As eleições de 1975 e a Constituição de 1976

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Catarina

[Ano]
Catarina Ferreira Nº8,12ºD Área de Projecto Professora Ana Paula 2º Período (Ano Lectivo 2009/2010)

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As eleições de 1975 e a Constituição de 1976

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Índice
Introdução ........................................................................................................................................................... 4 O surgimento dos partidos políticos em 1974 .................................................................................................... 5 Início da Campanha para a Assembleia Constituinte ......................................................................................... 6 Campanha Eleitoral [Quarta-Feira, 2 de Abril] ................................................................................................. 7 Acordo consagra MFA ...................................................................................................................................... 7 Campanha ao rubro ......................................................................................................................................... 8 PS vence primeiras eleições .............................................................................................................................. 10 O voto é a arma do povo ................................................................................................................................ 10 Incidentes no 1º de Maio .................................................................................................................................. 12 PS desce à rua ................................................................................................................................................ 12 O verão de 1975................................................................................................................................................. 14 Golpe e contragolpe a 25 de Novembro ........................................................................................................ 15 Comandos anulam Polícia Militar e Pára-Quedistas .................................................................................. 15 O «Compromisso» Constitucional .................................................................................................................... 17 Constituição e evolução constitucional ............................................................................................................ 17 A consagração da III República ................................................................................................................... 18 A Constituição de 1976 e as revisões constitucionais de 1982 e de 1989 (a transição democrática) .................................................................................................................................................. 18 A revisão constitucional de 1982 e as modificações nas relações entre o poder político e a instituição militar ....................................................................................................................................... 24 O Poder Central ................................................................................................................................................. 29 O Triângulo Conflitual da Instabilidade: Eanes, Soares e Sá Caneiro (1976-1980) ......................................... 30 Conclusão ........................................................................................................................................................... 32 Bibliografia ......................................................................................................................................................... 33 Relatórios das aulas ........................................................................................................................................... 34

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Espero que a leitura seja do seu agrado.Introdução Este trabalho foi realizado no âmbito da disciplina de Área de Projecto. Vou tratar. De referir que apenas será abordado os aspectos políticos que marcaram esta época conturbada. que se caracteriza pela separação das esferas militar e civil do Estado. quando se realizam as revisões constitucionais. portanto. a partir de um tema proposto pela Professora. do período da nossa história referente à transição democrática. Neste trabalho vou abordar o período compreendido entre 1975 (até ao fim do PREC) e meados dos anos 80. No início refiro o período de 1974 apenas na tentativa de contextualizar o período em questão. 4|Página .

com 26%. presidido pelo Prof. dirigido por Mário Soares. com cerca de 38% dos votos. por defensores da evolução gradual do regime. O I Governo Provisório civil.1%). Os cinco executivos provisórios que se seguiram até à entrada em vigor da Constituição de 1976. o PCP conseguiu 30 representantes (12% dos votos) e o MDP/CDE teve 5 lugares (4. entre cujos membros se contavam deputados da «ala liberal». A Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES). Além dos partidos com assento nos governos provisórios. apenas apoiado pelo PCP e pelo MDP/CDE. e o novo PPD – isto além do MDP/CDE e da participação individual de membros da SEDES e de independentes. constituída em 1970. o recém-criado PS. designadamente de obediência maoísta. Poucos dias após a revolução. formou-se com base nas grandes correntes político-ideológicas que viriam a transformar-se nos principais partidos da democracia: PS. como Francisco Sá Carneiro. o movimento unitário nascido das candidaturas de 1969 e 1973 (MDP) e vários pequenos partidos e movimentos. cujo secretário-geral era Álvaro Cunhal. Magalhães Mota e Francisco Balsemão) anunciaram a constituição de um novo partido – o Partido Popular Democrático. de inspiração de democrata-cristã e centrista (16 deputados e 7.O surgimento dos partidos políticos em 1974 A 25 de Abril de 1974. as eleições para a Assembleia Constituinte (Abril de 1975) deram representação ao Partido do Centro Democrático Social. obteve 116 lugares. 5|Página . viriam a basear-se em idêntica composição. que se auto-afirma como de centro-esquerda. Adelino da Palma-Carlos. quando o Programa do MFA previu que a formação de associações pacíficas constituiria o embrião de novos partidos políticos. era a associação política mais influente. O PS. o PPD. e jovens técnicos que tinham colaborado na primeira fase do marcelismo. o PCP. alcançou 81 deputados. verifica-se que entre as organizações políticas existiam em actividade o PCP.6%) e à União Democrática Popular. presididos pelo general Vasco Gonçalves (II a V) e pelo almirante Pinheiro de Azevedo (VI). de orientação marxista-leninista radical (1 deputado). salvo o V Governo (Agosto de 1975). três deputados da referida «ala liberal» (Sá Carneiro.

