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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA

NEWTON BRAUNE

EGITO 2012: AS TRANSFORMAÇÕES APÓS A PRIMAVERA ARABE

Rio de Janeiro
2017

1
Resumo

Este trabalho pretende analisar as transformações políticas ocorridas no Egito após a


Primavera Árabe de 2011 e discutir os diversos ângulos que levaram o Governo eleito de
Mohammed Morsi, pertencente à Irmandade Mulçumana, sair completamente de cena em pouco
mais de um ano, com o retorno dos militares ao poder. O ano de 2012 foi extremamente
emblemático para os egípcios, pois um novo Governo recém-eleito pela maioria de sua
população, é expurgado do poder em pouco mais de 12 (doze) meses. Analisar o jogo político
entre as Forças Armadas e a Irmandade Mulçumana é fundamental para compreender a batalha
travada pela manutenção do poder nesse conturbado período da história do Egito.

Palavras-chave: Egito, Primavera Árabe, Irmandade Mulçumana, Militares

1 INTRODUÇÃO

Este ano o Brasil completa 32 (trinta e dois) anos do fim da ditatura militar. No Egito,
esse flerte com o processo democrático, durou pouco mais de 12 (doze) meses em 2012. Os
militares estavam no poder havia 3 (três) décadas, com a imagem bastante desgastada perante a
população. Seu principal líder, General Hosni Mubarak, foi deposto e preso, um revés até então
inimaginável no país. Tudo levava a crer que a Primavera Árabe chegara para ficar. Entretanto, o
país retornou ao status quo anterior, com a volta dos militares ao poder, mesmo após os
marcantes conflitos travados na famosa Praça Tahrir.
A linha do tempo (Figura 1) apresenta o período compreendido nesse trabalho:

Figura 1 – Linha do Tempo


2011 - Janeiro

Início das demonstrações contra o


Governo do General Hosni Mubarak.

2011 - Fevereiro

Hosni Mubarak renuncia após 30 anos


no poder, sendo preso na sequência.

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2012 – Junho

Mohammed Morsi, candidato da


Irmandade Mulçumana, ganha eleição
presidencial.

2013 – Julho

Militares removem Mohammed Morsi


e voltam ao poder com General Abdel
el-Sisi.

Fonte: Site Jornal “The Guardian” – (www.theguardian.com) - Protestos no Oriente Médio visto em 01/02/2017.

2 DESENVOLVIMENTO

Em 2011 o mundo assistiu os egípcios derrubarem o General Mubarak, que estava há 30


anos no poder. Todos ficaram estupefatos com a queda abrupta do governo ditatorial e
enalteceram os heróis da Praça de Tahrir. De uma forma geral existe um vasto e detalhado
material histórico documentando os acontecimentos ocorridos no Egito nos últimos anos. O
grande desafio, portanto, será selecionar os fatos realmente relevantes e determinísticos que
expliquem a derrocada do governo de Mohamed Morsi em meio às várias fontes disponíveis.

2.1 Overview do Egito

Com mais de 85 (oitenta e cinco) milhões de habitantes (15º posição no mundo em


termos populacionais) o Egito (Figura 2) é o maior país do norte da África e do mundo Árabe. A
maioria de sua população vive às margens do rio Nilo, com grandes concentrações nas cidades
do Cairo (capital) e Alexandria.

Figura 2 – Posição do Egito

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Fonte: Site Wikipédia – (pt.wikipedia.org/wiki/Egito) visto em 15/01/2017.

O Egito é um dos países de mais longa tradição histórica, considerado por muitos o
berço da civilização humana. O antigo Egito vivenciou os primeiros desenvolvimentos da
escrita, agricultura, urbanização, religião e governo. Seus grandes monumentos, tanto no Cairo
quanto em Luxor, pertencem ao Patrimônio Mundial da Humanidade e continuam a despertar
interesses ao redor do mundo, fazendo com que o turismo ocupe o primeiro lugar na geração de
receita para o país (Figura 3).

Figura 3 – Fronteiras do Egito

Fonte: Site UOL – (uol.com.br/noticia/mapa-do-Egito) visto em 17/01/2017.

A economia egípcia é a segunda maior no mundo árabe, depois da Arábia Saudita,


entretanto, o país vem enfrentando grandes dificuldades para suportar o crescimento
populacional. A população é predominantemente mulçumana fazendo com que o líder da
Mesquita de Al-Azhar, no Cairo, seja uma das maiores autoridades no mundo islâmico. O
Governo militar tem sido um aliado importante do Ocidente com uma participação de destaque
na política do Oriente Médio, principalmente no conflito árabe-israelense.
A economia do Egito tinha em 2012 um PIB de mais 500 bilhões de dólares. O pais tem
4 (quatro) principais fontes econômicas. Em primeiro lugar vem o turismo, seguido pela extração
e a exportação de petróleo, que gera emprego e lucros para o governo. Em terceiro lugar vem os
impostos e as taxas alfandegárias cobradas sobre os navios que passam pelo canal de Suez, e em
último vem as ajudas que são enviadas por egípcios que vão para outros países e mandam
dinheiro para suas famílias. O Quadro 1 apresenta dados significativos do Egito.

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Quadro 1 – Dados do Egito
Nome República Árabe do Egito
População 85 milhões, com 30% de analfabetos
Área 1 milhão km2
Religião Islã
Expectativa de Vida 68 anos
Moeda Libra Egípcia
Produtos de Exportação Petróleo e Algodão
Usuários do Facebook 14 milhões
Membro da ONU Desde 1945
Inflação 15%

Fonte: Site BBC – (www.bbc.com) – África – Perfil do Egito, visto em 3/3/2017

2.2 Antes da Primavera Árabe

A bem da verdade a Primavera Árabe pegou todos de surpresa, principalmente no Egito.


