhe dava a impressão de estar tocando o corpo de outra pes- correr, desaparecendo na esquina. Jaques sentia o corpo tremer,
soa. Ergueu a cabeça e olhou na penumbra para as próprias per- as temperas latejando, não lhe ocorria nenhuma idéia. Era uma
nas estendidas, a ponta dos pés voltadas para cima. De repente, mulher! Uma mulher caira lá de cima, via nitidamente agora parte
sem o mínimo propósito, e sem que êle esperasse, lhe vera uma do seu corpo, o vestido suspenso, as pernas estendidas... Teve a
percepção múltipla e violenta da morte. impressão de que uma delas se mexia, julgou haver-se enganado.
"A morte, a morte física, a vida sé esvaindo, apagando-se agora, Mas agora também a outra perna, parecia que se encolhera total-
neste instante", pensou. "Nada mais rfestando senão a própria mor- mente... Então ela estava viva!
te, se prolongando na vibração do vazio completado". Não sabe Quanto tempo estaria ali olhando? 0 que era preciso fazer?
porque lhe veio êsse pensamento, sente tudo quieto, parado ao redor Não sabia, não sabia nada, olhava apenas, ainda sem compreender.
ne si, como se tivesse surpreendido o tempo num instante de tran- Estranhou pela primeira vez ninguém mais ter visto senão êle, nin-
sição, expondo a nu a inútil realidade das coisas, numa vida que guém ter aparecido em outras janelas. Uma mulher caira lá de
já não lhe oferecia sentido algum. A sensação de mal-estar que lhe cima, e ninguém aparecia. Lá de cima, do quarto andar de sú-
veio em seguida é tão penosa e insuportável que se levanta para bito se impôs à sua mente perplexa a necessidade urgente de fazer
sacudir o torpor, caminha assim mesmo despido até a janela. Nesse alguma coisa, de avisar, chamar os outros. Voltou-se, ia saindo
mesmo momento, sem que um segundo houvesse decorrido, alguma do quarto, só então se lembrou de que estava completamente des-
coisa vermelha e informe, como um saco, passa vertiginosamente a pido. Vestiu apressadamente uma capa de chuva sôbre o corpo,
menos de dois metros de seu rosto, ouve-se o ruído violento de uma ganhou o corredor, precipitou-se até o telefone. O porteiro do
pancada em ferros e latas. "Meus Deus, que barulho", alguém falou hotel o atendeu com voz sonolenta.

Página 13 EDIFÍCIO

14 19 20 21 22
— Uma mulher caiu lá de cima, do quarto andar! Corra lá brotados da terra àquela hora da madrugada, em breve uma peque-
fora! na multidão se comprimia ao redor do corpo. O guarda se afastou
— Aonde? 0 que? — perguntou o homem, espantado, já com- correndo, ouvia-se um perguntar incessante de janela à janelà, al-
pletamente desperto. guém a seu lado explicava:
— Eu bem ouvi um barulho, quando o corpo bateu na coberta.
— Caiu lá de cima! Aí fora, no beco. A ambulância que o guarda fôra chamar chegou logo, em dis-
Repôs o fone no gancho, voltou correndo para a sacada, es- parada, dois enfermeiros de branco abriram caminho, recolheram
perando angustiadamente o porteiro aparecer na esquina. "Vai ver cuidadosamente a mulher, e se foram de novo, como chegaram.
que o imbecil..." Nem teve tempo de pensar: o porteiro surgira Comentários partiam ainda de um e de outro lado, agora mais es-
a correr, da outra esquina apontara como por encanto um guarda- paçados, as janelas começaram a se fechar. Lá na rua o povo se
civil também a correr. Agora janelas se abriam no hotel e nas afastava, aos grupos de dois e três, conversando.
casas fronteiras, luzes se acendiam aqui e ali ao longo do beco, Dentro em pouco tudo serenava, como se nada houvesse acon-
caras sonolentas assomavam. Das esquinas surgiam curiosos como tecido .

"A qualquer momento que nos a consideremos, nossa alima total


não tem senão um valor quase fictício, a despeito do numeroso ba-
lanço de .suas riquezas, pois tanto umas quanto as outras são indis-
poníveis... Pois ás perturbações da memória são ligadas as intermi-
tências do coração. E' sem, dúvida a existência do nosso corpo, se-
melhante, para nós, a um vaso onde nossa espiritualidade estaria
fechada, que nos induz a supor que todas as nossias dôres, estão em
nossa possessão perpetuaraente.
E' possível que seja igualmente inexato acreditar que se esca-
pam ou reaparecem. Em todo caso, se elas quedam em nós, é, na
maior parte, das vezes, num domínio desconhecido, onde elas não são
de nenhum proveito, para nós e onde as mais usuais mesmo, são re-
calcadas pelas recordações de ordem diferente, que excluem tôda
simultaneidade com elas na consciência". ( Proust).

EDIFÍCIO Página 14

#
2 3 4 5 6 7 9 10 11 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
"E agora, José?"

"A ARTE É EM LUXO"

Começamos uma série de enquetes


com rapazes novos de Minas que ten-
tam fazer literatura na medida do pos- Enfrevisia com Paulo MENDES CAMPOS
sível.' O primeiro escolhido foi Paulo
Mendes Campos. Não vai na escolha ne-
nhuma razão de hierarquia cronológica fabricação em série de novos Éricos Veríssimos. Como se sabe,
ou de qualquer outra espécie. Apenas, as lei de oferta e procura regem também a produção literária. Lem-
tendo deixado Belo Horizonte, mudan- bro que conversei longamente com Mário de Andrade a ôsse res-
do-se para o Rio, e aproveitando sua es- peito. Apoiei-o ardorosamente no repúdio à cultura americana e
tada- nesisa capital quando justamente francamente no namoro com a cultura fraiicêsa.
"EDIFÍCIO" nascia numa noite inespe- Pessoalmente, eu gostaria de estudar a cultura russa. E' uma
rada, resolvemos iniciar com êle. experiência de que podem resultar finalidades um pouco mais obje-
Paulo Mendes Campos é rapaz mais ou tivas que o intelectualismo francês e um pouco menos "saudáveis"
menos despenteado, pequeno de estatu- do que o dinamismo ianque. Estamos falando de influência da cul-
ra e acreditamos que seria um mau sol- tura na arte brasileira, isto é, as alterações artísticas que podem re-
dado. Não se pode dizer que milite em sultar de ura modo sistemático de situar o homem no mundo. Nêsse
partido político, torce contudo para o ponto é que me parece de real interêsse o conhecimento da cultura
brigadeiro. Tem vinte e três anos de russa. De nenhum modo estou me referindo própriamente à arte
idade e nehuma tentiva de suicídio. russa, da qual só conheço traduções de obras literárias, e essas, em
Consta que em menino fugiu de casa. que pese a boa vontade de alguns marxistas, é, em nossos dias,
Já estudem na Escola de Cadetes do Rio de fundo medíocre, quebrando a linha construtora e genial que tra-
Grande, já estudou odontologia por al- çaram um Dostoievski e um Tolstoi. Os Ilia Ehrenburg, não preci-
gum, tempo, atualmente estuda direito; samos deles. Sob o ponto de vista literário, há montes dêle por
melhor, presta exames de direito. lôda a parte do globo".
Uma de suas especialidades é con- — Crê você no nascimento de .algum novo ismo?
tar casos. De doenças infantis ou males — "A profecia não faz parte das rainhas aptidões. Tudo, en-
da puberdade não temos notícias. Ha tretanto, faz crer que o desenvolvimento histórico da arte continui
questão de doiis anos passados depressa, no~seu caminho normal, isto é, de tempos em tempos um grupo de
êle era esvoaçado por uma insônia, de artisfa acreditará fervorosamente numa série de diretrizes estéti-
que se queixava muito secretamente para cas: Então, nascerá um "ismo", o atomismo quem sabe. O que Vi
seus íntimas. Talvez um seu ar de boê- de precário e de comovedor nos "ismas" é que êles coustimem fe-
mio entediado precocemenle, que lhe nômenos originados de miragens coletivas. Por motivos diversos,
vislumbramos quando corta o cabelo, grupo de gente resolve ver os mesmos fantasmas a acreditar nêles.
venha dai. E como as miragens, daí o lado comovente, nascem da sêde de
Já foi bom jogador de basquete. verdade que a gente tem nàsise deserto.
E sempre virão outros, muitos outros, enquanto os astros se
mantiverem bem comportados nas suas orbitas.
—Acha que as transformações gerais por que está passando o — Qual a tendência geral da presente geração?
mundo modificarão a posição do artista ? — "A meu ver, a atual geração não tem tendências: alguns
— "Sem dúvida. Mas, (pergunto eu, qual a posição atual do ar- lêem convicções e outros apenas o desespero.
tista? Não há uma grande diversidade de posições? Pois bem, com E' uma geração perdida numa selva escura. No campo, esté-
os acontecimentos comtemporâneos haverá uma grande diversidade tico, minha geração promete apenas fracassar. Burlará a humani-
de modificações. Ou sêja; cada um se deixará penetrar pelos fatos dade se conseguir o triunfo. No campo político, é provável que pre-
a seu modo, nessa conjugação que faz o mundo do artista: fatos parem um mundo econômicamente mais confortável. A guerra ainda
exteriores e fatos interiores de origem obscura. não está ganha. A verdadeira luta prossegue nos segrêdos da
0 problema das "posições coletivas" é consideravelmente re- consciência. No combate eterno, entre uma afirmação espiritual
lativo. Em vez de unificar, veiu equacionar milhares de conceitua- e uma afirmação pagã, cada uma pretendendo, com a vitoria. E-
ções diferentes do "coletivo" em arte". bertar o homem de suas desgraças fundamentais.
— Qual a cultura que influenciará mais a arte brasileira? A geração moderna não tem "espontaneidade. Os jovens viso
— "A cultura foge aos meus domínios. Que sei eu? Sou apenas tiveram a felicidade imbecil a que tinham direito pela idade. Fal-
um sujeito cansado e preguiçoso que leu alguns romances, uns pou- sa, é uma geração de crianças encartoladas, usa uma seriedade que
cos ensaios e todos os poemas que topei, bons e ruins. Essa baga- não corresponde a um lastro de experiência intelectual, de ama-
gem é insuficiente para autorizamme palpites isôbre cultura. durecimento das conclusões a que chegam. Em cada moço isolu-
Em todo caso, não me custa arriscar qualquer coisa. Se não do, e nos grupos que se aquecem, as carros vão absurda e melan-
sei que tipo de cultura predominará na arte brasileira, pelo menos còlicamente adiante dos bois. Nossas convicções são cheque sem
temo instintivamente que seja a ianque. Mesmo que a elite intelec- fundo. Sofremos as conseqüências de ter nascido no vazio, no-
tual brasileira resista á influência americana, o grande público, vácuo angustioso que se abre entre dois tipos opostos de civiliza-
entretanto, irá cada vez mais exigindo "produtos" americanos. ção. Eu aconselharia a cada moço que procurasse se apaixonar
Nossos bons autores (semelhantemente aos próprios bons autores por uma coisa qualquer: uma escola literária, uma mulher, um
dos Estados Unidos), não terão boa acolhida em seu próprio país. crédo religioso ou político. Ou mesmo, por uma palmeira. Não
Enquanto isso, .a procura de coisas americanizadas dará ensêjo a uma resolveria a humanidade, é certo, mas livraria cada um dêsse so-

