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FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA-UNIR

DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA AMBIENTAL-DEA


CAMPUS DE JI-PARANÁ

LEONARDO ROSA ANDRADE

RELATÓRIO DE EXPEDIÇÃO

VISITA TÉCNICA MULTIDISCIPLINAR PARA FINS DE


ELABORAÇÃO DE PROJETO DE PESQUISA: COMUNIDADE DO
LAGO DO PURUZINHO

Ji-Paraná-RO
27 de março de 2010.
1 INTRODUÇÃO

Segundo a NBR 9648, esgoto sanitário é o despejo líquido constituído de


esgotos doméstico e industrial, água de infiltração e a contribuição pluvial parasitária.
Em média, a composição do esgoto sanitário é de 99,9% de água e apenas 0,1% de
sólidos, sendo que cerca de 75% desses sólidos, são constituídos de matéria orgânica em
processo de decomposição. Nesses sólidos, proliferam microrganismos, podendo
ocorrer organismos patogênicos (NUVOLARI et al, 2003, p. 171).
Os dejetos humanos podem ser veículos de germes patogênicos de diversas
doenças como: febre tifóide e paratifóide, diarréias infecciosas, amebíase,
ancilostomíase, esquistossomose, teníase, ascaridíase, etc. (FUNASA, 2006, p. 153),
além de outros inconvenientes, como, por exemplo, o desprendimento de maus odores,
o sabor estranho na água potável, entre outros (IMHOFF, 1996, p. 1).
Observa-se que, em virtude da falta de medidas práticas de saneamento e de
educação sanitária, grande parte da população tende a lançar os dejetos diretamente
sobre o solo (FUNASA, 2006, p.153). Por conta disso, é imprescindível que haja algum
tipo de tratamento dos esgotos sanitários antes de lançá-los em algum corpo receptor.
Em algumas comunidades isoladas, faz-se necessário o emprego de soluções individuais
para tratamento de esgotos, uma vez que por razões econômicas, seria impossível a
implantação de um sistema público de tratamento.
Desta forma, o presente relatório tem o objetivo de apresentar uma alternativa de
tratamento de esgotos para a comunidade do Lago do Puruzinho.

2 METODOLOGIA

A área da comunidade do Lago do Puruzinho se localiza na margem esquerda do


Rio Madeira, a 20 km do município de Humaitá, no estado do Amazonas, na
coordenada geográfica 63°3'32.326"W e 7°22'14.853"S, conforme a Figura 1.
A principal atividade realizada na Comunidade do Lago do Puruzinho fora a de
visitar a escola e as casas dos ribeirinhos, para verificar as condições sanitárias e propor
uma solução viável técnica e economicamente.

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Figura 1 – Lago do Puruzinho (FONTE: Google Earth).

2 VISITA TÉCNICA

Na visita realizada na escola (Figura 2) pode-se constatar a falta de estrutura


física para atender aos estudantes, uma vez que não há salas de aula adequadas,
refeitório, banheiros, água encanada, entre outros. A falta de banheiros na escola faz
com que os alunos não realizem suas necessidades fisiológicas ou que as façam no meio
do mato, o que pode contaminar a água do lago (que é utilizada para beber), uma vez
que as águas da chuva podem carrear as fezes e urina.

Figura 2 – Escola da Comunidade do Lago do Puruzinho.

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Durante as visitas realizadas nas casas dos ribeirinhos, observou-se a ausência de
banheiros e sistemas de fossas sépticas adequadas para deposição das necessidades
fisiológicas, sendo estas substituídas pelas chamadas fossas negras (Figura 3) que
depositam as fezes diretamente no solo, que por seguinte o contaminam. A água
utilizada nas necessidades básicas é retirada do lago, acondicionada em moringas ou em
filtros de barro antes do consumo.

Figura 3 – Fossas Negras.