Já existiam movimentos de insatisfação contra o Governo de Mubarak, mas todos imaginavam
que a robustez dos militares seria suficiente para debelar manifestações semelhantes. Era fora de
cogitação, portanto, acreditar que Mubarak seria deposto e colocado na prisão em tão curto
espaço de tempo. A queda de Mubarak estarreceu o mundo.

2.2.1 Movimento Kefaya

O movimento Kefaya (Basta) surgiu no verão de 2004 como uma plataforma de


oposição ao Presidente Hosni Mubarak, sua política de estagnação econômica, a corrupção
endêmica de seu governo e a possibilidade de transferência do poder diretamente para seu filho
Gamal, processo semelhante ocorrido na Síria onde Bashar al-Assad herdou o governo de seu pai
Hafez al-Assad. Os egípcios estavam cansados e não viam com bons olhos uma dinastia
Mubarak como única opção de poder.
A primeira manifestação ocorreu em 12 de dezembro de 2004 quando 1.000 (mil)
participantes protestaram em frente ao edifício do Supremo Tribunal de Justiça, no Cairo. Com o
passar do tempo, entretanto, o movimento perdeu momentum pela falta de uma liderança mais
5
contundente e com a frustação geral devido a inabilidade da oposição forçar as reformas
necessárias (Figura 4). A Kefaya simplesmente não teve força suficiente para continuar sua luta
contra o Governo.

Figura 4 – Protesto Kefaya

Fonte: Site Arabist.Net – (arabista.net/blog) – Demonstração Kefaya visto em 3/03/2017.

2.2.2 Movimento Jovem 6 de Abril

Em abril de 2008 a cidade de El Mahalla, importante centro têxtil com 500 (quinhentos)
mil habitantes localizada na foz do Rio Nilo, foi cenário de grandes manifestações contra o
resultado da reeleição do Presidente Hosni Mubarak. Os manifestantes alegaram que a eleição
tinha sido fraudulenta e, ao mesmo tempo, demandavam por melhores condições de vida e
aumento salarial.
O Governo enviou forças de segurança para abafar o movimento, provocando a morte
de 2 (dois) manifestantes e causando ferimento em dezenas de participantes. O ápice do
movimento ocorreu no dia 6 de abril, que provocou o surgimento do grupo MOVIMENTO
JOVEM 6 DE ABRIL, que terá participação ativa na Primavera Árabe 3 (três) anos depois¹

1 – Site Wikipédia - (www.wikipedia.org) – Movimento 6 de Abril, visto em 5/3/2017.


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2.3 Primavera Árabe

No dia 17 de dezembro de 2010, na pequena cidade de Sidi Bouzid na Tunísia, o


vendedor ambulante Mohammed Bouazizi ateou fogo no próprio corpo (Figura 5) após a polícia
confiscar seus produtos e humilhá-lo publicamente. O chocante suicídio de um trabalhador tão
humilde provocou uma gigantesca onda de indignações na opinião pública e, imediatamente,
ferozes manifestações tomaram conta do país.

Figura 5 – Representação a imolação de Bouazizi

Fonte: Site Global Connections – (global.conections.edu) – Bouazizi visto em 7/03/2017.

Em poucas semanas, essa agitação social espalhou-se por todo o Oriente Médio,
principalmente no Egito, Tunísia, Líbano, Síria e Iêmen. Em vários países as demonstrações
tiveram tal magnitude e sucesso que os governos autoritários foram depostos um atrás do outro.
Na tentativa de criar novos caminhos possíveis para a democratização de países com uma
tradição tão autoritária esses eventos receberam da mídia o nome de Primavera Árabe.
A expressão faz referência direta ao momento histórico ocorrido na Europa Oriental em
1989, quando o então hermético regime comunista começou a cair, numa espécie de efeito
dominó, face à grande pressão popular dos países do bloco comunista (Polônia, Alemanha
Oriental, Hungria, Romênia, Bulgária e Tchecoslováquia), que passaram a adotar regimes
democráticos e uma economia de mercado mais alinhada com a Europa Ocidental.
Os eventos ocorridos no Oriente Médio, entretanto, não tiveram o mesmo alinhamento.
Egito, Tunísia e Iêmen entram num período de transição conturbado, Síria e Líbia foram
envolvidas em conflitos civis, enquanto as ricas monarquias do Golfo Pérsico permaneceram
completamente imunes. Existe, portanto, certa crítica ao termo Primavera Árabe por ser simplista
e não refletir a realidade ocorrida, em 2011, no mundo árabe.
7
Os protestos e movimentos de 2011 foram, na verdade, a exacerbação de um grande
sentimento de revolta contra os ditadores locais, encastelados no poder há décadas, as custas de
eleições fraudulentas, quando as mesmas ocorriam. Foi grito de indignação contra a brutalidade
dos órgãos de segurança, o desemprego, a inflação, a falta de melhores perspectivas futuras e a
corrupção nesses países.
A Figura 6 apresenta uma representação gráfica da propagação da Primavera Árabe com
os seus principais protagonistas.

Figura 6 – Os Protagonistas da Primavera Árabe

Fonte: Site Middle East - (middleeast.about.com) – Primavera Árabe visto em 26/04/2017.

