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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA

CENTRO DE TECNOLOGIA
CURSO DE GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA CIVIL

COMPARAÇÃO DE MODELOS DE ANÁLISE DE


ESTACAS CARREGADAS TRANSVERSALMENTE

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO EM ENGENHARIA CIVIL

Vinicius Martins de Oliveira Estivalett

Santa Maria, RS, Brasil


Agosto, 2016
COMPARAÇÃO DE MODELOS DE ANÁLISE DE ESTACAS
CARREGADAS TRANSVERSALMENTE

por

Vinicius Martins de Oliveira Estivalett

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Curso de Engenharia Civil,


Centro de Tecnologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, RS),
com requisito parcial para obtenção de grau de
Engenheiro Civil

Orientador: Prof. Dr. José Mario Doleys Soares

Santa Maria, RS, Brasil


Agosto, 2016
Universidade Federal de Santa Maria
Centro de Tecnologia
Curso de Engenharia Civil

A Comissão Examinadora, abaixo assinada, aprova o Trabalho de Conclusão de


Curso:

COMPARAÇÃO DE MODELOS DE ANÁLISE DE ESTACAS


CARREGADAS TRANSVERSALMENTE

elaborado por
Vinicius Martins de Oliveira Estivalett

como requisito parcial para obtenção do grau de


Engenheiro Civil

Comissão Examinadora

José Mario Doleys Soares, Dr.


(Presidente/Orientador)

Talles Augusto Araújo (UFSM)


.

Alessandro Onofre Rigão (UFSM)

Santa Maria, Agosto de 2016


AGRADECIMENTO

Aos meus pais, Marta e João, pelo carinho, compreensão e suporte durante a jornada
da minha graduação.
Ao meu orientador, Prof. José Mario Doleys Soares, símbolo do magistério exercido
com dedicação e retidão profissional. Pelas conversas que fizeram possível a existência do
presente trabalho e as opiniões sinceras que o levaram ao formato final.
À Eng. Bárbara Maier Rossatto, pela amizade e paciência nas trocas de materiais e
opiniões do decorrer da composição desse trabalho.
Aos demais membros do corpo docente da Universidade Federal de Santa Maria, pelos
conhecimentos transmitidos nesses anos de graduação, pela paciência e amizade que me
dispensaram.
Aos colegas e amigos, verdadeiros companheiros de jornada, pela amizade,
companheirismo e paciência, sempre prontos a consolar, ajudar e apoiar nas mais diversas
situações que passamos juntos nesses anos de graduação.
Porque a natureza é infinitamente variável, os
aspectos geológicos da nossa profissão nos
asseguram que nunca haverá dois trabalhos
exatamente iguais. Por isso, nós nunca precisamos
temer que a nossa profissão se torne rotineira ou
maçante. Se assim for, podemos ter a certeza de que
não a estamos praticando adequadamente.

(R. B. Peck)
RESUMO

Trabalho de Conclusão de Curso


Curso de Graduação em Engenharia Civil
Universidade Federal de Santa Maria

COMPARAÇÃO DE MODELOS DE ANÁLISE DE ESTACAS


CARREGADAS TRANSVERSALMENTE

AUTOR: VINICIUS MARTINS DE OLIVEIRA ESTIVALETT


ORIENTADOR: JOSÉ MARIO DOLEYS SOARES
Data e Local da Defesa: Santa Maria, 31 de agosto de 2016.

O presente trabalho tem como objetivo estabelecer uma comparação entre


os modelos de análise de estacas submetidas a carregamentos transversais. Para
tanto se estimou deflexões de topo de estaca para uma estaca ensaiada por Souza
(2006), por meio da solução analítica de Miche e pelos métodos de Davisson e
Robinson e de Matlock e Reese, com o objetivo de avaliar os resultados obtidos
pelos mesmos e a influencia de diferentes valores recomendados pela literatura
para a constante de coeficiente de reação horizontal de areias. Como conclusão,
se percebe a pouca influência entre diferentes valores da constante de
coeficiente de reação horizontal para um mesmo grau de compacidade no valor
de deflexão apontado. Entretanto, valores apontados para graus de compacidade
diferentes podem gerar grandes diferenças na previsão de deflexão obtida, sendo
especialmente sensível o método de Matlock e Reese. Ainda se pode observar a
influência das camadas superiores do solo na deflexão da estaca, coadunando
com a recomendação de substituição de camadas superiores de solo para
melhora da resistência a esforços transversais pelas estacas.
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Cinemática de uma estaca submetida a um carregamento vertical ......................... 16


Figura 2 – Mecanismo de transferência de carregamento em estacas carregadas
transversalmente ....................................................................................................................... 17
Figura 3 – Distribuição da tensão do solo ao redor da estaca antes e após deflexão lateral .... 17
Figura 4 – Cinemática de estacas rígidas carregadas lateralmente ........................................... 18
Figura 5 - Cinemática de estacas flexíveis carregadas lateralmente ........................................ 19
Figura 6 - Distribuição da resistência lateral em argilas .......................................................... 20
Figura 7 - Mecanismos de ruptura de estacas curtas em solo coesivos .................................... 21
Figura 8 - Mecanismos de ruptura de estacas longas em solo coesivos ................................... 21
Figura 9 - Estaca curta em solos coesivos ................................................................................ 22
Figura 10 - Estaca intermediária em solos coesivos ................................................................. 22
Figura 11 – Estaca longa em solos coesivos............................................................................. 23
Figura 12 - Mecanismo de ruptura de estacas curtas em solos não coesivos ........................... 24
Figura 13 - Mecanismo de ruptura de estacas longas em solos não coesivos .......................... 24
Figura 14 - Estaca curta em solo não coesivo .......................................................................... 25
Figura 15 - Estaca intermediária em solo não coesivo ............................................................. 25
Figura 16 - Estaca longa em solo não coesivo ......................................................................... 26
Figura 17 – Modelos de interação solo-estrutura ..................................................................... 28
Figura 18 – Viga de fundação sobre base elástica .................................................................... 29
Figura 19 - Abordagem de reação do subleito .......................................................................... 30
Figura 20 – Uma estaca carregada transversalmente apoiada em uma cama de molas............ 31
Figura 21 – Modelo de uma estaca carregada transversalmente com curvas p-y..................... 32
Figura 22 – Transformação da pressão em carga linear ........................................................... 34
Figura 23 –Variações do módulo com a profundidade ............................................................ 34
Figura 24 – Estaca equivalente proposta por Davisson ............................................................ 38
Figura 25 – Valores de propostor por Davisson ................................................................. 39
Figura 26 - Valores de propostor por Davisson .................................................................. 40
Figura 27 - Perfil Geotécnico: a) litologia; e, b) resultados dos ensaios SPT .......................... 42
Figura 28 - Deflexões medidas na estaca E1 para diversos carregamentos ............................. 43
Figura 29 - Deflexões da estaca E1 previstas pela solução de Miche para diversos .......... 45
Figura 30 – Estaca equivalente do método de Davisson e Robinson no programa FTOOL .... 46
Figura 31 - Deflexões da estaca E1 previstas pelo método de Davisson e Robinson .............. 47
Figura 32 - Deflexões da estaca E1 previstas pelo método de Matlock e Reese para
diversos ..................................................................................................................................... 49
Figura 33 - Deflexões da estaca E1 para diversos carregamentos e =7,0 ............................ 50
Figura 34 - Deflexões da estaca E1 para diversos carregamentos e =8,0 ............................ 51
Figura 35 - Deflexões da estaca E1 para diversos carregamentos e =18,0 .......................... 51
Figura 36 - Deflexões da estaca E1 para diversos carregamentos e =20,0 .......................... 52
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Anexo A da NBR 6484: Tabela dos estados de compacidade e de consistência .... 35
Tabela 2 - Valor de segundo Tergazhi (apud Araújo, 2013)............................................... 36
Tabela 3 - Valor de segundo Décourt (apud Araújo, 2013) ................................................ 36
Tabela 4 – Parâmetros adimensionais do método de Matlock e Reese .................................... 41
Tabela 5 – Parâmetros físicos do concreto aos 210 dias .......................................................... 43
Tabela 6 – Características geométricas da estaca E1 ............................................................... 43
Sumário
1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 10
1.1. JUSTIFICATIVA ...................................................................................................... 14
1.2. OBJETIVOS .............................................................................................................. 15
1.2.1. Objetivo Geral .................................................................................................... 15
1.2.2. Objetivos Específicos ......................................................................................... 15
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ....................................................................................... 16
2.1.1. Estacas em solos coesivos .................................................................................. 19
2.1.2. Estacas em Solos Não-Coesivos ......................................................................... 23
2.2. MÉTODOS DE ANÁLISE DISPONÍVEIS .............................................................. 26
2.2.1. Abordagem viga de fundação ............................................................................. 28
2.2.2. Abordagem de meio contínuo ............................................................................ 32
2.3. COEFICIENTE E MÓDULO DE REAÇÃO HORIZONTAIS ................................ 33
2.4. PRINCIPAIS MÉTODOS PARA SOLOS DO TIPO .............................. 37
2.4.1. Solução analítica de Miche ................................................................................. 37
2.4.2. Método de Davisson e Robinson ........................................................................ 38
2.4.3. Método de Matlock e Reese ............................................................................... 40
3. METODOLOGIA ........................................................................................................... 41
3.1. DADOS UTILIZADOS A PARTIR DO EXPERIMENTO DE SOUZA (2006) .... 42
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO .................................................................................... 44
4.1. SOLUÇÃO DE MICHE ............................................................................................ 44
4.2. MÉTODO DE DAVISSON E ROBINSON .............................................................. 46
4.3. MÉTODO DE MATLOCK E REESE....................................................................... 48
5. CONCLUSÃO ................................................................................................................. 53
REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 54
10

