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A REVELAÇÃO:

CONDIÇÃO DE POSSIBILIDADE PARA A EXPERIÊNCIA HUMANA DE DEUS√

Alessandro Tavares ALVES


José Luiz IZIDORO

RESUMO
A revelação é o tema fundante da teologia e área concentrada da teologia
fundamental. Ela é a condição de possibilidade para que o ser humano faça sua
experiência com Deus. Nesse sentido, o caminho que o homem faz até Deus é
antes o caminho que Deus fez até o ser humano; a aproximação do humano para o
divino é possível apenas pela aproximação do divino para o humano. Deus se dá a
conhecer, faz-se experiência para o homem. A relação que o homem estabelece
com Deus, a partir da revelação, reforça a identidade do ser humano enquanto
sujeito pensante e transcendente. Deus se revela na condição humana, na situação
do homem, aproxima-se do ser humano como outro ser humano e pela sua criação.
Ao descobrir-se finito, o ser humano descobre-se um ser causado; a revelação, com
efeito, dá completude ao ser humano e o faz ser cada vez mais adequado à sua
situação de um ser que supera a si mesmo.
Palavras – chave: Condição. Deus. Revelação. Transcendente. Experiência.

1 INTRODUÇÃO
A revelação é um dado que o homem experimenta numa relação que o supera e
o envolve por inteiro. Esse envolver o faz ser ele mesmo, enquanto ser de
transcendência e capaz de superar-se. Neste aspecto, este artigo se objetiva a
abordar a revelação como condição de possibilidade para que o homem possa
experimentar a presença de Deus na vida e na história.
Esse trabalho será desenvolvido em dois momentos que são: a revelação como
evento anterior ao homem, tendo como base o primeiro capítulo da Constituição
Dogmática sobre a Revelação Divina Dei Verbum e o homem como ser que se


Artigo recebido em 22 de fevereiro de 2015 e aprovado em 20 de junho de 2015.

Graduando em Teologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora.
@: alessandrotavares03@hotmail.com

Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Professor do CES/JF.
@: jeso_nuap@hotmail.com

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relaciona e solidifica sua identidade a partir da revelação, sendo possível


compreender que a revelação é a condição para que o homem faça sua experiência
com Aquele que o transcende, que é Deus mesmo.
Para que haja essa relação de Deus com o homem e do homem com Deus a
razão torna-se fundamental para a efetivação da experiência que se dá. A Dei
Verbum esclarece como a Revelação envolve o homem em um constante ‘mostrar-
se’ de Deus, a razão contribui eficazmente ainda com a transmissão da revelação.
A razão, sendo o denominador comum de todo ser humano, faz com que a
experiência com o Deus que se manifesta seja transmitida a todas as pessoas,
fazendo com que o homem se coloque diante do mistério e se sinta parte integrante
deste, descobrindo-se mistério também.
A revelação é que completa a imperfeição do ser humano, ou seja, ela dá sentido
ao homem que é um ser de falta, marcado pela necessidade, que não está
completo. O revelar-se de Deus vai de encontro com as carências do ser humano e
o faz dialogar com elas como em um gesto de amor profundo.

2 A REVELAÇÃO COMO EVENTO QUE ANTECEDE O SER HUMANO E O


SUSTENTA

A revelação é, logicamente, um evento que precede o ser humano, pois o


conteúdo dela é Deus mesmo, isso permite a certeza de que é anterior a tudo o que
é humano. Com efeito, é necessária a presença do homem, como ser pensante e
questionador para que o conteúdo da revelação se torne completo.
A palavra revelação quer dizer
A efetiva vir-à-manifestação da realidade divina. A totalidade do acontecer
salvífico é o ser revelado do mystérion, não no sentido de um desvelamento
de um segredo intelectual, mas no sentido do drama salvífico divino. Nesta
autocomunicação de Deus é concedida e recebida participação
(BOTTIGHEIMER, 2014, p. 163-164, grifos do autor).

