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2

v
rn MARIE-LOUISE VON FRANZ O utras obras de interesse
-
C

ADIVINHACAO
CN
rn AI,QUIMIA,
o Muie-Louise von Franz
z
I,
F E SIGMFICADO PSICOLÓGICO
z
N
SNCRONICIDADE, DOS MOTTVOS DE REDENçÃO,
Moie-Louise von Franz

JUNG E A INTERPRETAÇÃO
A Psicologia do Probobilidade SigniJicativa DOS SONHOS,
lames Á. Hall
\ {

§ AS IDÉIAS DE Jt]NG,
<: Ánthony Storr

7
T I / TNTRODUçÃO À PSTCOLOGTA
|+ JIJNGI.NANA,

r\- ( IrCC
t( /\
Calvin S, Hall e Yerrcn I . Nordby

C. G. JUNG: ENTREVISTAS
(. \íC CY E ENCONTROS,
Williarn McGuire e R. F. C, Hull
Li,
çt. .)\
Z ri (^noY O ATO DA VONTADE,
Roberto Assagioli
e jr t,ttluc
,. t.$ A, HISTÓRIA DA PSICOLOGIA
MODERNA,
7 "BÂ Duane Schultz
\
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§/
MANUAL COMPLETO DE
ANÁLISE TRANSACIONAL,
P S. Woolans e M. Brown

L1l - .- !,r. IflLl}, ,,tLL,§t 4*t"b :, l.rr-É-a- l.


"nÍ FREUDEAALMAHUMANA,
COLEÇAO ESTUDOS DE PSICOLOGIA JUNGUIANA Brwto Bettelheim
POR ANALISTAS JUNCUIANOS

a CULTRIX
ADIVINHAÇÃO E SINCRONICIDADE
MARÍE.LOUISE VON FRANZ

ADIVINHAÇÃO
E
SINCRONTCIDADE
A Psicologia da Probabilidade Significativa

Tradução
ÁLvARo CABRÁL

+
EDrroR.A CULTRTX,
sÃo pluro
t980, A"'t7 P.
Título do original:
On Diyinotion ond Synchronicity
The Psychology of Meaningful Chance

CopyÍ8hr O 1980 by Marie.Louise von Franz

COI.EÇÃO ESTUDOS DE P§ICOLOGIA JUNGUIANA


PlOn tt NGIIIANOS;
^NALISTAS

Çep APta i crior da pcdra dc Boltiogen, cscutpida poÍ C. G.


tua3. pcqucna íigüra Do ccÍrÍo é a pupila (você mcsmo) que
vocC vê ao olho dÊ ourÍô pcssoa. Â ircirifão 8rê8ô, t Âduzid; poÍ
luog, diz o scguiúlc: "O t€mpo é
uoa criança "ma crimça brincaodo como
brincaodo sobÍê um tâbulciÍo dc--xadrez o reino
da criança. Ê- Tclécforo, .luc cÍÍa petas rcgiõcs sombrias
- do cos-
nos c brilha ooDo uDa catÍclÀ clcvâDdo-§ê das profundczss. Eta
indica o comiúo peÍa ss ponú do sol e pera a tcrre dos 3oohoo..
(Memodcs, Dtcams, Rdlecrior, p. 227,)

Ediçâo

2.1-+t 6.7.t.9 .8r.88-89.9G91.92-9'

Direitos rcscrvados
EDITORA CULTRIX
Rua Dr. Mário Vicentc,374 - (X270 Sío Pauto, SP - fone 63.3141
lmpresso nas oficinâs da EdiioÍâ Pensamento
SUMARIO

,/ I g p.lur,r. Causa l''d"dr 7

33
29 Palestra

3l Palestra
6l

89
4? Palestra

59 Palestra S i,^'^ cn o,.'',,icidacq-r ll?

Índice Analítico
l4l
Este livro baseia.se na transcrição, feita por llíiss Una Thomas,
da serie de conferências realizadas pela Dra. Marie.louise von Fraru,
no Instituto C. G. Jung, de Zurique, no outono de 1969. A autoÍa e o
edilor por seu cuidadoso preparo da versâo
sã'o gratos a Miss Thomas
O texlo, em sua pÍesente fornra, foi revisto paÍa publicação
origína.l.
por Daryl Sharp e Marion Woodman. O Índice Analítico foi com.
pilado por Daryl Sharp.
II PALESTRA

Talvez o leitor conheça o divertido fato de que, oríginalmente, a


adiünhação sempre era praticada em igÍejas. Os antigos judeus, por
exemplo, tiúam um oróculo divinatório em seus santuários de Jerusa.
lém e, em certas ocasiões, quando o sacerdote queria consultar Jeová,
ele tentava descobrir, através dcsses oráculos, a yontade de Deus. Em
todas as civilizações pnmitivas. té cnicas de adí foram usadas
Brdgqgguit o que Deus ou os deuses queriam; contudo, com o pâs.
sar do tempo, esse hábito íoi abandonado e superado;converteu.se,
então, numa pÍática secÍeta, mágica e desprezada; porém hoje esta pa.
lestra está sendo realizada na Kirchgemeinde (igreja paroquial), uma
pequena e agradável sincronicidade.
A visão de mundo u e Jung procurou re em foco e na ual a
adiv sicamente se as.sent aea sincronicidade; por conse.
guinÍe, antes de entrarmos em detã s acerca os pÍo emas da adi.
ünhação, cumpre recordar o que Ju disse a res ito da sincronici.
ls
_dade. Em seu prefácio para a edii ão inglesa da tradução de Richai
Wilhelm do livro I Ching ou O livro dos mutaçõest, ele nos oferece um
excelente resumo da diferença enrre p€nsamento causal e pj§!I:!!g
$gqg31§!!g O primeiro é, por assim dizer, linear. Existe uma seqiien.
cia de eventos, A, B, C, D, e nós pensamos de trás para díantc, peÍgun-
tando.nos poÍ que razão D aparece em conseqüéncia de C, C em con.
seqüência de B e B em conseqüência de Â, à semelhança de alguma

' I Ching, O lit+o ddt muloçOct, Editora pensamento, 1984

7
espécie de evenlo inteÍno ou exteÍno. Tenlamos ÍeconslituiÍ em nossa
mente, em ÍelrosPecto, os motivos pelos quais esses efeilos coordena'
dos funcionaram.
Graças às investigações dos físicos modernos, sabemos ter sido
agora provado que esse princípio, no nível microfísico, deixou de ser
com ol e ta me n t e,v.ál Ld-o. D_qq-p9[sel..I3-çj u 9a lj d alq tgln o
; iá nâo pqde
lei a Er-gs_ umâ tendência ou probabilidade. domi'
gPgllS!..c_9Jno
nânte. Assim, está demonstÍado que a causalidade é um nro dd de pen-
saÍ que síllisfaz à nosa apreensão mentâl de um conjunto de evenlos
físicos, mas não âtinge completamente o âmaBo das leis naturais, limi'
tândo.se a delinear tendências ou possibilidades geÍais. Ao pensa,nento
sincÍonÍslico, por outro lado, podemos chamar pensamento_de gamtg.,
cujocentÍoéotempo.
O tempo também paÍticipa da causalidade, uma vez que, noÍ.
malmente, pensamos que a causâ vem antes do efeito. Na física moder.
na, paÍece, poÍ vezes, que o efeilo ocoÍreu anles da causa e, PoÍtanto,
os fÍsicos tentam dar-lhe uma viÍavolta e dizer que ainda podeÍemos
chamaÍ isso de causal; mas penso que Jung está ceÍto âo afirmar que
ral rocedimento ampl iaedistorce a idéia de causalidade ad absurdum,
ao ponto de lhe Íou osl do. Normalmente, a causa vem
'srmpre
antes <fo éfeito, de modo que existe também uma i déia linear
de lempo, ântes e depois, com o efeilo sempre depois do antes
o nElmento sincÍonístico o modo clássico de pensar na Clri'
na, é um pensamenlo em campos, poÍ assim dizeÍ Na filosoÍ'ia chine
$, es§e pensamenlo foi desenvolvido e diferenciado muito mais do
que em qualqu eÍ outra civilização; assim, a queslão náo consiste em
saber por que tal coisa ocoÍÍe ou ue fator causou t
que Íovãvel que aconleaa óo llu-ntamente, de modo sigrtiÍicativo, no
-U que tende a
1§Tg ry9tr99!o. Os chinescs PeÍEuntam sempre:
âcoíteceÍ conjuntamente no tempo?" Assim, para os chineses, o cen'
lÍo do conceito de campo seria um instante de temPo em que estâo
aglomerados os êvenlos A, B, C, D, e assim por diante (figura I ).
fuchard Wilhelm exprime muito bem isso em sua lntrodução ao
I Ching, quando fala do erp!9lo_9_.:ye!!es que ocoÍÍem num ceÍlo
n
momenlo de tempo.
Em nosso pglyÍnento JauE, efetuamos uma grande seParâçâo

8
ç

F I

E
c
D
Figura l. Campo de tempo (conjunto de eventos
vinculados no tempo).

entÍe e_ventos psíquicos e eventos físicos, e nos limitamos aPenas a


obscrvar como os eventos físicos se pÍoduzem uns aos outÍos, ou têm
um efeito causal Íecíproco bem como sobre os eventos Psicológicos.
Até o século XlX, ainda peÍsistia nas ciências (e ainda peÍsiste nas me.
nos desenvolvidas) a idéia de que somente causas físicas têm efeitos fí'
stcos, e somente causas Dsicolósic as têm efeitos Dsicolósicos ; por
odo de pensaÍ de Freud:"Esta mulher é neurótica e tem
uma idiossincrasia como resultado de um trauma infantil." Este seria a
mesma espécie de pensamento, só que transposto paÍa o nível psicoló-
gco'
A peÍgunta que hoje está sendo feita é se existem inteÍaçÕes en-
tíe essas duas linhas o como uma causa ps qulca Para even-
LVeÍA Z

tos si ulcos e vlce-versa Esse é um prob ema PaÍa a me tclnâ


psicossomática interaçõ es entre essas duas cadeias de causalidade
podem ser provadas: podemos leÍ uma caÍta onde está dito que alguém
a quem muito amamos moÍÍeu e, daÍ, resultarem efeitos fisiológicos;
podemos até desmaiar, uma reação que nâo é causada pela tinta e pelo
papel. mas pelo conteúdo psíquico da comunicaçâo. Há uma inteÍação
causal entre essas duas linhas, que só agoÍa começa a ser investigada.
Entretarrto, o modo sincronístico isto é, o modo chinês de pen-
sar, é completamente diferente. Trata.se de uma diferenciação Pen
samento pÍimitivo ern que nenhuma distinção jamais foi feita entre fa-
tos psicológicos e físicos. Em sua indagaçào sobre o uee rovável
que ocoÍra J unto, podem ser reuni os fatos inteÍnos e externos. Para o
modo sincronístico de pensar, é até essencial ob servar ambas as areas

I
da realidade, a física e a psíquica, e assinalar que no momento em que
tivemos tâis e tâis Pensamentos ou tais e tâis sonhos - que seÍlam os
eventos psicológi cos - aconteceÍâm tais e tais eventos fÍsicos exteÍio.
Íe s; ou s€ , havia um com lexo de eventos físicos e sicoló os. Em.
bo Ía o pensmento causal tâmbém postule o problema do tempo sob
alguma forma, poÍ causÍl do antes e do depois, o roblema do te
contud o, é muito mais central no modo sincÍonísrico de PensaÍ, PoÍ.
que existe o momento cÍ rco - ceÍto momento no temPo - que
constitui o fato unificadoÍ, o ponto foca.l para a obseÍvaçâo desse
complexo de eventos.
Na moderna ciência ocidental, usam.se médias algébricas para
descrever as probabilidades da seqüência de eventos
- matÍizes algé.
bricas de formas diferentes e funçôes e curyâs algébricas. Os chj4ggqg
também empÍegam â matemálica para a descriçâo de sras leis sincro.
nísticas. U sam algo parecido com matrizes mâtemáticas, mas náo as
abstÍaçóes algébricas; utilizam cada um dos números inteiros naturais
(1,2,3,4, 5,6,'1-), pelo que podeÍ.se.ia dizeÍ q ue a mâtemática desse
modo chinês de pensar seriam as diferentes qualificaçôes aduz íveis da
série ilE nímeros inteiros naturais, as leis comuns que poderÍamos reti.
rar deles. Usa.se 3,4 e 5 para apreender um conjunlo de evenros,
numa forma mâtemáticâ.
A base da ciência da mâremática ou a ciência maremárica do
pensamento sincÍoníslico é, poÍlanto, a serie de números inteíÍos nâ.
turais; e é o ue se descobre em lodas as técnicas de adivinhâção. A
mais simples forma de adivinha çâo é a biná Ílâ: acetla.se ou eÍÍâ se
oga.se uma moe da para o ar e obtém.se c â ou coÍoa, decidindo.se
assim se se vai a Rigi ou n/to, ou a qualquer oulro lugar sobÍe o qual
estamos indecisos. A decistÍo aleatória, determinada pelo acaso. é a
ri idéia
básica de roda a adivi nhação, mas em diferentes civilizaçôes exis
tem lécnicas diferenciadas, sendo possível inreÍpÍetaÍ por meio delas
melhor a situâçâo, num ceÍto momento do tempo.

v
O modo ocidenrâl de nsâÍ é uma oÍient o tiva, ou
sejâ, pÍtmelro o bservamos os eventos e de is exlÍa o
rÀ ma êm rco modo chinês ou oÍiental consiste em usa r um modelo
menral intüti vo Iêr os- e a saber os numeÍos ln s nâtu-
rais. El es se voham primeiro paÍâ o evento de lançar ao âÍ caÍa ou

r0
coroa, que é um evento psíquico e psicofísico. A pergunta do adivi.
úador é psíqúca, ao passo que o evento é a moeda cair ou de cara ou
dc coroa, fato a partír do qual os eventos inteÍnos e extemos subse.
qíientes podem ser interpretados. [ogo, trata-se de um modo de ver
fl
inteiramente complementü ao nosso.
Oque e rmpo rtante na China , conforme também sublinhou Jung
em seu ensaio intitulado "Sincronicidade: Um Princí o de Conexão
Âsagra[', é o fa to de os chineses ná'o teÍem se fluado, como aconte-
ceu com muitas outÍas civilizações primítivas, no uso de métodos divi-
natórios somente para predizer o futuro - por exemplo, se um
homem deve ou não casar. Pergunta.se ao sacerdote e ele diz: "Não,
não a conseguirá" ou "Sim, vai consegui.la". tsso é algo praticado nol !

mundo inteiro, não ú oficialmente, mas por muitas pessoas no silên- I I


cio de suas salas quando dispõem sobíe a mesa as cartas do Tarô, etc.,.r
ou quando se dedicam a pequenos rituais:"& hoje brilhar o sol, então
farei isto e aquilo." O homem pensa constantemente desse modo e até
os cientístas têm essas uenas su mÇmí-menaOEra si mesmos
que, como o sol brilhou no quarto deles ,ao saltarem da cama, sabem
que hoje tal e tal coisa correrá às mil maravilhas. Mesmo que rejei.
temos em nossa, Weltanschoulng consciente tais superstições, o
itivo uee teemn ta de stico do
futuro com a mão esqueída, poÍ assim dizer, e depois negao envergo-
nhado ao seu irmão racionalista, embora Íique muito aliviado ao
descobrir que o outro faz a mesma coisa!
Nesse estági o, a adivinhação nÍo pode evoluir e tornaÍ.se dife-
renciada; continua sendo uma esp e técníca D rimitiva de suposi.
ão ou ite , tentando con eturar o futur or alcuns meios técni.
cos. Como eu disse, isso é praticado por nós e mais abeÍtamente em
todas as civilizações pÍimitivas. Na África quem quiser viajar vai a um
médico-feiticeíro gue joga um punhado de ossos de galinha e, segundo
a maneira como caírem, mais na seção vermelha ou mais na branca do
círculo que tÍaçou no chão, e segundo a espécie de constelação que
formarem, ele dirá se a viagem será ou na-o bern.sucedida, e se a pessoa
deverá ou não pÍosseguíi. Antes de qualquer grande empreendimento,
tal como uma caçada, uma longa e perigosa viagem a Joanesburgo, ou
rja lá para onde for, se consulta p rimeiroooráculoede pols

il
âge.se de acoÍdo. Nós fazemos a mestna coisa mais sêcÍetiunenle, mas
em ambos os casos - mencionarei a.lgumas exceçoes mais adianle -
isso não está incorpoÍado à lllehonscluuung e, poÍtanto, conlinua
sendo uma espécie de pÍática primitiva subdesenvolvida, um jogo
ritual, que nâo somos pÍopensos a integrar em nossa visáo consciente
da realidade.
Os chineses, como todas as civilizações pÍimitivâs, ainda recor-
Íiam a essa técnica rudimentaÍ, até ela ser finalmente proibida. Na
praça do mercado de todas as cidades chineus, havia alguns sacerdotes
I Ching que lançavam moedas ou escolhiam hastes de milefólio,
obtendo Íespostas paÍa as peÍguntas que lhes eÍam feitas, mas depois
isso foi proibido. Em 1960, Mao pensou em aliviar ligeiramente a
pressar-o política racionalista sobre as massas e descobriu que havia
duas posibilidades: ou forneceÍ mais aÍÍoz, ou permitiÍ o uso do
I ChinC, e todos aqueles a quem consultou disseram.lhe que o povo
eslava mais ansioso poÍ vohar a usar o I Ching do que por obler mais
alimento. O alÍn{g esq119e|- - o I Ching eÍa o seu alimenlo
espiritual - eÍa mâis importante para a população, de modo que foi
permitido, cÍeio eu, poÍ um âno ou dois, voltando a ser reprimido em
seguida. É tipicamente chinês que até uma tigela de arroz - e eles esta.
vam passando fome - fose menos impoÍtante do que leÍem de novo
seu amado liro das mutações e suâ oÍienlação espiritual.
O grande méÍito do I Aing deve.x a dois Bênios noláveis: o
lendário rei Wén e o duque de Chu, que desenvolveram o que era ori -
ginalmenle um sistema oracular pÍimitivo e o conveÍleÍam numa
completa bteltonscluuung filosófica. Eles trataram filosoficamente o
oráculo e suas conseqüências éticas; meditaram sobre suas conseqüên-
cias e pressuposições psicológicas e, através disso, o ^I Chr'rg passou a
ser na China a base de uma lleltanschautrg muito profunda e muito
ampla. Jung, em seu estudo sobre a sincronicidade, afirma que isso
aconleceu somente na China, mas eu tive a oportunidade de desco.
brir que também aconrecia na NigéÍia ocidental. Havia aí certos
médicos-feiticeiros que, poÍ sua técnica oÍaculaÍ - Beomancia,
no caso deles - haviam desenvolúdo toda uma filosofia Íeligiosâ, nâ-
turalmente um pouco mais pÍimitiva do que a chinesa, mas, também,

l2
I

um completo ponto de vista religioso e filosóÍico acerca do oráculo,


que não eÍa usado apenas como pÍática de pÍognóstico.
Esses são os dois casos de que tenho conhecímento. Existe
provavelmente um terceiro, porém não me foi possível obteÍ o
material; até onde pude averiguar, somente um estudo foi escÍito
sobre ele, mas não pude até agora consegui-lo em parte alguma. A anti-
ga civilização maia que, como está ficando cada vez mais evidente,
teve suas ratzes na Ásia central e, poÍtanto, estava ligada à civilizaç8o
chinesa, também possuÍa uma técnica oÍacular do tipo ICfttng; asim,
permito-me c.o_nj_etu.Ía,r:-g9Jn
!.s" lg Srqgt9: d.Jua civüzação, que
tamEe;fõímalis trnúà úãoncõpçió e um ponto deffiffiGÍicos
a ese respeito e que não era apenas uma técnica secÍeta de óstico
Schultze.Jena publ rcou um Pequeno ensalo so bre o assunto, mas,
embora eu venha há dois anos tentando encontÍá.Io, não consegui
descobri-lo em parte alguma da Suíça e, até onde sei, o autoÍ escreve
somente sobre as técnicas do oráculo maia e nâo sobre seus fundamen.
tos filosóficos. Podemos, entretanto, formular algumas conjeturas a tal
Íespeito, porq ue, na filosofia maia, todos os deuses eram deuses de
temoo e número. Todas as frguras Pflnctpals dos mÍos maias possuem
um número especÍÍico, que é expresudo, inclusive, em seus
íespectivos nomes. O maior herói, por exemplo, é Hunabku - o nome
deriva de Hun, que signiÍica um e há ainda o grande herói Sete
-
caç ador; todo únrero e um momento do tem po no
calendário anual. Assim, existe a uniío de uma Íigu Ía arquetípica com
um determinado momento do tempo e um determinado número intei-
Ío naturâI. Isso propicia o indício de que, provavelmente, o oÍáculo
maia estava filosoficamente vinculado a esse tipo de visão de mundo
mas, como já disse, ainda não encontrei qualquer detalhe a respeito. l -
Fiquemos, pois, de momento, com o modo chinês de pensar.
Exis te um excelente [vro sobre o assunto, de autoria do socíólogo
-
--> Marcel CraneÍ, La pensée chinoise, onde se diz que os chineses nunce
pensaÍam_em qua!ti4-a!_es, mas sem Íee de emblemas ali-
lc-
tativot Jung tê{os.ia chamado de "sÍmbolos" e eu usarei esse termo, a
fim de tornar as coisas maís claras para todos nós. Segundo os
chineses. os númeÍos descreve ,
exatamente como ocorre conosco. Com íórmulas algébricas matemá.

l3
licas, tenlâmos descrever relaçôes regu lares. Como câteBoÍia, a causali.
da ela a descobrir tais I9|3gqs e, também paÍa os
chineses, os númeÍos ex P ressam as rela ões Íe ulares de oisas -não
em seu modo quantitativo, mas em sua hierarquía qualitâtiyâ, median-
Ê1 te a qual eles qualificam a ordenaçâo concÍeta das coisas. Nâo pode.
remos discordar disso, porquanto conosco, mais ou menos, sc passâ o
mesmo, exceto na ênfase que eles atÍibuem ao nível quâlitativo.
Mas nr China vão mais longe ainda, já que acÍeditam ue o unr.
Ítco A mesma
Ína, q uem Pense
selpgls.!Iü!§9!.!lglS rlln_o-Ua_srq9. qo_ univeÍso,_que qpl!Sqry_!9!9s
,o-s__djfe&!l§-frp0Íncnos, mas, para nós, isso por enquanto é apenas
uma idéia especulativa, alimentada por alguns físicos modernos. Os
chineses simplesmente supusêÍam que existia esse Íitmo de toda a rea-
lidade, ritmo que eÍa um padrão numérico, e que todas as Íelações
mútuas das coisas, em todâs as áreas da vida exteÍna e interna,
espelham, poÍtanto, esse mesmo padÍâo numéÍico básico, numa forma
concebida como um ritmo.
Até lins do século XlX, a concepção chinesâ do mundo era
muilo mais vigorosa e dinâmica do que a nossa, acredilando que tudo
',1 era energia em fluxo. Na realidade , pensamos hoj e o mes4qpgue eles,
mas chega mos â essa idéia muito mais tarde e alravés de métodos
cienüFrcos. O PÍessuposto pÍimoÍdial chinqs , desde sempre, eÍa que,
. exterior e interiormente, tudo é um fluxo de energia que obedece a
-, certos rilmos numéÍicos básicos e periódicos. Em todas as áreas de
i evenlos, acabaríamos sempre poÍ chegar, ao final, a essa imagem espe.
cular, o ritmo básico - uma matÍiz - do cosmo. PaÍa os que nâo são
muito afeitos à matêmática, umâ matÍiz consiste em qualquer dispo.
sição ÍegulâÍ de números em várias colunas; pode haver qualquer
quantidade de filas e colunas, mas sempÍe numa disposição retangular.
Para os chineses, uma das matÍizes básicas ou disposiçÕes do
-
univeÍso eÍa uma matÍi2 quedÍangulaÍ um quadrado mágico denomi-
nado Lo Chu. Chamam.no
t!999e Ínlgllg, poÍque, seja como for
que se somem os algarismos, o resultado é sempre o númeÍo 15, e
também é o único quadrado mágico que tem apenas tÍês elementos em
cada fila ou coluna. Desta forma, tÍata.se de algo realmente ímpar, na

l4
4 9 2 7
,
3 5 7 E3549
I
8 I 6
6

Ftgun?. Lo Chu-
No jsrgío moderno, uma metÍiz Figlrn 3 . Hotu.

matemática. Eistem nruitos quadrados mágicos, com mais Íileiras e

$9o-r€s gossl bilidades deãrio, mas o mais simples de todos é este


ue tem I nas oato so lu ões. E diria que se tÍa ta de uma 8S
matÍizes numéricas mais al tamentê si métricas que se pode encontÍaÍ
na aritméticá. Os chineses descobriram.na intuitivamente e, para eles,
Íepresentou uma imagem especular ou Íítmica básica do universo,
üsto em seu aspecto de tempo. Retornarei mais adiante s este ponto.
Os chineses tiúam duas idéias ou asoectos do teErpo , que são o
tempo intemporal, ou eternidade, a eternidade imutável, e o temDo
19lii9õ, que se sobrepõc ao pÍimeíro. De acordo com as idéias
chinesas, yivemos normalmente com a nossa consciência em teml,o
crclico; mas existe um tempo eterno - une durée créatice, para usar
a expÍessão de Bergson - subjacente, que interfere, por veze§, no
outro. O tempo ch inés qrdinário é cíclicoeobedeceaesse padrão. Os
chineses dispuserarn as câmaras mais lnternas de seu palácio imperial
de acordo com esse padrão; todos os §eus instrumentos musicai§ eÍam
também afina ele, todas as danças e todo o pÍotocolo,
assam como o que um mandarim e o que um plebeu tiúam de tazer
no funeral de seus país. Em todos os detalhes, esse padrão numérico
sempre desempeúou um papel, porque se pensâYa ser o ritmo básico
da realidade; portanto, em diferentes variações musicsi s, protocolares,
aÍquitetônicas, em toda parte, enfim, ese mesmo pad Íão era sempÍe t/
colocado no centío

t5
 ordem numérica subjacente da eternidade denomina.se
Ho-ru (figura 3), uma mandala e também u4A_clllz. Temos de novo o
5 no centÍo. Contamos l, 2,3, 4, passâmos depois ao 5 central e,
entâo, conlamos 6,'7,8,9, voltando em seguida ao l0 - que estaria
reaünente no centÍo. Deve.se passar sem re pelo centro e voltar a ele
Na realidade , tÍata-se o movlmqfi o_qC uÍnê_Cq4§ê_Ín§!Sgl, porque
sempÍe av3nça paÍa quatÍo e Íecuâ paÍa o centÍo - num movimento
I de expansão e conlração análogo à sÍstole e.dlj!§lqle . O Lo Chu é o
mundo do temno em que vivemos e, subjacente a ele, está scmpÍe o
ritmo da eternidade, o Ho-tu. Essa idéia está subenrendida em toda a
aplicaçâo cultural e científica da matemálicâ na Clrina. Comparcmo.la
com o nosso ponto de vista.
Quero apresentarJhes em detalhe o que o conhecido mate.
t'y;y^ mático Hermann Weyl diz a esse Íespeito em seu livro Philoaphy oÍ
Mothematics ond Naturol Science. Sabemos que até poÍ volta dê 1930
a grande e apaixonada ocupaçâo da maioria dos matemáricos era a
llCis§!§!4qde fundamentos. Como voltou a ser moda hoje em dia, eles
NJ"A' Iesperavam reexaminar os fundamentos de toda a ciência. Mas o
famoso matemático alemão, David Hilbert, crioquma nova eslÍuluÍa
ra o edifício todo da matemática , poÍ assim dizer, na esperança de
que e â não contivesse conlÍadições lnteÍnas. Haveria alguns axiomas
básicos, poucos, â paÍtiÍ dos quais poderiam ser construidos_lodos os
ramos da matemática: a ropologia, a BeometÍia, a álgebra, eL;);19!3
um enorme edifício com sólidos âlice sa dorem meja_dLqtêjs
axlomas sso aconle ceu em I 926 e Hilbert teve até coÍagem suficienre
,^j,. llpara afirmar: "Penso que, com a minha teoÍia, a discusslo de funda.
llÇ' ll mentos foi eliminada pâÍa sempÍe da malemárica."
Então, em I 931 , apareceu outÍo matemálico muito famoso,
Kurt Goedel, que se debruçou sobre alguns desses axiomas básicos de
Hilbert e demonslrou ser possível chegar a contradiçôes complelas
com eles; partindo dos mesmos axiomas, pgdftse jlolgf qlglma coisa
r,e_!3ln!ém_9. sju :9!Lp_!t9_ 9p-9sro. Em outras
palavras, Goedel mos-
ll trou-que os axiomas básicos contêm um fator irracional oue nío pode

ô ----
ll seÍeliminamã, ugréD.-q9.yg--gig qr.
islo é obviamênte desta ou daquela forma e que, porlanro, isso e
aquilo também o sâo, mas dizer: "Suponho que isto é assim e assim e


que, desta forma, entâo, seguem-se tais e tais coisas." Os axiomas
devem ser apresentados como pÍessu postos ou dçyçm ser postqlados, frrbaá
a óso ue oderá ser feita uma dedu ão ló ca; mas não odemos Ú ('Ê>
Rót
ln e rir que o que foi pressup osto ou postulado não poderá ser contÍa-
dito ou uestionado como verdad a soluta
Para formular tais pressupostos, a matemática expÍessa.se ,&a,r ';**w
geralmente em teÍmos de: "É óbvio em si mcsmo" ou "É razoável Malc*;t
-ãõ]ãem
ryr" - eis como os matemãiiõõTfõiliiã dia uããiõãiã
e, a partir daí, constroem suas teorias. A seg,uir , não há contradições,
apenas uma conclusão é possÍvel , mas na expressã'o "é razoável su
e ue está o busr'lis, como se costuma dizer. Goedel mostrou-nos isso e
a coisa desmoronou toda. Por estranho que paÍeça, isso não reabriu a !lrt
discussão dos fundamentos. Daí em diante, como diz Weyl, ninguém I
i
tocou nesse problema;eles se sentíam um tanto constrangidos, coça-
vam a orelha e diziam: "Não vamos discutir fundamentos, não adianta 1
nada; é razoável supor, não podemos ir além disso," e é nesse ponto
I
que a situação está hoje.
Weyl, entretanto, empreendeu um desenvolvimento dessa
questío muito interessante. No começo, foi murtíssimo atraído pelo
fÍsico Werner Heisenberg. Ele era predominantemente pitagórico e
sentiu.se seduzido pelo caráter numinoso e irracional dos números
inteiros natuÍais. Depois, ficou fascinado por David Hilbert e, nos
meados de sua vida houve um período durante o qual ele se sentiu
cada vez mais atraído pela lógica hilbertiana, abandonando os nú.
meros e tratando-os, eÍroneamente, peilso ê1) como quantidades sim. !/
plesmente postuladas. Diz ele, por exemplo, que os números inteiros
naturais são algo como se alguém apanhasse uma vaÍa e tÍaçasse com
ela uma fileira de sinais, a que depois deu nomes convenciorlais;nada
mais existe poÍ tÍás deles; foram simplesmente postulados pela mente
lrumana e nada têm de misterioso;era "nzoável e óbv lo em sl me .|
que alguém pudesse fazer isso, mais dia menos dia. Mas no final de sua
vida ele acrescentou (somente na edíção alemí de seu livro sobre a
filosoÍia da matemática e pouco antes de sua morte) esta passagem:
A beh esperança que tínhamos de libcÍtaÍ o mundo da discussío
dos fundaÍnentos foi destruída poÍ KuÍt Goedel, em 1931, e a
base ess€ncial e o significado Íeal da matcmática ainda sri-o urí

l7
plpUemrg1!11o. Talvcz se faça maremátice como se faz
música. e Irlvcz êlâ s.jâ âpcnag uma des atividades cri.tivâs do
homcm; c, cmbor. . idéiâ
úúlscrndentc se,a o DÍrnc
formrlismo matcmático tem, cm cada ctâpa, â cirâctcÍística de
scÍ incomplcro Io que signiÍice quc toda c quâl oucÍ lêoriâ mâte-
:ifzl málicâ é coerente em si mesme. mâs incomDletÂ: cm suas fron
súw )u
-Uin" teiÍas. assentâm-sc uc 6es nâ-o €o_ó!ttt, nâo sâo claras e
o,^tr- . , sllo com elas , ns medide em quc scmpÍc existem pÍoblcmas,
-P' mesmo dc simples naturcza aritmética, que podÊm ser formulados
no quadro dc um foÍmslismo, mas nâo poderío seÍ decidido3 poÍ
deduça:o dêiruo do próprio formalismo.

lsso que está dilo acima, nâ mâneira complicada de um maremá.


tico significa, em palavÍas simples, "Eu me âlÍevo a dizeÍ que é óbvio,
pelo que postulo algo irracional, pois nâo é óbvio." Ora, uma pessoa
poderá fazeÍ um movimento utoboros e dizer: "Mas , com bâse na
miúa dedução, posso ÍepÍovaÍ o meu princÍpio." Não pode ! você
não pode, a paÍtiÍ do formalismo dedurivo, deduzir depois uma
PÍOVa, exceto poÍ umâ tautologia, o que, naturalmenle, náQ é permi.
tido, nem mesmo em matemática.

Portanto, nío é de est anhar que, numâ exislência fcnomcnal


isolada, um fragmento da natuÍeza nos suÍprecnda poÍ sua iÍÍâcio.
na.lidade e que nío possamos analiú.lo completrmenle. Como
vimos, a física oÍ consê8ulnle, proje ta tudo o _quc cxi3lc no
bockground da pos$b de ou a Pro dâdc

Esle trecho é importante, poÍque Íesume o que a ólência )


moderna faz. Em outras pâlavÍas, qualquer fragmento da exisEõõií
fenomenal, digamos, este paÍ de óculos, contém algq irracional,
imposível de ser esgotado na análise física. Por que os eléctrons
deses milhões e milhões de átomos êm que consistem os meus óculos
eslão nesse lugar e não em um outÍo, nâo posso explicar; portanlo,
? atÍavés da física, quando nos deparamos com um dado evento,.na
ll
rr naluÍeza, nlo há explicação
complelamente válida.
O evento srn larmente considerado, é sem P Íe iÍÍâcional, mas
na física avançâ.se, Ío etando isso contÍa o ôdc -dc um
ossível, islo é, constÍôi.se uma malriz. Por exem plo, nesles óculos
existem tantos tomo§ e tantas partículas deles, e assim por diante; e a

l8
I partiÍ de um grupo, em sua totalídade, pode.se estabelecer uma
fórmula com a qual será possível até contaÍ as paÍtículas - não l, 2,
3, 4, 5, mas píojetando no background do que é possível. É POÍ lS§O ,.r
que tais matrizes são atualmente usadas na engenharia ,@
poÍque a

âssim se pode supeÍaÍ o incontável ; elas fornecem u m anStrumento


para enfrentar aquelas coisas que nÍo podem seÍ contadas uma por
uma. DÍz Weyl :

Nío nos surpÍeendc que qualquer segmento da natureza que


escolhamosI esres óculos, ou seja !í o que for l, possui um Íator
iÍÍacional básico que não podcmos e nunca s€íemos capazes de
explicar, que apcnas podemos descícvcÍ, como na íísica, proje.
tsndoo no background do posível.

Mas, depois, continua:

Mas é deveras e ntoso quc algo criado pela própria mentc


humana, ou scja, s #rie completa dos númcros inteúos nrtuÍair
[@jád issc que cle tem essa idéía enônea de quc s mcntc humana
l, 2, 3,4, 5, fazendo pontos ], e que é tío sbsolutsmente
criou
siÍnples e tÍÂnspaÍente pua o espírito constÍutivo, também conte-
nha um aspcclo de atgo aUtsslllãG-,n*í-Ef-quCã7õ podcmos aprc.
ender.

Esra é a conÍ'issão de um dos mais notáveis matemáticos modeÍ.


nos - porque um dos maÍs voltados paÍa a filosofia Hermann Weyl.
-
Podemos dizer, naturalmente, que não acÍeditamos no ue ele acre.
ditou. isto é , que o§ númeÍos inteiÍos natuÍâis ÍepÍesentam símples.
menae a denominação aplicada a uma serie de pontos colocados em
certas posições; e, poí conseguinte, para nós nada há de suÍ Íe te
no fato de meros anteiÍos natuÍa is serem abisais e íora do
alcance da nossa com Íeensío. Ele acreditava nisso e foi ll
esse
motivo que não ôde entender incrível que seja assim, mas asstm;
em outÍas palavras. dado terem os números inteiros nâtuíais algo de
irracional (Weyl qualificou.os de abissais), os fundamentos da matemá.
tica não são sólidos, umâ vez. que toda a mâtemática está essencial.
mente baseada na admissibilidade dos números inteiros natuÍais.
Ora, precisamente or ue os meÍos s lÍraclo nais. abissais e
lnson vets - PaÍa c ar Weyl -, e.!g_99!§!úu91Lun bo m instrumento

l9
plÍa a apÍeensro de alg Se usarmos números para apreen-
der o irrãcional, estaÍemos usando meios irraciónais ta ca tar al o
irracional sen essa a base d a -ejiylnhêç1ful. Foram empregados esses
7 núrneros irracionais, abissais, ÍU§_ Í'utguéIl lnt-eldeu_jÉ hoj.e, nl
tentaliva de adivinhar a realidade ou a ligação deles com a realidade -,
mãs ao liô5-tema da adivinhação também paÍlicipa o problema do
temPo.
A adivinha ção e .sgjlaclgg11!ê_ggm -â--t!4_c-tq!§!da-dg§-l flg, em
I I
I9 oulÍas tantas palavras, chamou os fenômenos sincÍonísticos de &!q'
Eenos_pgl3j§t9S!égtlos. Desejo que tenham isso em mente porque,
( como se sabe, na ciência modeÍnâ, físicos e-psicólogos estão tentando
agora descobrir a união da física c m a psicologia na área dos fenô.
menos Ft o c os. Eles têm o palpite de que os ênômenos para
psicológicos poderiam nos dar uma pista da uniâo de physis e psyche.
Ora, em adivinhaçâo, c refiro.me, âqui, especificamente à adivinhaçâo
numérica, também teÍíamos, poÍtanto, de lidar com o fenômeno para.
psicológico, que está, ao mesmo tempo, ligado ao número. Jung
chamou o número de a expÍessã'o mais pÍimitiva do espírito e, assim,
lemos âgoÍâ de explicar o que, do ponto de vista psicolóBico, enten.
demos por espíÍito.
Jung, ao procuÍaÍ especificar como empÍega a palavÍa espíÍito,
citou primeiro uma poÍção de termos coloquiais em que espírito é
usado como algo no género de uma subs lância nfo-mateÍial ou o
oposle_dg [atéÍia.* Em geral, também usamos a palavra espírito para
indicar algo que é um rincíp io cósmico , mas empÍegâmos â mesma
palavra, quando nos refenmos a certas capacidades ou atividades
psíquicas psicológicas do homem, como o irqelecto-ou a capacidade
de pensar ou racio-cinar. Por exemplo, poderenros dizer: "Ele lem uma
concepção espiritual", ou "Essa idéia provém de um espírito distor.
cido" - ou expÍessões assim. Usamos ainda a palavra como um fenô-
meno coletivo, por exemplo, na palavra Zei!$j!!, hoje em dia, geral-
mente, nem sempÍe tÍaduzida; é um vocábulo alemão para expressar o
fato irracional de ue cada período dê te ssul cerlo es pÍÍito

I C[. "The Phenomenology of rhe Spirit in Fairytales", Corrected l+torks,Yol.9,


l, pp.384 ss.