Página 15 EDIFÍCIO

-r
13 14 15 16 17 lí
frimento estúpido de se ver destituído das "mentiras vitais". E* ou um físico. Se começa a achar tudo muito esquisito, é possível
apenas uma expressão de Ibsen. Mas como doi". que dê um poeta. Quando Newton viu a maçã cair, quis compre-
— Que relações podem ou devem existir entre Arte e Política? ender o mundo: descobriu uma lei e tornou-se um cientista. Se
"Entre Política e Arte arte verdadeira, há um divorcio tido êle fôsse poeta, acharia somente muito estranho o fato de as maçãs
pelo próprio conteúdo de uma coisa e outra. As relações possíveis caírem. E escrevia um soneto.
são fortuítas, simples aventuras amorosas que não justificara um A arte é um luxo. A política e a ciência são fatalidades ne-
cessárias. Para o artista, as coisas são o que ele imagina. A fan-
matrimônio. Há, como disse, um impedimento básico. A política
tasia é o seu negócio. Mesmo numa "arte inteligente" o que se
é uma técnica, uma arte de inteligência. Ora, o que caracterizou
requerer é a lógica misteriosa da imaginação. Já para o político,
até hoje o artista é a "falta de inteligência", a ausência de técnica antagônicamente, as coisas devem ser o que são. Mas já se falou
cognoscitiva, enfim a incompreensão e não a compreenisão, que é tanto nesse assunto, já se discutiu de tal maneira, que é melhor ter-
um privilégio dos políticos e dos cientistas. Se uma criança co- minar. Além disso, não gosto de perguntas. Quando respondo a
meça à entender o mundo, é provável que acabe um revolucionário elas, tenho a desagradável impressão de estar mentindo."

"O indivíduo se opõe à coletividade, porém dela se nutre. E o


importante não é tanto saber a que se opõe, como de que se alimen-
ta. Como o gênio, o indivíduo vale pelo que tem dentro. No passa-
do a pessoa cristã era tão existente como o indivíduo moderno, e a
alma daquela eqüivalia sem dúvida à unicidade deste.
Toda vida psicológica é um intercâmbio, e o problema funda-
mental da pessoa concreta á saber de que pretende alimentar-se...

"Usai máscaras, úão contra gases, mas contra a estupidez hu-


mana". [José Geraldo Vieira).

EDIFÍCIO Página 16

#
2 3 10 11 13 14 15 16 17 lí 19 20 21 22 23
Terceiro Poema

Wilson de FIGUEIREDO

J^ESTAS noites de junho indireto,


acima de mim o céu silencioso e abandonado.
debruço-me na amurada do silêncio de cimento antigo.
0 mesmo vento de outros tempos, desfraldado no ocaso noturno,
vôa nos meus cabelos, me envolve, resvalando minha fisionomia e o tempo presente,
condicionados no côncavo dos jardins que amortecem meus derradeiros passos de retôrnOj
e trazendo detritos de coisas solitárias em erosão.
0 corpo encostado a um lado da janela, " 'Mf!
assisto ao passado e à viagem
sedimentando-se sôbre as bordas de meu rosto vertical;
e falo nomes de que não me lembro
que se perdem na decantação da acústica noturna.
Em breve, meu corpo será também massa da paisagem
e não mais se moverá autônomo.
Do fundo abissal da memória, subirá a nuvem de som das rompas de ouro
que desorientará as estrelas magnéticas, guias do mercador,
que então se ajoelhará em cada fonte e repartirá as águas beijadas.
Alguma coisa perdida ricocheíeia contra meu ser, dentro da sombra exíática,
e se perde em águas próximas, suicidas.
Nomes de mulheres me sobem à bôca
coino golfadas de sangue renascido que canta nos ouvidos.
Ah! rememorar que em madrugadas como esta
inscrições, nos caminhos e à beira das águas,
sôbre as areias e nos ajuntamentos vegetais,
o simbolismo de minérios antes indevassáveis
se levantam para mim com uma advertência onipresente;
depois de percorrida larga e fria latitude noturna
num modêlo perdido de embarcação em madeira
eu e apenas um sêr contratado, que me guiava,
ambos sentindo, hora após hora, o mundo incessável da memória,
encontramos um oleiro casto, condenado a trabalhar utensí ios de dar de beber a lábios de mulheres que êle ignorava;
de outra vez, cruzamos com um fabricante de lâmpadas e brinquedos asiáticos,
que leu na orografia de minha mão esquerda
várias vidas e várias mortes incidindo no meu destino;
vi criaturas de faces humilhadas
como se fossem escravos há milênios,
que retiravam água de velhos poços abertos na terra,
auxiliados por animais e divindades ancestrais, envelhecidos também de milênios.
A presença da mulher amada junto à minha castidade sem limites
velava o fruto de meu desespêro imaturo.
Ah! nasceu de mim então um silêncio agressivo.
E pensar que ainda uma vez me prometi; voltarei um dia,
enquanto ela viva, enquanto eu não morra.
Ah! pensar que eu prosseguia, mesmo escutando a antecipação das glândulas fanáticas cantando a viagem de volta en-
[ tre as flores e os astros silvestres.
Ah! e pensar que então a cabeça pendia sôbre as mãos como um velho tronco vegetal,
e que eu mirava minhas vestes de couro que os elementos esfacelaram
como se fosse meu próprio corpo;
lembrar que meu sono não era senão a pálpebra da presença sensível da mulher
descendo, sempre como um lírio próximo, sôbre minha castidade,
e que os homens que porventura então encontrei

Página 17 EDIFÍCIO
eram possuídos de um silêncio corporal que me advertia.
E foi somente então que compreendi que em breve seria tarde demais.

Nestas noites de junho indireto,


debruço-me na amurada do silêncio de cimento antigo,
não apenas como alguém que voltou.
O corpo encostado à janela
o rosto vertical
enquanto cigarros se consomem entre os dedos.
Cruzados sôbre o desnudo e solitário peito,
meus braços; e rosas de ontem na mesa noturna.

Desenho

Jacques do PRADO BRANDÃO

^ linha no papel
corre justa exata
livre ressalta
a orgânica forma.

A figura aparece
no espaço limitada
e a mão que traça
esconde a intenção.

Entre o sentimento obscuro


e o pensamento suicida
do outro lado da vida
nenhum amor se encontrava.

Impossíveis labirintos
ou altos sobrados
da alma os segredos
jamais bem guardados.

Não participo das coisas


só me alimento de idéias
sou um espetro sem platéias
viajante da longa madrugada.

Rio — Agosto — 945

EDIFÍCIO Página 18

IJ, lllllllllllllllllllll
10 11 13 14 15 16 17 lí 19 20 21 22 23
-

Povo e Poema

Hélio PELIEGRINO

T30RQUE não dizer povo! povo! com os lábios ardendo e o coração à espera do milagre?
Porque não dizer — povo! — vendo a rápida multiplicação das sombras nas árvores,
E o canto recortado de um pássaro sem luz?
Do sentimento da morte nasce o grito — povo! — e se curva, depois, à sombra dos abismos,
Com um abraço de sal, com lágrima e soluço;
Povo na rosa, no diadema, na conversa
Que absorve o couro de animais sacrificados.
Povo nos parques lentos onde a brisa
E' calma e amor e passo desvelado.
Povo ao sol, em largos passos flexíveis,
Em avanço e recuo de respirações elementares.
Porque a traição dos pomos de ouro? E a deserção da prata e a voz tombada.
Sangrando como látegos abertos?
Porque a voz ciosa das artérias,
Fechadas como canais de sombra, como a angústia
De noite e precipício sem vertente?
Povo! — na espiga de milho dourado pelo sol -— povo!
No tronco das árvores um novo nome de amor — povol
Nas águas a inscrição de esperança, a voz da treva,
O passo, a lama, o sofrimento — povo!
Um movimento velado acende a vida
De nova côr, de nova nostalgia —
Porque não gritar ainda -— povo! — se há um muro caido e pouco musgo,
E a mesma sêde em mãos que se compreendem,
E a viagem do amor, no mesmo mar sombrio,
Marcado pelo punho dos vendidos?
Porque não giãtar — povo! — vendo o trigo esquecer a sua origem.
Vendo o pássaro negado, o sol cuspido
Pelo arroto de bárbaros pançudos?
Povo! — no gosto do petróleo — povo!
Na escureza das minas, nos embates
Da água contra pedras inseguras — povol
No cais, nos porões desmantelados,
Na fúria elementar das tempestades
Negras de negro acento — ainda povo!
Nas fábricas, na tosse do suicida
Resistindo à injustiça, no protesto
Que se ergue com o peito de um possesso — povol
Na calma dos domingos, no passeio
Vestido de humildade, no segredo
Que em sorriso se afasta, na doçura
Da tarde onde se esquece a mão crescida — povo!
Povo, povo, sangue e diadema, sol quebrado
Palma de glória, fogo que se acende
No calor da justiça, povo, povo,
Na marcha, na avançada, no silêncio —
Sempre povo

Página 19 EDIFÍCIO

■- '

-r
2 3 4 5 6 7 14
I,

Marco final

Ofávio ALVARENGA

ÃO adianta lutar que não agüento


e a esperança passou vazia entre minhas mãos.