Deus está voltado para a sua criação, compartilha a si mesmo com o homem
e à humanidade toda se revela a si próprio. A autorrevelação de Deus não pode ser
considerada uma temática comum como qualquer outra da teologia, sobretudo a
teologia fundamental que se dedica particularmente a esse estudo, mas é em última

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instância o tema que dá identidade à teologia toda e que se faz base para todos os
outros assuntos teológicos.
O tema da revelação tornou-se o tema base do cristianismo, pois ele é a
condição de possibilidade da fé, Deus mesmo se manifesta para abrir a
possibilidade de crer. Isso é um fator que sustenta a existência humana, pois o
homem se descobre um ser crente, transcendente.
O mostrar-se de Deus, que é a revelação, efetiva-se na abertura do ser
humano para Algo maior que ele. Deus se dá a conhecer e, nessa alteridade, reside
a possibilidade de experimentá-Lo na história, ou seja, o homem torna-se capaz de
Deus.
Com efeito, isso significa por outro lado que
A relação com Deus e a com seus semelhantes são inseparáveis entre si;
as relações com Deus, com o tu e com o nós se sobrepõem, elas não são
estanques. Numa outra perspectiva poderíamos formular o mesmo
pensamento afirmando: Deus só quer chegar ao ser humano pelo ser
humano; ele procura o ser humano inserido no meio de seus semelhantes
(RATZINGER, 2014, p. 69).

Essa afirmação do Cardeal torna clarividente a aproximação que se dá entre


Deus e o ser humano, o homem passa a ter contato direto com o divino, porque o
divino abriu-se para ele e construiu a ligação. A encarnação é prova dessa
aproximação de Deus com o humano e sua capacidade de se tornar semelhante a
ele em tudo, exceto no pecado.
O mistério inominado se mostra, revela-se como Aquele que sempre é oculto,
o ‘totalmente Outro’ que dá sentido à existência do ser humano sobre a terra. Ele se
revela no aqui e no agora, em fatos e condições históricas determinadas, para que
se torne acessível ao homem.
Deus ao se aproximar do humano como outro humano faz com que o homem
seja capaz Dele, de experienciá-Lo, Ele se permite experimentar para estabelecer
relações com eles. Deus se oferece ao homem, Ele o quer e então, nessa dinâmica,
o homem se descobre como uma criatura querida por Deus.
A criação é um testemunho que o Criador dá de Si mesmo, estabelece nela a
possibilidade de salvação para o ser humano, e, ainda na criação, estabelece o
vínculo dialógico entre Criador e criatura, que se consolida pelo amor e a Bondade
de Deus.

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A revelação dá - se ao homem sistematicamente, ou seja, na gradualidade de


um processo. Compreende-se facilmente quando se percebe que Deus, na sua
Bondade, revela-se a si mesmo e dá a conhecer o mistério da sua vontade, neste
aspecto, faz com que o homem seja participante da Natureza divina (cf. Dei Verbum
n. 2).
O revelar-se possibilita a experiência, é condição de possibilidade também de
conhecimento, pois existe um conhecimento que se dá no ‘crer’, o homem
condiciona sua existência a partir daí.
O sujeito, aquele que conhece, é condicionado a si mesmo, por mais que
transcenda, está sempre preso à sua inerente condição humana. É nessa condição
que Deus se revela efetivamente. É preciso, para uma compreensão mais acertada,
pensar o sujeito. Nesse contexto colabora Karl Rahner (1904-1984) afirmando que

O sujeito é basicamente e por sua própria natureza abertura para o todo


simplesmente, para o ser como tal. Isso se evidencia pelo fato de a negação
de tal abertura ilimitada do espírito para o todo, colocar e afirmar
implicitamente tal abertura. Pois, um sujeito quando se reconhece como
finito, e não só se acha em seu conhecimento ignorando a limitação da
possibilidade de seus objetos, já ultrapassou sua finitude, já se
desqualificou como meramente finito (RAHNER, 1989, p. 32).