retém: “Ele já estava um pouco cego e trôpego. O assunto principal é a formação de um Tribunal Militar Revolucionário.Início da Campanha para a Assembleia Constituinte A campanha eleitoral para a Assembleia Constituinte tem início a 2 de Abril. inclui oficiais. Juntamente com o Conselho da Revolução. Arnaldo Saraiva. Quando um jornalista pretende saber o que é preferível. O texto estabelece a independência do poder militar face ao poder civil. que. sargentos e praças e reúnem-se mensalmente. chegaram Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Ernest Mandel. A disputa arranca com uma até então desconhecida “guerra” de cartazes. Frank Carlucci afiança que não esteve ligado ao 11 de Março e que não pertence à CIA. que a publica no Expresso. digamos. Simone de Beauvoir dá uma única entrevista. o Expresso passa a abrir as suas colunas à opinião de enviados especiais estrangeiros. mas lúcido. não hesita em declarar que “Portugal alargou o campo do possível”. destinado a julgar os implicados no 11 de Março e constituído exclusivamente por militares. “Na altura. eu ainda era assistente”. Andou sempre acompanhado e controlado por um dos secretários. Continua o corrupio de intelectuais. na rádio e na televisão. enfatiza. mas o que ele queria era ouvir. Em plena campanha eleitoral. de 65 anos. mas pouco impressionado com os militares. conta este. Vasco Gonçalves. Óscar Lopes. Sartre discorda da dicotomia: “Será assim que a questão se deve pôr? Não será antes: revolução e eleições?” Fascinado com a Revolução. em entrevista ao jornal Le Figaro. O director. o encarregado maoísta de o orientar. avisa: “Torna-se evidente que o Governo não controla inteiramente a situação actual”. na Casa da Imprensa. Praticamente não falou. D.”. sugere a criação de um “movimento ‘apartidário’. Sartre vem a convite do Instituto Francês do Porto e participa. “é mais do que o sufrágio directo”. à escritora e militante feminista Maria Teresa Horta. A primeira Assembleia do MFA reúne-se a 7. Liga Comunista Internacionalista (LCI) e MES recusam o pacto. no sentido de resolver o conflito da Rádio Renascença. Michel Foucault. 6|Página .” O filósofo francês dá a sua única entrevista colectiva. diz que “o sufrágio universal como modo de expressão do público está ultrapassado (…)” “Sou pela democracia directa”. Companheira de Sartre. Outra estreia absoluta é o tempo de antena. Em plena fase pró-chinesa. que era. Constituído por 240 elementos (120 do Exército. é um dos novos órgãos de poder. a 2. Victor Serge. No mesmo dia. ávida. “Lembro-me que estava muita gente. desejosos de observar o balão de ensaio lusitano. que. 60 da Armada e outros tantos da Força Aérea). Serge July. A tentativa inclui uma cimeira entre o primeiro-ministro. faz-se substituir por Arnaldo Saraiva. Este é ponto que mais críticas suscita ao PS. em Lisboa. Sartre era um homem muito gentil e humilde. Às primeiras eleições livres no último meio século apresentam-se 12 partidos.António Ribeiro. de grandes qualidades humanas e inteligência muito aguda. numa sessão na Faculdade de Letras. Catedrático de Licenciaturas Modernas. e o patriarca de Lisboa. Iniciam-se contactos entre o Governo e o Episcopado. com o MFA. eleições ou revolução. a 4. o socialismo português”. uma espécie de ‘MFA civil’ o qual teria a tarefa de construir. Só no espaço de uma semana. enquanto três partidos de extrema-esquerda – UDP. saídos da conjuntura política posterior ao 11 de Março. Louis Althusser. o Conselho de Revolução apresenta aos partidos o projecto de uma Plataforma de Acordo Constitucional. director do diário francês Libération. Aos partidos é concedido um prazo de apenas dois dias para a apresentação de respostas. O embaixador dos EUA em Lisboa dá uma insólita conferência de Imprensa para “pôr fim aos boatos” a seu respeito. Na edição de 5.

