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CONTRA-REFORMA

mo, as de Viseu de 1617 e as da Guarda de 1621 (os O porquê dessa não concretização prende-se, em pri-
sínodos que as originaram foram ambos em 1614) meiro lugar, com uma confusão entre a determinação
são o apogeu do modelo tridentino. Partem do prin- dos elementos constituintes do conceito e a sua defi-
cípio que apelava à necessidade de sintonização com nição enquanto «época», enquanto período de tempo
Trento, mas com um mais amplo desenvolvimento e com afinidades estruturais e de conjunturas determi-
espelhando grande preocupação com a defesa da nadas. Neste momento, o uso do conceito envolve
Igreja e a valorização dos seus méritos, com o culto algumas mais características. A primeira prende-se
dos santos* e relíquias, com os cuidados a ter com as com o alargamento a realidades que estão para lá da
imagens - incluindo a possibilidade de destruição oposição frontal ao mundo luterano da Reforma. Isto
das que se considerassem «indecentes», com a im- significa o admitirem-se aspectos de Reforma com
portância da fé, do acatamento da disciplina da Igre- uma permanência quinhentista, nascidos em ambien-
ja, com o valor fundamental dos sacramentos im- te de continuidade desde final do século xv, e nos
pedindo que os leigos não «disputassem» sobre quais, mercê deste alargamento do âmbito concep-
matérias de fé, com a estrita observância da ortodo- tual, podemos incluir todas as alterações antropoló-
xia. Constituem assim um texto exemplar das políti- gicas e de implicação teológica, nascidas então, e
cas de reforma católica (v. C O N T R A - R E F O R M A ) , são que participam desta Reforma. Primeira conclusão: a
modelos de erudição, inauguram uma nova estrutura Reforma é uma realidade europeia que, preludiada
dispositiva das matérias e serviram de paradigma às desde meados do século xv se afirma, dispersando-
de Lisboa de 1646, do Algarve de 1674, de Lamego -se em espaços e em ideias, com as consequentes
de 1683 e às do Porto d e i 6 9 0 . práticas distanciadoras, até bem entrado o sécu-
J O SÉ P E D R O PAIVA lo xvn. A configuração do conceito tem uma história
que passa, entre outros, pelos trabalhos de Leopold
B I B LI OGR A F IA : C A R D O S O , A. Brito Sínodos e cons tituições da diocese de von Ranke, ainda no século xix, pelos de Pastor, Hu-
Coi mbra. Lúmen. (1987) 37-41, 45. COSTA, Avelino de J esus da - Síno-
dos e co ns tituições di ocesanas. Acção Católica. 26 (1 941) 596-6 10. bert Jedin e Ricardo Villoslada, nos anos 40 e 50 do
I D E M - Constituiçõ es dioces an as portu guesas dos séculos xiv e x v. Bra- século xx, pela aportação de Wolfgang Reinhard
cara Augusta. 31: 71-72 (1977) 5-16. G A R C I A Y G A R C I A , Anto nio - Sy- que, em 1977, ao pretender fixar a teoria de uma
nodicon Hispanum. Madrid: Bib lioteca de Autores Cristian os, 1982.