À medida que se percebe condicionado e limitado, o homem experimenta o


que lhe afeta por inteiro, ele supera-se a si mesmo, superando, com efeito, os limites
do visível, reconhece-se superior ao dado sensível. A consciência de si, o saber de
si, dos limites, o questionar a própria condição já significa ir além de si.
Nestes aspectos é possível pensar numa experiência transcendental, nessa
experiência ele entende sua condição de possibilidade enquanto ser capaz de Deus
na transcendência. O fato de o homem descobrir-se como aquele que recebe
sempre e gratuitamente a revelação, quase que em um diálogo, o faz firmar-se na
sua finitude abrindo-se ao absolutamente outro, fiando-se Dele.
Ao experimentar-se como finito, questionando sua origem, ele lança-se além
de si mesmo, e descobre-se um ser causado por Deus e, com efeito, condicionado a
Ele. Por essa razão é que o homem se descobre sustentado por Deus que o
antecede e o supera. O cardeal Ratzinger colabora nessa perspectiva afirmando que
Deus é essencialmente invisível [...] o homem é o ser que vê; o espaço de
sua existência parece limitado pelo espaço daquilo que ele pode ver e tocar.
Mas nesse espaço reduzido ao que é visível e tocável, que determina o

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lugar existencial do homem, Deus não está, nem estará jamais, por mais
que esse espaço seja ampliado [...]. Deus não é só aquele que, agora, está
fora do campo de visão, mas que poderia ser visto se fosse possível ir além;
mas não, ele é aquele que está essencialmente fora desse campo, por mais
que o nosso campo visual se expanda (RATZINGER, 2014, p. 39).

Tudo isso quer ressaltar que Deus está fora das condições humanas, Ele não
se enquadra nos esquemas e estruturas humanas, mas revela - se nelas e a partir
delas estabelece convívio com o ser humano. A auto comunicação de Deus se dá na
História, por isso o homem não se frustra ao tentar encontrar Deus no mundo.
Deus impõe-se ao homem, presentifica-se nele, isso faz com que o ser
humano seja sempre referido a Deus. Essa experiência originária faz relação direta
com a experiência transcendental do homem na sua relação com Deus.
O mistério com tudo aquilo que ele tem de incompreensível é o que existe de
mais evidente, pois ao superar a capacidade humana de pensar, o homem torna
evidente para ele mesmo o seu estado de ser pensante e limitado. A evidência da
incompreensibilidade do mistério torna-se, com efeito, algo efetivo.
O ser humano é sustentado pelo mistério, descobre-se mistério e relaciona-se
com ele. A revelação, cujo conteúdo é Deus mesmo, envolve o homem, torna-se um
qualificativo na existência dele.
Jesus é o consumador da revelação, como afirma a Sagrada constituição
dogmática sobre a revelação divina em seu artigo segundo
Esta “economia” da revelação faz-se por meio de ações e palavras
intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas
por Deus na história da salvação, manifestam e corroboram a doutrina e as
realidades significadas pelas palavras, enquanto as palavras declaram as
obras e esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a verdade profunda
contida nesta revelação, tanto a respeito de Deus como a respeito da
salvação dos homens, manifesta-se a nós na pessoa de Jesus Cristo, que
é, simultaneamente, o mediador e a plenitude de toda revelação (DV, 2).

A revelação foi sendo preparada por Deus ao longo de toda a história da


salvação, haja vista, que Deus sempre entrou em contato e estabeleceu diálogo com
o seu povo. Ela é trinitária e sustenta o ser humano em seu seio como criatura
capaz de pensar e capaz de Deus mesmo.
Essa revelação, então, torna-se condição de possibilidade da experiência
humana de Deus e faz com que o homem firme sua identidade como ser que tende
para o absoluto e estabelece também relação com Deus na transcendência.