Não existiu um consenso no modelo político e econômico. Manifestantes na Jordânia e


Marrocos desejavam uma reforma suave mantendo os governantes atuais, com a transição para
um sistema de monarquia constitucional. No Egito e Tunísia os manifestantes foram mais
contundentes e exigiram a renúncia do Presidente e convocação de eleições livres. Na Líbia o
ditador Muammar Gaddafi foi caçado e morto. Na Síria Bashar al-Assad resistiu às pressões,
provocando uma guerra civil com reflexos na Europa e que ainda está em curso no país.

2.4 Juventude e as Mídias Sociais

Por detrás da revolta popular que assolou o Oriente Médio está um movimento de jovens
utilizando o ferramental das mídias sociais e impelidos por ideais como democracia, igualdade,
8
liberdade e justiça. Uma revisão urgente precisa ser feita na Europa, União Soviética e Estados
Unidos que sempre apoiaram Governos ditatoriais no Oriente Médio e ficaram cegos as
exigências dos jovens destes países.

2.4.1 A participação dos Jovens

Em fevereiro de 2011 quase 65% (sessenta e cinco por cento) da população egípcia era
formada por pessoas com menos de 35 (trinta e cinco) anos. O alto índice de concentração
demográfico na população jovem deveu-se a dois fatores principais: redução das taxas de
mortalidade infantil e aumento considerável da taxa de natalidade, observados desde 1950.
Entretanto, a quantidade de empregos ofertados no mercado de trabalho egípcio não
conseguiu acompanhar esse crescimento populacional. A taxa de desemprego, em 2011, estava
na faixa de 14% (quatorze porcento), gerando um enorme contingente de jovens desempregados
e sem perspectivas futuras. Por sua vez o Governo de Mubarak simplesmente ignorou o
problema da empregabilidade aumentando a insatisfação geral (Figura 7) da juventude2.

Figura 7 – Revolta da Juventude em 2011

Fonte: Site Ibtimes - (www.ibtimes.co.uk) – Primavera Árabe visto em 15/04/2017.

Vários analistas sociais alegavam que os jovens egípcios eram desinteressados e não
davam valor a liberdade e a democracia e, se tivessem que tomar uma atitude política, tenderiam
a seguir os líderes islamistas. Essa teoria mostrou-se completamente errada, pois em 2011 foram
esses jovens, cansados do autoritarismo, sem vislumbrar melhorias nas condições de vida e sem
medo das retaliações que tomaram as rédeas da revolução que provocou a queda d Mubarak.

2 – Participação e Desafios da Juventude Árabe disponível no site: (www.cbsnews.com) visto em 07/04/2017.

9
2.4.2 A Importância das Mídias Sociais

A enorme expansão da internet no século 21, bem como o desenvolvimento da


tecnologia celular, tem facilitado e promovido um crescimento sem precedentes das mídias
sociais. Durante a Primavera Árabe o Facebook, Twitter e Youtube tiveram uma participação
fundamental na divulgação das manifestações. O Governo autoritário de Mubarak foi pego de
surpresa com o uso massivo das mídias digitas como fonte de divulgação de informações sobre
as manifestações.
No dia 6 de junho de 2010, Khaled Saeed, então com 28 (vinte e oito) anos, foi
brutalmente torturado pela polícia egípcia, após ter divulgado um vídeo onde eram mostrados
policiais dividindo os lucros de uma apreensão de drogas. A polícia alegou que Saeed tinha
morrido por asfixia, mas fotos passaram a circular na Internet mostrando claramente o corpo
quase irreconhecível de Saeed após as agressões.
A morte brutal de Saeed originou a criação de um grupo no Facebook chamado “Nós
Somos Todos Khaled Saeed”, pelo executivo da Google e ativista Wael Ghonim. Em 2011 a
página NÓS SOMOS TODOS KHALED SAEED atingiu a marca de 400 (quatrocentos) mil
seguidores, aglutinando a enorme frustação dos jovens contra os abusos das autoridades egípcias
e dando voz a outros casos de torturas, corrupção e prisões indiscriminadas no Egito (Figura 8).

Figura 8 – Protestos pela morte de Khaled Saeed

Fonte: Site Ikhwanweb - (www.ikhwwanweb.com) – Relembrando Saeed visto em 20/04/2017.

Em 18 de janeiro de 2011 a estudante universitária Asmaa Mahfouz criou um vídeo de 4


(quatro) minutos de duração, tanto no Facebook como no Youtube, conclamando os egípcios a
participarem de um protesto contra o Governo. Asmaa e vários outros participantes, ao entraram

10
na Praça Tahrir, foram cercados pelas forças de segurança e expulsos do local. Não se dando por
vencida Asmaa criou, então, um segundo vídeo anunciando nova tentativa de protesto para o dia
25 de janeiro, feriado nacional no Egito.
Nesse mesmo período um outro grupo ativista MOVIMENTO JOVEM 6 DE ABRIL
contatou o administrador do NÓS SOMOS TODOS KHALED SAEED solicitando ajuda na
divulgação da campanha de protesto a ser realizada no dia 25 de janeiro. Essa data entrou para a
história recente do Egito como sendo a data oficial das manifestações contra o Governo
autoritário do General Hosni Mubarak.
A união dos grupos on-line NÓS SOMOS TODOS KHALED SAEED e MOVIMENTO
JOVEM 6 DE ABRIL demostram o uso das mídias sociais para unir comunidades em prol de um
objetivo comum. Ainda durante os protestos coube a Wael Ghonim efetuar detalhadas
divulgações das manifestações via sua conta do Twitter, que possuía 200 (duzentos) mil
seguidores. Desta forma as mídias sociais passaram a ser uma das ferramentas mais importantes
na organização das demonstrações (Figura 9).

