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SISTEMAS ALTERNATIVOS DE ESGOTAMENTO SANITÁRIO

Cicero Onofre de Andrade Neto

Os principais sistemas alternativos ao sistema separador clássico de esgotamento sanitário são: sistema
unitário; sistema simplificado; sistema 100% plástico; sistema de coleta de esgotos pré-decantados; sistema
com rede pressurizada; sistema com rede a vácuo; e o sistema condominial, que é na verdade um novo
modelo de esgotamento sanitário, que comporta simplificações técnicas racionais mas, sobretudo, baseia-se
em uma nova concepção filosófica, nova postura nos procedimentos de abordagem do problema e novos
métodos de ação.
Em certas situações favoráveis (grandes declividades naturais do terreno e/ou grande capacidade de diluição
do corpo receptor, por exemplo) têm sido implantados alguns poucos sistemas unitários (ou mistos) e
ultimamente vem crescendo uma tendência a revisar os critérios de uso exclusivo do sistema separador,
inclusive considerando o conceito de tratamento diferenciado em “tempo seco”. Contudo, os sistemas
unitários ainda são considerados como alternativos.
Os sistemas simplificados buscam a redução de custos pela racionalização de parâmetros de projeto e
simplificações físicas da rede de coleta. Das várias simplificações técnicas construtivas que vêm sendo
aplicadas às redes de esgotamento sanitário no Brasil, as mais significativas são as seguintes: localização de
tubulações sob passeios, quando possível; substituição de poços de visita convencionais por caixas de
passagem de menores dimensões, sempre que possível; utilização de curvas em mudanças de direção suáveis
(substituição de poços de visita por curvas de raio alongado); utilização de tubos de inspeção e limpeza e
terminais de inspeção e limpeza - TIL, substituindo poços de visita, quando cabíveis; espaçamento variável
entre singularidades.
Várias simplificações técnicas já estão definitivamente incorporadas aos procedimentos de projeto e
construção, mas quando muitas delas são utilizadas em um mesmo sistema este é geralmente considerado
como um sistema alternativo (sistema simplificado).
Alem dos dispositivos de inspeção fabricados em plástico, caixas de passagem radiais fabricadas também em
plástico permitiram desenvolver o Sistema 100% Plástico. Os Sistemas 100% Plástico, utilizam tubos de
PVC e inspeções também em plástico. A diferença está fundamentalmente nos materiais empregados, o que
implica em simplificações no método construtivo, sobretudo na execução das inspeções. Enquanto a
tecnologia 100% plástica é uma simples montagem entre componentes industrializados (tubos, conexões e
inspeções plásticas), a tecnologia tradicional comporta obras civis na execução dos dispositivos de inspeção.
Pode ser empregado tanto para o modelo clássico como para o modelo Condominial.
Outro sistema alternativo é o que coleta esgotos decantados previamente. Neste sistema, a rede de
tubulações, que pode ser em PVC rígido de até 25 mm em terrenos íngremes (normalmente o diâmetro
mínimo é de 50mm), coleta os efluentes de tanques sépticos localizados em cada casa ou prédio, o que
permite o dimensionamento como se fora para água. Esse sistema não tem muitas aplicações práticas porque
apresenta os seguintes problemas: pressupõe o aproveitamento de fossas existentes, que em muitos casos não
podem ser aproveitadas, ou a construção de tanque séptico que demanda espaço no lote e representa um
custo considerável; é rejeitado por muitas pessoas, que querem se ver livres dos trabalhos de operação dos
tanques sépticos.
Logicamente existem variações dessa idéia. Existem sistemas funcionando com interceptores coletando a
partir de grandes tanques sépticos estrategicamente intercalados na rede de coleta e implantados em locais
públicos de fácil acesso, para facilitar a operação correta.
Nos sistemas com redes pressurizadas, os esgotos são coletados individualmente, através de tubulações que
funcionam por gravidade, e levados a um reservatório de onde são bombeados para uma rede sob pressão. É
necessário que os esgotos sejam triturados, o que pode ocorrer nos prédios, no reservatório ou no momento
em que são bombeados. Da tubulação sob pressão os esgotos podem ser lançados em interceptores ou
emissários por gravidade. O objetivo é evitar pequenas estações elevatórias e coletores profundos em
terrenos planos. Não existe no Brasil.
Nos sistemas com redes a vácuo, os esgotos de cada prédio são encaminhados, por gravidade, para uma
válvula de vácuo que sela a rede que se liga à tubulação principal, que está sob vácuo. A válvula mantém o
nível de vácuo requerido e é programada para abrir-se quando acumula-se uma certa quantidade de líquido à
montante. O vácuo é mantido na tubulação principal através de uma estação de bombeamento a vácuo,
localizada nos pontos principais de lançamento em emissários ou nas estações de tratamento de esgotos. Não
existe no Brasil.