1. INTRODUÇÃO

A subestrutura, ou fundação, é a parte da estrutura que é usualmente posicionada sob


a superfície do solo e que transmite o carregamento para o solo ou rocha subjacente
(Winter, 1972). É de tal importância seu estudo que, conforme Hachich (1996), têm sido
igualmente objeto de estudo da história geral e aparecem na Bíblia (Lucas, 6, 47-49;
Reis, 7, 9-10). Kérisel (1985) menciona que as fundações tiveram, desde a mais remota
antiguidade, um cunho religioso e até mesmo místico.
Conforme Huang (2011), as fundações do tipo estaca vêm sendo usadas para
transferir carregamentos de natureza estrutural para camadas resistentes localizadas
abaixo da superfície do solo através dos tempos. Nesse caminho, sua utilização já em
tempos antigos, em vilas e cidades que se localizavam em vales de rios sobre camadas
de solos moles, turfas e em seções propensas a inundações devido à disponibilidade da
água e também para garantir a proteção adequada da área contra invasores. Estes
primeiros tipos de estacas, sob a forma de palafitas, foram usadas para fortalecer solos
com baixa capacidade de carga, logo no final do período neolítico. Da mesma forma,
áreas preservadas localizados no leste europeu apresentam algumas aldeias e
assentamentos que foram construídos diretamente sobre turfa coberto com uma camada
de madeira e grandes fortificações ao redor destes, apoiadas sobre estacas de madeira. A
presença de estacas de fundações tornara possível edificar estruturas em áreas onde as
condições do solo fossem desfavoráveis para a execução de fundações superficiais
(Huang, 2011).
O período contemporâneo da historia da engenharia geotécnica, salienta Hachich
(1996), começa necessariamente com Karl Terzaghi, o pai da mecânica dos solos. Não
só por sua capacidade de liderança, mas principalmente por sua envergadura como
engenheiro, geólogo e cientista, e a determinação com que analisou criticamente o
enorme acerto empírico existente acumulado à época – quer baseados na experiência,
tentativas, experimentos, interpretações e teorias.
Já no Brasil, ainda que com o fato de a fundação do primeiro curso de engenharia
civil datar do ano de 1874, com a criação da Escola Politécnica, no Rio de Janeiro; e os
estudos geológicos (tendo como principal motivação a mineração) do país inspirarem
tratados estrangeiros já no longínquo ano de 1827, o país sofria constantes e por vezes
sérios problemas relacionados com as fundações até o início do século XX. Carestia esta
11

que só viria a ser amenizada por meio do aparecimento da pesquisa tecnológica na


década dos anos 1920.

Campos (2015) define estacas como elementos estruturais esbeltos, comparadas com
o bloco, cravadas ou perfuradas no solo, cuja finalidade é transmitir as cargas a pontos
resistentes do solo por meio de sua extremidade inferior (resistência de ponta) ou do
atrito lateral estaca-solo (resistência do fuste). Definição esta que coaduna com a
estabelecida no item 3.8 da NBR 6122 (ABNT, 2010), a qual completa que sua
execução pode ser feita por equipamentos ou ferramentas.

Ainda segundo Hachich (2006), as fundações por estacas tiveram sua capacidade de
carga procurada, desde o principio do século XX, primeiramente por teorias sem
sucesso como as de Stern (1908) e de Dörr (1922). Do ponto de vista estático, Terzaghi
estendeu seu raciocínio já desenvolvido para fundações profundas, agrupando seus
fatores sob a designação de resistência de ponta e resistência de atrito lateral. Do ponto
de vista dinâmico, desde há muito tempo tentou obtê-la usando dados de cravação e
parâmetros baseados na teoria do choque newtoniano, chegando às chamadas fórmulas
de estacas, com destaque para as antigas de Eytelwein (1820) e Sanders (1850).

As fundações, conforme aponta Alonso (2003), como qualquer parte de uma


estrutura, devem ser projetadas e executadas para garantir, sob a ação de cargas de
serviço, as condições mínimas necessárias de: segurança, tanto no que diz respeito às
resistências dos elementos estruturais que as compõe, quanto às do solo que lhe dá
suporte; funcionalidade, garantindo deslocamentos compatíveis com o tipo e a
finalidade a que se destina a estrutura; e durabilidade, apresentando vida útil, no mínimo
igual ao da estrutura. Nesse aspecto, torna-se necessário um estudo minucioso das
variações das resistências dos materiais constituintes das fundações, do solo e das
cargas atuantes, ao longo do tempo.

Ainda sobre o quesito funcionalidade, salienta Velloso (2010), que toda fundação
sofre deslocamentos verticais (recalques), horizontais e rotacionais em função das
solicitações a que é submetida. Esses deslocamentos dependem do solo e da estrutura,
isto é, resultam da interação solo-estrutura. Quando os valores desses deslocamentos
ultrapassam certos limites, poder-se-á dizer se chegou ao colapso da estrutura pelo
surgimento de esforços para os quais a estrutura não se encontra dimensionada. Pode-se
12

então, dizer que os deslocamentos, conforma a sua magnitude, terão uma influencia
sobre a estrutura, que vai desde o surgimento de esforços não previstos até o colapso.