Figura 9 – NÓS SOMOS TODOS KHALED SAEED

Fonte: (www.flickr.com) – NÓS SOMOS TODOS KHALED SAEED visto em 28/04/2017.

O Governo de Mubarak pressionado pelos protestos executou uma retaliação desastrosa,


derrubando totalmente o acesso à Internet e telefonia celular na noite de 27 de janeiro. A
população, impedida de acompanhar os eventos de forma on-line, partiram em peso para as ruas.
O bloqueio nas telecomunicações foi considerado um marco importante na queda de Mubarak,
pois a decisão foi instantaneamente condenada ao redor do mundo.
O ativista Wael Ghonim (Figura 10), então com 30 (trinta) anos de idade, foi preso e
amargou duas semanas de intensos interrogatórios junto aos órgãos de segurança militar. Após a
11
sua liberação 150 (cento e cinquenta) mil pessoas iniciaram uma campanha nas midas sociais
lançando Wael Ghonim como líder da Primavera Árabe e transformando-o em herói nacional no
Egito e celebridade internacional.

Figura 10 – Wael Ghonim

Fonte: (www.aworldthatjustmightwork.com) – Líder da Revolução Egípcia visto em 19/04/2017.

2.5 Irmandade Mulçumana

É o movimento mais antigo e a maior organização islâmica do Egito, tendo suas raízes
nos ensinamentos do Alcorão. Foi fundada em 1928 por Hassan al-Banna (Figura 11) e passou a
influenciar vários movimentos islâmicos ao redor do mundo ao combinar o ativismo político
com trabalhos de caridade. Inicialmente seu papel era divulgar a moral islâmica, mas logo
acabou envolvendo-se com a política, com forte inclinação por um Estado governado pelas Leis
Islâmicas (Sharia).

Figura 11 – O fundador Hassan al-Banna

Fonte: (www.aberfoylesecurity.com) – Hassan al-Banna visto em 22/03/2017.

Após sua fundação, em 1928, várias unidades foram criadas em todo território egípcio
para cuidar da mesquita, escola e clube esportivo local. Seu crescimento foi extremamente rápido

12
e em 10 (dez) anos já tinham aproximadamente 500 (quinhentos) mil membros. Em paralelo seu
fundador criou um segmento paramilitar (Aparato Especial), cujos membros lutaram na
campanha contra o domínio colonial inglês.
Em 1954, após ser acusada de uma tentativa frustrada de assassinato do Presidente
Gamal Abdul Nasser, a Irmandade Mulçumana foi banida e milhares de seus membros foram
presos e torturados. Ela permaneceu ativa na clandestinidade, ganhando força nesse período uma
nova ideologia (Islamismo Radical) criada por Sayyid Qutb (Figura 12), que foi morto pelos
militares em morto em 1966, mas que deixou uma marca profunda na Irmandade com
repercussão até os dias atuais.

Figura 12 – Líder Radical Sayyid Qutb

Fonte: Site Amazon - (www.amazon.com) – Sayyid Qutb visto em 25/03/2017.

Durante os anos de 1980 a Irmandade Mulçumana fez várias tentativas de voltar ao


cenário político, com seus membros formando alianças com os partidos existentes. Nas eleições
de 2000 a Irmandade conseguiu 17 (dezessete) assentos no Parlamento egípcio e cinco anos mais
tarde conseguiu o melhor resultado eleitoral em toda a sua existência conquistando 20% (vinte
porcento) das cadeiras do Parlamento.
Esses resultados surpreendentes provocaram um choque de realidade no governo do
General Hosni Mubarak, que partiu imediatamente para o ataque contra a Irmandade, detendo
centenas de seus membros mais destacados e instituindo inúmeras reformas com o intuito de
conter seu crescimento. A constituição foi reescrita por determinação dos militares para proibir
atividades políticas ou partidos com teor ou fundamentação religiosa3.

3 – WICKHAM, Carrie Rosefsky. The Muslim Brotherhood.

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Para as primeiras eleições, após a queda de Mubarak (fevereiro de 2011), a Irmandade
formou um novo partido (Partido da Justiça e Liberdade), ganhando 50% (cinquenta por cento)
das cadeiras do Parlamento. Com uma coalizão junto ao partido Salafista (ultraconservador), que
tinha ficado em segundo lugar nas eleições, permitiram ao Islamistas controlar 70% (setenta por
cento) do Parlamento egípcio. É nesse novo cenário que Mohammed Morsi chega ao poder com
51% dos votos como Presidente, após a queda do regime militar.

2.6 Influência Militar

Após a assinatura do tratado de paz com Israel, em 1979, os líderes egípcios perceberam
que desmobilizar milhares de soldados treinados seria um grande problema político e social. Para
resolver esse grande impasse foram criadas organizações militares, gerenciadas por generais e
coronéis reformados, que passaram a produzir mercadorias e prestar serviços para o consumo
tanto militar quanto civil. Assim as Forças Armadas passaram a desempenhar uma enorme gama
de atividades não mais ligadas à defesa nacional.
Essas organizações promoveram enorme expansão econômica e passaram a ter
influência em vários setores da economia egípcia. Estima-se que um terço da economia do país
esteja concentrado nas mãos dos militares. Com o passar dos tempos as organizações militares
passaram a gerenciar fábricas de veículos, produtos químicos, água mineral, cimento,
alimentação, construção civil, postos de gasolina e até restaurantes.
Para tornar o nível de influência militar ainda mais abrangente e complexo, durante o
governo do General Hosni Mubarak, foi criado um artificio de remuneração que ficou conhecido
como auxílio lealdade para oficiais com tempo de aposentadoria. O auxilio era uma
compensação extra pelo baixo soldo durante a carreira militar e, na maioria dos casos,
significava um cargo em uma empresa do setor público.
Com essa prática os oficiais aposentados (salário de Major na faixa de USD 500,00)
recebiam cargos em companhias públicas (salário na faixa de USD 16.000,00)4.

