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3.

A Cidade e o Tempo: algumas reflexões sobre indivíduo só conta enquanto engrenagem destinada a rearizar um gesto
&
particular. E o presente produtivúta da economia de mercado que
função social das lembranças (19g3) domina
I
a Metrópole. Esta desaloja
últimas sobrevivências da produçaó domestica
as
e a troca direta de mercadorias:
"A exatidão calculista àa vidá prátic a,,, diz
"Á rua, o único campo vatido de experiência.,, (Breton) J-

simmel, "que a economia do diúeiro criou coresponde ao ideál da


ciência
Procuraremos empreender uma análise do paper Natural: transformar o mundo em um problema aiitmético, dispor
desempenhado pela todas as
ciência e pela técnica na estruturação do espaço partes do mundo por meio de fórmulas matemáticas (...).
social, partindo do tema Através da
desenvolvido pelos filósofos dá Escola dé nafiJreza calculativa do dinheiro, uma nova precisão (...),
rruntárt, da crescento ambigüidade nos acordos e combinações surgiram nas relações
uma ausência de
cientificização do real. A crítica ao fenômeno de
urbano irá em busca dog
fundamentos da ideologia que se inscreve elementos vitais como cxternamente estaprecisao foi efetuadapela
nas sociedades industriais, difusão
ideologia que constrói a noçao de história universal dos relógios de bolso',.3
como progresso, crença no
operacionalidade e no desenvolvimento técnico-cientin.ã, No mundo rural, o ritmo da vida e o conjunto das disposições
u-uos a seruiço mentais
da destruição produtivista da cidade sob dos indivíduos llucm lcntamente, de modo habitual. rnifo.*.,
o imperativo categórico da..Razâo ao passo
Instrumental" que desbasta o terreno de tudo que apenas atravós de transtornos a mente pode se acomodar
o que possa significar ao ritmo
obstáculo à circulação da mercadoria e à livre metropolitano dc acontecimentos: "A aceleração da história,,,
acumuração do capital. diz Bastide,
o que a Escola de Frankfurt questiona é o extravio ou "acarreta uma dcscontinuidade fundamental na trama de nossa
roiáo ã. Razão: vida,
a razão autônoma e consciente de seus fins substitui as cvoluçõcs lcntas por mutações brutais, forçando o indivíduo
se converte em razáo instru- a
mental, que busca tão-somente a eficiência mobilizar scnl ccssilr as suas energias se ele as tiver suficientes, a lutar
e a produtividade e transforma
o indivíduo em instrumento de si proprio. rai e contra o inrprcvisto clas mudanças ou a multiplicação das rupturas,
a razão que a recorrendo so.ia i\ ncuroso compensatória, seja às rígidas estruturas
passagem do espaço qualitativo da cidade "o-unda da
qual o homem pode se
recoúecer ao espaço quantitativo e abstrato, preparando psicose, a fim dc abolir o traumatismo da eterna mudança,,..
Neste sentido,
-
da cidade como valor-de-uso, em metrópole,
a transmutação
isto é, valor-de-tro.u, a"gunao
a visão Írankíirrtiuna c sirnultaneamente uma crítica da temporalidade
os mesmos mecanismos que atuam no processo presente nas socicclaclcs produtivistas e da racionalidade
de trabalho e oue cientificista e nor_
determinam a onipresença do trabalho abstrato matizadora quc us prcsiclc. I-lá uma homologia entre a economia
na sociedad.. i ;r#; de mercado
temporalidade presente nas sociedades produtivistas, e a dominaçil. clu razilo na constituição de metrópole,
nas quais o trabalho no sentido de que a
do indivíduo qualitativo, heterogêneo economia nronotirriu "lormaliza" a relação econômica na