por ter escrito um editorial condenando propostas de fuzilamentos de oficiais implicados no 11 de Março. No livro Ditadura e Revolução. um partido da extremaesquerda maoísta. fazem-no convictos e entusiasmados. a demissão de Ribeiro dos Santos é feita “sob pressão” do “plenário de trabalhadores”. de “ter apelado ao voto em branco. Acordo consagra MFA A Sibéria é grande e Estaline é o seu profeta. Vinte Anos de Democracia). lamenta. mas também o erro. fala às tropas do regimento: “ Insistir (…) no regresso às casernas. resignados e mais ou menos coagidos. a primeira campanha eleitoral politicamente livre em 48 anos. Uma delegação da Lotta Continua. assim como a independência do poder militar em relação ao poder civil. Nas suas memórias (Os anos Decisivos). no primeiro minuto desse dia. o tempo de antena da FEC. Magalhães Mota e Jorge Sá Borges – fixavam nas paredes da cidade os primeiros cartazes da propaganda eleitoral. em todo o País. Prossegue a campanha eleitoral. A 9. A maioria dos observadores não tem dúvidas em ver o pacto como uma imposição dos partidos.” Uma lápide confere à parada do quartel o nome do soldado Joaquim Carvalho Luís.” Era a estratégia de Salgado Zenha. A Plataforma de Acordo Constitucional é assinada a 11 pelo Presidente da República. igualmente conotado com os comunistas. Mário Soares explica por que assinou: “Estava disposto a aceitar tudo. em protesto contra a substituição das chefias em plena campanha eleitoral. Apesar da diversidade de tendências. Luís de Barros. Mário Soares presidiu em Faro. próximos do PS. Em causa está a tensão entre duas legitimidades: a eleitoral e a revolucionária. Nas vésperas. Uns. ao arranque da campanha para a eleição dos deputados que hão-de redigir a Constituição. diz Álvaro Guerra em entrevista ao jornal República de 9 de Abril. partido da extrema-esquerda italiana.Campanha Eleitoral [Quarta-Feira. PPD. desde que houvesse eleições. Em Lisboa. O Concelho de Revolução suspende. CDS. É consagrada constitucionalmente a existência do Concelho de Revolução e da Assembleia do MFA. A entrevista é a primeira denúncia frontal da escalada do PCP nos principais órgãos de comunicação social. “morto pelo fascismo em 11 de Março de 1975”. As sequelas do frustrado golpe de direita prosseguem. No dia seguinte. O principal teórico é César Oliveira. “foi logo aproveitada por alguns sectores do MFA”. os fotógrafos captam o momento em que três das principais figuras do PPD – Francisco Pinto Balsemão. o RAL 1 comemora o dia da unidade. assegura. surgindo no cabeçalho ao lado do novo director. No dia seguinte. Vasco Gonçalves definira o alcance do pacto: “Não poderíamos perder por via eleitoral o que tanto tem custado a ganhar ao povo português. são detidos mais 28 oficiais e sargentos envolvidos. em nome do Concelho de Revolução. e por representantes de seis partidos: PS. Como refere Mário Mesquita (Portugal. PCP. demitira-se dias antes de director adjunto de Informação da RTP. MDP/CDE e FSP. o acordo deverá “integrar a futura Constituição”. por cinco dias. outros. um dissidente do MES. A anterior direcção era formada por José Ribeiro dos Santos e José Carlos Vasconcelos. bem como alguns civis. a imprensa parece de acordo: o primeiro partido a colar cartazes foi o PPD e o primeiro a organizar um comício foi o PS. identificando tal voto a um voto no MFA”. O comandante.” Válido por três a cinco anos. constitui uma das muitas formas de traição criptocapitalista. em especial pelo 7|Página . coronel Leal de Almeida. que “é falso dizer que a liberdade e a democracia estão ameaçadas em Portugal”. devido aos seus “ataques ao MFA”. A ideia. o historiador assume a autoria. 2 de Abril] Às zero horas do dia 2 de Abril começou. A grande novidade é o apelo ao voto em branco. José Saramago toma posse como director adjunto do DN. a que Soares rendera. Jornalista e escritor ligado ao PS. no final de uma visita de uma semana.

porque ele. nem experiência eleitoral. Na mesma edição. a 18. todos os ganhos alcançados. A cronologia O Pulsar da Revolução regista que. Não tínhamos segurança. coitado. Ainda mais clara é a afirmação de que “nós não fizemos uma Revolução (…) para que numa parvoíce eleitoral percamos. reclamam uma imprensa livre. em 1961. de um momento para o outro. transportes (ferroviário. estreara-se o semanário A Rua. “Em segundo lugar. Na semana anterior. a 15. “A minha filha Isabel era o meu motorista. bem como da Siderurgia Nacional. relativo ao reconhecimento da soberania sobre Goa. chama-se Jornal Novo. numa entrevista ao semanário de que é director: “Essa identificação que agora se faz aí entre o voto em branco e o voto no MFA parece-me forçada. falsa e perigosa. O jornalista e escritor Portela Filho recorda: “A ideia partiu de um grupo restrito. altamente gratificante e com alguns lances dramáticos”. O 25 de Abril é declarado o novo Dia de Portugal e feriado obrigatório. uma táctica de avestruz”. E a 21. Quando este lhe manifesta a sua convicção de que o PS vai ganhar. “Foi um esforço tremendo. pela força. Publicado ainda o tratado entre a Índia e Portugal. a repressão dos actos de sabotagem económica por parte do patronato. um dos estrategos da 5ª Divisão. atribuído ao Centro de Estudos de Administração e Desenvolvimento. digamos. conduzida por Augusto Carvalho. dotada de poderes soberanos e constituintes. Eu e no Francisco trabalhávamos numa empresa de publicidade que tinha 8|Página . Para este influente membro do Conselho de Revolução. Daí. tal é o propósito do Jornal Novo. Ministro sem Pasta e sem função específica no IV Governo. No final de uma reunião do Concelho de Ministros. a necessidade do pacto. marítimo e aéreo) e electricidade. concedia um terceiro lugar honroso”. é o ponto final no diferendo criado com a anexação. o general refuta.comandante Ramiro Correia. a Assembleia Plenária do Episcopado apela ao voto como um dever. fixado no editorial. A 12. À margem das eleições. a nacionalização das empresas do sector petrolífero. No final. de extremadireita. afirma. Mário Soares beneficia dessa situação para se dedicar “quase exclusivamente” às eleições – como explica em Ditadura e Revolução. A Igreja intervém na campanha. Sem tradição democrática. “Tentar responder a quantos. O primeiro jornal diário criado depois de 25 de Abril (1974) surge a 17 de Abril de 1975. Vasco Gonçalves aproveita para falar com Mário Soares sobre as eleições. No mesmo dia. recorda Soares. o Diário do Governo publica o decreto que define as normas a que deve obedecer a eleição de uma assembleia representativa do povo de Cabo Verde. bem como as “rústicas irrigadas de área superior a 50 hectares”. daqueles três territórios coloniais pela Índia. as eleições “não vão representar realmente a vontade do povo. a folha oficial traz o diploma que cria o provedor de Justiça. Outros decretos contemplam o novo regime do arrendamento rural. os partidos investem tudo. e crítica. Dirigido por Artur Portela Filho. como a quase certeza da vitória eleitoral”. a actividade legislativa é intensa. o dirigente do PPD. de que eu fazia parte com o José Sasportes e o Francisco Agarez. “são congelados os bens de alguns administradores do grupo Champalimaud”. o Expresso publica uma extensa entrevista com Rosa Coutinho. Utilizávamos o meu próprio automóvel. Ao PS. “não só tinha o PS na mão.” Campanha ao rubro À entrada da última semana de campanha eleitoral. No mesmo dia. e são cada vez mais. Damão e Diu. expropriar as “propriedades de sequeiro de área superior a 500 hectares”. dirigido por Manuel Maria Múrias. O Concelho de Ministros decide. incluindo rebentamento de uma bomba em Ponta Delgada. porém. Soares dá a sua “primeira grande volta a Portugal”. surgiria o PCP. um Renault 16. Francisco Pinto Balsemão. têm um inquérito. vermelho” – hoje exposto no museu de Cortes. a eleição é marcada para 30 de Junho. que dava vitória ao MDP/CDE. os media ainda não publicam sondagens à opinião pública. Seria. mas esclarece que “ninguém deveria votar em branco”. e profissional”. com base naquela sondagem. ainda não tem realmente o poder de análise”. Os militares.

