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CAPÍTULO 3

TERMODINÂMICA

3.1 – INTRODUÇÃO
Termodinâmica é a ciência que tem por objetivo estudar a energia em suas várias formas, e as
transformações de uma forma para outra. Estuda também as possibilidades de que um processo de
transformação possa ocorrer espontaneamente, bem como seu ponto de equilíbrio.

Em termodinâmica, sistema é definido como qualquer porção de matéria contida num espaço
perfeitamente caracterizada por seus limites; meio externo tudo que está fora desses limites.
Idealmente, os limites de um sistema têm características especiais. Podem ser:
Isolantes quando não permitem a passagem de matéria ou de energia;
Não isolantes quando permitem que o sistema interaja com o meio externo;
Rígidos quando não permitem variar o volume do sistema;
Flexíveis quando podem permitir a variação do volume do sistema.
Os sistemas não isolados podem ser:
Abertos quando permitem trocas de matéria e energia com o meio externo;
Fechados quando só permitem trocas de energia.

Um sistema aberto no qual a taxa (ou vazão) de matéria que entra é igual à que sai é dito sistema
aberto de fluxo contínuo. Se, além disso, todas as demais propriedades do sistema forem constantes ao
longo do tempo, então o sistema é dito em regime estacionário. Estes tipos de sistemas são muito
importantes em engenharia porque a maior parte dos processos químicos e ou físicos são operados de
forma a se aproximar o mais possível do regime estacionário.
Quando ocorrem variações na taxa de entrada ou saída matéria de um sistema ou variações nas
suas propriedades, então ele está em regime transiente. Esse tipo de situação ocorre em processos
descontínuos ou durante as fases de partida e parada de sistemas que normalmente operam em regime
estacionário.

Um sistema pode ser caracterizado pelo seu conteúdo de energia, nas suas diversas formas, tais
como energia interna, energia cinética e energia potencial. A energia interna representa todas as formas
de energia contida no interior dos átomos, nas ligações químicas que formam as moléculas, na interação e
no movimento dessas moléculas. A energia cinética é devida ao movimento do sistema e a energia
potencial é devida à sua elevação em relação a um nível de referência. Outras formas de energia, tais como
a energia acumulada em superfícies e a energia magnética, geralmente não são consideradas na
termodinâmica química.

Um sistema pode trocar energia com o meio externo através de formas transitórias de energia. As
mais importantes são o calor (Q) e o trabalho (W). Esta última pode ser subdividida em dois tipos: a
energia transferida por eixos mecânicos e a energia de expansão ou compressão em sistemas de paredes
flexíveis.
O trabalho de expansão ou compressão de um sistema de paredes flexíveis pode ser ilustrado por
um cilindro que tem um êmbolo que se desloca sob a ação de uma força como mostrado na Figura 3.1–1
abaixo:

Figura 3.1–1
Deslocamento do pistão de um cilindro pela ação de uma força

O trabalho We/c realizado pela força F constante será igual a F×d onde d é a distância percorrida. A
força corresponde à pressão (P) que feita pelo meio externo (ou pelo sistema) sobre o êmbolo. Para um
êmbolo de área A, a expressão de We/c fica
We/c = P×A×d

Sendo A×d igual ao volume deslocado V, a expressão do trabalho de expansão ou compressão fica:

We/c = PV (3.1–1)
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3.2 - A PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA

FORMA GERAL
A energia total de um sistema resultará da soma das várias formas de energia que ele contém. Se o
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sistema for fechado, sua energia será a soma da energia interna (U), da energia cinética (mv /2) e da
energia potencial (mgh):
Etotal = U + mv2/2 + mgh (3.2–1)
onde
Etotal é a energia total do sistema
m é a massa do sistema
v é a velocidade do sistema
g é a aceleração da gravidade
h é a altura (elevação do sistema em relação a um referencial)

Se esse sistema sofrer um processo de transformação de um estado (1) para outro (2), a variação
de sua energia total será:
∆Etotal = U2 +mv22/2 +mgh2 –U1 –mv12/2 –mgh1 (3.2–2)

Para um sistema aberto podemos escrever uma expressão semelhante, considerando a energia
transportada pela massa que entra no sistema (1) e pela passa retirada do sistema (2). Além disso, é
necessário incluir o trabalho feito pelo meio externo sobre o sistema na entrada e pelo sistema sobre o meio
externo na saída. Esse trabalho é equivalente ao trabalho de compressão PV. A variação total de energia
será então:
∆Etotal = U2 + P2V2 + mv22/2 + mgh2 –U1–P1V1 –mv12/2 –mgh1 (3.2–3)

onde P é pressão do sistema e V é o seu volume.

