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Mídia, Imagem e Imaginário

12 a 15 de outubro
Universidade Federal de Goiás
Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia

O VIDEOCLIPE COMO PRODUTOR/INOVADOR


DE SIGNIFICAÇÃO DAS LINGUAGENS AUDIOVISUAIS 1

Natã Moura Faria2


Lucas Mariano3

Universidade Federal de Goiás


Resumo: Vivemos hoje em um mundo novo de sensações e vivências. Essas mudanças
estão vinculadas às alterações radicais nas formas pelas quais experimentamos o tempo e o
espaço, motivadas pela sociedade pós-industrial onde a acumulação do capital se
“desmaterializa” numa economia baseada na informação e na comunicação. Hoje o que se
instala é “enfeitiçamento da e pela imagem” que instala na sociedade uma prática altamente
narcisista e auto-referencial. Ou seja, a maioria das mídias se baseia apenas nesse culto a
“imagens” sem instigar o poder inventivo da sociedade, os deixando apenas como meros
espectadores e reprodutores do que vêem. O videoclipe vale a pena ser estudado a fundo pois
desde seu inicio vem como uma ação transgressora e de inovação perante o resto das produções
audiovisuais. Sua liberdade é infinita, podendo usar moldes tanto da televisão e do cinema como
de “coisa alguma” como os videoclipes abstratos e surrealistas que possuem apenas “estímulos
visuais”.

PALAVRAS CHAVE: Videoclipe , Audiovisual , Semiótica ,estética, linguagem

1. INTRODUÇÃO:
O mundo hoje vive um “boom” de imagens e produções audiovisuais. Dentre
elas estão as produções de videoclipes que agora conseguem ter um alcance ainda maior
pela internet. As emoções desse tipo de mídia que já era muito “popularizada” com a
televisão, agora com a internet tem a chance de passar sua mensagem para um publico
ainda maior.
O videoclipe vale a pena ser estudado a fundo pois desde seu inicio vem como
uma ação transgressora e de inovação perante o resto das produções audiovisuais. Sua

1
Trabalho realizado na disciplina de Teorias da Imagem I (Orientado pela Profª Msª?Dr.ª? Camila Craveiro) e
apresentado na VI FEICOM: Mídia, Imagem e Imaginário. De 12 a 15 de outubro 2011, em Goiânia – GO.
2
Aluno de Graduação em Publicidade e Propaganda, da UFG (4° Perído) E-mail <natamourafaria@gmail.com>
3
Aluno de Graduação em Publicidade e Propaganda, da UFG (4° Perído)
E-mail < lucasmariano12@hotmail.com>

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liberdade é infinita, podendo usar moldes tanto da televisão e do cinema como de “coisa
alguma” como os videoclipes abstratos e surrealistas que possuem apenas “estímulos
visuais”.
Esse artigo busca esclarecer os movimentos que giram em torno desse tipo de
mídia e o que a banda inglesa Coldplay está produzindo em clipes. Usaremos aqui
conceitos da Teoria da Comunicação e Teoria da imagem para explicar a história desse
tipo de material audiovisual e analisar o videoclipe Don't Panic(Coldplay) junto aos
aspectos semiológicos envolvidos na produção de sentido.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 Mundo Das Imagens

Vivemos hoje em um mundo novo de sensações e vivências. Essas mudanças


estão vinculadas às alterações radicais nas formas pelas quais experimentamos o tempo
e o espaço, motivadas pela sociedade pós-industrial onde a acumulação do capital se
“desmaterializa” numa economia baseada na informação e na comunicação. Hoje o que
se instala é “enfeitiçamento da e pela imagem” que instala na sociedade uma prática
altamente narcisista e auto-referencial. Ou seja, a maioria das mídias se baseia apenas
nesse culto a “imagens” sem instigar o poder inventivo da sociedade, os deixando
apenas como meros espectadores e reprodutores do que vêem.
“Esse fenômeno da comunicação como consumo e produção de imagens
espetaculares que se oferecem à prática voyeur partiu da vida social, das demandas da
cultura industrial, mas acabou por se instalar, com a internet, também como a nova
realidade da vida privada”. A vida de todos, direta ou indiretamente, é bombardeada por
imagens, ou conforme queremos discorrer aqui, produções audiovisuais de toda ordem.
Na televisão, cinema - e agora principalmente na internet - entramos em contato com
uma grande quantidade de materiais audiovisuais.
Com esse quadro instalado se faz necessário prestar mais atenção aos
videoclipes. Eles são hoje uma das formas de expressão artística mais importantes no
âmbito de produção audiovisual. “Numa época de entreguismo e de recessão criativa, o
videoclipe aparece como um dos raros espaços decididamente abertos a mentalidades
inventivas, capaz ainda de dar continuidade ou novas conseqüências a atitudes
experimentais inauguradas com o cinema de vanguarda dos anos 20, o cinema
experimental dos anos 50-60 e a vídeoarte dos anos 60-70”. Ainda pela visão de
praticidade, ele é um formato enxuto e concentrado, de curta duração, de custos