O sistema Condominial é assim denominado porque a idéia central para sua implementação é a formação de
condomínios, constituídos por grupos de usuários de uma mesma quadra urbana, adotada como unidade de
esgotamento. Este é um dos principais aspectos que lhe diferenciam do modelo clássico, que adota o lote
como unidade de esgotamento.
Dependendo do arranjo social e da topografia, em uma mesma quadra urbana (ou unidade de vizinhança
equivalente, entre quatro ruas) poderá ser constituído mais de um condomínio, que despejam em uma rede de
coleta de extensão reduzida, pois não necessita se estender por todas as ruas.
Os procedimentos de cálculos e os materiais empregados são os mais usuais, em nada contrariando a boa
técnica da hidráulica e da engenharia sanitária.
A adoção de novos métodos de trabalho na identificação, adequação e manuseio das técnicas, seguindo uma
postura político-filosófica participativa, viabilizou os altos índices de atendimento e os baixos custos
alcançados.
A base filosófica do serviço de esgotamento sanitário segundo o modelo Condominial é fundamentalmente
fincada nos princípios da democracia. A democratização do serviço se traduz no objetivo de atender a todos
indiscriminadamente, por um lado, e por outro lado na oportunidade de participação dos usuários desde as
decisões até a implantação e a operação.
Comporta idéias básicas de gradualismo e de prioridade da abrangência da solução em relação ao seu
aperfeiçoamento, de modo que seja implantada como um processo gradual progressivo, permanentemente
atualizável em busca do aperfeiçoamento, para compatibilizar a disponibilidade de recursos com o objetivo
de universalização do serviço. A participação da comunidade desde o nível das decisões até o envolvimento
direto na implantação e na operação dos sistemas, é o caminho legítimo de aproximação da realidade e um
meio de redução de custos pela incorporação de recursos potenciais. O apelo ao coletivismo, procurando unir
esforços individuais na solução de um problema definidamente coletivo, permite o fortalecimento da
comunidade frente aos seus problemas e oferece redução nos custos pela economia de escala.
O conjunto de instrumentos para sua operacionalização, comporta: o pacto comunitário, alcançado através da
mobilização das pessoas e instituições locais, no sentido de bem dividir, entre todos, os ônus do sistema na
construção e na operação; a conjunção de recursos, através da articulação e integração de esforços e da
otimização dos recursos, sejam humanos, organizacionais ou materiais; e os componentes físicos, que
compõem subsistemas integrados em um sistema geral urbano.
Entre os componentes físicos destaca-se o Ramal Condominial, tomado como padrão do serviço para a coleta
dos esgotos nos “condomínios”. Como padrão, é estimulado mas não se torna obrigatório ou exclusivo.
No aspecto físico o ramal condominial constitui uma rede de tubulações que passa quase sempre no interior
dos lotes, cortando-os no sentido transversal, intramuros. Intercalada nesta rede de pequena profundidade,
encontra-se, em cada lote, uma caixa de passagem, à qual se conectam as instalações sanitárias prediais,
independentemente, constituindo um ramal multifamiliar. No aspecto social resulta da formação de um
condomínio abrangendo o conjunto dos usuários interligados pelo ramal. O condomínio, informal, é
alcançado através do pacto entre vizinhos.
Observe que o fundamental é a formação do condomínio. O traçado do ramal deve ser o mais racional, e
eficiente, em face da realidade local, decorrendo maior relação benefício/custo quanto à segurança sanitária e
ao alcance social. De fato pouco importa se o ramal é locado nos quintais, nas calçadas ou nas ruas,
dependendo da racionalidade imposta pelas condições locais. O traçado mais racional é discutido com os
usuários e apresentado como padrão do serviço, permitindo-se modificações desde que sejam assumidos os
ônus adicionais por quem assim desejar.
No mais, o modelo Condominial tem também, como instrumento físico, rede coletora simplificada, que
recebe as contribuições dos ramais condominiais e, consequentemente, têm extensão reduzida e baixas
profundidades, são localizadas quase sempre nas calçadas e os poços de visita são substituídos por simples
caixas de passagem. As unidades de tratamento, adequadas ao meio físico, são disseminadas por sub-bacias
naturais de drenagem, tanto quanto possível, revertendo a prática da concentração dos esgotos, constituindo
pontos terminais de subsistemas de esgotamento e evitando ou adiando a aplicação dos custosos sistemas de
recalque. Vários microssistemas constituem o grande sistema de cada cidade.
Evidentemente o sistema Condominial comporta qualquer simplificação técnica cabível na busca da
racionalização do sistema e da adequação à realidade, mas sempre buscando a maximização da relação
benefício/custo, com segurança sanitária e justiça social.