é governadá pelo trabarho forma merca_
- qual somente subsiste uma- qualidade,
quantitativo, do doria da mcsma nrrncira clue a razão formalizaa relação .ir"
u. pessoas.
comum a todas as
formas de trabalho e que as torna comensuníveis: ,,Todo A teoria crítica du Iiscolu de Frankfurt procura reconstituir a pré-história
ato de frodução
reclama um certo tempo,,. do sujeito, p0ro on'rplccnder os momentos de sua decomposiç io (zervalt):
euer dizer, o homem se torna escravo de seu
tempo: "O tempo é tudo, o homem não é mais a abstraçito triunlhnlo da subjetividade tem como núcleo a aliança
nada, nada mais que a entre
materialização do tempo".r para este tempo o pêndulo fi losofi a c mntonrritica --"
cujo inimigo principal é o outro, o não-idêntico.
-
é a medida exata
da atividade de dois operários, como o é da Desse ponto clo vista, o cluc pode ser pensadã a transformação
vetociàade de duas locomotivas; do espaço
a quantidade decide tudo, hora por hora, dia por vivido pela clcstruição cla memória social, em virrude da liquidação das
dia, o.o homeÀ é só a
carcaça do tempo. Não é uma hora de homem
que vale a hora de outro
referências inrlividuais e coletivas sintoma da ;agonia da
homem, mas o homem de uma hora vare um
outro homem de uma hora,,.2
individualiclÍrdon', da "ltagnrcntação -
da identidade,,e da,,mutilaçío do ego,,
Trata-se de uma relação de igualdade abstrata sob os auspír:ios clo capital rnonoporista. o individual, o qualitativo-, o
entre indivíduos
concretamente desiguais, isto é, incomparáveis. para heterogônc«r sf,o oxcluíckrs, cle um só lance, do espaço u.baná
a sociedade o e do campo
científico.
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A pré-história desse espaço homogêneo pode ser reencontradajá nos relação aos mccanisr.os da rnctrópolc. o quc está em jogo e a liquidação
editos medievais que manifestam a luta entre a norrna e a liberdade: "Ellr do indivídLro autônorno, sua dissolução, sua desindividualização na
1231, o concílio de Ruão proíbe que se dance no cemitério ou na igreja sob multidão da mctrr'rpolc. o pocta, o flâneur.contempla essa multidão no
pena de excomunhão. Um outro, o de 1405, proíbe dançar no cemiterio, desejo dc ncla rccorrlrcccr o indivíduo: "A poesia
[de Baudelaire] é o olhar
jogar qualquer jogo que seja, proíbe os mimos, os malabaristas, os do alcgorista rluc toca a cicladc, o olhar do deslocado. E o olhar áoJtâneur
mascarados, os músicos, os charlatães de nele exercerem seu ofício cuja fomra clc vitla crvolvc ainda com um brilho reconciliador a
do citadino
suspeito". A exclusão das diferenças, do diverso, teria encontrado sua da grandc cirl.rlc, dcstinado em breve a não conhecer mais nenhum
formulação teórica no pensamento cafiesiano quando, no seculo XVII, consolo". N. cs;rctiiculo da multidão, o indivíduo se perde e para ele
a
uma racionalidade cientificizante de ordem e de medida pretendeu cidade sc tornir ola l"raisagcm, ora vitrines. Em seguida, paisageme
vitrines
geometrizar o mundo, excomungando demônios, monstros e fantasmas tornarn-sc "nragazinc" -a própria errância pela cidade-, aflanerietoma_
medievais em nome da"clarezae da distinção". A evidência como criterio se utilizhvcl para a troca clc mcrcadorias: a paisagem e lugaide
consumo e
da verdade que faz de unia idéia algo irrefutável fez prevalecer a consunro do lugirr: "Na Íigura do.flâneur", diz Benjamin, ..a inteligência
"ordem das-razões" sobre a "ordem das matérias", pois - aquela e o guia vai ao nrorcarlo".