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relativamente modestos se comparados com os de outras mídias como de um filme ou
programas de televisão, e tem também um amplo potencial de distribuição.
O videoclipe também possui uma grande vantagem perante as grandes mídias
pois deu a possibilidade de a primeira vez que certas atitudes transgressivas no plano da
invenção audiovisual encontrarem finalmente um público de massa. Isso se torna
importante em um quadro totalmente de “uniformidade” de programas, novelas e filmes
totalmente comerciais e que seguem padrões pré-estabelecidos, sem que se possa abrir
qualquer brecha para expressões artísticas inovadoras. O videoclipe que geralmente
seguia estes moldes “tradicionalmente associados ao gosto e comportamento de
teenager”, chega a uma fase mais amadurecida em que usa novos moldes e propostas.

2.2 Videoclipe
Nos primeiros 50 anos do século 20, o homem teve consciência do poder da
imagem e o quanto a televisão poderia auxiliar no âmbito da informação e do
entretenimento. E com a popularização desse meio houve uma mudança de hábitos que
mudou irreversivelmente o modo de vida das pessoas. As relações agora eram, quase
sempre, mediadas por imagens ou por conceitos que a televisão introduzia na sociedade.
Aproveitando-se disso os grandes empresários acharam nesse meio um modo de vender
mais eficiente do que em qualquer outro meio. A venda agora não estava somente
centrada em produtos, mas em modos de vida, comportamentos, etc.
Inicialmente criado por um apelo mercadológico o videoclipe vem mudando a
alguns anos essa visão. Ao invés de vídeos “tradicionalmente associado ao gosto e ao
comportamento de teenagers” e apenas idolatrando a vida de “pop stars”, os videoclipes
assumem agora uma identidade mais artística.
“O videoclipe antes de qualquer coisa, serve para materializar a música.” É o
que pontua o grupo de pesquisa de ISCA, instituição de Limeira, SP. O videoclipe
propõe uma harmonia entre letra, musica e imagem, fazendo com que o entendimento
da mensagem seja muitas vezes facilitado.
Esse processo é baseado na idéia de “o que o diretor quis transmitir” e o que “o
que o receptor filtrou desse conteúdo”. É um processo de capacidade semiótica, aonde o
diretor quer mostrar um novo ângulo de vida através dos conceitos, letras e estilo da
banda e que o receptor filtra de acordo com o que está passando no momento, de sua
cultura ou de uma interpretação diversa.

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Esse meio de criação que mescla vídeo e musica também abrange outros
conceitos de interpretação. “Ao se juntar visão e audição é criado todo um plano
sensorial ativado e percepção neurológica, essa capacidade é chamada de sinestesia.”
Ou seja, o clipe musical é perceptível a todos e não só a uma minoria
“intelectual”. O entendimento é pautado apenas por seus sentidos no seu filtro
“cultural”.
Como já dito esse tipo de material audiovisual surgiu com um grande apelo
mercadológico. Contudo posteriormente ficou marcado por seus exemplos de atitudes
transgressivas e inovadoras diante do que estava sendo feito no cinema e na televisão.
Como disse Arlindo Machado:
“(...) o velho clichê publicitário segundo o qual o clipe se constrói a partir da
exploração da imagem glamorosa de astros e bandas da musica pop vai
sendo aos poucos superado e substituído por um tratamento mais livre da
iconografia”.

