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Com a revolução Industrial no Século XIX a demanda por trabalhadores, bem

como a busca pela maior lucratividade e a maior concorrência no mercado de trabalho,


as mulheres e crianças passaram a ser inseridas no mercado, visto que a mão de obra
destes trabalhadores eram mais baratas em relação ao homem.

Sem normas estatais de proteção ao trabalhador, mulheres e crianças


passaram a trabalhar em condições análogas à escravidão, com jornadas de trabalhos
extenuantes, condições de trabalho miseráveis, sem qualquer proteção à maternidade e a
amamentação1. Na obra de Amauri Mascaro Nascimento pode-se ver um retrato das
condições do trabalho à época:

“Por ocasião da Revolução Industrial do século XVIII, o trabalho


feminino foi aproveitado em larga escala, a ponto de ser preterida a
mão-de-obra masculina. Os menores salários pagos a mulher
constituíam a causa maior que determinava essa preferência pelo
elemento feminino. O Estado, não intervindo nas relações jurídicas de
trabalho, permitia, com a sua omissão, toda sorte de explorações.
Nenhuma limitação da jornada de trabalho, idênticas exigências dos
empregadores quanto às mulheres e homens, indistintamente,
insensibilidade diante da maternidade e os problemas que podem
acarretar à mulher, quer quanto às condições pessoais, quer quanto às
responsabilidades de amamentação e cuidados com os filhos em idade
de amamentação etc. O processo industrial criou um problema que
não era conhecido, quando a mulher, em épocas remotas, dedicava-se
aos trabalhos de natureza familiar e de índole doméstica. A indústria
tirou a mulher do lar, por 14, 15 ou 16 horas diárias, expondo-a a uma
atividade profissional em ambientes insalubres e cumprindo
obrigações muitas vezes superiores às suas possibilidades físicas”2

Com o passar do tempo e a evolução da sociedade, o Estado, por razões


demográficas e educacionais, passou a visar a necessidade de instituir normas de
proteção ao trabalho da mulher e no menor, como a limitação de jornadas de trabalhos,
proibição de trabalho noturno e insalubre, praticas discriminatórias e outras.3

A igualdade salarial entre homens e mulheres, só veio em 1919 com o Tratado


de Versalhes, que criou a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Com a
realização das convenções da OIT, a tutela do trabalho da mulher foi se aprimorando
progressivamente e, ainda em 1919, deu-se importante passo em relação à proteção da
empregada gestante com a realização da Convenção OIT nº 3, relativa ao emprego das
mulheres antes e depois do parto (proteção à maternidade), assegurando-se o
afastamento da mulher do trabalho sem prejuízo do salário, licença-maternidade de 12
semanas, a qual podia ser inclusive prorrogada por motivo de saúde da gestante,
mediante exibição de atestado médico e dois intervalos de meia hora para amamentar o
filho. Também em 1919, a Convenção OIT nº 4 estabeleceu a proibição do trabalho da
mulher nas indústrias.4

No Brasil, a primeira norma a tratar do trabalho da mulher foi o decreto 21.417-


A de 1932, o qual proibia o trabalho da mulher no período noturno das 22hs às 5hs. Em
relação à proteção ao menor, a primeira medida protetiva veio por meio do Decreto nº
1.131 de 1890. Outras medidas de proteção à mulher e a criança se seguiram durante os
anos, mas foi somente em 1988 com a promulgação da Constituição Federal que
mulheres e crianças tiveram seus direitos assegurados definitivamente.

A Carta Magna brasileira assegurou a igualdade de direitos e obrigações entre


homens e mulheres e também proibiu a diferença de salários, do exercício de funções e
a criação de critérios de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil.

Já a CLT, no seu artigo 373-A, impôs uma serie de limitações ao empregador, no


sentido de permitir o acesso da mulher no mercado de trabalho. As principais são: É
vedado publicar anúncio de emprego que faça referência ao sexo; recusar emprego,
promoção ou incentivar a dispensa por motivo de sexo, salvo quando a natureza da
atividade o permita; considerar sexo como fator de remuneração e ascensão
profissional; exigir atestado de gravidez ou esterilidade na admissão. No tocante a Lei
Eleitoral, cada partido político ou coligação deverá reservar, para candidatos de cada
sexo, no mínimo 30% e no máximo 70% do numero de candidaturas que puder
registrar.5

Podemos ainda mencionar diversos dispositivos com o intuito de proteger a


maternidade; a Constituição Federal proíbe a dispensa arbitrária ou sem justa causa da
empregada gestante, desde a confirmação da gravidez até 5 meses após o parto; a
empregada gestante tem direito a licença maternidade de 120 dias, sem prejuízo do
salário e do emprego; a gestante é garantida, durante a gravidez a transferência de
função sem prejuízo do salário; a mulher grávida pode romper o compromisso
resultante de qualquer contrato de trabalho, mediante atestado médico, caso seja
prejudicial à gestação; a empregada gestante ou lactante será afastada, enquanto durar a
gestação e a lactação, de quaisquer atividades, operações ou locais insalubres, devendo
exercer suas atividades em local salubre; em caso de aborto natural ou não criminoso, a
gestante terá direito a licença de 2 semanas; após o nascimento, a mulher terá direito a 2
descansos de 30 minutos cada para amamentar seu filho; no caso de adoção, a
empregada terá licença maternidade pelo período de 120 dias, independente da idade da
criança.5

No que tange à proteção ao trabalho infantil, além das medidas impostas pela
CF/88, como a proibição ao trabalho aos menores de 16 anos, com exceção da condição
de aprendiz a partir dos 14 anos, a proibição do trabalho noturno, insalubre ou perigoso
aos menores de 18 anos (Art. 7º, inc. XXXIII), o Estatuto da Criança e do Adolescente
veio corroborar com um maior amparo ao menor. 1

Adicionalmente, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) estabelece as


principais regras a Proteção do Trabalho do Menor em seu Título III, capítulo IV e do
artigo 402 ao 441. Para a CLT, considera-se menor o trabalhador de 14 até 18 anos,
sendo proibido qualquer trabalho ao menor de 16 anos, salvo como aprendiz a partir dos
14 anos.