Me sinto cansado como se percorrera


o caminho extenso que diviso enorme.
Ficarei jogado como balão vazio
pequeno e murcho,
ou bicho qualquer apodrecendo.
Vazio o balão, entregue o copo e a conta paga,
permanecerei sozinho, mudo e pequeno,
com os olhos febris de um cachorro bem surrado.

Não adianta mais, que minhas mãos cansadas se recusam prosseguir.

Não valem as agulhas que o médico insiste


em minha carne macia e podre.
Restam apenas os olhos, como a vela última
que me deixaram no leito.

As memórias me procuram friorentas e tísicas


a insistir que comece tudo outra vez.
Os amigos velhos que reconhecem o êrro,
as vozes histéricas dos que não souberam viver,
todos voltaram, agoniados de me ver inda vivo, duvidando.

A. erva matando as plantas


Poema editorial
queridas de ou trona,
Um e outro verde entra no quarto
para espantar o cheiro do remédio.
Depois, bate a porta. Como a fechará um dia Pedro GIANNETTI
final, silencioso e implacável.
A torneira do jardim. O mato morno e a ferrugem aumentando. "T^VTVISO no claro escuro da sombra
* * sem determinar a sensação
Inútil lutar. do corpo que minhas mãos trêmulas não definiram
Que a esperança passou vazia entre minhas mãos. ,da alma que a consciência transfigura .
sem a naturalidade do rompimento da rosa
a tua imagem Edifico,
que vale a descoberta da amada de tranças.

Diviso e sei que és o baile livre,


onde dançam, não exòticamente, mas simplesmente nossa realidade
[ de homens,
onde bailam o jornaleiro e o linotipista,
onde se fixam as idéias na explicação.

Deito nas luas páginas para maior transfusão,


da profundidade do amor, porque só o amor é eterno três vezes.
Quero te sinfonizar à noite,
quero sinfonizar teu primeiro andar,
como o rui do da fechadura,
se alongando no ouvido ou no hábito.

Procuro assobiar a alegria que alcança o limite de todas as coisas.


Não sou terminantemente alegre,
porque a noite é êxtase da tristeza que os gaios não anunciam,
e agora é noite e o corpo se enfaixa com lençóis brancos.

Mas serás distribuído pela manhã


e tudo que levas não é mais que a manhã no seu conjunto de beleza,
da qual participamos em grupo.

Belo Horizonte, novembro de 1945.

EDIFÍCIO Página 20

* llllllllllllll
■/-
cm : 2 9 10 11 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
Os pensamentos perigosos

"Quem passar do Cabo Não voltará ou não"


Francisco IGLÉSIAS
SEMPRE se atribuiu grande importância ao mêdo. Remontan-
do muitos, séculos, vamos encontrar o poéta Lucrécio que
pretende seja o mêdo a origem das religiões. Seria o temor das deformadora. E as coisas quando encaradas sem ênfase não são
forças da natureza, do ambiente que cerca o homem e o sufoca apenas tristes, como já afirmou grande poeta, mas são também
de interrogações que ficam sem resposta e lançam nêie a descon- — e o que é pior — lamenlàvelmente prosaicas. Se o mundo que
fiança e o espanto a grande fôrça que levaria o homem a criar o homem fizera por si mesmo ou aprendera dos outros era ro-
a sua concepção religiosa do Universo. E com ela a estabelecer sco, sentindo-se nêle dignificado por padrões que julgava se-
dogmas, a criar tabus, certas práticas ie ritos capazes de aplacar a rem os certos, um dia desaba à análise fria da razão, nada mais
Ira da divindade ou dos poderes desencadeadores de maleficios. lhe resta que encará-lo lúcidamente, substituindo-o por outro nu-
Só por êsse trabalho o mêdo já se colocaria em lugar de desta- ma tentativa de auto-racionalização. E' atitude de pobreza huma-
que por ter realizado muito. Mas não ficou aí: fêz bem mais ain- na recolher-se vencido à imagem do passado, tirando dêle alento
da. A conceção religiosa em geral não torna ninguém livre de- para o presente sem qualquer perspectiva. Desde que a paisagem
le, antes continua a enegrecer os horizontes, ocultando em pon- falsai ruiu pela análise da razão, só resta ao homem viver agora
to desconhecido a luminosa aurora da redenção. O mêdo segue em lunção do que esta lhe indicar. Talvez seja difícil, mas é o
pela vida afora, da infância até a morte; impregna os objetos e único caminho que tem a seguir. Objetará alguém que caímos
informa todos os atos, expandindo-se livremente. Não há quem assim no mundo geométrico, a vida privando-se de mistérios e
deixe de lhe render culto. Se o homem se deixasse dominar por de enicantos. Incompreensão apenas. Tanto não calmos no mun-
êle inteiramente é bem provável que estaríamos mais recuados, do fácil das linhas traçadas com esquadros ou compassos que é
sendo reduzido de maneira sensível o reduzido avanço que foi muito mais difícil enfrentar a vida assim. Há riscos, há aventura,
feito. há sobretudo a falta de bênçãos e louvores.
Mas não era possível o lestacionaimento. Afinal, o próprio Dizem que dos dias primitivos aos dias atuais o homem não
mêdo tem que se desenvolver e há leis que lhe garantem uma se tornou mais feliz. Não cremos seja verdadeira a afirmativa, à
permanente mudança. Aindai não foram descobertas e por certo vista do papel libertador do conhecimento. E' cedo ainda demais
jamais poderão ser fixadas. A verdade, no entanto, é que elas para qualquer juízo, pois o avanço foi muito pequeno. Estamos
existem. A prova está em que mesmo quando se vive apenas em distantes ainda de uma ordem racionial e é o mêdo que continua
função do mêdo, dêle e para êle, há mudanças que podem che- a dominar, não obstante as máscaras que usa. Não temos hesita-
gar a negações raidicais. Soberano absolutista, faz das criaturas ção alglUmia em afirmar que mal saimos da pré-história: b que ai
que domina pobres sêres sem vontade, autômatos que se compraz está é pouco mais que conseqüência de que só agora abandona-
em dirigir cora estravagantes caprichos. mos a pedra lascada.
Não há dúvida, porém, de que é possível vencê-lo. Ao me- Por que, pois, nos aferrarmos ao que existe como se fôra o
nos parcialmente. Sentimento profundamente humano, o mêdo se ultimo ouro? Pobres de nós que chegamos muito cedo. Ou tarde
apresenta sempre junto com outros sentimentos. Se êsses não demais, relativamente a certa inconciência que era possível em
passam de variações daquele não interessa esclarecer. Constate- outro tempo e não pode ter lugar agora porque os problemas se
mos apenas a sua associação freqüente com o espanto diante das apresentaram de maneira clara. Talvez não seja mais que simples
coisas. A constatação nos traz logo à lembrança que Aristóteles mudança: o mêdo fêz progresso por uma daquelas leis a que já
dizia ser o espanto a origem da ciência. O espanto se converte- nos referimos e é impossível determinar. Venceu mais uma eta-
ria em imterrogações, a curiosidade levaria de um ponto a outro pa. Chegamos .ao momento em que as "verdades" caem, em que
e, de indagação em indagação, se chegaria a uma forma racio- as perguntas brotam, em que a dúvida amarga mais até conduzir
nal em quie as coisas se apresentassem como são na realidai- a uma afirmação; chegou o momento do espanto. E dêle nasce-
■de, libertas do manto fantasista com que as vestiu a imaginação rá .a ciência que há de assinalar um passo além, nova conquis-
de quem não era capaz de explicá-las. Assim, o espanto seria o ta ftue há de se traduzir pela libertação de mais uma neces-
pai do conhecimento, o responsável da ciência. sidade.
Essas explicações devem ser verdadeiras. Impossível determi- Impedindo que o homem se liberte de seus fantasmas há os
nar como tudo aconteceu até chegar ao ponto em que estamos. 0 seus tiranos próprios, instalados em sua conciência pela educa-
homem foi se livrando da carga de prejuízos que o tolhia e al- ção que lhe deram, pelo que viu, sentiu e viveu desde os primei-
guns conseguiram se afirmar. E' verdade que muitas vêzes a liber- ros instantes em que teve vida. Èle foi formado em certo clima
tação não era mais do que aparente, consistindo de fato em uma que lhe deu uma fisionomia. Além dos demônios individuais há
substituição de prejuízos. Não há dúvida, porém, de que é pre- os elementos exteriores. Há a sociedade organizada, há o Estado, há
ferível a substituição: a paisagem pelo menos se torna variável. forças poderosas que procuram abafar e quasi sempre abafam
Ao contacto com nova paisagem, com um mundo diferente qualquer sinal e são sensíveis à mais leve oscilação. Dêsse con-
do seu, uma concepção da vida diferente daquela que o alimen- junto nascerá certa ordem: verdades são estabelecidas, temas são
tava o homem se sente naturalmente chocado. Até que ponto po- feitos sagrados e o homem é cercado de dogmas e de regras. De-
de levar o choque inicial é impossível prever, mas o fato ê que verá viver em função delas. A transgressão é crime. Crime ou
êsse choque pode decidir tudo mais, chegando até a transtornar pecado. E a vida transcorre calma, tímida e inçolor num am-
ura destino. As descobertas, súbitas ou demoradas, são o que biente que nem chega a ser mecânico, pois não tem movimento
conta. Para enfrentá-las e vencê-las o homem só dispõe de uma algum. A noção de crime ou de pecado é a garantia da conti-
arma: a lucidez. 0 conhecimento, ainda quando despojador de miação.
tudo, tornando insignificante o que parecia grandioso ou páli- Do outro lado há um território que ninguém pode pisar:
da deficiência o que parecia vitória heróicas, não pode nunca foi amaldiçoado pelos deuses e quem ousa aproximar-se dêle sofre
constituir motivo de infelicidade e de propósito de ensimesma- castigos imprevisíveis. Pode-se chegar até certo ponto; além nem
mento, deixando tudo no abandono. Encaremos tudo sem visão um passo. E' a região perigosa. Como nos campos de batalha ela