Tal fato deve ser sempre levado em conta, pois ainda segundo Velloso (2010), em
toda obra de engenharia há certo “risco”, ou seja, probabilidade de um insucesso. Nas
obras de terra e fundações, como decorrência, sobretudo, da natureza do material com
que se trabalha – o solo, esse risco é sensivelmente maior que nas demais especialidades
da engenharia civil. Ainda segundo o autor, Casagrande (1965) agrupa os fatores
constituintes do chamado “risco calculado”: o uso de um conhecimento imperfeito,
orientado pelo bom senso e pela experiência, para estimar as variações prováveis de
todas as quantidades que entram na solução de um problema; e a decisão com base em
uma margem de segurança adequada, ou grau de risco, levando em conta fatores
econômicos e a magnitude das perdas que resultariam de um colapso.
Os incontáveis avanços tecnológicos evidenciados nos últimos anos, quer seja nos
materiais ou técnicas construtivas, se apresentam como ferramentas disponíveis para
execução de obras de construção civil de grande porte. Por condicionantes de natureza
geológica e geotécnica muitas vezes essas obras de elevadas dimensões veem a utilizar
fundações profundas do tipo estaca.
As estacas são comumente utilizadas para transferir forças verticais (sentido axial)
provenientes principalmente da gravidade (como o peso da superestrutura). Exemplos
de estruturas em que estacas são utilizadas como elementos de fundação são prédios
altos, pontes, plataformas de extração de petróleo, torres de transmissão, barragens e
estruturas de contenção de solo. Entretanto, não são apenas forças axiais que as estacas
suportam, Sob ação de esforços horizontais, a seção estaca é submetida a esforços de
momentos fletores, e esforços cisalhantes, os quais tornam o dimensionamento da seção
estrutural como um importante fator, conforme (Viggiani, Mandolini e Russo apud
Born, 2015).Na verdade, algumas estruturas (plataformas de exploração de petróleo,
muros de contenção de solo, cais e molhes) têm como função principal de suas estacas a
transferências de tensões horizontais para o solo (Huang, 2011).
Velloso (2010) salienta que um aspecto fundamental no estudo das estacas
carregadas transversalmente é a reação do solo, ou seja, como o terreno resiste à ação da
estaca, sendo este um problema de considerável complexidade. Sabe-se que essa reação
depende da natureza do solo e do nível do carregamento (uma vez que o solo é um
material não linear), do tipo de solicitação (estática, cíclica etc.) e da forma e dimensão
13

da estaca. Ao se imaginar uma estaca vertical submetida a uma força horizontal aplicada
acima da superfície do terreno, à medida que esta força cresce, os deslocamentos
horizontais da estaca e a correspondente reação do solo crescem, ate atingir a ruptura do
solo, supondo obviamente que a estaca resista às solicitações fletoras que aparecem.
Ações de vento são a origem mais comum de esforços horizontais (e/ou momentos)
que estacas devem resistir. A outra causa principal de esforço lateral são as atividades
sísmicas. Nestas, as movimentações horizontais do solo geram forças laterais que
devem ser resistidas pelas estacas da fundação. Dependendo do tipo de estrutura em
questão, os carregamentos laterais podem ter diferentes causas: para prédios altos e
torres de transmissão, a ação de vento é a causa primária; para plataformas do tipo off-
shore, cais e molhes, as forças horizontais são causadas pela ação das ondas; já nas
cabeceiras de pontes e piers, as forças horizontais derivam do trafego, vento e
movimentação térmica.
As barragens, por sua vez, devem suportar pressões de água que transferem essas
forças horizontais para as estacas de fundação. No caso de estruturas de suporte de
massas de solo, o papel principal das estacas é resistir às forças laterais causadas pelas
pressões laterais exercidas por detrás da parede de contenção. Algumas vezes, as estacas
estão instaladas em encostas, locais de movimentos lentos de terra, com a finalidade de
resistir ao movimento. Nestes casos, as estacas são submetidas apenas às forças laterais.
Estacas podem ser utilizadas para apoiar escavações abertas; neste caso em questão
também não há força axial e o papel principal das estacas é para resistir às forças
laterais. Nos exemplos acima, existem alguns casos em que as cargas horizontais
externas agem a cabeça da estaca (isto é, na secção de topo da estaca). Esse
carregamento convencionou-se chamar ativo (Fleming et al., 1992, Reese e Van Impe,
2001). Exemplos comuns desse tipo são cargas laterais (e momentos) transmitidos para
a estaca provenientes de superestruturas como edifícios, pontes e plataformas offshore.
Por vezes, a força horizontal aplicada atua de uma forma distribuída ao longo de uma
parte da estaca; esse carregamento é denominado carregamento passivo. Podem ser
dadas como exemplos de carregamento passivo as cargas atuando em estacas devido ao
movimento das encostas ou em estacas de apoio a escavações abertas. Há casos em que
as cargas horizontais externas são mínimas ou mesmo inexistentes; mesmo assim,
muitas vezes, existem momentos externos por causa de excentricidades acidentais
causadas por defeitos de construção (por exemplo, construções fora de prumo),
permitindo que cargas axiais induzam momentos. Assim, ainda que a priori contra
14

sensuais, na maioria dos casos as estacas são sim submetidas a cargas laterais.
Consequentemente, a análise adequada das estacas submetidas a carregamentos
transversais é de fundamental importância para a profissão de engenharia geotécnica e
civil.

1.1.JUSTIFICATIVA

São vários os exemplos de fundações submetidas a forças horizontais e momentos:


estruturas portuárias, que estão sujeitas a forças de arranchamento e colisões de navios,
ou mesmo estruturas offshore e nearshore, sujeitas ao impacto de ondas; fundações de
maquinários sujeitos a vibrações; estruturas de contenção, estacas justapostas, tangentes
ou secantes sujeitas ao empuxo do solo; linhas de transmissão e aero geradores, onde
sua relação de peso frente ao esforço dinâmico submetido (vento), pelo movimento dos
cabos e rodar das hélices respectivamente; fundações de pontes, sujeitas a esforços de
correntes d’água, esforços devidos a aterros de encontro (efeito Tschebotarioff), e/ou
forças devido à aceleração e frenagem de veículos; até edificações de grande porte, as
quais sejam pela esbeltez, altura ou posição geográfica, possam estar submetidos a
esforços decorrentes do vento e/ou terremotos.
Existem significativas diferenças de mecanismos e comportamentos entre as estacas
carregadas verticalmente e as carregadas horizontalmente. As estacas carregadas
verticalmente estão submetidas à ação de compressão confinada, na qual o nível de
tensão é muito menor que a resistência do material em si. Sendo assim, uma possível
ruptura se evidenciará na interface solo estaca. Entretanto, a estaca submetida a esforços
transversais sofre com esforços de momentos fletores e esforços cisalhantes
provenientes desses.
Os solos residuais, presentes em regiões tropicais e subtropicais, produtos de
intemperismo e que possuem certa formação de estrutura devido à cimentação natural,
tem geralmente sua densidade diminuída em relação a seu material de origem, e tem sua
porosidade e condutividade hidráulica aumentadas. Fatores responsáveis por
características geotécnicas diferentes de solos de origem sedimentar de mesma
densidade de distribuição granulométrica. No sul do Brasil, solos residuais de basalto
são comuns.
Conforme Schnaid e Huat (2012), a formação do solo dada pelo intemperismo da
rocha mãe produz características de comportamento mecânico que não necessariamente
15

são definidas por métodos usuais da geotecnia, entre algumas razões, pelo estado do
solo ser variável dada a complexa formação geológica, não podendo os modelos
constitutivos clássicos oferecer uma boa aproximação de sua natureza.
Logo, o presente trabalho se justifica pela necessidade de se avaliar os principais
métodos usuais de previsão de deflexão em estacas, analisando se seus modelos e suas
simplificações são capazes de gerar valores estimados correspondentes a valores obtidos
em ensaio de estacas carregadas transversalmente em campo.

1.2.OBJETIVOS

1.2.1. Objetivo Geral

Comparar modelos de análise de estacas carregadas


transversalmente por meio de uma mesma estaca, e comparar com os resultados
provenientes de ensaios reais no trabalho de Souza (2006).