Com efeito, a legislação vigente que trata do assunto, traz algumas


peculiaridades quanto ao tema. Além das regras básicas de proteção aos trabalhadores
em geral, a legislação prevê que medidas de proteção com relação a formação e
desenvolvimento físico, psíquico, moral e social do menor.6

Assim traz o §3º do artigo 405 da CLT, in verbis:

§ 3º Considera-se prejudicial à moralidade do menor o trabalho:


(Redação dada pelo Decreto-lei nº 229, de 28.2.1967): a) prestado de
qualquer modo, em teatros de revista, cinemas, boates, cassinos,
cabarés, dancings e estabelecimentos análogos; (Incluída pelo
Decreto-lei nº 229, de 28.2.1967); b) em empresas circenses, em
funções de acróbata, saltimbanco, ginasta e outras semelhantes;
(Incluída pelo Decreto-lei nº 229, de 28.2.1967); c) de produção,
composição, entrega ou venda de escritos, impressos, cartazes,
desenhos, gravuras, pinturas, emblemas, imagens e quaisquer outros
objetos que possam, a juízo da autoridade competente, prejudicar sua
formação moral;(Incluída pelo Decreto-lei nº 229, de 28.2.1967); d)
consistente na venda, a varejo, de bebidas alcoólicas. (Incluída pelo
Decreto-lei nº 229, de 28.2.1967).7

Ainda nesse sentido o §5º do mesmo artigo, traz descrito os cuidados mínimos
para preservação da integridade física do menor, proibindo que o trabalho exija dele o
emprego de força muscular superior a 20 quilos para trabalho contínuo ou 25 quilos
para trabalho ocasional, não se compreendendo aqui a remoção de material feita por
impulsão ou tração de vagonetes sobre trilhos, de carros de mão ou quaisquer aparelhos
mecânicos.7

Todas estas vedações previstas na CLT têm por base os fundamentos


anteriormente elencados para proteção do trabalho do menor. Pertinente é a colocação
de Alice Monteiro de Barros, segundo a qual:

“A par de todos os fundamentos científicos citados para justificar as


restrições ao trabalho do menor, cumpre frisar que o aprendizado, em
geral, e o da criança, em especial, passam por fases sucessivas, em que
os novos conhecimentos são assimilados. O aprendizado feito de
forma inadequada altera o ritmo normal da aquisição de conhecimento
pelo menor, afetando os sistemas neurológicos e psicológicos, os
quais passam a ter dificuldade de enfrentar novas habilidades.”8

Neste diapasão, a CLT traz diversas formas de proteção ao trabalho infantil,


regulando desde a jornada de trabalho, período de descanso, férias, salário e rescisão do
contrato de trabalho até horário diferenciado ao menor que estude em escola localizada
a uma distância maior que 2 quilômetros de seu local de trabalho.6

Observando o processo de evolução das leis trabalhistas ao longo da história,


fica evidente que a sociedade, em especial os legisladores e os operadores do direito,
buscaram corrigir as desigualdades e proteger de forma mais justas as características
peculiares das mulheres e dos menores. De tal sorte, percebe-se também, que a tutela do
trabalho da mulher tende a cada vez mais proporcionar maior qualidade e segurança à
maternidade, resguardando a saúde e o bem-estar tanto a mãe, quanto à criança. Já
proteção do trabalho do menor faz-se necessária uma vez que é dever do Estado,
constitucionalmente previsto, a proteção do próprio menor. Devendo este ser
salvaguardado de qualquer forma de exploração, principalmente a criança, que,
historicamente, vinha e, em alguns lugares, ainda vem sofrendo exploração laboral.
Referências

1. Trindade, T. M. Acesso em 19 de Novembro de 2018, disponível em ambito-jurídico:


www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=14765

2. Nascimento, A. M. (2009). Iniciação ao Direito do Trabalho. São Paulo.

3. Calil, L. E. (2007). Direito do Trabalho da Mulher. São Paulo.

4. Rodgers, G., Swepston, L., & Daele, E. L. (2009). The International Labour organization
and the quest for social justice. International Labour Office Geneva.

5. Euribio, R. Acesso em 19 de Novembro de 2018, disponível em Migalhas:


https://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI257415,61044-
Serie+Normas+de+protecao+ao+trabalho+Protecao+ao+trabalho+da+mulher

6. Constituição da República Federativa do Brasil (s.d.). Acesso em 19 de Novembro de


2018, disponível em planalto.gov.br:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm

7. Martins, W. d. Acesso em 19 de Nevembro de 2018, disponível em webartigos:


https://www.webartigos.com/artigos/da-protecao-do-trabalho-da-mulher-e-do-
menor/128329

8. Barros, A. M. (2010). Curso de Direito do Trabalho. São Paulo.