Ao invés de mostrar as bandas e seus instrumentos, os clipes agora buscam


também mostrar animações e tendências abstratas ou surrealistas. Imagens “sujas”, mal
iluminadas, tremidas e mal focadas dão uma sacudida num mundo acostumado às regras
da perfeição de tratamento, dos estereótipos.
A sensibilidade agora é levada às ultimas conseqüências. O ritmo é mais
importante que a produção de uma simples “historinha” ou a filmagem de instrumentos.
As imagens se transformam em “estímulos visuais(cor, movimento, ritmo). O clipe é
transformado em um emaranhado de vetores que dão vida a melodia, em movimentos
quem nem sempre tem um “sentido”.
Quando se fala da linguagem apresentada nos videoclipes existem vária
referências diversificadas, pois salvo os interesses mercadológicos, o videoclipe é um
campo de experimentação amplo e aberto a novas possibilidades Há clipes em que se
observa a repetição na estrutura (música e roteiro) montada a partir de convenções da
música pop. Outra referencia seria a linguagem publicitária utilizada nos videoclipes e o
inverso: a propaganda se utilizando da linguagem do videoclipe. Podemos ainda
mencionar a referencia que se faz a linguagem fílmica e também o contrário: a
linguagem do videoclipe sendo referência e incorporada pelo cinema.
O videoclipe também busca referência no formato videoarte, que nada tem a ver
com a linguagem da televisão e muitos menos do cinema. A narrativa descontínua é
muito presente neste gênero, seria a “estética do vago” com uma linguagem constituída
mais de ruídos do que de sinais. A videoarte é a indeterminação elevada à categoria
estética, na qual o sentido se desfaz, é uma busca por extensão e polifonia. Enquanto o
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cinema trata a imagem como quase sagrada o vídeo tem uma postura diferente e ousada
para desconstruir a imagem.
Um vídeo é a construção em ritmo acelerado de imagens sobrepostas, e que
transmitem no receptor a idéia e a concepção do diretor, e que provoca no receptor uma
reação, através de sua familiaridade e singularidade. Dessa forma, o receptor, através do
som e da imagem cria processos dedutivos de maneira direta e instantânea. Essa
possibilidade é devida graças à televisão e sua elaborada construção de imagens por de
pontos e lacunas vazias. Em A arte do Vídeo, Arlindo Machado atesta essa habilidade
da televisão, e exercita o telespectador a perceber essas frestas vazias que é natural do
aparelho, pois ver televisão é:
[..] antes de mais nada, preencher os intervalos que fraturam a figura e
completar os dados que foram suprimidos na enunciação para poder dar
consistência à imagem, [..] A percepção das formas e a combinação das
cores no vídeo, dependem, portanto, de certo empenho do espectador no
sentido de fazer emergir a configuração plástica final .(MACHADO, 1997,
p.60)

Toda essa acepção de conceitos e técnicas que o receptor precisa ter ao se


deparar com o produto audiovisual o fortalece de meios para a sua identificação quando
este emana características comuns ao seu redor. Tanto a imagem, como o vídeo são
concepções artísticas inseridas no que é largamente conhecido como comunicação
visual. Todas as imagens sejam cartazes, impressos, publicidade, e os vídeos, sejam
jornais, jogos, videoclipes, são elementos desse tipo de comunicação, ou seja, tudo o
que pode ser visto e que o receptor encontra o significado, codificando-o.
A junção da música com a imagem potencializa as possibilidades de codificação
da mensagem. O áudio mais imagem recriam um plano imagético espacial,
tridimensional, criando recursos para o espectador entender, compreender e interpretar.
E é justamente essa relação imagem - áudio que é tão importante para a construção de
um videoclipe e que gera muito significados em torno da musica e do artista.
A semiótica surge então como instrumento que auxilia e nos embasa para
interpretar e codificar as possíveis mensagens em uma obra audiovisual, seus signos e
seus significados. Santaella (1983):
[..]A semiótica é a ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens
possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo
e qualquer fenômeno como fenômeno de produção,de significação e de sentido.

A semiótica busca entender e estudar como a nossa consciência se comporta e se


relaciona mediante os signos que nos são revelados. Mas é preciso entender como estes
nos são revelados. Charles Pierce, um dos maiores estudiosos neste campo, salientava

