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Resenhas 167

la. A preferência por Espanha é notória, a caraterística hospitalidade das nossas


ansiava regressar, quiçá pela insuportabi- gentes.
lidade das nossas estalagens, sujas e des- Absolutamente incontornável, pelo ri-
confortáveis, ainda pelo péssimo estado gor da análise e pluralidade disciplinar a
das estradas, a rudeza das gentes, o que a Introdução de José Batista de Sousa. É um
levou a escrever ‘os Portugueses são, em notável historiador e investigador das no-
geral, servis e mal criados’. vas gerações, que estuda a Holland House
John Allen é consideravelmente mais e é uma das mais importantes personali-
tolerante em relação às pessoas, consi- dades científicas das relações anglo-por-
derando os nossos homens mais altos tuguesas nos domínios da Cultura.
e as mulheres com melhor figura. Mais Estamos, em nosso entender, perante
marcado pela política e pela cultura, Lord uma obra que interessa não só aos estu-
Holland não deixa de referir que a ópera diosos do saber histórico, na sua possível
em Portugal não desmerecia das restant- poliedria, como ao público em geral, por
se capitais europeias, e as suas anotações ser uma leitura de proveito intelectual e
políticas aclaram muito do processo de ameno reconhecimento de um Portugal
transformação que estava em curso. onde nos podemos reconhecer.
Assinale-se que os Holland eram as-
sumidamente marcados pelo livre pen- José Henrique Dias
samento, pelo que, ao contrário de ou- Instituto Superior Miguel Torga
tros viajantes britânicos, não maifestam
quaisquer preconceitos anticatólicos. No
contacto com mosteiros, reconhecem a
solidez de caráter de monjes, apreciam
a beleza exterior das igrejas. Na visita a Clara Pereira Coutinho. 2011. Metodologia
Coimbra, se há um interessante registo de da Investigação em Ciências Sociais e Hu-
ser uma cidade de padres e estudantes, manas: Teoria e Prática. 343 pp. Coimbra:
aos últimos aponta-se a soberba, ao mes- Almedina. ISBN 978-972-40-4487-3
mo tempo exalta-se a excelência da biblio-
teca joanina, entre outas apreciações de Este é um manual de consulta bastante útil
viés cultural. para alunos de Mestrado e Doutoramento,
Na passagem por Pombal, fica regis- na planificação metodológica e tratamen-
tada a modéstia do caixão insepulto do to de resultados, apresentando, de forma
ministro de D.José, a aguardar mausoléu clara e objetiva, os tópicos fundamentais
conveniente, tapado com um pano preto para a realização de um trabalho de inves-
a um canto da igreja, desde 1782, ano da tigação científica. Cada capítulo do livro de
sua morte. Clara Pereira Coutinho termina com a apre-
Reiteramos, enfim, a importância sentação de atividades e com referências
dos três diários, independentemente de bibliográficas, constituindo outra impor-
imprecisões vaticinadoras de desfechos tante mais valia desta obra que é dividida
militares e políticos, ou por isso mesmo, em três partes e 15 capítulos.
para um melhor conhecimento de Portu- A Parte I – Fundamentos Teóricos da
gal, suas fauna e flora, seus costumes e Investigação em Ciências Sociais e Huma-
práticas, naquele período crucial da nossa nas – compreende o capítulo 1, Paradig-
história. mas, Metodologias e Métodos de Inves-
Nas várias entradas, é assinalável o tigação, explorando a transição do nível
olhar sobre os principais monumentos, paradigmático para o nível metodológico
a curiosidade popular e os convites das e a tendência atual de integração metodo-
gentes gradas das terras, as oferendas, lógica.
168 Interações

