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MARCELO GOBBO DALLA


PODER JUDICIÁRIO DEA

TRIBUNAL DE JUSTIÇA
Estado do Paraná

Apelação Cível nº. 1.602.855-6 fls. 1

APELAÇÃO CÍVEL Nº. 1.602.855-6, DE FORO CENTRAL DA COMARCA


DA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA – 19ª VARA CÍVEL
NÚMERO UNIFICADO: 42692-39.2013.8.16.0001
APELANTE: VOLKSWAGEM DO BRASIL INDÚSTRIA DE VEÍCULOS
AUTOMOTORES LTDA.
APELADA: ALCIONE MARIA NOVELLI DE PAULA LIMA
INTERESSADO: SERVOPA S/A COMÉRCIO E INDÚSTRIA
RELATOR: DES. MARCELO GOBBO DALLA DEA

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER


CUMULADA COM PERDAS E DANOS. PROBLEMAS NA
TRANSMISSÃO DE VEÍCULO ADQUIRIDO ZERO QUILÔMETRO.
REVISÕES NÃO REALIZADAS NO PRAZO E MODO
ESTABELECIDOS NO PLANO DE MANUTENÇÃO E GARANTIA.
EXTINÇÃO. DEFEITO CONSTATADO QUANDO JÁ EXPIRADA A
GARANTIA. SENTENÇA REFORMADA.
1. As cláusulas contratuais não são de difícil compreensão
e explicitam com clareza que a garantia do veículo está
condicionada a realização dos serviços de manutenção
dentro dos limites de tempo e quilometragem.
2. A segunda revisão deveria ser feita com 20.647 km ou
na data de 29/07/2011. O serviço foi executado com 20.051
km e somente na data de 23/11/2011, ou seja, se descontado
um mês de tolerância, a revisão foi realizada com um atraso
de quase três meses.
3. De igual forma a quarta revisão deveria ser executada
com 38.933 km ou no dia 21/11/2012. O serviço foi realizado
dentro da data limite se observado um mês de tolerância,
mais com 40.004 km, ou seja, ultrapassando a tolerância de
1.000 km.
4. Além disso, quando o defeito no câmbio automático foi
constatado, já havia expirado o prazo de 03 (três) anos dado
ao conjunto de motor e transmissão, de modo que a recusa
na realização do serviço pelos réus não de mostrou abusiva.

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5. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.

VISTOS, relatados e discutidos estes autos de


Apelação Cível nº. 1.602.855-6, de Foro Central da Comarca da
Região Metropolitana de Curitiba – 19ª Vara Cível, em que é apelante
Volkswagem do Brasil Indústria de Veículos Automotores Ltda. e
apelada Alcione Maria Novelli de Paula Lima.

I – RELATÓRIO

Trata-se de ação de obrigação de fazer cumulada


com perdas e danos ajuizada por Alcione Maria Novelli de Paula Lima
em face de Volkswagem do Brasil Indústria de Veículos Automotores
Ltda. e Servopa S/A – Comércio e Indústria, em decorrência de
defeito apresentado em veículo automotor (sequência 1.1).

Após o regular trâmite do processo, sobreveio


sentença (sequência 92.1) nos seguintes termos, in verbis:

Pelo exposto, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTES os


pedidos formulados na petição inicial, pelo que julgo extinto o
feito nos moldes do artigo 269, I do Código de Processo Civil,
condenando as rés a proceder o concerto do veículo em
questão, no prazo de 30 (trinta) dias, sob pena de multa
diária a ser arbitrada por este juízo.
Condeno também as rés, solidariamente, ao pagamento de
danos morais no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais), valor
suficiente a atender os caráteres compensatório e punitivo-
educativo, que deverá ser corrigido monetariamente pela
média entre o INPC e o IGP-DI a partir da sentença e
acrescido de juros de mora desde a data do evento danoso.
Ante a sucumbência, condeno a ré ao pagamento das custas

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processuais e dos honorários advocatícios, os quais,


observando-se os parâmetros estabelecidos no artigo 20, §
3.º, alíneas “a”, “d” e “c”, fixo em 20% (vinte por cento)
sobre o valor da condenação.

A ré Volkswagem opôs embargos de declaração


(sequência 100.1), os quais foram rejeitados (sequência 102.1).