MARQUES, Jo sé - Sínodos bracaren ses e renov ação pastoral. Theologica. «idade confessional» (konfessionelles Zeitalter) não
30: 2 (19 95) 2 75-3 14. MEA, Elvira Cu nha de Az ev e do - As constitui- só realiza uma importante reflexão sobre todo este
ções di ocesanas do Porto (1585) e Coi mbra (159 1) à luz do concílio
dio cesano de Braga (1566). In C O N G R E S S O I NT E R N AC I O N A L DO IV C E N T E -
percurso como aclara a Contra-Reforma, deixando
NÁ R I O DA M O R T E DE D . F R E I B A R T O L O M E U DOS M Á R T I R E S - Actas. Fátima: aberto o caminho, em que se vão integrar as reflexões
M ov i me n t o Bartoleano, 1994, p. 46 7-488. PEREIRA, Isaías da Rosa - Sí- da nova sociologia religiosa (Durkheim, Le Bras,
no dos da d iocese de Lisboa: Notas históricas. Lúmen. 25 (1 961) 385-
-398. I D E M - Constituições sinodais de Viseu de 1699. Arquivo de Bi-
Dupront) e da história das mentalidades (Henri Bré-
bliografia Portuguesa. 15: 57-58 (1969) 1-17. I D E M - Estatutos sinodais mond, Lucien Febvre) e que toma a actual abrangên-
portugu eses na Idade Média. Reportorio de História de las ciências cia depois das aportações de síntese crítica de Jean
eclesiásticas en Espana. Salamanca: Imp. Calatrava, 1971, vol. 2,
p. 215 -223. ID E M - Sín odo dio ces ano de Évora de 1534. Anais da Aca-
Delumeau (1965). Com Delumeau fica claro que
demia Portuguesa da História. 20 (19 71) 169-232. I D E M - Á v i d a do têm de se considerar diferenças entre a Reforma ca-
clero e ens ino da doutrina cristã através dos s íno dos m edievais portu- tólica, porque a houve protestante, e a Contra-Re-
gueses. Lusitania Sacra. 10 (1 978) 37-74. SOARES, Franquelim Neiva -
O sín odo de 1713 e as suas constituições sinodais. In IX C E N T E N Á R I O DA forma católica, porque também os protestantes a ti-
D E D I C A Ç Ã O DA S É DE B R A G A - Actas. Braga, 1990. vol. 2, p. 209-232 . veram em sentido inverso. Mas, como o próprio
VASCONCELOS, Ant ónio de - Nota chronoló gico -bibliográphica das cons- Delumeau o faz notar, se esta separação confluente
tituições dio ces anas portuguêsas até ho je impressas. O Instituto. 58
(19 58) 5-23. VIEIRA, Alberto - A s constituições sinodais das d ioceses deve ser observada o certo é a historiografia ter inte-
de An gra, Funchal e Las Palmas n os s écu los xv a xvn. In C O N G R E S S O I N - riorizado e utilizar Reforma como forma de designar
T E R NA C I ON A L DE H I S T Ó R I A M I S S I O N A Ç Ã O P O R T U G U E S A E E N C O N T R O DE C U L -
aquela, empreendida a partir de Lutero, e Contra-Re-
T UR AS - Actas. Braga, 1993, vol. 1, p. 44 5-447 .
forma como a reforma católica, ante e pós-tridentina,
ao mesmo tempo que oposição à Reforma protestan-
CONTRA-REFORMA. Aceitando como Reforma da
te, como uma mesma totalidade, sobretudo, uma
Cristandade e da Igreja o pensar e o fazer dos segui-
época. Assim acontece na maior parte dos casos em
dores, mais ou menos próximos nas ideias ou nas
que há utilização de Contra-Reforma entre os histo-
práticas, de Martinho Lutero, Contra-Reforma foi o
riadores portugueses. Se toda a clarificação realizada
termo encontrado para designar tudo aquilo que se
por Delumeau é da maior importância, tão interes-
lhe opôs. 1. Amplitude historiográfica do conceito:
sante quanto ela foi a chamada de atenção para as
Data já dos anos 70 do século xvin, em ambiente ale-
noções de mentalidade como envolvente das realida-
mão e iluminista, o seu uso pela primeira vez. Na
des religiosas abordadas, chamada que tem uma
sua utilização posterior pretendeu chamar-se a aten-
principal afloração na constituição da noção de Re-
ção para os aspectos de oposição à Reforma de Lute-
forma. Esta é uma totalidade com diferentes aporta-
ro, a Reforma dita protestante. Colocou-se essa mes-
ções e resultados parciais, como são os de Lutero,
ma oposição no mundo católico fazendo-a coincidir
Calvino, dos participantes em Trento ou do Papa.
com aspectos conservadores e retrógrados, sempre
Mais, esta Reforma nasce de permanências diversas,
que possível coincidentes com o Sul europeu, um es-
que se estendem por vários séculos, e originará, nu-
paço mediterrânico-romano em que Itália, Espanha e
ma preparação longa, muitas vezes denominada de
Portugal assumem a linha da frente, seguidos da
«Pré-Reforma», oposições que mais não são do que
França. O caminho percorrido posteriormente visou
tentativas ou de repor o permanente ou de o divul-
clarificar o conceito utilizado retirando-lhe essa co-
gar, para o recuperar ou romper com ele. Esta menta-
notação qualitativa e valorativa, tarefa esta que não
lidade, na sua dimensão de continuidade com o pa-
foi, nalguns casos, contínua na sua concretização.