A primeira lei da termodinâmica diz que, para transformações ocorridas num sistema, sem que haja
troca de energia com o meio externo, a energia total deve permanecer constante, ou seja,
∆Etotal = 0.
Estendida para sistemas que trocam energia na forma de calor ou trabalho, a primeira lei
estabelece que a variação total da energia do sistema será igual à soma da energia recebida ou cedida na
forma de calor e trabalho. A expressão da primeira lei da termodinâmica fica:
∆Etotal = Q + W (3.2–4)

Substituindo em (3.2–3) e rearranjando, obtêm-se:

∆Etotal = U2 + P2V2 –(U1 +P1V1) + m(v22 –v12)/2 + mg(h2–h1) = Q + W (3.2–5)

A quantidade U + PV é definida como entalpia (H):

H ≡ U + PV (3.2–6)

Substituindo a (3.2–6) em (3.2–5) e fazendo H2 −H1 = ∆H vem:

∆Etotal = ∆H + m(v22 –v12)/2 + mg(h2 –h1) = Q + W (3.2–7)

Para os sistemas abertos de fluxo constante operando em regime estacionário são usadas as
mesmas equações acima, mas todas as quantidades devem ser relacionadas ao tempo. Assim, por
exemplo, a Equação (3.1–3) fica:

(∆Etotal )/tempo = Q/tempo + W/tempo (3.2–8)

Para utilizar as expressões que envolvem troca energia é necessário estabelecer uma convenção
de sinais para Q e W. Uma convenção conveniente considerar que a energia recebida pelo sistema tenha
sinal positivo e quando cedido ao meio externo tenha sinal negativo.
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CASOS PARTICULARES
Em muitos casos de interesse em engenharia, as variações de energia cinética e potencial são
muito pequenas e podem ser desprezadas. Para sistemas fechados, substituindo a Equação (3.2–4) em
(3.2–2), têm-se:
∆U = Q + W (3.2–9)

Para sistemas abertos de fluxo contínuo a Equação (3.2–7) fica:

∆H = Q + W (3.2–10)

As Equações (3.2–9 e 3.2–10) podem ser utilizadas em balanços de energia em sistemas que
envolvem mudanças de fase, misturas ou separações físicas, reações químicas, troca térmica ou realização
de trabalho mecânico.

A Figura 3.2–1 mostra um sistema aberto de fluxo contínuo. Aplicando a Equação (3.2–10)
para o trocador: ∆H(1→2)/tempo = Qt
para a turbina: ∆H(2→3)/tempo = Wt
ou para o conjunto, ∆H(1→3)/tempo = Qt −Wt.

H1/tempo H2/tempo H3/tempo

Qt
Wt
TROCADOR DE
CALOR
TURBINA

Figura 3.2–1
Sistema aberto de fluxo contínuo

Exemplo 3.2–1
Para o arranjo mostrado na Figura 3.2–1, são dados:
- Vazão de fluido através do sistema: 76320 kg/h
- Carga térmica do trocador de calor: 5200 kW (potência transferida para o fluido);
- Potência térmica transferida pelo fluido para o eixo da turbina: 12500 kW
- Entalpia inicial do fluido: 2800 kJ/kg;
Determinar a entalpia final do fluido.

Solução
- Conversão de unidades:
Vazão: 76320 kg/h ⇒ 21,20 kg/s

- Entalpia total trazida pela alimentação por unidade de tempo:


H1 =(21,20kg/s)×(2800kJ/kg) = 59360 kJ/s

- Variação da entalpia devida à carga térmica transferida pelo trocador: Qt = 5200 kJ/s

- Variação da entalpia por unidade de tempo devida à potência transferida para o eixo da turbina:
Wt = −12500 kJ/s
- Entalpia específica final:
Entalpia final = Entalpia inicial + Variação total da entalpia
H3 = H1 + Qt −Wt
H3 = 59360 kJ/s + 5200kJ/s –12500 kJ/s

H3 = 52060 kJ/s
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Nos casos de movimentação de fluidos incompressíveis (apresentam volume constante), sem troca
de calor nem realização de trabalho, sem a mudança de composição química e sem atrito (energia interna
constante) a equação (3.2–3) fica:

∆Etotal = P2 V + mv22/2 + mgh2–P1V–mv12/2 – mgh1 = 0


e
P2 V + mv22/2 + mgh2 = P1V +m.v12/2 + mgh1

Dividindo essa expressão por mg, vem:

P2 V/mg + v22/2g + h2 = P1V/mg + v12/2g + h1

Sendo a densidade definida como a relação entre a massa e o volume do sistema (ρ = m/V),
substituindo m/V por ρ na expressão acima, vem:

P2 v2 P v2
+ 2 + h 2 = 1 + 1 + h1 (3.2–11)
ρg 2g ρg 2g

A Equação (3.2–11) é a Equação de Bernouilli.