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3 O HOMEM QUE, A PARTIR DA REVELAÇÃO FAZ A EXPERIÊNCIA DE DEUS

Ao abordar a questão da revelação como evento que antecede o homem, a


compreensão da finitude tornou-se clarividente para ele. A revelação sustenta o
homem e a sua identidade se solidifica enquanto ser de transcendência.
Cabe pensar aqui a relação que o homem estabelece com o dado revelado. É
mister compreender que a atitude do homem perante a autorrevelação de Deus não
é totalmente passiva, mas que ele reage à revelação sempre na busca da sua
compreensão.
O ser humano tem a capacidade de se reconhecer finito, é capaz de questionar
sua condição inteira e pensá-la como um objeto de sua existência. Ele se coloca a si
mesmo como problema existencial, nessa perspectiva percebe-se como ser
transcendente.
A capacidade de questionar a si mesmo supõe a capacidade de transcendência,
expressa pela abertura do ser humano para o absoluto. Nesse sentido
Porque o ser humano transcende todo o finito e se experiencia a si mesmo
enquanto ser de um horizonte infinito, a capacidade de questionar e a
necessidade de questionar lhe pertencem de forma essencial. O ser
humano pode colocar fundamentalmente tudo em questão. Assim, cada
questão pressupõe a questionabilidade, isto é, a recognoscibilidade do
questionado, pois só pode ser questionado aquilo que de alguma forma já é
reconhecido (BOTTIGHEIMER, 2014, p.182).

A revelação permite ao homem questionar o Absoluto, pois ele mesmo se


apresentou ao homem na dinâmica de sua existência. Ele autocomunicou-se ao
homem, tornando-se questionável, mesmo sendo o ‘totalmente outro’ que se revela
sempre oculto.
Deus permite ser experienciado, ser questionado, neste sentido o homem se
coloca diante do mistério, percebe-se menor que ele e envolvido e ultrapassado por
ele mesmo. O homem pode fazer a experiência de Deus e reconhecer-se como
capaz de Deus.
Com efeito, ao revelar-se Deus se faz condição de possibilidade para ser
experimentado, mas permite também que o saber humano, sua capacidade
cognosciva, seja condição de possibilidade para a revelação. Esse fato mostra que
Deus estabelece uma recíproca relação com o ser humano.

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A revelação pressupõe como condição de possibilidade aquele a quem será


revelado, ao se fechar ao transcendente e, consequentemente ao dado revelado, o
ser humano percebe-se com um ser estranho, experimenta-se a si mesmo e possui
como efeito a angústia do próprio limite.
A consciência de si, como ser que é capaz de transcendência, o confronto
com a totalidade de seus condicionamentos, e concomitantemente o fato de estar
condicionado, permite ao homem compreender-se como mais do que a soma de
seus fatores.
Assim, pode-se afirmar que
Se o homem é realmente sujeito, ou seja, um ser de transcendência,
responsabilidade e de liberdade, que como sujeito está entregue a si
mesmo e em suas mãos e nas mãos do que lhe foge ao controle, então no
fundo já dissemos, com isso, que o homem é um ser referido a Deus
(RAHNER, 1989, p. 60).

O fato de então o homem ser referido a Deus aponta para o fato de que a
revelação é condição para que isso seja possível. O caminho que o homem faz até
Deus é antes o caminho que Deus fez até o ser humano. A atitude do homem frente
à revelação é sempre atitude de resposta ao amor gratuito de Deus que se entrega
na alteridade absoluta.
Nessa alteridade o homem torna-se conhecedor de Deus, conhecedor do
Mistério, com efeito, conhecer o Mistério é reconhecê-lo inatingível e que tudo o que
se alcança com a razão é porque antes Deus tornou-se conhecido para o homem,
ou seja, autocomunicou-se, fez-se conhecer pelo ser humano.
Assim, compreende-se que “revelação é o advento que acontece, é o infinito
que vem ao finito, é o ilimitado Silêncio que se traduz em palavra audível e
perceptível” (FORTE, 1995, p. 223). Existe um abismo entre Deus e o homem, Deus
sempre será para o ser humano o invisível.
A experiência humana de Deus, realizada unicamente por que Deus se
revela, dá-se em meio à contingência do ser humano, em suas carências e
incredulidades. O conhecimento de Deus é sempre para além do homem, não se
tem sobre isso um conjunto de conhecimento elaborado e determinado como afirma
o Cardeal:

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A dúvida insistente do talvez, com que a fé questiona o ser humano em toda


parte e em todo lugar, não remete a uma insegurança dentro do
conhecimento do factível, antes questiona o caráter absoluto desse âmbito,
relativizando-o como um dos níveis da existência humana e do ser em geral
que só pode ter o caráter de penúltimo (RATZINGER, 2014, p. 53).