20
Por exemplo, o Renascimento tiúa um certo espírito, como foi
ilustrado em sua arte, sua tecnologia, na matemática e na concePção
religiosa, por toda a parte. Todos esses fenÔmenos, caracterÍsticos do
seculo XVI, podem ser resumidos como o espírito do Renascimento.
Neste sentido, a alavra é sim lesmente usada como um fenÔmeno
coletivo a soma de idéias comuns a muitas ssoas. Poder.se-ia
I
também falar do espírito do marxismo ou do nacional-socialísmo,
quando signiÍicaria, então, as idéias coletivas comuns de todo um
grupo. Existe, poÍtanto, continua Jung, certa oposição énÍe o espí'
nto , qtre tem uma e cie de eústéncia extÍa.humana, exteÍior ao
h"ggg o espírito cósmico em oposição à matéria do cosmo - e
-
algo que vivenciamos como uma ativídade do ego humano . Se diser-
mos, a respeito de alguém, que ele tem um esp írito distorcido, isso
signÍÍica que o seu complexo de ego está funcionando intelectual'
mente de modo errado. Portanto, Jung prossegue: Se algo psíguico ou
psicológico (isto é, um evento psicológico) scontece no indivíduo e ele
tem o sentimento de que isso the pertence,então, chama-lhe o seu espÍ'
-
rito, por exemplo o que, diga.se de pas§agem, seria inteiramente
errado, mas é feito por muita gente. Se eu, de súbito, tivesse a idéia de
lhes fomecer um bom exemplo, entalo eu sentiÍia que a boa idéia en
minha, que o meu espírito a produzira. Se algo psícológico acontece
que parece estÍanho ao indivíduo, então é chamado de esPíÍito, no
sentido de algo como um fantasma, e o indivíduo vivencia-o como
possessío.
Suponhamos que, subitamente, sinto-me impelida a Íicar repe'
tindo: "Os gerânios são azuis", "Os geránios são azuis", "Os gerânios
são azuis". Então, porque isso seria uma maluquice e me pareceria
muito estÍanho, em comparação com o que estou fazendo agora aqui,
eu diria: "Meu Deus, que demônio ou fantasma meteu semelhante
1

idéia em minha cabeça? Essa idéia está me possuindo e fazendo-me I


falar bobagem!" Ora, os primítivos sáo mais honestos: a tudo o que'
lhes acode inesperadamente dô próprio íntimo chamam espíÍito; não
só o que é ruim e os possui, mas qualquer coisa a cujo respeito diriam:
"O meu ego não fez isso, acudiu.me de súbito" - isso é o espírito. No
último caso, quando o espírito ainda está fora, quando Íico possuída
por ter de dizeÍ ou Íazer zlgo que não paÍece peÍtencer ao meu ego,

2t
lÍatâ.se entâo de um aspecto pÍojelado do meu inconsciente ;é uma
e da minha sl ue rncon que é rojetada e d epois viven.
ciada como fenômeno DaÍaDs! cológico
lsso acontece quando ficamos num estado em que nro somos
nós mesmos, ou somos dominados poÍ uma perturbaçlo emocional em
que perdemos o autocontÍole, mas, depois, desperlamos completa.
mente lúcidos, vemos as coisas esrúpidas que fizemos duranre o esrado
de possessío e, perplexos, perguntamos o que teria sido que entÍou em
nós: 4te_!e ee&Iqu 4q nóq, nâo somos nós mesmos embora nos
,*-/ com pgIlem o!_go!ít ole,_pl nsasse os oue éramos
- é umâ coisa âssim
como se um espÍrito maligno ou o demônio nos tivesse penetrado.
"$l:ir:' . -
Uma pessoa não deve tomar simplesmente essas coisas de um
-.n".,P modo coloquialmente divertido, mas ao pé da lerra, pois um demô.
>
nio - ou diÍíamos com mais neutralidade um comptexo âulônomo
r,,uirt ' -
substitui lemporariamente o complexo do ego; parece, no momenlo,
(t- seÍ o e8o, mas não é, porquaoto a pessoa, depois, quando dissociada
disso, nâo pode entender como chegou a fazer ou pensaÍ tais coisas.
Uma das pÍincipais maneiras de usarmos a palavra espíÍilo é
quando aludimos ao aspecto estimulante e revigorador do incons-
ciente. Sabemos, hoje, que a- entÍa da em conrato do complexo do e 8o
com o iDconsciente possulu-E efei.to estiÍ.nulanle e qUe issolqn-slilUl,
realmente a base de todos os nossos os ter apêutiços. Por vezes,
lr pessoas neuróticas que se fecharam em -elfo$
seu vicíoso cÍrculo neurótico,
,)? I assim que iniciam a análise e têm sonhos, ficam excitadas e inteÍes.
sadas em seus sonhos e, então, a água da vida flui novamente; elas
voltaram a teÍ um interesse e, poÍtânto, sentem-sê subitamente mais
I
vivas e mais eficientes. Entío, alguém pode dDer: .,O que foi que lhe
aconteceu? Parece que você ganhou uma vida nova." Mas isso só acon-
tece se a pesoa logrou estabelece Í contâto com o inconscienle ou,
melhor dizendo, com "o dinariism o-dô- incorisclenie-' e, eã- àsfãc ial,
com o seu aspecto revigorad oÍ e estimulanE
Portanto, Jun define es ÍÍito , do ângulo psicológico, como o
ospecto diná mico do inconsciente .se conce Í o lnconsclente
- como al go semelhante à água parada, um lago passivo. As coisâs que
esquecemos caem nesse lago; se as recordanros, é porque voltamos a
pescáJas, mas o lago permanece imóvel. O inconscienre tem esse

't",
aspcc to dematÍiz, de ventre mateÍno, mas também tem um a sPccto
dinâmico, de movimento, age espontâneamente, por sua livre von-
tade - por exemplo, empõe sglhos. Poderíamos dizer que a compc
sição de sonhos enguanto dormimos é um aspecto do espírito; algum
espíÍito supeÍioÍ compõe uma série sumamente engeúosa de imagens
gue, §e Pu dermos decifrá.la ecem tÍansmi m
rl
bastante intelige nte. Esta é uma manifes s.
crelte, em que ele faz eneígicamente algo por sua própria vontade,
moviÍnenta-se e cria por sua própria conta, e foi isso o que Jung
deÍiniu como esp írito. Existe natuÍalmente uma fronteira pouco
nítida entre o subjcllivq q o obietivo ; mas, na prátic8, s€ uma pessoa
sente que ele lhe peÍtence, entío, é o seu próprio espírito; e se nío
sente que ele lhe pertence, então, a pessoa chama.lhe.o espírito ou uttl
espírito. lsso depende do fato de ela sentir.se afim ou nío com ele,
próxirna ou não dele
Jung resume, dizendo gue q_-gsp@ contém um pÍincípio
psrquico espontâneo de movimento e ativídade; em segundo lugar, gge ?noccç?
tem a ualidade de criar livremente ns PaÍ a além da nossa lp
peÍcepção sensoÍiel (num sonh o, a pessoa nÍo tem peícepçío senso. so'nh
rial - o espíÍito ou o inconsciente cria imagens a paÍtiÍ do seu inte.
rior, enquanto as peÍcepçÕes sensoriaís estão adormecidas); e, em
terceiro lugar, que há uma manipulaç ão autônoma e soberana dessas
u!9t9!s.
São essas as três características do que Jung chama de espírito
ou dinamismo do inconsciente. Ele está espontaneamente ativo, cria'l
lÍvremente i.qggltgatq L!Íq9.r eqtCçpç[e-s_fsoriais_e, de um modo \
aTiõn o rnõ ? sóbe rírio, rian i p üt a e ssal mãÉil $ü ma pe$üõEõ;a J
r

se@ãíúo trÍõs <G impressões do dia ante.


rior. Por exemplo. lé.se alguma coisa num jornal, passa.se por alguma
experiêncía na rua, fala.se com o senhor Fulano, e assim poÍ diante. O
soúo ca ta esses fÍa ntos e a artir deles realiza uma combinação
com etamente nova e signiÍicativa Vê-se aí a manípulação soberana
da s rmagen§; as são co oc as numa outra ordem e g3llpuladas
numa seqúência diferente, com um sign ificado completamente
diverso. emb ora a Pessoa atn da reconheça que os vários elementos
foram tomados, por exemplo, de lembranças rcmanescentes do dia

23
anteÍioÍ. É por isso que muitâs pessoas pensam seÍ essa a explicação
toda do sonho: "Oh, li ontem no jornal a notícia de um incêndio, por
isso sonhei com um incêndio." Enlâo, temos de começar, como
sempÍe, dizendo: "Sim, mas atenle parâ as conexôes em que o incên-
dio foi reproduzido, muito diferentes do que você leu." lsso seria o
espíÍito, aquela corsa desconhecida no inconsciente que Íecompóe e
mmipula as imagens interiores.
Esse fator que produz e manipula as imagens inteÍioÍes é
complelamcnte aulônomo no homem primitivo, mas, através da dife-
Íenciaçlo da consciência, avizinha-se lentamenle da consciência e,
poÍlanto, em contÍaste com os pÍimilivos, dízemos que fica, em paÍte,
sob o noso controle. Por exemplo, dizemos freq uentemente que
lemos uma boa idéia ou inyent amos algo novo. Um homem PÍlmrtlvo
jamais diria que um aÍco e uma flecha, por exemplo, sllo uma invenção
sua;ele diria que o modo de como conslÍuiÍ um arco e uma flecha lhe
foi revelado pelo deus do arco e da flecha, e contaria, em seguida, um
mito de origcm, como a um ceÍlo caçador a sua divindade apareceu
em sonho ou visão e lhe revelou o método de construir um arco e uma
flecha.
Assim- ouan to maioÍ é a nossa consciência e q uanto mais ela se
It
(q desenvolve , mals nos a os de cerlos as ctos do es íÍito do in.
consciente, alraindo.os Ía a nossa esfera subjetiva; e chamamosJhes,
L
então, de nosa própria atividade psíquica ou de nosso próprio espí.
rito. Mas, como sublinha Jung, grande parte do fenômeno original
PeÍmanece natuÍalmente autÔnoma e, poÍ conseguinte, ainda é experi.
mentada como fenômeno parapsicológico. Em oulras palavras, não
devemos supoÍ que no nosso atua.l estágio de consciência, quando
assimilamos do espíÍilo inconsciente rnais do que um certo montante
e o toÍnajnos nosso - isto é, conveÍtemoJo em possessâo do com.
.\ plexo do ego, de modo qu: o complexo do ego pode manipulá.lo -
qr,,l não develnos supor,
-dizia eu)
qlg_Sl11yglloJ o seu completo domúrio.
Nada disso. E-xiiE alnda íma área enoÍme do-espíiro qrãE-m-ani.
festa hoje como se manifestava originalmente, de forma inteiramente
autônoma e, poÍtanto, como fenômeno parapsicológico, ral como
ocorÍe entÍe os povos primitivos.
Se atenlarmos paÍa â históÍiâ da matemótica, poderenros ver,

24
com muita clareza, como o espírito te t . Por exemplo,
os números inteiÍos natuÍais, como o leitor provavelmente sabe, eram,
paÍa os pitagóÍicos pÍincÍpios divinos cósmicos que constituíam a
estÍurura básica do univeíso. Eram deuses, divindades e, ao mesmo
tempo, o princípio estrutural básico de toda a existência. Até mesmo
leopold Kronccker afirmou que os números natuÍais eÍam invenção
da divindade e tudo o mais eÍâ produto da mão do homem.
Hoje em dia, nesta é de su osto esclarecimento racional,
@eapalav ra Deus foram, de qualquer
forma, eliminados da ciência humana, um a sériã-"têntativa foi feita na @
matemática formalística para deÍinir o número de maneira que ex.
cluísse todos os elementos irracionais, através da deÍinição dos nú-
meros como uma série de sinais ( l, 2, 3, 4, 5\ e uma criaça-o da mente
humana. Agora, o espíÍíto está, apaÍentemente, posuído pelo com.
plexo do ego, o ego dos matemáticos possui números por eles criados!
Era nisso que Weyl acreditava e foi por isso que ele afirmou:"Não
posso entendeÍ que algo completamente simples, criado pela mente
humana, subitame nte contenha algo abissal e insondável." Ele preci-
saria apenas indag ar se a mente humana tinha de fato criaiiõ-6ií-
m@. Ele penu estar agora manipulando completamente o fenô-
meno, mas isso não é verdade.
Os primitivos, se.tém 30 cavalos, nâo podem contá-los, mas CD|-+O ^
usam 20 pauzinhos e então dizem:um pauzinho, um cavalo, dois pau. cNtK-
ziúos, dois cavalos, trés pauzinhos, três cavalosíetà; depois, contam
os pauzinhos e com eles podem contar o núme ro de cavalos. Esse foi
um método muito difundido através do qual o homem apre-áEIã
contar. Nós ainda o usamos com os nossos dedos; se alguém enumera
coisas, apontamos paÍa os nossos dedos como uma "quantidade
auxiliar' '. Toda a ome ou com a uantidade auxiliar
Ouando o homem pôde, pela prÍrneira vez, contar alguma coisa e
depois teve de contar mais, usou os dedos; ou, em muitâs civilizações
primítivas, usam pontos ou pauzinhos e, depois, quando 'há alguma
coisa a ser contada, os pauzinhos são díspostos no chão e contados,
scndo essa a a quantidade auxrliar.
Assim, se fizermos o que Hermann Weyl tez, estaÍemos simples-
mente Íetoínando ao método primitivo, contando a quantidade auxi.

25
liar; mas isso é apenas uma ação da menle humana, nilo os próprios
númeÍos. Fazer tais pontos ou pâuzinhos auxiliares é umâ atividâde da
consciência do ego, por meio da qua.l podemos contaÍ; é uma cons.
tÍução dâ mente humana, mas o próprio número não é, e aÍ está o
grande erro.
Portanto, lemos de voltaÍ atÍás e dizer: "Sim, por um lado, os
númeÍos são entidâdes que a mentc humana pode poslulaÍ e mâni.
pular." Podemos supoÍ uma ceÍt8 quantidâde de números, uma lei
aÍitméticâ, uma situaçlo, que podem ser manipulados, complela, livre
e aÍbilÍariamenle, de acordo com os desejos do nosso ego, rrral esta-
remos manipulando somenreljerjyetlvo; o faro original queíilirõir
um indivíduo a fabricar pauzinhos paÍa contâÍ e assim chegar ao
número de cavalos, por exemplo, essi déia de que o indivídu o nío se
âpossou, ainda é autônoma, ainda peÍlence ao espírito cÍiativo do
inconscienle.
Na época de Weyl, poÍtanlo, simplesmente descartou-se o
estudo dc números poÍque se lÍopeçava sempÍe em algo completa.
mente simples e insólitg: alguém tinha âcabado de colocaÍ em posição
quatÍo pontos e, então, de súbito, csse§ quatÍo pontos haviam desen.
volvido qualidades que ninguém postulara. Para escapar a essa embara.
çosa situaç ão e manleÍ a ilusão de que os núme ros eram alqo postulado
pela menle consciert !3, que os podia manipular, Weyl diz: "Os números
natuÍais nâo sâo enfatizados em matemática, mas nós os projeramos
mediante um Íocedimenlo e cífico no de ossibili.
dades inÍinitâs e depois os tÍatamos dessse modo."
É esse o procedimento da maioria dos matemáticos modernos.
Eles simplesmente adotam a teoria dos números intbiros naturais, de
I a N, e os tÍâtam como um lodo;eles afirmam simplesmente que a
série de números inteiÍqs-narurais é-qslgllui eg!g!-gg!!!ê!gs
por exemplo, cada número lem um predecessor, um sucessoÍ, uma
-
posiçâo e umâ Íazão. lso é conhecido como um conjunto e há, então,
a possibilidade de construir oulÍas matemáticas com números com.
plexos e iÍÍacionais, etc. Daí derivam formas muilo superiores, sempre
de tipos (poder.se.ia dizer de números), tÍâtados simplesmente como
aquilo a que os matemáticos chamam de uma c/asse, ignorando nela o
7,o15eo335.

26
Udamos, portanto, com uma idéia algébrica e somente com as
qualidades comuns a todos os números inteiÍos na(uÍais. Com essas
qualidades, uma pessoa pode construir uma porçâo de coisas, mas,
como drz Weyl, "mais ou menos ignorar cada número inteiro natural
r
pe se". Os matemáticos onestas eles amal§
negam que o númeÍo iúei@ lqÍn ualidades ilraqlqn4is e individuais,
limitando.se a dizer que não estlo ínteressados. Poincaré, poÍ exem.
plo, é ainda mais honesto; ele afirmou que todos os números
inteiros naturais são indivrduoúrracionais, mas que, exataÍnente por
esse motivo, é impossível, na teoria dos números, formular muitas
teoÍias geraís sobre eles; e é por isso que eles nlo são muito fecundos
para a matemática. Nâo são muito úteís, porque há uma quantidade
Itl'l úrL

excessiva de casos únicos e não existem generalidades suircientes a l?5


partir-das quais se_pgsê_lo$[Ulat-U0_t!9!g@. Esse era o ponto de
üsta de Poincaré;ele não disse que os números inteiros natuÍaas não
eram interessantes, mas que nío nos agÍadam muito, poÍque e rmPos.
sível constÍuir teoÍemas em sernelhantes bases. Terramos d e prestaÍ
atençgo ao caso único e é disso que, como matemáticos, não gos.
tamos, porque, poÍ uma questão de temperamento, prefeÍimgs fonnu.
lar teorias Íais que são comumente válidas
Portanto, na história da matemática, pode.se ver com muits
clareza o que Jung caÍacteÍizou como o desenvolvimento geral da
mente humana que tudo o que chamamos hoje de nosso espíríto
subjetivo, inclusive as nossas atividades mentais em ciência, foi outrora
o espíÍito objetivo - quer dizer, o movimento inspirador da psique
inconsciente - mas, com o desenvolvimento da consciênciâ, nos apo
deramos de uma parte que agoÍa manipulamos e a que chamamos
nossa, compoítando.nos como se fosse algo que possuímos completa.
menÍe. Foi isso o que aconteceu no desenvolvitnen to global da mate.
mática: de deuses que eÍam, os números foram dessagrados e conveÍ.
tidos em algo ue é arbitrariamente postulado pclo e de um mate
mático. Mas os mâtemáticos sa:o su[icientetnente honestos paÍa
declarar: "Não, essa na:o é toda a história; por estranho qu€ pareça,
existcm coisas que eu quis aproíundar, mas desisti, porque essas coisas
ainda se esquivam e fazem o_3ge_não jgyiam fazerrgÍo p1!9!g
11 ,[tl
escÍanziu completamente pela nossa consciência."

27
rfjr"
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Um desenvolúmento paÍalelo âconleceu na históÍiâ da física,
onde aBoÍa é cada vez mais usado o conceilo de probabilidade e se
pÍocuÍâ ignoÍâÍ ao máximo o caso único. Portanto, Wolfgang Pauli
declarou: "Por causa do a sPe cto indeteÍminista da lei naluÍa l. a obser-
vacão física adquiÍe o caÍáteÍ de uma realidade única irraciona.l, e é
imposível pÍedizeÍ um sulta do contÍa isso, eÍgue-se o aspecto
Íacionâl de uma oÍdem abslÍala ossibiliilrle , post ulada com a
ajud a do conceito lDíLtgm-á t_iç-9--de pÍobâ bil id â-dê _e- da Ànçap2{t: "
Em outras palavÍas, a física defronta-se aBoÍa com uma gÍânde
divisão, notadamenle, todos os cálculos prévios baseiam.se no con-
ceilo de pÍobabilidade e são Íealizados em malÍizes e outÍâs foÍmas
alg,é bricas,
!ll§: _99!-i eles, tudo o que pode ser enunciado é uma
Eoba!!!!&dejilê! Faz-se assim, uma observaç ão concÍela, que é um
evento Íeal e sem paÍalslo. Ora, essas obsenações reais e únicas,
mesmo que custem dez milhões de dólares, por exemplo - e é o que
custam, hoje em dia, na área da microfÍsica - nâo dem ser infinita-
menle repetidas, a lim de se obter lambém uma ceÍta pÍobabilidade
P Íáticâ. Exisle ols um imenso hia to, e é por isso que Pauli afirma
que o expeÍimento Íeal (diBâmos, com uma paÍtÍcula num cíclotron) é
lluma "hislóÍia de mais ou menos", irracional, e que, em geral, g1{g se
llajusta perfeitamente à pÍobabitidade calculada. É por esse motivo que,
hoje em dia, lmProúsam-se todas essas equaçôes de que a fÍsica está
Ísplglgi de fato, l-Íâpaceia-se um pouco para ligar umas às outras e já

nâo é mais ível efetuar çd1Éela_ctrêlg:grgets.
aturalmente, os físicos pensaram a Íespeito! Como foi que isso
aconteceu? Por que não se pode foÍmulaÍ uma pÍedição concÍeta que
realmente forneça resultados numéÍicos e nâo âpenas uma probabi-
lidade estatÍstica? Pauli afirma claÍamente qu e isso é uma decorrência
dj:_plgt$!g$C095 porque o experimento é um evento sirtgular e
concrelo e os meios de cálculo em malemática baseiam-se no princípio
de probabilidade, que--exclui o evcnto único e nâo lhe é aplicável.
Portanto, temos agoÍa de aprofundar o problema da probabi-
lidade e pergu ntar: "Como acontece isso?" O modo mais sim ples de
explicar probabi.lidades, e o modo que, vo sar, poÍque é, evidente
) menle, o gaüão ar et ico, é com cartas. Uma pessoa tem um
baralho de cartas e pode apanhar uma caÍta. A probabilidade de

28
que das 32 cartas ela pegue, digamos, o Ás de Copas, é de 1132. A
pessoa tem exatamente essa chance e não mais do que esa. Se for dito
à mesma pessoa que apanhe uma catÍa dez vezes, a probabilidade de
obter o Ás de Copas é muito maior, e se a apurhar mil vezes, então a
chance torna-se ainda maior, e assim por diante.
Em outras palavras, arepetiÇãoéoseg redo da orobabilidade
quanto mais a pessoa ÍepetiÍ a situação, maior r_precisío coÍn que a
robabílidade e ser formulqda, até que, Íinalmente, e essa é a for-
MU ação estatística, chega-se a um valor.limite em que se pode dízer
que, quando uma pessoa tem N (ou seja, um número infinito de pedi.
dos de cartas), então pode ser estabelecido um limite com muita exa-
tidão. Em forma popularizada e simplÍÍicada, é isso o que está suben-
l[
tendido na probabílidade calculável.
Não sendo formada em matemática ou em física, tive de recor-
rer geralmente a materíal bastante popularízado, mas cumpre assinalar
que o físico uando uer ex obabilid reo
exem lo dos da das cartas. Solicito ao leitor que conserve rsso Rrr
em mente. Se um físico pretende explicar o teorema de Bernoulli, I
começa por dizer: "Bem, se você tiver tantas cartas", e por aí segue. O
mesmo método é sempre usado para explicar a probabilídade a um
leigo. Mas por que usaÍ esse exemplo? Porque é divertído! Passando
agorâ âos fatos, isso significa que toda a matemática e seu uso na física
moderna baseiam.se no Ímcl to tnca acidade
fazet redigões sin lares de eventos si lares, mas alrneja estaÍ apta
a fazêJo q uan o se trata de milhares e bilhÕes de eventos, quando as
predíções adquiÍem, então, uma grande dose de exatidão.
Ora, como p_-sicóloga t{a,v-q§g, e não acÍeditando nisso, ou a /._:\
.'. )

melhor, consíderando isso uma opeíação muito unilateral da mente


humana, tenho de formular duas perguntas: em primeiro lugar, natu-
ralmente, vê.se que é uma visão muito discutível ou muito unilateral
da realidade a ueacl cla a ulre ela a icação dessas
.t!§!tsês e, por conseguínte, estamos justiÍicados para perguntaÍ se não
existem outÍas possibilidades com outros meios. De momento, porém,
quero fazer a outÍa p€rgunta: "Por que estranho motivo milhôes de
cientistas de grande inteligência na Europa ocidental, na América e no
mundo ocidental acreditam na lei dos gandes números como se ela

29
fosse Deus?" Porque, de fato, se disculirmos esses problemas com
cienlislas nalurais modernos, eles simplesmente acÍeditam que assim
lem de ser - que é esse o modo de aveÍiguaÍêm a realidade e de a des.
cÍeveÍem cientificamente e com exatidão. Nessa atitude está im plícito
seÍ esse o caminho para se chegar à verdade de fatores inteÍnos e exteÍ.
!os, e de tudô ô mâi§; eh tem de seÍ estatisticamenle provada e
cobrir-se com esse conceito de probabilidade.
Essa é a minha qrande crític e a Rhine, da Duke University. Aré
: êle foi b3sta!le_tlggrluo para acreditar que, se ele queria "vender" os
-) fenômenos parapsicológicos ao mundo científico, enlilo, reÍia de
prováJos eslatisticamente ou usando o conceito de probabilidade, e
? __.., acabou- -
que-_lolo! por perder.se em teÍÍitóÍio inimigo. Ele devia
ter permanecido em seu própr io teÍÍitório, mas tentou pÍovaÍ com os
me§mos melos ue eliminam o caso único al o ue só é válido no caso
único. poÍ essa Íâz,io que não acÍedito em toda essa investigação
-j i ilãã-a credito no que eles esrão fâzendo na Duke Universiry. Eles se
deixaram seduzir pelo Zeitgeist noÍtê-ameÍicâno e, poÍque quiseram
pÍovâÍ â outÍos cientistas que a parapsicologia é umâ ciência âutênrica,
usaram uma feÍÍünenla que é absolutamente inepta e inadequada para
-.
) esse propósito. Esra é a minha opinião pessoal.
PeÍgunlemos, agoÍa, em primeiÍo lugar, por que essa mania de
acreditar na lei dos andes números se apossou da mente ocidental?
No fim de conlas, os que acÍeditam nisso são, em geral, as pe ssoas
mais desenvolvidas e inteliBenles em nossa civilização. Não são rolos
Então, por que acrediram em tal coisa? Sp al guém acredila, com uma
espécie de convicção s ada, em algo ue, de is de ter sitlo a Íolun-
o, Íeve a.se um o de vista muito tenderrcioso e parcialmente
eÍÍôneo, então existiÍá sempre a su sP eita psicoló gíca de que essas
I pess oâs estão sob a influência secreta de um a lssoéoque
) z as pessoas aoeditarem em coisas que no-o siÍoI.$g!lPo.
verdadeiras
Se examinarmos a história da ciência, verificaremos que todos os
etros em ciência, ou aquilo a que agoÍa chanramos erros, foram
deúdos ao fato de que pessoas no passado ficaram fascinadas poÍ uma
idéia ar quetípica qqg rs lmpediu de continuar observando os -fàros-,
Esse conceito arquetípico as salisfaz, dá.lhes um sentimento subjetivo
il de "é assim mesmo" e, poÍtanto, desistem de procurar outras explica

30
ções mais completas. Somente quando surge um cíentista que diz:
"Bem, não estou muito certo disso", e apresenta novos fatos, é que os
outros despertam e exclamam: "Como pude acreditar nessa outra his. Ir
tória antes, que paÍece agora estaÍ completamente errada?" De um
modo ral as ssoas dão.se conta de ue estevam sob o fasctnro, a
magia fascinante e emocional de um a idéia arquetípica
Portanto, temos de averiguar gue a ídéia aíquetípicâ e stá subiâ
cente no fascínio que ho ie domina a mente dos cientistas os
o uem é o dpus dos grandes números, considerado do ponto de vista
mitológico? Se estudarmos a históría da religião e a mitologia compa.
rada, os únicos seres capazes de manipular grandes números eram
deuses, ou a divindade. Deus, mesmo no Antigo Testamento, contava
os cabelos de nossa cabeça. Nós não podemos fazer isso, mas Ele pode.
Além disso, os judeus recusavam-se a seÍem contados, porque somente
a Deus era permitido conhecer o número de seu povo, e contar a po-
ll
pulação era sacrilégio - só a divindade podia contar.
A maioria das sociedades primitivâs, que ainda vive no estâdo
a_lgÍEge do tipo caçadoÍ e coleioÍ, por exemplo os aborígineIG.
tÍaliaflos, têm todas um sÍstema binário. Contam até dois e depois
continuam contando aos pâÍes. Não existe uma palavra além de dois;
conlaÍn um, dois; dois, um, dois; dois, dois, um, um, dois, e assim poÍ tzztLztt
dlante. Na maioria das civilizações pÍimitivas, podem contaÍ até dois,
ou até tÍês ou até quatro. Eústem tipos diferentes e, para além de|, -
uma ceÍta quantidade, dizem "muitos", e onde começa ..muitos"[ P'
1

começa o irracional, a divindade.


Vemos assim como o homem, ao aprender a contaÍ, retiÍou um
pedaço do teíÍitóÍio do senhor deus que tudo conta, apenas um peda.
ciúo, o um e o dois;isso é tudo o que ele pode manejar, o resto aindall
pertence ao deus que tudo conta. Ao contar até tÍês, depois quatro,,l
depois cinco, o homem ganha lentâÍnente teÍÍeno, mas chega sempre o
momento em que diz "muitos" e, aí, desiste de contar;a partir desse
ponto, "o outro" conta, ou seja, o inconscíente (ou o arquétipo, ou a
divindade), que pode contar infinitamente e superaÍ qualquer com-
Putador.
Esse éo fascrnio e prosseguirei a partir daí, na palestra
seguinte.

3l
29 PALESTRA

Procurei, no cap ítulo anterior, fornecer um esboço da base dp


cálculo de probabi lidade e de seu uso na fÍsica moderna e em outÍas
áreas da ciência no seu estágio atual. Tentei mostÍaÍ que o cálculo de
probabilidade e os métodos estatístrcos usados na ciência modeÍna são
apenas abstrações fundamentadas na idéia da série inÍinita dos núme-
ros inteiros naturaís, e que só adquirem exatidão se paÍtirmos do pres.
suposto de um número infinito de eventos ou exemplos.
O Dr. Jung sempre exempliÍ'icou isso dizendo que, se tivermos
uma pilha de pedras, poderemos dizer com absoluta exatidão estatís-
tica que o tamanho médio delas é, digamos, tÍês centímetros cúbicos;
mas se quisermos apanhar uma pedra exatamcnte desse tamanho, esta-
remos em epuros para consegui.lo; talvez encontÍemos uma - ou
telvez nenhuma. Em outras palavras, embora seja verdadeira a altrma-
ção de que o tamanho médio das pedras da pilha é de tÍês centímetÍos
cúbicos, trata-se de uma abstr o em nossas mentes. Formul aÍne§ elll
abstragã-o em nossas men tes, e la é acurada na medida em que é verda-
tir., ,* a realidade da pilha de pedras, onde cada pedra é êÍente,
não é essa. A maioria das pessoas, se lhe dissermos que o homem
médío, ou o americano médio, é assim e assim, acredita nisso; elas
acreditam nisso como se os american Íears
&Sçg1_1§!tr-Çomete
trata de uma abstração mental ois a acumula ío real de ssoa§ e
ltê4li
uma acumu ação de casos únicos
Está provado que essa abstração é muito útil, sendo essa uma
das razões pelas quais as pessoas acreditam nela, mas não é a Íazão

33
loda, poÍque, se írÍgumentaÍmos com cienristas natuÍais, eles Íepelem
o fato de que as pedÍas Íeais são de diversos tamanhos e não queÍem
ouvir falar nisso. Os que são honestos dizem: "lsso não interessa à
ciência" - o caso único ou individual não inteÍessa à ciência. oÍ ue,
alé aBoÍa, não existem meios .lla!9 Í1á q'_c g_lIa-lg_l h eg1-9.1í_9le A
marona as pessoas acredita, e é uma convicção emocional ,queê
verdade estatística é a verdade Em discussóes, poÍtanto, elas dão
sempÍe este gênero de Íespostâ: "Foi estatisticamen te provado que é
assim, e isso é o baslante." E a discussâo acaba aí.
Ora se as ssoas acÍeditâm em al o ue é obviamente estú
oido - eu nâo diri ÀÍe ente eslúpido, mas unilateÍal, já que se lÍala
de umâ visâo unilateÍâl do mundo -, uma abstração em que as pessoas
acÍeditam como se fosse uma verdade dos evangelhos, enlão, como
psicóloga, temos sempÍe de perguntar por quê. O que causa essa
emoção, poÍ que não podemos discutir a quesrão com outras pessoas,
poÍ que elas nãojodem e$glEl_ rÍÍrq verdade tão óbúa? Por
exemplo, como tentei mostrar há pouco, com a pilha de pedÍas, cada
uma é naluralmente uma pedra única; então, poÍ que os cientistâs
ficam emotivos e dizem que a pedrâ única não existe, ou que exisle,
mas que isso nadâ tem a ver com a ciência?
I No começo, eu costumaya ficar irritada com essês cienlistas, mas
depois lembrei-me de que sou psicóloga e achei prefeÍível averiguar
por que molivo eles estavam emocionalmente tão vinculâdos à idéia de
ue o cálculo de pÍobsbilidâdes ou a estarísricâ é a verdadiãliã-o
existe outÍâ. Se recuarm õüiê ã-õiigeÍn,' pêiceberemod à,i.,'p.'iZf
dessa crenca. está um a Íouéti D oemâ c âo Se as pessoas não podem
disculir os fatos de um mo do de rendido e re lativamenle sinceÍo. é
ndo influ oÍ um aÍ Por conseguinte,
peÍEunlei a mim mesma qual seria a imagcm aÍquer ípica subentendida
na idéia de uma série infinita de núnreros inteiÍos (1, 2,3,...etc.). Por
que eÍa o cálculo de probabilidade operado com essa magnitude, ou
esse quantum, poÍ assim dizer, como se fosse um todo? Ai
descobrimos que a humanidade - e foi nesse ponto que parei na
),:,'n L palestra anterior - aprendeu lenlamente a conlaÍ. Os povos mais
primitivos, por exemplo, certos aborígines austÍalianos, só podem
contaÍ até dois em palavras, daí em diante Íepetem e contam aos

34
paÍes. Possuem o que se pode chamaÍ um sistema binário. Outros
povos primitivos podem contaÍ até três, após o que diz€m "muitos";
outros podem contar até cinco e depois dizem "muitos" ou começaÍn
repetindo.
Provavelmente, a contagem originou.se primeiro com o uso de
auxiliares de cálculo, seixos ou pauziúos. Quando não se podiam
contar todos os objetos, usava.se sempre o seixo, a Íim de se estabe.
lecer uma relaçâo um a um. Os seixos são um modo da consciência
humana apoderar.se de um número; assim é que alguns podem contar
até três e outros até quatro, após o que dizem geralmente "rn!!qs",
ou encolhem os ombros; depois vem o conceito de grupo, a classe de
nÚmeros inteiÍos na , em que não podemos perceber cada indi-
víduo. Dessa maneira, todos possuem esse conceito de um número
inÍinito de inteiros nârurais, geralmente coberto pela palavÍa
"muitos", mis quem manipula os muitos?

Série infinko de inteiros naturois


[, 2, 3...muitos... N (a diúndade).
-
N o grupo ou ctasse de inteüos natuÍâis

Hoje em dia, é possÍvel manipuláJos, podemos manipulaí


muitos como se fossem uma grandeza, algo que podemos usar na
matemática. O homem prunitivo supõe que só um deus ou uma divin.
dade pode contar inÍinitamente. Ele possui, por assim dizer, a 197,t
-
percepção consciente a consciéncia depreciada - desse número N, ao
passo que para a humanidade modeÍna isso seria inumano. O homem
possui tíês ou vinte, ou o mais longe que for capaz de contar, e depois
vem o arquétipo de N, que se encontra nas mãos de uma divindade. Exis.
tem díferentes deuses gue contam dessa forma. No Novo Testamento é
dito que Deus contou os cabelos de nossas cabeças (Lucas, l2:7); mas
também existem divindades negativas, pois outros deuses podem
o
contar, não apenas Deus supremo do Novo Testamento. Por
exemplo, a tribo dos yoruba, na África ocidental, tem a seguinte
Prece:

35
Mottc: Conta, conta, conta continuanrente, mas nâo me mntes a miÍn.
Fogo: Conta continuamcnte, conta continuarnente, mas nâo mc contes â
mim.
yozio; Conl! continuaÍnente, conta continuünente, mas nâo me contes a
mim.
Riqucza: Cont^ continuajnenle, conia conlinuamente, mas nâo me
conles a mim.
Dio: Conla continuarnente, conta continuarnenle, mas nâo me contes a
mim.
A teiâ de arânhâ Íodeia o c€leiÍo do milho.

(Não repeti o "conla continuamente" tantas vezes quantas eles


costumzun fazer.) "Aleia de aÍanha rodeia o celeiro do milho" é um
dito muito misterioso. O etnólogo, de cujo estudo cilo essa prece, diz
que não há uma explicação clara para isso; e existe uma vaÍiaçâo da
última frase que diz: "A fuligem Íodeia o celeiÍo do milho". Pensa ele
que tâlvez os yorubas espalhassem fuligem em ÍedoÍ do celeiÍo para
impedir roubos e lâmbém para terem indícios de quem eÍa o ladÍão, se
houvesse um fuÍlo, de modo que um anel de fuligem seÍia uma
pÍoteção para o cereal. A teia de aranha é provavelmente a mesma
coisa, pois se não apaÍecesse quebrada era sinal de que ninguém tocara
no celeiro do milho. Mas, naturalmente, nós pensâÍíâmos também no
fato de que a teia de aÍanhâ é uma belâ ê Ue!!!:-o_Igg!izâdâ mandala, o
@j§çlelê-ggq -PrgltBe
g§ be4l09._um
indivíduo.
Para mim, â pâÍte importânle dessa pÍece é a que se diÍige à
Morte, ao Fogo, ao Yazio, à Riqueza e ao Dia - cinco poderes arque.
típicos que podem contaÍ. As conolaçóes sâo óbvias. A Morle conta
sempÍe, e é muitíssimo lamentável que apanhe o nosso número, pois,
nesse caso, a Morte se apossa de nós. A Morte subtrai perpetuamenle
da humanidade e, segundo paÍece, o faz conscientemente, sabendo
que fulano e sicÍâno rêm de deixar a vida. O Fogo consome, propaga-
se e queimâ constantemente; precisa sempre de mais combustível, de
modo que ele consome cada vez mais, tal qua.l a morte. O ,-glg
também é um P oder ar etí rco ;em todos os mitos primitivos e
antigos de cÍiaçâo, no começo do mundo, existe ou uma divindade ou
o vazio - o Nada, por assim dizer, e ao Nada p odeÍ-se-iâ chaÍnaÍ uma
Po tencialidade criativa ele é o "ainda-nâo-ser" - que é, também, uma

36
imagem do inconsciente e também pode contar. A Rioueza conta, é
óbüo, todos sabemos gue as pessoas ricas contam seu dinheiro, ou é
assim que os avarentos a vêem, o que nalo está longe da verdade. E o
Dia, o princÍpio da consciência, ou o período de consciência, também
pode contar.
Todos esses elernentos - morte, fogo, vazío, ríqueza e dia -
slo imgg!§ do que chamaríamos enerqia osíquiça, como fonte da
consciência. O fogo e a riqueza são símbolos óbvios da energia
psíqüca. Pensamos, então, nas antigês descrições da divindade da
moÍte, como, por exemplo, na religiro greco-Íomana, onde a morte
é Júpiter ou Zeus do Inferno, o deus do inÍinito e o guardião do
tesouro. A teÍra dos mortos é como um tesouro e o deus da moÍte
é como o guardiao de um enorme tesouro, a partir do qual reproduz
os vivos e devolve os moribundos. PoÍtanto, é também o tesoureiro
da energia vital e, por meio de números, contando, gera-a ou recu-
pera-a de novo O dia, nat uralmente é simb idêntico ao
tempo de pe rcepção conscrente das coisas, em contraste com a
nor te
Os yorubas temem esse deus do inconsciente e atribuem-lhe a
capacidade demoníaca de contar. O desejo deles é ru-o serem
contâdos, escapar para a noite da vida, escapar desse olho da divindade
que tudo vê e que distribui destinos negativos.
Se tentarmos i ter retar esse uadro ar uetí o , diremos que a
imagem da divindade, ou de um grande deus - elas são imagens do Eu
(do selÍ) em nossa linguagem - envolve um ritmo numericamente or-
denado, como se o Eu fosse um relógío que pulsa Íitmicamente: um,
dois, três, morte, e um, dois, tÍês e, então, atinge ou não atinge
-
algu ém. Em seu asp ecto Dositivo. oroduz vida e tempo; em seu aspecto
negativo, é o fogo e a morte que tudo consomem. Tem.se a idéia de
que a moÍte é o poder que conta, o poder divino. Na linguagem popu-
laÍ eúste a expressão: "Ele teve a sua conta." Se alguém morre, não
antes do tempo certo, e queremos express:ú o sentimento de que a
pessoa moÍÍeu em harmonia com o seu destino, então dizemos: "Bem,
ele já tinha seus dias contados." - como um consolo, significando que
não morreu por aciden te an tes do seu tempo.
Em línguagem religiosa, poder'se-ia dizer que Deus tinha deci-

37
dido matar essa pessoa agoÍa, e nada, nem mesmo os médicos,
poderiam ter evitado, poÍque o Desrino ou Deus decidira que a
pessoa tinha de morrer; Deus tirou o número dela e a pessoa chamada
teve de partir. Assim, temos aqui um-a-_ i dentidade entre um número
individual e um seÍ humano o§ númeÍos são, dessa forma, indivíduos
U ma outÍa expÍessão comum também traduz ô ato de que um
númeÍo é como um indivíduo, e vice.versa: se nâo entendemos
completamente alguém, dizemos que peBamos o númeÍo er-{ado, signi.
ficando, âssim, que úg_tgllSi ê fIg.q[ência, ou o feixe de radar, ou
seja lá o que for, para estabelecer conlato com essa personalidade.
Também nesle caso atribuímos a cada indivíduo uma freqüência ou
um número e, paÍa entraÍ em contato com ele, temos de teÍ o númeÍo
corÍeto.
Assim, se hoje em dia o homem acredita que pode dominar uma
série infinita de números natuÍais, isso é uma prova de arrogância, uma
idenüÍicação com o arquétipo do Si.mesmo, ou da diündade. Foi essa a
pÍoeza falal de um homem chamado G=grg. J3nt9r,o descobridor da
1 existência.-de diferentes conjuntos infinitos, que podemos somaÍ e
tl subtÍaiÍ,'etc,; e diferentes porências de infinidade, que podem seÍ
contadâs simultânea ou separadamente. Alguns conjuntos são mÀis ou
menos potentes, mas o detalhe fatal é que Cantor introduziu, assim, a
ilusâo de que, contando esse coniunto de elementos e de Pois tratan.
do.o matematicamente nós o tínhamos nâ mão, poÍ assim diz_er. Nôs
I cometemos o mesmo equívoco fatal, ao pensãr que uma verdade esta-
ll tística é a verdade, pois Íealmente eslamos âpenas ![3nlpl!sn!o um
conceito abstÍal enâoa o ria realidade , nesse pensarnento,
insinua-se uma identificação com â divindade. Existe um mito navâjo
que exemplifica o que acontece aí, mas na forma de uma peça, de

Yi modo que terei de relornar primeiro a um outÍo ponto. Mas, tenham


em mente que vou tenlaÍ moslÍaÍ que isso é uma prova de arrogância.
Entretanto, quero explicar pÍimeiÍo um outro âspecto.
O c:iiculo de probabilidades foi inventado por dois gran des
homens: o matemático e filósofo tiancês Blaise Pascal e outro fiancês
que foi, realmente, o maior matemático a.-6ãõiõõrpos, Piejre de
fggqt Um jogador escreveu a Pascal e pediuJhe um sistema que se
aplicasse aos jogos de azar. Esse sistema desempenha atuâlmente um

38
grande papel, sobÍetudo na ltália, onde os sri tematici exeÍcem uma
funçâ o na loteria estatal. Naturalmente, quando matemáticos talen
tosos vão a Monte Carlo, , muitos deles tém sistemas, de modo que
esse iogador pediu a Pascal para de scglrir urlr sistema pelo qual ele
pu desse ganhar. Pascal fi cou matematicamente interessado no assunto
e iniciou uma correspondência com Fermat a esse respeito. Não se
pode afirmaÍ com precisão quem teve a idéia primeiro, mas na tÍocâ
de correspondência entÍe ambos, acabou sendo descoberto o cálculo
de probabilidade s. Assim, a verdadeira ta histórica da Íobabilidade )
o ioso de azar lrmbre-se de q ue eu
érr-J_.- , na primeira palestra, que
tt

sempÍe que físicos ou matemáticos tentam explicar numa forma


popular o cálculo de pÍobabilidades ou os princípios da estatÍstica,
ÍecoÍrem à idéia do iogo de azar. Isso s ugeÍe que a raiz arquetípíca é o cont n?
arquétipo do jogador e do jogo. Pa ssemos, agoÍ a, à hiscória nav aJo w^P,q
Os navajos tiveram outroÍa um chefe extíâoídináÍio, que N2E"
possura todas as pérolas e tesouros da tribo e, paía se conseÍvaÍ pÍote.
gido, viüa isolado. Ele tiúa uma gÍande tuÍquesa da qual o deus-Sol
era invejoso. Embora o próprio deus.Sol possuísse uma tuÍquesa com.
pleta ou perfeita, ele queria também a do chefe nsvajo. Assim, geÍou
um filho com a mulher.Rocha e educou esse filho paÍa que se toÍnâsse
um peÍfeito joga dor, um jogador ue sem Íe hasse Depois,
enviou-o à Terra para desaÍ'iar o che e e ganhar tudo dele, inclusive a
grande turquesa. O Íilho assim fez. O deus.Sol pediu-lhe, então. que
lhe entregasse a turquesa, mas seu filho, o jogador navajo, guardou.a
para sÍ. O deus.So[ ficou furioso e repetiu o mesmo expediente. Cerou
de novo um filho com a mulher.Rocha e também o instÍuiu, mas a
este segundo filho ensinou também a trâpacear no jogo, com a ajuda {l
de animaís.
Na mitología dos indígenas noÍte.americanos e na mitologia
mala, isso desempenha um grande papel; os animais interferem e
a udam as ssoas ue estâo no caminho correto. Por exem plo, existe
o famoso "Livro do Conselho" , o Popul-Vuh dos Quiché Maya, onde
os heróis têm de combater os deuses do inferno, que mataÍam seus
pais, e fazem uma espócie de jogo de basquete que jamais poderiam
venceÍ, porque os deuses do infemo sío mais poderosos. Mas, em certo
momento, um coelhinho correu para dentro da cesta como se fosse a