O objectivo fixado é “a conquista do poder pela classe operária e pelos soldados e marinheiros a partir dos locais de trabalho”. democrática e independente. presidida por Vasco de Mello. vaga. imprecisa. Participam representantes de 165 empresas e 26 unidades militares. mesmo ausente.” O Congresso Nacional de Trabalhadores Pró-Conselhos Revolucionários reúne-se a 19 e 20. Rejeita. Surgiu a ideia de eles financiarem um jornal crítico. a ideia. sem nenhuma influência no conteúdo e aspectos editoriais. António Mega Ferreira e Alexandre Pomar. muito divulgada. Artur Portela recorda que só assumiu a direcção depois de se terem malogrado duas outras soluções que ele próprio propôs: Eduardo Lourenço e Vitorino Magalhães Godinho.” Portela rejeita a ideia de uma dependência do jornal face àquela organização patronal: “A administração nunca teve influência nos conteúdos editoriais. A iniciativa é dinamizada pelo PRP/BR um partido defensor da luta armada. Inovadora é a fotomontagem que ilustra regularmente a capa. Diogo Pires Aurélio. aberto. A mais famosa é uma reprodução dos painéis de Nuno Gonçalves em que todas as caras são de Mário Soares.contactos com a Confederação da Indústria Portuguesa (CIP). cosmopolita. objectivos consagrados no estatuto editorial.” Da redacção fazem parte nomes como Mário Mesquita. moderno. 9|Página . de tendência socialista. europeu. por outro lado. de uma ligação do jornal à CIP: “A administração sempre foi discreta.