certo para o homem se tomar "mestre e senhor de natureza". "O casamento A pocsia tlc Il.udclairc dclineia o que significam estas grandes massas.
feliz entre o entendimento humano e anatuÍezadas coisas", dizemAdorno Não sc trala rlc: urna classc, ncrl de uma coletividade: upanu, da multidão
e Horkheimer, "é patriarcal: o entendimento que vence a superstição devc amorÍà clos transcunlcs, tlo público da rua, da liquidação do indivíduo na
ser o senhor danaÍutezadesencantada." Este processo de desencantamento metrópolc, rkr irrlivítltr. autônomo e consciente de seus fins: ..Atribuir
do mundo e resultado da ação fonnalizadora do pensamento, abstrato c uma alrna rr csta nrrrllirliur c o vcrdadeiro papel doflânear. Seus encontros
matematizante e se traduz no espaço urbano pela exclusão de seus rituais, com ela siro a cxpcriôrrcia vivida da qual não cansa de desfrutar,,.
de seus misterios: "A vida de outrora", diz F. Barre, "comprimia o tempo. Porórn, , Íir,çii. do p.cta, do.flâneur é negativa,trágica, sem esperança
Constituía-se de uma seqüência de acidentes, cantos e recantos, de espaços porquc niio hii rnnis a cxigôncia de síntese, de consolo: o poeta não
indeterminados (...). A cidade tinha um passado, uma história conseguirii inrprirnir urna "alrna" a essa multidão. Baudelaire tiaduziu tal
descentralizada, uma soma de experiências próprias, de práticas cotidianas. situação cnr urnil inrirgcrn clcslumbrante quando fala que se trata de
um
o bairro tinha ele próprio seus microlugares, suas aventuras, sua identidade. duelo clo qual «r artista sai vcncicro, mas antes dá um grito. A multidão,
A cidade sabia iguahnente rnarcar o tempo por ritos, signos periódicos de como a rnotrripolc c;trc é sua cstrutura, reconduz ao momento da produção,
peftença ao grupo. Fcstas religiosas, políticas, privadas ou públicas se ao traballro c nclc sc rcÍlctcnr como seu próprio fundamento:.,A
sucediam. Fanfaras, desfiles, procissões, bailes, querrnesses faziam da despcrsonalizaçào tlas rclaçocs sociais se reencontraria no gesto do
cidade um espaço coletivo apropriável, o bem de uma comunidade diversa. trabalhaclor acionand«r a rniicluina. scm vinculações com o gesto pr;edente,
E dificil hoje encontrar festas quc não sejam arzlse-en-scàne da mercadoria porquc o trabalhark» niro ó nacla mais do que a estrita repetição
do gesto,,.s
ou da ideologia mas represcntações de prazer (. .). A cidade, em uma o gcsto rnccânico, rcpclitivo c vazio de conteúdo visa ao aumento da
palavra, possuía uma teatralidade". produção c ao lucro acrcsccutado c rcproduzido. A metrópole e, deste ponto
A metrópole, ao contrário, se destituiu de sua aura, da fruição, de sua de vista, a scdo rla cconornia clc rncrcado, à qual se aliaarazão calculadora
presença a si mesma. A metrópole é a negação da cidade (ou da vida rural). e ordcnadura da vicla s«rcial: "o clinheiro", diz simmel, ..se refere
Benjamin vai buscar em Baudelaire a expressão da interiorização das unicamcntc ao c}ro ó cunrurr.r a tuclo: intercssa-se tão-somente pelo valor
relações dominantes na metrópole. O "plano" da razáo formalizadora de troca, rcduz toda quulitludt, c intli'icruarirtade àquestão: quánto?',.6
encontra-se inteiramente na composição poética de Baudelaire, onde Apenas a rcalizaçiur ob-f ctiva, qucr dizer, mensurável, é de interesse;
transparece o desmoronamento de toda possível cultura autônoma em todas as coisas são nivcladzrs por clc, pois torna-se o equivalente geral de