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CONTRA-REFORMA

pado e Roma, recusa o evangelismo humanista por dos candidatos, incitando a uma atitude pastoral* em
este estar próximo do pensar protestante, no que ele que as visitas, as reformas dos benefícios, a prega-
comporta de antimonaquismo, de universalização do ção, a catequese* e, mais do que tudo, a criação de
sacerdócio, de repúdio da mediação dos santos e de seminários*, se impunham como os grandes objecti-
veneração das imagens e das relíquias. Mas aceita a vos. Todas estas medidas estarão por detrás das di-
espiritualização do culto, o recurso frequente à ora- mensões de Reforma católica. O Concílio de Trento*
ção interior, a melhoria do clero, o secular na forma- é, porém, tardio e de afirmação contrária perante as
ção e moralização e o regular, mais que tudo, neste propostas de reforma dos protestantes, consideradas
último aspecto de moralização dos costumes. Em e que se consideram dc ruptura, contra as quais ha-
confronto consigo própria, a Cristandade, pelos seus via que combater em nome da verdade, da ortodoxia.
teólogos, pensadores e santos, assumiu uma necessi- Compreende-se, deste modo, a assimilação de Tren-
dade de reforma, que iniciou, logo a partir dos finais to e de todos os outros esforços de mudança no inte-
do século xv, com as diferentes famílias monásticas, rior da Cristandade e Igreja, mesmo anteriores, ao
abrangendo grande número de membros do clero re- conceito de Contra-Reforma. Quando, em 1521, se
gular e que concretizou numa totalidade que foi o dá, primeiro, a condenação das ideias pela bula Ex-
concílio. O peso deste trabalho desenvolvido entre surge Domine e, depois, pela bula Decet Romanum
os regulares possibilitou a concretização tridentina. Ponti/icem, a excomunhão do monge agostinho Mar-
Realmente, só com os saberes recuperados e fixados, tinho Lutero (1483-1546), criam-se realidades novas
de maneira disciplinada, em cada uma das casas das no espaço da Christianitas. Lutero e os que o segui-
congregações já reformadas, reformas que foram ram posteriormente, monges, príncipes do Império
sempre no sentido da observância e do integrismo ou crentes cristãos de fala alemã, protestam uma for-
católico, é que o concílio pôde criar toda uma força ma diferente de leitura da Escritura, das suas impli-
impulsionadora que visava uma assunção da catoli- cações teológicas e eclesiológicas, distanciam-se,
cidade, enquanto universalidade. Daí nasce o cres- procurando romper com a tradição, e apostam numa
cendo missionário, quer nas suas dimensões inter- reforma da Igreja e, por aí, atacam ou defendem po-
nas, de que a publicação do catecismo romano, em deres constituídos. Participam, desta maneira e indi-
1566, por Pio V (1565-1572), é marco exemplar, rectamente, na gestão dos espaços europeus, nas
quer como meio de conquista de novos espaços ex- suas constelações políticas e nas suas fronteiras, que,
tra-europeus aos pagãos. A atitude de fundo da for- por essa altura, muitas vezes se sobrepõem mais do
mação corre a par da compreensão da necessidade que traçam uma linha definida e única. De uma ma-
de ensinar e aprender, quer melhorando os saberes neira geral podemos dizer que o espaço europeu nas-
do clero secular*, quer educando os fiéis dentro de ceu num tempo de afirmações de individualização de
uma vivência cristã, em que a dimensão moral cada reinos, já de há muito empreendido, e que tem o seu
vez mais se amplia. Educar por meio do catecismo grande entrave na caracterizacão individual do Impé-
referido ou com as palavras de pregação, como Jean rio, herdeiro do Sacro Império Romano-Germânico.