Freitas e outros dirigentes interrogam-se mesmo “se valeria a pena continuar com o partido”. como é óbvio.9% e 116 deputados. Apela à escolha “entre os partidos autênticos que não barram a via socialista e que nos prometem o pluralismo essencial ao exercício da liberdade”. jornalistas e outros trabalhadores. desloca-se a Cuba. de uma herdade em Aveiras de Cima. preocupados com a eventualidade do relatório incriminar o PS. que está sempre a discutir se vale a pena existir?” 10 | P á g i n a . e.8%). “Foi uma vitória histórica! Esperava um excelente resultado.16%. com o objectivo de “explicar. a que comparecem a direcção (Francisco Balsemão. O acto eleitoral fundador da democracia política é coberto por cerca de um milhar de jornalistas estrangeiros. com 37. alguns membros do grupo conhecido como ex-MES. reúnem-se em casa de Jorge Sampaio. a 23 de Abril. Nas vésperas. como muitos camaradas meus pediam. E foi”. O resultado do CDS. Soares lembra que fez “declarações muito prudentes”. de 7. exclamou enfurecido: Mas que raio de partido é este. chefiada pelo coronel Varela Gomes. Ninguém lhes fica indiferente. É uma declaração de princípios. chega a vez. Para Costa Gomes. Seguem-se o PPD (26. a votar em qualquer dos 12 partidos”. Incluindo o MFA.9%. Na vaga de ocupações de terras.66% dos eleitores inscritos. seja o carácter absurdo de tal tentativa incriminatória. Um dos temas é a Rádio Renascença. O tema dominante da semana. publicada em Janeiro.” Ao falar da Madrugada de 26. Costa Gomes recebe o núncio apostólico. que irá dar origem à Cooperativa Agrícola Torre Bela – um ícone da esquerda radical. Do relatório nada consta dobre o PS.4%). A participação é impressionante: 91. ainda por cima. é incluída nas acções de “preparação da opinião pública”. O PS é o grande vencedor.PS vence primeiras eleições O voto é a arma do povo A 22 de Abril são divulgados dois relatórios: o do 28 de Setembro e o preliminar (mas que viria a ser o único) do 11 de Março. Os grandes derrotados são o MDP e os defensores do voto em branco – que. somando os nulos. o MDP/CDE (4. No mesmo dia. não aconselha. escreve em O Antigo Regime e a Revolução.1%) e a UDP (0. “Não pedi a substituição do Governo nem reclamei o lugar de primeiro-ministro. Trinta anos depois. O jornal reage energicamente e promove uma conferência de Imprensa. seja o erro político que consistia em incriminar dirigentes de um partido indispensável à da democracia”. Augusto de Carvalho e Marcelo Rebelo de Sousa). perfazem 6. Vale a intervenção de Rui Pena. “Quando cheguei à Gulbenkian. o CDS (7.” Oposta é a avaliação de Freitas do Amaral. o PCP (12. Uma entrevista com o general Spínola.6%). são as eleições para a Assembleia Constituinte. monsenhor José Maria Sensi. realizadas a 25 de Abril. Soares reconhece que as eleições foram “um ponto de honra do MFA”. O centro de operações é na Fundação Gulbenkian e o principal pivô da RTP é o Carlos Cruz. porém. recorda Mário Soares. Uma delegação do MFA. mas manifesta a esperança de que os resultados conduzam a uma “clarificação” e a “modificações na coligação”. o Concelho de Revolução estava um bocado caído. para as comemorações do primeiro aniversário da revolução. que “dando um murro na mesa. Fiquei com uma força formidável. Percebi logo que o PS tinha vencido. Na véspera do sufrágio.5%). São rejeitadas todas as alegações e garantida “a independência do jornal”. O Expresso antecipa a saída para 25 e publica um editorial na primeira página. foi “uma decepção profunda – e dolorosa (…) Era um péssimo resultado”. “a vontade popular é a verdadeira fonte de poder político”. provável vencedor das eleições. onde há quem apela ao voto em branco. mas sugere-se uma ligação do Expresso à intentona. a que se manterá fiel: “ Como jornal independente e apartidário que é. o presidente dirige-se ao país. César Oliveira conta (Os Dias Decisivos) que Nuno Brederode Santos e Nuno Portas são enviados à Comissão que ultima o texto.

“É evidente a viragem à direita”. contudo. Horas depois. observa (A Revolução e o Nascimento do PPD). Para António Reis (em Portugal – 20 Anos de Democracia).Importantes sectores militares. é por isso que somos o MFA. insistem em menorizar as eleições. deixa os vencedores gelados: “Não temos confiança nos partidos políticos existentes (…) e por isso continuamos. No próprio dia. 11 | P á g i n a . Otelo frisa que “as pessoas não vão votar conscientemente”. “os portugueses davam o primeiro sinal claro e insofismável da via que pretendiam seguir”. só que “o MFA age como se as eleições não alterassem nada”.” Marcelo Rebelo de Sousa estreia-se como comentador eleitoral.

o decreto reconhece a “Intersindical Nacional como a confederação geral dos sindicatos portugueses”. “se declarou contrário à entrada fosse de quem fosse na tribuna. pede a demissão. no dia 1 saíra um novo semanário. vivo. socialista e portuguesa”. A “lei da unicidade sindical” é publicada a 30 de Abril. que participe nesta apaixonante tarefa de ajudar a construir a nossa revolução democrática. Judas considera que “esse 1º de Maio marca o início da ruptura do PS com o resto da esquerda. estes elegem como director Joaquim Letria. segundo um documento da Comissão Política do CR. No editorial. criador. o presidente. Soares e Zenha são recebidos por Costa Gomes e Vasco Gonçalves. afastado das lides sindicais e políticas. No desfile incorporaram-se militantes do PPD e dos grupos maoístas AOC e PCP (m-1). entre socialistas e comunistas” (Ditadura e Revolução). lúcido. o ministro do Trabalho promove 12 | P á g i n a . recusou a social-democracia”. ligado aos sectores esquerdistas”. Para Soares. os socialista são recebidos com hostilidade e até com alguma violência. convoca um desfile autónomo. Hoje. desemboca no estádio com o mesmo nome. essa foi “a primeira grande confrontação de rua. Ao chegarem ao estádio. Afonso Praça. após o que o PS convoca a sua primeira manifestação de rua. desapaixonado. No dia seguinte. conta. Cáceres Monteiro. é impedida de entrar em tribuna. que. por “não haver lugar nos camarotes para os partidos divisionistas”. Uma das primeiras consequências do sufrágio é o pedido de demissão do governador de Ponta Delgada. Um comunicado da Intersindical confirma: “O nosso dirigente não permitiu a entrada o dr. Mário Soares. “Central sindical só por via eleitoral” é uma das palavras de ordem mais gritadas. mas que o Governo confirma no lugar. “o PPD e o CDS são os grandes derrotados”. comandante Calvão Borges. Segundo o relato do Expresso. Propriedade dos próprios jornalistas. Uma delegação. a pedido desde. Manuel Beça Múrias. a multidão apupa o jornal. A “manif” termina na sede do PS. que na semana anterior vencera as eleições. com destaque para a manifestação de Lisboa. O Jornal.” José Luís Judas era um dos principais dirigentes da Inter e assistiu a tudo. ligado ao MDP/CDE. o PS. na Rua Braamcamp. Na falta de um acordo entre os promotores. O major em causa era Campos Andrada que. livre. só suplantada por outra que perdurará: “É preciso respeitar a vontade popular”. enquanto. Por seu lado. António Borges Coutinho. Entretanto. Outros fundadores são José Carlos Vasconcelos. nem Brejnev”. Salgado Zenha e Marcelo Curto. admite-se como provável que a rádio do Estado fique na órbita da 5ª Divisão. o MFA conclui que “o povo votou o socialismo” mas que. O PS percebeu que era um excelente pretexto para começar a separar as águas”. onde Soares defende a realização de eleições nas autarquias e nos sindicatos. alegre. em protesto contra os incidentes de véspera. Muitíssimo contestada pelos socialistas. constituída por Mário Soares. saúda o Expresso. na Rua São Pedro de Alcântara. José Silva Pinto. Na Emissora Nacional. realiza-se a 5 uma cimeira entre o PS e o PCP. propõe-se fazer “um jornalismo independente. mas aprovada por unanimidade pelo então Conselho dos Vinte (precursor do CR). no que é acompanhado por vários directores. o sindicalista José Gomes é quem lhes barra o caminho. Ao passar em frente da sede do DN. tal como na jornada inesquecível de 1974.Incidentes no 1º de Maio PS desce à rua Numa análise às eleições. A seu ver. “por uma maioria de dois terços. O 1º de Maio é celebrado em todo o país. que se destacam ao exigirem “Nem Kissinger. temendo consequências desagradáveis para o PR”. Nos meios políticos. No rescaldo do 1º de Maio. “Quem deu ordem para não deixar entrar Mário Soares foi o major responsável da segurança da tribuna. Os socialistas reagem e retiram-se do estádio.