39
bola, as pessoas confundiram o coelho com a bola e todos acreditaram
que o jogo havia sido vencido pelos heróis e nâo pelos deuses do
inferno. Eles venceÍam com a ajuda do qqetp bat.o,-terÍo e agoÍa
podem decapitar os deuses do inferno e vingaÍ seus Pais.
Na história navajo ocorreu a mesÍna coisa, pois o segundo
jogador desafia o primeiro e, com a ajuda de anrmais - nãq e_!!é elpe'
il cificado de que man elra.:-.f,,atúa. dç-l-e- tudo de volla. Entrega, então, a
grande turquesa a seu pai, o deus.Sol, que o ÍecomPensa, confe'
rindoJhe grande poder e a posse de muitas terras.
Se interpretarmos e§te mito psicologicamente, o deus'Sol seria
um paralelo de Dia, Morte, Fogo e Vazio da prece yoruba;ele é o deus
do princÍpio da consciência no inconsciente. Ou poderíamos tanlbétn
chamarlhe a luz da naluÍeza, lumen naluroe, e ele pode, PoÍlanto,
contaÍ infinitamente e, em Jzl conscle a- Iem conhecimento de
todos os o Cria enlâo, a consciência humana, o ÍimeiÍo iogadoÍ,
ile ensina{he primeiro jogador encheu-se de soberba e ,
seus ardis. Mas o
depois que aprendeu os ardis do deus'Sol, não quis entregar'Llre o que
ele queria, como sacrifício ou ÍecomPensa por lhe tet en§inado lodos
os ardis. É um herói aÍÍoBanle e, poÍtanto, cslá condenado, Pois o
deus-Sol cÍiou entâo um segundo joBador, que é humano e modesto, e
suficientemente honesto para lhe entregar a grande turquesa, sabedor
de que só venceÍa BÍaçâs ao fato de ter aprendido com ele todos os
tÍuques e gaças à ajuda dos animais, o-gusli, nesre caso, o fatoÍ deci'
sivo. Diríamos que ele permaneceu fiel ao scu instinto e não se encheu
de presunção.
Entre ar-se à arrogância si ifica uma traiç ão aos próprios
inslintos. O instinto pÍotqg- lemos uma PÍoleção instintivâ contÍâ â
arrogância. Todos nós nos tornamos freqüenlemente pÍesunçosos e
sabemos que, quando isso ocorre, senlimo-nos inquietos, neÍvosos.
Mesmo antes de câiÍmos de uma escada, le-aol
j
p'9 ssentimento de
eho e calremos, porque, ile-fgum modo, p ossu Ímos uma es écie de
mal-estar ou de má consciêícia, nâo sa mos poÍ que_e, dgpgls -
um P -apun ição poÍ nossa aÍrogância chega, de um modo geral,
rapidamente; somos atropelados poÍ um caÍÍo ou coisas assim.
Portanto, podemos afirmar que as Pessoas que hoje em die não
apreciam Íacionalmente o cálculo de probabilidades e a estatísticâ,

40
como ferramentas úteis e razoáveis da mente humana, mas acreditam
secretamen te que poggÍÍIg s domnar a na tuÍeza e desco r a verdade a

Íespe ito de todas as coisas, foram vítimas da soberba e cederam a uma


identificação secreta com o deus-Sol. Por conseguinte' Eg_cas.lCadas
pela presu nção.Oqueépior, a presu pre este rili-
zação da mente, pois se um indivÍduo é presunçoso, e leéestéríl eestú-
pido; e, em grande medida, é essa a situação da ciência natu ral
moderna. Eu não direi que todos os cientistas são assim. Existem
muitos e notáveis cientistas com quem esses fatos podem ser discu'
tidos e que têm plena consciência de que, através da estatística e do
cálculo de probabilidades, apenas Íeconstru Í mos um modelo âbstÍato
da natuÍeza em nossas mentes, modelo esse ue não abÍan e a reali
dade toda , isto é, temos a as um útil conhecimento rcial e
ainda uma quantidade inÍinita de se dos, assim como um número
inÍ-rnito de outros camrnhos possíveis paÍa exP lorar a realidade
Através de Ceorge Cantor, essa pÍesunção, essa arrogàncaa
ingÍessâram no campo da matenrática, como §e vê pela forma como os
matemáticos manipulam atualmente a quanttdade de N, o montante
inÍinito. Esse desmembramento entre mani ular o iníinito sível
como se fosse uma u nl ê]m contraste com o inteíÍo natuÍa I indi-
vidual, rep iéscrrta umã cisío no pensiunento matem ático moderno, e I
mesma divisão existe entre o expe Íimento cientí ficoeooráculode
adiviúação. Benr, como o leitor está vendo, vou avançan do lenta
mente em meu caminho, íumo ao tema da a divinhação l ?c'
.t-E r'

Permitam.me que caÍacterize o que entendo PoÍ um oÍáculo de


adiviúaçá'g. De momento, reÍ'iro-me a todas as ações humanas que
lidam com um oráculo numérico. Depois ampliarei a outÍos, mas PoÍ
agora ficarei com os oúiulos numéricos.
Um número é produzido por algum gesto arbitrário, por
exemplo, colocando uma das mãos numa tig€la com seixos,
apanhando alguns deles e depois contando.os. Ou apanhando um ceÍto
número de ossos de galinha, fazendo duas seções na aÍeiâ e depois
jogando os ossos ao acaso, após o que se conta quantos caíÍam na
scção vermelha e guantos caíram na seção branca, ou algo como isso.
Ou provavelmente a maioria dos leitores está familiaÍízada com o
IChing. para o que se lançam moedas que caem de caÍa ou coroa e, a

4t
paÍtiÍ daí, fazern.se cálculos ou jogam-se hastes de milefólio, para
obter informação aceÍca da situação psicofísica inteÍioÍ e exteÍioÍ.
Ora, esse foi um primeiro e hisrórico dado humui-
!ac!_e,
para pÍoduziÍ o que chamarí amos um sistema lo qual a rea[dade
tsliâ-investigada. Pr ovavelmente, o homem pÍimitivo, antes de teÍ
inventado os oráculos, apoiou.se unicamenle em seus sonhos e em seus
palpites inconscientes instintivos.
Existe, por exemplo, uma tÍibo índia norte.americana, a tlos
Naskapi, que vive na fronreira, perto dos esquimós do Âlasca. Resram
âpenas uma ou duas centenas de pessoas, pois estâo rapidamente
morrendo de fome. Elas vivem principalmente de gordura de câÍibu,
uma Íena canadense. Essa tribo espelha um estado de coisas especifica.
mente pÍiÍnitivo. De acordo com teoÍias antropológicas, c devo dizer
que concordo com tais teorias a essê Íespeito, podemos afirmar que
eles ainda espelham um estado muito original da humanidade.
Pequenos grupos dispersos, usualmente grupos familiares de uns I S a
20 indivíduos, eÍÍiun em bandos, os homens caçando e as mulheres
colelando fruros etc. Nâo lêm agriculrura e civilizâção nenhuma,
sendo ainda completamente do ripo original de caçador.coleror. Uma
vez PoÍ âno, a tÍibo reúne-se num determinado lugaÍ pâÍâ vender peles
e adquirir muniç6o do homem branco. Fora disso, jamais se reúnem, de
modo que não possuem religião organizada, nem festividâdes ou saceÍ.
dotes, nada. Como a ÍeliBiâo é um fenômeno insrintivo natural, eles
têm evidentemente uma, embora não organizada e, para sua orien-
Í tação espiÍitual, confiam em seus sonhos.
i;,
t A interpretação deles é que no coÍação de todo o homem habita
0^
Mistap'eo, o grande homem que é o emisor de sonhos. Ele envia
sonhos e queÍ que o indivíduo preste atenção a esses sonhos, ponha-os
à prova e ÍetiÍe delcs suas conclusões. Dizem eles que Mistap'eo
também Bosta muilo que cada um rlesenhe ou pinte os molivos de seus
sonhos, de modo que os enlalham em madeira ou fazem pequenas
bandejas de casca de árvore com molivos oníricos e, com isso, obtêm
sua orientação espiÍitual. Por vezes, também discutem mutuamente
seus sonhos e, se um homem ou uma mulher tem um sonho muito
impressionante, conveÍtem.no espontaneamente numa cançâo. Essas
canções são completâmente pÍimitivas. Posso dar um exemplo.

42
Um homem sonhou certa vez que sua mulher estava dormindo
com um estranho. Ora, à semelhanç a dos esquimQs. eles tém o
costume de , caso,chegue um estranho, oferecerem-lhe suas mulheres
para a prímeira noite;é o jus primae noctis, em certa variação. Psicolo.
$ãinãntê, o-eitiânho é um intruso perigoso, algo que sempíe ateÍ.
roriza o homem primitivo. O que trará ele? Será que se integra à nossa
úda? O medo é reforçado pelo fato de que, com freqüência, os
brancos ou outÍos visitantes tÍazem umâ nova doença. Não faz muito
tempo, esse povo sofreu os efeitos de uma catastróÍica onda de gripe;
um homem contÍaiu.a dos brancos e contaminou os outros e, como
não têm resistência imunológica contra a gripe, metade da tribo
morreu. Isso foi uma coisa que, como se sabe, aconteceu a muitas
tribos esquimós. Portanto, a experiência deles é que um estranho cons-
titui uma ameaça Íisíológica e psicológicâ, que eles tentam enfíentar
oferecendo suas mulheres. Há o sentimento de que o visitante passa,
desse modo, a seÍ um membro da fam rlia e, poÍtanto, não pode causar
qualquer dano, mas propiciar somente coisas benévolas.
Asim, um Naskapí sonhou certa vez que sua mulheÍ estava
dormindo com um estÍanho. Ao acordar, pensou sobre isso e disse:
"Ah, hoje matarei um caribu!" Frank Speck, o etnólogo que conta a
história, [amentavelmente não diz como o homem chegou a essa
conclusão. Não insistiu com ele para que lhe desse uma explicação,
I
mas, se o leitor [or suficientemente primitivo, verá sem diÍiculdade
como o homem raciocinou: algo novo se intíoduziria em sua vida e sua L ''r"
mulher dormiria com isso. poÍtanto, devia ser algo positivo e não uma
':'
f;
coisa perigosa; logo, alguma coisa positiva e nova iria acontecer nessej
dia.
Como ele estava quase morrendo de fome, a única coís8 nova e
positiva gue poderia acontecer seria abater um caribu, o que signifi.
caria a sobrevivência nos l5 dias seguintes. Essa gente vive de quinzena
em quinzena. A morte é uma presença constânte, e vivem de cada urso
ou caribu que matam;a situação está negía e, portanto, "Vou matar
um caribu". Ele abateu um carrbu e fez uma canção: "Minha mulher
está dormindo com um estranho e eu vou mataí um caribu." Foi uma
canção mágica, imitada por muitos outros da tribo durante largo
tempo, a fim de provocarem a situação de abater um caribu,

43
enquanto que, originalmenle, era apenâs um evento psicolôgico, um
sonho de um índio Naskapi.
É provávcl que, originalmente, o homem tenha se oÍientado
lassim, antes de ler invenlado os oráculos, p ors a rn o dos oráculos
l,su bente nde um novo âvan oeéocome odac
, dado que
'póirrr; a questâo de como essas probabilidades poderiam ser sistema.
tizadas, de alguma forma. Se eu sonho que minha mulher dorme com
um eslranho, então há a pÍobabilidade de que eu abata um caribu! Era
assim que essa tribo enlendia o sonho. Ora, bem, se eles evoluÍssem
culluralmente, o que não foi o caso - embora devamos admitiÍ que
isso ocorreu em algum lugar do mundo, em ceÍta época - então
procurariam, por exemplo, esculpir um caribu e cantar â cançâo, espe.
rando que isso resultasse magicamenle na moÍte de um caribu. É a
magia da caça; ainda não eslá sendo usado um oráculo, mas esses
povos sabem que a magia da caça às vezes funciona e outÍas vezes nâo.
As pessoas que vivem no nÍvel da visão mágica do mundo nunca
acreditam que a magia é como uma lei absoluta; elas dirâo que
realizam seu Íituâl de caça, ou magia de caça, ou alguma outÍa foÍma
de magia, poÍ causâ da esperança e probabilidade de que isso dê resul.
lado; mas, embora haja uma forte probabilidade de êxilo, â coisa pode
não resultar, e isso é enlâo explicado com a inteÍfeÍência de alguns
poderes maléficos. Se não funciona, explicam dizendo que um feiti.
ceiro perverso usou alguma forma de magia negativa e perturbou o
PÍocesso, ou alÍibuem a culpa a si mesmâs e dizem que nâo execu.
tarâm o ritual mágico com a atitude psicológica ceÍtâ, e é por isso que,
às vezes, ele não funciona. Assim, elas levam em contâ o fracasso;
tÍata.se de uma probabilidade e não de uma lei natuÍal absoluta.
Portanto, vamos admitir que eles esculpem um caribu em
madeira e fazem com isso algum tipo de magia, entoando uma cançaio,
após o que, por vezes, abatem um caribu e outÍâs vezes nâo. Para a
mente humana inquiridora, ocoÍÍe enlâo a etâpa seguinte: Poderemos
descobrir algum meio de saber de antemâo se isso funcionará ou não?
É agora introduzido o conceilo de robabilidade em ceÍta
medida, é uma estão de sorte, ou de acaso, o que paÍa o homem
pÍimitivo significa a ação de unr cieus, ou e um feiticeiÍo, ou dos
próprios podere s sr uicos do indivíduo - eles falham, poÍ vezes, e,

44
portanto, não haverá a possibilidade de conhecer anteciPadamente
qual será o desfecho? Pode-se, por exemplo (e estou agora dando um " í
salto no tempo), lançar uma moeda e, se esta caiÍ do lado errado, :

er.Íão eu estou errada, ou os deuses não estão dispostos a ajudu, e


mesmo que eu use minha magia de caça, isso não iró adiantar nada.
lsso é uma forma de encurlar camrnho, evitando que eu tenha de me
empenhar na execução de desenhos, esculturas ou danças; sei de
antemão que as chances estão contra mim, de modo que Posso Poupar
minha energia e te ntar contoÍn a outra maneira
Sêrií êse õEiiii êiro e tênue alvorecer de uma mente científica
Conslste em calcu r probabilidades, em usaÍ algum meio matemático
ou outío, para estabelecer probabilidades e, dessa forma, poupar
energla e colocar um ou mais sob seu contÍole a situa en
!l!g^e,q q ue o homem vive na natureza. Foi provavelmente essa a
oÍrgem das inúmeras técnicas oraculares que existem no mundo
inteiro
Chegamos a ora à dilere entÍe um oráculo numérico e uma
outrâ t cnica de adivinha Ào. Ex.rstem inúmeras cnlc asdea tvl-
a o que, em meu en tender, são técnicas paÍa catalisar o nosso
próprio conhecimento inconsciente. Elas não usam o número, mas
algum padrÍo caótico; ainda muito utilizadas, entre homens brancos,
são as folhas de chá e as borras de café, mas podem empregar-se quais-
quer outros de tais padrões. Como disse antes, existe uma técnica afri-
cana de adivinhação em que, depois de se comer uma galínha, seus
ossos são lançados por teÍra e da maneira como eles caem, do padrão
caótico que formam, pode aduzir-se o que irá aconteceÍ.
Há uma aldeia no cantão suÍço de Uri onde a igreja e o cemitério
estão na outra margem de um pequeno rio, de modo que, paÍa um
funeral, eles têm de transportar o féretro através de uma ponte, paÍa
chegar à igreja e ao cemitério; duÍante o bom ternpo, a ponte aPre-
senta gÍetas na lama seca, e todo o povo da aldeia ainda hoje olha para
essas gretas, enquanto acompanha o caixão e, por elas, podem dizer
quem será o seguinte, observando o padrão caótico formado pelas
gÍetas no chão.
Certa vez, há muitos anos, consultei um quiromante chamado
Spier, um holandês que escreveu um famoso livro cientÍÍico sobre

45
quiromanciâ. Ele possuía um imenso equipamento cientíÍico e conhe.
cja--iõããI-ãívárias linhas da mâo. Nâo ãhi"a poru a nossa mão; espa-
lhava pó de fuligem sobre â palÍna da mâo, que, dessa forma, era im.
pÍessa numa folha de papel, de um modo idêntico ao usado para co.
lher impressões digitais;e eÍa nessa iÍnpÍêssão que ele fazia a leirura da
pa lma. TÍatava.se de um veículo I tr Não o deixei falar do meü
futuro; eu achava que era dona exclusiva do meu futuro e que o
homem nada linha a ver com isso, de modo que deixei que ele falasse
apenas do meu passado. Fez um relato sumirmente exato; viu até uma
inteÍvençâo cirúrgica a que eu me submetera dois anos anles ele nâo
-
disse "algum acidente", mencionou especificamente uma operaçâo. O
honrem era srmplesmente fantástico. É claro que me inleÍessei, tomei
café com ele, aperrei-o com peÍguntas e pediJhe finalmenre que me
dissesse com exatidâo como fazia. Acabou confessando que era um

Tédium e que, quando uma pessoa enrravâ íõ-lêü "-§abiíeie paia


consultáJo, sabia tudo sobre ela; sim lesmente sabia.o, mas i oÍàva o
que sabia, e todâ a quela encenaçâo corn as tn s e os sulcos das mãos
lnava-se a â tonâ o nto e !a
oÍÍna, e podia projetar seu conhe crmen lo inconscienlc nessâs
linhas e informaÍ seu cliente; elas eram os catalisadores 49cessários
Pâ'1!91{!í.] o19rylente-j9__SgilÊ iá sabie. Na realidade, ele apoia.
vâ.se no que .|glg chama o conhecimento absoluto do inconsciente
que sabemos existir, como p emos veÍ através dos sonhos
O inconsciente saàe coisas ; conhece o passadoeofutuÍo,sâbe
coisas â respeito de outras pessoas. De tempos em lempos, todos nós
lemos sonhos que nos infoÍmam sobre algo que acontece a uma outÍa
pessoâ. A maioria dos analistas sabe que sonhos prognósticos e telepá.
ticos ocorrem com muita freqúência a pÍaticamente todas as pessoas;
Jung chamou, a esse conhecimento inconsciente, de o coúecimento
absoluto. Um médium é uma ue tem um relacionamento mais
el]Egito -dirÍamos, um dom - POÍ meio oqu se relaciona com o
coúecimento abso lulo do inconsc.iente e que, e um modo geral,
possui um ruvel relativamente baixo de consciência. lsto explica poÍ
11 ue os diuns são, com muita fÍe uencla, ssoas de caráter duvi
doso e até móralmente ex ntÍicas -
nem sem PÍC, aro, m ài liê{üân-.
temente - ou com umâ ligeira propensão parâ a criminalidade, ou

46
dadas à bebida, eg) Sâo em geral personalidades que correm grande
)
p
PeÍrgo, Po r terem essc baixo limiar e estaíem tão róximas do conhe
cimento absoluto do inconscien te.
Quase todas as técnicas não-numéricas de adivirrhaçaio sc
baseianr em algum ti de drão caótico que, na realidade, é exata'
mente como um testc dc Rorsc ha Uma pessoa olha fixamente para
um padrão caótico e foÍma então umâ fantasia; a comoleta desordem
do pa drão confunde a mente conscignte da pessoa. Todos nós pode'
t'
n r?
ríamos ser médiuns e termos todo o conltecimento a bsoluto, se a
luz brilhante de nosso ego consciente não a empanasse. É por isso que J
o médium necessita de um abaissement du niveou mental e lem de
entraÍ em transe , um estado semelhante à narcolepsia, a fim de trazer
à tona seu conhecimento. Eu mesmo já observei isso em esta dos de
extÍema fadiga, quando estou Íealmente correndo o perigo de
exaustão física e, de súbito, adquiro conhecimento absoluto; fico
então muito mais próximo dele, mas desde que durma bem' umas
quantas noites seguidas, esse dom maravilhoso logo se dissipa de novo.
Por quê? O conhecimento absoluto é conro a luz de uma vela e, se a
luz elétrica da consciência do ego estiver acesa, nÍo podemos ver a
tênue chama da vela. Se olhamos paÍa um padÍão caólico, ficamos
atordoados, nâo podemos entendê.Io. Se olhamos poÍ um momento
paÍa um cartão do Rorschach, com seu acúmulo de pequenas
manchas, borrando o funcionamento da mente consciente, virá de
repente à tona uma fantasia inconsciente: "Oh, isso parece um ele'
fante", ou coisa assim.
Portanto e ossível orma do incon en te obser-
vando um padrão. Ora, oadivinho ou feiticeiro é geralmente uma
personalidade doúda de podeÍes místico-mediúnico§, e tanto p ode
usar folhas de chá quanto a borra de café, ou olhar para uma bola de
cíistal. Diferentes luzes bruxuleiam sob os nossos olhos quando
fixamos a vista numa bola de cristal, s.glqqo 9l"Í,99!ot_d!_in:t@ I
9o:-ljliorJJrminp§gljeE§-!êFumpall-raõ-.caótió-ãímõômí-umal
certa ordem. mas os efeitos de luz são caóticos.
As sociedades primitivas olham, muito íregüentemente, PaÍa uma
tigela com água ou, como as pessoas da aldeia de Uri que mencionei,
parâ as gÍetas num caminho enlameado, ou qualquer outÍo PadÍão

47
alealóÍio. Isso tolda o s pensarnentos conscienres de uma pessoa. Ela
nâo consegue en tendeÍ um padrão caótico; fica perplexa, atoÍdoada, e
llesse momento de ôônf usâo
.faz vir à superfície a. m tuição_lIovenien t!
116 ,,rs4s1a"ls r '
sso o que o quiÍomanle âÍÍancou do mais
profundo de si mesmo. A sua confissão, quando o aperrei, deixou
claro para mim pgf_.ÍIq9- ranríssimas-. télllgê§. d9 ..a_divinh3çâo, no
Ín!Illlo-_!n]e-rlo, usam um pa{râo caóriqo- ori apenas meio or.denado,
pglryUpf !n-íbg!§õ.s. lsso, em minha opiniao,'é üina iecnica divina.
lóÍia pÍimitiva que foi Íedescoberra, por exemplo, no tesre de
Rorschach.
Exislem muitas outras maneiras de fazer isso. Por exemolo, § de
grande valor encor ajar um.analisando a pinrar quadÍos abstÍaros ou
afealóÍios Ele faz primeiro algú ns Pont omo no leste de
Roischach) e pensí: "lsso parecc um elefante", e acrescenta uma
tromba. Gerahnet)te, se peÍguntâmos ao analisando como fez seus
quadros, ele pode dizer.nos exaramente como começou, com uma
pequena mancha, digamos, que paÍecia um coelho, de modo que lhe
adicionou uma cauda e depois inventou o quadro inteiÍo; e assiÍn se
desenrola uma fantasi a inconsciente. ESSa é u Í[a_ das fonreí?iàô'iü.
nhaçâo. Uma outra é como DrovocaÍ um son o duÍânte o la e
iestado de vi íia Em vez de esperar até sonhar à noite, uma pessoa
Po pÍovocaÍ um sonho em pleno dia, fantasiando em crma de uma
, rpeQuena mancha ou de um padrâo caótico. PÍovavelmente sonhamos o
"tempo lodo, mâs, poÍ causa do brilho de nossa vida consciente, não
nos apercebemos disso.
Essa idéia é corroborada pelo seguinte faro se a ten tatmos aÍ
'*ln'' os erÍo§ que as Pessoas c omelem na fala, ou no ensamenlo ode
Íemos o e rvar que o sonho que elas liveÍam na noite anleÍioÍ
leÍâo nâ noite seguinle, está Íalmente relacionado com esses erros
'oU
u se, tâlvez, qúÍemos dizer "Sr. Miller" e, póÍ PUÍA l roua, lzemos
"Sr. Johnson", peÍguntamos a nós mesmos por que íizemos esse estú.
-
pido engano sabemos que Miller é Miller. Por que, enrão, dissemos
Johnson? TÍata.se de um ato falho e notamos , geralmenre, que na
noile ânte Ílor ou na nolte seguinte son hamos com Johnson. Ele já ai
estava. Por vezes, em tais la s da fala , mencionaJnos alguém em
quem não pensávamos á 30 anos e, de súbilo, e t- o paÍticipando de

48
um sonho. Provavelmente já sonhamos com esse homem durante o
d ra, mas sem nos aPerce bermos disso, e ele só abre caminho sté a cons
ciência através de um acidente, nvm lapsus linguae.
Freud assinalou esse fato e sublinhou que os erros na fala e os
motivos oníÍicos são afins. Devemos ir ainda mais longe e dizer que
uns e outros forneccm a mesma infoÍmaÇío ace rca de algo oue está se
desenrolando no inconsciente. Por conse guinte, é bastante provável
que um pÍocesso onlrrco pÍossrSa durante o dia. Othar paÍa um padrão
caótico é como ôr a mentc para dormir por um minuto e obter infor- I
I!ê9lo§s!.rg e, gug §§ ,e§tá fantasiando ou sonhando no inconscienle
Através do coúecimento absoluto no inconsciente, adquire-se
informação acerca da situação Ínterior e exteÍior.
Ora, por que haveria esse quiromante, Spier, de obter infor-
mação aceÍca do mar passado, que é, por assim dizer, propríedade da
minha memória? O meu passado é só meu e só eu o conheço. Como
pôde ele chegar até lá? Eu notei que, emb ora ele me disse a verda
acerca do meu -!$$3 e disse multa coisa sobre o
caráter. Ele assinalou certas coisas e eu pensei:"Oh, meu velho, você é
cõmo os outros!" Então decidi checar tudo isso e minha mlo foi lida
por muitos, izeram.me uma porção de horóscopos, sempíe que
possível pessoas que eu conhecia mais ou menos, e verifiquei que
todos eram verdadeiros. Quurdo eu os lia, pude sempre dizer: "Sim,
ísso é verdade, é um autêntico díagnóstico". Mas se um terceiro os
lia, notava que eles eÍam extrenumenÍe diferentes, e se os lia com o
mais compreensão, notava ser típico c§§d pessoa veÍ ,§§o em mrm, e
seÍ t ípico daquela outra pessoa veÍ em mun alguma outra coisa l
Concluí, portanto, que a iníormação é Íiltrada ela rsonalidade do
médium ou do adivinho, ou o constÍutor de
qulÍomante'e unlciune nte-_na _área da constelação
? lqu seia andlosa à deles. Tudo é verdadeiro, mas
o
Essa é a minha experiência. Não posso construiÍ sobre ela uma
teoría, porque não possuo suficiente mateÍial comparatívo, mâs pare.
cc'me certo que assim seja, porque sabemos s€r também verdadeiro na
üda cotidiana. Só podemos responder àquelas facetas de uma outra
personalidade de que nós próprios possuímos um ceÍto montante. É

49
POÍ ISSO que eXrSIem P essoas a qlrem não Dodemos analisiu. Não temos
o número d elas, paÍa usar de novo essa expÍessão. Somenle podemos
analisar aquelas pessoas cujo númeÍo temos. Podemos contatá.las em
mâroÍ ou menoÍ gÍau, mas apenas até ceÍto ponto poderemos entender
-. o outÍo. ouanto mais conscientes estamos mais pessoâs podemos
t
,
compreender, mas pode Íemos compÍeender todas a s essoas , e quanto
m s consctentes estlyermos as lnumeÍas ossibilidades ue temos,
aQ mars PÍ ve que seram os capazes de obter o número de outras
) pessoas; caso contÍáÍio, seremos ânústas unilaterais, podendo
analisar somente um ceÍto tipo de pessoa, ou um ceÍto tipo de neuÍose
I
Lou oulÍâ doença. AÍ somos bons especialistâs e poderemos fazer teal.
mente um bom trabalho, mas em outÍo canlpo nâo poderemos.
Por exemplo, eu não posso ana.lisar pesoas histéricas. Nâo tive
um único caso de histeria em minha prática de mais de 20 anos, mas
nâo impoÍta, pois essas pessoâs nâo me pÍocuram. NÍio tenho a menoÍ
probabilidade de fracassar, porque elas paÍecem cheiÍaÍ um Íato à
distância, não ÍecorÍem a mim e se Í acaso eu as encontro social.
menle, é como se estrvese de de uma PaÍe 9-ç-Urqs4.-três-!É
emP-âlia Em muitas outras formas de loucur a, tênho empatiâ total ;
mâs, no caso das pessoas histéÍicas, fracasso redondamente e sei, por
1miúas conversas com colegas, que o mesmo se passa com eles. Uma
ilpessoa tem emDâtia somente com ceÍlos estados humanos e há outros
I l----_ --__- '
L,com os quais nâo se aceÍrâ. Ainda espero desenvolver um dia alguns
D / traços histéricos e entendêJos; é uma das minhas gandes ambiçôes,
lmas ainda não cheguei aí. Sinto isso como uma deficiência, mas não
posso fazer muita coisâ a Íespeito, exceto pÍosseguir âté que ela seja
remediada.
Pelo que me foi dado perceber, às técnicas dc adiv ãoâ li.
ca.se a mesma coisa que à min ha própria üda adivinhos sempre
sacam algo de um númeio da miúa persona.lidade, mâs nunca tive um
horóscopo ou uma leiluÍa de mão de que eu pudese dizer: "Bem, isso
me define completamente." Podemos dizer: "Sim, sim, isso é verda.
deiro, tem Íarzão, eü sou assrm mesmo" mas depois vamos a outra lei.
tuÍa difeÍente, mas que também é correla. Como pode seÍ isso? Enrâo,
nolâmos que foi apenas uma fotogafia, pois o mesmo se passa com as
fotografias. As fotos de pesoas dâo sempre a facela de um momento

50
da personalidade, o ue ex lica or que nãq §q pode olhar muito
tem para as fotos. Se temos uma foto de uma pessoa querida sobrà
a escrivaninha, temos de mudá.la de lugar ou tirá.la por algum tempo,
poís toÍna.se morta. Durante um certo período, ela fala, mas, depois.
de súbito, tem.se a sensação de que é apenas um pedaço de papel
moÍto e que deixou de ser aquela pessoa. Teríamos de pendurar 365
fotos diferentes dessa pessoa, uma pâÍa cada dia do ano, para obter
!emp re dela uma imprgssão fresca, viva. porque uma fotografia é como
um palpi te divinatórío da personalidade , e apeni§ uma laceta é
filtrada
A mesma coisa a lica-se à adivínha , não sobre uma pessoa,
mi§ a respe ito de uma situação. Numa tribo primitíva, é muito mais
provável que assim seja, porque as sociedades primitivas vivem numa
completa ou abrangente püticipation mystique. São como um só
corpo. Se um homem está passando fome, todos ficam ansiosos. As
sociedades muito primitivas e outÍos seÍes humanos que estão
correndo grande perigo sempre Íepartem seu alimento. Tudo é repar-
tido, não porque sejam mais nobres ou mais geneÍosos do que nós,
mas porgue dizem: "Hoje, eu abati o caribu, mas daqui a 15 dias
poderá ser um outÍo; então, é melhoÍ repaÍtiÍ o aliÍnento que temos."
Quando adquiri meu teíÍeno em Bollingen, os vizinhos vieram
visitar.me e disseram: "Somos um bom baírro, porque, compreenda,
numa comunidade tão pequena, t s temos de nos ajudar em algum
momento, de modo que não podemos nos dar ao luxo de brigar uns
com os outros." lsso é verdade I basta ir lá no invemo e lrcar encalhado
na neve, quando, então, os vizinhos têm de se mobilizar para livrar o
nosso carro do atoleiro. Não podemos nos permitiÍ brigas e estamos
sempÍe prontos a acudir quando um dos vizinhos está em apuros. O
grupo consiste numas g$)- casas ao todo. As pessoas se detestam
mutuamente, de um modo muito humano e normal, dentro de uma
disposição básica normal. Elas têm seus problemas secretos e suas
brigas de heranças, mas nunca permitem que isso transpereça comple.
tamente. Não podemos nos permitir isso, porque somos o que
chamamos ern e .Scft ic kso kge me inde, u ma " gg11C{ gaqe qg!:!lLo" nâ
natureza.
No alpinismo, as cinco pessoas que estão presas à mesma corda

5l
nâo podem se daÍ ao luxo de brigar. Podem detestar.se ou amaÍ.sc
tanto quanto quiseÍem, mas, paÍa além da sinrpatia ou antipatia Íecí.
procas, está uma Schickulsgemeinde vital, uma comunidade do
destino; sâo assim as comunidades pÍimitivas do homem. Elas sempre
têm dificuldades e problenras comuns, existem muito poucos
problemas individuais; poÍtanto, para o adivinho da tribo que joga os
ossos de galinha para descobrir se haverá chuva ou boa caça, isso é râo
impoÍtanle paÍa ele quanto paÍa todas âs pessoas que se aglomeram à
sua volta e observam o que ele faz. Há, pois, uma lremenda preocu.
pação coletiva e, ao mesmo tempo, uma tremenda ca a de ene a
ps íquicâ ; a_t gnsão_É-9nqÍ e. o oue- e toÍna sumarnenle pÍovave
q ue o âdivinho se atn sP irado âra obteÍ do inconscie te â infoÍma ão
fatos e não uma resposta paÍa o seu pÍoblema

Se a adivinhação falha, pode.se geÍalmente veÍ que o adivinho


apÍesentâ um problema neuÍótico pessoal, que foi pÍojetado no
material. Suponhamos que o meu quiromante tivesse acabado de leÍ
um séÍio aborrecimento com a nalnoÍada; ele poderia então
"adivinhar" que eu estâvâ com um problema amoÍoso e teria dessa vez
falhado re don damen te. Por t an to, quân4C-gso11eJmg falhg, pode-se
geÍalmente considerála uma pÍojeção do problema pârticulâÍ do âdi.
viúo. oroiecào oue obscuÍece o DÍoblema da outra oessoa. Em comu.
nidades primitivas, nâo existem muitos problemas pessoâis; um
problema pessoal é, de fato, um pÍoblema de todos numa comunidade
do destino, de modo que o adivinho, provavelmente, não pÍojerâÍá
com fÍeqüência ninharias pessoâis, mas funcionará coÍÍetâmenle. Do
inconsciente do grupo ele ÍetiÍa a Íesposla à pergunta do grupo, e esses
meios caóticos constituem a técnicâ.
Eúste uma forma superior de oráculo cm que são usâdos
númeÍos, ou um padrâo aleatóri«.r dotado de certa ordem. Por
exemplo, na China, a mais antiga fórmula oraculaÍ consistia em fazeÍ
fogo sob a càrÀpaça de uma tartaruga e ver depois por onde ela se
racharia; naluÍalmente, ela se racha ao lonBo de certas linhas e são
estas que seÍviÍão paÍa a leituÍa da sorle. O padrâo nas costâs de uma
laÍtâÍuga dificilmente pode ser considerado alearório; ele é relariva-
mcnte ordenado em quadrados, até ceÍto ponlo como uma matÍiz,

52
mas não de forma acurada, não em linhas -grs!-ss - !§!í-94jejjr(gm
ed desordem. O mesmo se aplica ao cristal: este possui uma oÍ dem
muito <h-defrnida, mas os efeitos luminosos são caóticos e mudam cons.
tantemente - basta girar um pouco a bola de cristal paÍa que se
obtenham efeitos lumrnusos inteiramente diferentes. Ouando se olha
para um diamante, vê.se a mesma coísa, já que a luz está em dife.
Íentes cores iridescentes, de modo que constitui a combinação de um
padrão aleatório mais uma certa ordem.
O homem usou primeiro esses meios nas técnicas de adivi-
úação; até-Endee posso disceÍnrr, os or áculos mais primitivos são
aaaa aleatórios - tipo RoÍschach, poí assim dizer. Depois, come-
çaram tendo um drão aleatório coordenado c uma certa ordem,
ouP roduzindo uma ceÍta ordem - por exemplo, o oráculo de ossos de
galinha, em determinadas tribos africanas, através do qual se adquire
uma inspiração ou se encontÍa uma resposÍa para a indagação, seja ela
qual for, que a pessoa tem em mente, pelo modo como os ossos caem,
ao serem jogados ao chão. Ou há uma outra técnica maís elaborada
que consiste em colocaÍ no chão três varinhas, uma vermelha, uma
pÍetâ e uma branca, e depois jogar os os§o§ - § uÍ do, assim uma
teoria. Não existia antes teoÍjglguma, mas, com a o m, aPareceu
uma: se há mais ossos na faixa entre o vermelho e o preto, isso signi
ftca azat, e assim por d iante. [ntroduziu-se, desse modo, nos padrôes
aleatórios, u11q _9sg9qie {e qatr_2,-gue_goder íamos chamar {C__cogf
denadas cartesianas, ou seja, duas faixas ou coordenadas cartesianas,
ou então o uso dé um material natural, que é um misto de padrão
aleatórío e de ordem: estava criada a teoÍia. Somente quando um
padrão ordenado se com bliiãa com um drão aleatório é ue a teoÍia
sea tca, ,zen o: Se isto se apresentaÍ assim, então signiÍica tal e tal
coisa;caso se apÍesente assado, significa tal e tal outra coisa. Antes,
simplesmente olhava.se para a água, ou para as rachaduras de um
caminho, e tlnha-se um palpite; não havia a (eoria de que determinada
greta significasse algo; a pessoa tinha apenas um palpite diante de uma
f'){
i
Íigura caótíca.
Existem outras técnicas que sào muitíssimo mais antigas do que
quaisquer técnicas científicas racionais. Elas chegaram à nossa parte
do mundo no século VÍ a.C. e à Ásia central muito antes, mas, de

53
qualqueÍ modo, na perspeoiva hisrórica da humanidade como um
todo, dirÍanros que são compaÍativamen le recentes. Ao padÍão câótico
mais oráculo ordenado, chamaria eu o verdadeiro começo da ciência,
no plano históÍico,já que desse modo se introduztu no padÍão caótico
umâ ceÍta oÍdem matemática, ou poÍ linhas, por uma matriz, ou por
um sislema de coordenadas ou números.
O número sempÍe foi usado na forma binária, porquanro a
menle pÍimitiva - e nós mesmos, quando nos encontÍiunos numa
situâção prática - não pode lidar com sutilezas. Sob as condições
árduas da vida pÍimitiva, as peÍgunlas toÍnam.se simples: Deverei
fazer esa viâgem ou não? EncontÍâÍei um uÍso ou não? Sobreviverei
ou morrerei? Minha mulher me engânâ ou nâo? Meu filho doenre
sobreúverá ou não? Estas são inteÍÍoBaçóes vilais, que nâ mente pÍimi-
tiva assumem a forma de um sim ou um Nâo, um mâis ou um menos.
Nós temos uma lóqica biposicional e temos duas posições em nossa
menle. Por exemplo, os povos pÍimitivo§, com freqüência, não se
enlÍegírm às sulilezas da interpretação de sonhos. Eles decidem tão.so-
mente se é um sonho bom ou mau e isso constilui uma tendência para
, ,,) o Sim ou o Nlio. Se têm um bom sonho, levam a vida adiante, se é um
)o"' sonho ruim, peÍmanecem na caÍna ou em suâs tendas e não se movem
por algum tempo. Esse é o tipo mais simples de problema Sim ou Não.
:Eles decidiam sempre desse modo e nâo haviam desenvolúdo teoÍias
lsobre os sonhos. Se um senadoÍ romano decidia, pela maflhã, que o
que linha tido à noite eÍa um mau sonho, e não enlendia como nós o
entenderíamos hoje, ele ficava simplesmenre na câma o dia inteiÍo e
não ia ao Senado. Existem muitas dessas históÍias.
É muito freqiiente os meus analisandos enlÍaÍem, senlarem-se e
declararem: "Eu tive um bom sonho" ou "Tive um mau sonho â noite
pâssâda". Na maioria dos casos, nâo é verdade, em absoluto, pois
quando o sonho é analisado, resulta que o que eles haviam chamâdo
de mau sonho é deveras pÍomissoÍ, e o que haviam consideÍado um
bom sonho não era tão bom assim; mas as pessoas ainda têm tudo isso
de primitivo. Se o quadro geral e o que obtiveÍânr dele em primeira
mâo pâÍece bom, então, entram no meu gabinete Íadiantes: "Eu tive
um bom sonho!" De modo que ainda somos assim e os problemas
básicos, os problemas vilâis do homem ainda esrão conosco. Nâo

54
devemos nos iludir: são questões Sim ou Não e ,ou &i ulaqga
matrú a fím de dar ordem à desordem, ou a fim de imprímir alguma
9lEStagqg_à_deedgtrr, ou, então, foram us«lõ§-ãümeros. Natural-
mente, foram usados primeiro na forma Sim ou Não, como ainda
fazemos. Jogamos uma moeda ao aÍ e obtemos caÍa ou coroa, ou apa-
nhamos um punhado de seixos e o contamos e, depois, Íetemos um
número ímpar, deixando um seíxo de fora, ou deixando um par
Íestante e, então, o par ou ímpar remaÍlescentes são o Sim ou Não,
que é o que serve de base gara o I Aing, um sistema numérico binário
que responde Sim ou Não. Esses foram os primórdios da introdução
de uma teoria e de um sistema na consciência aleatória, que o homem
ânte§ usava lnconscrentemente.
Se meditarmos sobre isso, essa etapa de passar do padrão aleatório,
do pa drão Rorschach, como fonte de infor O, paÍa o pa drão que
con m uma ordem geométrica ou num eÍlca, colnct com a ssl
dade de oÍTnu ção uma teoÍ ra ge r exemp lo, se há mais ossos
, e um oracu s avo rávele, quando há mais do outro
lado, o oráculo é favorável. Em detalhe, podemos ler aí mais do que
isso, mas essa é a separação do Sim e do Não. Ou, se usarmos seixos e
o sistema binário, haverá nalo só uma predição do que está aconte'
cendo ou informação sobre o que se Í'essa no inconsciente, mas uma
ordem foi também imposta, favorável ou desfavorável à ação. Em
certa§ sociedades prrmitivas, isso sempre é espontaneamente associado
a bom e mau, tal como falamos, ingenuamente, de bonse maus sonhos.
Os chineses tinham outÍo modo de encarar isso, não tanto pela
separâçe-o de bom e mau, no sentido moral, ou de boa sorte e má
soíte, mas examinando como isso se âjustava à sua grande ordem
mundial de Yang e Yin - os princípios masculino e feminino, o ativo
e o passivo, a luz e as tÍevas, €tc. - e assumindo a atitude mais sábia,
segundo a qual nada é absolutamente bom ou absolutamente mau.
Assim, seria mais importante, ao impor uma ordem binária a essas
ordens caóticas, não fazé.la boa ou má - Sim ou Não -, mes consi-
derá{a como tal e tal tipo de situação, à qual se ajusta este ou aquele
tipo de atitude. Yin e Yang nío são bons nem maus. Na China, tanto
um como o outro podem ser bons ou maus - esta é uma outÍa cate-
goria - mas quando a situaçâo Yin prevalece, a pessoa deve compor-

55
laÍ-se de maneiÍa E; e quando a siluação Yang predomina, ela deve
conduzir-se de um modo que se ajuste a essa situação.
Asim, a ordem biniária imposta às coisas pode ser moral, ou pode
ser favorável e desfavorável, ou pode - como na China - pertenceÍ a
essa categoÍia de existência, a esse ritmo de existência, que, em meu
modo de pensar, é uma aütude superior, poÍque nâo se trata de um
julgamento pessoal. Ver rudo e n mente é muilo rimitivo
É bom para mim, é mau para mim? - isto é primitivo e egocêntrico
Os chineses eram suficienlemente des rendidos e filosóficos
pan dizer que, mesmo se al ma co aema aÍ mrm ela oderá ser
boa como um I o. Desde o come ç o, eles tivera4 llma concepçâo
mais sábia ou mais objetiva acerca do que chamamos de bom e mau, c
uÍam-no mals como a go no conjunlo â exist ncrâ sse é o começo
da ciência - contém os elemenlos essenciais do que hoje denomina.
mos o método experim e-ntal, dado que existe uma i nterrogaçâo na
men te da--qüãí qué fàr gu ntâ e um método matemático para abordar o
caos d a exislência e, depois, chegar a uma conclusâo É exatamente
isso o que fazemos no mais moderno expeÍimenlo físico: o experimen.
tadoÍ tem uÍna perBunta em mente, lem um mélodo matemático de
abordagem, depois examinâ o resultado do experimento e julga.o a
paÍtir de um modelo malemático. Poderíamos dizer que tâis tipos de
oráculo estavam não só na origem da ciência leóÍica, mas também da
ll ciênciâ experimental; leoÍia e expeÍimenro não estavam- ailldê-sqa.
rj\Íados, mas eÍant uma coisa só.
o__.gasso mats simples foi dado quando a mente humara
come ou a endereçar ao a existência uma PeÍgunIa otada de
caos
oÍdem matemática e de ls ardou o resu ta o, PÍoPo rclonan o
assim ao ele mento Íe de acaso uma p ossibilida e O leitor pode
agora veÍ como o desenvolvimenlo chegou longe. O que outrora era
uma coisa única, foi desmembrado e colocado em dois extÍemos.
Imagine.se um experimento fÍsico moderno ou a olho ou com um
osso, ou qualquer outro que se prefira pensaÍ, e jogando o I Aing.
Tudo tem â mesma raiz; tudo foi outrora a mesma coisa, mas uma
parte foi desenvolvida muito especificamente e a outÍa peÍÍnaneceu
em sua forma arcaica. O grande problema é agoru o interessante ou
excitante fator de probabilidade.