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barroca, ernpilhar inccssantcrncntc Íi'agmentos: "A alegoria barroca',, diz,
todos os valores, arrancando a individualidade das coisas, isto é, seu valttt' "viu o cadáver sorncntc do Íilra. Baudclaire o vê de dentro".s A memória e
específi co sua incomparabilidade. para Benjamin cvocaçiur c rccortlação das ruínas da História, é a consciência
O poder - do capital determina a concepção de um espaço homogôncrr
melancólica da "crônica rlcscousolada da História do Mundo,,. o sucessor
e rápido, onde as mercadorias pessoas e objetos possam circular,
- do "palco ban'oco" c a ciclaclc surrcalista
Para tal, a metrópole lança mão-da estratégia da ordent e da medida, a íittl
ela e a paisagem metafísica
em cu.jos cspaços «lc sorrlro as pcssoáls têrn uma - "existência breve e sombria,,.
de controlar o espaço social e garantir a circulação impune da mercadoria, Para cntcndô-la c prcciso cornprecnder sua topografia, saber mapeá-la,
Tal e o sentido da urbanização de Paris no século XIX. Tudo estri saber conro Íiri pcrtlida. llcnjarnin extrai do drama barroco alemão e do
estabelecido de forma a garantir a disciplina social.x É nesse sentido quc gosto pcla alcgoria os cltitos de choque do surrealis o sentido da
Sergio Buarque de Holanda fala das construções das cidades na Américit catástroÍb histririca. A cidadc clcve nos mostrar cenas nas quais nós mesmos
espanhola: "A exploração espanhola caracterizou-se por uma aplicaçâtt nos cncont[cnlori c (luo nos rcvclem o sentido da vida no mundo modemo;
insistente em assegurar o predomínio militar, econômico e político dt por isso. Ilcn jirnrirr rlcstaca o "niilismo das cidades", os únicos lugares de
metrópole sobre as terras conquistadas, mediante a criação de grandcs experiôncia Iristririca rra civilização industrial: daí o obsessivo andar pelas
núcleos de povoação estáveis e bem ordenados (...). O traço retilíneo, cll) ruas c bulcvrlcs, il rrrgôrrcia crn rcarranjar tudo o que foi vivido, fixando-o
que se exprime a direção da vontade a um fim previsto e eleito, manifeslit
em mapas, cul unlil ortlcrtr c.spociol.
bem essa deliberação. E não e por acaso que ele impera decididamente enr Para Ilc,.jirrrrin, sua "l)aris, capital do securo xlx" é o instante em que
todas as cidades espanholas, as primeiras cidades abstratas que edificaram todas as coisirs csliio parir scr cnviadas ao mercado como mercadorias, mas
europeus em nosso continente".T hesitanr rro "lirrrilrr tlo abisrno", pois ainda lutam para sobreviver suas
E assim que Benjamin vai resgatar o negativo na cidade planejada, "arcadas c irrlcriolcs", "cxibiçôcs c panoramas". São resíduos de um mundo