4 – Site www.carnegieendowment.org - arquivo “Officers Republic”, visto em 20/03/2017.


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Ter um bom relacionamento permitiu a muitos oficiais participarem da economia civil e
ter elevado status após a aposentadoria. Essa elite militar acabaria formando um dos pilares de
sustentação do Governo de Mubarak. Mesmo com a saída de cena do General Hosni Mubarak a
hegemonia dos militares permaneceu, constituindo um adversário de peso na ascensão da
Irmandade Mulçumana, que também perseguia um maior controle na economia egípcia. Esse
embate de forças passou a representar uma ameaça direta aos interesses dos militares.
O Quadro 2 apresenta um comparativo entre as forças militares do Brasil e Egito. As
Forças Armadas egípcias ocupam, em 2017, a 13º (décima terceira) posição no ranking mundial¹.
Para um país bem menor que o Brasil em termos de população e território o Egito possui um
arsenal bélico extremamente favorável confirmando, sem sombra de dúvidas, a importância das
Forças Armadas na economia do país.

Quadro 2 – Comparativo Brasil e Egito

Comparativo Força Militar


Brasil Egito
200 milhões População 85 milhões
8,5 milhões de Km2 Área 1 milhão de Km2
328.000 Militares na Ativa 468.000
748 Aviões (Força Aérea) 1.100
489 Tanques de Guerra 4.767

Fonte: www.globalfirepower.com – Comparação Poderio Militar visto em 29/03/2017.

2.7 O Que Deu Errado no Governo Eleito do Egito?

Em 30 de Junho de 2012, Mohammed Morsi (Figura 13), líder da Irmandade


Mulçumana e filiado ao Partido da Liberdade e Justiça, prestou juramento como Presidente do
Egito. No aniversário do seu primeiro ano de Governo milhões de egípcios saíram às ruas para
exigir a renúncia do 1º Presidente eleito democraticamente na história do Egito. Quando ficou
constatado que ele não conseguiria resolver a crise, os militares aplicaram um Golpe de Estado,
colocando Morsi e outros líderes da Irmandade na prisão.

15
Figura 13 – Presidente eleito Mohammed Morsi

Fonte: Site (articles.latimes.com) – Mohammed Morsi visto em 03/04/2017.

O fim abrupto da presidência de Morsi foi motivado por vários fatores. Muito embora
ele tenha prometido ser um Presidente de todos os egípcios, suas ações deixaram claro que ele
perseguia uma agenda orquestrada pela Irmandade Mulçumana, usando o poder do seu cargo
para ganhos somente do seu partido. Ele colocou vários partidários em cargos chaves do
Governo, promoveu militantes da Irmandade para posições de Governador Provincial e instalou
pessoas de sua confiança em posições importantes no Judiciário.
Essas manobras poderiam até ser consideradas naturais em qualquer outra democracia
do mundo, mas não no Egito. Na terra de Tutancâmon existe uma longa, notória e mútua
desconfiança entre a sociedade civil e seus governantes, assim as ações de Morsi deixaram claras
que a Irmandade Mulçumana tinha a intenção de monopolizar o poder. Para piorar a situação
Morsi começou a legislar acima do Judiciário, apoiando a reformulação da Constituição via uma
constituinte formada basicamente por seus seguidores.
Imagine um Governo dominado pela paranoia e convicto da existência de conspirações
por todos os lados. Essa era a característica mais marcante da Irmandade Mulçumana no poder.
O Governo de Morsi, portanto, tem uma enorme culpa por seus próprios erros durante o ano de
2012. Ele simplesmente alienou os políticos mais importantes e declarou guerra contra a
burocracia governamental, veículo importante para o próprio funcionamento do Governo.
Abaixo destaco os maiores erros do Governo de Mohammed Morsi:

2.7.1 Eleições para Presidente

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Após a queda do General Hosni Mubarak a Irmandade Mulçumana tinha prometido não
concorrer ao cargo de Presidente nas eleições que foram convocadas. Para surpresa de muitos
quando chegou o momento oportuno o nome de Morsi foi lançado na campanha presidencial,
mostrando quão rápido a Irmandade Mulçumana mudava de posição, contradizendo sua própria
palavra. Esta foi a primeira de muitas surpresas desagradáveis que os egípcios passaram a
conviver.