56
Em ex rimentos fÍsicos s eventos ateatórios constituem
flagelo, algo sar errado num experimentor se Por acaso ocoÍÍe
alguma coisa inesperada, por exemplo, se hiÍ uma predição matemática
de gue o resultado deve ser tal e o resultado é comPletamente Í
diferente, o c_ientista fica desesperado. Há então duas possibilidades
ou o seu cálculo estava errado e, nesse caso, e le muda suas premissas
matemáticas, ou remenda a sua equaça:o, como é proúvel que seja
feito hoje em dia, ou, então, P rocura descobrir q ue variável aleatória
interveio - Íalvez o calor fosse excessivo ou o instrumento estivesse
àõã-dãEito. Pode haver fadiga e outras coisas igualmente lamentáveis
e, então, eles §e emg11@m desesDeradamen te na tentativa de eliminal
o evento fortuito, de deÍini-lo e depois eliminá-[o, de colocá'lo de
Iado. Naturalmente, nenhum experimento físico ou cientí fico é
recoúecido hoje em dia como váüdo quando realizado uma só vez
Um experlmento nada sign iÍica para um cientÍst a. Certa vez, utn
enge etro et roqulmlco rsse.me que um experimento é verdaderro
e
quando ele o
realiza 50 vezes, obtém sempre o mesmo resultado,
publicao numa revista e um japonês em Tóquio repete o experimento
e obtém o mesmo resultado; só então ele é consÍderado completa'
mente válido.
Assim, o inimigo é o acaso; o acaso é q ue tem de ser eliminado
lo maior número ossível de re ti s e, se o defeito estiver na
estrutuÍa do experimento, ou na temperatura, ou na fadiga do mate
rial, etc., tem.se que lazer todo o possível para eliminar isso no experi'
mento seguirrte, em condições as mais semelhantes possíveis, de modo
a obter sempre um resultado análogo. Naturalmente, o acaso é um
fator objetivo e existe, mas, em ciência, fala-se de acidente fortuito,
algo a ser lamentado.
Podemos agora ver a ligaçâo existente entre o cálculo de proba'
bilidades e a esta t ística, ois também são instrumentos usados para elí
trurgl i_gJ§g-rO Sr. Kennedy acaba de me dizer que o jogo para eli'
minar o acaso prossegue desenfreado nos cálculos e estatísticas das
companhias de seguros. O que elas têm realmente que combater é a
contingência fortuita, de modo que eliminam primeiro os suicídios,
porque estes não se encaixam em seus ceÍtificados - elimlnam o
acaso, a fim de chegar ao motorista tÍpico com a cobertura típica
5'.7
oferecida pelas seguradoras. Eüdentemente, isso não basta o acaso
ainda faz suas o das e, segundo a e8islaçâo inglesa, mesmo oficial.
mente, nos tribunais, dá.se o nome de atos de Deus às conringências
que não sâo pÍeüstas pelas companhias de seguros. Esse é o termo
oficial que figura em qualquer apólice! O acaso é um ato de Deus
Certa vez, quando estava rãi-zan do uma palestra em Genebra,
fui abordada por um fÍsico que me peÍgunrou ual era a base ar ue.
lÍpica do acaso. Fiquei surpreendida com a peÍBunta, pois nessa época
eu ainda não estava pensando nisso. Segundo a mentalidade primiriva,
não existe acaso. Aquilo que cientificamenle chamamos de acaso é um
alo de Deus, ou de qualquer deus, naruralmenre; numa religião poli.
leÍsta, tÍata-se de um deus ou de um espíÍito, ou de qualquer poder
magt co. Nâo existe o acaso acidental e destituído de si gnificaçâo;lodo
acâso e um alo a ma rvindade.Essaéadi eÍenç4, mas a PaÍÀ
veÍ como as cotsas se desinlegraram. o aÍquélipo comum, o aÍquélipo
19ue
já meniionamos duas vezes, é o aÍ uéti o do jogo Se o leitor é
lum jogador, e espeÍo que sejâ, então sabe perfeitamente que semPre
,
se está dividido enrre duas possibilidades: ou reÍ um sistema, ou
conl'iar no que eu chamaria o inconsciente e no que outro jogador
podeÍá chamaÍ de sua boa sorte, boa estrela etc.
Recordo.me que, em minha juventude, rive pâixão pelo jogo de
bridge. Nâo jogávamos a dinheiro, de modo que não inleÍessava ganhar
ou perder. No começo, eu jogava poÍque era inteÍessante, mas quando
se joga todos os dias, ou durante horas seguidas todos os domingos, o
inleÍesse acaba declinando. Contudo, nunca houve paÍâ mim perda de
interesse, porque resolvi jogaÍ com o meu inconsciente. Não lhe dava
então esse nome, poÍque na época eu nada sabia de psicologia; mas
quando as carlas eÍarn distÍibuídas, eu fechava os olhos e lenrava saber
se obteria boas ou más cartas e, depois, ficava satisfe.ila se tivesse aceÍ.
tâdo. Mais tarde, descobri que, âo me sentaÍ à mesa de bridge, num
domingo à tarde, eu já saàrla se iria ter um período de sorte ou de azar.
Eu simplesmente sabia quando me sentâva à mesa! Eu eslava, assiÍn,
conlatando o que chamamos de conhecimento absoluto do incons.
ciente, e o divertido do jogo era descobrir se poderia realmente
confirmar isso.
A maioria dos Jogos consiste numa combina ç ãodea e

58
cá[culo. Podemos usar a inteligência a té certo nto. mas existe
sempre o fatoÍ acaso h.jong, bridge, etc., todos se baseiam em ts
situaç ões mpÍe que usamos dados ou cartas, existe geralmente essa
combinação. lsso é satisfatório porque é uma imagem da própria vida,
que constitui algo até ceÍto ponto possr'vel de ser organizado com a
inteligência e a Íazão e, se formos racionais na vida, teremos mais
probabilidades de desfrutar uma vida boa do que se agiÍmos irracional.
mente; m:§, em ceÍta medida, exrste sempÍe um imponderável , um ato
de Deu§.- lm, a maroÍla o§ Jogos s o, e ceÍ
,--.-
orma, lmagens da
úda; podemos usar a nossa razão, mas teremos sempÍe que enfrentar o
acaso -
esses são os tipos prediletos e mais difundidos de jogos de
az,ar .

O xadrez é diferente, poÍque se tÍata deÍinitivamente de uma


uestâo eln te rSencra o Joga or Possur uma rn te rgencla matemá.
ticâ supeÍioÍ, tem mais probabilidades de ganhar do que de perder,
mas é muito divertido, porque também aí interfere um fator psico.
tógico. Eu sou uma perfeita idiota no xadrez, mas sou menos idiota
quando estou furiosa. Joguei xadrez por muito tempo com meu pai.
Jogávamos com rapidez, sem pensaÍ muito, não profissionalmente,
pois fazíamos duas partidas numa só tarde, de modo que podem ima.
ginar que nos comportávamos como crianças. Cada lance não chegava
a demorar um minuto. Eu peÍdia sempre o primeiro jogo, mesmo que me I

concentÍasse deliberadamente, e ganhava sempÍe o segundqr'sem


exceção, porque depois de perder a primeira partida eu me inflamava e
ficava initada e, então, tinha a libido e uma enorme concentração, o
gue me toÍnava mais brilhante do que antes.
Se estamos num bom dia, toda a libido aflui para ele e, assim,
nossos dotes matemáti cos Tún; ionam; se estamos num la Íulm e em
péssima forma, a concentÍaçã o torna-se Ainda que se
possua uma inteligência mediana, ela não funcionará;de modo que,
mesmo nesse caso, intervêm um fator aleatório e u m fator osico-
-
lócico o inconsciente trmb eme a<Iããisso é o que torna a
sttu ão tão excita Ao interrogar outras pessoas gue gostam de
jogar, apurei que, consciente ou inconscien temente, paÍa a grande
maioria das pessoas, esses latores desempenham um papel, fazem real.
mente parte da diversão do jogo, esse jogo com a silgggigjgl3ÍLg, com

59
o nosso própÍio inconscienle, com os nossos pÍópÍios fatores de bom
ou mau humor; câso contÍáÍio, o jogo seria Íeâlmente desinteressante.
Se jogarmos a dinheiro, tal fato eslará, entâo, simplesmente simboli.
?ádo: ou se joga com a nossa libido inconsciente, ou a ÍepÍesentamos
com o dinheiro, que é um símbolo de energia psíquica. Os verdadeiros
jogadores não se impoÍtam com o dinheiro, mas querem ganhar. A
maioria dos joBâdoÍes nâo jogam realmente pelo dinheiro; sc o fazem,
entâo, o dinheiro é um sÍmbolo dessa enerqia psíquica, desse poder,
com que se empenham no jogo.
Qual é a diferença entÍe um moderno expeÍimento científico
físico e um oráculo divinatório? Num experimento físico, o acaso é
eliminado, é empurrado para a fronteira, o mais longe possível, e sobra
um resíduo que não pode ser eliminado. lsso é iÍÍitante e uma pessoa
qualquer dirá: "Oh, bem, isso f oi azar" , mas o cientista diz: "Podemos
ignorar iso" - e essa é a úhimâ palawa condenatória. É uma ninharia
que pode seÍ peÍfeitâmente ignorada No qirqlg_! dotamos um
eúfle_9&I9Ie,_ggllple mentaÍ, ou se , o acaso é colocado no
centro: apanhamos uma moeda, jogamo.la ao ar e a própria pro a
lidade de que caia de coroa parc cima é a fonte de informação. Assirn,
num caso, a fonte de informação é constituÍda pelo acaso e, no outÍo,
ele é O fatoÍ de PêÍtuÍbâçâô otre temôq Í'lê êlimiqar. Eles são absoluta.
menle o que, em moderna linguagem científica, chamaríamos de
mutuamente complementares. Os ex rimentos eliminam o acâso, o
oráculo o o cenlro; 99I!qune nto baseiâ .se Íe ,'o
oráculo está baseado no ato único. O ex perimento baseia-se no c ál cu
de probabilidade- e o orácul,o utiliza o número único, individual,
como fonte de informação.
Teremos agora que apuÍaÍ como o número pode fornecer infor.
mação sobre o que esuí ocorrendo no inconsciente e será esse o tema
da próima palestra.

60
3P PALESTRA

Na palestra precedente comentei a respeito da ligação entre o


cálculo de probabilidades, os oráculos e outÍas técnicas de adivinhação
em que não se está limitado a um padrão al eatóÍio no ual ro etamos
o nosso conhec imento inconsciente, mas procuÍa.se esta lecer umã
ordem por meio de umâ matriz, por exemplo, com uma carapaça de
taÍtaÍuga ou ceÍta quantidade de linhas.
Como mencionei antes, embora o cálculo de probabilidades seja I
apenas uma abstração e não forneça informação definitiva, os cien-ll
tistas modernos estão fiÍmemente convencidos de que, por meio dele, I
é possível explorar a verdade a Íespeito da realidade exterior. Exíste,1
porém, um ceÍto número de físicos de oÍientação mais Íilosófica que
compreendeu que a visão do mund .-.--t--.
o adouirida mediante o cálculo de
- --- .

PI obabilidades é um artefato mental


Eu gostaria de citaÍ um liwo de Sír A. Eddington, The Philoso.
phy of Physial Science, que, embora um tanto antigo, ainda é válido
no principal, e que graças a ele mesmo uma pessoa leiga pode facil-
mente compreender as ínclusões e conclusões práticas dos físicos
modernos. Nesse livro, Eddington enfatiza o ponto que o tornou alvo
I "',
dos ataques do clg;ro co_muni_sta da física. Ele adere fortemente à con-l
cepção de Bohr e de Heisenberg da física quántica e, portanto, enfatíza
que 91rca. so_d_eve sel-uJn &tgt objglLu,o- t4 [a_t-q-re--ziJ com o qual o cien)'l
tista tem de contar, e que o ciÍlculo de probabilídades, pressupondo o I
acaso, é, em última ínstância, se refletirmos sobre isso, uma constru- |
ção da mente. O que está por detriÍs disso, aÍirma ele, poderíamosrl
símplesmente chaÍnar de "vida", ou "consciência", ou "mente".

6t
Suponhamos que o .I Aing ou um oÍáculo geomânlico possua
certa qualidade para.lela à probabilidade física, dado que rambém ele
constitui uma tenlaliva de exploraçã'o da pro babilidade Ps icoló ca
Embora os fatos psicológicos sejam, em part e, À tos aleatórios ou indiü.
duais "empíricos", também existem ceÍtas estÍuruÍas ou lendências
psicológicas, no sentido de uma probabildade psicológica que se
procura esclarecer por meio do oráculo. Ocupar.meri disso com maioÍes
(,1 delalhes mais adiâÍlte. A grande diferença, já assinalada poÍ mim, enúe
?i? o experimento fÍsico e o oráculo é que o experiÍnento adquiÍe pÍecisâo
pela ÍepeÍiçâo. Quanlo mais vezes um expeÍimento físico é repetido com
o mesmo resuhado, mais acurado será o resultado. Nenhum cienlista
natuÍal aceitará jamais um informe publicado numa revista para o efeito
de que tal e tal experimentos foram realizados uma vez e que os resul.
tados foram este e aquele. O cientistâ rejeitaria semelhante artigo,
dizendo que o expeÍimento pÍecisâ seÍ Íepetido o maior número de
vezes possível, p ara se obter a ceÍÍeza da exclusâo de fatores aleatórios
que possam inteÍferiÍ num determinado resulr 2 o; se um número infi-
nito dê Íepetíções der sempre o mesmo resultado, este poderá, então,
ser considerado coÍÍeto. ficando comprovada sua validade científica.
O oráculo tem um Po nlo de yista com lemen tar, na medida
9rÍlq ado ta o âcaso como sua base , e somente será acurado se
ue
houver um único lance , fazendo oÍe o ório o centro
ile reílexão. Po rtanto, poderíamos dizer que o experimento é re Pe-
tido nô tempo com o pÍopósito de se obterlí6HãIãíoacerca de
um pequeno fragnento de realidade. Nío se pode rea.lizar um expe.
rimenlo sem delimitar primeiro umâ pequena área da realidade,
dentro da qual tentar-se.á, entâo, obteÍ a informação através do
expeÍimento. O oráculo é exalarnente o oposto, üsto que, no que se
refe Íe âo lempo, é único, rea.lizado uma só vez e o seu objetivo não
é obter informaçâo aceÍca de uma fraçâo da realidade, mas, se possível,
) sobre a totalidade da situaçâ'o psicológica inteÍioÍ, exterioÍ, pÍesente
e futura. Desse modo, é inteirunente complementar âo expeÍimenro
físico.
o evenlo único, que nunca se ajusta completamente ao resul-
tado de ütTÍFãiiíãnto físico, hoje em dia é chamado de condiçâo
limítrofe, ou os resultados únicos chamam.se, na fÍsica, c 6s
62
limítrofes. Eddington diz, corretamente, que se pudéssemos descobrir
uma lei que governe essas condições limÍtrofes, então terramos desco.
berto uma outra lei da natureza. Até agora ela não foi formulada. Em
outras palawas, na física existe todo um cam o de fatos a que se dá o
nome de condições I irnítro es, eventos aleatórios objetivos, para os
não ol scoberta uma lei.
Segundo Eddington, tais condições de limítrofes sempre existem
e nelas ele incluiu a área da realidade, a que chama os atos volitivos do
bgggm. Numa perspectíva materialista, Eddington considera que a
voliça:o do homem provém de uma certa mancha em sua matéria
cerebral que, em contrastÍe com outros aspectos dâ matéíiâ, pode
produzir atos volitívos e, assim, violar as leis ordinárías do mundo
material - embora ainda não tenha sido descoberto como isso
Íunciona e por quê. Consideraríamos que ele ainda estaria projetando
a psique no cérebro, como é usual na medicina moderna, e suspeitava,
poÍtanto, de que uma pequena mácula de matéÍia ceÍebÍal pode rea.
lizar atos de volição. Esse, diz ele, é o grande mistéÍio ou a grande
questão gue o físico não pode resolver e, poÍ conseguinte, como
sempre, elimina.o do campo de estudo, aÍlrmando que, de qualquer
modo, não constituía um problema para a fÍsica.
AsÍm, como se vê, ele o transfere para uma outra faculdade.
EntÍetanto, é justamente rso que selecionarÍamos como interessante,
indagando o que está subentendido num ato de volição. AÍ nos encon.
trarnos de chofre em águas profundas, porque existem realmente
volições tanto do complexo do ego quanto do complexo ínconsciente.
Mesmo um complexo inconsciente pode realizar um ato de volição ou
decidir ou organuar alguma coisa, tal como o ego pode. De certo
modo, existem tantos pequenos egos quantos complexos autÔnomos
houver num ser humano; tal conro o sol entre os astÍos, o complexo
do ego governa; mas, numa personalidade não.analisada, eústem esses
pequenos pontos gÍavitando ao redor, sendo todos capazes de atos
volitivos.
Jung tentou definir tais atos de volição em termos gerais,
dízendo que eles pÍomanam de energia disponível. Por exemplo, a
força de vontade, segundo Jung, e energia que está à livre disposição
do complexo do ego. Assrm, na realidade, as antlgas técnicas oracu.

63
lares eram tentativas de descobrir as probabilidades ou as relativas
regularidades da siluaçâo psicológica humana. Quase todas as técnicas
oraculares deúam ser usadas como o I Aing, isto é, somenle em
siluaçôes muito sérias e não como um jogo de sâlão, como, poÍ
exemplo, quando meia dúzia de pessoas se juntam e dizem: "Oue tal
joBaÍmos o I Ching e descobrirmos qualquer coisa?" Só se deve usar o
oráculo quando há uma questão candente, ou se â pessoâ se encontÍa
num impasse e em estado de tensâo emocional, mas não quando as
coisas estâo correndo bem e não há realmente qualquer problema
parlicular que preocupe.
Sabemos oue as erandes lensões in leÍioÍes ocoÍÍem uando se
configu ra uma constelaç ão arque t ípicâ Quem tem um sonho arque
lípico êstá geralmente num estado de grande lensâo dinâmica, sendo
essa a Íazão pela qual Jung deÍine os aÍquétipos como os dinamismos
nucleares da psique. Cada arquétipo é tambénr como uma massa de
energia dinâmica e num esquizofrênico, por exemplo, tal carga pode
explodir o complexo do ego, se â tensão for excessiva. lsso mostra
empiricamente como a tensão de um arquétipo pode se tornar elevada,
sendo até capaz de destruir loda a personalidade consciente. Numa
situação tensa, é extÍeÍnamente provável que um aÍquétipo estejâ
constelado no inconsciente; esse é o momento paÍa usâÍ um oráculo,
pois só então ele é suscetivel de funcionar e dar uma Íesposla que faça
senrido. Assim, o ar uéti oe de certa maneira, um fator de robabili
da!e p.sicolóBica
Em outras palawas, se existe um aÍquétipo constelado no
I
inconscienle de um analisando ou de um pacienle, é possível prever,
t em considerável medida, suas Íeações e problemas, poÍque - se
soubermos como fazê.lo - é Bossivel le r tal Dadrão e , ao mesmo
I tempo, ÍeconsrituiÍ a sttuação e os problemas conscientes, e âssim PoÍ
diante. Eu fiz algumas vezes isso, involun tariamen te, sem quereÍ
exibir.me, pois aconteceu arniúde alguém, na primeira lrora, contar-mc
um sonho arquetípico como introdução paÍa o seu problema e eu
dizerJhe:"Bem, sendo assim, talvez você seja conscienlemenle isto e
aquilo, e na vida, em geral, você entre em choque nestas e naquelas
situaçôes e, provavelmente, tenha lal c tal filosofia em mente."
Quando me pergunlam como eu soube dc tudo iso, respondo que eu

u
+
não tinha a ceÍteza, mâ.s Íovavelmente era devldo à constelação
inconsciente. Se o inconsciente está constelado de certo o, en o,
iõiiãII-ituaçao psicológica é provavelmente assim e assim. É possível
ÍeconstituiÍ até, em certa medida - não com pletamente, mas em
liú as gerais - a írea do problema consciente a partir da constelação
inconscien te
Portanto, o arquétipo pode ser deÍ'inido como uma estrutura
que condiciona certas probabilídades psicológicas, e as técnicas oÍacu.
laÍes são, obviamente, tentativas de se chegar a essas estruturas. Em
seu ensaio sobre sincronicidade, Jung diz que os eventos sincronís.
-
tícos e ele classifica todas as técnicas divinatórias do tipo aleatóÍio
de expeÍimentos qug se relacionam com a sincronicidade - são atos de
cÍiação e, como tal, únicos. Um evento sincronístico é uma história
única e imprevÍsível, por ue é sem re um ato criativo no tem P oe or
consecuinte. não-resular
Se, por exemplo, um analisando tem um grande soúo arque-
típico, está perturbado e num estado tenso, é sumaÍnente pÍovável que
eventos sincÍonísticos aconteçam à sua volta. Suponhamos que ele
joga o / Ching e lhe sai o hexagrama 34, "O Poder dos Grandes".
Trata-se da descrição de um estado de grande tensão, na qual o orá.
culo diz que o carro se desmurtela, e o Comentário é que o caíÍo, com
suas quatro rodas, a base da con§ciência, se quebra em pedaços. lsso
significaria que todo o mundo consciente desse paciente entraria - ou
poderia entrar - em colapso. Entao, depois da hora, ele sai e tem um
sério acidente de carro. Poder.se.ia então dizer: "Ah,,o oráculo até
previu isso, falou literalmente do carro desmantelar-se - que n\ilagre!"
Mas se pensarmos nisso mais concretamente, não houve na realidade
pÍevisalo alguma. O analisando poderia ter ido facilmente paÍa sua casa
e estar apenas dissocÍado conscientemente, sem teÍ tido nenhum
acidente de carro. Nunca é possível est aÍ certo com base num orá-
culo, sobre o que rea men te aconteceÍá
eventos sincronísticos sâo , portanto, âtos indiscutivelmente
únicos de cna lão, histórias inimitáveis, e são em si mesmos imprevi
síveis. Ma s en tao suíge à péigunta r -*Por que consultar orácutosl Por
que as probabilidades, se não se pode predizeÍ?" Ora, existem probabi-
lidades psicológicas ou, como Pauli ceÍla vez x descteveu, Erwor-

65
tungskatologe, isto é, cal ál os ou listas de ex clativas , o que srgnl-
fica que a probabilidade calculável, em ísica, ÍesidiÍia entre dois
, limites. Neo se pode dizer que o expeÍimenlo seguinte lerá exâta-
esle ou aquele resuhado, mas pode ser afirmado que estará
,
' mente
r..i]'
situado dentro de uma ceÍta área de probabilidade e não fora dela.
1.1/"-
?U
,.(' l Portanto, hoje em dia, o cálculo de probabilidades é uma lista de
c9' lexpectativas, ou de resultados espoÍâdos.
Poderíamos compaÍaÍ isso a um oráculo. Suponhamos que uma
pessoa obtém um ceÍto número no I Ching, que é uma lisla de
expectâtivas de evenlos psicológicos, incluindo a sincronicidade. Se
um analisando joga o hexaBÍama "desmantelamenlo do câÍÍo", o que
significa desintegação ou fragrnentação, ou o perigo de fragmentação
da estÍutuÍa mental consciente, lsso aDqD as diz que , se há um evento
sincÍonístico ele pertencerá ualitativamente a esa área e não, por
exemplo, que o ana lsíu't o enc ontÍaÍá essa laÍde sua futura noiva. Se
alguma coisa lhe acontece na forma de um evento sincÍonístico, será
nessa área do colapso de seus movimenlos conscientes, Eʧ_e_gge
acontecerá exatamente não ode ser previslo. Assim sendo , pode-
ríamos afirmar que um oráculo nunca é acurado. lsso é o que o toÍnâ
tão iÍrilânte e o que os Íaciona istâs sempÍe usam como aÍgumenlo
contra os oráculos, dado que um oráculo sempre utiliza uma espécie
d_e_SceClg_simlqlco BeE! que pode seÍ inteÍpÍeta do, como to sos
símbolos, de muilas formas e em muitos níveis.
Os pensadores muito meticulosos I'icam iÍÍilâdos com as técnicas
oraculares, poÍ seÍem 1âo indefinidas. Naturalmente, é possível ler
qualquer coisa nos oráculos e, porque ludo é lão vago, âsp es§oa!tolâs
e suPe Ístrclosils sêm veem uma conexao e , deP ois do evento, dizem
que que ludo é tâo vago
que eÍa e aconteceÍ, mas isso
nal resultante de um
em que uma técnica
pode predizer com
exalidão. Assim como um físico não pode yedl,,et um evento único
de forma completamente acurada, um oráculo tampouco pode
predizer um evenlo psicológico preciso. Mas pode fornecer uma "lista
de expeclativas", que possivelmente ÍefletiÍá a imagem de uma certa

66
area ou cam poq ualitativo de e n , e predizer que algo irá acon-
teceí ntro ssa iuea xiste ceÍta ps obabilidade psicológica, devido
ao que Jung chama de o inconsciente coletivo.
Como a nossa estrutuÍa psicológica mais básica é formada pelos
arqqglgo1- o que significa geralmente padrões coletivos de compor-
tamento - todos somos ropensos a reag ir da mesma maneira, em
certas sítuaçÕes. Para dar um exemplo, suponhamos que uma tÍi bo
primitiva está em apuros e não pode se livrar deles pelos meios ordi.
nários, ou por sonhos, ou pelo senso comum. Eles não conseguem en.
frentaÍ a situaça:o. O que, nesse caso, é butante provável que esteja
constelado no inconsciente é o arquétipo do herói, ou do salvador,
ústo que, para superar a diÍjculdade, toÍnün-se agora necessários um
esíorço psicológico extraordinariamente heróico e a mobilização de
incomuns e sobre-humanas "capacidades da psique". Nesses
momentos, uma pessoa poderá sonhar com íeitos heróicos ou com
partes do míto de um herói, por exemplo, quando geralmente acon.
tece que a irnagem do herói é projetada em algum lugu.
Isso aconteceu quando a Alemanha projetou em Hitler a imagem
do herói.salvador. Era um período de terrível crise, tanto psicológica
quanto econômica, e sob todos os aspectos. Ocorreu após aqueles anos
terÍíveis que precederam a II Guerra Mundial, quando existia tanto
desemprego, inflação e uma completa desorientação mental e religiosa.
De certo modo, era verdade que a única saída paÍa essa dificuldade era
uma tremenda mudança de atitude, e isso mobilizou a idéia de um
líder er lco, ou eum va o inconsciente - mas ela foi proje.
tada num psicopata criminoso e resultou no descalabro total. Real-
mente, em 1923, poemas e material literário foram escritos, e os
alemales tiveram sonhos, o que mostra c omo em tais situ esd ls
e ]n-camu-llo_alquétipo dos or rol come nstelar o incons:
crcn_.1!e. TÍvesse a projeção recardo sobre uma personalidade conveni-
ente, talentosa e ética, o povo poderia ter sido conduzido de forma a
sair de apuros, mas recaiu num psícopata, com todas as conseqüências
disso. Este é apenas um exemplo para mostrar que existe uma probabi
lidade psicológica, n uetÍ
pre vr são do q ue está ?.qla--a,cgn qe-cer. Na minha opin
olunatoflo s constituem tentativas de contatar a carga dinâmica de

67
umâ con§tela çâo ar uelí ica e de fornecer um drão de lei tura daqui.
lo que é
Como sugeri na palestra ânterior, o aÍquélipo do jogo está
subenlendido, Íeal e histoÍicamente, no cálculo de probabilidades. Um
oráculo também pode seÍ equiparado ao jogo de dados. No I Aing,
contâm.se hâstes de milefólio ou lançam.se moedas püa liÍaÍ caÍa ou
coÍoa, o que é o mesmo que lançâÍ os dâdos. PaÍâ muitos oráculos, em
vez de moedas, lançam.se dados para obter certo númeÍo e depois
vai-se ver o que isso significa. Tal procedimento esrá relacionado com
um lançamenlo aleatório , de modo q ue a idéia a ica eslá suben
tendida tanto no oráculo o no moderno ex rimento. Portanlo,
leremos que abordar brevemente o problema dos jogos e àzaÍ e, eÍn
especial, do jogo de dados.
Na palestra precedente, descobrimos que a capacidade de
conlaÍ tudo, de integrar conscientemente a infinidade total de
números inteiros natuÍais era algo que a divindade possuía original.
mente, ou poder.se.ia dDer q ue todos os símbolos do Eu possuem essa
c3aggidêde. Por exemplo, lemos no Bhagavad Gitâ que o deus Krishna
dL de si mesmo: "Eu sou o joBo de dados. Sou o Eu sentâdo no
Coração dos Seres. Sou o Princípio, o Meio e o Fim de todos os Seres.
Sou Vishnu, o
Sol Radiantê enrÍe corpos iefulgentes." E no
Shatapatha.Brahmana do Yajur-Veda, o deus do fogo, Ágni, diz a
mesma coisa a seu próprio Íespeilo. O sacerdote lança os dados com
estas palavras: "Consagrado por Svaha, compere com os raios de Surya
pelo lugar mais cenlÍâl entre os irmãos! Pois esse campo de jogo é o
mesmo que o âmplo Ágni e esses dados sâo seus carvões." Âssim,
Ágni, o deus do fogo, é o campo de jogo e os carvões incandescentes
são os seus dados.
Jung comenta a respeito desses textos, que ele transcreve, em
The Philosophical lree: "Ambos os textos relacionam a luz, o sol e
o fogo, assim como o deus, com o jogo de dados. Analogamenre, o
Aüarva.Veda fala do 'brilho que esrá no caÍro, nos dados, na força do
touÍo, no vento", etc.* O brilho corresponde à idéia rimitiva de

, Collectecl l,ttorks,!ot.l3, § 341

68
nana e signífica, poÍtanto, algo que possui um valoÍ emocional ou
s€nsÍvel. Nas mentes primitivas, as intensidades emocionais são o que
mais importa e, por conseguinte, estâo identificadas com toda espécle
de fatores - com a chuva, a tempestade, o fogo, o poder do touro e a
paixão pelo jogo de dados, porque, como diz Jung: "Em intensi.
dade emocional, oe dor coincidem."
em úÍtude da rntensidade emocional, apaixonada, que se
apossa de um índivíduo no jogo, que ele se conveÍte, Dor assim dizeÍ
rlo jogo. Todojogador autêntico e decente se integÍa por completo no
jogo ; sua mente está ocupada com ele; ele simplesmente agtacda e reza
Parâ que os dados caíam de um certo modo. Aí está o grande prazer
doj ggo:, A _ Pglsoa vlve "grrqgdg jgg-a. Está mergulhada ne e, estl
envo lúda, sendo esse o motivo pelo que os pÍimitivos, por exemplo,
jogün até suas mulheres e filhos, ou suas próprias cabeças: Se sair um
seis para mim, posso coÍtar-lhe a cabeça; se o seis sair paÍa você, então,
você poderá coÍtaÍ a miúa. E faziam isso! Eles são suficíentemente
apaixonados para colocar até a própria cabeça na mesa do jogo. Isso
âcontece com freqüência entre os índios norte-ameÍicanos, ou então
eles jogam todos os seus bens - nrulheres, filhos, cavalos, tudo.
Voltam do terÍeiro do jogo somente com suas vidas e, por vezes,
chegam ao ponto de colocá-las também em jogo. Se existe seme-
úlante paixão, sabemos então que um arquétipo está opeÍando, como
é ilustrado poÍ esses índios e por grande número de outros exemplos.
Uma famosa frase do filósofo Heráclito diz que Aíon (t durée
crésfiice, o Tem o divino cr iativo, ete rno, gue é o significado de
Aion em grego) e um menlno que ioea um,aioso de tabuleiro
-Y -*. ----.---_- - um
menlno overna o cosmo emos àqíi-dã hivo a coiniiàãnãã-ãa
imagem do deus da energia, visto que, como se sabe, Heráclito pensava
que a energia do mundo consistia em fogo, e que o controle dessa
energia - esse fogo que se converte em matéria, em psique, em todos
os fatores, em Deus, em almas e em coisas reais, esse fogo único -
está nas mãos de um deus menino e jogador, um deus menino que
simplesmente joga com esa energia num jogo de tabuleiro.
Tem os aí de novo a conexão entre energia psíquica e jogo
Ouando o d eus - ts roé oaÍ uéti odoE u, o esPirito do incons-
§sgt9 - joga, ele cria o destino, porque a sua criaç o m enômeno

69
sincÍonístico. Por isso o homem tentou , com a matemática, a aÍitmé-
tic€ e os oráculos numéricos, descobrir o jogo de tabuleiro da divin.
dade. A divindade joga com a realídade e o homem tenta descobrir
esse jo8o por esses mélodos numéricos.
Richard Wilhelm descreve o funcionamenl o do I Ching de um
modo típico pela seguinte imagem. Ai rélações e os fatos do Livro dos
mutações podiam ser comparados à rede de um ciÍcuito elétrico, que
penetÍa em todas as coisas. Tem a possibíidade de ser acendido, mas
só é âcendido se â pessoa que faz uma pergunta estabelecer contato
com uma situação definida. Portanto, nâo.se deve jogar o I Ching, sem
peÍ8untaÍ pr.imeiro: "Que pergunta tenho de fato em mente? O que
quero realmente perguntar?" Desse modo, a pessoa estabelece contato
com o seu próprio inconsciente e pedeJhe que sugira qual é a dificul.
dade subentendida na pergunta: "Qual seria a situaçâo se aceilássemos
esse novo emprego?", ou seja o que for que se queira indagar. Quando
o consulente estabelece conrato com a situâção específica que tem em
menle, â rede e a corrente elétÍicâ são êxcítadas e a situação se ilumina
POÍ um momenlo.
lsso, eüdentemetrte, é apenas um símile que Wilhelm usa paÍa
i.lustrar o que acontece quando se consulta o I Ching, mas é típico que
ele pense nisso como se houvesse uma enoÍme rede que abÍânge todâs
as possibilidades. Formular uma pergunla é o mesmo que acionar um
interruptor elélÍico, acendendo êerta paite' da rede. Isto, natural-
mente, peÍlence à estrutura geral da visâo de múndo chinesa.

/I
Figva 4.
\
Suon-chu -
- cálcular, adivinhar.
Lua

Figura 5.
Sol
Estrelas

C/rilr - exibir,
loÍnar manifesto,
proclarl)ar.
Figtra 6. Chih
(escÍitâ mais recente)

70
Na China, a palawa para aÍitméticâ, para cílculo, tem doís
4). Nos textos antigos, calcular e adivinhar estão tão
radícaís (Íigura
próximos que não se pode saber qual dos dois termos se queÍ signi.
Íicar. Lêem-se, por exemplo, textos onde se diz:"O Mestre Fulano era
um grande mestre em Suan-chu. Ele era capaz de predizer acurada.
mente, indicando a hora exata da morte de seus amígos." Ora,
podemos dizer: "O Mestre Fulano era um grande adivinho", ou "Ele
era um grande matemátÍco", porque um matemático era, na época,
um astrônomo, um astÍólogo. Todo o conhecimento matemático na
China era usado somente para Íins de adivínhação, a tal ponto que a
palawa Suan-chu se empregava para ambas as coisas. O outro radical
da palavra pua cálculo é Chih; na figura 5 está escrita à maneiÍa antiga
e na Íigura 6 em escrita mú recente. üih, no signiÍicado original,
mostrâ os céus - so[, lua e estrelas, essas três linhas -, sendo a idéia a
de que se tÍatâ dâ inÍluência celestial gue rege as coisas teÍrenas.
Os antigos chineses acreditavam que o céu, os astros e as conste-
lações de estrelas influenciavam as situações na teÍÍa. Isso era resu.
mido no rúical Chih, a influência divina pela qual a vontade do céu,
ou Tao, na ÍilosoÍ'ia chinesa, governeva as coisas teÍÍenas. Esse radical
Chih é hoje traduzido geralmente por "exibir, manifestar, tornar
conhecido ou proclamar" - toÍnar manifesta, por assim dizer, a
vontade oculta da dívindade, do Tao. E era também o radical de
cálculo; para a mente chinesa original, I aritméticâ nada mais era gue
um meio de adivinhar ou de conjeturar a vontade divina, na tentativa
de descobri-la através dos números, e isso continuou na China até bem
recentemente.
A descÍição feita por Richard Wilhelrn do I Ching, como uma
rede de ciÍcuito elétÍico onde acendemos certo problema (Íigura 7)
não é foÍtuita. Wilhelm estava tão impregnado do modo de pensar
chinês que, mesmo quando usou um símile espontâneo, teve s€mpre
uma base chinesa. Na primeira palestra, mostrei que os chineses
usavam claramente núme[os inteiros naturais na aÍitmética, mas que
tínham combinaçÕes numéricas tais como ,o Chu ov Ho-tu; em outÍas
palavras, desde o começo, eles tinham o que na matemática ocidental
moderna se chama uma matriz (Íigura 2, p. l5). Como o leítor recor.
dará, expliquei na lP Palestra o padrão retangular, no qual filas e

'll
FiBura ?. Pontos excitados (arquétipos) no caÍnpo.
O I Aing como urna rede de chcuito eléuico

colunas sempÍe totalizam um número qualqueÍ dado. lsso seÍia uma


matÍiz quadÍada.
Calcular com um gÍupo inteiro de números dispostos num cerlo
campo só entrou em uso, na matemática ocidental, com a descoberta,
pelo matemático fÍancês Evariste Galois, do chamado campo de
Galois, a idéia pela qual se altera ou peÍmuta um grupo de, usual-
mente, quatro números. Hoje, esses campos de Galois são usados em
compuladoÍes e em muilas outÍas foÍÍnas de matemática. A idéia de
matÍDes ou de tais campos numéricos, como poderíamos chamar-lhes,
tem invadido cada vez mais a matemática moderna. Os chineses
estavam familiarizados com elas, mas nunca as desenvolveram, se bem
que desde o começo usassem, em algumas formas básicas, esas
matrizes em seus cálculos. Isso corresponderia à idéia aÍquetípica de
campo. Poderíamos chamar-lhe um aÍranjo numérico do campo, e o
conceito de campo, hoje em dia, invade praticamente todos os Íamos
da ciência.
Na geometria moderna, por exemplo, o espaço se define como
uma multiformidade em que é possível determinar relaçÕes adja-
centes. Essa é a definição matemática moderna de campo, e l-ancelot
L. Whyte dá uma definição geral da idéia de campo nas ciências natu.
rais, ao dizer que se trara de uma rede de relações em toda e qualquer
situaçâo; ou seja, em loda e qualquer situação existe uma rede atuante
de relações. Por exemplo, no nÍvel de partículas elementares, o campo
consiste nâ tendência de assumir ceÍtâs posições ordenadas, não se
moúmentaÍ de forma aleatória, mas dispor.se em ceÍta ordem. Esse

72
campo, como Whyte sublinha, é nâo ú um quadro de referência
conceitual, mas um fator ativo: um campo eletrodinâmíco arranja as
partículas e cria ativamente uma ordem. NatuÍalmente, em teÍmos
matemáticos, pode ser mais bem descÍito como uma matÍiz.
Quero agora apíesentaÍ uma nova idéia, que Jung não usou, mas
que cu penso estaÍ obviamente subentendida, isto é, que introduzimos
a idéia ou o conceito de campo para explorar o que Jung chama o
inconsciente coletivo, um campo em que o aÍquétipo seria o único
ponto ativâdo. Wheeler, por exemplo, define a matéría como um
campo eletrodinâmíco em que as paÍtículas são os pontos excitados.
Proponho-me agora a usaÍ a hipótese de que o inconsciente coletivo é
um campo de energia psíquica, cujos pontos excítados são os aÍqué.
tipos, e assim como podemos definir relações adjac€ntes num campo
frsico, também podemos definir relações adjacentes no campo do
inconscicnte coletivo.
DaÍei um exemplo. Vejamos o üquétipo da árvore do
mundo - não, da Grande Mãe, os dois estão freqüentemente ligados.
Por exemplo, no túmulo do reiegípcio Sethos l, existe uma árvore do
mundo com um seio em seu tÍonco, onde se vê o rei mamando. A
árvore representa a mat cósmica que alimenta o rei. Ou, por exemplo,
eistem muitas sagas em que as almas de crianças poí nasceÍ üvem sob
as folhas da árvore do mundo, de onde elas descem para niscer na
terra; assim, temos uma vez mais a árvore como uma espécie de ventre
materno, em que a terra fecunda as cÍianças gue iÍão nascer. Também
sabemos que a árvore está relacionada com o sol. Por exemplo,
existem muitos mitos em que o sol nasce todas as manhís de uma
árvoÍe ou em que ele é descÍito como uma maçã dourada na árvore da
vida. O sol é, por assim dizer, o fruto - ou nasce da árvore do mundo
ou é o fruto dela. A árvore também está Íelacionada com o poço. Na
maioria das mitologias, existe um poço sob a árvore do mundo, uma
nascente donde jorra a vida.
A Crande Mãe também está Íelacionada com o poço. Com muita
freqüéncia, o poço é uma espécie de ventre mateÍno da Grande Mãe e
possui qualidades femininas. A Crande Mãe está igualmente relacio.
nada com a moíte. Por exemplo, no fundo dos caixões egípcios, está
pintada liis e, no tampo, Nut, de modo que a pessoa moÍta jaz Íeal.