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que todo e qualquer pessoa era capaz de conhecer através do fenômeno, comum à tudo e
a todos. O fenômeno seria o canal de entrada do conhecimento para os signos. Ou seja,
é através da consciência, (esta, que foge o pensamento racional). O conhecimento é
adquirido instantaneamente através de uma escala de três momentos distintos:
Qualidade, Reação e Mediação, ou Primeiridade, Secundidade e Terceiridade.
Cada qual desses estágios, referindo-se ao sentimento primordial do que é novo:
(Primeiridade) ou seja, aquilo que é perceptível pela primeira vez. Que é novidade, que
existe pelo fato de ser, que tem nossa percepção imediata sem consultarmos o nosso
intelecto racional. Quando passamos dessa fase, atribuímos então o significado da
existência (Secundidade) pois, ela apresenta-nos com carga de valor, quando
compreendemos o signo e conhecemos seu conteúdo. Quando representamos o que nos
rodeia através dos signos e propomos então um significado (Terceiridade).
Este rápido pano de fundo para o conhecimento acerca da semiótica mostra sua
importância quando nos deparamos com a música e seu contexto na realidade social e
midiática que nos auxilia a compreender e contextualizar o que se quer traduzir em
audiovisual, no videoclipe.
Não podemos esquecer que o videoclipe também é pode ser percebido como
produto cultural de uma industria cultural e fonográfica. O fenômeno da indústria
cultural – um produto da Revolução Industrial, capitalismo liberal, economia de
mercado e sociedade de consumo – surge no cenário da produção cultural. A partir do
século XX, os meios de comunicação de massa (como a TV e o rádio) deram as bases
para a cultura de massa, que é produto da indústria cultural: a massificação da cultura, o
fazer em série para grande número de pessoas. A indústria cultural impede a formação
de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir
conscientemente.
Na perspectiva de Adorno, o termo “indústria” se deve à racionalização das
técnicas de distribuição, e não estritamente ao processo de produção, em que a cultura é
consumida e comercializada como uma coisa qualquer. A reedificação, ou coisificação”
do homem – o valor absoluto das coisas, dos bens, acima de qualquer coisa – resulta na
alienação, em que o ser humano se limita a um mero instrumento de trabalho e de
consumo, ou seja, um objeto. E os jovens, dentro dessa ótica, passaram a receber
passivamente uma mensagem divulgada pelos meios de comunicação através de uma
linguagem jovial, atrativa e que representava um novo estilo: o estilo MTV.
Dentro do conceito proposto por Adorno, o consumidor não precisa se dar ao
trabalho de pensar: é só escolher. O sistema da indústria cultural reorienta as massas e

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não permite que ela saia de seu contexto, para tanto, os esquemas do comportamento
são expostos incessantemente – e a massa absorve esses esquemas como que por
osmose.
Portanto, o adolescente nesse contexto engoliria e reproduziria o que o meio
propagasse, sem permitir uma crítica de si e da sociedade. Os videoclipes lançam
modas, sejam com fins artísticos ou comerciais, induzindo o expectador a se vestir e
agir conforme sua banda preferida, a consumir os seus produtos e ter determinado
estilo. Nessa ótica, poderia se afirmar que é o sistema capitalista comandando a cultura.

“Os videoclipes tornaram-se um novo referencial para a apreciação estética


da música associada a uma forma de oferecer um produto ao
consumo.Inegavelmente, pela indústria fonográfica, vídeos musicais são
formas de exposição de um produto que está à venda, um apelo ao consumo.
Sua estética une técnicas apuradas do cinema e da publicidade, a liberdade
de criação de film makers e um universo simbólico que visa à expressão do
sentido da canção e da personalidade do artista”. (MACHADO,1997)

2.3 Coldplay- Os Universitários Ingleses

O grupo Coldplay é mais uma banda produto de universidades. O quarteto


formado por Chris Martin, Jonny Buckland, Guy Berryman e Will Champion começou
apenas com Martin e Buckland que estudavam juntos na University College London. A
banda que inicialmente se chamava Pectorals, posteriormente com a entrada de mais
membros mudou seu nome para Starfish e finalmente, com o quarteto completo, se
tornou o Coldplay que conhecemos hoje.
Essa jornada vem desde 1996 com o crescimento da banda a cada ano. O
primeiro EP chamou-se Safety EP e foi lançado em 1998 com apenas 500 cópias. Em
dezembro do mesmo ano, a banda assinou contrato com a gravadora independente
Fierce Panda. O primeiro lançamento com a gravadora foi Brothers & Sisters EP que
haviam gravado rapidamente durante quatro dias em fevereiro de 1999. Depois de
concluir seus exames finais, o grupo assinou com a Parlophone para um contrato com
lançamento de cinco álbuns, na primavera de 1999. Foi nessa época que lançaram seu
terceiro EP, intitulado The Blue Room. Foram produzidas 500 mil cópias.
Em 2000 a banda inglesa lançou sua primeira música de reconhecimento
mundial, “Yellow”. A canção fazia parte de seu álbum de estréia, Parachutes, que
também teve como destaque a música “Trouble”. Depois disso vieram vários outros
álbuns como “A Rush Blood to the Head”, “X&Y” e “Viva la Vida or Death and All