1.2.2. Objetivos Específicos

 Explicar a estática, cinemática e possíveis modelos de colapso


envolvidos no problema das estacas carregadas transversalmente;
 Analisar os diferentes comportamentos de estacas carregadas
transversalmente quando imersas em diferentes tipos de solo;
 Avaliar os diversos modelos de análise das estacas do problema;
 Apresentar a equação diferencial de uma estaca longa;
 Apresentar as principais soluções para a equação diferencial de uma
estaca longa;
 Analisar os resultados provenientes das soluções, observando sua
aplicabilidade para cada tipo de solo, e comparar os resultados entre
si e com valores aferidos em campo.
16

2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.1 CINEMÁTICA E MODELOS DE COLAPSO DE ESTACAS


CARREGADAS TRANSVERSALMENTE

A cinemática das estacas submetidas a carregamentos axiais é relativamente


simples: a estaca movimentar-se-á verticalmente para baixo sob a ação do
carregamento, e no caso das forças de resistência (em seus componentes lateral e de
ponta) serem excedidas para além de seus valores limites, então a estaca sofrerá uma
deflexão vertical excessiva, levando a seu colapso (Figura 1).

Figura 1 – Cinemática de uma estaca submetida a um carregamento vertical

Adaptada de Salgado (2008)

O mesmo raciocínio não se aplica à modelagem das estacas submetidas a


carregamentos transversais, exigindo modelagens mais complexas, variando com o tipo
de estaca (Figura 2).
17

Figura 2 – Mecanismo de transferência de carregamento em estacas carregadas transversalmente

Adaptada de Salgado (2008)

Sob influência de um carregamento horizontal, a estaca poderá vir a girar, fletir


ou transladar (Fleming et al., 1992). À medida que a estaca se move na direção da força
aplicada, um espaço pode vir a formar-se entre a parte de trás da estaca e o solo daquela
área do fuste ao longo do trecho mais superficial (Figura 3).

Figura 3 – Distribuição da tensão do solo ao redor da estaca antes e após deflexão lateral

Adaptada de Huang (2011)


18

Se a estaca for relativamente curta e de diâmetro grande, ela não irá curvar-se
muito, tentando a antes rotacionar ou transladar-se. Define Born (2015) que em geral,
no caso de estacas consideradas com topo livre, se o momento máximo que estaca
estiver submetida (devido ao carregamento imposto) for inferior ao momento de
plastificação do elemento estrutural, esta tem comportamento rígido, caso contrário, terá
comportamento flexível, com o surgimento de uma rótula de plastificação no ponto de
maior momento. Usualmente, não é comum o caso de topo livre, geralmente a estaca
está conectada a um bloco, o qual impede totalmente ou parcialmente a rotação,
enquanto permite deslocamento horizontal. Tais estacas são denominadas estacas
rígidas.

No caso de estacas consideradas com topo restringido, a mesma verificação


quanto ao momento imposto, comparado com o momento de plastificação do elemento
estrutural é realizada, porém devido ao engastamento do topo, altera-se o diagrama de
momentos, levando o momento máximo para a conexão entre estaca e bloco. Neste
ponto surge a figura da estaca intermediária, a qual apresenta um giro, e um rompimento
pela formação de uma rótula de plastificação na conexão com o bloco. A estaca rígida
não apresenta giro, somente se desloca horizontalmente (translação). Já a estaca flexível
acaba por apresentar formação de duas rótulas de plastificação, ao longo do fuste e
também na conexão com o bloco (Figura 4).

Figura 4 – Cinemática de estacas rígidas carregadas lateralmente

Adaptada de Huang (2011)


19

Para estas estacas, o problema da determinação do efeito do carregamento


transversal reside na interação solo-estrutura, ou seja, a deflexão lateral da estaca
depende da resistência do solo; e a resistência do solo é função, por sua vez, da deflexão
da estaca (Figura 5).

Figura 5 - Cinemática de estacas flexíveis carregadas lateralmente

Adaptada de Huang (2011)

2.1.1. Estacas em solos coesivos

Del Pino Júnior (2003) dedica especial atenção aos diferentes comportamentos
apresentados pelas estacas carregadas transversalmente em solos puramente granulares
e puramente coesivos. A provável distribuição de resistência máxima em solos
puramente coesivos é apresentada na Figura 6:
20

Figura 6 - Distribuição da resistência lateral em argilas

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)

Modelo este baseado na simplificação de Broms (1964), tendo a força


horizontal, a coesão não drenada do solo e o diâmetro da estaca.

Os mecanismos de ruptura das estacas carregadas transversalmente em solos


puramente coesivos são apresentados conforme seu tipo nas Figura 7 e Figura 8:
21

Figura 7 - Mecanismos de ruptura de estacas curtas em solo coesivos

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)

Figura 8 - Mecanismos de ruptura de estacas longas em solo coesivos

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)


22

Ainda são apresentados nas Figura 9 aFigura 11 os mecanismos de ruptura para


estacas com topo engastado em solos puramente coesivos nas figuras a seguir (convêm
salientar que translações são possíveis):

Figura 9 - Estaca curta em solos coesivos

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)

Figura 10 - Estaca intermediária em solos coesivos

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)


23

Figura 11 – Estaca longa em solos coesivos

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)

2.1.2. Estacas em Solos Não-Coesivos

Del Piro Júnior (2003), ainda sobre o comportamento de estacas carregadas


transversalmente, apresenta seus mecanismos de ruptura também para solos puramente
granulares, seguindo as suposições do método de Broms (1964). Nestas, o empuxo
ativo, atuante na face oposta ao movimento horizontal da estaca, é desprezado; o
empuxo passivo na face frontal da estaca é três vezes o valor do empuxo passivo de
Rankine, devido ao efeito tridimensional; a forma da seção transversal da estaca não
tem influência na resistência máxima do solo; os deslocamentos são suficientes para
total mobilização da resistência lateral e o peso específico do solo á admitido constante
com a profundidade, conforme Figura 12 e Figura 13.
24

Figura 12 - Mecanismo de ruptura de estacas curtas em solos não coesivos

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)

Figura 13 - Mecanismo de ruptura de estacas longas em solos não coesivos

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)

Ainda sobre as estacas carregadas transversalmente em solos puramente


granulares, para estacas com o topo engastado, os mecanismos de ruptura, conforme o
tipo de estaca, podem ser observados nas Figura 14 aFigura 16:
25

Figura 14 - Estaca curta em solo não coesivo

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)

Figura 15 - Estaca intermediária em solo não coesivo

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)


26

Figura 16 - Estaca longa em solo não coesivo

Adaptada de Del Pino Júnior (2003)

2.2.MÉTODOS DE ANÁLISE DISPONÍVEIS

Os métodos de cálculo para estacas submetidas a esforços horizontais, mais


difundidos são: Miche (1930), Hetényi (1946), Matlock & Reese (1960, 1961),
U.S.NAVY (1962), Broms (1964, 1965), Davisson & Robin (1965) e Werner (1970)
(Zammataro, 2007).
Com base na estática, cinemática e possíveis modelos de colapso apresentados
para estacas submetidas a carregamentos laterais, é então possível a discussão dos
métodos disponíveis para analise do presente problema. O presente trabalho se
restringirá a discussão de problemas com carregamento ativo, muito embora a grande
maioria dos métodos propostos pela literatura podem ser facilmente estendidos para
casos de carregamento passivo, obtendo resultados satisfatórios. O problema da
quantificação das deflexões do conjunto solo-estaca, segundo Santos (1999) reside na
necessidade de atender os efeitos de não linearidade do sistema, que podem ser
separados basicamente em três níveis: O comportamento naturalmente não linear do
solo circundante à estaca; o comportamento também não linear da interface solo-estaca,
27

oriundo dos efeitos de separação e escorregamento entre solo e estaca; e por fim o
comportamento não linear da própria estaca, motivada pela plastificação e pela
fissuração (nas estacas de concreto armado).