O seu presidente é António Spínola. 13 | P á g i n a . não se compreende o frequente recurso à greve. que classifica “como um acto contra-revolucionário”. Em tempo de “batalha da produção”. diz Costa Martins. a constituição do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP).uma conferência de Imprensa. a 5. As duas principais cronologias sobre o PREC assinalam.

O alvo eram os “barbudos”. como formas sociais integradoras dos diferentes grupos sociais e o anticomunismo alimentava. como atrás de viu. uma interveniente menor na questão social das aldeias do Centro e Norte do país. no entanto. a nível local. acumularam-se os assaltos a sedes do Partido Comunista.O verão de 1975 Com o 11 de Março mudou o curso político e abriu-se um período em que as relações de forças que se estabeleceram local e regionalmente se sobrepuseram às decisões tomadas em Lisboa. consolidar-se e persistir. os quais provocaram vários feridos». o que se passou na Batalha. promovendo autênticas cruzadas ideológicas e apoiando as organizações terroristas.» Depois do 25 de Novembro o clima de violência foi-se atenuando e as primeiras eleições autárquicas (Dezembro de 1976) conduziram a que. em camiões. Nem há que fazê-lo dado o modo como se optou por abordar assuntos. O primeiro. os que traziam fato tipo blue jeans (vistos como não conformistas) e camisas de cor vermelha. muitos dos contornos destas unidades derivaram dos modelos herdados e simultaneamente houve uma incapacidade de delinear a compatibilização da democracia directa. O pretexto para o início dos motins foi «desalojar os empregados grevistas que ocupavam um pequeno hotel de luxo». de novo. Nessas dinâmicas. de novo. que emergiu nalguns processos e movimentos. em que a Igreja Católica teve um papel central. O sinal de ajuntamento era dado pelo toque do sino. Foi. e sucederam-se os distúrbios e os desacatos nas vilas e cidades do Norte e do Centro de Portugal. multiplicaram-se os fogos florestais de origem criminosa e os ataques bombistas. que aflorou nestas unidades. No primeiro caso a falta de reflexão sobre a ligação das famílias agricultoras aos fluxos monetários de previdência rural e dos salários ganhos nos mercados de trabalho da indústria e dos serviços conduziu à incapacidade de perspectivas estas dimensões políticas do Estado. Convém. o económico foi subordinada à ideologia e ao político no comando dos processos sociais. a vila foi ocupada por essas pessoas. Contribuiu. “os cabeludos”. para o que contribuíam também os rumores e as notícias que chegavam dos campos do Sul dobre as ocupações de terras e pequenos agricultores. As comunidades rurais funcionavam. esta coesão. 14 | P á g i n a . Finalmente. Nas aldeias do Centro e do Norte do país reacenderam-se as bandeiras que. sobre as orientações dos Governos. Durante dois dias. por exemplo. assim. para se revezarem. No segundo exemplo. Do que antecede não se tiram conclusões. com a democracia representativa. de sindicatos e de outras organizações e instituições identificadas com a esquerda. regista-se o peso dos modelos e ideias que se sentiu tanto pela sua presença. destas presenças e ausências relacionam-se com a agricultura familiar e com as unidades de produção dos trabalhadores da Reforma Agrária. no plano ideológico. A política agrária foi. explicitar três fios que percorrem a análise feita. para o clima de violência que se gerou. Dois bons exemplos. quando os existentes moldaram acontecimentos e traçaram os contornos das opções tomadas. O aglomerado de forças políticas. iam buscar outras às freguesias. até finais de 1976. o móbil dos assaltantes era «matar os comunistas um a um» e «maltratavam os grevistas. A turba dos assaltos e das acções de rua era geralmente a população agrícola e rural das aldeias e lugares. como quando faltaram para permitir ao novo. haviam alimentado o Estado Novo. No verão de 1975. se retomassem disputas e rearranjos em detrimento do consenso ideológico que haviam marcado o Verão de 1975. e é o segundo fio. que «aconteceu 48 horas de distúrbios graves. O Estado e as suas políticas pouco conseguiam influir nas dinâmicas locais. de militares e de interesses que veio a impor-se no 25 de Novembro de 1975 teve grande apoio nestas dinâmicas. é o facto de as relações de forças que se estabelecem regional e mesmo localmente terem prevalecido com frequência. entre os quais tinham descoberto “um estrangeiro” (empregado originário do Norte do País que vivia no concelho há cinco anos)». «Os invasores da vila eram camponeses enquadrados por um grupo de negociantes alugadores de tractores e comerciantes. como acontece sempre que a aldeia julga pressentir um perigo imediato. que.