3 PROPOSTAS DE TRATAMENTO DE ESGOTO

3.1 Proposta inicial

A proposta inicial do Departamento de Engenharia Ambiental da UNIR era a de


instalar nas casas dos ribeirinhos da comunidade, um sistema de fossas sépticas
biodigestoras que foi desenvolvido pela EMBRAPA Instrumentação Agropecuária. O
sistema é iniciado com a inoculação de bactérias metanogênicas através de uma solução
de água com esterco bovino fresco e consiste no tratamento anaeróbio de fezes e urina
humana pela passagem desses dejetos através de duas câmaras de fermentação (caixas
d’água enterradas) interligadas por sistema de sifão e armazenada numa terceira câmara
conforme esquema apresentado na Figura 4. No entanto, dadas as condições

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encontradas na comunidade, a implantação desse sistema se torna inviável técnica e
economicamente.

Figura 4 – Esquema de Fossa Séptica Biodigestora Embrapa.

Para se chegar a esta conclusão, alguns fatores importantes foram levados em


consideração, como:
• falta de água encanada e banheiros;
• número de indivíduos por casa;
• falta de inóculo de bactérias metanogênicas;
Esse sistema requer que as residências disponham de suprimento de água
encanada e banheiro, pois é através da descarga sanitária que os dejetos humanos são
transportados até a fossa biodigestora. A falta dos dois dificulta a utilização desse
sistema.
O número de pessoas por casa é um fator importante no estudo de concepção de
sistemas de esgoto sanitário, pois interfere diretamente no dimensionamento do sistema.
A fossa séptica biodigestora Embrapa foi desenvolvida tendo como base uma família de
cinco integrantes. Na comunidade do lago do Puruzinho, a maioria das residências
superam este número, o que pode comprometer a eficiência do sistema, uma vez que
uma maior vazão de esgoto significa menor tempo de detenção no sistema.
Para iniciar a fermentação no sistema, é necessário que haja a inoculação de
bactérias metanogênicas através de uma solução de 20 litros com mistura de 50% de
água com 50% de esterco bovino fresco. Na comunidade do lago do Puruzinho deve-se
encontrar uma alternativa de inóculo, já que não há criação de gado. Uma alternativa

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seria utilizar água retirada de regiões mais profundas do lago. No entanto, seria
necessário realizar ensaios laboratoriais com as bactérias metanogênicas para saber se
há quantidade suficiente para iniciar o sistema.

3.2 Proposta alternativa para as residências

Para se propor uma alternativa de saneamento para os moradores da


comunidade, deve-se partir do pré-suposto de que o lençol freático da região se encontra
próximo a superfície, uma vez que não há estudos realizados sobre isso. A partir desta
consideração, surge como alternativa a privada com fossa estanque (Figura 5), que conta
com um compartimento impermeabilizado com capacidade de 1 m³ destinado a receber
os dejetos sem descarga de água, podendo ser utilizada por cinco usuários por
aproximadamente um ano. Após o esgotamento da sua capacidade, o tanque deve ser
esvaziado por uma tampa atrás da casinha, devendo o material retirado ser enterrado
com todo o cuidado imediatamente, sem ser utilizado como adubo.

Figura 5 – Privada com Fossa Estanque (FONTE: FUNASA).

A privada com fossa estanque é indicada para zonas de lençol muito superficial,
zonas rochosas ou terrenos muito duros, terrenos facilmente desmoronáveis, lotes de
pequenas proporções, onde há perigo de poluição de poços de suprimento de água,
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podendo ser construída enterrada, parcialmente enterrada ou ainda apoiada sobre o solo.
Possui vantagens como: baixo custo, fácil construção, simples operação e manutenção,
mínimo risco à saúde, não polui o solo além de não consumir água. A principal
desvantagem desse método é que requer soluções para as outras águas servidas.
Dentro deste modelo, pode-se ainda adaptar um separador de urina e fezes
(Figura 6), onde a urina pode ser disposta no solo, ou usada como fertilizante.