2.7.2 Inabilidade Política

Mohammed Morsi chegou ao poder com uma margem de votos extremamente apertada
(somente 51% - cinquenta e um porcento - dos votos). Após assumir o Governo faltou habilidade
política na composição do seu ministério. Morsi cometeu o erro de ocupar os cargos chaves da
administração somente com partidários da Irmandade. Como tinha maioria no Parlamento Morsi
não fez qualquer tipo de coalizão.
O início de qualquer Governo é o momento ideal para reunir forças e buscar o consenso,
evitando-se a exacerbação das diferenças, mas Morsi simplesmente passou a forçar a sua agenda
sem qualquer tipo de preocupação com a oposição. Ainda mais difícil de entender foi o
distanciamento do partido Salafista. As duas organizações islamistas possuem a mesma visão, ou
seja, tornar o Egito um Estado mais devoto à religião Islâmica.
Os Salafistas apoiaram a proposta da Irmandade de reformulação da Constituição e, em
troca, pleiteavam por cargos no novo Ministério (Educação e Economia). Morsi, por sua vez,
ofereceu o ministério do Meio-Ambiente, bem menos importante. Na sequência, demitiu um
político importante Salafista (Khalid Alam al-Din) do cargo de conselheiro do Presidente. Os
Salafistas ficaram tão indignados que, na primeira oportunidade, não tiveram o menor escrúpulo
em apoiar os militares no Golpe de Estado.
Faltou também ao Governo da Irmandade Mulçumana mais transparência nas suas
ações. Morsi não se preocupava em explicar suas decisões à população, agindo de forma
autoritária. Essa arrogância aliado a falta de desejo de comunicação prejudicou bastante a
imagem do Presidente. Mohammed Morsi não era muito conhecido pelos egípcios e não teve a
percepção de que o povo egípcio estava cansado de ser ignorado pelo Governo.

2.7.3 As Desavenças com os Militares

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Com a queda de Mubarak, o Conselho das Forças Armadas (CFA) assumiu o Governo
e, através de um adendo na constituição, limitou o poder do novo Presidente a ser eleito.
Contrariando os militares Morsi substituiu o adendo constitucional e ordenou a aposentadoria de
dois militares com maior senioridade no Conselho, colocando em seus lugares homens de sua
confiança. Foi sem dúvida um grande erro de julgamento, pois os militares continuaram
envolvidos na política e aguardaram o momento certo para tomar a presidência de volta.

2.7.4 Confusão na Elaboração da Nova Constituição

Em novembro de 2012 Morsi publicou um decreto dando a si mesmo poderes acima do


Judiciário até que a nova Constituição fosse aprovada. Para complicar ainda mais a situação
Morsi demitiu o Presidente do Supremo Tribunal na esperança de que a mudança facilitasse a
aprovação da nova Constituição. Os egípcios saíram às ruas para protestar contra essas medidas
arbitrárias (Figura 14).
Durante esse período conturbado os delegados da Irmandade Mulçumana elaboram uma
versão rascunho da nova Constituição, que foi amplamente criticada pela oposição, pois o novo
documento fazia pouca alusão a liberdade de expressão, proteção das minorias e direitos das
mulheres. Ficou claro para opinião pública que, se nada fosse feito, a nova Constituição seria um
retrocesso para o Egito.

Figura 14 – Questionamento da Irmandade Mulçumana

Fonte: Site - www.thegreycut.com – Novo Egito visto em 29/03/2017.

2.7.5 Falha na Reforma das Forças de Segurança

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As Forças de Segurança, que passaram a ser odiadas pelo povo por terem atirado contra
os manifestantes durante o levante que derrubou o Governo de Mubarak (estima-se em mais de
900 mortos durante os confrontos ocorridos em 2011) não foram reformadas nem punidas. A
polícia e o Ministério do Interior permaneceram intactos. A criminalidade, pelo contrário, acabou
aumentando e a população ficou aguardando, em vão, pelas reformas na segurança pública
prometidas por Morsi.

2.7.6 O Colapso na Economia

Durante as manifestações contra o Governo Mubarak os protestantes exigiam: pão,


liberdade e justiça social. A Irmandade Mulçumana, alinhada com os anseios da população, tinha
como plataforma de campanha a resolução dos problemas econômicos, que sempre afligiram os
cidadãos. Por ser uma organização que trabalhou durante anos na clandestinidade e sempre teve
boa reputação junto aos egípcios mais carentes, pelos muitos serviços sociais oferecidos, a
Irmandade Mulçumana gozava de respeito até mesmo de seus opositores.
Com Morsi no poder a inflação cresceu e os preços de produtos básicos (pão, tomate,
carne, galinha e cigarro) foram majorados. A economia egípcia acabou afundando ainda mais
durante o Governo de Morsi. Não bastassem os vários problemas Morsi suportava pessoalmente
a ajuda financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI), mas, pressionado pela Irmandade,
acabou se contradizendo e teve que voltar atrás, o que prejudicou ainda mais a sua reputação de
Presidente perante a opinião pública.

2.7.7 Desconfiança Total

Existia uma percepção, por parte do Governo de Morsi, que a oposição estava instalada
em todos os setores da sociedade. Para combatê-la Morsi optou por blindar completamente seu
Governo, semelhante aos antigos filmes de Hollywood, onde a caravana de colonos fazia um
círculo com suas carruagens para proteger-se do ataque dos índios. A Irmandade Mulçumana e o
Governo de Morsi desconfiava de tudo e de todos.
Na verdade, a paranoia alimentada pela Irmandade tinha uma certa razão de ser, pois
durante oito décadas o grupo foi perseguido pelo Governo Militar. As forças de segurança
assassinaram seu fundador, prenderam seus líderes e perseguiram seus seguidores. Os vários

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anos na clandestinidade forjaram um pensamento de gueto, onde as oposições eram vistas como
ameaças que precisam ser neutralizadas. A Irmandade simplesmente não conseguiu superar essa
síndrome de perseguição.
A oposição, por outro lado, estava dividida e não era capaz de organizar-se de forma
estruturada para fazer um debate de ideias e onde pudessem ser discutidos os temas relevantes
para o país. Nesse cenário conturbado e desagregador a Irmandade Mulçumana ficou ainda mais
focada na sua própria agenda e, consequentemente, nos seus próprios erros. As agendas das
forças políticas estavam travadas e o diálogo não fluía.