Página 21 EDIFÍCIO

pr
cm 1 13 14 15 16 17 lí 19 20 21 22 23
existe no domínio das idéias. E' a região proibida onde o perigo tistas que se deixam prender até agora. Não foram capazes de se
espreita, o homem em todos os seus passos. Interessante é que os despojar de um manto de fantasia, alguns por temor d-e uma vida
antigos denominavam o ponto extremo até onde se podia chegar sem os falsos encantos dados pela sua imaginação ou formação
em viagens marítimas de Cabo Não. No terreno ideológico a de- defeituosa. Não se espantaram ainda.
nominação é tanto mais perfeita, pois a região começa bem naquele Alguns espíritos em que o amor à sutileza é mais forte que
ponto em que o homem se rebela e nega. Quando a sua voz se er- o amor à verdade costumam dizer, fazendo jôgo de inteligência,
gue contra o que lhe impunham e passa a procurar por conta que o homem é sempre prêsa de crenças dogmáticas. Para todos
própria. Há uma grandeza enorme nessa atitude de revolta. Co- há, pois, zonas perigosas de pensamento que não admitem to-
mo em todas rs revoltas, aliás. Não é atôa que dizem que Lueifer que. Se têm os olhos em muitos que se dizem livres não há dú-
era o mais belo dos anjos. vida que têm razão. Se querem atingir a todos, porém, incidem em
A procura 6 dificultada, em primeiro lugar, por conta pró- erro. Há uma posição pelo menos em que não há atitudes de su-
pria. 0 indivíduo já formado mal consegue se libertar da carga ficiência, de julgamentos definitivos, a não ser quando mal com-
que o impede viver como desejaria e muitas vezes não há psica- preendida-. Apesar de uma crença firme em certo ideal que apela
nálise que consiga- a transformação: o indivíduo compreende para todas as energias e as põe em movimento, apesar da luta
apenas mas não faz avanço. Não há, portanto, superação. A não sem descanso por uma estréia que brilha distante, não há dog-ma-
ser que consideremos a simples compreensão como superação. E t-ismos ou -endeusamentos. Nenhuma atitude mística ou fuga ro-
o que importa é vencer êsse impedimento. Vencido, o indivíduo mântica, mas apenas resultado de análise racional que leva à
pode então se realizar. ação com lucidez. Ademais, não se tratai de nenhuma atividade
lotalizadora, de uma dessas "verdades eternas" que animam os
Não fica aí, contudo, a ação que contraria a manifestação espíritos crentes. Trata-se de uma solução para o momento e que
completa da personalidade humana. Há ainda obstáculos exterio- pode ficar — e não temos dúvida nenhuma que ficará, sem cren-
res, resultantes mais diretos da organização da sociedade e que ça religiosa, — como método, como maneira de encarar as coisas,
se apresentam como forças coercitivas. Não é prèciso adotar a es- como uma posição do espírito que vive a analisar tudo, sem mes-
cola de Durkheim para reconhecer que a coerção social é um fato mo se poupar. Sem quaisquer preconceitos, portanto. Quando ama-
que tem de ser considerado. Era certos temas é proibido pensar; nhã os problemas forem outros e a realidade fôr de1 todo diferente
muito menos pensar alto. Ainda nos nossos dias, nos centros mais subsistirá ainda, não sabemfos era que forma. Em sua substância
adiantados, há assuntos cujo tratamento é vedado: o indivíduo mais íntima tem a autenticidade que os fatos, por mais contradi-
que ousa tocá-los recebe marca e fica como cidadão pernicioso tórios que sejam, só fazem confirmar. Verdade eterna? Absoluta-
que é preciso evitar. E' que êle desafiou passando dos limites, to- mente não, salvo terminologia imprópria.
cou cora mão profana no santuário intocável. E' sem receio de qualquer espécie que o estudioso ou o homem
As proibições variam de pais a país, de lugar a lugar, de tem- simplesmente se entrega à vida ou ao trabalho. Para êle não deve
pos em tempos. Ontem pecado, hoje coisa normal como costume, haver zonas perigosas: todas as partes do mar são navegáveis e as
amanhã relíquia de arquivos. Há forças interessadas na manuten- minas explosivas ou os redemoinhos fatídicos só existem para os
ção de certa ordem que tudo fazem para impedir a divulgação ou incautos ou inexperientes. Longe de nós a pregação da inteligência
o desenvolvimento de certas idéias. Consideram-nas perigosas ao como jôgo gratuito, volúpia ou divertimento capaz de pôr de lado o
seu poder, tementes de possível abalo. E nao há duvida que têm tédio. Menos ainda como dissolução, abandono de tôdas as normas
iüzão. Como medida preventiva tolhem logo qualquer possibilida- e princípios numa subversão de valores pelo simples gôsto de de-
de de pregação das idéias que temem, cercando-as de uma auréo- sordem. Não é o gôsto de fruto proibido que nos anima na análise
la de pecado ou de crime grave. de todos os temas; não é o gôsto único de fazer aquilo que fora
0 melhor -exemplo dèsse procedimento cremos encontrar no proibido fazer, como brincadeira s-em conseqüência.
que foi feito no Japão. Conta Louis Wirth, Pt-ofessor da Universi- A experiência que o mundo inicia agora, muitas vêzes denun-
dade de Chicago, que os dirigentes daquele país, interessados em ciada como perigo ou obra demoníaca, se decompõe em inúmeras
seu progresso e desejosos de figurar no plano internacional com perspectivas. Até onde se chegará? Impossível resposta. Só estamos
o exercício do perigoso imperialismo amarelo, trataram de domi- certos que se traía de algo profundamente novo e de que é a única
nar tôda a técnica do Ocidente; não houve conquista que não coisa que tem vitalidade hoje. Basta considerar que os que a com-
absorvessem -em sua ânsia de equiparação a outros povos. Man- batem o fazem em nome do passado, das glórias que viveram um
dando os s-eus filhos buscar instrução no estrangeiro, recebendo clia; não apresentam possibilidades para o futuro. Enquanto nós
as suas lições, os dirigentes nipônicos impediam a entrada na vivemos em função dêsse futuro e do que achamos haver de grande
ilha das idéias ocidentais; nada daquelas extravagâncias que os no passado ou no presente. E' a nossa vitalidade que nos torna pos-
filósofos pregavam, falsas noções de autoridade e liberdade. A essa sível o espanto. Podemos sentir espanto diante das coisas, enquan-
parte do pensamento que poria em jôgo o domínio aberto e comple- to outros só sentem temor. Foi Joaquim Nabuco que, em um de seus
to das classes dirigentes abjuraram como idéias nocivas e deram pensamentos que Machado de Assis mais apreciava, disse que a mo-
o nome de "klkenshiso"; os "pensamentos perigpsos". E o Ja- cidade era o espanto diante da- vida. E nós sabemos o que é o espan-
pão tornou conhecimento da técnica, em poucos anos se firmou to. Não só sabemos como temos ainda a coragem de proclamá-lo
•como potência e a ordem social injusta e primitiva continuou Outros rirão e não há de faltar mesmo quem passe um atestado so-
sem modificações. lene de pobreza mental. Ou liquide o Eissunto dizendo tratar-se de
Todos os países têm também a sua "zona de perigo". E' mes- arroubo adolescente. Não faz mal, questão de palavras, de julga-
mo êsse o motivo que faz com que as ciências sociais sejam mais mento apenas. A que poderemos responder com desprêzo dizendo
estacionárias que as ciências naturais. E' que nelas as transfor- ser opinião de quem tudo teme e só se alimenta do mêdo que se
mações têm repercussão ampla, pondo em cheque muitas vêzes consome incolor. E, questão de julgamento ainda: palavras de ve-
tôda uma ordem social. Karl Marx estava certo ao dizer que as lho; senilidade que só pode causar dó.
Afinei, de tôda essa experiência, coletiva ou individual, aven-
idéias que governam uma época são as idéias de suas classes di-
rigentes. E são as classes dirigentes, elas principalmente, que te- tura do espírito ou realização efetiva, 0 que restará? O desespêro
mem as idéias novas, tornando-as fantasmas com que pretendera inútil? A volta a oponto de partida? Não cremos. Se esta se realizar,
assustar o pobre homem que não teve oportunidade de s-e instruir. no entEinto', não será — estamos certos — como a volta arrependi-
0 que é lamentável é que muitos que tiveram ocasião de estudar da e derrotada do filho pródigo que a Bíblia apresenta. Não haverá
arrependimento — mas cansaço —, nem a detestável recepção fes-
ainda não se tenham libertado de sombras e se atemorizem com
tiva. A parábola da criação de Gide para nós tem mais autenticida-
a ameaça de fantasmas. De tudo, o que há de mais entristecedor
é a certeza de que hâ grandes inteligências e sensibilidades de ar- de. Se o retorno fôr a última solução só há de restar a certeza de

Página 22
EDIFÍCIO

■/-
9 10 11 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
' - li

que o caminho não foi bem tentado e que tudo não passou de êrro, revolta. O fracasso da nossa experiência será a luz que lhe evitará
a não ser a revolta e a conseqüente fuga. O que não dizer que o os tropeços que encontramos e lhe apresentaremos como auxilio, da
ponto que existia antes e torna a existir agora seja uma verdade. mesma forma que o filho que voltara segurava a luz que havia de
Será bastante mais amargo, mas talvez já estejamos suficientemente iluminar ao irmão mais moço os degraus da escada' na fuga liber-
batido para não nos importarmos nem com êle. E como na tentado- tadora que realizava aproveitando-se da noite. Irá cora êle o nosso
ra cena gidiana nada mais faremos que entusiasmar o que quiser protesto, o protesto de todos os homens que não se conformam. E
partir ainda — haverá sempre —, tentar a nova vida que começa da a solução há de ser certa um dia.