'13
mente nos braços da Grande Mãe. Também na inumaçâo, o homem é
enterrado em posição embrionária, o que pâÍece relacionar.se com a
idéía de que o homem ÍetoÍna, como umâ cÍiança, ao ventÍe da mãe
teÍra, paÍa daí renascer.
Assim, a Grande Mãe é também a Mãe da Morte. Na mitoloBia
Íomanâ, a moÍte eÍa personificada como uma mulher nega. rllors, em
latim, é feminino; havia portanto uma moÍte feminina, uma espécie de
figura materna tenebÍosa que ÍetiÍava seus filhos da terra. A áÍvoÍe
tâmbém se relacionava com a moÍle, poÍque em muilos pâÍses
exisliam sepultamentos em árvores. Muitas tribos esquimós e nórdicas,
como os Tungus ou Tchuques, penduram os caixôes dos mortos em
árvores e assim os devolvem à mâe. Nesse caso, a árvore, não a teÍÍa, é
â mâe para onde o caixão vai. Também o próprio faro de a maioÍia dos
caixóes ser feita de um grande tronco de árvore toÍnou-se simbólico,
pois a árvore também era â máe que envolve a pessoa morta e lhe
propicia o Íenâscinenlo.
A morte está relacionâda também com o poço. EÍslem muitas
sagâs em que alguém salta para dentro de um poço e, assim, para o
mundo dos mortos; é â entÍada para o inferno. Por vezes, o manancial
de um poço jorrâ da terÍa dos morlos.
O tronco de uma árvore simboliza às vezes o falo, de modo que
a áÍvore não só é a Grande Mãe, mas também o seu oposto, o pai. Por
exemplo, no nâscimenlo de cerlas tÍibos astecas, o primeiÍo ano é um
tronco de árvore quebrado e dizem que dele bÍotaÍam todos. Aí o
tronco de árvore representa a figura do pai, o falo; talvez o leitor já
leúa visto pintuÍas medievais que ilustram o sonho de Abraâo, nas
quais ele jaz em seu Ieito e do pênis ereto cÍesce uma árvoÍe, sendo
todos os Íamos da áÍvoÍe os difeÍentes ancestÍais de CÍisto. AbÍââo
sonhou que dele bÍotâÍiam todas essas Berações e, finâlmente, o
Salvador. Também neste caso a árvore é um falo e um emblema de
pâternidade. O falo tâmbém está Íelacionado com o sol, como
sabemos. A grande Mâe, com freqüência, associa.se também a
símbolos fálicos. Por exemplo, as bruxas rêm uma vassouÍa ou um
enoÍme naÍiz, com que Íaspam o forno etc.
Se conhecemos basunte mirologia, podemos formar uma leia
completamente coeÍente de todos os grandes âÍquélipos. Existe

't4
Á,rvore do Mundo
Grande Ma-e

Sol

Pai (falo)

Poço
Morte
Figura 8. Um campo de erquétipos airns

sempÍe uma lenda ou uma saga que [iga dois arguétipos numa nova
forma, e é uma tragédia que âs pessoas não se apercebam disso. Os
autores que escrevem sobre mitologia escolhem sempÍe um tema
predileto, dígamos, o sol e, depois, respígam.no de todos os mitos e
dizem que tudo é solar. Depois aparece outro camaÍada que diz que
tudo é lunaÍ, enquanto que Mannhardt afirma que tudo é o deus da
vegetação que foi pendurado na árvore. Para Erich Neumann, tudo era
a mãe urobórica e assim poÍ diante. Os chineses diíism que, se
puxarÍnos um pé de gÍama, obteÍemos sempre o prado inteiÍo, e foi a
isso que Jung chamou a contaminação das imagens aÍquetípicas.
Todos os aÍquétipos se contaminam mutuamente. Portanto,
aplicar a idéia do campo ao inconsciente coletivo é, penso eu, perfei.
tamente justíficável e então podemos dizer, como afirmei antes, que
o inconsciente é um campo em que os pontos excitados s5o os aÍqué.
tipos, nos guais é possível definü as Íelações de vizinhança (figura 8).
Como os matemáticos dizem a respeito do espaço, podem ser estabe.
lecidas relações de vizinhança com todos os outÍos pontos do campo.
Eu escolhi esse arquéripo da Grande Mãe de forma tnteiramente alea-
tória, mas vê-se que poderia ter tomado, com a mesma facilidade, o
arquétipo do sol e criado um campo em torno dele ou de qualquer
outro arquétipo, reordenando tudo;isso é completamente arbitrátio.
A grande questão é se o campo do inconsciente coletivo será

75
e§se padÍâo âleâlóÍio e aÍbirÍáÍio de aÍquétipos, um câÍnpo em que os
pontos excirados sáo âÍquéripos, ou se haveÍá al8uma oÍdem. Jungjá
subliúou que entÍê os difeÍentes âÍquétipos existe um que enBlobâ e
Íegula todos os outÍos, ê esse é o âÍquétipo do Si-mesmo (Selfl. Assim,
nâo se deve observar realmente o campo desse modo; deve-se constÍuiÍ
- embora eu ainda não tenhe sido capaz de fazê-lo adequadamente -
um campo matemalicamente ordenado e colocar sempÍe o si-mesmo
no centro. Ese é o arquétipo mais poderoso, aquele que oÍganiza e
regula as relações de todos os outros. Digamos que é um centro orde-
nadoÍ ativo, que Íege as relações de todos os outÍos arquétipos e
fornece ao campo do inconsciente coletivo uma ordem matemática
bem definida. Jung o constrói de um outro ângulo muito diferente em
seu livro Aion, onde nos moslÍa que o melhor modelo matemálico
possível do arquétipo do Si.mesmo são quatro pirâmides duplas num
anel. I
Se tomarmos quatro dessas formas, fizermos uma cadeia com
elas e as colocarmos num anel, obteremos o modelo do Si-mesmo que
Jung tentou delinear a parrir de ceÍto mateÍial mitológico. O interes-
sante é que, se estendeÍmos numa linha o ritmo do Ho-ru (ftgura 3,
p. 15) e contâÍmos l, 2, 3, 4, 5, até o centro, ó, ?, 8, 9, l0 até o
centÍo e âssim poÍ diante, voltaremos sempÍe com a linha ao Ínesmo
centro. Agora, se estendermos a linha do cenlÍo paÍa fora, até 0,5,
10, enlâo, obteremos a pirâmide dupla:0, I,2,3,4,5, - 5,6,7,8,9,
l0 (figura 9). Basta apenas estender o Íitmo Íío-tu numa linha e
teremos o modelo matemático que Jung construiu em Aion. O Ho-tu
chinês espelha realmente o mesmo Íitmo descobeÍto por Jung, numa
ligação muito diferente, como sendo o Íirmo pÍópÍio do arquétipo do
Si.mesmo.
lso nada tem de surpreendenle. Se atentarmos paÍa a âÍitmética
e a mâtemálicâ da maioria das técnicas de adivinhaçâo, veÍemos que
todas elas contêm esse ritmo em alguma variaçâo. Poderíamos
chamarJhe o Íitmo numéÍico do Si.mesmo, que constitui a base da
matemática de todas as técnicas divinatóÍias. A geomancia. por

. Collcctcd )úorks,Yol.9,ll, §§ 390ss

76
exemplo, tem o mesmo ritmo numérico do I Ching, só que em ordem
inversa. Em geomancia, os pÍocessos dinâmicos são ÍepÍes€ntados por
guatro e o resultado por uma tríade; na China, os pÍocessos dinámicos
são representados por gÍupos de trés e o resultado por um quaternião.
Trata.se dos mesmos Íitmos numéricos, mas invertidos, o que prova-
velmente tem a veí com diferentes mentalidades. As trÍades âpontam
sempre para o dinamismo e, poÍtanto, para â ação numa situação,
enquanto que os quaterniÕes indicam ou descrevem sempÍe a situação
total.
Os chineses não estão inteÍessados no que devem fazer; seu
inteÍesse diÍige-se mais para a situaçar-o como um todo, de modo que
poss&n então agir com uma peÍcepção consciente desa situação. O
homem ocidental diz que agirá, de qualquer modo, mas qual é a sua
situação? Ele não duvída que agüá, porque seu temperamento é extro-
veÍtido. Logo, seu inteÍesse está naquilo para onde a situação condu-
zirá ou onde se ajustará. Os chineses são o inverso; vivem na idéia da
totalidade e a ação é o que acontece. Mas uns e outÍos possuem os
mesmos Íitmos numéÍicos, que podem sempre seÍ relacionados com o
rítmo numérico do Hotu que, ne constÍução de Jung é o ritmo do
Si-mesmo.
Asim, podemos prosseguir com a nossa definição e dizer que o
inconsciente coletivo é um campo de energia psr'quica, cujos pontos
excitados são os aÍquétipos; esse campo tem um aspecto ordenado,
dominado pelos Íitmos numéricos do Si.mesmo, rítmos que, como se
verá, sâo tríades e quaterniões. Com os oráculos numéricos e as
técnicas de adivinhação, procuÍa-se deÍinir o pÍocesso do arquétipo do
Si-mesmo. No anel das quatro piíâmides duplas, Jung sublinha que o
Simesmo está num processo eterno de constante rejuvenescimento.
Ele compara-o ao ciclo de carbono.nitrogênio do sol, quando ceÍtas
paítlculas são expelidas e outÍas atraídas, dando Íinalmente um átomo
rejuvenescido da mesma forma. É como se o átomo desprendese
partrculas e straísse outÍas, restaurando assim a sua própria forma, em
constan te auto.renosação.
Até onde nos é poss ível observar o arquétipo do Si.mesmo
(§eI/), podemos dizer a mesma coisa, pois tampouco ele é estático,
mas está em pÍocesso constante de auto.renovação, num Çe[to rítmo.

77
0 , 0 , r0

t0

Figura 9

Visto que essâ é a oÍdem ou campo dominante do inconsciente cole-


tivo, seÍia lícito aí'irmâr que as técnicâs de adivinhação constituem
tentativas, poÍ um lançamento âleâtóÍio de números, de descobrir
qual é o ritmo do Si-mesmo num determinado momento. Jung, por
vezes, descreve o que fazemos ao consultar o oráculo / Aing, dizendo
que é como olhar para o relógio da situação do mundo, a fim de
apuÍaÍmos em que momento estâmos, enquanto que o oráculo daria a
siluaçâo interioÍ e exterior do mundo, pela qual governamos íts nossas
ações.
Com isto eu explicaÍia ainda - porquanto, alé agoÍa, apenas,
supus - poÍ que Íazão os invenloÍes das técnicas de adivinhação
usaÍanr todos os números inleiÍos natuÍais, na tentativa de descobrir as
pulsaçÕes, os ritmos do Si-mesmo. Portanlo, temos de apÍofundâÍ
mais o problema da energia, ou perguntaÍ como os números se rela-
cionaÍn com a energia, uma vez que os números sempre sâo usados
para definir â situâçâo da energia no inconsc.iente colelivo. Por que
foram eles usados e não algum outro meio? Por que os númeÍos
inteiros nalurais?

18
A fim de apurarmos tal situação, temos de ÍetoÍnar primciro à
idéia de energia em geral. Como Jung assinala no final de On the
Nauue of the hyche, o conceito de energia deriva originalmente do
conceito primitivo de energeio ou mano, que significa simplesmente a
extrema impressividade de alguma coisa. I Sempre que uma coisa é
enormemente ou intensamente impressionmte e, portanto, afeta.nos
na esfera psicológica, ou seja, provoca um impacto psicológico, os
pÍimitivos diziam que eÍa nana oü mungu.
Por conseguinte, o conceito original de energia en mais a idéia
de intensidade psicológica. DaÍ derivou lentamente o conceito físico
de energia. A palawa "cnergia", tal como foi usada por Aristóteles,
ou, poÍ exemplo, pelo Íilósofo Heráclíto, ainda está repleta de
o fogo do mundo
associações mitológicas. Para Heráclito, era ainda
pulsando de acordo com ceÍtos ritmos, um Íator psicofrsico. Mais
tarde, o modeíno criador científico do conceito de energia, Robert
Mayer, apoiou.se nesse antigo conceito de munga oú ,ru a, Ínas
refinou-o numa forma que pudesse ser usada em ciência; e, hoje em
dia, toÍnou.se um conceito completamente abstrato na física, conceito
que só se Íeveste de valor quando pode ser medido quantitativamente.
O físico Eddington, por exemplo, diz que atualmente, na física,
a energia substituiu o conceito de substância; é o que pode ser medido
quantitatívaÍnente e descrito pelo cálculo de probabilidades ou, pelo
menos, delurido quan titativamente através do cálculo de probabili-
dades. Todos os outros aspectos do conccito psícofísico original foram
elimrnados. Esse outro aspecto foi aproveitado por Jung, ao criaÍ a
idéia de energia psÍquica. Podemos considerar os pÍocessos psicoló-
gicos como sendo processos de energia que obedecem, inclusive, a
ceítas leis. Por exemplo, concebemos um indivíduo como um sístema
relativamente fechado, pelo que existe conservação de energia.
Portanto, se alguém está carente de energia na consciência, pres.
supomos que essa energia esteja em alguma parte do inconsciente, e
úce-versa. Contamos com uma ÇeÍta conservaçío de energia, visto que
o montante de energia psíquica à disposição de um indivíduo é mais

. Collected lrroÍ,ts, Vol. 8, § 441

79
ou menos o mesmo e, poÍtanto, se desapaÍece numa foÍÍnâ, Íesparece
em outÍâ, idéia que pÍovou seÍ extraordinariamen te fecunda.
Entretanto, Jung sublinha que â eneÍgia psíquica nâo pode ser
medida quantitâtivamente; ainda só podemos mediJa com as nossas
impÍessões sensíveis. Suponhamos que um analisando entre no consul-
tóÍio ê contê uma história numa voz completamente calma, tendo
suficiente autodomínio para controlar suas emoçôes. Os orientais
podem contar as coisas mais terríveis com um soÍÍiso inteiÍâmente
impassÍvel e uma voz inalterada, mas, ainda âssim, se formos sensíveis,
sentiÍemos um impaclo lremendo, como se alguma coisa nos trvesse
alingido em cheio.
As pessoas têm, poÍ vezes, umâ projeção leÍÍivelmente negâliva,
umâ aveÍsão, decidem que rém de falar com o âÍalista a esse Íespeito ê
aprenderam que isso deve seÍ feito com decência. Entâ'o, começam por
dizer: "Dra. von Franz, hoje tenho que lhe falar de uma resistência
que sinto. Espero que niio fique magoada. Sei que se trala rea.lmente
de uma projeção, mas acho que queÍo lhe falar sobre isso e nilo licaÍ
sufocando a coisa." Pode ser algo sumamente tocante, Íazoátel e
psicológico. Dirão o que lêm contra nós e, poÍ vezes, o impacto não é
forte, enquanlo em outÍâs sinro um choque físico. Se o analisando
grita e me insulta, é natural que eu me sinta chocada, mas isso a gente
senle mesmo quando a eneÍgiâ é completamente contida. A genle
sente que existe uma energia de alguma espécie. Só posso usaÍ um
símile e dizer que é como se fôssemos atingidos por alguma coisa. O
leiloÍ já viu alguma vez alguém olhando.o com aversâo? Podemos, por
exemplo, estar olhando inocentemente paÍa um gÍupo de pessoas e dar
com alguém de olhos fixos em nós, e nos sentimos como se livéssemos
sido âtinBidos física e negativamente. A mesma coísa, é claro, também
pode ocorrer de forma positivâ, mas nos apercebemos mais de tal fato,
quando é negâtivo. No aspecto positivo, rÍata-se mais de uma atÍâçâo.
Ao rcalaat conferências, noto às vezes que, de modo incons.
ciente, começo falando para um Íosto nà assistência; minha energia
flui seguidamente paÍa essa pessoa, estabelecendo.se uma espécie de
coÍÍente. Não é que se tenha necessariamente uma simpatia especial
poÍ essa pessoa, mas essas âtÍações existem. É evidente que tendemos
a nos voltar paÍa uma pessoa que esteja vivamente ínteresada;
80
sentimos como se fôssemos especialmente ouvidos e é natural que nos
voltemos nessa direção. Até onde me é possível perceber, trata-se mais
da intensidade do ouvinte do que de nossa própria simpatia. lsto é
apenas paÍa ilustrar a nossa peÍcepção consciente e sensível da intensi'
dade psÍquica. Nós a sentimos, mas não temos um aparelho fÍúco com
quc demonstráJa.
Muitas pessoas replícam a isso com a objeção de que, no experi'
mento de associação, possuímos o galvanômetro, mediante o qual
podemos ver e medir de imediato a intensidade psíquica, mas isso não
é estÍitamente verdadeiro se refletirmos a esse Íespeito, pois, num
experimento de associação feito com o galvanômetro, não medimos a
intensidade psíquica, mas âpenâs a intensidade da reação Íisiológica.
Estamos ainda dentro do domínio frtico, já gue medimos um fator
físico por meios fÍsicos - ou seja, a reação fisiológica causada pela
Íntensidade psíquica. Podemos, poÍtanto, avaliar de forma inteira'
mente legítima a intensidade psÍquica a paítir da reação fisiológica,
mas não estamos realmente medindo um fator psicológico. Em outras
palawas, até agora não foí ainda possível medir a intensidade psíquica,
deüdo, penso eu, ao nosso uso dos números.
Ao procedermos a uma medição, usamos númeÍos de alguma
espécie e por eles definimos a intensidade Íísica. O número mede uma
quantidade, ou o número é uma quantidade; por exemplo, o númeÍo
cinco indica que há aqui cinco maçãs. Para nós, trata.se de um íato
óbvio e absolutamente estabelecido. Se remontarmos à origem do uso
do número, veremos que isso é um desenvolvimento completamente
unilateral. Óbvia e naturalrnente, o número indica uma quantidade -
mas, em sua forma original, também indicou a qualidade ou o padÍão
de uma estrutura, e não uma quântidade;esse aspecto perdeu-se e íoi
lentamente deixado para trás' no desenvolvimento da teoria do
númeÍo, no ocidente, até que na matemática moderna o número
toÍnou.se ap€nas uma quantidade. Portanto, natuÍalmente, se usamos
u'm número quantitatavo para medir quantidades físicas, não podemos
usá.lo para medir a energia psíquica, porque, em sua essência, a
energia psíquica se expíessa em qualidade. Trata.se de um fatoÍ qualí.
tativo, sendo esse o motivo pelo qual Jung afirma que só podemos
medír a intensidade psicológica pela função do sentimento.

8t
A função do sentimento, em conlraste com a função do pensa.
mento, infoÍma-nos sobre a qualidade das coisas, diz.nos se uma coisa
é agradável ou desagradável, peÍigosa ou inofensiva, ameaçadora ou
não. Nós expÍessamos as qualidades poÍ meio dos adjetivos. As
pessoas que usam muitos adjetivos dão colorido ao que dizem com o
seu sentimenlo, ao pâsso que as pessoâs mats identificadâs com o
pensâmento usam muito poucos adjetivos e numeÍosos substântivos
em sua fala. As pessoas desse último tipo estão unicamente interes.
sadas na definição do que é o quê, e ignoram a qualidade. Os artisras
usam sempÍe muitos âdjetivos, palavÍas que expressam qua.lidades. Se,
por exemplo, como descrevi antes, uma pessoa sente que eslá sendo
olhada com intensa aveÍsão, ela percebe, com sêu pÍópÍio sêntimento,
nâo só que algo forte é constelado, mas até se é hostil ou benevolente.
Não existem meios racionais para explicar isso. Quando acusada de ser
completamente louca e inventar coisas, â pessoa nâo pode fornecer
uma explicação racional, poÍquanto rrata.se de uma experiência da
função do sentimento.
Naturalmente, com o sentimento, assim como com todas as
outras funções, uma pessoa pode iludir.se e cometeÍ enganos em tais
situações. Podemos supor hostilidade quando não exisle nenhuma, ou
supoÍ eÍÍoneamente que uma coisa é tle enoÍme importância, quando
na realidade não é; a importância poderá estar em qualquer ourra
parte. Assim, nâo se pode confiar com absoluta ceÍteza nafunçâo do
sentimento; como todas as funçÕes, lÍâtâ.se de um órgão da percepçâo
consciente, que pode, às vezes, nos engânaÍ, mas é â únicâ maneiÍâ
pela qual é possível nos oÍienlaÍmos no mundo da qualidade.
Vejamos agoÍa o que aconleceu na outÍa extÍemidade do globo,
na CNna. Aí, o número também se desenvolveu unilateralmente, mas
seÍve para descrever a qualidade e não a quantidade. Naturalmenle,
um caÍpinteiÍo ou um pedreiro chinês também medfiá a suâ paÍede,
mas os chineses acham que ese é o aspeclo mais baixo do número; é o
que os aÍtesãos usâÍn, mas esse é o aspecto completâmente tÍivial e
desinteressante do número. O que é inteÍessante é que o número
espelha a qualidade de uma situação, ou um conjunto, como Granel o
define.
Também devemos ÍetoÍnü agora à perspectiva sincÍonística dos

82
chineses. Na miúa grimeira palestra, disse que os chineses Ír:o
pergrrntam o que foi que fez alguma coisa acontecer;eles não lêm ur---r a
idéia linear de tempo -- o leitor certamente recorda o meu esquer---= a
lÍnear. Nós dizemos, por exemplo, que o celeiro incendiou'se Porqr------r e
as crianças foram brincar nele; as crianças foram brincar no celei --o
com fósforos poÍque a mãe, de mau humor porgue o pai a agredit 5a
na cabeça, as enxotou de casa; logo, a Íazão pela qual o celeiro se
incendiou foi o fato de o pai teÍ batido na cabeça da mãe! Esse é o
efeitoA'B,c,D'ométododeumainvestigaçlopolicial'Éomodo
como encaramos ils coisas; procuÍamos sempre descobrir por q---------------- e
alguma coisa aconteceu, peÍcoÍremos o caminho inverso em busca da
causa. Terminamos com o efeito e voltamos atrás para Íeconstítui-'- â
seqüênciaou1inhadeeventos.Issoéacausalidade,que,atéfins#o
século XIX, íoi considerada uma lei, apesar de sabermos, agora, rr-re
ela só existe como probabilidade. Os chineses perguntam: "O qu é
provável que aconteça em conjunto?" Então exploram tais aglor-----a e -

rados de eventos internos e exteÍnos. A Íigura I (p. 9) ilustra e


atitude: eventos distintos agrupados em toÍno de ceÍto momento
temPo. --'sa -1o
Também possuímos ceÍta percepção consciente disso.
alemão temos um ditado: Ein Unglück lommt nie allein - a desgr:- ça
nunca vem sozinha; há sempre uma segunda e uma teÍceiÍa. H- a
tendêncía paÍa uma Íeação em cadeia. Ou dizemos: Alle guten Dit-z1ge
sind drei - todas as coisas boas acontecem em tÍíncas. Há tamb éí(t
muitassuperstições:sealguémsofreudoisacidentes,entãoaspesS_as
dizem: "Que venha logo o terceiÍo, para liquídar o assunto", por -Ín ale
acham que haverá um terceiío antes da seqüêncía PaÍar, ou que " r---------. áo
há dois sem tÍês".
Assim,enquantotemosaPenasumaespéciedepercepfião
popular supersticiosa do fato de existir uma tend€ncía, relativ
certos eventos, de se aglomerar, os chineses concentram toda a sua^
h'
atenção científica justamente nisso. Se acaso lermos as crônicas
- tó-
ricas chinesas, perceberemos que elas simplesmente dizem que nor:.no
do Dragão tal e tal, a imperatriz fugiu com s€u amante, os táÍt Íos
invadiram o paÍs, as colheitas fracassaram e na cidade de Xa r8al
houve um surio de peste. Depois, no ano seguinte, o Ano do Tigr- tal

83
e tal, â imperatriz yoltou arrependida e nesse mesmo ano um dÍâgâo
saiu do lago Tungüng e teve de ser banido ou exorcizado e que,
depois, ocorreram alguns outÍos evenlos políticos. Esa era a maneira
como eles escÍeviam a História que, paÍâ eles, não eÍa apenas o que
chamaríamos uma coleçâo fortuita de fatos.
Naturalmente, os historiadores ocidentais desprezaram ese
método de escÍeveÍ, poÍque nâo o entenderam. Dísseram que eÍâ
simplesmente ridículo colecionar um punhado de fatos ao acaso e
reuni-los. Era uma idiotice. Mas, para o leitor chinês, é completamente
diferente. Ele diria: "Ah, ah, então foi assim que rudo aconleceu!"
Para ele isso constitui uma informâção completa sobre o Ano do
Dragão tal e tal;ele possui um quadÍo intuitivo de como o tempo foi
constelado nesse momento e de que todas essas coisas tinlam de
acontecer juntas.
Os ocídentais estão se apercebendo lentamente de que existe, de
fato, uma tendência para as coisas ocoÍÍeÍem juntas; nâo se trata de
fantasia, mas de uma notóÍia propensão dos evenlos para se aglome.
ÍaÍem. Até onde nos é dado vislumbraÍ, isso está relacionado com os
aÍquétipos; ou seja, sê um ceÍto aÍquétipo está consrelado no incons.
ciente coletivo, entâo c€rtos eventos tendem a acontec€Í junto§,
Em nossa história, apenas um exemplo de tais coisas tem sido
assinalado: o fato de que ao seÍ efetuada uma nova descoberta por um
cientistâ, ou ao ser anunciada uma gÍande lnvençâo, que realmente muda
a situação da humanidade, há uma rendência para vários cientistâs
teÍem, ao mesmo tempo e no mesmo ano, a mesma idéia, de modo
inteiÍamente independente. Ou dois homens que nada sabiam a
Íespeilo um do outro, no mesmo ano, acabam poÍ ínventaÍ a mesÍna
coisa. Sobrevém, entâo, uma contenda em toÍno do plagiato, se um
deles saàü do outro e se não teÍia Íoubâdo â idéia delei mas, em
muitas situações dessas, pode.se provar realmente que não existia
conêxão alguma. Os dois simplesmente descobriram a mesma coisa ao
mesmo tempo. Esse é o modo chinês de ver as coisas e essa é â únicâ
área que foi reconhecida pela mente ocidental. Em histórias honestas
da ciência é possível encontraÍ esse ripo de observaçâo, ou seja, que
poÍ mais estranho que paÍeçâ, há uma tendência paÍa cêÍtas idéias e
invenções surgirem ao mesmo tempo em Iugares diferentes.

&r
Do ponto de vista psicológico, isso nada tem de milagroso. No
espírito do tempo. poÍ assim dizer, estão consteladas c€Ítas inteÍ.
Íogações e certos problemas psicológicos. Depois, várias pessoas inteli.
gentes têm a mesma questão em mente, exPloram os mesmos
camiúos e chegam aos mesmos resultados; isso se deve à constelaçlo
de um aÍquétipo no inconsciente coletivo. Procurei, por exemplo, na
primeira palestra, explicar-lhes que arquétipo eu acho que agoÍa está
constelado no inconsciente coletivo, isto é, o arquétiPo do homem
completo, o Ântropos. Muitos eventos do nosso tempo, lidos nos
jornais, podem ser explicados mostrando-se que todos eles apontam
para o mesmo fator, e que esse aÍquétipo está agora constelado,
surgindo em milhares de formas.
Os chineses têm uma percepção intuitiva disso e, portanto,
pensam gue a melhor maneira de escreveÍ a História consiste em obteÍ
o quadro real de um momento do tempo no passado, coletando todos
esses eventos coincidentes, os quais, em conjunto, fornecem um
quadro legível da situação arquetípica existente naquele tempo, e isso
propicia novamente a ídéia de um campo. Poderíamos dizer que os
eventos se mostram num campo ordenado de tempo e que esse é o
modo como os chineses usam o número. O número fornece infor-
mação sobre um conjunto de eventos ligados pelo tempo. A cada
momento existe um outro conjunto, e o númeÍo informa sobre a
estrutura qualitativa dos feixes de eventos temporalrnente reunidos.
Tal fato parece complicado, mas essa é a maneira mais simples que
encontro de expô-lo. Se formos justos, penso que nos cumpte veÍ o
número como uma Íepresentação ou idéia ârquetÍpica que contém um
i§pecto quantitativo e um aspecto qualitativo.
Portanto, antes de podermos abordar todo o pÍoblema da adivi-
nhação, temos de rever a nossa concepção de número e de matemá.
tica. A partir daí, talvez nos seja possível focalizaÍ alguns outros
fatoÍes a cujo respeíto, até agora, apenas pudemos confessar nossa
incapacidade de medi.los, abordando-os somente com a função do
sentímento.
Na realidade, na China, o número forneceu informações sobre os
sentrmentos e a étíca. Abandonenros, poí um instante, o pÍeconceito
-
de que existem atos bons ou maus em si mesmos o que, de fato, é

85
um completo absuÍdo, pois não existem - e diBamos quê uma ação
élica depende sempÍe de quem faz o quê, em que momento. É claÍo,
isso poderia ser discutido! Por exemplo, vejamos o homicídio; o leitor
poderá dizer que o homicídio é sempre um cÍimê, mas eu replicaria:
"Desculpe.me, e o que me diz de Guilherme Tell? E de um homem
que tivesse fuzilado Adolf Hitler em 1935? Não o teria chamado de
uma pessoa sumamente érica e de o maioÍ herói da história? Até
mesmo o homicídio depende de quem faz o quê, em que momento,
em que medida e com que conseqüências." Mas o sentimento do lcitor
revoltar.se-ia, dizendo: "Nã'o, isso não cabe na categoria de homicídio,
é umâ coisâ diferente." No entanto, enquadra.se na categoÍia de homi-
cÍdio, pois um homem matou outÍo homem.
Logo, vê.se que não existem Bem e Mal objetivos; o nosso senri.
mento funciona diferentemente, dependendo de quem faz o quê, e em
que contexto. Entra aí â idéia de medida. Um analista sabe disso. Se
temos que falar a um analisando sobre uma certa sombra desagradável,
a intensidâde com que o fazemos dependerá das circunstâncias. Se
estiveÍmos úolentos demais, a resistência obstinada do outro será
despertada e a coisa ficará toda bloqueada; se formos brandos em
demasia, não exercendo pressão alguma, o outro poderá ouvir e dizer:
"Sim, sim," mas esquecerá tudo o que tiveÍ sido dito, pois nâo causou
impÍessão alguma. É preciso medir o que se ÍequeÍ no câso, e a exe.
cução coÍÍeta ou incorÍeta dependerá da exata inlensidade emocionâ.l.
Se o que temos a dizer for dito com excessiva intensidade emocional,
o outro ficará bloqueado; se for dito com demasiada brandura, enlrará
por um ouüdo e sairá pelo outro.
Jung, por exemplo, disse que âs pessoas loucas necessitavam de
eletÍochoques, mas isso ele nuncâ lhes daria com uma máquina; ele
próprio aplicáJos.ia com gÍitos ou agredindo a pessoa na cabeça,
poÍque, enlão, poderiâ medi.los com o seu sentimento. Assim, pode.se
mediÍ exatamente se é pÍeciso um $ande ou um pequeno choque parâ
despertar o indivíduo. Por vezes, quando as pessoas eslão em estado
de possessão emocional, a única mâneiÍa de impediJas de tentarem
morder é agÍedindo.as verbal ou fisicamente, mas tudo depende da
medida, e isso requer a função do sentimento. Só pelo nosso senti-
mento é que podemos dizer alé que ponto nossa voz deve se erguer ou

86
se, talvez, com uma pessoa sensível. baste murmutar a coisa terrível
paÍa, então, ocorrer imediataÍnente uma espécie de aPaziguamento e
dizer-se : "Bem, naturalmente isso não é asim tão imPortante, todo
mundo se sente indisposto uma vez por outra" etc. Mesmo assim, o
outro empalidece e mostra.se comPletamente chocado. Tudo isso se
-
situa na área do sentimento a função do sentimento dá a infor'
mação e a medida.
Nesse caso, o sentimento relaciona-se com a medida; então, Por
que na:o haverá de relacíonar-se, também, com o número?

87
49 PALESTRA

Na palestra pÍecedente, apresentei a idéía de que. podeííamos


conceber o inconsciente coletivo como um campo, cujos pontos
excitados seríam os arquétipos. Tentei mostrar que a rede de relações
entre os vários arquétipos é como um campo em que as conexões
sa-o o sigrrificado
- o cirÍnpo em que podemos enunciar ou observar
relações significativas. Surge, portanto, uma peÍgunta sobre a
distÍibuição dos arquétipos nesse campo, se foi fortuita ou ordenada.
Acabei por delinear a idéia de que o arquétipo do Si-mesmo (Se//)
e sua ordem aritmética regulam todo o campo; é um uquétipo
superordenado, que regula a distribuição no campo.
Que os arquétipos podem ser vistos como ordenados num
campo é uma idéia muito antiga. Já Platão tentou constÍuL um
campo na forma de uma pirâmide (figura l0). É provável que tivesse
em mente o tetractys pitagórico, no qual a idéia do Bem seria da
mais elevada ordem - na fúosoÍia platônica, essa é a imagem de
Deus ou do Si.mesmo, a que ele subordina todos os outros arquétipos.
No seu ensaio sobÍe a sincronicidade, Jung menciona um
padrão diferente. Foram realizadas, no passado, várias tentatíYas
para coordenu com os arquétipos ceÍtos números numa certa ordem
e estabelecer, assim, um campo orientado pelo número. Jung mencio.
na Aegidius de Vadis, Agrippa von Nettesheim e alguns outros.
Aegidius de VadÍs, por exemplo, diz que todos os elementos (a que
chamaríamos imagens aÍquetípicas) estão relacionados com certos
números. Em toda a Antaguidade e, de novo, em boa parte do perrodo
da Renascença, ocorÍeram numerosas tentativas de construir tais
89
canpos, mas não quero entÍaÍ nesse aspecto da questão. Só o men-
cioneí paÍa mostrâÍ que essa ldéiâ sempÍe paiÍou na menle das pessoas,
que tinham, então, uma espécie de palpite de que deveria existiÍ essâ
ordenação dos aÍquétipos.
Agora, porém, apesar desse fato, temos que indagar qual é a
diferença entre os aÍquétipos de número, de representações numéricas,
e os de representação de irnagem. Se, por exemplo, tomaÍmos o núme-
ro dois como uma idéia ou uma ÍepÍesêntação aÍquetípica, ele é muito
mais abslÍato do que o aÍquétipo do herói ou do que o aÍquétipo da
Grande Mâe. Assim, por um lado, temos uma imagem mitológica e,
poÍ outÍo, algo abstrato, ou sejâ, um número. No passado, as pessoas
simplesrente diziam que o deus-imagem era o número um, o deus-
mãe eÍa o número dois, etc.; elas simplesrnenle atÍibuíam certos nú-
meÍos a certos arquétipos. Existem infinitas vâÍiaçôes desses padrões.
Observando todos esses padrões passados, é impossível construiÍ quâl-
quer ordem. À semelhança dos mitos, existem variações nacionais e
culturais e não se pode deduzir uma ordem absolutâ; poÍtanlo, lemos
de perguntar a nós próprios em que consisle a diferença entre número
e imâgÊm aÍquetípica. Se eu digo, por exemplo, "o aÍquétipo do nú-
mero dois", a ênfase recai sobre a ordenaçâo, ao passo que se digo "o
arquétipo do deus.imagem", então, a ênfase incide sobre uma comple.
xa experiôncia de sentimento psicológico e não, especificamente,
sobre o seu aspecto ordenado. Por conseguinle, é lícito dizer que os
números enfatizam, especialmente, o aspecto de ordem dos arquétipos.
Eiste, além.disso, um sislema mitológico, o sistema dos maias,
que liga tão estÍeilâmente o número com âs ÍepÍesentações arquelÍpi.
cas, que elc eslá, inclusive, contido nos nomes. Por exemplo, o grande
herói do Livro do Conselho chama-se Hunabku - o nome deriva
de Hun, o Uno. Há outro herói chamado Sete Caçador. Depois, eis.
tem os "oito deuses", e em cada um de seus nomes foi incluído um
número. Nessa concepção maiâ, Íetoma-se à origem da idéia, isto é,
à seqiiéncia de tempo, poÍque a cada divindade dessa religiâo é atÍibuÍ.
do um dia do ano no calendário. Portanlo, o número Íelaciona-se
com um lapso de tempo, e penso que sejâ essâ a conexão essencial -
pois, se obsenarmos os arquétipos, ou as ÍepÍes€ntações arquetípicas
em que apírÍecem seqúências lempoÍâis, existe ceÍtâ regularídade ou

90
Figura 10. Campo aristotéüco - imagem aÍquetípica
do Si.mesmo (§clD.

ordem. Assim, os númeÍos, quando são identiÍicados com certas


repÍes€ntaçõ€s mitológicas, são o que poderíamos chamar de números
temporais, visto que caÍacterizam um determinado momento no
tempo.
O mesrno é verdadeiro pua a mandala. Na patestra anterioÍ,
tentei mostrâÍ que o arquétipo do Si.mesmo e suas estÍuturas matemá.
ticas repÍesentaÍn a ordem básica de tais campos de representações
mitológicas. Sabemos que o arquétipo do Si-mesmo aparece freqüente-
mente numa estrutura matemática ou numérice, isto é, a mandala, que
é uma de suas Íepresentagões mais generalizadas. Jung diz que a mu.
dala sirnboliza, através do seu centÍo, â unicidade fundamental de to.
dos os arqútipos. O leitoÍ recordará ter eu dito antes que tudo é tu.
do, que é sempre possível relacionar todos os arquétípos. Portanto,
eÚste sempre essa unicidade secreta. Na termanologia junguíana, todos
eles estão contaminados e salo, também, essencialmente unos; a man.
dala, através do seu centro, simboliza tanto essa unicidade fundamen.
tal quanto a multiplicidade do mundo de aparência.
Isto constitui, poÍtanto, uma correspondência empírica com a
idéia metafísica do unus mundus. Voltarei mais sdiaflte a esta expres.
salo, solicitando ao leitor que a conserve em mente. EntÍetanto, se o

9t
uno se manifesta em muitas formas, não devemos concebêJo como
uma descontinuidade, porque, ç todos os aÍquétipos sâ-o sempÍe uma
unicidade, então, não podemos cortá-la em pedaços, ou podemos fazê-
lo arbitrariamente, mas não tem significado algum. Para observar sua
unicidade, é melhor pensâÍ num cristal com suas muitas facetas. Se
girarmos o crislal ou sua posição for mudada, veÍemos sempÍe oulÍa
faceta; assim, apaÍenlemenle, percebemos muitas coisas, mas que são,
na realidade, diferentes aspectos de um único crislal.
Podemos, enlão, concebeÍ o inconsciente colelivo como sendo
sempre, em ultirna instância, o Si-mesmo, ou aquela mesma coisa
única, que transcende a nossa capacidade de apreensão. Assim, por
exemplo, se sonhamos acerca do aÍquétipo do herói ou do deus'Sol,
é como se víssemos uma faceta, e ao girarmos o cristal veÍêmos,
ainda, outra faceta da mesma coisa. Encarado desse ângulo, inlervém
o tempo, pois sempre haverá uma faceta que se vê primeiro? Há uma
seqüência de tempo naquilo que percebemos, como é evidenciado nos
contos mitológicos, nôs quais não há somente figuras típicas. Por
exemplo, nos contos de fadas, não há apenas a figuÍa tíPica do rei, do
tolo, da bruxa, ou do animal pÍestativo, mas esses elementos Íepetem-
se em formas diferentes, nos diferentes mitos.
Uma extensa pesquisa sobre muitos sistemas mitológicos mostra
que cerlos elementos básicos sâo sempÍe Íetidos: a criança divina, o
heÍói, a serpente, o dragão, o inimigo do herói, etc. Contudo, nâo se
tÍata apenas de imâgens típicas, como as chamamos, ma§ taJnbém de
seqüências e conexões típicas, isto é, onde está a perola há sempÍe um
dragaio e onde está o dragío há sempre uma ffrola. Ou podemos pre.
veÍ que, se o herói tem a colaboração de um ânimâl pÍestativo, tÍiun-
fará sempre. Em todos os mitos e contos maravilhosos que estudeí,
nunca vi um câso em que o herói, ajudado por animais, não levasse a
melhor. Se ele adolâ um animal pÍestativo ou gÍato, que pÍometeu
ajudá-lo, pode-se prever, com absoluta ceÍtezâ, que não haverá uma
tÍaBédiâ, mas um final feliz. Desse modo, podemos predizer, com
ceÍla exatidão, a seqii6ncia de tempo na históriâ e predizer o que
irá acontecer. lsso significa que existem não só motivos tíPicos, mas
também seqüências tipicas de eventos aÍquetípicos.
O físico Wolfgang Pauli pensou até que isso poderia explicar

92
o fenômeno da precogníção, ou seja, que sabemos, em nossa psique
inconsciente, qual arquétipo está agoÍa constelado e, desse modo,
podemos predizer o que virá a seguir. Em outras palavras, o fenômeno
de precognição psíquica baseia-se nessa ordem temporal do arquétipo.
É interessante assinalar a este respeito que o verbo inSês to tell
(narrar, contar uma história) é em alemão erciihle, que deriva da
fuhl, nimero. Eriàhlen é "numerar" uma imagem üquetípica.
palavru
Em fiancés, to tell é roconter, vocábulo afim de comptcr, contar,
enumerar; e, como Nora Mindell assinalou, em chin€s, a palavra para
enumerar significa Suan, cont* o cái, isto é, a origem, de lai, o que
quer dizer: do que acontecerá, contar a origem do que irá acontecer.
,, Nessas estruturâs etimológicas, vemos que o homem deve ter
sabido originalmente que, quando narra uma história mitológica ou
arquetípica, é como se estivesse contando. Obedece a ceío ritmo
ordenado de eventos. Aqueles leitores, que porventuÍa teúün tomâ-
do coúecimento de minhas conferências sobre contos de fadas,
sabem que, há muítos anos, e muito antes de eu refleür sobÍe estas
coisas, descobri que era muito útil contar as figuras de uma história
e, depois, símplesmente otguizar trm esquems do que aconteceu, na
forma de números.
Recordarei apenis uma história para mostraÍ o que eu teúo em
mente. Existe um conto russo intitulado "O Czar Virgem", no qual o
czar reinante tem tÍês fúhos. Dois são normais e o teÍceiro é um tolo,
desprezado por todos, que Íica sentado junlo à lareira, coçando.se, e
que ninguém leva a serio. É a coisa usual: o que está faltando é o aÍ.
quétipo feminino. Eúste um quateÍnião, ou seja, uma integralidade,
uma totÜdade, mas sem uma fêmea. Ne atitude consciente dominaflte,
falta o elemento Íeminino. Há uma idéia religiosa que exprcssa, poÍ
completo, a totalidade em seu asp€cto masculino, mas nâo expressa o
aspecto feminino concomitantemente, de modo que podemos, com
facilidade, conjeturar que a história será a respeito de se encontrar ou
incorporar a fêmea.
Os três fúhos vão paÍa o Reino Sob o Sol, para descobrir vestí-
gios do lugar por onde o pai deles andara e, também, provavelmente,
do lugar de onde o pai trouxera a mãe deles, agoÍa moÍta. Como de
costume, dois Íilhos perdem.se e fracassam. O terceiro, porém, encon.