2.7.8 Aumento da Violência Religiosa

Sob o novo Governo a minoria ortodoxa cristã (Figura 15) sentiu na pele um claro
aumento da violência religiosa, que sempre existiu no Governo de Mubarak, mas era em menor
intensidade e menos frequente. Não se sabe ao certo se a causa era devido à ineficiência da
polícia ou se os seguidores ligados aos grupos mais radicais da Irmandade perceberam uma
maior liberdade de ação. De uma forma ou de outra a opinião pública identificou o problema
com sendo culpa do novo Governo de Morsi.

Figura 15 – Protesto contra violência religiosa

Fonte: Site - www.focusonthefamily.com – Morte de Cristãos no Egito visto em 18/03/2017.

2.7.9 Restrição à Liberdade de Expressão

Com o passar do tempo os erros de Morsi viraram alvos da imprensa. A Irmandade


respondeu de forma agressiva a esses ataques: organizações independentes foram ameaçadas de
fechamento, repórteres foram investigados e alguns foram processados, presos e até torturados.

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Os egípcios sempre reverenciaram seus escritores, diretores e atores, que fizeram do Cairo a
cidade mais cultural do mundo árabe.
Existe ainda um grande orgulho nacional pelo escritor Naguib Mahfouz, único árabe
laureado com o Premio Nobel de Literatura (Mahfouz ganhou o prêmio em 1988). O ministério
da Cultura era, portanto, um dos últimos bastiões do Governo de Mubarak, que resistia ao
movimento islâmico cada vez mais forte no dia a dia do Egito. Seu titular Farouk Hosni estava
no cargo desde 1987, sendo o ministro com mais tempo de serviço na cúpula do Governo.
Com a chegada de Morsi o ministro Farouk foi demitido bem como os chefes da
Divisão de Belas Artes, Casa de Ópera do Cairo e Organização Literária do Egito. Essas
mudanças provocaram vários protestos do meio intelectual (Figura 16), que ajudaram ainda mais
a corroer o suporte ao novo Governo. Ao alienar a intelectualidade do Cairo o Governo Morsi
deixava claro sua agenda de governar seguindo os preceitos do islamismo mais ortodoxo.

Figura 16 – Protesto contra Morsi

Fonte: Site - www.yallasafa.com – Protestos contra Morsi visto em 22 /03/2017.

2.7.10 Falta de Energia e Petróleo

Por volta de junho de 2012 começou uma falta crônica de gasolina em todo o país
(Figura 17). No mesmo período a queda da energia elétrica e os longos apagões passaram a fazer
parte do dia a dia dos cidadãos. Em pleno verão a população passou a ficar horas em longas filas
para abastecer o carro e, quando em casa, não podiam usar o ventilador ou ar-condicionado. A
exasperação dessa situação levou a população de volta as ruas para protestar contra o novo
Governo.

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Figura 17 – Problema de Abastecimento

Fonte: Site – english.ahram.org.eg - Falta de Combustível visto em 24 /03/2017.

2.8 Golpe de Estado

De um modo geral os Generais, na cúpula do Poder, estavam dispostos a dar uma


chance à Irmandade Mulçumana. Nem mesmo o aumento da dosagem de religião no jogo
político estava incomodando os militares. No fundo o que todos esperavam é que o Governo de
Morsi criasse uma estrutura estável, que permitisse o país voltar a crescer e encontrar uma saída
para seus problemas econômicos e sociais. Entretanto as atitudes desastradas de Morsi e da
Irmandade estavam tornando essa opção impossível.
A situação ficou insustentável em junho de 2013, quando Morsi participou de um
evento organizado pelas facções islamistas dando suporte à revolução da Síria. Em 30 de junho
de 2013, na data comemorativa do 1º aniversário da eleição de Morsi, milhões de egípcios, já
cansados de esperar por soluções, saíram às ruas demandando sua renúncia. Os militares deram
um ultimato de 48 (quarenta e oito) horas a Morsi em 1º de julho: ou ele tomava as rédeas da
situação ou os militares atenderiam à demanda da população.
Em 3 de Julho de 2013 os militares colocaram as tropas e os tanques de guerra nas ruas,
declararam suspensa a constituição, colocaram o chefe do Conselho das Forças Armadas como
Presidente do país e derrubaram Mohammed Morsi, que saiu do palácio presidencial direto para
a prisão (Figura 18). Chegava ao fim o Governo da Irmandade Mulçumana. Os militares estavam
de volta ao poder com o apoio da maioria da população. Uma reviravolta política de difícil
assimilação após pesados e traumáticos protestos realizados em 2011.

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Figura 18 – Prisão e Mohammed Morsi

Fonte: Site – www.tribuneindia.com - Ex-Presidente Morsi preso visto em 24 /03/2017.

2.9 Entrevistas

Como autor desta pesquisa morou e trabalhou no Egito no período entre 2006 e 2007,
acabou por fazer várias amizades que perduram até os dias atuais. Tomou, portanto, a liberdade
de entrevistar dois amigos (um homem e uma mulher), que viveram in loco as mudanças
ocorridas e, desta forma, puderam dar suas visões pessoais dos fatos ocorridos em 2012.
Transcrevo abaixo seus depoimentos, que considero tão relevantes, quanto às pesquisas
realizadas por mim.