Delumeau tão bem chamou a atenção, são aspectos Conjunto de reinos, de cidades, de estados patrimo-
da cristianização moderna e parte integrante da Re- niais, de senhorios de leigos e de eclesiásticos, tem
forma católica. A formação junta-se a defesa intran- um poder tutelar sobreposto e eleito, desde 1519,
sigente dos dogmas e dos sacramentos*. Há uma su- Carlos V (1519-1556). O Império tem fortes liga-
bida notória da direcção de consciências, por meio ções, desde sempre, ao papado, que o legitima e faz
da confissão; da defesa da transubstanciação, capaz a sua sagração, na pessoa do imperador eleito. O pa-
de impor formas de culto e de oração espirituais, pado tem esta capacidade enquanto detentor de terri-
considerando a realidade de Cristo como substância tórios, que dele fazem participante nas oposições de
inerente e definitória dos acidentes terrenos; da valo- poder. Mercê destas imbricadas sobreposições de
rização do culto da Virgem Maria e, a ele ligado, o realidades político-institucionais, em 1545, o papa
dos santos intercessores. Será ainda em razão desta Paulo III (1534-1549), ao querer reunir um concílio,
participação de um clero anteriormente reformado de incidência universal, vai escolher uma pequena e
que a própria Igreja poderá avançar para a regula- independente cidade italiana, mas de tutela imperial,
mentação do poder papal reforçado e para a configu- a cidade de Trento. Ainda suscitada por muitos des-
ração litúrgica, com caracteres quotidianos e de tes factores, em que o confronto dentro dos estados e
gestualidade muito determinados, igualizados e in- entre estados e casas reinantes foram fundamentais
tensificados. O esforço nasce envolvido na sucessiva para a sua eclosão e manutenção, devemos referir
obrigatoriedade de livros cultuais, como sejam o que existe em toda a Europa uma Contra-Reforma.
breviário (1568), o missal (1570), devocionários, Por ela se designa todo o conjunto de acções milita-
santoriais e outros (entre 1582 e 1615), em constante res levadas a cabo contra os protestantes como tenta-
fidelidade à versão consagrada e definida, como au- tiva de recuperar espaços para de novo se sujeitarem
torizada, da Vulgata (1592) (v. LIVRO R E L IG I O S O ) . De- ao dogma católico romano ou para evitar a sua pas-
pois da sua construção, onde o peso regular foi mar- sagem ao campo oposto. Esta mistura de razões de
cante, a divulgação de todos os debates e conclusões ódio ao herege com realidades políticas, as afirma-
foi tarefa reservada a cada um dos bispos na sua ções da França e do Norte europeu contra o Império
diocese. Daí a fundamental importância que lhes é e estados Habsburgo, teve concretizações nas guer-
reservada por tantos decretos conciliares que pro- ras nos territórios alemães e austríacos do Império
curavam a sua reforma, obrigando à residência, a (1546-1548), nas guerras de religião francesas
escolhas apropriadas e não nepóticas ou simoniacas (1562-1598), nas dos Países Baixos (1568-1648) e,

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CONTRA-REFORMA

Retábulo da capela-mor da Igreja de São Roque, em Lisboa.

para finalizar, na envolvente Guerra dos Trinta Anos muito distante, houve por alguns sectores da história
(1618-1648). Foi mais longe esta mentalidade de in- da Igreja e em certos manuais de ensino um uso do
tolerância ao contribuir para as guerras entre poderes conceito como forma de afirmação de alguma oposi-
constituídos, como as diferentes Igrejas, e os homens ção aos «protestantes», outros houve que, na época
ávidos de crença, destes séculos modernos. Segunda que com ele desenham, só viam o fim de um pensa-
conclusão: existiu na Europa um momento de oposi- mento crítico e humanista que teria resultado de uma
ção frontal à Reforma, denominado Contra-Reforma, ofensiva dos mecanismos criados para se oporem
designação que deve conter as guerras e todos os aos protestantes. O mesmo não se verifica hoje. 2.