A Parte II – O Processo de Investiga- Inferencial, aborda a curva normal; a no-


ção em Ciências Sociais e Humanas – in- ção de inferência estatística; testes de hi-
clui os capítulos 2 a 10. póteses (uni caudais ou bilaterais); nível
O capítulo 2 – Problema e Hipótese de significância do estudo; distinção entre
– é de extrema utilidade, uma vez que a erro tipo I e erro tipo II. O capítulo termi-
correta formulação do problema de inves- na com a distinção estatística paramétri-
tigação é um passo fundamental para a ca/estatística não paramétrica e apresen-
concretização da pesquisa. A autora abor- tando os critérios para o seu uso.
da o grau de especificidade do problema Em Análise de Dados em Planos Qua-
de investigação, as fontes para a definição litativos, o capítulo 9, são apresentadas
e critérios de avaliação e discute a hipóte- a redução de dados e sua codificação e
se de investigação. a análise de conteúdo, abordando a pré-
No capítulo 3 – Revisão da Literatura -análise, exploração do material e trata-
– são explicadas as fases da revisão da li- mento dos resultados.
teratura; a revisão das fontes secundárias; Nesta sequência, a autora desenvolve,
identificação das palavras chave ou des- no capítulo 10 – Validade e Fiabilidade na
critores; localização das fontes primárias Investigação Qualitativa – uma aborda-
e como estas devem ser organizadas; e gem de diferentes correntes qualitativas,
a importante questão de como avaliar a desde a posição purista à unificação ter-
literatura. minológica, terminando com a referência
De seguida, o capítulo 4 – Definição à natureza da verificação na pesquisa qua-
de Variáveis – trata da classificação das va- litativa.
riáveis, a sua escala de medida e o contro- A discussão é dirigida no capítulo 11
lo, fazendo referência à validade interna e – O Relatório de Investigação – para o
validade externa. modo como se deve proceder à divulga-
Com o título Amostra, o capítulo 5 ção dos resultados, sugerindo a estrutura
apresenta a forma de seleção da amostra, e redação de um relatório de investigação.
um passo crucial na investigação, num A Parte 3 – Planos de Investigação –
quadro probabilístico e não probabilísti- compreende os capítulos 12 a 15.
co, e a dimensão da amostra. No capítulo 12 – Investigação Experi-
De modo sistemático, são apresen- mental – a autora começa por fazer uma
tados, no capítulo 6 – Recolha de Dados breve caracterização geral, seguindo-se a
– os principais procedimentos de recolha apresentação dos planos pré-experimen-
de dados e os instrumentos de recolha. O tais, planos experimentais puros, planos
capítulo termina com a questão da valida- quase experimentais, terminando com as
de e fiabilidade do instrumento, indican- possíveis fontes de invalidade e de erro
do diversas técnicas para a concretização em cada um dos planos abordados.
deste objetivo. Assim, à semelhança do capitulo an-
No capítulo 7 – Estatística Descritiva terior, o tema do capítulo 13 – Planos Não
– Clara Pereira Coutinho explora as prin- Experimentais ou Descritivos – são os
cipais técnicas de análise no domínio da principais planos não experimentais: pla-
estatística descritiva: apresentação de da- no ex post facto ou causal comparativo;
dos de uma distribuição (tabelas de fre- plano correlacional; inquérito ou survey.
quência); descrição das distribuições; me- O capítulo termina com a referência a es-
didas de tendência central e medidas de tudos psicométricas relativos a cada um
variabilidade; medidas de relação (dando destes tipos de planos.
ênfase aos vários tipos de coeficiente de O capitulo 14 – Planos Qualitativos –
correlação e sua representação gráfica). constitui uma breve caracterização geral,
O capítulo 8, com o título Estatística apresentando o estudo de caso, os estu-
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dos etnográficos e os critérios para a ava- lar porque a autora aborda metodologias
liar a qualidade de um estudo qualitativo. qualitativas e metodologias quantitativas,
E o capítulo 15 – Planos Multi-Me- permitindo compreender as vantagens
todológicos ou Mistos – constitui uma e as desvantagens de cada uma destas
abordagem sobre a investigação-ação, os opções metodológicas e, de igual modo,
estudos de avaliação e a investigação ana- compreender o porquê da escolha por
lítica, terminando com um quadro síntese uma metodologia mista.
muito útil e de fácil consulta.
Consequentemente, este é um livro Susana Ramos
de grande utilidade para aqueles que Faculdade de Desporto e Educação
desenvolvem investigação científica em Física da Universidade de Coimbra /
Ciências Sociais e Humanas, em particu- Instituto Superior Miguel Torga