A reforma Agrária prossegue: uma nova portaria determina a expropriação de mais 89 prédios rústicos. anunciam. exige Gomes da Costa que ponha termo à “desordem”. a 20. prontamente desmentido por Costa Gomes. nunca de direita”. escreve Inácia Rezola. contra a greve do Governo. Álvaro Cunhal considera que o VI Governo Provisório deve dar lugar a um VII Governo Provisório. lê-se numa moção. sempre ao lado do povo. “A única alternativa para a presente crise é uma alternativa de esquerda. Várias unidades aprovam moções de repúdio pela tentativa de afastamento de Otelo. de uma nova associação política. desta feita no distrito de Castelo Branco. Reunidos no Copcon. comandantes de 12 das 16 unidades põem em causa a reunião da véspera do Copcon e avisam Otelo que 15 | P á g i n a . Juramento de bandeira. comandantes de várias unidades repudiam com veemência a nomeação de Vasco Lourenço. daremos as armas aos trabalhadores. Em comunicado. Esta decisão é comunicada. baptizada de Intervenção Socialista (IS). recusam a passagem à situação de licença e colocam-se às ordens do Copcon. A nomeação de Vasco Lourenço para o lugar de Otelo. de punho fechado. em plenário. “para amanha”.200 pára-quedistas de Tancos à situação de licença. Os pára-quedistas de Tancos. “Fui sequestrado duas vezes. é uma coisa que me chateia. já chega! Não gosto de ser sequestrado. na sede da região de Lisboa. Otelo avalia a hipótese no Copcon e dispõe-se a deixar aquele cargo desde que seja para um oficial de sua confiança. interrompendo uma viagem a vários países socialistas. Além disso. Vasco Lourenço recebe. apoiada pelo PCP e extremaesquerda. o que evita uma nova manifestação em São Bento.” O CR toma várias decisões de sinal contrário. que. ao Presidente. O jornal A Capital anuncia a formação. que revela a sua discordância.” Sá Carneiro reclama uma “reestruturação das mais altas cúpulas militares” e Álvaro Cunhal regressa a Lisboa.Golpe e contragolpe a 25 de Novembro Comandos anulam Polícia Militar e Pára-Quedistas Matutinos do dia 18 de Novembro. em O CR e a Transição para a Democracia em Portugal. que Otelo o apoie juntos das unidades da região. o Governo decide entrar em greve. Este transmite a Costa Gomes a sua mudança de posição. sendo estes soldados – ou se for preciso aos próprios trabalhadores. “Todos parecem acreditar ma iminência de um golpe de Estado”. Governo da Esquerda”. cujo discurso desagrada aos manifestantes. Jaime Neves informa dos preparativos desenvolvidos pelos moderados e. a 21. integra dissidentes do MÊS como Jorge Sampaio. o precioso apoio dos comandantes das regiões militares do Norte e do Sul. Mário Soares avista-se com elementos dos Nove e é equacionada a possibilidade de o Governo entrar em greve. ao serviço da classe operária (…) pela vitória da Revolução Socialista”. O general Morais da Silva determina a passagem de 1. Manifestação em Belém. outra expropria mais 96 prédios rústicos no distrito de Portalegre. para breve. Uma portaria legaliza o horário de trabalho da panificação. é o centro de múltiplas reuniões militares. o que faz Otelo mudar de opinião. É reclamada a presença de Costa Gomes. Este apresenta. o que leva Vasco Lourenço a renunciar o cargo. enfatizada por uma paralisação de trabalho na cintura industrial de Lisboa e em todo o Alentejo. “Estou farto de brincadeiras…” – desabafa Pinheiro de Azevedo aos jornalistas. a 22. No Regimento de Comandos. Por proposta de Pinheiro de Azevedo. como condição. um “golpe militar de direita”. utilizavam uma nova “fórmula revolucionária”: “Juramos estar sempre. como governador militar de Lisboa. o Executivo explica que resolveu “suspender o exercício da sua actividade” até que Costa Gomes lhe garanta “as condições indispensáveis”. perante as câmaras da RTP. dos soldados-recrutas do Ralis. ligados ao PCP. entre as quais avulta a substituição de Otelo por Vasco Lourenço à frente da Região Militar de Lisboa. Acabemos com as conversas!” – escreve o capitão Duran Clemente no DN de 19. O capitão Cabral e Silva lê um manifesto de “oficiais revolucionários”: “O poder popular nunca será verdadeiramente poder se não for armado. Exercícios de fogos reais decorrem na Arrábida e deflagra uma bomba na livraria do DN no Chiado. “Organizados.