ordenada, controlada; ela e o espaÇo amplo, cheio de possibilidades por sonhado. li rrcslir rlircçiio tlrc E. Bloch analisa as "imagens-aspirações,,
suas "interseções", "passagens", desvios, becos sem saída, "ruas de mão em "A aspirirçlro tlo lorreínr}ro c a morada historicizante do seculo xlx,,e,
única" ou "contramão". Há uma linguagem secreta habitando esses espaços como a arrtítcsc dotlitr irtdtr:;tt'iul e d,ogosto burguês: "pelo meio do século,
fugidios e escondidos por onde passa o flaneur batdelairiano. E tambent o estilo ncocliissico srrbilarncr.rtc findou, para ser substituído por um plágio
nos fragmentos da Infancia berlinense, Benjamin dispõe fragmentos da exótico, conr villiris crrr Íirnckr clc garrafas fabricadas em sórie; a burguesia
memória infantil, nos quais transparece o espaço social da cidade e a semprc rl]iris pllis|'rclir scr clcritava crn lcnçóis da nobreza, para sonhar grandes
"catástrofe iracional" da destruição de um mundo cuja única referência c estilos tkr |'rassirrkr irrrtigo alcmão, francês, italiano, oriental, estilos que
a memória subjetiva, dado que seu supofte objetivo desapareceu e a cidadc para ola sri tirrlrirrrr vrrlol rlc lcmbrança". Tudo se passa somente como
com suas "ruas", seus "passeios", suas "passagens" se desfigurou: Berlim, simulaçiitl c rlissirrrrr lirçrio.
Marselha, Nápoles, Moscou e sobretudo Paris são o lugar de reflexâo acerca li o corrlliirio tkl tlrrr-: ocorrc corr a aura dos móveis antigos, o encanto
da razáo instrumental, inimiga do passado e da lembrança, que visa das ruírrirs, o nlusr:lr. A colcçiio tlc objctos antigos testemunha uma arte
acriticamente ao futuro e ao progresso. extinta orr cxrilicl: "o vcllro rrrtivcl, o vcludo, a porcelana se distinguem
O que está, poftanto, em questão e a fragmentação da individualidadc por unra r;trirlirlatlc ;lcnlitlir, rrrn olicio clcsaparecido, uma cultura evadida;
ou suas ruínas. O passado e a memória determinam o olhar do poeta- tudo islo c o (lur: conslirr ri srrr nrlirlaclc. Aos aftigos em série cada vez mais
alegorista sobre o espaço-vivido; e o que é marca para a alegoria barroca montitonos, ol)ocnr .ric rirlrczas dc um patrirnônio de objetos não
vale à alegoria dos tempos modernos, a Baudelaire, pois só o poeta- padronizark)ri (llrc scrnl)r'c srrr'llrccrrtlcnr pclas novidades que oferecem: ..os
alegorista a interioriza. Benjamin diz ser prática comum, na literatura mais sinrPlcs ;lrirlos rlc Íirirrrrçir rliÍ'clun uns clos outros quando seus lugares
respcclivos tlc Íitltrit'rtçrio sc sc1'xrlariun unr clo outro por cinco horas rle
*Conferir o cnsaio "Estado e Espctáculo".

