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ter um pouco mais de trinta anos.

Talvez seja uma espécie de puta de classe,


JOAOZINHO & MARIAZINHA pensou, acostumada a receber visitas a esta hora. Tirou com cuidado o maço de
cigarros do bolso do casaco.
— Fuma?
Caio Fernando Abreu Ela apanhou um cigarro. Ele remexeu nos bolsos à procura de fósforos.
Não encontrou. Ela apanhou sorrindo (sorria muito) um enorme isqueiro de
Quando teve consciência do que fazia, seus dedos já haviam apertado o acrílico roxo transparente de cima da mesinha e acendeu os dois cigarros,
botão do porteiro eletrônico. Não conhecia aquele prédio nem ninguém que primeiro o dele.
morasse ali. Também não conhecia a rua e se acontecesse algo, como um policial — Acho que é muito tarde — ele disse.
perguntar o-que-fazia-ali-àquela-hora, não saberia responder. Sabia que era — Você tem horas?
noite, que era domingo, e não estava sequer um pouco bêbado. Sabia também — Não.
que não sentia nada especial, nem mesmo uma vaga vontade de aventura. Mas Ela tornou a sorrir, olhando os próprios pulsos.
soube disso tudo muito tarde, pois seus dedos (uns dedos um tanto grossos e — Eu também não. Faz uns cinco anos que deixei de usar. Achava
meio avermelhados que, vistos agora, pareciam estranhamente independentes) neurotizante demais, nunca conseguia ficar num lugar muito tempo, sempre
já haviam apertado o botão, e sua voz (uma voz também estranhamente querendo saber se era muito tarde.
independente, também grossa e como que avermelhada pelo frio) perguntava: Ele fez um movimento para a frente com o tronco, estendeu o braço para
— A Maria está? bater a cinza do cigarro. Ela se adiantou e empurrou o cinzeiro. Depois sentou-
— É ela mesma — ouviu a voz feminina e sorridente saindo distorcida se à frente dele.
pelos orifícios do aparelho. — Agora peguei uma certa prática — continuou. — Esteja onde estiver,
Foi só no elevador, apertando o botão do sétimo andar, que lhe ocorreu seja que hora for, sou sempre capaz de adivinhar. Quer ver?
que não conhecia nenhuma Maria (conhecia muitas Marias, mas nenhuma em Ele fez que sim com a cabeça, querendo achar divertido.
especial), que poderia não ter entrado, não ter aberto a porta do elevador, não Grave, ela fechou os olhos, fingindo concentração.
ter apertado o botão. Mas novamente era muito tarde. O elevador subia, a — Meia-noite e vinte.
fórmica amarela doendo um pouco nos olhos. — Pode ser — ele disse. — Não tem como confirmar?
Quando abriu a porta, uma réstia de luz no corredor orientou-o até o — Só ligando o rádio.
apartamento. E, ainda então, poderia ter voltado. Da mesma forma que os dedos Ele pensou que ela fosse levantar para apanhar o rádio (devia haver um,
e a voz, agora eram suas pernas, independentes, carregando-o para a porta e provavelmente de pilhas). Mas ela não se moveu.
para a mulher que o cumprimentava sorrindo: — Eu tinha vontade de ter um daqueles rádios com relógio junto, você
— Boa noite — ele disse. E antes de poder conter-se: — Eu sou amigo do conhece?
Paulo. Ele fez que não com a cabeça.
— Paulo? — (Mas ele também não conhecia nenhum Paulo, ou conhecia — É assim: você coloca o despertador para uma determinada hora e
vários, como todo mundo, nenhum em especial.) — Claro, o Paulo. E como vai escolhe uma rádio. Aí, na hora que você escolheu, em vez de o despertador fazer
ele? trrrrrriiiiiimmmm!, o rádio liga automaticamente e começa a tocar música.
A mulher se afastou para que entrasse. Havia um abajur aceso a um — Deve ser bom.
canto, um sofá de plástico avermelhado imitando couro, duas poltronas iguais, — É maravilhoso. Mas pode coincidir justamente com uma propaganda,
uma mesinha com cinzeiros e nenhum quadro nas paredes. aí não é tão bom assim. Mas acho que tem umas rádios que só tocam música,
— Vai bem, vai muito bem. — A voz continuava dizendo coisas que ele não é?
não pretendia dizer. — Passou no exame, está muito contente. — Viu as cortinas — Não sei. Nunca ouço rádio.
um pouco encardidas e, além delas, o bloco de edifícios tapando a visão. — Eu também não. Queria um desses — repetiu. — Mas é tão caro. Acho
Acrescentou: — Está até pensando em trocar o carro por um mais novo, deste que é coisa importada. Japonesa, americana. Aqui não tem disso. — Suspirou. —
ano. Bebe alguma coisa?
— Que ótimo — a mulher sorriu novamente. — Não quer sentar? — O quê?
Ele sentou numa das poltronas. O plástico frio. Agora controlava os — Perguntei se você bebe alguma coisa.
gestos, cruzando as pernas devagar e olhando a mulher pela primeira vez. Devia — Pensei que você ainda estivesse falando do rádio.
