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FEBVRE, Lucien. O homem do século XVI. In: Revista de História, n.1, 1950.

Lucas Brito Santana Da Silva

Nesta palestra, realizada nos anos 50 do século passado em território


brasileiro, Lucien Febvre advoga uma nova era da ciência histórica. Uma nova História
da qual ele e seu amigo Marc Bloch estiveram à frente, desde antes mesmo da
fundação da revista Annales. Para cumprir seu objetivo, Febvre realiza uma análise
comparativa da experiência histórica dos homens do século com os homens do século
XX, demonstrando os rumos que de agora em diante a História deveria tomar. Não
mais uma história apenas dos grandes homens, não uma história meramente
acontecimental, onde os próprios acontecimentos suplantam os homens. A nova
história deve buscar o homem – que nunca permanece o mesmo no transcorrer do
tempo – é este que deve ser o seu objeto de estudo, tal como nos diz o próprio Marc
Bloch n’Apologia da História, com a sua metáfora do ogro à procura de carne humana.
Abaixo seguem-se os principais pontos da palestra.

- A história comumente estudava os grandes acontecimentos, as realizações


destrutivas dos homens, as guerras, outros tipos de desavenças entre as nações,
entre as etnias também – entretanto, não estudava os próprios homens enquanto os
sujeitos que deflagraram estes acontecimentos e processos históricos.

- O cristianismo colocou o homem como centro do universo, abaixo de Deus mas


acima de todas as outras criaturas. Com o advento do século XVI e a ascensão da
ciência o homem é destituído do trono que havia dado a si, lançando-o à ordem do
mundo natural e material, onde ele passa a ser mais uma existência deste mundo
como qualquer outro animal.

- O florescer da ciência não necessariamente significou a morte da religião nem o


início de conflitos intermináveis. A religião aos poucos vai de encontro às
transformações que a atividade científica imprimiu no espirito humano, numa mudança
lenta mas que pode-se dizer colaborativa, sem nunca resignar-se do papel de censora
da ordem moral, a qual o homem não está permitido a estilhaçar.

- O homem muda constantemente e é função da história relocar este homem na sua


singularidade espaciotemporal, mostrando o quanto suas faces mudam época a
época.

- A comparação dos contemporâneos aos homens dos quinhentos, em sua maioria


rurícolas, possibilita enxergar claramente o quão diferentes ambos são. No século XVI
francês, os homens estavam à deriva de problemas que os fazem nômades, a
FEBVRE, Lucien. O homem do século XVI. In: Revista de História, n.1, 1950.

exemplo de um incêndio que poderia fazer uma família separar-se por não mais
possuir uma habitação e talvez nunca mais se encontrarem. Tal nomadismo também
atravessa a vida dos “grandes”, como o Rei Francisco I e sua corte que viviam à
estrada, e ao mar, atravessando os territórios franceses e levando à extenuação
todos.

- Ao contrário, os homens contemporâneos são essencialmente urbanos, invadem os


campos e os urbanizam, tendo a sua disposição tecnologias, técnicas e instrumentos
que garantem a sua vida sedentária e sua sobrevivência, ainda que em períodos
inférteis ou catastróficos. A mudança das estações climáticas poderia levar os homens
quinhentistas à morte, além de condicionarem todas atividades cotidianas destes
homens, algo que não mais é tão determinante na vida cotidiana dos contemporâneos.

- No século XVI não havia uma polícia que pudesse garantir e fizesse as pessoas
sentirem-se seguras sempre que estivessem às ruas.

- Atualmente o mundo humano é completamente matematizado, das construções


urbanas mais simples às maquinas mais diversas. Mesmo pessoas analfabetas
possuem algum domínio das operações matemáticas, algo totalmente estranhos aos
homens daquele século, quando apenas pouquíssimos dominavam tais operações e
a própria matemática não possuía um sistema simbólico universal. Ainda assim, os
quinhentistas, assim como homens de outras épocas, eram capazes de criações
complexas.

- A ausência de instrumentos de medição de tempo que pudessem permitir a


compartimentação temporal dos dias de forma infinitesimal fazia os homens do
quinhentos terem outra experiência do transcorrer do tempo. Como consequência
disso, os homens eram cronologicamente acríticos, e também não estavam
preocupados com o investimento de tempo que as suas criações demandavam. Aos
contemporâneos essa despreocupação com a passagem do tempo soa, certamente,
desesperador.

- Enquanto hodiernamente nos afeiçoamos mais à visão do que a qualquer outro


sentido, para as pessoas do século dezesseis a audição era o sentido mais valorado,
sendo as narrativas textuais, os diálogos cotidianos, focavam-se numa representação
das coisas construídas mais a partir da percepção da audição do que da visão;
representações acústicas? Mais. A audição, o ouvir, era predominantemente a função
pela qual a disciplina poderia ser desenvolvida, como no caso das praticas religiosas.
FEBVRE, Lucien. O homem do século XVI. In: Revista de História, n.1, 1950.

Todas essas particularidades agem sobre os homens, tornando-os singular. A


História, o historiador deve inclinar-se a elas, percebendo as diferenças, as
semelhanças, as continuidades e descontinuidades, as rupturas os desaparecimentos
Lucien Febvre nos diz que a história é uma ciência que estuda o homem em toda a
sua integridade, daí ser necessárias uma história dos sentimentos, uma história das
habitações, das indumentárias, das relações sociais e pessoais, da produção material,
econômica, política também; ou seja, todo o leque de temas e objetos que a história
tomou para si depois da década de 70 do século XX – talvez Febvre ficasse surpreso
com a amplitude dos interesses atuais da história, que vai dos mais frívolos aos mais
sérios e dos quais a sociedade realmente possui demanda.

Algo que faz a leitura dessa palestra de Lucien Febvre ser interessante, e para
os que se permitem até nostálgica, é que podemos ver os esboços e projetos que
estavam sendo feitos para a história, e que muitas dessas perspectivas do futuro da
História vieram a se realizar. A partir deste texto, podemos também inferir a função
que a história assume para Febvre, aí a história aparece como aquilo que permite
entender a alteridade. Igualmente nos fala Durval Muniz Albuquerque Júnior, para
quem a história além de servir à alteridade, é responsável por “sensibilizar o ser
sensível” que é o homem. Mas das funções da história muito se tem dito, com as mais
diversas conclusões.

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