93
lÍa tÍês bÍuxas que se chamam todas Baba Yaga, a grande bruxa de
todos os contos de fadas russos, uma exfrcie de ligura da Grande Mâe
devoradora. Essas três Babas Yaga sÍÍo todas irmãs, lrês aspectos da
mesma coisa, e têm umâ sobríúa que não é bruxa, mas uma bela
mulher chamada Maria da Trança Dourada. O leitor pode adivirúrar o
reslo: o lilho encontÍâ as três bruxas, que o enviam a Maria e, após
longas tragédias, que não descreverei aqú e que slÍo enumeradas em
detalhe, ele se casa com Maria (figura ll). Depois, pâÍtem juntos paÍâ
um oulÍo reino, onde Mâria tem gêmeos.

czat bruxa

19fho 39 Íilho Mâria bruxa

I
29 fi$o uniâo bru xa

Figura I I

Vemos, assim, a mÀtemáticâ da história: há na consciência cole-


tiva uÍn quaternião puÍamente mâsculino e, no inconsciente coletivo,
um quaternião puÍamente feminino. Um processo dinâmico, que é a
"contagem" da história, teÍmina com tÍês homens e uma mulher;
ainda é predominantemente masculino, mas existe uma mulher, de
modo que se lÍata de um símbolo de totalidade em que o feminino
está agora represenlado. Também os gêmeos sâo crianças pequenas,
o que significa uma forma de renovação; assim, o quaterniâo é reno-
vado, tem novancnte um futuro e o elemenlo feminino participa dele,
Os primeiros dois filhos do czaÍ, os irmãos, sâ'o condenados à moÍte,
de forma que o que resla é um antigo quatemião constituído pelo
cziu e as trê§ bÍuxas e um novo quaÍtenião, que é o Íesultado real da

94
história, consistindo em Ivã (o teÍceiÍo filho), Maria e seus dois Íilhos
(Í'igura l2). Assim se desenrola o futuro, e o fluxo de energía psíquica
continua.
Existe uma seqü€ncia de tempo e número muito deflrnida em
todas as histórias arquetípicas. Não é sempre, embora seja com fre-
qúência, um jogo de quatemiões, mas existem usualmente tÍíades e
quaÍtetos nas histórias de fadas, hístórias que "dançam", nas quds
podemos ver que há uma estrutura matemática deÍinida. Por exemplo,
nunca encontrei uma ú história que começirsse por "Um rei tinha três
fúos...", em que o problema niÍo fosse integraÍ o feminino. Assim, é
possível ter r precognição, sem conhecer a história, de que ela adotuá,
de algum modo, esse rumo; pode.se predizer a seqüência de tempo
e, em certa medida, até o modo como o jogo dos arquétipos determina
qual a faceta seguinte do grande cristal que se apresentaÍá e em gue
direção irá girar. Por que as pessoas sabiam, originalmente, e&ses
fatos, segundo parece, descobrimos em muitas línguâs a ligação entre
"contar" uma história e a idéia de Zahl, nriunero. Isso acarreta o
problema da energia e do tempo, de que me ocuparei agora.

cz,et t9 gemeod bruxr

19 filho st bruxa
39 fiüo (rolo) e

,ro
29 l-úho gêmeod bÍuxa
Quaternião puÍiunente QuateÍnião ma;cuüno QuâtcÍnião feminino
masculino mais uma Íigura no inconsciente
feminina
Figura 12. Seqii€ncia infinias de ÍitÍno

95
Na história há um processo de energia: um quateÍnião chegou
ao íim, írnobilizou.se, e dá-se, entâo, um fluxo de eneÍB,.ia, isto é, a
aventuÍâ do terceiro filho que pÍovocâ o resultado desejado, o novo
quatemialo, e logo a história se interrompe. Todos os contos de
fadas se interrompem num ceÍlo ponlo, mas nunca é o ponto fural; é
como trrna melodia eterna ou, por exemplo, úm pot-pouni musical,
onde temos uma melodia, depois, uma nota de suspensão e, logo,
outra melodia. Em'0 Czar Virgem", por exemplo, eu diria que
aqueles dois são muito jovens e há apenas uma mulher, em vez de dois
homens e duas mulheres; nâo é um resultado final muito equilibrado,
mas é um progÍesso em relação à situaçã'o aÍrleÍior. Assim, podemos
imâginâÍ facilmente umâ históÍia em que existe um Íei e uma rainha
com dois Íilhos, que são raptados por um dragão etc. Tais histórias
existem, e continuam até chegâÍ a um outro Íesultado.
NÍÍo se trata merarnenle de uma idéia aÍbitÍária minha, mas é
como, poÍ exemplo, funcionam os autênticos contadoÍes de históÍias.
Os conladores de histórias orientais sentâm.se na praça do mercado e
simplesmente ficam o dia inteiro desfiando-as; âs pessoas ouyem.nas
por algum tempo, depois, deixam uma esmola e vão embora, mas o
contador de histórias prossegue, e as pessoas que nada têm que fazeÍ -
e no Oriente a maioria está nessa situação - seÍitam-se e ouvem-nas o
dia inteiro; essas lêm de pagar um pouco mais. E o que faz um conta.
dor oriental de histórias? Ele sempre usâ essâ nota de suspensão e ini.
cia outra história a paÍtiÍ dâí. Cria uma outra cadeia de eventos e
podemos ver isso, poÍque temos essas histórias. Por exemplo, nas
coleções européias, as histórias são relativamenle cuÍtâs em compaÍa-
çlio com as orientais; num volume de histórias oÍientais, o que no seu
congênere euÍopeu daria para lrês ou quatro histórias, é apenas uma,
sendo as tÍês ou quatÍo unidas entre si com absoluta perfeiçâo. Nâo há
divisão nas históÍiâs; existe uma relâção tão sensÍvel com as conexões
aÍquetípicas que os contadoÍes sempÍe sabem que história seria a
continuâção da última e, então, iniciam a nova melodia, formando,
assim, aquelas extensas cadeias narrativas que, em nossos pâíses, cxis.
tem como histórias separadas.
Posso dizer, porlanto, que "contaÍ" é atravessar o tempo num
ceÍto Íitmo - conlinuaÍ, continuaÍ sempre, no ritmo do arquétipo, e

96
que isso tem uma ordem secÍeta. Não se pode começat com qualquer
história; não se pode, por exemplo, inserir a Branca de Neve ou o
Chapeuziúo Vermelho em nossa história, mas pode'se adicionar uma
históÍia de uma rainha que tem gêmeos e de uma bruxa que a calunaa,
dizendo ao marido dela, ausente, na guelra, que a raiúa deu à luz uns
cachorrinhos, c assim por diante. Só se pode continuar numa ceÍta
direção quurdo um resultado foi alcançado e, nã9, em outÍa diíeçío, e
esse mesmo fato conÍirma a ordem secÍeta na seqüéncia dos arquéti'
pos. E[es naio podem ser encadeados arbitrariamente, mi§ numa §e'
qiiéncia infinita de tais Íitmos. Uma história aíquetíPica, como um
soúo, é uma auto-repÍesentação do fluxo de energia psíquíca.
Sabemos que Jung, intÍodutoÍ do conceito de energia Psíquica'
também considerou, a esse respeito, os sonhos como um fluxo de
eventos, uma seqüência de imagens que ÍePresentam ou visualizam
certo fluxo de energia. É por isso que, ao analisar os sonhos, a /ysrs,
ou catástrofe, em que todos eles geralmente terminaÍn, é tão impor'
tante, pois isso mostÍa qual foi a meta vísada pelo fluxo de energia. Na
análíse, enquanto escuto o relato de um sonho, semPre Penso 't
depois, e depois, e depois?", e conservo na mente a frase final do
soúo. Por vezes, as pessoas deixam que o sonho termine antes do seu
desfecho e, então, eu peÍgunto: "Foi realmente essa a frase final do
-
soúo?" "Sim, aí eu acordei') e Íico sabendo até que ponto chegou
o Íluxo de energia psíguica. Sabemos, a§sim, onde a corÍente vital
subjacente à consciência está Íluindo, que objetivo está Yisando e em
que direção está indo. A frase de abertura de um sonho é importante
poÍque mostÍa a situação pÍesente, mostra onde aquele que sonha
está agora, neste mundo confuso. Depois vem uma seqüência de even-
tos, e a frase Íinal fornece a indicação no que a energia está fluindo.
consideramos os sonhos, Portanto, como um processo de ener'
gia, como uma úsualização do fluxo da energia do inconsciente, e o
mesmo pode ser dito dos sonhos mitológicos, histórias de fadas e mi
-
tos ss íormas arquetípicas dessa manifestação. Podemos sempre
encará-los de um ponto de vista da energia. Portanto, ao fural da pales'
tÍa anterior, falei do problema da relaçâo entre energia física e psíqui'
ca e subliúei que, enquanto a energia física pode ser medida
quutitativamente, não temos ainda meios Para mediÍ a quantidade de

97
eneÍga psíguica, exceto poÍ uma peÍcepção sênsívcl de intensidade.
Terminei aquela palestra discorrendo sobre essc sentimento que
possuÍmos, de modo que, mesÍno que alguém diga a.lguma coisa em
tom muito calmo, sentimos, ainda assím, um teÍÍível montante de
energia subentendido no que está sendo dito; é a função do sentimen.
to que nos fomece essa oÍientâçâo.
Perguntaram-me por que chamo energia psíquica a um fenôme.
no qualitaüvo e energia filsica a um quantitativo. hocedi de um modo
múto unilateÍal. Dei grande ênfase a esses opostos simplesmente para
incutiÍ na mente dos leitoÍes os dois opostos de qualidâde e quanti-
dade. Em geral, referimo-nos à psique como sendo o mundo da quali.
dade, pois a enêÍgia física nâo se mânifesta em imagens, só podemos
cntendê.la quantitativâmente. A energia psíquica, por outro lado, ou a
constelaçâo ou situação psíquica, manifesta.se em símbolos que só po.
demos descrever qualitativamente. Assim sendo, referimonos, gera.l.
mente, ao mundo da psique e à energia psíquica como um fenômeno
qualitativo, e ao mundo da energia física como um fenômeno quanti.
talivo.
EntÍetanto, como Jung subliúa em On The Noture of the psy-
che, é grovável que a energia psíquica e a energia física sejam sim-
plesmente formas diferentes de uma ó coisa; portanto, a energia que
se manifesta qualitativaÍrenle possui, de falo, um aspecto quantitâri.
vo latente e úce-versa. Os físicos modernos dizem que um salto quân.
tico ou, por exemplo, o salto de um elétron em sua freqüência para
uma órbita exterioÍ, muda a estrutura de um átomo não so quantita.
liva, mas, tamMrn, qualitâtivamen te e, poÍ conseguinte, é impossível,
na verdade, sepaÍaÍ quanlidade e qualidade, que são conceitos mentais
complementaÍes. Quero dizer com isso que eles não existem objeriva-
mente; podemos observar a mesnra coisa do ponto de visla qualitativo
ou quântilativo, e até a eneÍgia física, como assinala Viktor Weisskopf,
posui um aspecto qualitativo, na medida em que condiciona estÍutu.
ras diferentes. Uma mudança de quantidade geÍâ uma mudança de es-
lÍutuÍa e, conseqüenlemente, uma mudança no que chamamos de qua-
lidade.
Assim, é lícito dizer que até mesmo a energia física, em geral
medida quantitativarnente e observada do ponto de vistâ quanrilativo,

9E
tem um aspecto qualitativo lat€nte; mas também é verdade que a
energia psíquica, que podemos observar principalmente em sua mani
festação qualitativa - por exemplo, como imagem, etc. tem um-
ispecto quantítativo latente, que consiste nesse impacto de maior ou
menor intensídade. O próprio fato de dizermos isto é mais ou menos
impresionante, mostra que se trata de um enunciado quantitativo, e
não apenas qualitativo.
Ora, o nosso pÍeconceito ocidental é de que o número só pode
contaÍ ou expÍessaÍ quantidades; para nós, ele é o instrumento de
contlÍ quanta. Todos pensamos numa maçã, duas maçís -
esa é a
quantidade de maçãs, ou batatas, ou seja o que for. Mas se o núme.
ro, segundo a hipótese de Jung, é o arquétipo que une o mundo da
psique e da matéria, então, deve também compaÍtilhar, em ceía
medida, do mundo da qualidade e, nesse ponto, foi para mirn revela-
dor descobrir que na China o número é usado de um modo comple.
tamente qualitativo.
Quem ler La percée chinoise, de Marcel Granet, ficará sabendo
que, para os chineses, o número Íepresenta estÍutuÍas gualitativas.
Por exemplo, se algo é um, então, isso aponta para o todo, o universo
e sua integridade, por exemplo, o Tao. Se algo é dois, aponta para a
realidade observável em todos os domÍníos: na música, no sentimen.
to, na física, em toda paÍte, poÍ assim dizeÍ. Em outras palavras, o
número comuníca à mente chinesa uma associação qualitativa.
[sso chega a tal ponto que, no começo, tive grande dificuldade em ler
Granet, até chegaÍ a uma história contada por ele, que, de fato, de
tão chocante, me despertou. Eis a históría. Houve uma vez o nze gen.e.
raís que tiúam de decidir se atacaríam ou bateriam em retirada numa
batalha. Reuniram.se e uns eram pelo ataque, outÍos pela retiradq. Ti.
veram una longa discussão'estÍatégica e, finalmente, decidiram fazer
uma votação: trés foram. favoráveis ao ataque e oíto à retirada, de mo-
do que eles decidiram a.lacaÍ poÍque três é o número da unanimi-
-
dade !

Como vêem, na China, o três tem a qualidade de ser a unanimida-


de e, pelo efeito casual de que três pessoas eram pelo ataque, eles acer.
taram na qualidade do número três e, portanto, a opinião deles era a
ceÍta. Um chinês poderia dízer, talvez, que subjacente, inconsciente.

99
mente, hfl,ia unanimidâde a favoÍ do ataque, âpesaÍ do fato de apenas
tÍês scÍcm conscicnlementc por essa altemâtiva, âo pnsso que oito
§ó inconscientemente o eÍaÍ1, enquanto conscientemente defendiam
-
uma outÍa decisão. Portânto, eles atacaram e foram vitoÍiosos, de
acordo com a história.
Do ponto de vistâ dos nossos pÍeconceitos, essa é uma idéia
totâlmente louca, mas, se deixarmos que a história penetre bem fun-
do em nosa mente, então compreenderemos o que é um número
qualitativo. Numa votação, por exemplo, ÍllÍo se lÍata de saber que
grupo está em maioria, mas que gÍupo acerta no número corÍeto, e é
a opinião dele que conta. Suponhamos que o número 1.5ó6.000 é o
número que expÍessa a vontade autênüca da Suíça e que teÍemos de
votaÍ a respêito de alguma coisa; o vencedor seria simplesmente o
grupo mais próximo desse número, independentemente do fato de
outÍos gÍupos terem quanlilativamente mais pessoas. Essa é a pecúia-
ridade da mente chinesa, e é uma boa peculiaridade, porque, de fato,
elimina em nós o pÍeconceilo de que o número s6 pode *r umâ quan-
tidade. O número, nâ mente chinesâ, é uma estÍutuÍa que tem certâs
qualidades.
I
No Ching, o Hexagrama 60, chamado Aieh (I.imitação), diz
que nem na úda nem em paÍte alguma da natuÍeza exisle a ilimitabili-
dade, que é um mal. Assirn como a natuÍezâ tem suas limitações - os
astÍos têm seus cuÍsos, a áÍvore não cÍesce além de certa altura; tudo,
na natuÍeza, tem â suâ medida - a vida humana também tem âs suâs
medidas e, poÍtanto, sô é siginiÍicativa se tiveÍ suâs limitâções sigÍli-
ficativas, sua medida ceÍta. PoÍ conseguinte, a lmagem para o Hexa-
grama 60 diz que "o homem, superior cria o número e a medida, e
examina a naluÍezá da úrtude e da conduta correta". logo, a idéia de
nrirnero tern aí uma relação com a virtude e com a atitude coÍÍeta.
Ao final de miúa palestra precedente, tentei explicar que nío
exisre qualidade objetiva num ato - depende da medida e do tempo,
se foÍ coÍretâmente realizado dentro dos limites da personalidade. Pa-
ra os chineses, virtude significa fazer as coisas coÍÍelas na medida cer-
ta, no momento ceÍlo, e em paÍte alguma enconlramos essa idéia tâo
freqiientemente quanto na anrílise. Se hoje digo uma verdade a um pa-
cienle, poderei destrui.lo; mas se aguardar e lhe disser daqui a três se-

r00
manas, podeÍei ajudrí-lo. Pua tudo existe o momento certo, a conste'
lação ceía para a ação, e atuar pÍematuÍa ou tardiamente destrói to
da possiblidade. Não consideramos isso suÍicientemente. Pensamos de.
mais em termos abstÍatos, ou que uma coisa é boa ou má, e não pen.
samos suÍicientemente a partir do padrão sensível das círcunstâncias
temporais especiais em que atuamos, pois os nossos atos éticos depen'
dem do tempo.
A raiz chinesa da palavra Chieh é t vara de bambu com nós, o
que mostÍa com muita claÍeza como os chineses a üam. Uma vara de
bambu tem certos nós, um ritmo, uma limitação, um número, e os
segmentos de uma vara de bambu são o símbolo da virtude, da lealda'
de e da ordem éüca. Portanto, o imperador era muito fÍeqiientemente
reprerntado poÍ uma vara de bambu, porque eÍa o maestro do con'
certo ético de seu povo. Muitos textos chineses dizem que, se o irnpe'
Íadoí não está em ordem, então, os números do império e os núme'
ros do calendário se desorganizam. Nesse caso, a taÍefa do impera-
dor consiste em restabelecer o ritmo ético correto e, por via de con'
-
seqüência, também a ordem e o calendário o que os chineses fize-
ram múto concretünente, pois tíveram numerosas reformas de ca-
lendário e por meio delas o imperador restauÍou também a ordem éti'
ca de seu impérío.
Aqui temos, una vez mais, o número associado a un momento
no tempo. Eúste, por assim dizer, um momento um, um momento
dois, um momento três, relacionados com o tempo e com o comPorta.
mento ético, o que, em nossa linguagem psicológica, sigrrifica relacio
nados com a qualidade do sentimento. A étíca é uma questão de sen'
timento, não de intelecto. Com muita freqüência, em muitos sonhos,
desde que a minha atenção foi despertada para isso, ví a diferenciação
dos sentimentos representada pelo espectro do arco.íris. & uma pes
sos tem um sentimento muito primitivo, tem, então, reações em pÍe'
to e branco: Gosto disto, ou não gosto disto, e nada existe no meio;
ou isto é bom e isto é mau, agradável ou desagradável - é uma reaçâo
do tipo "ou . . . ou". Isso é típico do sentimento indiferenciado. fu
pessoas do tipo pensamento, por exemplo, reagem assim, ao passo que
as do tipo sentimento têm uma espécie de espectro de reações sensí'
veis. Um tipo sentimento, quando perguntado, "O que pensa da Sra.

t0l
Fulana?" dirá: "4h, bem, por um lado, tenho esta ou aquela impres.
são e estâ crítica", e assim por diante, e fomecerá todo o espectÍo do
aÍco.íÍis sobÍe a peÍsonalidade de tal pessoa, uÍn espectÍo dos diferen.
tes senümentos que âlimenta em relação ao fenômeno da Sra. Fulana.
As pessoas que nâo têm o sentimento diferenciado rêm sonhos
que mostÍam que têm de aprender a diferenciáJos desse modo como o
âÍco.íÍis, abandonando as Íeações primitivas do tipo tudo.ou.nada. Se
pensârmos no mundo jurídico, o qual, em última inslância, tem tanto
â veÍ com os problemas éticos, veremos como é importante paÍa o
juiz ou para o advogado possuiÍ.se esse espectro diferenciado, a fim de
entendeÍ o criminoso. Por um lado, o homem é culpado e responsável
poÍ seu ato, mas, poÍ oulro. as circunstâncias também têm que ser
considêÍadas e, na prática, isso sempÍe é feito por nós; finalmente,
chega-se a um julgamento sensÍvel, quando todos os prós e contÍas e
os matizes da situaçlÍo foram considerados e ponderados.
Os chineses foram ainda mais longe, tendo uma idéia muito se-
melhante à franccsa de que, rea.lmente, compreender é ser capaz de
perdoar a outÍa pessoa. Eles atribuem grande peso a essâ difeÍenciâ-
ção de sentimento. O mesmo pode ser dito do tÍabalho analítico, pois
somente quando uma pessoa pode, de modo suüI, teÍ umâ Íeâção de
espectÍo o que significa também não estaÍ seguro do que é certo e
-
erado, ma§ seÍ capaz de ver as diferentes nuançâs, os prós e os con-
-
tras poderá chegar genuinamente a uma compÍeensão humaÍta. O
sentimento lem um espectÍo e o especlro tem difeÍentes freqüências,
de modo que, uma vez mais, existe um âqpecto quantitativo latente no
que é, em princípio, qualitâtivo.
Na China, o arco.íris é o símbolo de Eros, poÍque é o elemento
que liga o céu e a terra, que são paÍa os chineses os gandes príncipios
de Yin e Yâng; portanto, o arccíris é um símbolo do sentimento ou
da ligação Eros. Também, aí, manifestâ-se a idéia de que o senlimen-
to tem um espectÍo e uma ordem numérica e de que existem, se as
sim podemos dizer, números de sentimento-e.tempo. É isso o que o
número significa nâ China. Como explicamos isso?
Tentei estabelecer uma polaridade entre o númeÍo quantitati-
vo e o qualitativo, mas ambos devem ter a mesma raiz no ser humano
e, na realidade, tâÍnbém slio aspectos secÍelírmente complementares de

102
uma ú e mesma coísa. Neste ponto, cumpre.me chamar e atenção do
leitor para o livro de lung, Symbols of Transformatior, onde ele de-
senvolveu pela primeira yez seu ponto de üsta da energia em relação
à psique. Jung assinala que oitenta poÍ cento das manifestações origi.
nais de energia psíquica numa criança pequena são movimentos rít.
micos com as peÍnas, os braços e a cabeça, mesrno quando produz
o primeiro somi popopopory. Durante horas, uma criança pequena
divertir.se.á fazendo bolhas de saliva e produzindo esses sons rítmi-
cos.
Tambem os primitivos só podem realizar qualquer espécie de
ação se âcompaúada desses movimentos rítmícos, sendo por isso
que batucam ou dançam enquaÍlto trabalham. NiÍo podem tÍabalhaÍ
por sua própria rcliçío; têm de-arobilizar sua energia psíquica, sua
gana, coÍÍto a chamam os sul-americanos. Se pergrntarmos a um la-
tinoamericano poÍ gue não foi trabalhaÍ, o que foi que aconteceu,
ele dirá: "MaÍana, hoje não tenho gana". Se não conseguirmos pro.
vocaí suatrrur, ele não trabalhará.
Tenho um vizinho em Bollingen que ainda é assim. Ele prome-
tetl- fazer para mrn algumas constÍuções, mâs nunca as fez e, final.
mente, fui até a sua casa, sentei.me com ele e contei.lhe histórias, e
então ele trabalhou entusiasticamente durante nove horas a Íio. Tive
de incurtir nele t gana, mobilizar sua energia psíquica; e depois ele
trabalhou realmente bem, mas ainda era como os índios sul-america-
nos e tivemos a seguinte conversa:
- "Oh, hoje não creio que possa ir trabalhar."
- "Bem, venha, hoje tenho tempo, nalo poderia apenas dar uma
olhada?"
- "Ah, não, penso que o tempo vai estaÍ Íuim."
- "Não, não cÍeio, poderumos ao menos começar."
- "Bem, vamos até lá dar uma o[hada."
- "Que tal levar sua pá e as outras ferramentas? Talvez dê pa.
ra íazer alguma coisa, quem sabe?"
E, então, ele ia e traballrava por horas. Estava muito calmo ao
cair da tarde e dizia:
- "Bem, realmente fizemos alguma coisa."
Essa é a mentalidade prinritiva em todo o mundo, pois a gÍande

103
batalha com o primitivo é arrancáJo da sua letargia. Quando eles sa.
bem que têm de fa2eÍ qualquer coisâ poÍ si mesmos, fazem.no can.
tando e batucando, sendo poÍ isso que scmpÍe existem rituais de
iniciaçâo antes de toda e qualquer açâo, seja pua caçü ou lawar os
campos; sempre há uma espécie de cântico, tambores e rituais, para
ptovocar a gdno, p à excitaÍ a eneryia. O mesmo pode ser dito das
crianças e aí está um dos segredos da pedagogia. Se houver profes.
soÍes entÍe os leitoÍes, posso dizer.lhes que essa é a coisa a ser feitÀ,
pois, se instigaÍem à goru das crianças, poderão fazer com elas o que
quiseÍem; as crianças não são pÍegúçosâs, têm a mesÍna diÍ'iculdade do
indivíduo primitivo para deslanchar. Uma vez que estejam apaixonada-
mente envolvidas, nllo podeÍão par .
Assim, a manifestação original da energia psíquica, quardo se
conveÍte em mmifestaça-o cultuÍal, é conjugada com o ritrno;nâo se tÍa.
ta de um movimento motor aleatório, mas de um movimento Ííhíco.
Jung diz que esse é o princípio da forma espiritual do instinto, que o
aspecto fisiológico aí começa â leÍ uma forma espiritual. Levar a ener.
gia psíquica a manifestar.se riúnicaÍnente é a primeira forma de ela se
manifestar espiritual ou culturalmente. No reino aÍlimal, provém, tal-
vez, da chamada reação deslocada. Quando sê moslÍa a um cão seu ali-
mento, ele tem todas as reações pavloúanas, com salivação, etc., mas
se, então, lhe retiramos a comida, ele é íncagaz de deter essas Íeações;
ele foi instigado a comer, de modo que se sentará e ficará arranhando e
esgaravatando por meia hora. lsto é hoje muito coúecido e é o que os
zoólogos chamam de reação deslocada. O mesmo acontecerá se mos-
lÍaÍmos a um cavalo sua compuüeira e, depois, ÍeliÍâÍÍnos a égua; o
cavalo Íicará escoiceando por meia hora. No reino animâI, oitenta por
cento das reações deslocadas são movimentos Íítmicos.
Também nós temos nossas Íeâções deslocadas simiescas. Quan-
do, por exemplo, as pessoas se impâcientaÍn numa sessão, ou há um
orador enfadoúo, elas começam a se coçar ou fazem deseúos rÍtmi.
cos com um lápis. Essa é a mais pÍimitiva manifestação de energia li-
vÍe. Assim, podemos dizer que o homem, no começo, era provavel-
mente como os animais que vivem inconscientemente s€us instintos:
comer, acasalar, câçar, encontrar um lugar paÍa viveÍ e defender
o leÍritóÍio. Enlão, ceÍto montante de energia era poupado e

l04
manifestava-se primeiro na forma de ritmos de reação deslocada.
Jung sublinha em Symbols of Tlansformotion qrte, perto do
Amazonas, encontÍam-se pedras com profundos entalhes feitos ao
acaso pelos índios que nelas se sentam, aguardando suas canoas paÍa
serem transpoíados rio acirna. Eles nada têm de fazet senão espeÍaÍ,
de modo que, com pauzinhos ou com outras pedras, ficam executan-
do esses pequenos cortes o tempo todo. Não podem espeÍar soss€ga-
dos e fazem isso; e, com o tempo, as pedras acabam por apresentaÍ
esses sulcos profundos. As mais antigas escavações que temos do
Período MesolÍtico, na Europa, são grutas que só recentemente foram
descobertas. Não são as famosas grutas de lascaux ou de Troís
Frêres, sobre as quais muito se tem falado - que, em sua maioria,
íoi descoberta pelo Abade Breuille que apÍesentam aquelas magníficas
pinturas de anirnais, assim como os pontos ou deseúos feitos por um
médico- fei ticeiro, ou um xarní -, mas as gÍutas mais antigas desco-
bertas em Milly-la-Forêt.
Estas situam-se no centÍo da França, em terrítório muito inaces'
sível, e nelas existem linhas profundamente talhadas ao acaso liúas
-
e mais linhas, exatamente as mesmas que os Ín4ios ainda íazem nas
pedras, às míugens do Amazonas, quando têm de esperar. Assim, os
homens do Mesolítico sentâvaÍn-se nessas grutas, provavelmente,
quando chovia ou nevava, e não podiam sair à caça, divertindose,
então, com esses movirnentos rítmicos. Esse é ptovavelmente o mais
primitivo começo da liberação da libido animal e o princípio de sua
transformação püa um uso cultural.
Nas grutas de Milly-la.Forêt existem outras formações, por
exemplo, arranjos regulares de buracos nas rochas, como um que ficou
íamoso, a que os arqueólogos chamam de pedras escavadas; depois,
há triângulos com um ponto no meío e numerosas formas simples de
mandalas. Uma delas paÍece um tabuleíro de damas, mas, provavel'
mente, nada tem a ver com esse jogo. Mais tarde, alguém deseúou
nela um veado.
A Sra. Marie Kónig, gue descobriu essas gÍutas e publicou a pri'
meira descrição delas, com fotografias, diz também participaÍ da opi.
nião (e ela nalo está contaminada pela psicologia junguiana ou por
qualquer coisa parecida) de que essas grutas apres€nt:rm as primeiras

t0s
lentativis de estabelecimento de uÍna espécie de üsão ordenada do
universo de tempo e espaço -
umâ tenlativâ de estâbelecimento de
coordenadas de tempo e espaço e de alguma ordem no mundo confu.
so que os cercava. Aí lemos umâ conexão imediata entÍe Íitmo,
movimento ÍítÍnico e energia psíquica, mobilizada a fim de produzir
número e ordem.
Historicamente, talvez seja essa a origem da conexâo, e vemos
em que gÍau o número está absolutamente ligado âo ritmo. Na Grécia
anli8a, existe ainda a.lgo que apontâ nessa direção. A palavra gega
pua número ê orithmos, que é, como todos sabem, donde deriva a
palavra aÍitÍnética, e ritmo é rhythmos; a Íâiz etimológica é a mesma.
Assim, na palavra grega para número está preservada a idéia de que o
número era originalmente un ritmo e, eu acrescentaÍia, um ritmo
psíquico.
Como sempre na Chinâ, os modos muito arcaicos de represen.
tação, abandonados por outras civilizâçôes, foram preservados, sendo
por isso que, naquele pâís, até o momento pÍesente, o número é
ritmo, um rilmo sensível, uma harmonia, uma composiçaio qualita-
tiva. Na China, por exemplo, uma pessoâ pode dizer que o âo, na
música, ou de uma sopa, é bom, pois a sopa também é como um
conceÍto de várias Íeações sensíveis - uma boa sopa, com muitos sa.
bores combinados nela, é como uma composiçâo musical. Iío, para os
chineses, significa harmonia musical e eles usam a palavra âté para des.
crever a qualidade dc uma refeição. Temos aqui de novo uma ilustra.
çâo da harmonia do Íitmo, neste caso, de impressões gustâtivas.
Portanlo, eu formuluia a hipótese de que o número possui aspectos
quantitâtivos e qualitativos, que sâo complementares, e de que,
basicamenle, expÍessa um Íitmo de energia, que pode ser contado
quanlitativaÍnente ou experimentâdo pelo sentimento como uma
qualidade ou eslÍuluÍâ, e isso era algo conhecido de certos povos
oÍientais.
Um de meus antigos alunos japoneses, o Dr. Mokusen Miyuki,
chamou-me â âtenção para o fato de que, quando o Budismo foi trans.
plantado para a China, houve diferentes diÍeções e diferentes filiações
dos ensinamentos originais do Buda. Uma dessas Íiliações, caracte-
rizada como muito âbstÍâta e filosófica, foi o chamado Húa Yen

t06
Budísmo e, tal como os Zen Budistas, suas tradições eram transm!
tídas por uma série de patriarcas. O terceiro patriarca dessa tradição
foi um homem chamado Fa Tzang, que desenvolveu uma teoria
numérica a Íim de explicar pela matemática como o Buda, de acordo
com a tradição, pregou um ceíto sutÍa num estado de profundo
êxtase. lsso foi questionado por alguns intelectuais, que disseram:
"Como poderia o Buda pÍegaÍ quando estava mergulhado no sono, em
pÍofundo êxtase? Em tal momento, ele estaría no Si.mesmo (§eífl,
onde a consciência do mundo ou de outÍas pesoas desaparece, não
havendo, portanto, motivação paÍa pregaÍ. Quem está em êxtase e em
união com o §eí/ está silencioso e desfruta esa unicidade em siléncio.
Como poderia ele, nesse momento, começaÍ a prcgar, com se tivess€,
ainda, a peÍcepção conscierlte de outras pessoas à sua volta? Para um
homem nesse estado, as outÍas pessoas não existem."
Essa era uma contestação estúpida, mas não realmente ingênua,
e Fa Tzang tentou explicar o fato pela matemática, dizendo que ele
tem sígnificação igual à da relação que o número üm tim cbm outros
números, isto é, que nâo podemos ver coisal sührtltaneamen te,
poÍquanto, ou estaÍnos no §i.mesmo e, nesse caso, gs otltros não
existem, ou vemos os outros e não estamos no Si.mesrto, mas somos
por ele possuídos quando pÍegamos com a peÍcepção consciente da
existência dos outros. Ou uma pessoa está consciente do Si.mesmo e,
então, nío vé os outros, mas o Buda, de íato, cncontrava-se em duplo
estado mental, de modo que, paradoxalmente, Íicava em ambos os
estados ao mesÍno tempo.
Isso, disse Fa Tzang, podia ser explícado pelo fato de podermos
considersr o número desse modo. Falou do número em progessão
(figura l3), sublinhando que os números sâo contados assim, em
progÍessão. Disse que o número 6 ou l0 (ele só vai até l0) não pode exis-
tiÍ sem o I , do gual é, realmente, um aspecto. Mas tâmbém devemos con-
siderar um número em ÍegÍessão e ver que o l0 é, de fato, uma especiÍica-
ção qualitativa do número l. Portanto, tem-se que inventaÍ uma forma
retÍógÍada de contagem, sempre relacionada com o l, e podemos, en-
tão, compÍeendeÍ o que ocoÍreu com Buda: quando ele se voltou para os
outÍos, encontÍâva.se em estado de píogÍessão, olhando paÍa os
mútos outros Si-mesmos das outras pes$as e tentando convertê-las,

107
enquanto quc, ao mesmo tempo, ao olhar Íeglessivünente, estava
âpenâs em seu um.

| -2-3 + l -+ J -> $ + I + $ + t -+ tQ PÍOgressâo


I - 2 - 3 + tf e § + § <-. J <- $ + t <- lQ ÍegÍessâo

Figura 13

É, naturalmente, uma especificação do pâÍadoxo da Íilosofia


indiana o fato de o Atmâ pessoal - o Si-mesmo pessoal - e o AtmiI
supeÍapessoal seÍem idênücos. Assim é nos Upanishads. Muitos textos
dos Upanishads dizem que, se um homem alcançar o seu Simesmo
pessoal, o Purusha dentro dele será, simultaneànente, idêntico ao
Si-mesmo cósmico e, poÍ conseguinte, será um com todas as outras
pessoas. Asim, essa unicidade ou alteridâde e seu paÍadoxo desem-
penham um grande papel na múto mais antig,a filosoÍia hindu c isso é
âpenas uma especificação taÍdia. Tive conhecimento de Fa Tzang
somenle após ter concluído o meu livÍo, mas Íiquei deliciada ao des-
cobriÍ um irmão em espirito paÍa a minha idéia de que deveríamos es
tabelecer âgoÍa uma matemática do número qualitativo.
Iancelot L. Whyte, já citado anteÍiormente, disse que írÍltes de
podeÍmos integÍü o mundo da quâlidade no moderno mundo da
ciência, lemos de inventar um novo ramo da matemática com que
possamos apreendê-lo, e eu penso vislumbrar ao menos o início de
como isso podeÍia seÍ realizâdo. Se atentarmos paÍa esses númeÍos qua-
[tativos, como sâo usados pelos chineses, poÍ exemplo, os númeÍos
1,2,3, 4 nâo seÍâo quanlidades diferentes, mas seqüências, no tem-
po, da mesÍna coisâ; veÍemos primeiro a totalidâde e, depois, a faceta
seguinte, depois a seguinte, mas é sêmpÍe o mesÍno l. A seqüência é a
continuaçâo do número I auavés de roda a serie (figura l4), aspectos
diferentes do mesnro número I , num contínuo subjacente.
Exislem outÍos conceilos matemáticos de contínuo, sobre os
quais nâo devemos pensar agora, pois são quântitativaÍnente definidos.
Estou descrevendo uma idéia do contínuo diferente da encontrada nos
livros de matemática. Essa outra concepção de contínuo já é nossa
conhecida, alravés da famosa sentença alquímica de Maria Prophetissa,

108
que assim rczâ: "l toma-se 2, 2 torna-se 3, e do terceiro vem o I como
o quarto." Como se vé, ela conta até 3 e depois diz: mas todos esses
sáo realmente o I- ela concebe de novo a unicidade dos três e, de'
pois, coloca.os todos juntos como 4. Nossa mente opera de forma
progressiva, pois quando contamoi normalmente 1,2,3,4,5, produzi-
mos wna cadeia, ao passo que, quando contamos qualitativamente,
podemos fazer a mesma coisa e dizer que agoÍa temos 4. Sim, mas o 4
é realmente o contínuo do I em 3, de modo que retrógrado:4 é uma
uúcidade de 3, e acrescento essa unicidade ao 3 para fazer 4, ou 5 é a
unicídade de 4, etc. Isso é o que realmente ele é na China, pois o 5,
parr os chiners, não é o número que se segue ao 4, mas Íepresenta a
unicidade do 4, que, por sua vez, representa a unícidade do 3.
No mundo ocidental, a única situação onde encontÍei um modo
semelhante de contar íoi a da especulação da Trindade. Um homem
famoso, Joachino da Fiori, acÍeditava sinceÍaÍnente e entendia que a
Trindade era três hipóstases da Divindade, mas tamtÉm que eÍaÍr to-
das uma - não três pessoas distintas, mas três hipóstases da meona
coisa. Assim, disse ele, a Trindade tem uma substância comum, e de.
pois começou a falar da substância comum como o quiuto elemento,
mirs o Papa condenou-o poÍ tentaÍ introduzir uma quatemidade
celeste em vez de uma Trindade. Mas, da Fiori o fez mediante uma
conta: Se o 3 é l, então existe uma unicidade do 3, essa unicidade po
de ser hipostasiada separadamgnte; logo, I tem o 4. Maria hophetissa
também hipostasiou o 3, e obteve o 4.
Existe a mesma coisa na alquimia, no ensino da quintessência.
Na ldade Média, não acreditavam que a quintesséncia fosse mais um
elemento adicionado aos outÍos quatÍo; penssvam que toda a natuÍeza

t2345
Figura 14. Número cm PÍogÍ€ssão -
o contínuo de um.