Filosofia e História

A compreensão filosófica da história — a preocuçaão de saber-


se não somente "como" as coisas se passaram, mas sobretudo "por-
que" se passaram, de uma tal maneira e não de outra; a conside- Amaro de QUEIROZ
ração da história não apenas como apuradora da veracidade e re-
gistradora dos acontecimentos, no seu encadeamento sistemático que o homem só atinge a consciência integral de si mesmo, quando
através do tempo e do espaço, mas também como definidora das penetra na sua morada e com ela conversa ou antes, monologa.
causas e da sua ação produtora, como ciência que tende a esta- Todos participamos, cora uma partícula, por mínima que seja,
belecer leis que exprimem relações tendenciais, incluindo noção de da história, desde os mais ativos aos mais indiferentes.
probabilidade — é uma ambição recente do pensamento humano. Com maior ou menor consciência, ativa ou passivamente, todos
Pela sua complexidade e pelo seu obscuro desenvolvimento, os estamos presentes nesta película em que estão gravados todas os
fatos sociais e históricos pareciam escapar a qualquer interpretação passos da humanidade através dos milênios. Mas gravado onde?
filosófica, pelo que se concluiu durante muito tempo, na impossibi- Na pedra, nas livras, nas mínimas modificações operadas na paisa-
lidade de generalizações seguras, que seria, absurda uma ciência dos gem que nos cerca?
fatos sociais, impossível uma Filosofia da História. A impressão, o objeto gravado, a mesma gelatina sensível são
Cáos, miséria, .perpétua agitação de átomos que o acaso mistura, uma só e mesma coisa; a mesma humanidade passada, presente e
une ou dispersa, tal foi a primeira impressão que produziu sobre futura. Tanto quanto para a filosofia e a história, como para as
o espírito do homem o panorama da história. Mas, também a noite ciências, para as artes, o homem é ao mesmo tempo sujeito e objeto,
com o seu fervilhamenlo de estrelas, pareceu-lhe a princípio uma agente e paciente; e a humanidade, o comum, o todo, o universal
aglomeração desordenada. E é, no entanto^como êle o descobriu — o destino.
depois de seis mii anos do pesquisas, uma expressão de ordem per- Lun fliwnirecer. pensar, agir, raciocinar, é fazer ao mesmo tempo filo
feita e eterna. sofia e história. E pode-se pensar, aqui, racionar e conhecer mil
0 olhar agudo do historiador, fixado sôbre o túmulo da cami- coisas, de mil maneiras.
nhada universal dos homens ao longo dos milênios, acabou igual- A aceitarmos a interpretação de que a história da humanidade
menfe por descobrir uma ordem para esta caminhada, um "sentido" resulta dos esforços contínuos da vontade que vai se libertando a si
para a história. mesma através das lutas civis, econômicas, políticas, religiosas, cien-
A história de proposições puramente descritivas não constitue tíficas, para a liberdade absoluta da razão, cuja forma ideal se rea-
a filosofia da história; a esta compete pesquisar as relações fun- lizada in totum significa o término da história, mas dado que cada
cionais do® fatos, para daí induzir regras uniformes para a conduta ideal vá se realizando em uma vida infinita, o fim lògicaménte não
humana coletiva; a ela compete formular leis e princípios, apa- chegará nunca... E os homens irão ge atormentando sempre para
nhando as curvas onduladas da evolução histórica nas culturas, daí se farezem mais livres, dentro de um ritmo perpétuo de moralidade
concluindo a curva geral da evolução humana, na comparação das e filosofia. Em outras palavras, não será nunca possível enten-
nossas sociedades com as sociedades antigas e outras dos ciclos pri- der-se nada do processo efetivo do pensar histórico, se não se parte
mitivos de cultura, o que evidencia nos numerosos ramos da ativi- do princípio de que o próprio espírito é história; em cada mo-
dade do homem que, nas artes, nas ciências, na filosofia tem cres- mento é autor e, por sua vez, produto de tôda a história ante-
cido dia a dia, o domínio da sua influência sôbre o Cosmos. rior. Assim, o espírito encerra em si toda a sua história que coin-
No seu conceito mais moderno o trabalho histórico íntegro ou, cide com êle próprio.
para usarmos a terminologia de Ortega y Gasset, a "historiologia" é VICO, afirmando a unidade do certo com o verdadeiro — "Ve-
inevitàveimente ciência, arte, e interpretação filosófica. Só a luz rum ipsum factum" — afirmou conseqüentemente a unidade da his-
desse critério se atinge aquilo a que Max Ocheler denominou "Ges- tória com a filosofia.
chicitsphilosophie", filosofia da história. E é hoje conceito corrente em tôda a filosofia contemporânea,
A história é o homem através do tempo, progredindo, civilizan-
que a história é a própria essência da natureza humana, ou antes,
do-se, formando o núcleo social, pois somos sempre mais velhos e
que o homem não tem natureza, nem essência, senão histórica, que é
mais experientes do que os que nos precederam. história. O homem é a sua própria história.
Somos um produto e uma continuação . Personificamos a união Tôdas as coisas humanas são históricas; têm história, são uma
da nistória com a filosofia e expressamos a "consciência comum" história; história da religião da ciência, da arte.... conseqüente-
que segundo Spinosa, criou as artes e as ciências, dando-nos os ins- mente a própria filasofia, que só tem consciência de si mesma como
trumentos de trabalho e novas conquistas. algo que se realiza històricamente numa pluralidade de filosofias.
A humanidade é como um homem que vive e aprende continua-
Modernamente só se considera como história aquela que, ba-
mente, e todo o processo da história se desenvolve para um ideal, seada na observação e na experiência, dotada de um método posi-
c
uja realização mais do que ao indivíduo, pertence à espécie. tivo, orientada por um espirito crítico à altura de sua própria com-
Mesmo sem aceitar que a filosofia diga sempre a "última pala- plexidade, é capaz de, ultrapassando o ideal literário e científico,
Vr
a" sôbre todos os problemas, é inevitável o reconhecimento de atingir o filosófico, analisando as causas dos fatos o seus nexos, tra-


Oina 23 GDIFÍCIO

cm 1 14
zendo ao presente, muna visão sistemática, um passado uno e ver- preensão do presente temos de buscá-la no passado. E nisto con-
dadeiro. siste a essência da função da história, que é um reconhecimento de
O reconhecimento do vinculo que liga tôdas as idades, da con- nós mesmos, a análise introspectiva de nassa auto-consciência.
tinuidade do fluxo da vida que prende todos os fenômenos no es- Èste o significado da chamada contemporaneidade da história, o da
paço e mantém no tempo a fusão de tôdas a» épocas, a noção da sua correspondência a um interôsse vivo e presente.
"durée" para usarmos a terminologia bergsoniana, a compreensão Esta, aliás, como já se observou, é uma das técnicas dominan-
de que as idades, filhas do tempo, apresentem as conquistas do pas- tes no pensamento moderno e que, no plano subjetivo, tçm sido o
sado, procurando avançar ativamente na direção do futuro; a con- caminho do romance contemporâneo de Proust, Virgínia Woolf e
cepção de que, na evoluçâoi das artes e das ciências, o resultado das Joyce — essa concentração de todos os dias num só dia, esta inser-
atividades anteriores se transformam' sempre num instrumento da ção do passado no presente, procurando captar o tempo perdido,
atividade posterior de novas conquistas, resultou da teoria do pro- para exprimí-lo através de uma categoria de atualidade, constatação
gresso, da afirmação da continuidade do desenvolvimento intelectual psicológica e metafísica que é evidente na vida dos homens como
e práticoi do gênero humano. "A Humanidade, — dizia LEIBNITZ, na vida dos povos.
— é como um homem que vive sempre a aprender continuamente; A unidade da história com a filosofia não poderá ser encon-
em todos os momentos é ainda filha do passado, está vivendo o pre- trada nas investigações particulares, mas só na visão total da his-
sente e já está grávida do futuro." tória. A interpretação filosófica é visada sintética. A história nos
O princípio de continuidade da história é assim afirmado por explica a formação da cultura humana e a filosofia procura o sen-
LEIBNITZ tão claramente quanto o será pelos representantes clás- tido desta cultura, e nisso consiste o elo que as une, indissohivel-
sicos da teoria do progresso no século XVIII: — TURGOT e CON- mente.
UORCET — preparando a visão de LESSING, para quem a histórh, O verdadeiro estudo da história, ainda mesmo no campo da
era urna "Educação Progressiva do Gênero Humano", como indica própria filosofia, tem que ser genérico e ■orográfico. E nisto está
expressivamente o título do seu livro, e o conceito da história, como o valor da história da filosofia que nos apresenta, através da suceis-
uma cadeia de cultura que une todos os povos e tem por fim a Hu- são dos sistemas, o desenvolvimento compreensivo dos problemas.
manidade. E' uma história particular que, inquestionavelmente, tem o seu do-
A continuidade do viver histórico é conhecida, hoje não apenas mínio próprio, mas não está isolada do desenvolvimento total. Ne-
como a raiz das ciências históricas, da sua visão das coisas, nas suas nhuma história particular, ajheia à história universal, é verdadeira.
transformações e nas suas descobertas. Esta excursão através das Uma história da fisolofia profundamente pensada é tôda a his-
perspectivas, e horizontes do homem histórico, bem como através tória —• igualmente uma história da literatura ou de qualquer outro
ainda do seu presente, na medida em que êsse o impele para o fu- aspecto da cultura não porque acumule em si as outras, senão por-
turo, e enfim ainda, através do seu mundo histórico em cada mo- que tôdas as outras estão presentes nela, e disso resulta a necessi-
mento, a "situação" em uma palavra, é que hoje é apresentada como dade de os historiadores se tornarem espíritos universais, e o repú-
o fecundo fundamento de tôdas as ciências históricas. Pode-se di- dio, conseqüente dos historiadores especialistas, exclusivamente filó-
zer que a história nada mais é do que um constrnte esforço da exis- sofos, exclusivamente literatos, exclusivamente economistas, etc., os
tência humana para se compreender a si mesma e para do passâao quais, precisamente pela unilateralidade de sua visão, não podem
extrair o seu sentido da vida. compreender sequer a especialidade que pretendem conhecer èm sua
A história é a vida desenrolando-se no tempo diante de nossos pureza, pois êles ouvem o galo cantar, mas não sabem onde.
olhos; ela tem ura longo passado, mas também pòssue um iutensís- Só se compreende modernamente uma história da filosofia que
simo presente. O presente c o passado se fundem na mesma cor- abarque e esgote tôda a vida material e moral do período a que .-:e
rente evolutiv ; um não pode ser compreendido isem o outro. refere. Cada história particular projeta os seus raios para iluminar
O presente sem o passado não tem sentido. O passado sem o um centro no campo vastíssimo da evolução humana, mas dêste toco
presente não tem vida. O presente é uma continuação e uma atua- central a luz tem que irradiar-se sôbre todo o restante para que a po-
lização da própria história. sição e o movimento interior do campo que se observa possa ser com-
SPENGLER, ao esboçar a sua concepção circular da história, preendido e explicado adequadamente.
baseada num estudo comparativo de tôdas as culturas do Oriente e A história só alcança a isua grande função e o seu grande valor
do Ocidente, vivas e mortas, passadas e presentes, e de cujas varia- quando concebida como a atualizaçãp permanente da essência do
ções, no espaço e no tempo êle retirou um sentido novo para a inter- homem e da cultura, daquela essência sintetizada nas duas catego-
pretação do mundo real, concebeu o universo inteiro como história rias do ser humano de Heidegger; a existência banal e a existên-
e fêz dela a explicação, viva da natureza humana, na totalidade das cia autêntica.
suas manifestações espirituais e materiais, sociais e individuais. A Essa concepção composta da história transformou-a num ins-
vida é função da história. Todo sêr vivo, indivíduo ou sociedade, trumento de melhor compreensão do homem, porque, como dizia Dil-
é uma história que se desenrola, sempre atual em cada momento, they, "não é pela introispecção que podemos apreender a natureza
novo, sempre viva através da influência permanente que exerce sôbre do homem, mas só pela história." Só pela história chegaremos a
a formação das gerações e sôbre todos os elementos da cultura. compreendê-lo na sua grandeza e na imensidade das suas misérias.
Resulta da compreensão da indivisibilidade do tempo — de que -A história poderia dizer como Terêncio: "nada do que é humano
tudo é presente, que estamos vivendo a cada momento o passado, o me é estranho."
presente e o futuro "o Eterno do presente e o presente no eterno", No seu esforço heróico para compreender-se a si mesmo e ao
na fórmula de Kierkegaard — que para a consciência de si mesma cenário da sua ação, quando busca no passado um sentido para a
a humanidade tem que tomar consciência da sua evolução. A com- vida, o homem encontra na história a melhor de tôdas as filosofias.