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His Friends”. Dentre esses álbuns estão algumas das músicas sucesso da banda como
“In my Place”, “Clocks” , “The Scientist”, “Talk”, “Fix You” e a música a qual o
videoclipe analisaremos aqui, “Don‟t Panic”.
O estilo musical do Coldplay foi definido como rock alternativo, sendo
comparado muitas vezes a bandas como Radiohead e Oasis. O som da banda é imerso
em uma atmosfera “romântica” carregado de solos de piano e palavras de um lirismo
único. O pop melódico da banda é conduzido por composições do pianista e vocalista
Chris Martin com todas as suas “esperanças, medos, duvidas e amores”.
Conduzindo os olhares para seus videoclipes podemos ver que seguem a sua
linha “art rock”, com clipes mais artísticos que “comerciais”. Quanto a isso cabe falar
também a posição da banda diante da “comercialização” de suas músicas, pois a banda
já recusou contratos milionários para usarem suas canções alegando “não vender os
significados de suas músicas”.
A banda possui clipes feitos em “stopmotion”(como a nova música “Every
Teardrop Is A Waterfall”), também podemos encontrar o grande plano sequência de
“Yellow” e a fotografia dos clipes de modo geral com uma paleta de cores sempre entre
o azul e cinza, sempre “segurando” as cores.O Coldplay, não sabemos se pela “frieza”
britânica, deixa transparecer toda essa melancolia em seus clipes e músicas.

3. METODOLOGIA

A metodologia aplicada para o desenvolvimento do presente trabalho inclui


abordagem qualitativa, com coleta de dados secundários, baseada em pesquisa
bibliográfica; leitura de livros, documentos e periódicos e pesquisas na Internet4.

4. RESULTADOS

4.1 Videoclipe Da Música Don’t Panic – Uma Análise

"Don't Panic" foi composta pela banda e originalmente intitulada "Panic", a


versão mais antiga conhecida da canção existia em 1998, tocada ao vivo durante o
primeiro show da banda no mesmo ano. Ela tinha uma melodia diferente, e foi incluída
no segundo EP da banda, The Blue Room. A faixa foi reproduzida por Coldplay e pelo
produtor britânico Ken Nelson para o álbum de estreia da banda:Parachutes.

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Site <www.youtube.com>

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O videoclipe de "Don't Panic" foi dirigido por Tim Hope. O vídeo começa com
um diagrama animado do ciclo hidrológico, em seguida, retrata a banda como dois
recortes de papel tridimensionais fazendo tarefas domésticas, quando de repente uma
catástrofe atinge a Terra sob as formas de inundações, vulcões e choques elétricos. Tal
como nos vídeos anteriores do Coldplay, "Don't Panic" também apresenta o globo
amarelo da capa de Parachutes.
Partindo do pressuposto de que o videoclipe é muito mais que uma canção com
imagem para promover uma banda, e sim um espaço aberto para experimentações tanto
estéticas quanto lingüísticas no campo do audiovisual, "Don't Panic" explora bem as
simbologias e signos carregados de ironia, mostrado pela não identificação exata da
imagem com a letra da música e muito menos a melodia.
Essa riqueza em linguagem não torna o videoclipe algo pesado e confuso, mas é
carregado de significado e não de forma gratuita de mostrar a destruição e sim nos
mostrar que o nosso belo mundo, onde as coisas são tão boas não é bem assim; de forma
leve a música nos passa a impressão de segurança e aconchego, mas em suas imagens a
destruição e o modo que tudo é destruído nos espanta, pois até os participantes do clipe,
que são a própria banda, não estão reagindo a nada que passam e sim a uma adaptação
fácil ao ambiente.
Essa metáfora poderia ser aplicada aos dias atuais, pois tudo se transforma ou se
destrói mas sempre achamos uma maneira de sobreviver ou nos adaptar as mudanças e
nossas próprias destruições, continuando apáticos e inertes. Assim o videoclipe passa de
mera obra onde se veicula em TVs de salas de esperas lanchonetes e afins, para uma
significação profunda de uma obra contestadora e irônica de forma artística.
Mesmo que se tenha fins de lucro em qualquer videoclipe, não são obras isentas
e assim como em "Don't Panic" são super elaboradas não só no sentido imagético mas
ideológico também . Assim obras audiovisuais como os videoclipes tem poder de
questionar e transformar a arte em linguagem que é capaz de nos fazer refletir.
Sobre a questão de se poder experimentar em um videoclipe, aqui podemos
encontrar uma representação bem interessante para toda essa ironia e linguagem e
significado desta situação de destruição. O recurso de animação e colagens digitais
juntamente com imagens „reais‟ formam um ambiente fictício porem de identificação.
Pois a destruição está presente mas de forma inovadora e não de forma tradicional que
imagens „reais‟ de catástrofes são usadas.
É criado um mundo novo, um novo ambiente para esse videoclipe. A
apropriação do real na linguagem audiovisual é muito rica podendo mostrá-lo de formas