O interesse pelo estudo das estacas submetidas a carregamentos transversais teve


inicio há mais de seis décadas. Com isso, o diuturno esforço de pesquisa do problema
teve por consequência a geração de diversos métodos de analise que podem ser
utilizados para projeto. Conforme Velloso (2010) há dois modelos principais para
representar o solo, numa análise da interação solo-estrutura: 1) abordagem viga de
fundação e 2) abordagem de meio contínuo. Nesses métodos, o solo é representado de
duas formas: a primeira é uma extensão da hipótese de Winkler do estudo das vigas de
fundaçao, em que o solo é substituído por molas, aqui horizontais, independentes entre
si; a segunda considera o solo como urn rneio contínuo, normalmente elástico. Em
ambos os modelos, as tensões despertadas no solo precisarn ser verificadas quanto a
possibilidade de se esgotar a resistência passiva dele.

A massa de solo nas cercanias da estaca carregada transversalmente é solicitada


em compressão de um lado e em tração do outro. Em lado tracionado o solo tende a não
acompanhar a estaca (dado o fato que os solos não resistem normalmente a tração).
Assim, o modelo de meio elástico contínuo não representa adequadamente o solo na
vizinhança de uma estaca carregada desse modo. Além disso, o modelo de Winkler é
mais utilizado na prática e, portanto, há uma maior experiência no seu uso (Prakash e
Sharma apud Huang, 2011). Outros métodos analisam a estaca na condição de ruptura
ou equilíbrio plástico, fornecendo a força horizontal que levaria a ruptura do solo e/ou
da estaca, força essa que precisará ser reduzida por um fator de seguranca (global) para
a obtenção da máxima força horizontal de serviço. Alternativarnente, pode-se introduzir
a força horizontal de serviço majorada por urn fator parcial, e a resistência passiva do
solo minorada por fatores parciais de minoração da resistência, para se verificar se há
equilíbrio. Os chamados métodos de ruptura normalmente não fornecem deslocamentos
para as cargas de serviço. As duas diferentes abordagens podem ser vistas na Figura 17:
28

Figura 17 – Modelos de interação solo-estrutura

Fonte: Gomes Correia e Santos (1994)

2.2.1. Abordagem viga de fundação

Ainda muito antes do inicio de pesquisa especificamente focada no


problema das estacas carregadas transversalmente, os engenheiros de fundação se
questionavam sobre a possibilidade de representação de fundações superficiais
suficientemente longas e flexíveis (como por exemplo, sapatas de fundação) como vigas
apoiadas no solo de fundação. No contexto da abordagem viga de fundação, a viga
representa o elemento de fundação (como estacas, sapatas, etc.) e a fundação representa
a massa de solo na qual esse elemento esta assente. Já em 1867, Winkler propôs seu
célebre modelo, no qual a resistência vertical de um subnível contra as forças externas
deveria ser proporcional à deflexão do solo.

Pela extensão desse conceito, foi desenvolvida a representação do solo como


uma serie de molas elásticas, de modo que a compressão (ou extensão) da mola (que no
caso é igual a do solo) é proporcional à carga aplicada. A constante elástica da mola
representa a rigidez do solo na região de interação com as cargas aplicadas. Este
conceito foi estendido pela colocação de uma viga de Euler-Bernoulli no topo de uma
massa de solo, com a posterior aplicação de cargas sobre a viga (Figura 18). Uma
equação diferencial que rege a deflexão da viga sobre a massa de solo foi desenvolvida
(que é uma equação diferencial de quarta ordem) e soluções analíticas para diferentes
29

tipos e posições de cargas foram obtidas por Biot (1937) e Hetényi (1946)
(Salgado,2008).

Figura 18 – Viga de fundação sobre base elástica

Adaptada de Salgado (2008)

Ainda segundo Salgado (2008), os parâmetros de entrada obrigatórios são o


módulo de elasticidade, da geometria da viga, a constante elástica do solo de fundação e
a magnitude e distribuição da carga aplicada. Como resultado, podem ser determinadas
a deflexão da viga, o momento de flexão e a força de cisalhamento ao longo sua
extensão. É importante mencionar que existe uma diferença sutil entre as molas do solo
de fundação e as molas convencionais. Em molas convencionais, a constante de mola
multiplicado pela deflexão da mola resulta na força da mola. Em molas de fundação, a
constante de mola multiplicado pela deflexão da mola (que é o mesmo que a deflexão
da viga) produz a força resistiva do solo de fundação por unidade de comprimento da
viga. Por conseguinte, a unidade da constante de mola para um dado solo de fundação
na qual a resistência é expressa por unidade de comprimento é (F = força, L =
comprimento), enquanto a unidade constante de mola de uma mola convencional é
. Essa abordagem também é comumente chamada de abordagem de reação do
subleito, porque a constante de mola do solo de fundação pode ser relacionada com o
módulo de reação do solo (Terzaghi 1955), ilustrado na Figura 19. Ressalta Lancellotta
(1993) que esses conceitos foram então aproveitados e adaptados por pesquisadores
interessados em estacas carregadas transversalmente, primeiramente por Reese e
Matlock (1956) e Matlock e Reese (1960), porque, na maioria dos casos, as estacas se
30

comportam como vigas transversais flexíveis submetidas a cargas laterais e que o


problema pode ser encarado como um problema como o de viga de fundação
rotacionado em 90 °.

Figura 19 - Abordagem de reação do subleito

Adaptada de Flemming (2009)

No entanto, o problema das estacas carregadas transversalmente é muito mais


complexo, pois os solos em campo se comportam de maneira não linear, especialmente
na região do topo da estaca. Ou seja, pela própria natureza não linear do problema, um
gráfico que expresse a deflexão da cabeça da estaca em relação à carga aplicada
produzirá um formato não linear. Com isso, as molas lineares do modelo de Winkler
(1867) não podem ser utilizadas, sendo necessária sua substituição por molas não
lineares, ou seja, molas que sua constante elástica varie conforme sua deformação
(Figura 20). Essa mudança gera como resultado uma equação diferencial de quarta
ordem, solucionada iterativamente pelo método das diferenças finitas por McClelland e
Focht (1958). Tendo em vista a complexidade dos problemas, alguns pesquisadores
convencionaram adotar um modelo prático onde se assume que o solo como linearmente
31

elástico até um certo valor de deflexão da estaca, e perfeitamente plástico para além
desse valor.

Figura 20 – Uma estaca carregada transversalmente apoiada em uma cama de molas

Adaptada de Flemming (2009)

Outras modificações nessa abordagem produziram o conhecido método de


curvas p-y. Esse método representa a pressão do solo (resistência) por unidade de
comprimento da estaca e a deflexão da estaca (note que a resistência do solo p é o
produto da deflexão da estaca e a constante de mola não linear). Ao invés de necessitar
das constantes não lineares de mola do solo como parâmetro de entrada (isto é, os
valores das constantes de mola, que são função da deflexão da estaca), as curvas de p-y
sejam os parâmetros de entrada para a análise no método.

Para a análise, divide-se a estaca em pequenos segmentos, e para cada segmento,


uma curva p-y é dada como entrada. Dependendo da magnitude da deflexão de um
segmento de estaca, a resistência do solo é calculada a partir da curva p-y iterativamente
(uma vez que os desvios e as pressões do solo são interdependentes e uma vez que
32

nenhuma é conhecida a priori, iterações são necessários para obter seus valores
corretos) e soluções para a equação diferencial decorrente são obtidos pelo método das
diferenças finitas (Figura 21). Com o desenvolvimento do método de elementos finitos,
este tem tomado lugar do método das diferenças finitas em muitos cálculos envolvendo
a abordagem de reação do subleito ou o método das curvas p-y (Sassi, 2011).

Figura 21 – Modelo de uma estaca carregada transversalmente com curvas p-y

Adaptada de Huang (2011)

Atualmente, o método das curvas p-y é o método mais utilizado para o cálculo
de deflexão de estacas lentamente carregadas e também muito utilizado para a análise
de grupos de estacas com resultados satisfatórios.