pensares e actuações que visaram impedir infiltra- O caso português: A tendência na construção da his-
ções de hereges em cada um dos campos, ainda que tória da época, traçada em Portugal como os finais
com uma tenacidade combativa mais encarniçada do reinado de D. João III (1521-1557), anos 50 do
entre os católicos. Se todos estes limites e reticências século xvi, e posteriores reinados até D. Pedro II
se põem, de uma maneira geral, também por eles é (1677-1683-1706), anos 80 já do século xvii, arrasta-
tocada a historiografia portuguesa que tem usado dos até à primeira metade do século xvin, D. João V,
Contra-Reforma dentro das grandes linhas aponta- quando não Pombal, utiliza o conceito como capaz
das. Podemos constatar que, enquanto numa fase não de cobrir por si todo o período de valorização dos re-

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CONTRA-REFORM A

sultados tridentinos, nas suas mais diversificadas es- quando não seguidistas, defensoras ou laudatórias do
feras. A participação portuguesa em Valhadolid, lo- humanista dos Colloquia. Esta linha de continuidade
go em 1527, nas pessoas de mestre Diogo de prolonga-se naquilo que são os grupos de «oração
Gouveia, de D. Estêvão de Almeida e de Pedro Mar- excessiva», aqueles que andavam pelos caminhos da
galho, é o marco logo visível de um percurso que se mística e suas vivências, muitos ditos «beatos»,
consumaria na vivência do Concílio de Trento «beatas» ou «iluminados», pela suspeição de que as
(1545-1563). Vivência pelo rei e seus delegados, suas vivências do religioso os poderiam aproximar
além dos diferentes bispos, nas sucessivas sessões e de Deus, mas afastar do Deus ortodoxamente defini-
com participações desiguais. As legações portugue- do pelos estratos clericais, que necessários eram à
sas foram de diversa índole mas importa ressaltar a sua aferição. Ligadas ao poder estão ainda, de forma
presença, repartida pelos três períodos de reunião diversa, a instituição, em 1536, do Tribunal do Santo
(1545-1548; 1551-1552; 1562-1563), de bispos Ofício da Inquisição*, e a criação do controlo das
(Porto, Silves, Cartagena, Braga, Coimbra e Leiria) ideias pelos Index (de 1547 a 1624) e pelos novos
ou dos seus procuradores (Braga, Lamego, Viseu, estatutos da universidade (1559 e 1653) ou a sua
Silves e Ceuta), de teólogos, todos eles clérigos re- criação jesuítica, em Évora (v. U N I V ER S I D A D E DE É V O -
gulares, e de embaixadores do rei. Da participação RA), em 1559. Dentro da mentalidade de exclusão e
inicial chegou a Portugal não só o resultado da cisão de intolerância se insere a importação da Inquisição.
de Lutero, então dada como concretizada e inultra- Baseando a sua actuação na luta ao herege, aí se
passável, como, no dizer dos participantes de Trento, condensam as realidades luteranas, protestantes na
que as ideias que motivaram essa prática e heresia ti- sua generalidade, mas, sobretudo por arrastamento e
nham que ver com realidades até aí simplesmente por consentimento criado por esta nebulosa de opo-
pensadas, divulgadas e aceites sem consideração pe- sição e de limpeza, os judeus, transformados em
las suas consequências. Esta informação recolhida e cristãos-novos. O rei e o seu reino, assim como al-
vivida pelos participantes na assembleia da ortodo- guns dos seus súbditos, beneficiam do tribunal e das
xia romana embateu com o que se passava no reino suas condenações, excluindo ideias e pessoas, atin-
e, logo desde a chegada dos diferentes delegados, gindo bens e cargos, e isto por simples denúncia ou,
foi-sc criando a ideia da necessidade de mudar o até, por participação em corpos de envergadura so-
existente e de exterminar tudo aquilo que se pudesse cial dignificante como o dos familiares. A acção da
pensar que conduziria até àquela forma de reforma, Inquisição tem muitas vezes servido para simbolizar
diferente, como se queria que fosse, da de Trento. como totalidade a Contra-Reforma, o que é restritivo
É aqui que podemos entroncar toda uma sequência e dificulta a compreensão da época, como o mostram
de acções e medidas que serão tomadas sucessiva- as mais recentes investigações históricas ao chama-