109
consi§tia em qualÍo elemenlos e que a quinte§sência, o quinto,
eÍâ o um do quatro. Em outras palavras, há quatro etementos
-
âÍ e teÍÍâ que têm subjacente uma substância comurn,
água, fogo, -
a quintessênciâ. Assim, uma vez mais, os quâtÍo elementos retro-
gradam para a sua unicidade e, depois, hipostasia.se um quinto
elemento para â quintessênciâ.
Vemos aí que o nosso modo de pensar é retrógrado: Íetornamos
novamente ao I - que é, de modo gera.l, o inconsciente e, median.
-
te o pÍocesso da hipóstase, obtemos o quinto. lngo, em nossas
mentes, fazemos exâtamente â mesrna coisâ que Fa Tzang, pa::
quem os números também deüam ser contados em ÍegÍessão.
Ocorre, agora, um fato interessanle. Em todos os métodos de
adivinhação, que, no meu yeÍ, conslituem tenrâtivas primitivas da
humanidade paÍa contâr a energia psíquica e suas constelaçôes, as
I
contagens são feitas de rrás para diânte. No Ching, tomaÍn.se 50
hastes de milefólio e uma é posta de lado. Depois, apanha-se um
feixe, que é contado de lrás para diante âté haver um Íemânescenle
de uma, duas, três ou quatÍo hastes, de modo que, literalmenle, a
contâBem é feita por ÍetÍocessão; o mesmo ocoÍre em todos os méto.
dos de adiúnhação que usam números. Por exemplo, na geomância,
apaúa-se um punhado de gÍãos de milho e procede.se à sua conta.
gem de trás para diante, até ficaÍ urn Íemanescente par ou ímpaÍ,
que entâo é usado como informação. Assim, todos os métodos
oraculares, provavelmente poÍ uma razão simbólica, usam a idéia
de contar números regessivÀmenle.
O que descreú é uma operação menlal, isto é: quando tenho 3,
vejoo realmente como l, poÍtanto, o 3 é o 4 e, entâo, digo que o 4
é realmente I caso eu tenle pensar em chegar ao 5. Ora, isso é uma
etapa no tempo de compÍeensáo, mas só é verdadeiro paÍa a nossa
menle consciente. No inconsciente, exisle um contínuo em que
todos os números são idênticos, tal como os arquétipos são idênti.
cos. Ou poderÍamos postulâÍ que todos os números, sendo idéias ar-
quetípicâs, sâo idênlicos no inconsciente; mas se quisermos recons-
tituiÍ isso ou obter um conceito de ral fâto, em nossa menle conscien-
te, leÍemos, então, de fazer a conlagem qualitativa dessa forma
retrógrada.

ll0
Encontrei um belo exemplo disso entre os navajos. Creio que
teúa sido a Sra. Baynes quem me deu um ladrilho modeíno dos
navajos, onde figurur as quatÍo deusas do panteão navajo (Íigura l5).
Elas têm as cabeças quadradas, uma saia e peÍnas. Essas quatro
deusas são ÍepÍesentadas dessa maneira e, depois, vem um detalhe
curioso, pois a quaía deusa é a primeira deusa invertida. Trata.se de
uma visualização da sentença de Maria hophetissa. Do I vem o 2, do
2o3,eo I do3éoquarto.
Parece trataÍ-se, pois, de um modo arquetípico de contar: num
determínado número sempre se reverÍe ao um, que é hipostasiado
como o quarto. Foi o que Fa Tzang descreveu como número em
regressão, e é o tipo de matemática usada pela maioria das técnicas
de adivinhação: conta.se de trás para diante, até o I original, ou o 2,
e daí se tira uma conclusão.
Se pensarmos russo em termos psicológicos, nada há de es.
tranho, pois se estünos em dúvida ou numa situação incerta, somos
geralmente coníundidos pelo grande número de aspectos. Uma ação
teÍá esta conseqüência e uma outra ação teíá aquela. Ficamos confu.
sos e, Íinalmente, não sabemos em que pé estaÍnos. O desejo é de vol-
taÍ paÍa o signiÍicado uno, paÍa o centro de nosso próprio eu, onde
existe somente um signiÍicado e uma só dÍreçío a seguir.
Na geomancia, por exemplo, apaúa-se um puúado de seixos
-
inteiÍamente ao acaso essa é uma situâção multiforme e confusa, da

tr n
-'J,,- -'l.,- 'J-

A A
Figure l5 . As quatÍo deusas prirnevas dos navajos

lll
qua.l nâo conseguimos enxerg,aÍ a saída - depois esses seixos vão
sendo jogados fora dois, mais dois, mais dois, e assim por diante.
NaluÍa.lmente, podemos Íicar com um Íemanescente de I ou de 2
seixos, visto que pegarnos ao acaso um punhado par ou ímpar
deles. lsso tem que seÍ Íepetido várias vezes, e do resultado conclui.
se qual é a situaçiio da pesoa - expÍessa simbolicamentc - e a
pessoa afasla-se da confusão mulriforme, de regresso à unicidade
origina.l de tudo, ao seu centÍo, tal como é exprcso poÍ esse Beslo
simbólico ou Íitua.l. É por isso que se usa esse nrodo Íetrógrado de
conlaÍ.
Richard Wilhelm, em seus comentáÍios sobÍe o / Aing, exgli-
ca isso de umâ outÍa forma, que eu considero muilo ilustÍativa. Os
mélodos de adivinhaçâo normâlmenle sâo usados para dar um
prognóstico do fururo e o I Ching, em paÍle, tambem foi usado
desse modo inicialmenle. Wilhelm explica a idéia dos chineses
quando dizem: se soubéssemos como uma árvore se contrai numa
semente, podeÍíamos, entâo, pÍedizeÍ o futuÍo. lsso é o mesmo que
dizer que, se pudermos entendeÍ o pÍocesso retrógrado de desenvol-
vimenlo, podeÍemos, entâo, predizeÍ o fuluÍo. Ocorre a mesma
coisa na palawa Suan chi loi, que significa enumeÍaÍ â oÍiBem do que
acontecerá. Enumera.se poÍ ÍelÍocessâo até a oÍigem do que aconle.
cerá. Os chineses dizem que o futuÍo eslá sempÍe presente como
umâ semente, de modo que, se soubermos como uma árvore se
contrai numa semenle, poderemos, entâo, predizeÍ também como a
árvore se desenvolverá a paÍtiÍ da semente. Se conhecermos o ponlo
nucleaÍ, o âmago de uma situação, podeÍemos pÍedizeÍ suâs
cons€qüências.
Ora, em linguagem psicológica, ludo isso significa, que, se
conheceÍmos a mais profunda constelação aÍquetípica subjacente de
nossa siluâçâo atual, poderemos, então, em ceÍta medida, sâbeÍ
como as coisas se desenrolarão. Os sonhos aÍquelípicos são válidos,
em média, de lÍês a seis meses - mas, talvez, por dez anos ou uma
vida inteiÍa. Tudo depende da grandeza do sonho. Os sonhos pro.
venientes do inconsciente pessoâ.I sa:o vá.lidos por ceÍca de tÍês dias.
É por isso que, com muita freqúência, duÍante uma aniílise, alguém
tem umâ seqüência de nraterial pessoal; soúos.sombras, que são

lt2
Íeações cotídianas à atitude cotidiana. Trabalhamos em cima desse
material e, então, de súbito, como um corte, insere-se nele um
grande sonho arquetípico. lnterpretado, o paciente não consegue
entendê-lo e diz: "Sim, mas o que é que isso tem a ver com a miúa
situaçío? Estou impressionado e sinto que, de algum modo, tÍata'
se de um soúo muito profundo, mas não vejo ligaçÍo alguma com
a miúa situação atual." Por miúa experiência, temos de dízer:
"Espere", pois usualmente leva de dois a três meses pua que tal
situação se desenvolva completamente e se conveÍta numa Íealidade
consciente. Então, de um modo geral; ocorrem eventos internos e,
poÍ vezes, eventos exteÍnos sincíonísticos; e, após três meses, eÍn
ÍetÍospecto, a pessoâ podeÍá dizeÍ: "Ah, agora eu entendo o que o
soúo significou." Levou todo esse tempo paÍa vir à tona e, quanto
mais profundo íor o soúo, mais tempo levará. Desse modo, a
pesoa chega à constelação mais profunda e pode predizer o futuro.
A idéia chinesa é a de que se uma pessoa coúece a constelação
mais profunda, então coúece a constelação que ainda será válida
daqui a dois ou tÍês anos e, praticamente, é assim. Foí por isso que
Jung se interessou tanto pelos soúos das crianças; o mais precoce
sonho de uma criança prevê, por vezes, a vida inteira. É como a
semente; analisa-se o sonho de uma criança e vê-se a semente de uma
vida que, subseqüentemente, será uma árvore em toda a sua pleni-
tude. Já se üslumbra a semente no sonho arquetípico de uma
criança de dois ou três anos de idade. Poderíamos dizer, portanto,
que o que na realídade fazemos em psicologiâ é também contar
retÍocessivamente, e penso ter sido isso o que, de fato, levou Freud
a atribuir tanta ênfase às primeiras experiências infantis. Ele foi
realmente inspirado poÍ essâ idéia, mas colocou-a na consciência e
somente nos eventos exteriores da inÍãncia, ignorando a constelação
arquetípica. O sonho infantil é a semente de todo o destino, um
Schicksal completo, poí vezes e, se pudermos ler esse padrão, pode'
remos, assim, em certa medida, ler o futuro desse padrão vital. Não
se pode ser específico, mas é possível, de um modo geral, ler o
padrão. Com base nessas experiências, os chineses inventaÍam es§e
método de contagem retrógrada, quando usaram os númeÍos Paía a
adiviúação.

lt3
Chegamos aBora a rrm outÍo âspeclo. Notei, como alguns leito-
res tanrbém teÍâo notado, que me contÍâdisse em ceÍlâ medida.
Voltemos à disposição dos números. Por vezes, eu disse que os
númeÍos, qualitâlivamente, são aquele contínuo que ú na seqüên.
cia de tempo desenvolve oulÍos aspectos, mas é sempÍe a mesma
coisa; e depois usei mélodos de contagem relrógrada que voltam
a tÍataÍ os númeÍos como uma entidade scpaÍada, descontínua: o 3
era algo diferente do 4, etc. lslo rclaciona.se com a intemporalidade
relativa das camadas mais profundas do inconsciente. Como todos
sabemos, Jung pensa que as camadas mais profundas do inconscien.
te, o que significa especificamente as camadas do inconscienle coletivo
na psique, são relalivamente intemporais , isto é, fora do tempo e do
espaço. Como acabei de mencionaÍ, poÍ vezes, num sonho infantil,
todo o destino de uma pessoa já está presente; o futuro está, poÍ
assim dizer, pÍesenle no inconsciente. Mas, como experiência
consciente, esse ser humano podeÍá levar mais de vinte, tÍinta ou
ses§enta anos paÍa conuelizá.lo; assim sendo, devemos admitiÍ que
certas constelações arquetípicas sâo Íelativamente eleÍnas. Eu nâo
Bostaria de dizeÍ eleÍnas, poÍque até agoÍa só podemos observar que
elas sâo relativamente inlempoÍais, âo passo que a nossa mente
consciente - o pensamento discuÍsivo e lodos os processos da
consciência - está vinculâda ao tcmpo. O conceito de tempo,
seja qual for o seu significado, ccrtarneDte está vinculado ao fluxo
de energia na consciênciâ, poÍquanto os nossos pÍocessos conscientes
se sucedem uns aos oulÍos.
Existem momentos em que o inconsciente não segue essâ oÍ-
dem; por exemplo, no modo como ceÍtos malemáticos descobrem
suas leoÍias. Henri Poincaré descreve como úabalhou, duÍânte
longas semanas, num problema envolvendo o que hoje se châmaÍn
funções automórficas. (Não tentaÍei explicá-las, porque eu mesúnâ não
as entendo; tÍatâ.se de um complicado conceito de matemáticâ supe-
rior.) Ele se achave incapaz de encontÍâÍ â solução e pouco depois
foi chamado para o serviço militar. Uma noite em que estava muito
fatigado, bebeu café e perdeu o sono; subitamente, ele viu, como ele
mesmo descreve, idéias e combinações voando ao seu redor como

tt4
átomos no espaço, combinando-se, separando-sc de novo e, de
repente, Í-rzeram o tipo ceÍto de ligação e ele viu a solução com-
pleta! Num abrir e fechar de olhos! kvurtou-se, mas levou mais
de meia hora para desenvolver o procedimento da prova e pasxtí
tudo a limpo. A mente consciente necessitou de meia hora de argu-
mentação, um aÍgumento após o outro: disto segue-se aquilo, daqui-
lo segue-se aqueleoutro, até que finatnente obteve a proya gue o
tomou famoso no mundo da matemática - mas ele vtu tudo isso
num relurce.
O mesmo ocoÍÍeu com o célebíe matemático Gauss. Da mesma
mureira, ele descobriu um dos teoremas dos números, Contou ele:
"Miúa mente estava absorta no problema, mas era incapaz de
vislumbrar a solução; então, de súbito, pela graça de Deus, num
relâmpago, vi a coisa toda, mas, mesmo depois, não pude dizer como
cheguei à solução ou o modo como aÍgumentei e que ligação havia."
Causs viu a ordem toda, por asim dizer, intempoÍalmente, mâs
depois sua mente consciente teve de trabalhar conforme as linhas de
ligação e transformá-la em prova matemática, o que consiste numa
pÍiÍneiÍa, segunda, teÍceira e quaía etapi§, e assim por diante.
Todas essas sugestões apontam para o fato de que no inconscien-
te na:o existe esa seqüência de "um após o outro". Esse é o método
-
a que nosss mente conscÍente está subordinada através do tempo e
-
do espaço trata.se do único modo como nossa mente pode funcio-
naÍ, mi§, de alguma forma, no ínconsciente, espaço e tempo se
tomam relativos ou, se não se dissipam, toÍnam-se ao menos muito
flexíveis e deixam de ser válidos como em nossa consciência.
Os chineses, poÍtanto, quando tentaram descrever a totalidade
do unÍverso, ÍecoÍreÍün à idéia do estabelecimento de duas ordens.
O leitor lembra-se do Lo Chu e do Ho+u. Q Ho-tu está ligado ao que
eles chamam a ordem etema do universo, em que céu e terÍa se opõ€m
mutuamente, com os elementos dispostos de acordo. Trata-se, de
certa forma, de uma mandala na qual todas as possibilidades arque-
típicas estão dispostas; um câÍnpo ârquetípico, a que chamam a
ordem etema e no qual dizem que os elementos estão em conexão
de energia, mas não se combatem nem se movem. Isso significaria,
por exemplo, que existe fogo e água, e que eles possuem uma espécie

I l5
de tcnsão de energia entre si, como num campo magnético, mas que
nã'o sc deslocam nem g,iÍaÍn, estândo numa espécie de imobilidade
animada. & quiséssemos, num símile poético, poderíamos compaÍaÍ
esse falo com a libélula, que pode paiÍaÍ no âÍ como um helicóptero,
enquanlo executa movimentos muito freqtientes com as asas; ela se
movimenta mas peÍÍnanece completamente estacionária; é assim que
poderíamos imaginar essa ordem. Ela está plena de tensâo e de übÍâ-
ção inteÍioÍ mas, como um todo, está imóvel e, poÍ conseguinte, na:o
se inscreve no tempo ou no espaço.
A segunda mandala foi feita pelos chineses, para descrever a
ordem do universo, que eles denominam a Ordem Celestial Mais
Jovem. Esta é construída conforme â matemáticâ, com bas€ no
Lo Au, de modo que se pode dizer que ela se movimenla ciclica.
mente, num ciclo temporal. Na China, como na lídia, eles tiúam a
idéia de um ciclo, de um movimento cíclico do tempo.
Imaginar o tempo como um movimenlo cíclico, e não como um
movimento linear, é tipicamente oriental. fusim, uma ordem está
vinculada ao tempo, enquanto a outrâ, não: é eleÍna. Foram chama.
das de a Ordem Celestial Mais Velha e a Mais Jovem.
Uma das mais ântigâs formas de adivinhação consistia em de.
senhar a etema OÍdem Celestial Mais Velha numa prancha redonda,
representando o céu, e a Mais Jovem, numa prâncha quadrada, para
rêpÍesentâÍ a teÍÍa. AtÍavés de um orifício no centro de cada
prancha, faziam passar uÍna vaÍa. Giravam as duas, uma contÍa a ou-
lÍ4, e depois deixavam que se imobilizassem; pela maneira como as
duas se combinavâÍn, como nuna roleta, liam a situaç/Io.
Essa é uma das mais antigas foÍmas de adiünhação; só recenre.
mente essas duas pranchas foram escavadas na China e sâo, pÍova.
velmente, mais antigas do que o I Aing. O que me parece de suma
impoÍtância é a idéia de haver dois sistemas inteÍagentes que, desse
modo, representam a totalidade.

l16
5E PALESTRA I S,N CCONIC, DADg

Em seu estudo sobÍe a sincÍonicidade, Jung enfatiza que, como


os domrnios físico e psíquico coincidem dentro do evento sincro.
nístico, deve existir em algum lugar, ou de algum modo, uma rea'
lidade unitária - uma realidade dos domínios físico e psíquico,
para a qual ele usou a expressão latina unus mundus, o mundo
uno, conceito que já existia na mente de alguns Íilósofos medie-
vais. Esse mundo, díz Jung, não pode ser visualizado por nós e
transcende, por completo, a nossa apreensão consciente, Só
podemos concluir ou pressupor a existência em algum lugar de
tal realidade, uma realidade psicofísica, como poderíamos chamá-
la, que se manifesta esporadicamente no evento sincronístico.
Mais tarde, em Mysterium bnjunctionis, Jung diz que a mandala é
o eguivalente psíquico interno do unus mundus.
lsso significa, como sabemos, que a mandala ÍepÍesenta a
unicidade essencial da realidade interna e externa, e aponta para um
conteúdo psicológico trânsc€ndente, que só pode s€r apÍeendido
índiÍetamente, através de símbolos. As muítas formas da mandala
piuecem apontâr pâÍa essa unicidade, sendo os eventos sincronís'
ticos o equivâJente parapsicológico do unus mundus e aPontando,
também, paÍa essa mesma unicidade dos universos psíquico e
físico. Portanto, não surpreende encontÍar na história combinações
deses dois motivos, isto é, das estruturas da mandala e das tenta-
tivas passadas de adivinhação, a fun de apreender a sincronicidade.
Eu chamo a essas mandalas, mandalas diünatórias.
Eistem muítas técnicas de adivinhaçalo em que uma mandala é

ll7
o instrumento, sêndo is mais conhecidas o hoÍóscopo e horós-
copo de tÍânsilo. Já descrevi, em linhas geÍais, as duas ordens
mundiais dos chineses que eÍam desenhadas em duâs pranchas que
eÍaÍn BiÍadas umâ contÍa a outÍa para fins de adivinhação. Existem
muitas outras de tais mandalas, também encontradas na Antiguidade;
por exemplo, na medicinâ antiga, havia as chamadas esfeÍas de
adiviúação. Registravam.se a idade do pacienre, o dia, o mês e a
posição da lua em que ele adoecera, e essa informaçâo era rodada
na mandala matemática até seÍ âlcançado o prognósúco. Se os
Íesultados numéricos caíssem na parte inferior.das esfeÍas, o pa.
ciente morreria; se caíssem nas pâÍtes superiores, então, ele ida se
ÍecuPeÍâÍ.
Esses círculos ou esferas tâmbém eram usados para a adivinha.
ção em geral. Por exemplo, se urn escravo fugisse, podia-se perguntaÍ
se ele voltaria ou seria encontÍado, ou se estava perdido paÍa sempre.
O método usado era o mesmo, ou sejâ, tomavam.se a idade do
escravo, o dia em que ele havia fugido e alguns outÍos números; tudo
isso era registrado nessas esfeÍas e, seBundo o lugar onde caíssem os
resultados, pensava.se ficar na posse de informações sobre o desfecho
da situação.
Essas técnicas um tanto âbsuÍdas moslrâÍn que, no fundo da
menle das pessoas que as inventaram, estava a idéia de que o possível
conhecimento, que poderiam obteÍ aceÍca de tais eventos, estava liga.
do ao unus mundus, o que explicaria por que as desenhavam em
forma de mandala.
O aspecto mais impressionante é que, toda vez que mandâlas
foram usadas pâÍa a adivinhação, era freqüente o uso de estrufuras
de duplo mandala, isto é, de duas rodas que se entÍecruzam, sendo
uma roda geralmente fixa, representando um aspecto da realidâde,
enquanto â outra giÍa sobre a roda fixa; a combinaçâo das duas é
usada para a adivinhação. Essas mandalas duplas na China (nós
tâmbém as temos), que giram umâ contÍa a outra, são, como men-
cionei antes, a Ordem Celestial Mais Velha, um arranjo das 64
posibilidades ou permutações dos hexagamas do I Aing, e a Ordem
Celestial Mais Jovem, que tiúa uma disposiçâo diferente dos mesmos
lÍigramas e hexagramas do I Ching. Na Ordem Celestial Mais Velha nâo

ll8
existem pÍocessos tempoÍais de energia, mas uma espécie de dina.
mismo em equílibrio consago mesmo; enquiulto que na Ordem Celes
tial Mais Jovem está representado um processo cíclico de energi a
gm s.u estuao soUre a , Jung também chegou tr!
conclusão de que os eventos sincronístícos não são a nas acontec
mentos irregulaÍes e espor L os, sem qualquer ordem. No final d i1
Íl:
estudo, Ele formula a hipótese di ue se trata de fenômenos aleató.
rios do que ele chama de orden oa causal- Em outras palavras,
teríamos que pressupoÍ que existe, tanto na realidade ulca
quanto na física , uma espéc eor mouoÍ en ação lntemporal, que
se mantém sem re constante, e que os eventos sincronísticos se
enquadram na área sses acontecimentos, dos quais são concreti
zações esporádicas singulares. vi ^ '--.'- 'ir'-ocà\ aL +t-Í"'
Como exemplo de ordem acausal no mundo fiiico, Jung
menciona a 4g!94SÍeçêq radlg4!ryC e a sua ordem temporal constante.
Chama.lhe acausal porque não temos possibilidade de explicar
causalmente por gue a deterioração radioativa ocorie nessa ordem
numérica, e não de alguma outra forma. Trata-se, por assim dizer, de
uma história do tipo "é assim mesmo". Como exem plo da constância
da ordenacão acausal no domínio o slqutco , Jung menciona as qualida.
des dos números inteiÍos naturais. Por exemplo, não podemos dizer
Por uê, ou ex licar causalmente uê, certos inteiÍos são nú
nmos e ue estão di ostos do m como estão; taÍnbém isto é
uma história do tipo "é assirn m esmo" ; súnP smente, uI_..[aleg
nilo podemos reportar a uma causa. A questgo d o porquê, ou de onde
provém isso, é irrelevante nesse momento; apenas podemos dizer que
isso é como é.
Eis, ortanto, o que Jun entende r orde acausal
iÍica cert aso e o ínios mental e físico , que são 8 sua
melhor expressão. Trata.se de uma história do tipo "é assim mesmo"
O mais im ressionante rém, é a sua absoluta constância pois não
ocorrem desvios ou vari s indíviduais. Podemos admitir , portanto
que exrs te na natureza um certo montante de ordenaça:o acausal
Irr
certas ordens que as naturezas física e psíguica conservam, produzin
do, dessa forma, mediante esses eventos constaÍlt€s, uma ordem cons. €).*,a/5
I E:t
tante. Os eventos síncronísticos seriam manífest es dessa ao J 1t,. ttat,
r,᧠^rro
v14 7
l19
acâusâl; mas, em conlÍaste com os eventos Íegulares e Í conse-
uinte, completamentê Íevisíveis, o evento sincÍonislico ocoÍÍe
dentro dessa ordem, mas é único e orádico e im revisível
Quando Jung apresentou pela primeira vez sua hipótese do
princípio de sincronicidade, houve muita discussão sobre se ainda
não seria possível uma lei sob a ual ven os sincÍoníslicos teÍiam
cerla Íe 8u laridade ou o eceriam a ceÍtâs leis e, por conseguinte,
tomar-se-iam previsíveis, de modo que en ta-o pudéssemos agora dizer
tal situâç do, deve ocorÍeÍ um evento sincÍoflístico. Nâo foi pos'
t>ç"rl sível desco riÍ isso âté a, e Jun g, após longa scussã o e reflexâo,
concluiu que temos de admitiÍ, por mais que isso irrite nossâs mentes
racionais, que os evenlos sincÍonísticos são histórias do tipo "é assim
mesmo".
Mas, poder-se-ia perg untar: Por que, então, â humanidade
sem P Íe tenlou, desde o come , inventaÍ métodos pan predizet a
sincron.icidade ? Ao que se poderia respon erq ue a mente priml lva e
ue confundiu sincronicidade e c dade ; isto é, âs pessoas queriam
realmente predizer de um modo causal, mas, como não pensâvârn com
clareza, tinham em suas menles confusas urna espécie de conggpçfu
mágica de srqercnle rdêOe e causalidade e, poÍtâÍllo, supunham ser
possível predízer. Isso pode ser verdade até ceÍlo ponto, mas, se
observarmos mais meticulosamente o que aconlece nas diferentes
técnicas de adivinhação, conclui-se que oJ_qven!.q§_Jeais nunsê_§&
tos, mas, u, a ouolidode de po ssÍvers eventos
Por exemplo, em astrologia, se uma pessoa muito idosa tem um
número extremo de constelaçôes negativas em seu horóscopo de
tÍânsito, o astrólogo poderá arriscar o palpile de que essa pessoa,
provavelmente, logo sucumbirá, de modo que se poderá falu em
possível morle. Discuti isso com vários astrólogos e todos eles confiÍ'
mam nâo_ ser possível, por exemplo, predizer a morte de umâ Pessoâ
através de um horóscopo; tudo o que se pode dizeÍ é que parece
existir uma constelâcão muito dif ícil e que, se a Pessoâ já está velhâ e
doente, há a possibilidade de que, em tal dalâ, sua moÍte ocoÍÍa.
Se o leitor está familiaÍizado com a lécnica de logat o I Ching,
verá que ele também nâo orevê o oue de fato acontece-- aPenas diz
"azar inesperado" ou alguma coisâ no gênero e, então, acontecerá algo

t20
dentro dessa área; mas não pode predizer que o jovem leitor receberá
uma caÍta de sua mãe, dizendo que não lhe mandará mais diúeiro.
Quer dizer, isso não é lido no I üing; o que se pode ler apenas é
"azar inesperado" ou coisa parecida. Em outras palavras, a previsão lll
refere-se tão-somente à ualidade do momento em e um evento :L\
sincronístico po derá ogorrer o motivo pelo qual, por exemplo,
esse
os adívinhos, os médicos- feiticeiros etc. jaÍnais juram que alguma
coisa aconteceÍá inevitavelmente, mas limitam.se a dizer que existe
apenas a probabilidade ou a possíbilidade de que aconteça algo nessa rt
átea.
O mesmo é válido rté gaÍa os soúos prognósticos. Outro dia,
um amigo meu contou-me que, há vários anos atÍás, quando costuma-
va praticar assiduamente o alpinismo, teve um sonho, antes de partir
numa expedição, de que uma avalancha de pedras iria matá'lo. Ao
despertar, pela manha-, estava muito preocupado e considerou se
deveria ou não cancelar a expedição; mas depois achou que, se a
cancelasse, iria se sentir um covarde e teria vergoúa de sí mesmo.
É provável que também a sua curiosidade tenha sido aguçada para
saber se isso aconteceria ou na:o. Assim, decidiu paÍtír de qualquer
jeito, mas tomou uÍn segundo guia, que não tiúa utilidade alguma,
como já veremos, mas que Íepresentava para o meu amigo a idéia de
que tinha de tomaÍ Íeca ões. Na verdade, realizaram a escalada e
nada aconteceu - exceto que, já no caminho de regresso, houve uma
avalancha de pedras, que por um tÍiz não os apanhou. O segundo guia
não teÍia ajudado em nada e todos eles teriam moÍrido. Assim, o
rnco nsciente não foi caoaz de ore zer com Íl rosa exatidão o que
ia acohrccer, mas previu um acidente nâs montanhas e, portanto,
houE um pouco de "é asÍm mesmo" naquele lado que não poderia
ser previsto. Somente foi prevista, no sonho, uma pÍobabllÍdade.
Parece, pois, que o conhecimento absoluto das camadas mais
profundas da nossa._9I ue lncon
síncronísticos e outro§" com tal exatidão mas po de esb ar uma
rmaSem , mais ou menos enevoada, das sst S também isso
o ue as ecnlcas ea lv ao azeÍ i e las não dcÍinem nem
pÍeveem o P ossível evento sincronístico, porque isso tiãEto-imprc
vlsivel, mas so esb iun, com a a uda da ordenaç ão acausal , a qualida-

t2t
de_ 4g__Um__rnSÍng!!o do tempo. Assim sendo, pode-se dizer que, se
alguma coisa âconteceÍ, rccairâ na área desse campo qualitativo. Por
exemplo, "âcidente nas montanhas" seria, no câso âcima, o slogan
geral e, portanto, nâo seria provável que significasse um maravilhoso
encontÍo com uma camuÍça, mas, outÍossim, que aconteceria algo na
área de um acidente nas montaÍüas. A expeclativa inconsciente estayâ
voltada para essa área, mas o evenlo concÍeto e o modo como
ocorreria realmente não eÍâm previsíveis. lsso é válido piua todas as
lécnicas divinatóÍias.
lsto nos leva ao problema do lempo. e é inleressante verificar
que mesmo na física modema alguns físicos chegaram a problemas
semelhantes. O físico francês Cog141lg-!çaUregard tenta ÍesolveÍ o
problema sem conhecer nada a respeito de Jung. Escrevi.lhe pergun-
lando se coúecia a obra de Jung e ele me respondeu que só coúecia
a de Freud, mas que, depois do que eu lhe contaÍa, iria ler Jung.
Assim, a sua teoria foi formulada de um modo completamente
independente das idéias junguianas. Beauregard é professor de física
na Sorbonne, em Paris, pertence ao gÍupo de relativistas enlÍe os
físicos e está especiâlmente inleÍessado no pÍoblema do tempo.
O liwo de Beauregard intitula-se Le sõííl@eÍla
science du temps. Nele, Beauregard chega à conclusiÍo de e exrstem
duas áreas da re dade e Ítanto, ols llPos é tempo. Um típo é a
realidade física concreta, tal como os fístcos a co eccm, realidade
na qual o tempo geralmente é representado poÍ um pârametro; isso
signífica que o tempo é concebido linearmente. É o mesnro modelo de
pengmento que âpÍesenlei no começo de palestra sobre a
t, I causalidade. Concebemos o tempo como uma linha de eventos e,
poÍlânto, o repÍesentâmos em modelos físicos da rea.lidade através de
um parâmetro linear. lsto, diz Beauregard, está intimaÍnente ligado à
nossa consciênciâ, ao passo q ue o mundo real, na acepção Íelalivísta
da palavra, é um mundo tetÍâdimen§onal e intem ral. Só a nossa
consc ncta calnrn ha ao onEo âs as mun o, de modo que o
fenômeno do tempo linear está vinculado à nossa consciência e,
concomítântemente, também à probabilidade, no sentido físico da
palavra, e ao nncl o de irre bilidade

t 1,
Em outras palavras, poÍ causa da entÍopia. há uma certa perda
de energia em todo e qualquer processo, de modo que, em cada
evento, a meta oslenta um potencial de energia inferior ao do estágio
inicial. Isso significa que a energia do universo "declina", por assim
dizer, na direção da entropia; a ineversibilidade de todos os eventos
Íeais observáveas na conscíência favorece o fato de o tempo ser lineaÍ,
de haver um curso de eventos que é, digamos, irreversível. Beauregard
formula, então, a peÍgunta: Não existiÍá, tambem; outra área da reali.
dade em que o âspecto contráíio é verdadeiro?
Os físicos têm toda espécie de estÍaúas pÍojeções sobÍe isso.
Alguns, por exemplo, imaginam que, longe, muito longe, em algum
lugar nos conÍins do unÍverso, eúste um mundo de "antimatéria"
onde todos os processos que podemos observaÍ em nosso mundo são
invertidos. Ni Íovou ou observou ese mundo; é a Penas uma
lm age m mental baseada na n oção de simetria ou equilíbrio
ll
o
sentimento de que, se vivemos num mundo em que tudo declina da
energia, deve existir algures um lugar onde a energia é acumulada.
B".,t*!g_d tem gu_tr_a, idéia_, ísto é, a de que um mundo tetradi.
mensional, na acepção mínkowski.einsteiniana da palawa, é idêntico
ao inconsciente, e a isso ele chama um "alhures". Nesse alhures
intemporal, nesse ailleurs, estão processos emfiã ocoÍre o oposto,
isto é, sistemas de de energia su rior são desenvolvidos. Esse
alhures tetÍadiÍnensional particlPa do mundo da informaçalo ou d{
Íe Íesen ão de ns mentais Em outras palavras, para ele, esd
alhures é algo psíquico, algo inconsciente e algo onde se estÍuturam
representações. Beauregard o chama tünbém de informaçío, mas
deÍine informação como Íepresentação mental. Esse mundo estrutuÍa.
do é complementaÍ do mundo físico, onde tudo se deterioÍa, e possui
sistemas de carga de energia superiores aos do nosso mundo físico. Ele
-
explica que isso possibilita ao homem que paíticipa deslr ailleurs
psicológico, esse mundo de representações - , mediante atos de voli.
ção, interrom r ele ro noo da natureza e voltar
sistqmas de ordem su perior. Desse modo, fazendo uso de seu
background psíquico, o homem poderá, com efeito, reverter proces.
sos "irreversíveis" no mundo físíco. No Íinal de seu livro, Beauregard
alude a esse outro mundo de uma ordem psíquica, no qual se estru.

t23
tuÍam os §stemas de cargas de energia supeÍioÍ, e afirma que iso é
idêntico à sua idéia de Deus.
E isle toda soÍte de pontos, quando se consideÍâ essa teoria de
, r* lo Beauregard, qu e, em minha ifliâo o muito tênues. Não estou
absolutamente convencida, mas diria que se tÍata de uma espécie e
.$tít concelto rntultrvo que §e aPÍoxrmâ bastante do que Jung chama o
inconsciente coFetivo". O que Beauregard descreve como esse alhures
tetradimensional, êm que Íepresentações são estÍutuÍadâs e donde a
energia é, enlão, ÍeliÍada, paÍâ inteÍfeÍiÍ em eventos físicos exteriores,
é o que definiríamos como o inconsciente coletivo. Ele chegou a isso
através de uma espécie de idéia similaÍ intuitiva. O ponto que me
paÍecê seÍ um liulto discutível é quando - poÍ causír de sua educação
-
ou formação católica ele descreve esse alhures, para ele o mundo da
Diúndade, como algo puÍamente bom, benélico, benevolenle, etc., e
aí colocaríamos um ponto de inteÍÍogação. Trata.se também, de uma
teoria puÍamente intuitiva, pois nilo nos fômece DÍoyas concÍetas paÍa
as suas idéias. Mas vemos que, mesrno na física moderna, existem hoje
desenvolvimentos, principalmente â Íespeito do problema do tempo,
que estão encaminhando eminentes físicos para idéias e descobertas
semelhantes ao ponto de vista jungúano.
Outro h-o4Àilque eu gostaÍia de mencionar é Albert lautmann,
matemático e físico iudeu.francês , fuzilado pelos nazistas aos 32 anos
de idade. Deve ter sido uma pessoa muito inteligente, mas, infelizmen-
te, publicou apenas um livro, q ue veÍsa sobre o princípio de simetria
e de asimetria. na naluÍeza. Ele desenvolveu uma teoria de dois
tempos: o tempo linear, que poderá ser representado matemalicünen.
te poÍ um parâmctro, digamos, uma liúa, e um outÍo tempo â que
chamou o tempo cosmogônico. Concebcu este úlrimo como um
campo onde, disse ele, "oco-r-re riam acidentes topoló gi!os". Tentou
inventar um modelo matemático para descrever o tempo em dois
fatores - ulUgloÍ.lnear, por um lado, e um fator de campo, por
outro. lsso, é claro, está próximo do ângu.lo matêmático, mas nâo é
a mesma coisa, como tentei descreveÍ antes - emboÍa existam certas
idéias destacadamente paralelâs, por exemplo, que poderíamos conce-
ber os interiores natuÍais como um c3Ínpo contínuo. kutmafln,

t24
evidentemente, empÍegou álgebra e geometria e não se ÍefeÍe aos
nú,rneros inteiros naturais. O seu campo de acidentes topológicos
seria, do meu ponto de üsta, outÍa hioótese intuitiva que sc aproxi-
ma da miú idéia de inconsciente coletivo concebido como urn
1r
cam contínuo, _ordenado pelos Íitm
O que Beauregard não tem à sua disposição e que não lhc
podemos acrescentar é que, para nós, os arquétipos seriam, poÍ assiÍn
dizer, 'tnáquinas" de produzir caÍgâs sltperiores de energia. Como
expressou Jung, o a uétí é um fenômeno ue produ ze teé,
poÍtiulto, como poderíamos dizer, nege ntróp ico; tÍata.se de um fenô-
meno negentrópico e, neste ponto, poderíamos contestü Costa de
Beauregard, dizendo que o ailleurs gue realmente cria os estados
supeíores de energia não é aquilo a que ele chama de representa-
ções. Beauregard é muito vago no que se refere ao fato de as represen-
E§õellgr§q-ggEg!4.t§s ou inconscientes; ele não estabelece uma
distinção constante entre as duas representações - mas poderíamos
dizer que as nossas Íepresentações conscientes não são máquinas de
produzir cargas superiores de energia. Em absoluto. Com a nosa
teoría dos ar uétipos, entretanto, podemos pÍovaÍ que €xr'srem esses
centros dinâmicos, centros ue rod[zem eneÍ ú[ica-, suplã
mentarmente, as Íepresentações de que Beauregar nos a. Nese
ponto, Beauregard não estabeleceu uma diferenciação suficiente, por
descoúecer as nossis investigações.
O que me paÍece iÍnportante é que, se considerarmos psicologi-
cünente a teoria matemática de Albert I:utmann ou a teoÍia física de
Beau regard, vemos que houve um esforç o no sentido da constr de
uma íe de dupla man a, m⧠na oÍÍna e uma teol l8 dois llr
st stemas comp mentaÍes: um vincu lado ao tempo e orrtro que contém T?e
uma ordem eterna. Os físicos modemos se inteÍessam pelo problema
do tempo, de mõdo que ÍecorÍem à idéia da dupla mandala. Não se
expÍessam nesses termos, mas é perceptwel, claramente, que a teoria
deles corresponde a esse antigo pâdÍão de penssmento, a um duplo
conceito de tempo.
o roblema dos motivos duplos tem, também, um outro as-
pecto. Se você se reco a, ung a rma que, enquanto escÍevia seu
estudo sobre a sincronicidade, descobriu que os soúos com motivos

t25
duplos parecem referir.se usualmente ao problema da sincronicidade.
E conta alguns de seus próprios soúos e os de outras pessoas; todos
obedecem âo mesmo padrão: descobre.se a.lgo imposível nâ natuÍeza
e duas altemativÀs se âpÍesen tam -ou ç na Íe a-
de de algo imposs ível, ou ocorre uma coincídência de dois fatos inco-
EglsuÍávg§.
Num sonho, por exemplo, no sonho de uma mulher, ela encon-
tra nas paredes de uma g,Íutâ, já descoberta, mas onde neúum ser
humano jamais estivera, desenhos que piuecem teÍ sido feitos pelo
homem. Era como se a própria nâtuÍezâ tivess€ feito os desenhos, as
cabeças, etc.; os deseúos linham todas as caÍacleÍísticas de terem
sido feitos pelo homem, embora ta.l fato, objetivamente, nâo fosse
possível. Num outro soúo, uma pessoa vê um frango unicelular na
tundra da Rússiâ selentÍional. Jung conclui que rais sonhos apontam
para a possibilidade de algo evidentemenre impossÍvel; cgl§3sgg_g&
totalmente im POSS íveis de acordo com a nossa visão consciente da
netuÍeza mas que, do ponto de ústa do inconsciente, existem de
fa!g. Com muita req cia, há motivos, por exemplo, de arte âtos,
que pensamos só poderem ser produzidos pela psique humana, como
certos desenhos ÍupeslÍes, mas que foram criados pela própria natu.
Íezâ. Jung usou esses soúos para assinalar o princípio de sincronici-
dade, isto é, no evento sincÍonístico, dois fatores, que se âP Íesenlam
i1çsaqb lyelnen te _cprnp- um, coincidem ou conveÍtem.se em uÍn
Observei o mesmo em meu p róprio inconsciente Enquanto
estava debruçada sobre esses p roblemas, sonhei que estava num
tÍem com muitos matemáticos. Eu tinha ido a penas pâÍa despedir-
mEleles, mas orhe-Fdo tÍem gÍitou: "Se você quer sair desse lrem,
apÍesse-se, porque ele esrá parrindo." Assim, no últirno minuto,
sa.hei, quândo o lÍem já estavâ em movimento. Os matemáticos
linham partido; que fazer agora? Depois, apÍoxiÍnei.me de uma
mesa sobre a qual havia fiagrnentos de escavaçôes de uma antiga
civilização hindu. Era o costumeiÍo mâteÍiâl dos museus. Havia
pequenos fragrnentos de cerâmica, e não se podia Íea.lmente
imaginar o que seriam, mas eu sentiâ um grande respeito por
serem t6o anúgos. Nâo eram muito âtÍaentes, devo admitir, mas
entre eles estavâ um c de cri comafi ra de um ovem
t26
segu Í:udo um cacho de uvas, uma fimtra de Dioníso , ou de um deus
semelhante a Dioniso. Isso talvez se referisse ao espt'rito yivo da
nitlu,rc?a.
Depois, continuei e subi montanhas, onde vi, como usualmen.
as
te acon tcce nas altas montaúusuíças, cabanas de madeira marrom,
algumas com pequenas hortas ao redor, âpenas com algumas cenouras,
etc., para as pessoas que vigiam o gado nessas altuÍas. As entradas das
hortas eram sempre marcadas por duas pedras. As pessoas assinalam
fÍeqüentemente as entradas com duas pedras ou pilares de pedra,
como havia aí; entretanto, agoía vem o detalhe surpreendente: as duas
pedras eram pedras comuns do campo, apanhadas ao acaso e de
formato irregular, mas havia se re duas e. dentro del Vll.Sê üm
padrão matemático de linhas douradas. ls duas pedms e seus respecti-
vos padrões eram completamente idênticos. Nâo haviam sido cortadas tr
paÍa se tomarem iguais; eÍam duas pedras diferentes, apanhadas
indivídualmente, e cada uma delas tiúa o seu padrão absolutamente
idêntico; algo que era absolutamente impossível na natureza. Eu
contemplava essas pedras com temor e Pe lexidade como explicar
aquela coisa impossível? I
Era mais outro soúo comparável aos que Jung descreve em seu
estudo sobÍe a síncronicidade, Eles mostram , como Jung sublinhou,
que ve existir um I oÍ ormal na natuÍeza ue coordena r asslm
dizpr , certí§ ormas do mundo físico rgra q !ryIdo_psíq$co,-gÉ
mun s mco mpatíveis. Mais tarde, Ju ng asínalou fÍeqii€ntemente
que, se as pessoas soúam tais coisas im possíveis, isso significa, em
geÍal, quee em um8 vl são excepcion me nte racional da Íeal
e o mconscte nte uer mostraÍ qu,e existe al go mil agÍoso, que não
obedece às leis da natureza, tal como Íacionalmente as concebcmos
que existe algo além disso. O gue tamtÉm impressiona é o fato de
-
haver um duplo motivo , que contém um elemento de simetria, como
nas mandalas duplas, quc são mutuamente simétricas.
Or @l91{gg!9r, como usualmente os inrerpretaÍnos, refeÍem.
se, de um modo geral, a algo que está chegando ao limiar da consciên.
cia. Se alguém sonha com dois cães idênticos ou pessoas idênticas,
etc., isso signiÍica que esse conteúdo está subindo do inconsciente e

t27
aceÍcímdo-se do limiar da consciência; ao âtinBiÍ o limiar, diüde.se
em dois. Penso ser por isso que taÍnbém lemos, a ÍesPeilo de todas
as liúas de dernarcação, essa idéia de colocar pedras duplas, pilares
duplos, etc. Sempre usamos um duplo indicador no lirniu; t14Q5e
de um irrefreável im pulso simbólico, sugerindo que o limiar da
consciência é um enomeno up o, por assim dizer, o que, tudo
somado, apontâÍiâ para o fato de que aquilo que chamamos de tempo
é uma idéia aÍquetípica, ainda nâo propriamente consciente para nós.
Ainda nàí§ãEãõGlue é o tempo, realmente, e, segundo parece,
chegou o momento em que o aÍquétipo do conce está
se avizinhando do limiar dâ consciência
Até onde posso ver, exisle em toda rte essa idéia de duas
ordens, que chamarei agora, como fez Juns- de ordenacâo acausa.l.
q ue é intem al, por um lado, e de eventos sincronÍsti ue se
inscÍevem no tempo linear, p oÍ outÍo. Temos agora o grande proble-
ma: como estão li das essas duas coisas ? Como o ailleurs de
Beaur e8,aÍ se Íe aciona com o seu mundo c otidiano físico? De que
modo o tempo cosmogônico de LâutÍnmn se relaciona com o temPo
de parâmetro linear? Como o princípio de ordenaçiio acausal, que
peÍtence ao mundo da física e ao inconsciente coletivo, segundo Jung,
se relaciona com o mundo de temPo e esPaço, dado só podermos
concebê-lo em nossa consciência?
Como nâo di omos de outras informaç ões, de momento so
podemos observar os rodutos o lnconscl enle isto é, as man dalas
u as ,ever como estão ligadas. O detalhe inteÍessânte é que essas
mandalas duplâs são usualmente represenladas como Íodas, duas
rodas ou dois discos, mas quase sempÍe Íodas (figura ló). Se recortás'
semos esse diagrama em caÍtâo e tentássemos fazer tal coisa, veÍíamos
oue essas rodas nâo oodem sirar. oois iriam se destruír mutuamente.
lApesaÍ de tudo isso, esses modelos de dupla-mmda.la pÍessuP6em que
luma roda está girândo e a outÍa está paÍada;mas, se uma roda girasse,
lcortaria a outÍa em duas partes e úce-vetsa; e, se ambas girassent,
que <testruiria tudo. Quero dizer
Ihavelia simplesmenre uma explosão
icom isto que, do ponto de ústa mecânico, as duas Íodas nâo Podem
7
\girar.

t28
Assim, todas essas referêncías Simbólicas ao encontÍo desses
dois mundos parecem mostrar que o mundo do tem oeomundoda
acausal, fora do tem o o dois sistemas incom atívels,
AuJ_{ãg poq.efn_E! combinados. mas oue sa-o complementares. QueÍ
-
dizer, eles são mais do que complementares são incomPatíveis e
nalo podemos imaginaÍ como se ligam entre si, o que, provavelmente,
também é a razão pela qual não podemos estabelecer qualquer lei de
sincronicidade, poís, nesr caso, as rodas teriam que estar coordenadas
de um certo modo.
O único ponto onde os dois sistema§ se ligam é no orifício do
centro, o que signiÍica que não se ligam em Parte alguma, ou num
buraco. Esse orifício misteríoso entre os dois mundos também está
representado, de forma unüateral, no rel o chinês de incenso. Os
chineses tiúam relógios muito precisos, aÍltes de se familiarizarem
com os nossos mecanismos de relojoarias, mas o sistema deles basea'
va-se núm princípio completamente diferente do nosso. Constru íaÍn
uma mandala em forma de labirinto, onde introduziam um pavio
semelhante ao que usaríamos numa bomba de retaÍdamento, ou num
rastilho de pó, com a mesma gualidade do detonadoÍ de uma dessas
bombas, ou seja, que ficasse ardendo, ardendo, durante certo tempo.
Acendiam, então, esse paüo e tâpavam-no, de modo que ele conti.
nuasse ardendo lentamente; para saber que horas eram, a pessoa tiúa
da
tema

roda do tcmpo

Figura 16. Mandalas rJuplas - duas


espécies de temPo.

t29
apenas que levantar a tampa e veÍ que ponto fora atingido pelo
fogo no paúo ou Íastilho. Essa eÍa â hoÍâ. Eles inventaram até Íeló.
gios despeÍtâdoÍes com esse sislema: a determinadas parles desse
pavio atavam uma pequena pedra, colocando o relógio acima de
suas cabeças ao irem dormir; quando o fogo atingisse esse ponlo do
pavio, a pedra caía sobre suas cabeças e eles acordavam. lsso ainda é
usado na China, pois, onde não se disp6e de outros tipos de ÍelóBio,
há esses relógios de incenso, como são chamados; e, segundo Joseph
Needham, eles são bastânte precisos 'e completamente satisfatóÍios
para a vida prática.
Nesse caso, o fato interessante é que o tempo na China é conce.
bido como um campo onde ocorre um tocesso de ener a droniza-
do e, por conseguinte, inventou.se esse dispositivo que funciona na
6rma de um relógio. Também aí existe um orifício, por onde a
fumaça escapa e onde é inrÍoduzido o pavio. Porlanlo, o tempo
possui um orifÍcio onde o homem interfere, onde o homem entÍa em
cena. Não existe tempo absoluto. O mesmo ocoÍÍe com os nossos
relógios: em alguns, é preciso dar corda ou, agoÍa que há outra
técnica, o nosso próprio movimento lhes dá corda;mas se o relógio
não for usado, se o deixarmos sobre uma mesa, esquecendo.o, ele nâo
funcionará. Assim, no orifício no tempo, no tempo meüdo,o homem
interfere. Isto é apenas uma pequena analogia, em nível técnico, de
um problema muito mais profundo, ou sejâ, esse orifício da eter.
nidade.
Na ldade Média, a onima, ol uma matéria como a animo,
também foi identificada com a Virgem Maria, e existem muilos
textos alquímicos e também cerlos hinos eclestásticos oficiais em que
a Virgem Maria é cognomrnada "a janela da eteÍnidade" ou "a janela
da evasão". De acordo com a nossâ definiçâo moderna, a Íigura da
onimo, no,m homem, é a ponte entÍê o inconsciente pessoâl e o cole.
tivo, e também leva o tírulo de janela da evasão ou janela da ererni-
dade.
Ê.m Mysteium bnjunctionis, no fina.l, Jung cita extensamen-
te a obra do alquimista Gerhud Dorn, em cuja frlosofia a janela
da eternidade ou o spiraculum aeternitotis também desempenha um

130
grande papel. Spiraculum é o respiradouro através do qua.l a eterni-
dade sopra para o mundo temporal. Vemos, portanto, que esse lugar de
encontÍo, que é um vazio, constitui uma ÍepÍesentação arquetÍpica
que, na frlosoÍia mitológica e alquímica, se apÍesentâ como o lugar
onde o domínio pessoal da psique, incluindo o inconsciente pesoal,
estabelece contato com o inconsciente coletivo. É como se o
ínconsciente coletivo fosse e ordem eterna, e o inconsciente pessoal e
a consciência pessoal fossem, em conjunto, a ordem vinculada ao
tempo, sendo sua ligagão realizada através do orifício.
Jung interpreta estc spimculum detemitdtis, esse respiradouro
para a etemidade, como a experiência do Self. Diz ele que, através
da experiência do Self, podemos escapar e nos libeÍtaÍ da inÍluência
dominante de uma imagem unilateral do mundo.
Ora, a realidade só é real na medida em que estamos conscientes
dela. É a consciência, portanto, que organiza e seleciona para nós a
imagem da realidade em que nos movemos o tempo todo, realidade
-
que é uma gaiola ou uma prisão. O orifrcro, que é a experiência do
§eI/, quebra essa gaiola ou prisão de nossa realidade consciente e, ao
fazê.|o, liberta.nos do jugo de seus conceitos unilaterais. Esse orifÍcio,
portanto, paÍece ser como um pivô; o ponto central onde os dois
sistemas se encontraÍn. O filósofo chinês Mo Dsi ampliou, no meu
entendcr, o que isso significa em linguagem psicológíca prática. Diz
ele em The Doctrine oÍ the Mean [A doutrina do termo médiol:

Só o homem devohdo à suprema sinceridade pode desenrclver


completânente sua pógria nrtureza o, atrarés disso, pode renelar
os podeÍes tÍansfoímadorcs c alimentadoÍes do ceu c da tcrra, Só
um homem dedicado à completr sinceridada inteÍloÍ pode conhe@Í
o futuro. Essâ virtudc é reslrnentc ums qualidrdc ds nrtuezr e,
assim, [quer dizer, se um homem pode conhecer o futuro c csti
posu ído da máxima sinceridgdel pode ocoriet uma unllo do
exteriot com o intalior e os modos do ceu c da teÍÍa podem ser
expücados numa frasc. Essat modos nt o tém qualquer útplicaçdo
e, assim, produzem coisas de um modo insondável.