2.2.2. Abordagem de meio contínuo

A análise de estacas carregadas lateralmente pode ser feita tratando-se


o solo do torno da estaca como um meio contínuo tridimensional. Tal abordagem é
conceitualmente mais atraente do que a abordagem de viga de fundação porque a
interação da estaca e do solo é de fato por sua própria natureza tridimensional. Afirma
Fleming (2009) que pesquisas nesse sentido foram iniciadas por Poulos (1971), que
tratou a massa de solo como um meio contínuo elástico e a estaca como uma barra, a
qual aplica pressão sobre o meio continuo. Por meio da solução de Mindlin (1936) pela
atuação de carga horizontal no interior de um espaço elástico no meio contínuo e
33

aplicando uma integral de contorno para obter a deflexão da estaca. No entanto, este
método é menos popular do que o método das curvas P-y, mais provável, porque os
passos de análise envolvidos são relativamente mais trabalhosos. A análise elástica foi
estendida para explicar a não linearidade do solo em uma forma aproximada, assumindo
o solo como um meio perfeitamente elástico. Hoje, o método de análise baseado na
abordagem de meio contínuo mais versátil disponível é método dos elementos finitos. O
método pode levar em conta a interação tridimensional, e hipóteses de solo elástico e
não linear podem ser simulados, necessitando como dados de entrada as constantes
elásticas (por exemplo, módulo de Young e coeficiente de Poisson) ou as relações
constitutivas não lineares apropriadas. São utilizadas diferentes formas do método dos
elementos finitos (por exemplo, análise bidimensional, análise tridimensional,
elementos finitos, juntamente com séries de Fourier, elementos finitos, juntamente com
o método das diferenças finitas, e de elementos finitos com subestruturação) para
analisar estacas carregadas transversalmente. No entanto, estes métodos são raramente
utilizados na pratica porque ou as análises envolvem matemática de elevada
complexidade e não fornecem passos simples e práticos para a obtenção de deflexão da
estaca ou os métodos são aplicáveis apenas aos solos tomados como linearmente
elásticos, que não representam a realidade dos problemas práticos. Além disso, alguns
métodos híbridos, utilizando a abordagem de meio contínuo em consonância com as
curvas p-y, têm sido utilizados para modelar grupos de estacas.

2.3.COEFICIENTE E MÓDULO DE REAÇÃO HORIZONTAIS

Para o estudo de estacas ativas, são frequentemente utilizados os métodos


decorrentes do conceito de coeficiente de reação horizontal estimado, na grande maioria
dos casos a partir dos resultados de sondagens à percussão (SPT) associados à
classificação táctil-visual dos solos e à experiência do projetista (Alonso, 2012).

O coeficiente de reação horizontal de um solo na profundidade z é definido


pela relação entre a pressão unitária atuante entre nessa profundidade e o
deslocamento sofrido pelo solo.


34

Modernamente, em vez de se utilizar o coeficiente de reação horizontal, é mais


cômodo empregar-se o módulo de reação horizontal K, se definindo como sendo a
reação aplicada à estaca (expressa em unidade de força por comprimento da mesma)
dividida pelo deslocamento (Figura 22) (Alonso, 2012).

Figura 22 – Transformação da pressão em carga linear

Adaptada de Alonso (2012)

2.3.1. Variação do módulo de reação com a profundidade

Afirma Velloso (2010) que Terzaghi (1955) analisou tanto o


coeficiente de reação vertical (para fundações superficiais) como o coeficiente
horizontal (para estacas). Para o coeficiente horizontal, distinguiu dois casos: (1) argilas
muito sobre adensadas, nas quais pode ser considerado praticamente constante com a
profundidade; (2) argilas normalmente adensadas e areias, para as quais cresce
linearmente com a profundidade (Figura 23).

Figura 23 –Variações do módulo com a profundidade

Adaptada de Alonso (2012)


35

Para o segundo caso pode-se escrever:

sendo denominado por Terzaghi “constante do coeficiente de reação


horizontal”.

Como os valores de constante de coeficiente de reação horizontal costumam ser


expressos em relação ao grau de compacidade do solo, se faz necessária a exposição das
faixas de compacidade de solo em relação a valores de ensaio de penetração por
percussão constantes no anexo A da NBR 6484:2001, presentes na Tabela 1:

Tabela 1 - Anexo A da NBR 6484: Tabela dos estados de compacidade e de consistência

Índice de resistência à
Solo Designação
Penetração (N)
≤4 Fofa (o)
5a8 Pouco compacta (o)
Medianamente compacta
Areias ou siltes arenosos 9 a 18
(o)
19 a 40 Compacta (o)
>40 Muito compacta (o)
≤2 Muito mole
3a5 Mole
Argilas ou siltes argilosos 6 a 10 Média
11 a 19 Rija
>19 Dura
Fonte: NBR 6484:2001

Tergazhi (apud Araújo, 2013) aponta valores de para areias para diferentes
graus de compacidade conforme Tabela 2:
36

Tabela 2 - Valor de segundo Tergazhi (apud Araújo, 2013)

Valor de (MN/m³)
Compacidade da areia Seca Submersa
Areia fofa 2,5 1,5
Areia medianamente 7,0 4,5
compacta
Areia compacta 18,0 11,0
Fonte: Araújo (2013)

Décourt (apud Araújo, 2013) aponta os valores de , conforme Tabela 3:

Tabela 3 - Valor de segundo Décourt (apud Araújo, 2013)

Valor de (MN/m³)
Compacidade da areia Seca Submersa
Areia fofa 2,6 1,5
Areia medianamente 8,0 5,0
compacta
Areia compacta 20,0 12,5
Fonte: Araújo (2013)

Alonso (2012) aponta que, na realidade, K e , bem como sua variação com a
profundidade, são de difícil previsão, pois os mesmos dependem de vários fatores além
da própria natureza do solo que rodeia a estaca. Entretanto, ainda afirma que conforme
Terzaghi, os erros na avaliação desses valores têm pouca influencia nos cálculos dos
momentos, pois a equação para sua determinação engloba uma raiz quarta, no caso de K
constante, ou uma raiz quinta, no caso de .

Logo, não se faria necessário refinar ou sofisticar a lei de variação de módulo de


reação com a profundidade, uma vez que se poderiam obter resultados plenamente
satisfatórios com a utilização de leis de variações simples (como os de Sherif
apresentados por Alonso, 2012).

Ainda afirma Alonso (2012) que o comportamento da estaca é muito


influenciado pelo solo em seus primeiros metros de profundidade. Matlock e Reese
37

concluem que, no caso de areias, o comportamento da estaca é comandado pelo solo que
ocorre até a profundidade , em que:

√ ⁄

Já no caso de argilas pré-adensadas, o refinamento do valor de K deverá ser


restrito à profundidade , em que:

√ ⁄

2.3.2. Equação diferencial de uma estaca longa

Conforme Zammataro (2007), a equação de uma estaca longa imersa em meio


elástico é:

sendo considerada como estaca longa a estaca com comprimento maior que 4T ou 4R,
conforme o solo no qual esta imersa.

Para sua resolução, foram desenvolvidos métodos analíticos e métodos baseados


no conceito de módulo de reação. O presente trabalho tratará da solução analítica de
Miche e os métodos de Davisson e Robinson e Matlock e Reese, métodos esses
baseados no conceito de módulo de reação.

2.4. PRINCIPAIS MÉTODOS PARA SOLOS DO TIPO

2.4.1. Solução analítica de Miche

Originada pela integração da equação diferencial de uma estaca longa


imersa em um meio elástico com módulo de reação horizontal variando linearmente
com a profundidade solicitada por uma força horizontal H.
38

O deslocamento horizontal do topo da estaca é dado por:

E o momento fletor máximo, localizado na profundidade z=1,32T é dado por:

Deve-se observar que as presentes relações só se aplicam a estacas do tipo longa,


ou seja, com comprimento maior que 4T.