"Não é a paixão, porém a vontade de provar, o que destrói a


obra de arte; o valor de uma obra de arte não é função nem da pai-
xão, nem da indiferença que a animam, mas da concordância entre
o que expressa: e os meios que emprega". (André Malraux).

EDIFÍCIO Página 24

■TiniBinBI a
13 14 15 16 17 lí 19 20 21 22
Projeto de editorial

(OU ABORTO DUM DIÁRIO ÍNTIMO)

12-11-45: — Às nove horas Wilson e Autran, Pedro e Walter,


Edmur e eu planejaremos "O Edifício", revista que dará largas aos
jovens dessa terra que nos jornais são batizados de "geração alti- Pedro PAULO ERNESTO
va". Me abraçarei, dado, aos desejos que envermelham Wilson, que
, cavam pretexto para que a rapaziada transforme a literatura num
ofício. fuga do amor, envolvem como diretrizes gerais estas vocações no-
Desacredito as revistas como meio de formar geração mas as vas.
compreendo como tribuna onde uma geração se manifesta. Desse calor, todo plural na fonte e tão uno nos seus efeitos, par-
Se no Brasil arranjar uma revista é emprêsa que não chama tem os jovens, que talvez nada edifiquem, que certamente se esgota-
comanditários, e êste fato glosa qualquer comentário sôbre o assun- rão antes de assentar a inquietação nalguma cômoda cadeira de Pe-
te das publicações literárias, o artista jovem se faz híbrido para so- tites Trianons ou de Prestigiosos Estabelecimentos.
breviver. Viramos tipógrafos, copistas, jornalistas, corretores. Quem quiser renascer diante de si, que busque a igual angústia
Perdemos o segrêdo do emudecimento solitário, nossos pés sujam-se vivida noutro paralelo pelo mesmo homem que se repete.
de poeira urbana e somos os gritadores de sonhos na alta-madru- Entre nós, jovens mineiros, os paralelos são geográficos, mas a
gada. rêde de extraviamentos individuais não foge do Povo e da Arte
E, para nosso desafogo, uma revista conseguirá o que as mesas (proclamação sem maiúscula emigra para a Lua).
de café só conseguirão em sentido contrário. A reunião dos literatos
A distância é a do indivíduo irredutível, só êle. partindo para
entre 18 e 25 anos, necessitados de conjugar na atividade intelectual vencer a complexa estrada da comunicação humana; que outros tri-
aquilo que anda disperso: o espírito de uma geração; será para nós lharão, conjuntamente, secos na poeira (a alegria é difícil).
um resultado superior às eleições de dezembro.
Não definirei rapazes que ainda se procuram, inquietos com a 0 lema que possivelmente guie é dêsses que as convulsões es-
própria sombra. tendem, elásticos, mas nunca rompendo: só se sacrifica na morte,
Apenas os compreenderei como compreensivos do povo, preo- em Deus, na coletividade aquêle que vive a limitação do "EU".
cupados em repôr o indivíduo naquele equilíbrio ou naquela' insta- Admiramos os puros que se desesperam e gozam o delírio e o
bilidade que lhes inspira a criação, e criadores êles mesmos ao ten- supra-realismo dêsses intoleráveis limites.
tarem reconhecer a vida que o destino lhes deu para viver, Acompanhamos, num suspenso vidente, os satânicos que se di-
Uma disposição antiburguesa os identifica fraternalmente. vertem com a astúcia em criar plenitudes falsas.
Uma paixão pela forma da arte que emprega na vida a consciência, A todos êsses nossa compreensão! que se muda em simpatia e
até a de apelar para a inconsciência, me permite sentir a atmosfera em amor para os que realizam o homem.
em que escrevem. O pressentimento de que o trágico expressionis- Cerca-nos, e a aceitamos, a grandiosa perspectiva prol
la, o soerguimenlo místico do espírito, a humanização pela queda Oh! marxistas! Oh! católicos de Maritain! Oh! esque» ,s/
subjetiva do EU na aceitação da objetiva coletividade, restando a Oh! simplesmente humanos!

♦ *
*

"0 dogmatismo é o preço que a inteligência paga, para, nos mo-


mentos de crise, conservar sua serenidade". (Le Bon).

0 cínico é o homem que sabe o preço de cada coisa, e o valor


de nenhuma". (Oscar Wilde).

"0 artista é o porta-voz das tendências subterrâneas de sua


épocai, involuntário como todo profeta autêntico, ás vezes incons-
ciente como um sonambulo. tem a ilusão de que fala por si mes-
mo, mas quem fala por seus lábios é o espírito de sua época. (C. G.
Jung).

Página 25 EDIFÍCIO

cm 1 2 3 T 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
Bilhete aos ainda mais
CINEMA