Desse modo, o céu e a terra, Yin e Yang, estão unidos, na China,


através de tal orifício e reúnem.se, também, nesse ponto mais central

r3l
de encontro, onde "não há dupl icação". Como o leitor pode ver no
diagrama (figura 16 , no Ponto central não há duplicação; ela existe
em todos os outros luga Íes, mas nesse P onto há unicidade. Esse lugar
de unicidade é o ponto onde o céu e â teÍÍa se unem e, também, o
lugar onde ocoÍÍe a criação. Desse orifício sai a cl5ação, desse nada
provém tudo o que é criado de novo.
Quero recordar que Jung deÍiniu os eventos §ncronísticos como
atos de crí ação. Um evento sincÍonístico é um evento acausal e, oÍ-
tanlo, podeÍíaÍnos dize rqueéum ato c ao Jung acreditava
n\Ín crcotio continua como alguns físicos modemos que acreditam
haver no mundo em que vivemos um lugar, onde, de tempos em
tempos, novâs coisâs são criadas. O evento sincro nístico seÍia esse
C!9_!qfrfâ_çgo. lsso, n-aurraLmenle é êxiomático.paÍa a Íng4!! ghilg&
pois eles pensarn tâosó em teÍmos sincÍonísticos, e os âtos crialivos,
que são eventos sincÍoníslicos, provêm desse orifício onde o céu e a
tena se encontÍam. Depois, temos essa bela idéia chinesa de que o
homem pode realmente entÍar em contato com isso ele pode -
chegar ao lugar onde o céu e a terÍa criam de um modo insondável,
sem duplicação, através da superlativa sinceridade. Se alguém, despido
de todas as ilusões e de tudo o que constitui o mundo do ego ordiná-
rio, mergulha em si mesmo com supÍemâ sinceridade, esse alguém
cheg,â a esse oÍifício centÍal onde ocorre a criação, mesrno no cosmo.
Por isso os chineses pensâvam que ceÍtos sábios ou sanlos, personali-
dades muito raras, podiam atingiÍ esse centÍo e, poÍ teÍem chegado a
ele, no mais recôndito da personalidade, podiam sustentar o céu e a
teÍrâ e estâÍ com a criação no univeÍso.
Encontramos esse motivo aÍquetípico em outra área da adivinha-
çâo, que desejo agora mencionÍu sucintamente, pois tâmHm é um be-
Iíssimo material. Em seu estudo sobre a sincronicidade Jung menciona
a da geomancia é uma âstÍologia "teÍres-
trificada". Em vez de usar u constelações de astros para adivinhaçáo, o
ge omante faz ele mesmo as constel aç ões de askos na teÍÍa significa
terra) e procede dep ois como na astrologia. Como mencionei antes
usa.se um puúado de seixos ou de grãos de milho, que depois sá'o se-
parados aos pares, deixandose no final um número par ou ímpar com

132
que se fazem figuras e se constrói algo semelhante aos trigrrmas do
IChinC. Com base nesses quatemiões, elabora-se uma caÍta âstrológica
para ser lida de acordo com c€rtas regras, à semelhurça de um horóscopo
Posso encamiúar o leitor paÍa um excelente ensaio escrito
por K. Josten em The touma! ol the Warburg & C.ourtauld Institutel
sobre a Theory of Geomancy, de Robert Fludd, e sobre as experiên.
cias de Josten, em Â-ügnon, no inverno de 196l-62. Robert Fludd,
l-
contemporâneo de Keppler, com quem teve urna famosa controvér.
sia, era um daqueles que ainda acreditava na arte da geomancia, e o
oue há de mais extraoÍd inário a seu respeito é çe tintoü-Íõrm-ílãi
uma teoÍi8 psicológica e Íno ffi
a geomancia para prognósticos de um modo mágico, prímitivo, mas
refletiu sobre ela. Em seu estudo sobre a sincronicidade, Jun E daz
que, lamentavel mente, a geomancía, que seria o equivalente ociden-
tal do que o I Ching é gua a Ásia, nunca se conveÍteu numa filosoÍia
abrangente, como ocorreu com o / Ching. Elt tem sido usada, sobre-
tudo, apenas para prognósticos primitivos, e isso vale até para o
próprio Fludd, que recoÍreu à geomancia apenas paÍa apuÍaÍ se
deveria se casaÍ com a seúora Fulana de Tal, e sc teria muito dinhei.
ro ou não. Ele nunca foi além disso, mas tentou elaborar uma
interessante teoria psicológica a esse respeito.
Existe, ainda, outro lugar, neste planeta, onde a geomancia foi
transformada filosoÍicamente em algo que me parece revestir-se de
I
um valor quase equívalente ao do Ching chiaês, e isso se deve aos
médicos.feiticeiros da Nigeria ocidental. Eles aprenderam a ute da
SJ9ÍIC!+ com os povos islâmicos do norte. A geomanci a era p-ãEõã-
da na Indía e em toda a civilização islâmica, através da qual chegou
à Europa nos séculos X e XI, siÍnultaneamente com a alguimia e
todas as outÍas ciências naturais. Mas também migrou para o sul e
caiu nas má'os de alguns médicos.feiticeiros nigerianos. Esse maravilho.
so material pode ser encontrado no livro de Bernard Maupoil ?
intitulado Le Géomancie à I'Ancienne 6te des Esclaves (Pads,1
1943). Esse livro íornece uma completa explicação da técnica da

+ vol. 92, t964,p.3zl

133
geomancia, especiâlmenle como é praticada no noÍle da Àfrica pela
lt civilização islâmica.
Esses médicos-feiticeiros alimenlam uma inleressanle crtnça,
que faz parte da tradição de sua arte de adivinha ão eÍa 8,Íaça§ a um
deus chamado Fá que o oÍáculo peomântico fornecia umâ Íesposta
verdadeira, e não em úrtude dos mecanismos da técnica divinatória.
Esse deu Fá é cultuado poÍ difeÍentes tÍibos: os mina, os fon, os
yoruba, etc. Bsas populações têm uma religião politeísta e numero.
sos demônios diferentes, benévolos e malévolos, aos quais se devotam
cultos coletivos que, nos países europeus, sâo coúecidos como
vtdu; mas o deus Fá, o pai do oráculo, nâo é um vodu e não perten-
ce âo pântello dessas tribos pelâ seguinte Íazão um vodu ode sempre
roduzir transe ou ssessâ-o e ode t rabalhar para o Bem ou ata
o Mal. Existem târnbém, com variações, Íemanescenles disso enlre os
nativos do Hairi, ondc eles ainda entÍam em transe e ficam possessos
por influência de certos vodus, expressando assim o que eles praticam,
Mas Fá, o deus desse oráculo, em contÍaste com um vodu, nunca faz
tÍâbâlhos de Magia Negr a. EIe só diz a um indivíduo a verdade, e ó
esse indivíduo a uem ele diz a verdade, pode saber ue se tÍata dâ
verdade e sabet que ver essíl á não lem poder coletivo -
esse deus, quando se manifesla, dirige-se âpenâs â um indivÍduo e diz
algo que é unicamente verdadeiro paÍa esse indivíduo e para mais
ninguém. Portanto, nâo tem culto nem sacerdotes, nada, poÍque é
simplesmente esse poder da verdade.
Existe, aqui, uma ceÍta semelhança com a idéia de Mo Dsi,
segundo a qu al existe um r de verdade interior que é criativo
e que opera nessas çojsas. O deus Fá pÍoveto eumPa s a
lfé; o país de onde a humanidade se originou e para onde os mortos
ÍelomâÍn. Sabemos que o mundo, a que chamei o unus mundus, é
em todas as mitologias pÍimitivas a tglle-Collle4Q§; os mortos
úvem no unus mundus, ou nessÊ mundo transcendente, nesse Além,
e esse é o país de lfé. Fá procedeu daí e, PoÍtânlo, como é o deus
da verdade, o niggÍiano diz que, s§ Eando monermos a q". aesco
briremos o segredo da vida. Enquanto vivermos neste mundo

trt temporal, famais conheceremos o pa drão de nossas údas; vivemos


de minuto â minuto, tentando descobri-lo, mas, no momento da

134
morte, teremos o padrão inteiro, iremos vê-lo desde o outro mundo.
Assim, só quando morremos é que descobrimos o segredo da üda.
Deus criou o mundo, mas não fez somente coisas boas; Ele tarnbém
criou o Mal. Fá é o único poder que na:o queÍ o Mal, de modo que é
diferente de Deus. Deus quer que haja o Bem e o Mal, e críou o Bem e
o Mal. Para com o homem, Fá é todo benevolência e sinceridade, e só
cria o Bem. Cada ser humano vivo possú uma alma invísível, a que os
fon chamam de Ye, o princípio yital ou alma; mas o homem não
compreende o signiÍicado de seu Ye. Quem quer que pÍocuÍe coúecer
o segredo de sua üda deve, portanto, ir para Fá, assim chamado
porque ele próprio é o único Ye (prÍncípio anímico) que pode Íevelar
a verdade da grandeza da vida.
A palavra Fá deriva do frescor da ígva e do ar. Cumpre lembrar
que, no tórrido clima africano, água e ar frescos são uma experiência
incrivelmente positiva, pois se alguém esteve sob um calor inclemente
e encontra um pequeno bosque de palmeiras ou uma fonte, é como
se tivesse encontrado a vida. Fá é a frescura da água. Nós temos,
diga-se de passagem, na lgreja Católica, uma ÍepÍesentação simiiar,
pois um dos nomes do Paraíso é refrigerium e, na linguagem cató[ica,
isso significa paz interíor. Essas tribos nigerianas dizem, portanto,
que toda dificuldade, por mais quente que seja, pode tornar-se estimu-
lante e fresca através do contato com Fá, ficando, então, mais fácil
de suportaÍ.
Sabemos, por experiência própria, que os nossos sofrimentos
neuróticos derivam do fato de estarmos confusos conosco mesmos e
com os nossos próprios complexos; se formos suÍicientemente since-
ros, no sentido de Mo Dsi, para ver a verdade, até o pior complexo
ficará mais tolerável, pois veremos, então, o signiÍicado e podeÍemos
nos livrar um pouco da situação confusa. No mesmo s€ntido, Fá
üumina todos os seÍes humanos. Ele nunca esconde nada. Estende
sua ma:o aberta a todos. Um sábio e idoso médico. feiticeiÍo forneceu
a maioria das informações a Maupoil e disse literalmente, com muita
clareza: "Todos os feiticeiros tentam descrever Fá com grande pompa;
mas, embora eu mesmo seja um bolcono ltm feiticeiro], nunca me
atreveria a defini-lo. Só a natureza geradora de milagres, que criou Fá,
pode falar sobre isso com conhecimento de causa." Assim, no Í-tm de

135
sua vida, o médico.feiticeíÍo, com efeito, declârou: "Nâo sei o que
é Fá, mu é esse princípio de verdade."
Fá tem muitos títulos. Como lodos os grandes poderes nas
ÍepÍesentações africanas, ele não é muitas vezes chamado poÍ seu
-
nome eles circunrrevem tais poderes poÍ muitos nomes, que sâo,
às vezes, uma frase iÍteiÍa, como "Duro como uma pedra". Outros
nomes sâo: "Busca e vê", "Aquele que revela o que cada um tem no
seu coração", "Seúor da úda", "Aquele que tÍansmite as mensagens
da morte"; talvez um dos mais belos seja "O sol se levanta e as paredes
ficam vermelhas". Por lim, um epíteto deveÍas inteÍessanre: "O
buraco que nos chama para a eternidade."
Aqui lemos de novo a fenestra oeternitatis, a janela para a
eleÍnidade a que os africanos chamam literalmente Fá, o orifício que
nos chama pua a eternidade. Ele sabe o número de lodos os que
nasceÍâm, conhece o número das pessoas que moÍÍem; domina tudo,
poÍ âssim dizer, mas só é amistoso com o homem. Bte é um parale-
lo arquetípico da idéia medieval da Sabedoria de Deus, representando
o lado benevolenle e verdadeiro de Javé.
O lado sombrio da realidade não figura neste ÍetÍato de Fá, e
seria o caso de se indagar se ele nâ'o possui uma sombra, pois todas as
figuras arquetípicas têm uma sombra. Ficamos tâmbém sabendo quc
Fá tem uma esposa ou, poÍ vezes, um parceiro masculino, e que esse
parceiro ou essa esposa tem o nome de Gbahdu, um vodu lerrível.
Nâo se trata de algo individual, mas de algo coletivo e terÍível. A
maioria dos médicos-feiticeiÍos africanos diz que não queÍ teÍ
nenhuma relação com Cba'adu, nem mesÍno ter seu fetiche em casa,
pois Gba'adu mala, podendo fazê-lo a qualquer instanle. Se alguém
possuiÍ o seu fetiche, isto é tão teÍrível que, se usado na magia, poderá
matü pessoas e, se usado eÍÍoneârnenle, seu próprio possuidor
poderá ser moÍlo â qualquer minuto. Esse fetiche é lão pesado que
é melhor nâo seÍ mânuseado e, portanlo, há pouquíssimos iniciados
de Gba'adu. Gba'adu quer sangue; ele, ou ela, produz a vida e a arre-
bala. Gba'adu é o mais forte vodu de Fá;vejamos agora como o dehnem.
Gba'adu ÍepÍesenta o mais alto conhecimento possível que um
homem pode olconçar sobre si mesmo. lago, é o mais profundo
vislumbre sobre o Sef (diríamos nós), o que constitui um terrível

r36
segredo e tão perigoso que ninguém pode sequer se apÍoximaÍ dele.
Só Gba'adu tem o segredo da morte e ú na morte alguém pode
alcançar essa compreensão suprema de si mesmo. Gba'adu é o
segredo atrás de Fá. Fá é o deus da verdade, que pode acompaúar
um indivíduo nesta vida da terra, mas, no momento da morte, Íica.
se um passo mais próximo do autoconhecimento supremo, Íepre.
sentado por Cba'adu.
E qual é o fetiche de Gba'adu? Os poucos médicos.feiticeiros,
que o possuem na câmara secreta de suits casas e que só se acercrm dele
com glande precaução, dizem que ele consiste em duas cabaças sobre.
postas. Essa é uma imagem do mito da criação daquelas tribos gue
acreditam que, no princípio do mundo, o deus-pai e o deus.mãe se
deitaram um sobre o outro, como duas cabaças, procriaÍam uma
grande quurtidade de Íilhos, ficando depois, sem espaço. Assim é
que existe, entre essas tríbos, o mito generalizado da separação dos
pais originais, que tiveram de ser arrancados da sua coabitação etema,
paÍa que entre os deuses pudessem ser criados os homens e o mundo.
Essa espécie de núcleo criador do princípio do mundo é representado
pelas duas cabaças - e esse é o segredo de Gba'adu.
Quando descobri isso, fiquei completamente desconcertada,
pois, aí surge de súbito a idéia de uma anjunctio cósmica no problema
da sincronicidade, o que eu não espeÍava. Mas, reflitamos agora sobre
o material que já apresentei: o movimento giratório dos dois sistemas,
as duas pranchas, a Ordem Celestial Mais Velha e a Ordem Celestial
Mais Jovem, interpretadas pelos chineses como uma unialo cósmica,
um céu e uma terra de Yin e Yang. Sabemos que a descoberta do
segredo da vida é interpretada, em numeÍosas mitologias, como o
chamado casamento pós-mortal, o hieros gamos , no momento da
morte, ou logo após a morte, há uma união dos dois princípios que
se mantiveram separados durante a vida e que, no momento da morte,
se convertem num ú. É como se aquelas duas rodas somente
estivessem sepaÍadas durante o tempo de vida de um ser humano,
mas, no instante da morte, se fundissem em uma;e isso é interpÍetado
como uma espécie de união moÍtâl.
O mesmo motivo ocorre no oráculo maia dos Quiché Maya,
onde há a lenda da origem de como os Quiché Maya descobriram seu

137
oÍácu.lo de âdiviúação, o chamado oÍáculo Tzité. De acordo com a
lenda, no princípio do mundo, o univeÍso "inteiÍo eÍâ silencioso e
havia somente água silenciou com os deuses escondidos nela. Nenhu-
mâ criâção ainda havia ocorrido; nâo sopravam os venros e não havia
som; mas, então, a.lguns deuses do panteâo Quiché decidiram criar o
mundo, para que os deuses pudessem ser culruados.
ftimeiro, eles criaram os animais, mas estes permâneceÍaÍn
calados; os deuses se iÍritaÍaÍn e disseram que tinham de criar algo
que pudesse ver e falar, que lhes rendesse culto e desfrutasse da
luz. Fizeram, assim, o homem com uma figura de madeira ou de
barto, mas entâo suÍgiu o grande problema: deveria o homem teÍ
olhos e uma boca? NÃo estavam ceÍtos disso; nesse moÍnento,
porém decidiram fazer o primeiro oráculo Tzité do mundo; e
enquanto a seÍpenle da pena verde, que é fêmea, se unia sexuâlmente
com Tepêu, o vitorioso, dois feiticeilos divinos lançaram simultâneâ-
mente o oráculo Tzité e cântaÍam: "Tu, milho! Tu, Tzité! Tu, espada!
Tu, criação! Tu, vulva! Tu, falo! " - dirigindo.se ao milho, a Tzité,
à espada e à criação - "Desviâ teu olhaÍ, ó coração do céu, para não
cobrires Tepê'u e Cucumaalz de vergonha l" Depois, leram o oráculo,
que foi positivo, e assim deram ao homem boca e olhos pâÍa veneÍa.
rem os deuses e, ao mesmo lempo, criaram a luz.
Temos de indagar, portanto, de que modo um evento sincÍonís.
tico está liBâdo à conjunctio, Penso ser coÍÍelo dizeÍ que, no momento
de um evento sincÍonístico, a psique comporta-se como se fosse
matéria, enquaÍlto a malétia compoÍta.se como se peÍtencesse a umâ
psique indiúdual. Assim, existe uma espécie de coniunctio da maléria
e da psique e, âo me§mo lempo, uma troca de âtributos que sempÍe
ocoÍÍe no hieros gamos. logo, é de fato verdade que um evento
sincronístico é um ato de criaçâo e uma união de dois princÍpios
normalmente nâo-ligados. A atitude em que isso pode ser experi
menlado é, de acordo com a idéia chinesâ - lemos o que disse Mo
Dsi - uma atitude de completa sinceridade e, o que é mais interes.
sante, é o fato de isso, para os chineses, ser idêntico a umâ âlitude
lúdica.
Em todas as civilizações primitivas, ritual e arividades lúdicas
nÍio podem ser separados. Os rituais sâo realizados como jogos, ou

138
o jogo é, por vezes, usado como ritual, e üce-versa, ou as duas coisas
se combinam. Esse é um fato bem conhecido e exemplificado por
todos os rituais chineses, que são ao mesmo tempo um jogo, uma
atividade lúdica e um ritual sagrado. Qual é o fator comum, do ponto
de üsta psicológico? Podemos obter uma Íesposta dos próprios
chinescs; dizem eles quc um ritual ou um jogo necessita de completa
sinccridade e completo desprendimento de desejos ou cobiça. Por
exemplo, se queremos jogar limpo, então, joguemos, pois só o jogo
limpo é jogo real. O ego que deseja ganhar devc scr sacriÍicado, pois
induz o indivrduo à trapaça. Apesar de toda a paixalo com que parti-
cipe, o indivrduo tem de manteÍ sempre uma atitude sacrificial,
sabendo que pode perder e, teÍá, então, que manteÍ a compostuÍa e
não estrangular seu adversário. PoÍtanto, o indivíduo tem de estar
completa e apaixonadamente envolvido e, ao mesmo tempo, sâcÍi-
ficar qualquer esgecíe de desejo do ego.
Essa atitude é idêntica ao que eu chamaria lma atitude relígio-
so btisica: estar completamente envolvido na vida e, ao mesmo tempo,
pÍonto paÍa perder num jogo limpo. Os rituais e os jogos, continuam
explicando os chineses, necessitam de regras Íixas e de certas írnagens
para regê-[os. Sabemos que todos os jogos têm um padrão, de prefe-
rência a uma imagem, e que eústem regras, mas os jogos mais
excilantes têm certa dose de chance, isto é, de liberdade: poderâo
evoluir numa direção ou noutra e não sõo meros eventos mecânicos.
Os chineses sempre idcnúficam a idéia de legitimidade na natureza
como não sendo uma lei absolutamente determinada, no sentido em
que a concebemos, mas tão,somente uma probabilidade com certa
dose de jogo. Não é uma lei completamente rígida, e o mesmo ocorÍe
com os rituais e com os jogos, nos quais está envolvido um elemento
não muíto rígido. Assim, os chineses dizem que, através de um jogo
virtuoso e solene, podemos ficar mais próximos de descobrir a ordem
objetiva do universo.

t39
NDICE ANALÍTICO

Acaso, ,í4, 5642,68 Anogância gsíquica, 3841


base arquetípicr do, 58 Árvore (8rquétipo), 73
Adivinhasão alestóris, ver §istemr do mundo (uquétipo), 73.5
binrírio AssociaçlÍo, cxperürento dc, 8I
Águ" asuotogia, 71. I18, 120, 132
como o inconsciente, 22 Aúní, 108
em adivinhaçío, 47, 53 Atos
Aion de criaçío, 65-9, 132.39
deus do tempo, 69 voütivos.63
(lung),76 Aúomas em m8t€mítícs, 16
"Alhures" (ailleus), L 2l -27
AJrima, como janela da eternidade, Bhagavad Giti, 68
130 Binúio, sistema, 10, 31, 54.6
turimais prestotivos, 40, 92 Budismo, 106
Ànropos, 85
"AntimatéÍia", 123 Câç8, msgie de, 44
Arco-üis e scntimcnto, 102 Campo, pensmento em, 8, 70ó,
Aristóteles,79 85, 89, 115
tuquéüpos Cantor, Gcorç, 38, 4l
centro regulador, yez Si.rncsmo Cartas
como pontos excitados em um do Tarô, I I
campo, 73-9, 85.8, I l4-16 e probabiüdadc, 2E, 59
constelados, 64.9, 84-5, 92-5, Chá, íolhas de,45
tt2.L3, t25 Chieh (limitaçío), 100
de jogo, 58, 138-39 chih, 7l
c energie, 64-5 Chineses
e númcro, 89-98 astÍologia dos, 7l
influêncis de, 30-3 e &os, 102
interügdos, 726, 9l e jogo (atividades lúdicas), 138
ordenaçlo de, 89-96 e mstrizes,9, 14,71,76
ê número,8l-3,99.102, ! 06.10 cÍisrâ|,47,53,92
e Pensüncnlo sincÍoníslico, 7- "C2ár Virgem, O" (conto), 93.5
16, E1.5, 132
c ,ilmo do univeÍso, 13,77, ll5 Da Fiori, Joachino, 109
c remPo, ls, 83ó, ll2-16, t29- Dados,29,59,68
3l De Beauregard, C.llta, 122-25
oÍdens celestieis, I16.19, 137 De Vadis, Aegidius, 89
pÍoibidos de lsar o I Chiry,12 Deuses (divindade)
Íelógio dc incenso, 130 como irracionais, 3l
Yin e Yang,55, 102, l3l como números, 25, 27-30, 75,
yet ,ambém I Chint 90
Oroque, 80, 86 identificaçío com, 38, 40
Coelho,39 que cootâm, 3l , 35, 40, 68
Complexo Dia, como deus que conta,35
elos volítivos poÍ, 63 Dinheúo como cnergia, 60
possessâopoÍ, 2l Doctine oÍ th. Meon, Thc (Mo
sofÍimento êm decoÍrência de, Dsi), l3l
r35 Dorn, Gerhard, 130
"Comunidade de destino", Sl Duke University, e parâpsicolo$a,
Condiçõcs lim íuofes (ou de fron- 30
teira) em Física, 62-3
Conhêcimenlo absoluto (do iDcons. Eddingron, SiÍ 4., 6l, 79
cienrc),46.9,58, l2l E8o
Conjeoras (pslpites), I l, 5l e espÍrlto, 22, 25
bnjunctio,ltT e voliçfo, 63
Consciência como dia, 37 possuído por com glexo, 22
Conslehçâo de arquéúpos, 64.9, Enetgia, 37, 1 9-84, 98, 1 23-25
84,92.5,112 aspectos qual.italivos c qua,tila-
Çontaçm livos dâ, ?9-84, 98
e conl,aÍ, 93 disponível,63
e quanlidâde auÉliu, 25, 35 e uquéúpo, 64ó, 125
em progressâo e Ícgessão, l0?. e enuopia, 123
l0 e força de vontade, 63
mérodosde,25,31,99 e númeÍo, 78-86
"muÍos",31.5 e rirmo; 103.0?
na âdivinlEçâo, I l0.l 2 e sonhos, 97
por deuses, 3l, 35, 40, 68 psíquica e física, 79-86, 98-104
Contar e número, 93.5 Enrropia, 123
Continuo, 108.14 Eros e erco-íris, 102
único, l08.lS, 124 Esferas de âdivinhoçao, I l8
Gianças Espírito, 20, 30
eneÍgia das, 103 e instintos, lM
sonhos de, I l3 Esquimós,74
EsquizofÍenis, 64 Goedel, Kuí, 16
EststÍstics, 28, 13, 39-42, 57 Grande Míe (arquétipo), 736
vq tom tÉm Probsbilidade Granet, Marcel, 13, 82, 99
Estranho cm sociedades pÍimitir8s
4l Heisenberg, lVerner, 17, 6l
Et€Ínldâde Herdclito,69,79
azirna como janela da, 130 Hietos gomos,l37
ordem numérica subjrcente, 16 Húbeí, Davió, 16
orifÍcio dr, l3l, 136 Hipóstas., t09
HitleÍ, Adotf, 67, 86
Fí (deus da Nitéria ocidental), 134- Horóscopos, 49, 118, 120
17 Ho-Tu, 16,71,76-7,ll5
Fa Tzang (budista), 107-l I Hunabku, deus mai8, 13, 90
Fadas, contor de,
e seqüência de tempo, 92 I üing ou O livrc das mulcçõcs
Fálicos, símbolos, 74 (Richard Witheh), 7-13,41, 55,
Fermat, Pierre de, 38 62, 644, 68-70, 77, 100, ll0,
t lslca I12, u6, l 18, t33
condições limítrotes, 63 comparado 8 um cucuito elé-
e 'tntimaté3iâ", I 23 tÍico, 7G3
e encrgie, 79-85, 98, 124 origem do, l2
e probabílidade, 7, 28-32, 57, IdentiÍicaçâo com a divindadc, 38,
61,65 40
e psicologia, 20, 30, 7944, I 25 lnconsciente
e temqo, L22-25 como "alhures", I23-28
fundamentos de, l6€ como campo, 72-7
matÍizes, lO, L4, l9, 27, 7 l como matriz, 23
método experirncntel, 56, 60-3 conhecimento eüEoluto do. 46'
p€nsâmento causal, 7-9, 83-5, 9, 58, t2l
t22-2s constelado,64-8
Fludd, Robert, 133 dinamismo do, 22-5
Fogo, como contado por Deus, 36 c tempo, 92-4, I l4
Força de vontade, como energia dis- pessoal e coletivo, 130
ponível,63 Indivíduos, como números, 38, 50
Fotograflras, 50 lnÍinidade, 35,4l
Freud, Sigmund, 9,49, 113 Insüntos
e espírito, 104
tÍaição aos, 40
Calinhs, ossos dr, I l, 4l, 53, 56
tnruiçâo (palPirc), 10, t5, 48, 53,
Galois, Evariste, T2
l14
Gano,103
Gauss, I l5 Ianela dr etemidadê, 130, 136
Gbahdu (sombra de Fá), 136 Jogo (atividades lúdicas), 58, 138
Geomancia, 12, 62, 76, 112 lll, vcr também logos
Jogos, 58{0, 69, 138 Método experimentâ!, 56, 60.3, 68
de arar, 38, 5860, 69 Milcfólio, hastcs de, 12, 42, 68, I lO
Josten, K., 133 Milly-lâ-FoÍêt, gluras de, 105
Jung, C. G., 7.13, 2O-3, 21, 46, Mistap'eo, emissor de sonhos, 42
65-8, ?3, 15.9, 86, 9t, 97, rot, Miiologia cgípcia, 73
l13,1t?-27 Mo D§, 131,134, 138
Mocdas, joSer as, 10, 41, 45, 55,
60,68
Kónig, Sra. Maric, 105
MoÍle
Kjonecker, L€opold, 25
ârquétipo,73
como deus que conta, 3?.9
láutmarn, Albeí, 124, 128 Moriyos duplos, I 2S-2E
Lo Au,matu,l4, ?1, t15 "Muilos", como divindadc, 31.4
Lumen naumc,4O Mysretium Conjunctionis (lúng),
I 17, 130
Maia
oráculo, 13, l3? Naskapi, índios, 424
Popul-Vuh, 39, 90 Nanjos,394l, lll
Mâ$a Neumônn, Erich, ?5
nâ caça, 44 NigéÍia ocidêntâ1, 12, 111-36
quadmdo mÁgico, l4 Número(s)
Mah-jong,59 aspectos quslitativos e quentitâ.
Mano,69,79 tivos, 79-86, 98.102, 108
Mandala, 91, I l5.l ? como destino, 37
dupla, lr8,
125, r28 como deuses, 25, 27 -10, 90
Maria Prophetissa, 109 como espíÍilo, 20
Matemáücs como indivíduos, 38, 50
aúomas, l6 concepçEo chincss de, 82.5, 99-
do número qualitativo, 108-12 102, r06.10
e jogo de azar, 39 e arquétipos, 89-100
c o hracÍon8l, 17, 25.8 e contar,93-7
e temgo , 122-25 e energa, 78.86 n
fundrmcntos, 16.9 e ,itmo, 106
hisróris da, 24.9,38 e rempo,90-l0l
ver também F ísica em matemática, 16, 25
Maan em pÍogÍessâo e ,egress6o, 107-
algebrica, 10, 14, 19, 28, 71 t0
e o inconsciente, 22-3 úracionais, 18, 25
e padróes aleâtórios, 53, 6l "muitos", 314
Lo Chu,14,1l Númcros inteúos
Maupoil, BeÍn d, 133 âdivinhaçâo, l0
Mayer, Roberr, 79 criaçâ'o rlc, l9
Médiuns, 46.9 c inÍiniro, 4l
imsgem aÍquetípica de, 34 Philosophy ol Physical Scicnce, The
nstuÍeza irÍscional, 18, 25-7 (Eddington), 6l -3
numinosídade dos, l7 Pirimides duplas, como modelo do
vcr tombém Número(s) Si-mesmo (Seí), 76-E
Pítagóricos, 17,25,89
On thc Norurc of the Psyche Platío,89
(Jung),79,98 Poço (a.rquétipo), 73
Oróculos Poincaré, Henri, 27, ll4
üquétipos constelados, 64-8
e Popul-Vuh, 39, 90
e método experimental, 60-3, Possessão
67 emocional, 8ó
e sonhos, 424 por espúito, 2l
métodos de contsgem em, I l0- Pranchas, 97-100, 137
L2 PÍecogniç5o,93
não{uméricos, 45-8 PÍimitivot
numéricos, 41-5 e 8csso, 40, 57
ve? também Técnlcâs adivinha. e espüito, 2l
tórias; Geomancia; / Cárhg e jogos de azar, 69
OÍdem celesti.al, m8ís joYem c mais e oráculos oníricos, 424
velhs, I16, I18, 137 e probabíidsde, 44
OÍden8çiIo ôcausal, ll9-22, 128-29 e ritmo, 103-07
ycr lam bém Sincronicidade métodos dc contagpm, 24, 3l, 34
Orifício ds etcrnidadc, 130, 136 modos de pensamento, 7-13, 24,
31,51ó,120
PadÍões Probabilidade, 8, 10, 28-33, 4G5,
aleatóríos, r,cr caóticos 57,59
csóticos,45€ como padÍío uquetípico, 28,
ordenados,52-5 33-5
P&i (eÍquétipo), 74 c acsso, 6l -5
Parapsicotogía, 20, 24 , 28,30 e energia, 79-85
Pa icípation mystique, 5l e jogos de oza.r, 38, 68
Pascsl, Blsise. 38 c Íepetiçlo, 29,57ó2
'Pauü, WoUgang, 28, 6 5, 92 Projeçío .
Pensamento da psique no cérebro, 63
causal, 7.10, 83-5, 122-24 do herói arquetípico em Hitler,
e chineses, 7-15,82-5, t3t 67
funça-o do, 82, 90 em anáüsc, 80
sincronístico e causal, 7-12, 83 pelo adivinho, 52
Pensée chinoise, f,a (Granet), 13, Psi, funçío, 28
99 Psicologia
Philosophical Tree, The (lung\, 68 e cnergia, 79-86
Phílonphy of Mothematics ond e fúica, 20, 30, 79-83, 125
Noturcl Science (Weyl), I6 e probabilidade, 44, 6l-8
hicosomálica, medicina, 9-l 2 como janela dâ etcmidade, 130
Puruslu, 108 como número, 20, 9l
idenrificaçâo com, 38
Quâ&ado mdgico, l4 ritmo do, 76.8
Quantidade auxilisr, em contagcm, SincÍonicidâ tO
25,15 como "é assim mesmo", I I 9
QuâtcÍniío, em contos de fâdas, e ôdivinhaqâo, 20, 64
944 e :úquélipos conslelados, 64.7
Quiché Maya, 39, 137 c atos dc cÍiaÉo, 65-9, 132
Quinresência, 109 e coniunctio,lt9
Quiromancia, 45,49, 52 e duplos morivos, 127-30
e I Ching,l-13
Rcfrigerium,l3S e oÍdenâçlto acâusal ,ll9-22,128
Relógio de incenso, I 29 e lensáo emocional, 646
Renascirncnto, cJpúito do, 2l e unus munàts,ll7
Rhine, da Dute UniveÍsity, 30 "Sincronicidade: Um hincípio de
Riqueza, como deus que conla,36 Conexáo Acâusal" (Jung), ll,
Ritmo 65, 89, 90, tt7-t9, t25-27 , t32
e energia, 103{7 Sistemâ binário, f0, 31, 546
do univÊrso, l4-6 Sol (âÍquétipo), ?3-5
Ritual e jogo, 138 Sonhos, 23, 46, 54
Rodas, como monddos duplâs, I 18, aÍqueliPicos, 64, I l2
t28, t31 com motivos duplos, 125-27
Rorschâch, Ésrc de, 53, 55 como oÍáculos, 4l -3
'17-9,
de crianças, I 13
Schickmlsgemcinde (comunidode diuÍnos,4E
do deíino), 5l e Íluxo de energia, 98
Schultzc-Jena, l3 prognósticos, 46, l2l
Second principc ct lo scicnce du telepáticos,46
, e mp s, Le (BcÃwctü d), 1 22 Speck, Frank, 43
Seixos, em âdiyinhaç6o, yc, Geo. Spier, quiromante, 45, 49
marcio S pitocl! lum oe, cmit o, is, 130
Sentimento Suon chi bi,93,ll2
e arceíris, 102 Suon-chu,7l
função do, 8l-5,98 Symbols oÍ Ttonsfomorion (t$n'),
Símbolos, corno emblemas quâlita- 105
tiYos, l3
Si-mesmo(Sef) TârlaÍuga, carapaça rschads de, 52,
como arquétipo cenual, 76-8, 6l
89 Tchuques, ?4
como aspecto dinámico do in- Técnicas divinatórias (ou de âdiví
consciente, 224, 9l nhâçôo)
como divindsde, 37, 68 base irÍâcional de, l8
binúia, 10,31,35,54ó Tcnsão interioÍ, 646
carapaça rachada de taíaÍuga, Trindade, 109
52,6L Tungus,74
c8Ítas do TaÍô, l0 Tzité, oráculo, 138
c projeçôes,52
e sincronicidade, 20 Unus mundus,9L, ll7, 134
e tempo, 20 Upani$ads, 108
esferas, 118
fothas de chá, 45
Vazio, como deus que cont8, 36
mandala, I17, 125,127 -79
Verdade
mo€dss, 10, 41, 45, 55, 60, 68
dcus n8erieno d8, 134
ossos de gaünha, LL.41,45,52,
e morte, [ 37
55
padrões caóticos, 45.8,
estatística,334,39
524
pranchas,97, 137
Vodu, 134
seixos pua contar, 55, I I I
tigeta de água, 47, 53
Xadrez,59
yü também Astrologia, Geo-
WcísskopÍ, ViktoÍ, 98
mrnciz. I Ching.Oráculos e Qui.
Weyl, HeÍmsnn, L6-9,2*
Íomencia
Whyte, Lancelot L., ?2, 108
Teia de aranha, 36
Wilhelm, Richard, 7,70, l l2
.T@ 8.10, ls, 836, 112-16,
t22-2s Ye, princrpio vital, 135
e inconsciente,93.5, I l4 Yin e Yang,55, 102, l3l
e número, 90.7
Yoruba, tribo, 35, 40, 134
intemporal e cíclico, [5
linear e cosmogônico, L24. 128 Zeus, como morte, 3?
motivos duplos, [ 25.30
Leia também
AS IDÉ,IAS DE JUNG

Anthony Storr

Emboru pareça mais ou tnenos gentnllznila a idéia ile ter


sido ] ung apends üm ílisclpulo de Frcuil que ilíssentiu ilas
iüias ilo rnestre, cumprc lembrar que, maís ilo gub isso, loi
ele utn pensa ilor oÁginal cuio 'ênf ase rros aspectos eryitituais
ila natureza htmatu" consti tui um irnportante e necessá o
conttup eso à obsessão de Freud com o co o", cunlorme
ocentir o psican al*ta inglês Anthong Ston. Paru aqucles gue
------_-.
ilesejem iniciar-se no estudo ilo pensamento dc lung e, Par
ticularmenle, intebarse do que nele haia de inooailor em rc'
lação à Psicantilise "ortodoxa", naila melhor que este oolume
da shie 'Mestres iiitentidade'. Nele, em linguogem claru,
Anthong Stoll. nana a oiila ile lung, passanilo dcpois a analísat
os conceitos-chaoe ile sua teoria psicanalltica (orquétipos e
inconsciente coletioo, tipos psicológicos e psiqrn aüto-Íegulo'
ilora, o processo ile indh:iiluação e o conceito ilo eu) e coÍoan'
do, a aruilise com um balanço impatciol e compreet*íoo da
importôncia de contribuiçõo iunguiana à psicoterupia' Tra'
ta-se ile obra ílo maior interesse pata estuilantes e ptolessores
ile Psicologia.

EDITORA CULTRIX
A PSICOLOGIA COMO ADIVINHAÇÃO E SINCRONICIDADE
CIÊNCIA SOCIAL,
Albert Á. Hatison

O PROJETO DE FREUD,
K. Pribram e M. Gill
Marie-Louise üon Fro,nz
DICIONÁRIO TECNICO
DE PSICOLOGIA,
Á. Cabral e E. Nick

PSICODRAMA,
J. L. Moreno Marie-Louise voo Franz, durante muitos anos colabora-
dora de C. G. Jung, é uma conhecida autoridade na inteÍpre-
tação psicológica de contos de fada, sonhos, mitos e alquimia.
MANUAL DE PSICOLOGIA GERAL, Neste livro, que teve origem numa série de palestras feilas no
David C. Ed,wards Instituto Jung de Zurich, ela volta sua atenção para o significado
do irraciooal.
FREUD E SEUS DISCÍPULOS,
Paul Roazen Com penetrante perspicácia, a autora examinou o fundo
psicológico do tempo, do rtúmero e dos métodos de adivinhação.
como o I Ching, a astrologia, as cartas do Tarô, a quiromancia.
AS IDÉIAS DE FREUD, os dados e os padrões aleatórios etc. Contrastando as atitudes
Richard. W olhein
científicas do Ocidente com a dos chineses e â dos chamados
primitivos, ela explica e ilustra as idéias de Jung sobre arqué-
AS IDÉIAS DE REICH, tipos, projegão, energia psíquica e sincronicidade.
Cha es.Rycroft
Mais do que qualquer outro autor desta área, Marie-Louise
tem a habilidade de basear suas teorias psicológicas em exem-
plos práticos da vida diária, o que torna a sua obra acessível
taoúo ao leigo como ao terapista profissional.
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Este volume é o primeiro de uma série de estudos sobre
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