2.4.2. Método de Davisson e Robinson

O método de Davisson e Robinson é utilizado para estacas longas


parcialmente imersas em meio elástico utilizando uma substituição por uma estaca
equivalente, que se encontra engastada a certa profundidade ( , ilustrada na Figura 24.
Como na solução de Miche, para o método ser aplicável, a estaca deverá ter um
comprimento maior que 4T ou 4R.

O comprimento equivalente é dado por:

Figura 24 – Estaca equivalente proposta por Davisson

Adaptada de Alonso (2012)


39

O valor de pode ser obtido para solos com K constante por:

é obtido por meio da Figura 25:

Figura 25 – Valores de propostor por Davisson

Adaptada de Alonso (2012)

Para solos com , o valor de é dado por:

é obtido por meio da Figura 26:


40

Figura 26 - Valores de propostor por Davisson

Adaptada de Alonso (2012)

2.4.3. Método de Matlock e Reese

Matlock e Reese utilizaram a técnica da diferenciação por via


computacional e resolveram a equação diferencial básica para qualquer variação nas
curvas p-y, obtendo para o caso particular de obtiveram:

⁄ ⁄

sendo e parâmetros adimensionais presentes na Tabela 4 – Parâmetros


adimensionais do método de Matlock e Reese:
41

Tabela 4 – Parâmetros adimensionais do método de Matlock e Reese

z/T
0 2,435 -1,623 0 1 0 1,623 -1,750 1 0 0
0,1 2,273 -1,618 0,100 0,989 -0,227 1,453 -1,650 1 -0,007 -0,145
0,2 2,112 -1,603 0,198 0,956 -0,422 1,293 -1,550 0,999 -0,028 -0,259
0,3 1,952 -1,578 0,291 0,906 -0,586 1,143 -1,450 0,994 -0,058 -0,343
0,4 1,796 -1,543 0,379 0,840 -0,718 1,003 -1,351 0,987 -0,095 -0,401
0,5 1,644 -1,506 0,459 0,764 -0,822 0,873 -1,253 0,976 -0,137 -0,436
0,6 1,496 -1,454 0,532 0,677 -0,897 0,752 -1,156 0,960 -0,181 -0,451
0,7 1,353 -1,397 0,595 0,585 -0,947 0,642 -1,061 0,939 -0,226 -0,449
0,8 1,216 -1,335 0,649 0,489 -0,973 0,540 -0,968 0,914 -0,270 -0,432
0,9 1,086 -1,268 0,693 0,392 -0,977 0,448 -0,878 0,885 -0,312 -0,403
1,0 0,962 -1,197 0,727 0,295 -0,962 0,364 -0,792 0,852 -0,350 -0,364
1,2 0,738 -1,047 0,767 0,109 -0,885 0,223 -0,629 0,775 -0,414 -0,268
1,4 0,544 -0,893 0,772 -0,056 -0,761 0,112 -0,482 0,688 -0,456 -0,157
1,6 0,381 -0,741 0,746 -0,193 -0,609 0,029 -0,354 0,594 -0,477 -0,047
1,8 0,247 -0,596 0,696 -0,298 -0,445 -0,030 -0,245 0,498 -0,476 0,054
2,0 0,142 -0,464 0,628 -0,371 -0,283 -0,070 -0,155 0,404 -0,456 0,140
3,0 -0,075 -0,040 0,225 -0,349 0,226 -0,089 0,057 0,059 -0,213 0,268
4,0 -0,050 0,052 0,000 -0,106 0,201 -0,028 0,049 -0,042 0,017 0,112
5,0 -0,009 -0,025 -0,033 0,013 0,046 0 0,011 -0,026 -0,029 -0,002
Fonte: Alonso (2012)

Por diferenciações sucessivas dessa expressão, obtiveram:

3. METODOLOGIA

O presente trabalho tem como metodologia a resolução da estaca E1 ensaiada,


no trabalho de Souza (2006), por meio da solução de Miche e dos métodos de Davison e
42

Robinson e de Matlock e Reese com o objetivo de avaliar as deflexões para 6 diferentes


carregamentos (100, 200, 300, 350, 400 e 450 kN). Para cada um dos carregamentos
foram utilizados os valores apontados por Tergazhi (apud Araújo, 2013) e de Décourt
(apud Araújo, 2013) tanto para areias medianamente compactas quanto para compactas.

3.1. DADOS UTILIZADOS A PARTIR DO EXPERIMENTO DE SOUZA


(2006)

Souza (2006) ensaiou diversas estacas carregadas transversalmente no campo


experimental da FEUP (Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto), Portugal.
O campo experimental onde as estacas foram executadas apresentou classificação e os
seguintes resultados frente ao ensaio de penetração SPT, conforme a Figura 27:

Figura 27 - Perfil Geotécnico: a) litologia; e, b) resultados dos ensaios SPT

a b
Fonte: Souza (2006)
43

O concreto utilizado para a execução das referidas estacas apresentou os


seguintes parâmetros aos 210 dias (Tabela 5):

Tabela 5 – Parâmetros físicos do concreto aos 210 dias

36,0 2,7 26,8


Fonte: Souza (2006)

A estaca objeto do presente estudo, designada E1, foi executada com as


seguintes características geométricas (Tabela 6):

Tabela 6 – Características geométricas da estaca E1

Cota de aplicação do
Seção (mm) Comprimento total (m)
carregamento (m)
610 22,00 0,59
Fonte: Souza (2006)

A estaca foi ensaiada com carregamentos sucessivos, sendo os deslocamentos de


seu topo medidos ao nível do solo por meio de transdutores de deslocamento. Os
valores de deflexão obtidos frente aos carregamentos são apresentados na Figura 28:

Figura 28 - Deflexões medidas na estaca E1 para diversos carregamentos

0,05
Deflexão do topo da estaca (m)

0,045 0,045
0,04
0,035
0,033
0,03
0,025 0,025
0,02 0,021
0,015
0,01 0,01
0,005
0,0025
0
100 200 300 350 400 450
Carregamento (kN)
44

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Neste capitulo são apresentados os procedimentos de calculo de deflexões para os


métodos utilizados, os resultados obtidos neste trabalho e discutidas as implicações dos
mesmos.

4.1.SOLUÇÃO DE MICHE

Para o carregamento de 100 kN e de 7,0 MN/m³:

√ ⁄ √ ⁄

Substituindo o valor de T em:

m ou 9,56mm

E o momento fletor máximo, localizado na profundidade z=1,32T=2,50m é dado


por:
45

De forma análoga, foram determinadas as deflexões correspondentes aos demais


carregamentos e constante de coeficiente de reação horizontal ( ).

Os valores de deflexão obtidos pela solução de Miche correspondentes aos


diversos carregamentos e aos quatro valores de constante de coeficiente de reação
horizontal ( ) estão reunidos na Figura 29:

Figura 29 - Deflexões da estaca E1 previstas pela solução de Miche para diversos

0,05
0,045
Deflexão do topo da estaca (m)

0,04
0,035
0,03 7
0,025 8
0,02 18
0,015 20
0,01 Resultado
0,005
0
100 200 300 350 400 450
Carregamento horizontal (kN)

Fonte: Autor

Observa-se que a solução de Miche previu a deflexão com considerável


segurança para todos os valores de apenas para o carregamento de 100 kN. A partir
do carregamento de 200 kN os valores de para areias compactas geraram deflexões
menores que as medidas por Souza (2006). Também se pode notar a pouca influencia
ente os diferentes valores de propostos por Terzaghi e Décourt para um mesmo grau
de compacidade de areia (diferenças de 8% e 6% para areias medianamente compactas e
compactas respectivamente). Entretanto, os valores de para os diferentes graus de
compacidade geraram diferenças de 87% nas deflexões previstas (tomados os valores
gerados por de 7 e 20MN/m³). Ainda que uma solução simplificada, foi capaz de
prever relativa precisão a localização do ponto de máximo momento, ponto este que
localiza a rótula plástica observada por Souza (2006), mecanismo este de ruptura
característico das estacas longas.
46

4.2. MÉTODO DE DAVISSON E ROBINSON

O método de Davisson e Robinson utiliza como parâmetro de entrada em


seus gráficos o valor de , função de T, que é inversamente proporcional ao valor de
. Logo, dada a escala de grandeza de entrada de nos gráficos do método, os
comprimentos das estacas equivalentes são tão semelhantes que no presente trabalho, a
titulo a simplificação, será considerado apenas um comprimento equivalente para o
método.

