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Inimputabilidade ou impunidade, qual o objetivo do ECA?

Recentemente muito se tem falado sobre a responsabilização judicial de adolescentes


que cometem ato infracional, mormente pela discussão que paira nosso legislativo sobre
a redução da maioridade idade penal. É nesse contexto que surge a necessidade de
esclarecer alguns pontos, talvez pouco explicados ou conhecidos por parte de nossa
sociedade.

Desde 1988, com a promulgação da Constituição Federal o Brasil passou a adotar a


teoria da proteção integral para crianças e adolescentes, tal teoria fez com que
desaparecesse do nosso ordenamento jurídico a teoria da situação irregular, que
limitava-se apenas a oferecer cuidados aos menores¹ que estivessem em situação de
risco, ora elencados no artigo 2º do Código de Menores; enquanto que pela teoria da
proteção integral, crianças e adolescentes passaram a ser reconhecidas como sujeitos
em processo peculiar de formação, necessitando assim, serem regidos por um sistema
especial, independentemente de sua situação.
Em 1990 entrou em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), e
então a teoria da proteção integral ganhou ainda mais força. O ECA trouxe em seu texto
garantias fundamentais para as crianças e adolescentes, necessárias, visto sua peculiar
condição de pessoa em formação. No entanto, atualmente tem-se levantado muitos
questionamentos no que diz respeito a inimputabilidade dos menores de 18 (dezoito)
anos estabelecida pelo Estatuto e pela Carta Constitucional, mas vemos de forma
axiomático a maneira que a lei 8.069/90 trabalha a responsabilização judicial de
crianças e adolescentes.
É engano achar que a inimputabilidade a que se refere o art. 104 do ECA, assim como
o art. 228 da CF/88, é sinônimo de impunidade, pois o adolescente que pratica uma
conduta delituosa estará sujeito as medidas referidas no Estatuto, que vão de advertência
à internação em estabelecimento educacional. Esta inimputabilidade a qual se refere os
artigos supramencionados, diz respeito a incapacidade que tem a criança e o adolescente
em responder por sua conduta delituosa, incapacidade essa demonstrada tão somente
por sua condição peculiar de pessoa em formação.
No tocante a impunidade é necessário destacar que essa ocorre quando há ausência de
castigo, punição ou sanção, o que não é o caso do Estatuto, pois conforme mencionado,
ele prevê diversas medidas socioeducativas que servem para educar e punir o
adolescente que cometeu ato infracional. Ainda nesse sentido, vale destacar que ao
preocupar-se com a inimputabilidade da população infanto-juvenil, o legislador teve
por base a permeabilidade de sociabilização que tem essa população.

As medidas não se restringem apenas aos adolescentes, no que se refere a criança (até
doze anos incompletos) autora ato infracional, o ECA trouxe a aplicação das medidas
de proteção, que são aplicadas pela autoridade competente, incluindo-se neste caso, o
Conselho Tutelar. Já o adolescente (entre doze e dezoito anos de idade) que cometer ato
infracional estará sujeito à aplicação de medida socioeducativa, podendo variar de
advertência à internação em estabelecimento educacional.
Essas medidas socioeducativas, aplicáveis somente aos adolescentes autor de ato
infracional, possui previsão legal nos incisos do artigo 112 do Estatuto da Criança e do
Adolescente, são elas: advertência; obrigação de reparar o dano; prestação de serviços
à comunidade; liberdade assistida e internação em estabelecimento educacional. Mais
uma vez, vale destacar que as crianças, quando da prática de ato infracional estão
sujeitas as medidas de proteção.
No que se refere aos objetivos das medidas socioeducativas, a Lei nº 12.594/12 (Lei do
Sinase), estabelece-os como sendo: a responsabilização do adolescente quanto às
consequências lesivas do ato infracional, sempre que possível incentivando a sua
reparação; a integração social do adolescente e a garantia de seus direitos individuais e
sociais, por meio do cumprimento de seu plano individual de atendimento e a
desaprovação da conduta infracional, efetivando as disposições da sentença como
parâmetro máximo de privação de liberdade ou restrição de direitos, observados os
limites previstos em lei.
Sendo assim, temos que não há que se falar em impunidade aos adolescentes que
cometem ato infracional, o Estatuto da Criança e do adolescente prevê punições, no
entanto para a aplicação dessas deverá sempre ser levado em consideração a capacidade
que o autor do ato delituoso tem de cumpri-la, além das circunstâncias e gravidade da
infração. Isso diz respeito a condição pessoal do adolescente (psicológicas, físicas,
sociais, familiares e econômicas) e essa é a variável da medida.
A medida socioeducativa é, portanto, a manifestação do Estado, em resposta ao ato
infracional praticado por menores de 18 anos, cuja aplicação visa inibir a reincidência,
além de possuir caráter pedagógico, que tem por principal finalidade a reinserção do
adolescente em conflito com a lei na vida em sociedade. Possui também caráter
sancionatório, que servem como resposta à sociedade pela lesão que lhe foi causada.
Isso desmistifica totalmente a ideia de que jovens autores de ato infracionais não sofrem
nenhum tipo de sanção.

Desta feita, é válido afirmar que as medidas socioeducativas, apesar de possuírem em


sua natureza a finalidade de "repreensão" e correção ao adolescente pelo ato cometido
em desconformidade com Lei, deverá ser aplicada de maneira tal que este torne ao
convívio social pronto para não cometer mais nenhum ato infracional, devendo para
tanto existirem meios eficazes de atingir essa finalidade.

1 - O termo "menores" aqui utilizado, faz referência à situação do Código de Menores.


Importante destacar que após a entrada em vigor do Estatuto da Criança e do
Adolescente, a expressão tornou-se não deve ser mais usada, visto seu tom pejorativo
e arcaico.