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Nas narrativas dos velhos poderemos observar a constituição do sentido
camiúada (...). o que diferencia todos esses objetos é a localidugu' t
cuidadoat, político da amnésia da cidade: o sufocamento da lembrança, pelo
tradição; mas o elo eicepcional que os une é a mesma execução
é uma cultutl àesaparecimento de seus suportes materiais, abole o aspecto lúdico das
o conjunto minucioso das peças que os constituem,
recordações afetivas e abrange a memória política. Ao recordarem
sedimlntada e que lentamente chegou à maturidade"'ro
..cruzada" para o país das antigüidades não se orienta por acontecímentos políticos de que foram testemunhas, Suas lembranças
Esta 4 passadas e grupais são invadidas por outra memória, a "oficial" que
anticapitalismo romântico-conservador; ao contrário, diz Bloch, ryia;l!
ãxpropria o sentido e a verdade das primeiras. Por essa razão, os
pelo pensamento de que o capitalismo tardio e mecanicista é o inimigo
mávimentos de recuperação do espaço urbano são a recusa do instituído e
mortál da arte e de tudo que é grande. Há um abismo intransponível enttü
feall recuperam a dimensão do instante de sua instituição, recusando a idéia de
estas 'oruínaS Sentimentais" e eSSaS Outras ruinaS aSSuStadOramente .,progresso", isto ó, a idéia de que o que vem depois é necessariamente
deixadas pelas ofensivas do terror produtivista: "A máquina",
diz Bloc16,
,.criou novas condições, diferentes daquelas do período artesanal no cur80 melhor do que o que veio antes. O Zeitgeist arquiva o passado para se
tornar apologia do existente, para justificá-lo e defendêlo por meio do
do qual as antigüidades foram produzidas (...); a fabricação de objetos
em
geral e à esquecimento. Contra ele se erguem os momentos de revolução'
série, fenômeno correspondente unicamente à mecanização
submetido Para Lcfiebvrc, a Comuna de Paris não foi somente a volta em força a
carência de inspiração e àe idéias (...) correspondem ao homem paris dos operários cxpulsos paru aperiferia; foi a possibilidade de uma
pelo capitalismo à máquina".rr
nova instauração comemoradora no espaço vivido da cidade. Esse ato de-
No mundo da mecanização e do produtivismo se encontra a marca d0
..má manufatura,, da maior parte dos novos objetos. A estes, diz Bloch, volve de alguma Íorrna a palavra aos que foram silenciados. E por fim essa
,,como às ruas novas, não lhes é permitido envelhecer, mas apena§ memória ficará contra os poderosos: 'oAqui", diz um dos memorialistas
oovocês
aquilO qUO visitados por Eclca, nada podem tocar e nada podem destruir".
deteriorar-se ao longo dos anos". Nesse contexto, asruínas São
Marcando com toda a virulência a sociedade à sua imagem, o capital
resiste ao poder destruidor do tempo. Elas fazem parte do derradeiro
criou sua altcridadc, o proletariado revolucionário. As lutas deste último
patrimônio de cada individuo, de suas fantasias, da aspiração de viajar
representam uma mancira de recuperação, quantitativa e qualitativamente,
"em sentido inverso ao da morte".
dó tempo e clos obietos de que são expropriados nas fábricas e no espaço
ocapitaléumpodertanáticoquedestróioespaçofugidiodacidade,
social. ior isso, a l-tistória surge para os movimentos revolucionários como
convertendo-a em metrópole impàssoal e sem memória. Eclea
Bosil2
o'Rompe-se o tempo dos relógios."r3 Para Ben-
presença d0 algo a ser desobcdecido.
evidencia tal aconteci."rrto atraves de relatos de velhos na
passado: tal sociedade jailln esta consciência de explodir o continuum da história é própria "das
sociedade produtivista dissipadora da memória e do
rcvoluciorráritrs no instante de sua ação. A Grande Revolução
desguarnece o velho, mobilizando mecanismos pelos quais oprime a
"lurr.,
pela história introduziu um novo catcndário. O dia com o qual começa o novo calendário
velúce, destroi apoios da memória e substitui a lembrança
,,oficial celebrativa". O ato de recordar, dirá Eclea, não é simples repetiçâO funciona col.no ufil acclcrador histórico do tempo. E é no fundo o mesmo
que passou dia quc scmprc volta sob a forma dos dias de festa, que são dias de
do passado: "O velho, de um lado, busca a confirmação do
ou orais, investiga, pesquisa' recoidação. Assim, os calendários não marcam o tempo como os relógios
com SeuS coetâneos, em testemuúos escritos
lado, recupera o tempo (...). A revolução dc.iulho (de I 830) comportou um incidente em que essa
confrontaesse tesouro de que é guardião. De outro
diminuir e àonsciência histórica pôde fazcr valer seu direito. Nanoite do primeiro dia
qr" .o*", e aquelas coisas que quando perdemos nos sentimos
experiência de combatc, rcvclou-sc que em vários lugares de Paris, independentemente
morrer (...). A conversa evoôativa de um velho e sempre uma
revolta, tesignação pelo desfiguramento e no mesfilo momcnto, atirou-se contra os relógios públicos. uma
profunda. íepassada de nostalgia,
semelhante a testemunha ocular cscrcvctl cntão:
àas paisagens caras, pela desaparição de entes amados' é
uma obra de arte".