Insatisfeita a ré Volkswagem interpôs recurso de


apelação (sequência 108.1) alegando em síntese, in verbis:
a)- que o Certificado de Garantia que acompanha o
produto, prevê expressamente que a garantia contratual está
condicionada à realização dos serviços de manutenção junto à Rede
Autorizada Volkswagen, desde que estas sejam realizadas dentro do
limite de quilometragem ou de tempo previstos no referido
certificado;
b)- que o certificado de garantia, tal como já fora
mencionado anteriormente na presente apelação, determina que as
revisões sejam realizadas a cada 10.000 kms (dez mil quilômetros) ou
a cada 06 (seis) meses da data da última revisão, prevalecendo o que
ocorrer primeiro;
c)- que referido documento ainda prevê
expressamente que será admitida uma tolerância de 1.000 km (uns
mil quilômetros) ou de 1 (um) mês, sendo estas consideradas válidas
para fins de manutenção da garantia contratual;
d)- que que embora todas as condições até então
mencionadas tenham sido observadas no ato da prolação da r.
sentença, o MM. Juízo a quo não se ateve às datas dos registros
constantes do certificado de garantia do produto, juntado em fl. 29
dos autos;
e)- que o referido documento comprova que a 2ª
revisão do veículo deveria ter sido realizada até o dia 29.07.2011 ou
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quando o veículo alcançasse a marca de 20.647 quilômetros rodados,


o que ocorresse primeiro. Entretanto, somente em 23.11.2011 a Sra.
Alcione encaminhou o seu veículo para a revisão;
f)- que a 2ª revisão foi realizada no veículo quase
04 (quatro) meses depois da data limite para sua realização, sendo
que a tolerância prevista no certificado era de apenas 01 (um) mês;
g)- que igualmente intempestiva e irregular foi a
realização do 4º serviço de revisão do veículo, vez que ele deveria ter
sido executado até o dia 21.11.2012 ou até que o veículo atingisse a
marca de 38.933 quilômetros rodados e, no entanto, a Sra. Alcione
somente submeteu o seu veículo à revisão em 20.12.2012, data em
que o veículo já marcava 40.004 quilômetros rodados;
h)- que a 4ª revisão, ocorreu quando o veículo já
havia percorrido 1.071 (um mil) quilômetros a mais do limite
estabelecido para realização da revisão, sendo que a tolerância
prevista no certificado em relação à quilometragem era de apenas
1.000 (um mil e setenta e um) quilômetros;
i)- que não resta a menor dúvida de que a Apelada
descumpriu com as condições contratuais entabuladas com o
fabricante do produto por ela adquirido, dando causa, portanto, à
extinção da garantia contratual de 03 (três) anos que acobertava o
veículo sub judice;
j)- que estando devidamente comprovado nos
autos que a Apelada não tinha oi direito de exigir o conserto em
garantia de seu veículo, visto ter ela deixado de cumprir com as
condições do certificado de garantia contratual, logo também é
inexistente o seu direito à indenização por danos morais, visto que os
serviços prestados em total conformidade com as condições do
certificado de garantia do produto e disposições do Código de Defesa
do Consumidor.

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Por tais razões pugna pelo conhecimento e


provimento do presente recurso para reformar a sentença.

O recurso foi recebido no duplo efeito (sequência


111.1) e as contrarrazões apresentadas pela autora se encontram na
sequência 117.1.

É a breve exposição.

II – VOTO E SUA FUNDAMENTAÇÃO

O recurso foi tempestivamente ofertado e


preenche os demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual
deve ser conhecido.

No mérito merece provimento.

Primeiramente importante destacar que não se


trata aqui de discutir a existência ou não de vício oculto no veículo,
até mesmo porque não houve perícia capaz de constatar se o defeito
era inerente a própria fabricação do bem ou por falta de manutenção
adequada.

Assim, resta analisar se a garantia de 03 (três)


anos dada para o conjunto de motor e transmissão cobriria os custos
orçados pela ré para a solução do problema apresentado no câmbio
automático.

Pois bem. O Certificado juntado na sequência 1.8


assim dispõe sobre a garantia:

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A garantia esta condicionada à realização dos serviços de


manutenção em uma Concessionária Volkswagem de sua
preferência, dentro dos limites de quilometragem ou de
tempo previstos neste caderno - Página 21.

Além disso no tópico “informações gerais” do


manual (página 2) fica perfeitamente claro que “É admissível uma
tolerância, para mais ou para menos, de 1.000 km nos serviços
executados por quilometragem e de um mês nos executados por
tempo. A quilometragem e a data nunca devem ser arredondadas”.