novos
Ponfes de PAULA LIMA

Não vamos analisar, nem fazer perturbador, tão pouco Sigrid


J. ETIENE FILHO balanço da estação cinematográ- Curie de "Marco Polo".
fica, nesta nossa primeira inves- Um filme em que as palavras
tida contra tantos monstros. só apareciam com força de poe-
ILSON FIGUEIREDO e Pedro Gianeti me pedem um A estrada, que não percorre- sia, em que as imagens, mo ven-
artigo para EDIFÍCIO, a revista que êles querem fa- mos ainda até o fim, tem si- do-se em relação umas ás outras
zer surgir e viver. Não é sem emoção que aceito o convite. do poeirenta e pobre. Sobretudo e a um tema angustioso, sombrio,
Um artigo? Um conto? Um poema? Prefiro escrever um poeirenta, pois as reprises abun- eram o principal elemento de
daram com a fartura dos celestes comunicação, não podia interes-
bilhete aos ainda mais novos... Também sonhei revistas, jor- sar, no primeiro encontro, á
manás, se bem que menos — o/i,
pms literários. ''Mensagem". A reunião em casa de Arnaldo muito menos! — alimentícias. quem talvez esperasse um "movi-
Más Leite, a escolha do nome, os primeiros números em for- mentado" Hotel Berlim", ou qual-
0 que apareceu de bom, quase
ma de revista, depois as fase de jornal, primeiro com Gui- não apareceu. Refiro-me aos fil- quer coisa no estilo de Lana Tur-
Iherrnino César e Vicente Guimarães, depois com J. Carlos mes de valor que passaram por ner.
Lisboa, depois ainda sozinho... Mais tarde "Tentativa" com nós com o mínimo possível de "Montage", para quem estava
publicidade, vistos por algumas acostumado a ver uma cena re-
Hélio Ribeiro a telefonar exigindo as coisas.
pessoas e pressurosameníe retira- solvida com meia dúzia de pala-
Como o tempo passa. Foi outro dia mesmo, eu tinha 17, dos do cartaz por uma em preza vras, sempre mal traduzidas;
19, 20 anos. Hoje já estou escrevendo um bilhete aos mais desejosií., talvez, de não ter assu- "close-ups", significando mais do
novos ainda. Dizem que o europeu aos 18 anos é uma crian- mido compromissos tão sérios, de que o falto de que as aparelha-
gem do estúdio é capaz dos maio-
ça grande ,e que o brasileiro aos 11 é um homem em minia- ordem tão assustadoramente ar- res tour-dc-f orces fotográficos,
tura. E aos 27, que é aos 27 anos um brasileiro triste? tística.
isso tudo era mais do que uma
"Os Cavaleiros de Ferro",
Que EDIFÍCIO não padeça do mal dos 3 números. Sai- "Consciências Mortas", "Uma voz desprevenida turma podia acei-
bam vocês que êste mal é autêntico, acontece mesmo. No na Tormenta" e, num plano ape- tar. Falta de aviso e, pior ainda,
falta de costume. A recepção que
princípio, às coisas vão bem. Os mais velhos dizem "está nas inferior ao dessas obras pri-
teve o filme em sua apresentação
ótimo", os da nv sma idade ficam alvoroçados. Depois vêm mas, "Concerto Macabro", "0 Lo- ulterior no São Luiz, foi boa, sc
as dificuldades. O dinheiro, êste escremento do diabo. As bo do Mar", "Pedro, o Grande", bem que sóbria, provando que o
quase não foram vistos e, se por
in.çonipvensões, êste escremento de que? povo, desde que não seja defmu-
alguém o foram, não com o re-
dado na expectativa com que vai
Mas não desanimem, amigos, não desanimem. colhimento necessário, na sua ao cinema —- mesmo quando essa
Vocês sabem o que espera a sua revista? (permitam que trajetória quase clandestina por especlativa é ultrapassada —■ é
nossos glamorosas "boites" cine- capaz de aceitar até as melhore'!
diga a nossa revista). Ainda mais agora. Uma revista lite- matográficas.
rária, vão acusá-la de não participante, de tôrre de marfim. coisas... Não discutiremos hoje.
Filmes dignos de eslentóriccs nenhum dos citados- filmes, que
Uma revista lítero-politica, vão acusá-la de ser daqui ou da- reclames, de formidáveis brados
todos são suficientemente bons
li, de ser de um grupo ou de outro Nada disto tem impor- de feliz acolhimento, foram timi- para despertar-nos um entusias-
tância. Falarão, ou falariam de qualquer jeito. Vocês co- damente lançados no São Luiz, mo e uma feroz admiração difi-
ou, quando no Metrópole ou no cilmente silenciaveis, uma vez
nhecem a fábula do lavrador, o filho e o burro?...
Brasil, rodeados do mais vergo- começada sua exposição. Pare-
Mas, estou me sentindo meio velho e acackrno com êste nhoso e comprometedor sigilo.
mos, com a saudade deles, coni
ar conselheiral, que não quero ter nem hoje nem nunca. ■ "Uma Voz na Tormenta" foi a esperança de que voltem ao
Afinal, não estou tão velho assim. Quero sentir com vocês, mesmo retirado do cartaz do Bra- cartaz nestes próximos dias a
me entusiasmar com vocês. Viver a nossa época, esta época sil, devido á rmção de uma pla- com if( certcsa consoladora de que
téia não avisada e, muito por algum bem fizeram, na sua rápi-
proletária de bomba atômica, de simultaneidades desconcer-
isso, incapaz de perceber, na sua da, humilde permanência nesta
kmtes, de confusão. Um de vocês salientou que eu era o
incalculável e semi-justif içada pobre cidade, que ainda não tem
mais velho que escrevia em EDIFÍCIO, pelo menos neste surpresa, belezas que lhe eram teatro municipal, embora vá ter
número. Mas, pelo espírito e, se for preciso, por uma violen- apresentadas de um modo tão — brevemente... — q melhor da
tação de mim mesmo, quero ser dos mais novos também, novo parei ela, tão forte, mas tão América.
quero estar na linha de frente, neste grupo em que o cora-
ção e o ideal artístico estão acima das divergências, cronoló-
gicas ou psicológicas.
Que EDIFÍCIO viva, cresça, afirme, seja tal qual mes-
mo um edifício, onde há t<anta cooperação, tanto trabalho
conjunto, tanta ascese, tanta poesia pois. "A métrica é uma álgebra; o verso é a equação ordenada, desde
Esta é a minha pedrinha para o conjunto. Vocês man- que sua solução é uma igualdade, isto é, uma simetria". (.Paul
Valery).
d<am. Contem comigo para o que der e vier.
Vamos provar que Minas há.

EDIFÍCIO Página 26

|llll|llll|llll|llll lllljllll lllljllll


■/-
2 3 4 5 6 7 9 10 11 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
Uma colméia ativa e fecunda, na vida cultural

de Minas

O , que é a Faculdade de Filosofia — Não só filosofia, mas iambém ciências e lefras — Esfudo e compreensão
dos mais altos problemas—Os alunos e professores na inlimidade de sua vida escolar.

Ia-se à Faculdade de Filosofia de ônibus. Um ônibus matinal sobem conosco. E mais uma logo na entrada, onde moças e rapazes
e alegre como nos contava uma reportagem de "Folha de Minas" aguardam a aula. Camaradagem e compreensão, vontade de se apro-
«m janeiro de 42. Funcionava no Colégio Marconi e atraia por sua ximarem. Contudo o professor Eduardo Frieiro iniciará uma aula,
calma e tranqüilidade. Somente se agitava no riso envolvente das uma oportunidade excelente. O ilustre escritor mineiro ensina li-
moças, na simpatia agradável dos rapazes. teratura, no curso vestibular, e letras espanholas, na secção de lín-
Hoje, a história se contaria da mesma forma. Apenas um hovo guas e literaturas neo-latinas.
prédio, um novo abrigo comporta a Faculdade: A Escola Normal Eduardo Frieiro começa por ministrar noções gerais, que o
Modêlo. programa pede para o vestibular. Que magnífica aula nos dá sôbre
Na calma dignidade de suas linhas serenas, cercado de tufos o função que desempenham, na atividade literária, os sentidos, a
de verduras, num dos recantos de Belo Horizonte mais convidativos imaginação, a memória! Fala pausadamente, com clareza, acentuan-
ao estudo e à meditação, o prédio da Escola Normal assegura clima do as palavras. Faz largas digressões. 0 fotógrafo aproveita e bate
favorável e atraente ao desenvolvimento de sua obra de inteligência uma chapa, enquanto Eduardo Frieiro escreve no quadro, para que
e cultura. os alunos a fixem, uma "boutade" de Anatole. 0 velho bruxo de
Vila Said quis realçar o valor das emoções que a arte nos proporcio-
UM EQUIVOCO LAMENTÁVEL- na. Terminada a aula, ■abeiramo-nos do autor de "Ilusão Literária",
para pedir-lhe algumas impressões.
Foi o que nos levou a tentar esta reportagem. E também, o equí-
voco, perfeitamente lamentável, que nos cerca quando se fala em FLOR E REMATE DO ENSINO SECUNDÁRIO EM MINAS
Faculdade de Filosofia. Mesmo as pessoas que se supõem informa-
— Contente com a Faculdade? perguntamos.
das imaginam que se trata exclusivamente de um instituto para
— Contentíssimo, como aliás o estão todos os meus compa-
pesquisas metafísicas, onde os jovens mergulham em lucubrações
profundas e estéreis sôbre a natureza do ser ou a "coisa em si". nheiros do corpo docente. Todos nós estamos empenhados numa
tarefa idealista, desinteressada, numa verdadeira campanha, de fé.
Mas êsse estudo de Filosofia, êsse terror para as inteligências
Todos nós estamos levando ao triunfo esta campanha, com fervor
medrosas, apenas se faz em uma das secções da Faculdade, que são de crentes. Uns, como o professor Bra-z Pellegrino e o Aii.n cio ,
e-m número de doze. Nas demais, ministram-se cursos de Ciências por exemplo, crêem duro como ferro nos altos destinos . ai?
Naturais, Matemática, Línguas e. Literatura, tendo além do mais, Faculdade e agem em conseqüência, lutam pertinazmen . c ,àé se
"m objetivo bem prático e imediato de formar professores capaci-
sacrificam. Outros, como eu, crêem beatificamenle na feliz predes-
tados para o ensino secundário.
tinação de um instituto que há muito deveria ser uma bela realida-
Nenhum estabelecimento, portanto, entre nós, se torna tão ne-
de — flor e remate do ensino universitário em Minas. Eu por mim
cessário no momento, poi- não é acerliva apressada o afirmar-se
ser da qualidade do ensino secundário que depende a do ensino tenho outro motivo especial de contentamento: o de professor numa
Faculdade — a literatura, de minha maior predileção — a espanholai
superior e, particularmente, a de uma infinidade de cursos técnicos
de que tanto necessita o Brasil atual. — E está satisfeito com o resultado de seu ensino?
A Faculdade de Filosofia visa, assim, a formação de profes- — Muito. Tive turmas pequenas, mas de primeira ordem. Este
sores em todos ramos. ano a. turma será grande, também da melhor qualidade, oriunda de
vários ginásios da Capital e do interior. Alguns dos matriculados
Até agora, nossos professores não se forraram ao mal do auto-
são detentores do "Prêmio Faculdade de Filosofia de Minas Gerais",
didatismo e da improvisão. Daí, conseqüências desastrosas para
o ensino: falsas vocações, .preparo insuficiente, orientação capri- concedido por êste instituto aos melhores alunos de ginásios do Es-
chosa, ausência de técnica didática. tado. Estou dando agora, na Faculdade, um breve curso de litera-
Este, como já dissemos, o seu fira precípuo: formar professo- tura a estudantes que se preparam ao vestibular. E' uma turma
res capazes, imunes aos inconvenientes da improvisação. numerosa e no olhar inteligente e atento dos jovens que o freqüen-
tam eu noto curiosidade do espírito, o desejo de conhecer, a vonta-
de de .exercitar as faculdades da inteligência que precisam de cons-
O ESTUDO DESINTERESSADO tante exercício, porque senão enferrujam e se tornam imprestáveis.
Não quer isto dizer que a Faculdade menospreze os estudos REFUGIAMO-NOS EM TEÓCRITO
desinteressados. Aqueles que têm, por natural pendor do espírito,
preferência pelas investigações superiores da inteligência, não ins- De uma aula de grego do professor José Altiminas, saem juntos
piradas pelo imediatismo, ali encontrarão ambiente propício para o professor Artur Veloso, o poeta Emílio Moura e o romancista Ciro
a sua atividade intelectual. Diga-se, de passagem, que nenhum es- dos Anjos.
tudo é propriamente desinteressado: foi contemplando o céu, por Surpreendemo-nos. 0 professor Eduardo Frieiro se afasta e
mero sentimento estético, que os homens descobriram as leis que perguntamos aos que se aproximam se também êles são alunos.
régem o curso dos astros. >— Por que não? respondeu-nos Artur Veloso. Somos professo-
res e também alunos. Acompanhamos as aulas do nosso amigo Alti-
OS PROFESSORES EM ATIVIDADE miras. Não imagina como é delicioso o grego antigo nesses tempos
agitados. Refugíamo-nos em Teócrito... Entretanto, se quizerem
Mas, começamos a subir os degraus da Faculdade e logo fica- poetas belicosos, podemos também fornecer-lhes o elegíaco Tirteu,
tnos um pouco para trás e batemos uma chapa — de alunos que ou seu contemporâneo Calino de Efeso. A Grécia dá de tudo...