mente para se conseguir a manutenção da ortodoxia rem a atenção para as relações estabelecidas nela en-
tridentina, mesmo que obrigando a actuações contra tre poderes, claro que, envolvidos numa mentalidade
a Reforma, dc cariz alemão e luterano, cada vez onde o religioso impera. Mentalidade que não se po-
mais alargada a outros espaços e línguas e a outros de compreender sem a direcção incutida à cultura
pensadores e reformadores, como Mélanchton pelo poder. São notórios os movimentos de adestra-
(1497-1560), Zuínglio (1484-1531), Bucer (1491- mento do fazer cultural, dos quais o de maior reper-
-1551) ou Calvino (1509-1564). No traçado desta cussão terá sido a transferência do Colégio Real das
oposição importa salientar a aliança de poderes co- Artes, em Coimbra, das mãos de humanistas para a
mo a sua dimensão mais forte, duradoura e profun- de jesuítas (1555), enquanto os primeiros são sub-
da. Os decretos tridentinos chegam a Portugal em 3 metidos a processos inquisitoriais (entre 1550-1552),
de Junho de 1564, acompanhados do breve Sacri por medo das suas ideias muito próximas das de
Tridentini de Pio IV (1559-1565), e tornam-se lei do Erasmo. É nesse sentido que devemos analisar o pe-
reino, com o alvará de D. Sebastião (1557-1578) de so dado no ensino* oficial universitário à correcção
12 de Setembro desse mesmo ano. Este momento dos corpos estatutários existentes ou à sua nova ela-
consuma todo um percurso multissecular de enraiza- boração. Não pensemos que a sua alteração afirmati-
mento da devoção à Virgem Maria e aos santos, de va visava somente aspectos institucionais ou de re-
respeito para com as relíquias, de aceitação do privi- novação conjuntural. Em 1559 e 1653 fixa-se não só
légio do clero, mormente dos bispos, de constatação o quotidiano universitário que se quer católico, nos
da protecção do rei à Igreja e do Papa ao rei e reino. cerimoniais e nas formas dc agir, como nas aprendi-
Ao mesmo tempo confirma todas as acções de opo- zagens, onde cuidadosamente se limita a dimensão
sição, que já se levavam a cabo, incapacitadoras dos de crítica a exercer sobre cada um dos textos de au-
avanços das ideias e dos reformados. Claro que estas tores, também eles estatutariamente fixados, que se
acções têm pressupostos anteriores na luta frontal a deverão ler em cada uma das matérias a aprender.
todo o resquício de Erasmo (1467-1536), que procu- Recuperado do mundo escolástico o comentário, afe-
rava ver na sua philosophia Christi uma afloração de rido e garantido por uma autoridade, reganha uma
ideias onde o erro germinava. Ao atacar-se Erasmo e dimensão no ensino destes saberes da verdade. Ver-
o erasmismo atacam-se muitas das realidades adqui- dade que, para ser preservada, aprendida e acredita-
ridas anteriormente pelo livre exame, quer textual da obriga ao controlo das ideias divulgadas em gran-
quer antropológico, e daí teológico, isto ainda mais de escala e, cada vez mais rapidamente, pela
reforçado em Portugal sabendo-se bem quanto, jun- imprensa. Daí os Index sucessivamente refeitos, num
tamente com Espanha, a renovação humanista assu- sentido de alargamento das obras enumeradas. De
miu aqui, com muita força, colorações próximas, 1547 conhecemos um rol manuscrito traduzido de

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CONVENTOS

outro idêntico da Sorbonne, de 1551 a impressão de BIBLIOGRAFIA : B O S S Y , J. A. - The C ounte r-Refo rmati on and the People

um rol de liuros defesos, com base num de Lovaina, of Çatholic Europ e. Past and Present. 4 7 ( 1 9 7 0 ) 5 1 - 7 0 . C H A U N U , Pierre
- Eglise, culture et société: essais sur réforme et contre-réforme
a que se seguem os de 1559 e de 1561, tendo a sua (1517-1620). 2.A ed. Paris: S E DE S , 1984. DELUMKAU, Jean - Le catholi-
confirmação no Index librorum prohibitorum, elabo- cisme entre Luther et Voltaire. 2 . A ed. Paris: PUF, 1 9 7 9 . IDEM - La re-
forma. 3." ed. Barcelona: Labor, 1977. DIAS, José Sebastião da Silva -
rado pelo Concílio de Trento e saído dos prelos, em Correntes do sentimento religioso em Portugal (séculos xn a xv.///).