Exemplo 3.2–1
Água escoa por uma tubulação com dois diâmetros diferentes como ilustrado abaixo

P1
P2

1 2

Determinar a pressão na seção 2, sabendo-se que as velocidades nas seções 1 e 2 são


5 2
respectivamente 1,0 m/s e 5,0 m/s e que a pressão no ponto 1 é 1,00 atm (1,013×10 N/m ). A densidade do
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líquido é 1000 kg/m . Desprezar a perda de carga entre os pontos 1 e 2.

Solução
Aplicando a equação (3.2–11) considerando h1 = h2 e simplificando vem:
P2 v 22 P1 v12
+ = +
ρ 2 ρ 2
Isolando P2 vem:
ρ
P2 = P1 + ⋅ (v12 − v 22 )
2

Substituindo os valores e efetuando:


P2 = 1,013×10 N/m + (1000 kg/m /2)×[(1m/s) – (5m/s) ] = 89300 N/m ≡ 0,882 atm.
5 2 3 2 2 2
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3.3 – A SEGUNDA LEI DA TERMODINÂMICA
EQUILÍBRIO E NÃO EQULÍBRIO
Em geral, equilíbrio significa uma situação na qual não ocorrem mudanças, sem a intervenção de
um agente externo. Em termodinâmica, equilíbrio aplica-se a sistemas nos quais não só não ocorrem
mudanças, mas também não existe tendência para que elas ocorram de forma espontânea. Um sistema não
estará em equilíbrio quando existirem forças internas que tendem a provocar mudanças nas suas
condições, até que ele atinja o equilíbrio. Uma vez em equilíbrio, este somente poderá ser alterado pela
ação de forças vindas do meio externo.

PROCESSOS REVERSÍVEIS E IRREVERSÍVEIS


Sistemas fechados, mas não isolados, podem sofrer mudanças provocadas por forças vindas do
meio externo. A direção da mudança dependerá da direção da resultante dessas forças. Uma mudança é
caracterizada como reversível quando ela puder ser revertida, sempre que ocorrer uma reversão
infinitesimal nas condições do meio externo.
Essa situação pode ser exemplificada por um cilindro colocado na posição vertical e munido de um
pistão sem peso e que pode mover-se sem atrito. Sobre o pistão é colocado um saco de areia muito fina,
deixando o conjunto em equilíbrio. Se o saco de areia for removido, o pistão desloca-se até uma nova
posição de equilíbrio, acima da posição inicial. Nestas condições não é mais possível retornar à situação
original simplesmente recolocando o saco de areia sobre o pistão. Isso só pode ser feito se o saco de areia
for elevando até a altura do pistão, o que requer energia extra. O processo é, portanto, irreversível.
Imagine-se agora que seja possível remover cada grão de areia individualmente deixando-o na
elevação em que foi removido. Ao final do processo só não é possível retornar à posição original porque o
primeiro grão de areia não pode mais ser retornado para o saco sem a utilização de energia extra para
eleva-lo até a altura do pistão. Porém, que neste caso, a quantidade de energia é muito menor que no caso
anterior. Essa energia será tanto menor quanto menor for o grão de areia e tenderá para zero quando a
massa de grão de areia também tender a zero. O número de etapas de remoção dos grãos, porém, tenderá
para infinito. Ai sim, o processo seria reversível.
É claro que processos reversíveis não existem, na prática, mas eles podem servir como referência
para as possibilidades e os limites de processos reais.

MÁQUINAS TÉRMICAS
Máquinas térmicas são dispositivos cujo principal objetivo é retirar calor de uma fonte quente para
transforma-lo em trabalho útil como, por exemplo, mover um corpo de uma posição para outra. Desde que
essas máquinas foram inventadas percebeu-se que, para mantê-las funcionando contínuo, é sempre
necessário descartar algum calor no meio ambiente (fonte fira), sem que seja possível utiliza-lo para efetuar
qualquer trabalho útil. Observa-se também que não é possível transferir calor da fonte fria para a fonte
quente sem a utilização de trabalho produzido por outro sistema operando no ciclo inverso.
Define-se eficiência termodinâmica de uma máquina térmica como a relação entre o trabalho útil
que ela produz (W) e a quantidade de calor que ela retira da fonte quente (QH).