Página 27 EDIFÍCIO

13 14 15 16 17 lí 19 20 21 22 23
OUVINDO ALUNOS tamente. Já é indiscutível a importância que ela adquiriu no desen-
volvimento da cultura em Minas. Por isso, somente o fortalecimen-
Alguns alunos conversa,vam num grupo, com os professores to e ampliação de nossa Faculdade permitlr-nos-ia a formação de
Mário Casassanta, Wilson Castelo Branco e Hilton Cardoso. Acerca- uma verdadeira universidade do tipo moderno, permitindo por ou-
mo-nos dêles. Queríamos a opinião dos jovens que freqüentam a tra parte, um coordenamento mais fácil dos valores mais reais e
Faculdade. positivos que temos.
A senhorita Clarisse J. Santos, vestibular para ai secção de Para terminar Cristiano Nogueira Filho, também do curso de
Matemática, afirmou: — "Gostando muito. Pensava antes que nos neo-latinas, responde-nos:
saturariam de problemas de soluções metafísicas e pouco matemá- — Penso que seria preciso que a mocidade nos visitasse. Nos-
ticas. Isso me amedrontava. Mas, o que nos teem feito é estudar sos e nossas colegas de colégio nunca souberam o que é Faculdade
muita álgebra, muito mais do que poderíamos imaginar". de Filosofia. Eis o único motivo por que, ás vezes, não vêem
E Agenor Soares dos Santos, recém diplomado pelo curso de pana cá.
letras néo-latinas e já professor nos Colégios Marconi e Santo Agos- Encerramos assim a nossa entrevista. Sentiamo-nos contentes
tinho, acrescenta: com o que víramos e ouvíramos. Dificilmente aparecem-nos
— Chega a me assustar que através de tantos e tamanhos sa- oportunidade tão atraentes.
crifícios, a; Faculdade de Filosofia venha se realizando tão comple- Descemos com alguns dos alunos... e prometemo-nos voltar.

APENAS UM CORAÇÃO SOLITÁ-


RIO" — De Richard Llewellyn,
edição da Livraria Globo. Livros recebidos
Nesse novo livro, o autor de
"Como era verde o meu Vale"
avança um pouco mais no do- ras dos descobridores da terra de Ornellas, ilustrado por Edgar dido em seu tempo, determinou
mínio da ficção, jogando com estão encerradas nesse livro de Koetz. êle próprio o século XX como o
ura tema profundamente humano história. Tôda uma série de des- 0 .ensaísta gaúcho aproveita período em que se abririam pers-
e viril. E' a história de um va- bravadores, abandonando a Eu- muito bem as lendas das Mis- pectivas para a compreensão da
gabundo de Londres, cora pouco ropa em busca de novos hori- sões e a história de um chefe sua obra. E realmente apenas o
pouso ou parada, vivendo entre zontes que melhor satisfizessem guarani. A ação dos missionários século XX pôde compreender e
pessoas de rua, marcadas por as necessidades materiais e a da Companhia de Jesus na cate- esgotar o conteúdo enormemente
dramas fortes. Se naquele seu ambição desmedida. Marco Polo, quese dos Índios e as belas igre- revolucionário do pensamento
primeiro romance, Richard Lle- no Oriente, e depois Vasco da jas por êles deixadas, suas tradi- desse homem, que em meados 'do
wellyn mostra 0 contraste entre Gama descobrindo o caminho das ções, servem de motivo para esta século XIX, viveu pessoalmente
duas gerações de mineiros, as índias, Colombo, as caravelas de história. E' uma das poucas obras grande parte das experiências de
primeiras lutas sociais inglesas e Cabral, e outros navegadores co- sobre o papel histórico das mis- nossa época, e as mais trágicas
Os personagens ligados pela pu- mo James Cook e Byrd dão movi- sões jesuíticas na América. aliás. Viveu intensamente o nii-
reza dos sentimentos, ura liris- mento á história das conquistas lismo das gerações atuais, foi um
mo absorvente, em "Apenas um do homem. dos principais arcabouços do in
O livro "A Conquista da Ter- VONTADE DE POTÊNCIA dividualismo contemporáriec n
Coração Solitário" há, pode-se
bem dizer, apenas o drama for- ra" mostra bem o espírito de au- Ortcgi; í Gasset considera-o, ao
te. A ligação entre o vagabundo dácia do tipo aventureiro geno- Pode-se considerar como um lado de Góethe, como um dos
lírico Ernie Mott, sua mãe rígida vês, "com os. olhos fitos no azul,dos maiores e mais oportunos precursores da filosofia moderna
— que fraqueja depois, com a fascinado pelo que fica mais dis- empreendimentos da atualidade pela imp- .tância que êle confe-
vida — .e as duas mulheres da tante". êsse da Editora Globo, ao lançar re aos valores vitais.
história consegue emocionar. a tradução dessa obra básica de Nenhuma medida tão oportu-
"TIARAJU" — Manoellito de Or- Nietzsche que é uma das mani- na, portanto, como' o lançamento
"A CONQUISTA DA TERRA" — nellas — Edição da Livraria festações fundamentais do pensa- da tradução da. sua obra talvez
De Wilbelm Treue, edição da Globo. mento contemporâneo: "Vontade imais importante, onde todos
Livraria Globo. de Potência". esses problemas de extremo inte-
A Livraria Globo apresenta- Friedrich Nietzsche, o podero- resse encontram-se colocados em
Todas as conquistas e aventu- nos. ura belo livro de Manoellito so pensador alemão, incompreen- equação : "Vontade de Potência".

"Não parece haver nenhuma relação manifesta entre os Webbs


e os Soviétes de um lado, e o catolicismo moderno do outro lado.
Mas que semelhanças profundas, subterrâneas! A recente renovação
católica é essencialmente uma renovação do sacramento. De um
ponto de vista católico essa é a "era sacramentai". 0 poder mágico
dos sacramentos, considerados como suficiente para a salvação. Per-
feita; analogia com a idéia Webbs-soviética do progresso, realizado
fora de nós, através da maquinária e de uma organização eficiente.
Para os católicos ingleses, os sacramentos são os equivalentes psi-
cológicos dos tratores na Rússia". (Aldous Huxley).

EDIFÍCIO Página 28

■/-
2 3 4 5 6 7 9 10 11 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23
m

CASA GAETANI

RUA TUPINAMBÁS, 613 — FONE, 2-5760 — CAIXA POSTAL, 55

GAETAN1 6 CIA. LIAITADA

FERRAGENS, CIMENTO E MATERIAIS PARA CONSTRUÇÕES

BELO HORIZONTE

— ■

A
Livraria Cultura

NOVA AURORA

Sedas, algodões e tecidos em geral


Brasileira Ltda,
ao alcance de todos.

RUA DOS CAETÉS, 489

oc

ADQUIRA SEUS LIVROS

CASA DO LIVRO
AV. AMAZONAS, 294
DA MAP. bTDA.

Caixa Postal, 348 — End. Tel. - "Cultura» OBRAS TÉCNICAS, CIENTÍFICAS, LITERÁRIAS DIDÁTICAS, ETC,

Rua Tamois, 72 — Fone 2-7793 — Belo Horizonte


BELO HORIZONTE
VENDAS A PRASO E REEMBOLSO

cm 1 13 14 15 16 17 lí 19 20 21 22 23
RUA RIO DE JANEIRO, 651 — C. POSTAL, 76 TELEFONE, 2-2762 — RÊDE INTERNA
BELO HORIZONTE — MINAS TELEGRAMAS u "SAMSA"

S. A. METALÚRGICA SANTO ANTÔNIO

FABRICANTES DOS SEGUINTES PRODUTOS:

Arados "Brasil" dé diversos tipos. Chapas para fogão.


Engenhos para cana "Brasil", verticais e horizontais, Ferros de engomar.
P/
Caçarolas, caldeirões e chaleiras, de ferro fundido, Debulhadores.
nos tipos esmaltado, estanhado, polido e Caixas de descarga.
SflMSQ
natural. Pesos de encerar.
Caçarolas, de ferro batido estanhado tipo Japy, s
Quadros, Tampões, Ralos e Bôcas de lobo, para
Panelas de 3 pés. rêde de esgoto, etc. etc.

5ECÇÃ0 DE ARTIGOS ESMALTADOS - ALTO FORNO DE FERRO GUSA

USINA EM RIO ACIMA MINAS GERAIS

FÁBRICA DE PAPEL CRUZEIRO S. A.

Fabricantes dos seguintes tipos de papeis:

CRUZEIRO

MANILHA

MACULATURA

PADARIA

Escritório: Instalações:

Rua Rio de Janeiro, 651 2.° andar Rua Santa Quitéria, SOO
End. Teleg. "CRUZEIRO" Fone: 2-7557
Caixa Postal, 73
Fones: 2-4-140 e 2-2762

Depósito de aparas:

Rua Tupis c/Amazonas — Fone, 2-0678

BELO HORIZONTE MINAS GERAIS

■/-
13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23