Lisboa, em 1564, tendo tido actualizações em 1581, Coi mbra: Universidade de Coi mbra, I 9 6 0 . IDEM - A política cultura! da
1597 e em 1624, sendo esta última versão a mais época de D. João III. Coim bra: Univers idade de Coi m bra, 1969. 2 vol.
DUPRONT, Alph o nse - Ré for me s et «modernité». Annales: Économies:
completa nas proibições e, por isso, a mais estreita Sociétés: Civilisations. Paris: Ar ma nd Colin. 4 ( 1 9 8 4 ) 7 4 7 - 7 6 8 . G A R -
na definição do campo da ortodoxia* do pensamento CÍA-VILLOSLADA, Ricardo - La contrareform a, su no m b re y su conc epto
escrito e impresso. Devemos a Silva Dias uma siste- historico. In SAOGI storici intorno al papato. Rom a: Pontifícia Universi-
ta Gregoriana, 1 9 5 9 , p. 1 8 9 - 2 4 2 . G O N Ç A L VE S , Flávio - História da arte.
matização daquilo que foram os grandes núcleos de Iconografia e crítica. Lisboa: I N C M , 1 9 9 0 . R E I N H A R D , Wolfgang - La
pensamento e de «sentimento religioso», a expressão contre-Réf orme: une f o r m e de modernis at ion? Pro légom è nes à une
é sua, que foram excluídos pelo controlo cultural théorie du t emp os des confessions. In PAPAUTÉ, confessions, modernité.
Paris: Éco le des Hau tes Études en Sciences Sociales, 1 9 9 8 , p. 1 5 5 - 1 6 9 .
aludido. Teriam sido preteridas, quando não comba- S ARA I V A , Anton io José - Cont ra- Refo rma. In DICIONÁRIO de História de
tidas, as alianças do pensamento com o neoplatonis- Portugal. Dir. Joel Serrão. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1971, vol. 1,
mo, seja na sua formulação intelectual, seja nas suas p. 6 8 9 - 6 9 3 . IDEM - História da cultura em Portugal. Lisboa: Jornal do
Fôro, vol. 2, 1955: vol. 3, 1962.
ligações vivenciais a Santo Agostinho ou aos místi-
cos renanos, assim como todo o pietismo que, como
dissemos vivia entre «beatas» e «iluminados». Toda CONVENTOS. Comunidade dos religiosos membros
esta atitude de controlo tem apoio e actores nos pró- das ordens mendicantes, cuja forma de vida repre-
prios poderes eclesiásticos, dos quais os protagonis- senta uma viragem face ao modelo monástico, e se
tas são os bispos das diferentes dioceses. Em primei- inspira no ideal de pobreza pessoal e colectiva; a
ro lugar no afã legislador que são as constituições organização é centralizada e itinerante, propiciado-
diocesanas*, pelas quais se institui um quadro de ra de uma nova prática de evangelização. Por de-
práticas e vivências autorizado e configurado como creto de 28 de Maio de 1834 foram extintas todas as
desejável e ortodoxo. Não devemos esquecer, parale- comunidades masculinas das ordens religiosas, e os
lamente, os mecanismos de controlo sacramental que bens respectivos incorporados na Fazenda Nacional.