W
η=− (3.3–1)
QH

O sinal negativo é usado para obter η com sinal positivo, uma vez que W e QH têm sinais contrários.
Se a máquina não acumula nem perde energia, a variação de sua energia total deve sr nula. Então,
de acordo com a Primeira Lei da Termodinâmica, têm-se:

QH + QC + W = 0

onde QC é a quantidade de calor transferido para a fonte fria.


Isolando W e substituindo em (3.3–1), vem:
QC
η = 1+ (3.3–2)
QH

Observe-se que QC e QH têm sinais contrários. Assim, se forem tomados valores absolutos, a
Equação (3.3–2) torna-se:
QC
η = 1− (3.3–3)
QH
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A eficiência termodinâmica da máquina térmica será máxima quando os processos que ela utiliza
são reversíveis. Carnot, em 1824, imaginou uma máquina térmica que utilizaria um gás ideal contido no
interior de um cilindro provido de um êmbolo sem peso, que se deslocaria sem atrito e seria operado em
ciclos, utilizando somente transformações reversíveis.
As transformações do ciclo de Carnot seriam: a) Uma expansão isotérmica; b) Uma expansão
adiabática; c) Uma compressão isotérmica; d) Uma compressão adiabática. Durante a expansão isotérmica,
a máquina retiraria uma quantidade de calor QH da fonte quente, que estaria a uma temperatura TH, e
realizaria um trabalho W1. A expansão adiabática seria realizada sem troca de calor; o sistema apenas
realizaria um trabalho W2. A compressão isotérmica serviria para rejeitar uma quantidade de calor QC para
a fonte fria ao mesmo tempo em que receberia um trabalho de compressão W3. Durante a compressão
adiabática o sistema apenas receberia um trabalho W4.
Pode ser demonstrado que, para o ciclo de Carnot, o calor absorvido durante os processos
isotérmicos (QH e QC) seriam proporcionais às temperaturas das respectivas fontes (TH e TC).

QC T
− = C (3.3–4)
Q H TH

O sinal negativo do primeiro membro compensa o fato de QH e QC terem sinais contrários.


Rearranjando essa equação vem:
Q H QC
+ =0 (3.3–5)
TH TC

A Equação (3.3–5) pode ser generalizada para qualquer ciclo reversível:

Q
∑ reversível = 0 (3.3–7)
T
Substituindo (3.3–4) em (3.3–2), vem:
T
η reversível = 1 − C (3.3–8)
TH

ENTROPIA
A Equação (3.3–7) é geral e mostra que, para qualquer processo cíclico, reversível, a somatória
das relações entre calor trocado e a respectiva temperatura é sempre nula, qualquer que seja o processo.
Isso é válido tanto para a máquina térmica quanto para o meio ambiente (o conjunto fonte quente mais fonte
fria). Se Q/T não depende do processo, essa quantidade deve estar relacionada com a variação de uma
propriedade do sistema. Essa propriedade é definida como entropia, representada por S. A variação da
entropia (∆S) será então igual à quantidade de calor trocada por um sistema, num processo reversível,
mantendo a temperatura constante:
Qreversível
∆S = (3.3–9)
T
A definição de variação de entropia pode ser aplicada a processos em que a temperatura é variável,
desde que a variação de entropia e a quantidade de calor sejam tomadas na forma diferencial:
dQreversível
dS =
T
A variação de entropia será negativa quando um sistema perde calor, e positiva no caso inverso.
Aplicando a Equação (3.3–9) para a fonte fria, têm-se ∆SC = ∆QC/TC, sendo que a variação de entropia da
fonte fria, ∆SC, deverá ter valor positivo. De forma semelhante para a fonte quente ∆SH = ∆QH/TH, sendo
que ∆SH terá um valor negativo. Assim, de acordo com a Equação (3.3–5), e usando os sinais adequados
para garantir a igualdade, vem que:
∆SC = −∆SH,
7
Pode-se afirmar também que a variação de entropia na máquina térmica, ao final de cada ciclo,
será sempre nula, mesmo que ela opere processos irreversíveis. Isso porque, a máquina volta exatamente
às condições iniciais quando completa o ciclo e, portanto a sua entropia deve voltar a ser igual à original.