O homem é marcado pela constante incerteza diante de si e do


transcendente, sua contingência o faz ser condicionado, e o incerto o ameaça
sempre, fazendo com que ele avance no progressivo conhecimento. Deus se
comunica com o ser humano nas circunstâncias humanas, para que Se faça
compreender.
A experiência de Deus é um fator gerador de conhecimento, sobre Deus
mesmo e sobre o homem, que reconhece a si mesmo diante do mistério. Nesse
aspecto é inerente o anseio do homem por superar-se, como afirma o cardeal
A pergunta que o ser humano faz e que é ele próprio, o seu inacabamento,
a limitação que sente, apesar de ansiar pelo ilimitado, essa sensação
simultânea de confinamento e do desejo que procura o ilimitado e a
abertura, impediu o ser humano de satisfazer-se consigo mesmo, dando-lhe
a sensação de que não se basta a si próprio, de que só consegue
encontrar-se passando além de si mesmo, movendo-se ao encontro do
totalmente outro e infinitamente maior (RATZINGER, 2014, p.79).

Porquanto a experiência que é possível ser feita a partir da revelação dá


certeza ao homem da sua transcendência. Tendo condição de ser possível ela se
realiza no quotidiano de cada ser humano. Ele é capaz de experimentar Deus, pois
foi atingido por Deus, que se dá na relação com o ser humano.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A questão da revelação é um dado fundante da teologia, pois seus postulados
partem do dado revelado. Ela é um gesto gratuito de Deus que se encontra com o
ser humano, fazendo- se capaz de ser conhecido e sobretudo, fazendo com que o
homem se reconheça a si próprio.
A revelação antecede o ser humano, pois seu conteúdo é Deus mesmo. Nesse
sentido, Deus envolve o ser humano por inteiro, leva ao ápice sua contingência,
propiciando ao homem a capacidade de experimentar Deus, como experiência
transcendente.
A identidade do ser humano se solidifica nessa experiência, ao relacionar-se com
a alteridade de Deus que é a revelação em si, o homem ao se deparar com o

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‘totalmente outro’, reconhece-se capaz Dele, e como ser que supera as penúltimas
coisas dadas pela aparência.
Dessa forma, a revelação é a condição de possibilidade para que o homem possa
experimentar Deus e construir conhecimento a partir daí. A alteridade de Deus
reforça a identidade humana como um ser capaz de ir além de si.

REVELATION:
POSSIBILITY CONDITION FOR THE HUMAN EXPERIENCE OF GOD

ABSTRACT
Revelation is the founding theme of theology and concentrated area of fundamental
theology. It is the possibility condition for that the human being could make its
experience with God. In this sense, the way a man does to God is rather the way that
God made to the human being; its approach to the divine is possible only by divine
approach to the human being. God makes himself known, he does himself
experience for the man. The relationship that man has with God, from revelation,
reinforces the human being identity as thinking and transcendent subject. God is
revealed in the human condition, in the situation of man, approaches the human
being as another human being and by his creation. To find it is finite, the human
being discovers itself as a caused being; the revelation, in fact, gives fullness to the
human being and makes it more and more appropriate to its situation of a being who
overcomes itself.
Keywords: Condition. God. Revelation. Transcendent. Experience.

REFERÊNCIAS
CONCÍLIO VATICANO II. Dei Verbum: constituição dogmática sobre a revelação
divina. 19. ed São Paulo: Paulinas, 2011.

BOTTIGHEIMER, Christoph. Manual de Teologia Fundamental: a racionalidade da


questão de Deus e da Revelação. Petrópolis: Vozes, 2014.

FORTE, Bruno. Teologia da História: ensaio sobre a revelação, o início e a


consumação. São Paulo: Paulus, 1995.

RAHNER, Karl. Curso Fundamental da Fé: introdução ao conceito de cristianismo.


São Paulo: Paulinas, 1989.

RATZINGER, Joseph. Introdução ao cristianismo: preleções sobre o símbolo


apostólico com um novo ensaio introdutório. 7. ed. São Paulo: Loyola, 2014.

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