2.9.1 Dalia Eltabie

Ocupa em 2017 o cargo de Gerente de Planejamento no Grupo British Gas. Reside no


Cairo e é formada em Engenharia Eletrônica pela Universidade do Cairo. “As pessoas, que
elegeram Morsi, estavam divididas em dois grupos. Os seguidores da Irmandade Mulçumana e
de outros partidos religiosos de menor expressão, que o apoiavam de forma incondicional, e
pessoas que não queriam eleger seu opositor (Ahmed Shafiq), que representava a continuidade
do Governo militar, por ter sido Ministro no Governo deposto de Hosni Mubarak”.
As razões que fizeram Morsi e a Irmandade Mulçumana falhar no Governo, na visão da
Dalia, foram:
a) “Uma liderança fraca, onde até os discursos proferidos, eram de baixa qualidade,
contendo vários erros de concordância. Geraram várias críticas e piadas junto à mídia.
b) Durante a sua campanha foi prometido um plano de 90 dias com 100 itens relevantes a
serem endereçados. Até ser deposto não tinha atingido nem 10% da meta original.
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c) Ficou claro que ele estava trabalhando em benefício da Irmandade Mulçumana e não
para o país como um todo.
d) O Governo passou a fornecer grandes recursos para a região de Gaza, por determinação
da Irmandade Mulçumana, liberando também a construção de túneis subterrâneos clandestinos
entre o Egito e Gaza. Dessa forma interferindo diretamente no conflito árabe-israelense, ao invés
de focar nos problemas internos do Egito.
e) Durante o seu governo os gêneros de primeira necessidade começaram a faltar, aliados a
uma constante falta de energia elétrica, deixando grande parte da sociedade revoltada.
f) A polícia e os militares não eram seus aliados. Existia um claro clima de insegurança nas
ruas, com aumento do índice de criminalidade”.

2.9.2 Ossama Elkady

Ocupa atualmente o cargo de Gerente Financeiro do Grupo BG. Reside no Cairo e é


formado em Contabilidade pela Universidade do Cairo. “Após a eleição ficou claro que Morsi
era um representante da Irmandade Mulçumana. Ele começou a colocar membros da Irmandade
em posições do Governo. Os egípcios sempre conviveram pacificamente com os cristãos, porém
pela primeira vez na história, a Catedral Cristã Ortodoxa sofreu um ataque dos seguidores da
Irmandade. Morsi sequestrou o Egito e começou a mudar 7.000 anos de História”.

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Considerações Finais

Nota do autor do trabalho. “Em 2006 aceitei o desafio de ir morar no Egito e me mudei
com a minha família para o Cairo, onde permanecemos por 18 (dezoito) meses. Deixamos uma
vida confortável no Brasil por algo desconhecido, que misturava incerteza e atração. Hoje
percebo quão positiva e acertada foi ter mudado. O Egito com seu esplendor, pobreza, sabedoria
e atraso passou a fazer parte da minha vida. Inexplicavelmente sua força cultural milenar
penetrou no meu sangue de tal forma que, ao voltar ao Brasil, me matriculei no curso de
graduação em História, mesmo sendo um profissional ligado ao ramo da Tecnologia”.

Logo após a volta dos militares ao poder surgiram, ao redor do mundo, vários
defensores da Irmandade e vários ataques à ditadura militar. Até mesmo no Brasil, o jornalista
Clóvis Rossi em sua coluna dominical na Folha da São Paulo atacou o golpe com o título “Egito
volta às trevas: terrorista não é a Irmandade Mulçumana, mas a ditadura militar que dá um salto
para trás de 60 anos” 5.

Não cabe fazer defesa ou apologia de uma ou outra instituição. O Egito enfrenta
atualmente um sério problema econômico que afeta a vida de milhares de cidadãos. Ocorreu
desde a Primavera Árabe um profundo declínio do turismo, gerador de 11% (onze porcento) do
Produto Interno Bruto sendo responsável, também, por um em cada oito empregos no Egito.
“Como fã incondicional desse pais que, assim como o Brasil, é apaixonado por futebol
espero que a sociedade egípcia e seus governantes, sejam eles quais forem, encontrem uma
solução harmoniosa de convivência pacífica, pois uma pais que já foi berço da nossa civilização
merece um destino mais justo e feliz. ”

5 – Site www.folha.uol.com.br – “Egito Volta as Trevas”, visto em 01/04/2017.


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REFERÊNCIAS

GELVIN, James L. The Arab Springs: What Everyone Needs to Know. New York. Oxford
University Press.2014

WICKHAM, Carrie Rosefsky. The Muslim Brotherhood. New Jersey. Princeton University
Press.2012

ROSSI, C. Egito voltas às trevas. Folha de São Paulo, São Paulo, p. A14, 01 abr. 2017

ELTABIE, D. Egito: As Transformações Após a Primavera Árabe. Entrevista concedida a


Newton Braune em 20 de jan. 2017

ELKADY, O. Egito: As Transformações Após a Primavera Árabe. Entrevista concedida a


Newton Braune em 15 de jan. 2017

The Guardian. Protestos no Oriente Médio. Disponível em: http://www.theguardian.com.


Acesso em: 15/10/2017

BRITISH BRODCAST CORPORATION (BBC). Perfil do Egito: África. Disponível em:


http://www.bbc.com. Acesso em: 10 de out. 2017.

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