r25
t24
o'Quem
acreditaria? Dir-se-ia que,
irados contra as horas,
Notas
Novos Josués ao fim de cada via
Atiravam nos quadrantes para parar o dia"ta I
Marx, Karl. Misàre de la philosophie. paris,
Estes "ludistas do tempo"rs buscavam, tal como Editions Sociales, 1947. p. 47
é função damemóri 2
.
desorientar o cronômetro do frio cálcuro, i..rp.ru, Marx, idem, ibdem.
para-repeti-lo, mas para realizar suas esperanças.
o tempo p"raà", ,iff
Nesse sentiao, u
citadina é projeto de desalienação sociar, que recoloca .,sentim;ffitr
u;Á;;t,' 3
Em: "A Metrópole e a vida mental,,,
Ofenômeno urbano, Zahar. p. 14.
o a
Em: "Approche des causes sociales
h,manidade" como determinante do espago iivido,
tecnocriítica do espaço, a fim de tráç* o destino
contra
"
br.".;;;;;ü et mentales de lamaladie mentale,,,
mations sociales, número.rp".iãi-ó-ãirr;
i,ü.ãn;j;, n. 5, paris, 1972.
Revistalníor_
qr" uinJu Jri" l&, 5
Marx, Karr. o dezoito brumário e
indivíduo- E aqui Benjamin depreende o Jetzfzeit, cartas Kugermann.Rio de Janeiro,
tut grra";;; ;";di,
no devir do tempo e que o interrompe. O Jetztzeü_essa;agoriduO";J
Escriba, 1g6g.
""rà 6
Op. cit.
fala de uma relação do presente com o passado
que possui o sentido
contrário ao continuum de História à ruo, sucessões
arürJ{Í 7
Em; Raizes do Brasil. José Olympio.
e continuidadu* aci,! 8
contrário, o "tempo do agora,, é dialetico em sentido Op. cit.
"enquanto a relação do presente com o passado
U.rjr.i;ra
i
e
é meramentó ,.-pãrrrl,; Em: Le principe experance. Gallimard.
continuadora, a relação do passado conLo agora
é dialética: não e urÍr, ro
ldem.
mas uma imagem, algo que nos surpree, de,, (Gesammelte
9Ty:o, Schrifiàl rrldem. Op.
[G.S.J, v.V, pp.576-577)- Isso quer dizer que a relação do passado com cit.
d
presente dialético não é histórica e "ostenta
-'r- --^-*
o primado da política sourc a r Lembranças de verhos. Biblioteca
p.491).r6
't2
-j,t de Letras e ciências Humanas.
história" (G.§.,
ur§Lurla (tr.D,, v. lv,
IV, p.4gl).,. .irl usp.
Nesta perspectiva, a critica frankfurtiana visa à Romano, Conservadorismo romantico,
.. ciência progressistaJ. origem do totalitarismo.
suas questões á p;i;;;;;\,
Iinear e despoetizadora, recoloca no centro de "*i,Ua.lr§"Oerto
sentido da captura do agors-o que possibilita ra
Benjamin, Walter. ,.über den BegriffGeschichte,,,
a fericidade do iri;ãr;;'i tese n. XV, op. cit.
"A felicidade", diz Adorno, ',é uma clência esqueciala,,.rT ,r, ----it 15
A expressão é de Roberto Romano, op. cit.
6
|
Benjamin, W alter. G e.ç a m m e I t Sc h r ift en (G. s). Suhrkamp.
t7
Minima moralia,Torino, Einaudi, I974.

*Texto apresentado
na 34q Reunião Anual da sBpc no simpósio..cidade
e Utopia,,. Artigo
publicado na Revista Espaço & Debates, n.
7, ano 2, CorÍez, 19g3.

126
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Coordenação Editorial
Carla Milano

Edição de Texto
Martha Assrs de Almeida Kuhl

Assistente Editorial
Marcia Regina Jaschke Machado

Revisão
Cláudia Jorge Cantarin Domingues
Regina Célia Barrozo

Capa
João Baptista da Costa Aguiar

Dados lnternacionais de Catalogação na Publicação (ClP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Matos, Olgária C.F.


História Viajante: notações filosóficas / Olgária Matos - São
Paulo : Studio Nobel, 1997.

Bibliografia.
tsBN 85-85445-72-6
1. Conhecimento 2.Filosofia 3' Psicanálise 4. Sociologia Para loaquim Guedes,
L Título.
por um dia solar de minha uida
e pelos que continuam a air
s7'2143 cD!:19?

índices para catálogo sistemático:


1 . Filosofia : Ensaios 1O2