Figura 6 – Privada com Fossa Estanque com Separação da Urina (FONTE: ALVES).

3.3 Proposta para a escola

Antes de indicar qualquer solução de saneamento para a escola, deve-se dar


condições para que ele exista. A escola necessita de uma nova sede com toda estrutura
necessária para uma melhor aprendizagem dos alunos, incluindo novas salas de aula,
banheiros, refeitório, água encanada, luz elétrica, etc. Dadas estas condições, a melhor
solução para a escola é a fossa séptica ou tanque séptico (Figura 7).
Segundo a FUNASA, as fossas sépticas são câmaras fechadas cuja
função é deter os despejos domésticos por um período de tempo pré-estabelecido, de
modo a permitir a decantação dos sólidos (lodo) e retenção do material graxo contido
nos esgotos transformando-os bioquimicamente em compostos mais estáveis (2006, p.
194).

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Para o dimensionamento da fossa séptica, deve-se levar em consideração o
número de pessoas ou unidades de contribuição (do ponto de vista econômico, o tanque
séptico é viável para até 100 usuários), a contribuição de despejos em litro/pessoa x dia
ou em litro/unidade x dia, o período de detenção em dias, taxa de acumulação de lodo
digerido em dias equivalente ao tempo de acumulação de lodo fresco e a contribuição de
lodo fresco em litro/pessoa x dia ou em litro/unidade x dia.
Na fossa séptica, ocorre a digestão anaeróbia do lodo, o que gera alguns gases
como o dióxido de carbono e o metano. Além da formação de lodo, há também a
formação da escuma, que é a parte dos sólidos não decantados formados por óleos,
graxas, gorduras e outros materiais misturados com gases, e que fica retida na superfície
livre do líquido, no interior do tanque séptico. A utilização desse sistema requer que as
unidades que a utilizam disponham de suprimento de água, caixa de gordura na
canalização que conduz os despejos das cozinhas (para evitar o acumulo indesejado de
escuma) e uma disposição final.

Figura 7 – Tanque séptico prismático (FONTE: FUNASA).


O líquido efluente da fossa séptica é ainda altamente contaminado por
coliformes fecais e dotado de uma DBO solúvel relativamente alta, e isso deve ser
levado em conta na sua disposição final (NUVOLARI et al, 2003, p. 230). A escolha da
disposição final a ser adotada deve considerar os seguintes fatores: natureza e utilização
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do solo, profundidade do lençol freático, grau de permeabilidade do solo, utilização e
localização da fonte de água de subsolo utilizada para consumo humano, e o volume e a
taxa de renovação das águas de superfície, por conta disso devem ser feitos estudos para
determinar qual disposição final é melhor.

4 CONSIDERAÇÕES

Para a realização das propostas apresentadas neste, há a necessidade de envolver


o curso de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Amazonas do Campus do
Pólo Vale do Rio Madeira – Humaitá, por entender que este projeto envolve toda a
sociedade de Humaitá, e que a Universidade deve contribuir para a melhoria da
qualidade de vida da população.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR – 9648 – Estudo de


Concepção de sistemas de esgoto sanitário. Rio de Janeiro: ABNT, 1986.

Alves, Bárbara Samartini Queiroz. Banheiro seco: análise da eficiência de protótipos.


Florianópolis: UFSC, 2009. Trabalho de Conclusão de Curso (Centro de Ciências
Biológicas) Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, 2009.

FUNASA – Fundação Nacional de Saúde. Manual de saneamento. 3. ed. rev. - Brasília:


Fundação Nacional de Saúde, 2006.

IMHOFF, K. R. Manual de tratamento de águas residuárias; tradutor Max Lothar Hess –


São Paulo: Edgard Blücher, 1996.

NUVOLARI, Ariovaldo. et al. Esgoto Sanitário: coleta, transporte, tratamento e reúso


agrícola. 1ª edição – São Paulo: Edgard Blücher, 2003.