Para o carregamento de 100 kN e de 7,0 MN/m³:

⁄ ⁄

Pela Figura 26, obtemos , então:

Inserida no programa FTOOL (Figura 30), obteve-se uma deflexão de 0,01251m


ou 12,51mm.

Figura 30 – Estaca equivalente do método de Davisson e Robinson no programa FTOOL

Fonte: Autor
47

De forma análoga, foram determinadas as deflexões correspondentes aos demais


carregamentos e constante de coeficiente de reação horizontal ( ).

Com isso, a estaca equivalente foi resolvida por meio do programa FTOOL
e os resultados são apresentados na Figura 31.

Figura 31 - Deflexões da estaca E1 previstas pelo método de Davisson e Robinson

0,06
0,05631
0,05 0,05005

0,04379 0,045
0,04
0,03749
Deflexão do topo da estaca (m)

0,033
0,03 Resultado
0,02503 0,025
0,02 0,021
Davisson e
Robinson
0,01251
0,01 0,01

0,0025
0
100 200 300 350 400 450
Carregamento horizontal (kN)

Fonte: Autor

Ainda que na prática não tenha levado em consideração os diferentes valores


para a constante de coeficiente de reação horizontal ( ) em consideração e admita
consideráveis simplificações, o método de Davisson e Robinson conseguiu estimar com
uma boa margem de segurança as deflexões no topo da estaca (orbitando entre 75% a
25% superiores às deflexões medidas para carregamentos entre 300kN e 450 kN).
48

4.3.MÉTODO DE MATLOCK E REESE

1.1.1. Método de Matlock e Reese

Para o carregamento de 100 kN e de 7,0 MN/m³:

⁄ ⁄

Temos, para z/T=0, temos e = 1,623 e


:

ou 8,3724 mm

De forma análoga, foram determinadas as deflexões correspondentes aos demais


carregamentos e constante de coeficiente de reação horizontal ( ), presentes na Figura
32:
49

Figura 32 - Deflexões da estaca E1 previstas pelo método de Matlock e Reese para diversos

0,08

0,07
Deflexão do topo da estaca (m)

0,06

0,05
7
0,04 8
17
0,03
20
0,02 Resultado

0,01

0
100 200 300 350 400 450
Carregamento horizontal (kN)

Fonte: Autor

Como nos resultados referentes à solução de Miche, pode-se notar a pouca


influência ente os diferentes valores de propostos por Terzaghi e Décourt para um
mesmo grau de compacidade de areia (nesse caso, diferenças de 9% e 7% para areias
medianamente compactas e compactas respectivamente). Pode se observar que os
valores gerados por valores de correspondentes a areias medianamente compactas
são muito discrepantes em relação aos valores de deflexão medidos por Souza (2006).
Entretanto, os valores de deflexão do topo da estaca para correspondente a areias
compactas se mostraram extremamente próximos aos valores, medidos, orbitando entre
65% e 0,4% para os carregamentos de 200 kN e 400 kN respectivamente. O único
carregamento no qual o valor estimado por meio de para areias compactas
corresponde ao carregamento de 450 kN, onde a deflexão medida é 20% maior que a
estimada.

O método de Matlock e Reese, por meio de seu ábaco de parâmetros


adimensionais permite avaliar a deflexão do corpo das estacas em outros pontos ao
longo do fuste, e não apenas em seu topo. A fim de ilustrar, pela impossibilidade de
comparação com os outros métodos avaliados, que apenas são capazes de estimar a
deflexão no topo da estaca, estão presentes nas figuras 33 a 36 os valores de deflexão ao
50

longo do comprimento da estaca para os diferentes carregamentos e para os diferentes


valores de :

Figura 33 - Deflexões da estaca E1 para diversos carregamentos e =7,0

0,080

0,070

0,060

0,050
100
Deflexão (m)

0,040 200
300
0,030 350
400
0,020 450

0,010

0,000
0 1 2 3 4 5 6 7 8

-0,010
Profundidade z (m)

Fonte: Autor
51

Figura 34 - Deflexões da estaca E1 para diversos carregamentos e =8,0

0,07

0,06

0,05

100
0,04
Deflexão (m)

200
0,03 300
350
0,02 400
450
0,01

0
0 2 4 6 8 10
-0,01
Profundidade z (m)

Fonte: Autor

Figura 35 - Deflexões da estaca E1 para diversos carregamentos e =18,0

0,045

0,04

0,035

0,03
100
Deflexão (m)

0,025 200
0,02 300
350
0,015
400
0,01
450
0,005

0
0 2 4 6 8 10
-0,005
Profundidade z (m)

Fonte: Autor
52

Figura 36 - Deflexões da estaca E1 para diversos carregamentos e =20,0

0,04

0,035

0,03

0,025
100
Deflexão (m)

0,02 200
300
0,015 350
400
0,01
450

0,005

0
0 2 4 6 8 10
-0,005
Profundidade z (m)

Fonte: Autor

Conforme os dados obtidos por esse método, podemos observar que mesmo em
uma estaca longa, as deflexões se concentram nos primeiros metros de profundidade do
fuste. Ou seja, que a reação horizontal das camadas superiores do perfil de solo onde a
estaca esta imersa tem papel fundamental em sua capacidade de carga transversal e suas
consequentes deflexões. Tal conclusão coaduna com a hipótese levantada por Terzaghi
(1955) e Born (2015), segundo os quais a substituição das camadas superiores de um
perfil de solo por material de melhor resistência e compacidade contribuiria
positivamente com a capacidade de carga transversal de uma estaca ali imersa.
53

5. CONCLUSÃO

O presente trabalho proporcionou a oportunidade de uma série de conclusões.


Pode-se avaliar a influência mínima nas deflexões Terzaghi e Décourt para um mesmo
grau de compacidade do solo. Entretanto, se percebe a necessidade de uma correta
definição de um apropriado, pois ainda que Alonso (2012) minimize a influência
desse valor no resultado da previsão de deflexão, dada sua entrada nos métodos em uma
raiz quarta ou quinta. Percebe-se com os resultados que uma escolha errônea torna o
resultado sujeito a discrepâncias da ordem de quase 100%.

Os resultados atestam que tanto a solução de Miche quanto o método de Matlock


e Reese tem sua eficácia comprometida pelo valor de , atestando a importância de
uma adequada escolha geotécnica e a adoção de valores apropriados.

Uma conclusão interessante para a presente estaca é que a variação no valor de


no método de Davisson e Robinson, o único fator físico relativo ao solo envolvido
no método, não produz diferença no comprimento equivalente da estaca. E mesmo essa
insensibilidade para esse fator tão importante, o método apresentou um desempenho
satisfatório em prever as deflexões medidas na estaca E1.

Por fim, com a utilização do ábaco de Matlock e Reese, foi possível avaliar as
deflexões ao longo das estacas e a influencia de diferentes valores de nos valores
previstos. Convêm salientar que os valores encontrados se aproximam
consideravelmente dos encontrados na estaca E1 de Souza (2006) pelos transdutores de
deslocamento posicionados ao longo do comprimento da referida estaca. Pode-se
também perceber que as deflexões em estacas longas de concentram em seus primeiros
metros, confirmando as conclusões de Broms (1964) e justificando a possibilidade de
melhoria das camadas superiores do solo para aumento da capacidade lateral de carga,
como conjecturado por Terzaghi (1955) e investigado por Born (2015).
54

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