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estilizadas fragmentadas e o videoclipe permite uma maior contestação pois o que é
considerado muitas vezes erro em outras produções aqui e em "Don't Panic" é
considerado recurso estético belo e ousado. A realidade de um videoclipe é a própria
duração dele, ou seja, o mundo é inventado, questionado mas dura somente o tempo de
videoclipe podendo variar para cada um e criar novos mundos.
"Don't Panic" em sua apropriação diferenciada de acontecimentos reais, traz um
distanciamento também e interpretar que isso não é em nosso mundo e sim no
imaginativo, mas alguns elementos nos remetem a essa identificação: o rosto dos
personagens, o uso do ciclo hidrológico, o indicação do planeta terra e as construções de
cidades e a destruição do meio ambiente e o fato da letra e o vídeo dizer que tudo está
afundando.
E é essa a ligação mais coerente, pois a musica diz que tudo está acabando mas
no refrão ele já ironiza e contradiz com isso. O vídeo retrata muito bem essa ligação de
uma hora concordar com a letra e hora discordar por meio da destruição e inerte dos
personagens. E é onde o vídeo e musica se encontram na letra :

Don't Panic Sem Pânico


Bones sinking like stones Ossos afundando como pedra
All that we fought for Tudo por aquilo que lutamos
Homes, places we've grown
Lares, lugares que criamos
All of us are done for
Todos nós estamos acabados
And we live in a beautiful world
Yeah we do, yeah we do E nós vivemos num belo mundo,
We live in a beautiful world É, vivemos, é vivemos
Nós vivemos num belo mundo
Bones sinking like stones
All that we fought for Ossos afundando como pedra
Homes, places we've grown Tudo por aquilo que lutamos
All of us are done for
Lares, lugares que criamos
We live in a beautiful world Todos nós estamos acabados
Yeah we do, yeah we do
We live in a beautiful world Nós vivemos num belo mundo
É, vivemos, é vivemos
We live in a beautiful world Nós Vivemos num belo mundo
Yeah we do, yeah we do
We live in a beautiful world Nós vivemos num belo mundo
É, vivemos, é vivemos
Oh, all that I know
There's nothing here to run from Nós Vivemos num belo mundo
'Cos yeah, everybody here's got somebody to lean on
Oh, todo aquele eu conheço
Não há nada do que fugir aqui
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Pois é, todos aqui conseguem alguém em
quem se apoiar
5. CONCLUSÃO

A construção da linguagem de uma música pode ficar muito mais rica e


polifônica se utilizarmos o vídeo como construtor do significado. Assim como em
“Don’t Panic,”,o vídeo foi utilizado para acentuar e amplificar as possibilidades
narrativas e as experiências de significação e interpretação , utilizando recursos
gráficos para o aprimoramento e experimentação da técnica convencional de se fazer
vídeo e aliar reflexão e conhecimento através da linguagem áudio/vídeo.
Assim o videoclipe pode ser uma ótima ferramenta de se fazer arte de forma
musical e visual ampliando nossa percepção de mundo e de realidade, nos levando a
reflexão e ao debate de questões ligadas a nos mesmos, podendo inventar e ser criativo
ao fazer isso. Num mundo onde as imagens ganham significado mas ao mesmo tempo
perde, pois estamos já rodeados delas, o recurso é utilizar da imagem o diferencial que
elas nos possibilitam de gerar impacto e ser diferente, inovar de forma reflexiva,
pensada, inteligente e não reprodutora de discursos e modos de linguagem e sim
produtora de conhecimento.

BIBLIOGRAFIA

MACHADO, Arlindo, A Arte do Vídeo, 3ª ed. São Paulo, Brasiliense 1995.


MACHADO, Arlindo. A Televisão levada à Sério, 4 ed. São Paulo, SENAC, 2005
SANTAELLA, Lucia. O que é Semiótica, São Paulo, Brasiliense, 1996
DON‟T PANIC - COLDPLAY

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