são os registos paroquiais ou de controlo do quoti- As casas femininas foram suprimidas de acordo com
diano como são as visitas pastorais (v. VISITAÇÕES). o disposto nos artigos 1 e 2.° do decreto de 9 de
Assim se percebe que as actuações de valorização do Agosto de 1833, combinado com o disposto nos de-
religioso, empreendidas com estas oposições, mais cretos de 25 de Abril de 1835 e 9 de Janeiro de
ou menos frontais, ao serem sustentadas pelo poder 1837, ou seja, quando se verificasse a morte da últi-
do rei e seus órgãos de governo e agentes sejam ma freira. Casos houve em que a extinção se deu
muitas vezes diluídas nesta tonalidade contra- quando o número de freiras era inferior ao mínimo
-reformista. Isto não significa que, ao fazer-se uso definido pelas constituições respectivas. Estão na
do conceito, se esteja a negativizar a época ou a sua Torre do Tombo os processos de extinção e posterior
definição intrínseca, desvalorizando-a como uma afectação dos edifícios pertencentes às comunidades
época de Reforma católica, que assumiu importância femininas e masculinas, bem como a relação dos
relevante na definição das várias realidades conexas bens móveis e imóveis das casas extintas. Quanto às
com esta tonalidade de pensar e de fazer, desde as casas femininas, ver Relatório do Ministro e Secre-
teorias de poder até ás práticas sacramentais ou de tário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e de Jus-
festa no quotidiano. E flagrante, neste aspecto, como tiça (...) sobre a execução dada à carta de Lei de 20
a história da arte e a da literatura têm aplicado o con- de Junho de 1857 para organização dos inventários
ceito. Seja para definir o fazer da arte e a sua divul- dos bens dos conventos de religiosas, cabidos e mi-
gação, seja para entender dominâncias e incidências tras. Lisboa: Imprensa Nacional, 1858.
de temas e de traçados, o conceito de Contra-Refor- O R D E M DOS F R A D E S M E N O R E S - P R O V Í N C I A DE P O R T U -
ma é utilizado como uma designação épocal, crono- GAL - Alenquer, São Francisco, 1216-
MASCULINOS -
lógica. Dos limites artísticos e literários, impostos -1834; Alenquer, Santa Catarina dos Mártires, 1623-
pela posição contrária aos pensares não tridentinos, -1834; Asseiceira, Santa Cita (concelho de Tomar),
resultam obras esteticamente determináveis, explicá- 1423-1834; Azambuja, Nossa Senhora das Virtudes,
veis e compreensíveis, nas actuações dos seus mece- 1419-1834; Beja, São Francisco, 1272; Bragança,
nas, encomendadores ou autores e, também, nas rela- São Francisco, 1271-1834; Cartaxo, Espírito Santo,
ções de divulgação, poderíamos dizer catequização, 1525-1834; Coimbra, São Boaventura, Colégio, cha-
inerentes a quase todas. Fica, assim, traçado um per- mado dos Venturas, 1624-1834; Coimbra, São Fran-
curso possível para a compreensão da Contra- cisco da Ponte, 1218-1834; Covilhã, São Frutuoso,
-Reforma, enquanto época da história religiosa e en- 1235-1834; Estremoz, São Francisco, 1239-1834;
quanto conceito que comporta toda uma enorme Évora, São Francisco, a. 1262-1834; Ferreirim, San-
variedade de leituras. Variedade que é desde logo to António (concelho de Lamego), 1525-1834; Gole-
muito clara, se elencarmos algumas das designações gã, Santo Onofre, 1515-1834; Gouveia, Espírito
conceptuais e periodológicas que encontramos em Santo, 1433-1834; Guarda, São Francisco, 1236-
uso e que se lhe fazem corresponder: «Reforma ca- -1834; Guimarães, São Francisco, 1216-1834; La-
tólica», «período tridentino», «monarquia católica», mego, São Francisco, 1271-1834; Leiria, São Fran-
«renascimento católico» ou «idade confessional». cisco, 1234-1834; Lisboa, São Francisco da Cidade,
A NTÓ N IO C A M Õ E S GO U VEIA
1217-1834; Matosinhos, Nossa Senhora da Concei-

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