Logo, as cláusulas não são de difícil compreensão e


explicitam que a garantia do veículo está condicionada a realização
dos serviços de manutenção dentro dos limites de tempo e
quilometragem.

Ocorre que, ao contrário do que concluiu o Julgador


singular, a autora deixou de observar o tempo e quilometragem
quando da execução da 2ª e 4ª revisão.

A segunda revisão deveria ser feita com 20.647 km


ou na data de 29/07/2011. O serviço foi executado com 20.051 km e
somente na data de 23/11/2011, ou seja, se descontado um mês de
tolerância, a revisão foi realizada com um atraso de quase três
meses.

De igual forma a quarta revisão deveria ser


executada com 38.933 km ou no dia 21/11/2012. O serviço foi
realizado dentro da data limite se observado um mês de tolerância,
mais com 40.004 km, ou seja, ultrapassando a tolerância de 1.000
km.

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Portanto, ao contrário do mencionado na sentença,


houve por parte da autora descumprimento dos termos contratuais,
vez que não observou o correto prazo para a manutenção do veículo.

Nesse sentido já decidiu este Egrégio Tribunal em


caso análogo:

AÇÃO "REDIBITÓRIA" CUMULADA COM PEDIDO DE


INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. PEDIDOS JULGADOS
IMPROCEDENTES. AGRAVO RETIDO. ART. 523, §1º DO CPC.
RECURSO NÃO CONHECIDO. RECURSO DA AUTORA:
AQUISIÇÃO DE VEÍCULO ZERO QUILÔMETRO. PROBLEMAS NO
MOTOR. NECESSIDADE DE SUA SUBSTITUIÇÃO. RECUSA DA
FABRICANTE DO VEÍCULO. REVISÕES PERÍODICAS NÃO
REALIZADAS NO PRAZO E MODO ESTABELECIDOS NO PLANO
DE MANUTENÇÃO E GARANTIA DO VEÍCULO. PERDA DA
GARANTIA. VÍCIO OCULTO. INOCORRÊNCIA. NEGLIGÊNCIA DO
PROPRIETÁRIO. ART. 14, §3º, II DO CDC. SENTENÇA MANTIDA.
RECURSO DESPROVIDO. Tendo o veículo apresentado defeito
quando extinta a garantia, por ter a proprietária
negligentemente descumprido regra contratual de que tinha
pleno conhecimento, deixando de fazer a revisão do
automóvel no prazo determinado pela fabricante, não há que
se falar em responsabilidade da concessionária quanto ao
conserto, sendo indevida a indenização reclamada. (TJMG -
Apelação Cível 1.0517.09.011383-1/001, Relator (a): Des.
José Affonso da Costa Côrtes, 15ª CÂMARA CÍVEL, julgamento
em 02/05/2013, publicação da sumula em 10/05/2013) (TJPR -
17ª C.Cível - AC - 1235671-3 - Região Metropolitana de
Maringá - Foro Central de Maringá - Rel.: Lauri Caetano da
Silva - Unânime - J. 07.10.2015) (sublinhei).

Ademais, a garantia dada ao veículo teve início em


29/07/2010 e se findou em 29/07/2013, sendo o defeito constatado
apenas em 31/07/2013, conforme comprova a ordem de serviço

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197066 (sequência 1.10).

Assim, não há prova alguma nos autos de que o


defeito tenha sido comunicado aos réus na data de 20/07/2013
conforme alega a autora.

Por isso, quando o defeito no câmbio automático


foi constatado, já havia expirado o prazo de 03 (três) anos dado ao
conjunto de motor e transmissão, de modo que a recusa na realização
do serviço pelos réus não de mostrou abusiva.

Assim, voto no sentido de conhecer e dar


provimento ao recurso para julgar improcedente a demanda,
condenando a autora ao pagamento das custas processuais e dos
honorários advocatícios.

III – DECISÃO:

Diante do exposto, acordam os Desembargadores


da 18ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, por
unanimidade de votos, em conhecer e dar provimento ao recurso, nos
termos do voto do Relator.
Presidiu o julgamento o Desembargador PERICLES
BELLUSCI DE BATISTA PEREIRA, sem voto, e dele participaram os
Desembargadores ESPEDITO REIS DO AMARAL e DENISE KRUGER
PEREIRA.

Curitiba, 22 de fevereiro de 2017.

Des. MARCELO GOBBO DALLA DEA


Relator

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