Assim, considerando a máquina térmica e o meio externo, operando em processos reversíveis,


pode-se escrever, de forma genérica para cada ciclo completo:
∆Sreversível = 0 (3.1–10)

Quando uma máquina térmica opera num sistema cíclico, em que pelo menos uma transformação é
irreversível, ela terá uma eficiência menor que quando opera em ciclos reversíveis, ou seja,

T
η < 1− C (3.3–11)
TH

Substituindo (3.3–3) em (3.3–11) e rearranjando, vem:

| QC | | QH |
> (3.3–12)
TC TH

Aplicando a Equação (3.3–12), substituindo Q/T pela variação de entropia correspondente, virá que:

| ∆SC | > | ∆SH |


Utilizando as variações de entropia com seus respectivos sinais, têm-se:

∆SC > − ∆SH


ou
∆SC + ∆SH > 0
De forma genérica pode-se escrever
∆Sirreversível > 0 (3.3–13)

FORMULAÇÃO DA SEGUNDA LEI DA TERMODINÂMICA


A Segunda Lei da Termodinâmica foi enunciada primeiro com base em observações práticas. A
formulação mais antiga talvez tenha sido feita por Clausius:
Nenhum processo é capaz de transferir calor de nível de temperatura inferior para um superior sem
a utilização de trabalho externo.
O enunciado de Planck (1902) não envolvia temperaturas:
Nenhuma máquina é capaz de converter completamente calor em trabalho, seja qual for o processo
que ela utilize.
Esses enunciados têm aspectos apenas qualitativos. Eles indicam que é sempre necessário
degradar uma parte da energia envolvida em qualquer processo para que ele ocorra. Utilizando o conceito
de entropia, o enunciado torna-se mais geral, podendo ser representado matematicamente através das
Equações (3.1–10) para processos reversíveis e (3.1–13) para processos irreversíveis:
Para qualquer processo real, a variação de entropia de um sistema e do meio ambiente,
considerados juntos, é sempre positiva, aproximando-se de zero se o processo for reversível.

ENTROPIA E ENERGIA LIVRE


A entropia não é uma forma de energia, mas sim o produto TS, que representa a energia contida
num sistema que não está disponível para ser transformada em trabalho útil. A energia que pode ser
convertida em trabalho, também chamada energia livre de Helmholtz (representada por A), será a diferença
entre a energia interna do sistema e a energia TS.
A = U – TS (3.3–14)

Em engenharia química, é mais comum trabalhar com a entalpia, que inclui a energia externa PV,
do que com a energia interna. A diferença entre a entalpia e a energia TS, é chamada energia livre de
Gibbs, representada por G.
G = H – TS (3.3–15)
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Pode ser demonstrado que sistemas fechados e isolados termicamente sofrerão transformações
sempre que o termo TS aumentar. Em sistemas desse tipo, em que a entalpia é constante, essas
transformações ocorrerão até que a energia livre de Gibbs (G) chegue a um valor mínimo. A partir desse
ponto não possível realizar qualquer transformação adicional e diz-se que o sistema está em equilíbrio.
3.4 – BALANÇOS SIMULTÂNEOS DE MASSA E ENERGIA
Os balanços de materiais descritos no Capítulo 2 foram desenvolvidos foram desenvolvidos com a
premissa de que os graus de liberdade eram preenchidos com dados relacionados com quantidades ou
frações mássicas ou molares das correntes. Pode ocorrer, porém, que um dos graus de liberdade seja uma
quantidade de energia (ou potência, no caso de sistemas contínuos), informada direta ou indiretamente.
Neste caso uma das equações de balanço material não poderá ser escrita. Em seu lugar, será escrita uma
equação de balanço de energia, estruturada de acordo com a primeira lei da termodinâmica.

p correntes q correntes
Mj SISTEMA Mk

±Qt ±Wt

Figura 3.4–1
Sistema com p entradas e q saídas

Seja um sistema com p entradas e q saídas, como mostrado na Figura 3.4–1 acima. Para esse
sistema vale a Equação (3.1–1) (Capítulo 2), se for descontínuo. Para um sistema de fluxos constantes, a
equação de balanço material é:
ΣMj = ΣMk + dmac/dt (3.4–1)
onde
Mj é a vazão da corrente de entrada j (j = 1...p)
Mk é a vazão da corrente de saída k (k = 1...q)
dm/dt é a taxa de acúmulo de massa no sistema.
O balanço de energia pode ser feito com base na Equação (3.4–1):

ΣMj×hi ± Qt ± Wt = ΣMk×hk + (dmac/dt)×hac + dE/dt (3.4–2)


onde
hj é a entalpia específica da corrente j
hk é a entalpia específica da corrente k
hac é a entalpia específica da massa acumulada no sistema;
Qt é a carga térmica do sistema (energia térmica total trocada por unidade de tempo);
Wt é a potência mecânica introduzida ou retirada do sistema;
dE/dt é a taxa de acúmulo de energia no interior do sistema.