— Não estou falando mais disso — ela tornou a sorrir, distraída. — Agora — Há cada vez menos Marias — ela continuou. — E cada vez menos Joões
estou falando de bebidas. Tenho conhaque, uísque e cachaça. Devia ter vinho, e Paulos. Exceto nós, claro. Quer mais um conhaque?
com esse frio. Você não acha que eu devia ter vinho? Foi então que ele começou a sentir como um perigo rondando. Ela
— Não sei. Talvez. avançara o busto em direção a ele. De repente teve certeza: ela também estava
— Pois é, mas não tenho. — De repente a voz soou meio seca. mentindo. Pensou em perguntar, mas a certeza foi tanta que não era preciso.
— O que você prefere? Além disso, a desconfiança de que uma pergunta assim fizesse desabar — o quê?
— Conhaque — ele disse. E ficou olhando enquanto ela se levantava para Levantou-se.
ir à cozinha. Tinha movimentos mansos, o cabelo escuro um pouco desalinhado, — Acho que vou andando. Ela não disse nada.
usava um vestido comprido, de uma fazenda que ele imaginou quente e macia. — É muito tarde.
Olhou em volta, rápido, como se não quisesse ser apanhado de surpresa. Não Ela continuou sem dizer nada.
havia quase nada para olhar. O sofá, as poltronas, a mesinha (tampo branco de — Tenho que trabalhar amanhã cedo.
fórmica, pernas de madeira), as cortinas, a porta para a cozinha, a porta para o Ela ajeitou uma das mechas do cabelo. Ele encaminhou-se para a porta.
corredor e a porta para dentro. Quando voltou a cabeça, ela estava novamente à Estendeu a mão para abrir. Mas ela foi mais rápida. Antes que ele pudesse
sua frente, com os dois copos de conhaque. Ele bebeu. completar o gesto ela estava do seu lado, e muito próxima. Tão próxima que
— Está ótimo — disse. sentiu contra o pescoço um bafo morno de cigarro e conhaque. As costas de sua
— Esquenta um pouco, não é? mão esquerda roçaram a fazenda do vestido comprido. Quente, macia. Bastava
— Esquenta. menos que um gesto. Mas ela já abria a porta:
— Você está com frio? — Ele ia dizer que não, que já não estava, mas ela — Dizem que se o visitante abre ele mesmo a porta, não volta nunca mais.
não prestou atenção. — Estava olhando pela janela antes de você chegar e Ele saiu. O corredor de mosaicos gelados.
imaginando o frio que deve estar lá fora. As ruas estão vazias, não estão? — Volte quando quiser — ela sorriu.
— Estão. Ele deu alguns passos em direção ao elevador. Ela continuava na porta.
— E deve haver uma pequena camada de gelo em cima dos automóveis Antes de entrar no elevador ainda se voltou para encará-la mais uma vez. E não
estacionados, não é? conseguiu conter-se.
— Acho que sim, não prestei muita atenção. — Não conheço nenhum Paulo — disse.
— E quando a gente fala, deve sair uma fumacinha pela boca, assim, veja. — Eu também não — ela sorriu. Ela sorria sempre. Ele apertou o botão do
— Ela tragou o cigarro, depois o apagou e soprou a fumaça devagar, para cima. Térreo. Conseguiu segurar a porta um momento antes que se fechasse, para
— Só que lá fora é ar condensado, não fumaça. — Riu. — Aprendi no colégio. gritar:
— É assim mesmo — ele concordou. E apagou o cigarro. — Eu não me chamo João.
Ela parou de falar. Ou louca, ele pensou. Ou puta ou louca. Mas ela era — Eu também não me chamo Maria — julgou ouvir. Mas não tinha
discreta e mansa, os cabelos caindo em mechas desalinhadas sobre a testa, o certeza. Difícil separar a voz sorridente do barulho de ferros do elevador.
rosto um pouco gasto, as sobrancelhas depiladas e arrumadas em arco. As Rangendo, puxando para baixo.
unhas sem pintura, roídas — observou, enquanto ela levava novamente o copo à Na porta do edifício, tornou a apertar o botão do porteiro eletrônico:
boca, depois tornava a sorrir, os dentes irregulares, mas claros e parecendo — Escuta — perguntou —, você não tem um rádio despertador?
naturais. Moveu-se incômodo na poltrona. Se ela não dissesse nada no próximo — Claro que sim. Na minha cabeceira.
momento, não saberia como agir. Ela pareceu adivinhar. Pousou o copo sobre a O riso chegou distorcido através dos pequenos orifícios do aparelho.
mesa e perguntou: — E tenho também uma garrafa de vinho. Mas agora é muito tarde.
— Como é mesmo o seu nome?
— João — mentiu, a voz brotando antes de qualquer pensamento.
— É um nome simpático. Meio antigo, você não acha? Ninguém mais se
chama João, hoje em dia. Os meninos costumam se chamar Marcelo, Alexandre,
Fabiano, essas coisas. As meninas são Simone, Jacqueline, Vanessa. Leio
sempre aquelas participações de nascimento no jornal, é o que mais gosto de ler.
Ele não disse nada.