A Equação (3.4–2) é na verdade um balanço de potência, porque as quantidades Mj, Mk e


(dmac/dt) são vazões (quantidades de matéria que passa por unidade de tempo). Se não ocorrerem reações
químicas no interior do sistema, a Equação (3.4–2) poderá ser aplicada indistintamente para vazões mássicas
ou molares. Quando ocorrem reações químicas, porém, ela, de modo geral, só é válida para quantidades
mássicas.
Se não houver acúmulo de massa nem de energia, então o sistema é dito em estado estacionário.
Neste caso, a Equação (3.4–2) fica:

ΣMj×hi ± Qt ± Wt = ΣMk×hk (3.4–2)

Para utilizar a equação (3.4–2) será necessário conhecer as entalpias especificas de todas as
correntes e as quantidades de calor e trabalho trocados indiretamente entre o sistema e o ambiente. Se as
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quantidades não estiverem diretamente disponíveis, serão necessários dados tais como temperaturas,
pressões e composições das correntes de modo que elas possam ser calculadas.

Exemplo 3.4–1
Deseja-se preparar uma mistura de ácido sulfúrico e ácido nítrico como mostrado na figura e Tabela
6
abaixo. Sabendo-se que a carga térmica do resfriador (Qt) é 2,645×10 kJ/h determinar os valores que estão
em branco na Tabela e a entalpia específica da mistura antes do resfriador.

Qt
1

RESFRIADOR

Tabela de correntes
Corrente 1 2 3
Componente kg/h %peso kg/h %peso kg/h %peso
Ácido nítrico 56,00 0,00
Ácido sulfúrico 0,00 98,00
Água
Total 16.000,0
Entalpia específica(kJ/kg) −157 48,0 −189

Solução
Tabela de correntes
Corrente 1 2 3
Componente kg/h %peso kg/h %peso kg/h %peso
Ácido nítrico a1 56,00 a2 0,00 a3 xa,3
Ácido sulfúrico b1 0,00 b2 98,00 b3 xb,3
Água c1 xc,1 c2 xc,2 c3 xc,3
Total 16.000,0 100,00 t2 100,00 t3 100,00
Entalpia específica (kJ/kg) −157 48,0 −189

Graus de liberdade: N = n×(c –1) = 3×(3 –1) = 6;


Equações necessárias: E = c×(n + 1) –v = 3×(3 + 1) –1 = 11.

Equações de balanço de massa:


a1 = 0,5600×16000,0 (1); b1 = 0,00×16000,0 (2); a2 = 0,0×t2 (3); b2 = 0,9800×t2 (4) ;
a1 + b1 + c1 = 16000,0 (5); a2 + b2 + c2 = t2 (6); a3 + b3 + c3 = t3 (7);
a1 + a2 = a3 (8); b1 + b2 = b3 (9) ; c1 + c2 = c3 (10)
Equação de balanço de energia:
(16.000,0kg/h)×(−157kJ/kg) + t2×(48,0kJ/kg) −2,645×10 kJ/h = t3×(−189kJ/kg) (11)
6

Resolvendo esse sistema de equações, e calculando as frações mássicas, a Tabela de Correntes


fica:
Tabela de Correntes
Corrente 1 2 3
Componente kg/h %peso kg/h %peso kg/h %peso
Ácido nítrico 8.960,0 56,00 0,0 0,00 8.960,0 35,84
Ácido sulfúrico 0,0 0,00 8820,0 98,00 8.820,0 35,28
Água 7.040,0 44,00 180,0 2,00 7.220,0 28,88
Total 16.000,0 100,00 9.000,0 100,00 25.000,0 100,00
Entalpia específica (kJ/kg) −157 48,0 −189
10

- Entalpia específica da mistura antes do resfriador:

h = [(16.000kg/h)×(−157kJ/kg) +(9000kg/h)×(48,0kJ/kg)] ÷ 25.000kg/h

h = −83,2 kJ/kg