Em resposta. com Soares a reclamar de Costa Gomes o fim das ambiguidades. De acordo com a acta. Em resposta militares ligados aos Nove. as unidades rebeldes. No fim-de-semana. organizados em torno dos conselheiros Melo Antunes e Vasco Lourenço. E não avançando. chegou-se ao consenso de que a nomeação deveria ser mantida. chefiado pelo tenente-coronel Ramalho Eanes. Na Polícia Militar há mesmo confrontos. Após alguma tensão. dizem os SUV. o contingente segue para a base da Ota. que pretendem levá-los para Tancos. Na gare de Alcântara são aguardados por camaradas seus. iniciado na noite de 11 de Março. O regimento de comandos. O CR volta a reunir-se para apreciar a nomeação de Vasco Lourenço. lido ás 4h da madrugada de 25.“deve ouvir os seus homens”. Um comunicado. Paralisação de duas horas na cintura industrial de Lisboa. confirma a nomeação de Vasco Lourenço para comandante da Região de Lisboa e promete “uma decidida acção militar. O Ralis controla os acessos à autoestrada do Norte e o aeroporto da Portela. e que se prolonga por uma semana. O Presidente da República prorroga por mais 90 dias a sessão da Assembleia Constituinte. lamenta José Saramago. com “suspensão parcial das garantias constitucionais”. Monte Real e Montijo. comandado por Jaime Neves. meio milhar de pára-quedistas vindos de Luanda. É o fim do PREC – o Processo Revolucionário em Curso. em apoio do manifesto dos oficiais revolucionários. “A revolução não avança. em Lisboa. clarificado o poder militar – com o afastamento e prisão de numerosos oficiais “gonçalvistas” e “revolucionários” –. a 23. que fazem 3 mortos. contra quem quer que seja que desencadeie acções de rebelião armada ou guerra civil”. a jornada culminaria na Fonte Luminosa. o PS organiza comícios numa dezena de capitais de distrito. desencadeiam uma série de acções a partir de um posto de comando da Amadora. uma a uma. pelo que foi aprovada por maioria”. e a Escola Prática de administração Militar (EPAM) ocupa os estúdios da RTP. os pára-quedistas da Base Escola ocupam as bases aéreas de Tancos. é declarado o estado de sítio na região de Lisboa. “É hora de avançar”. morre”. e que se prolongou por 260 dias. Pouco depois. na sua coluna no DN de 24. Chegam a Lisboa. neutraliza. contra a nomeação de Vasco Lourenço e a desmobilização dos pára-quedistas. o país retoma a normalidade possível. 16 | P á g i n a . A pouco e pouco. Pela primeira vez desde o 25 de Abril. agricultores levantam barricadas em Rio Maior e impedem a circulação na Estrada Nacional nº1.

no qual adquirem um elevado grau de concretização aspectos como os respeitantes ao conteúdo dos direitos. os ensinamentos da experiência ditatorial liberticida (1926-1974) e alguns dos melhores frutos do debate constitucional europeu do pós-guerra (designadamente no tocante à opção por um Estado-Providência e à consagração do semipresidencialismo). que se tem adaptado bem à evolução das realidades – permitindo. a autogestão e o planeamento foram defendidos pelo PS. da lei e da justiça. que consagraram um período de transição. a defesa das nacionalizações. 51. liberdades e garantias dos cidadãos e alguns princípios essenciais relativos à estrutura da economia e da sociedade. caracterizado pela separação das esferas militares e civil do Estado e pela existência do Conselho da Revolução. dois sistemas. a verdade é que a revi~são constitucional de 1982 pôs termo. PCP e PPD. por via de um compromisso complexo. Delineada e revista nos momentos finais um ciclo histórico que antecipou politicamente a entrada noutro século. do entendimento PS-PCP. de cada um dos lados do muro de Berlim. o património útil do constitucionalismo liberal e republicano português. na qual os partidos políticos desempenharam uma função importante na representação e na participação cívicas. As cristalizações normativas alcançadas no decurso do processo aberto pelo 25 de Abril não deixaram de colher. social e económica orientada. no entanto.117. do encontro PS. concorrer democraticamente para a formação da vontade popular e a organização do poder político» (art. 17 | P á g i n a . consagrando. duas visões da Constituição. em 1982 e 1989. nem escapar à influência das clivagens que então rigidamente opunham. duas mundividências. Estes vários contributos são evidentes e dão ao texto constitucional de 1976 uma conformação poliédrica e aberta. liberdades e garantias e a democracia política resultam da confluência PS. Segundo a própria Constituição. através deles. e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a livre iniciativa económica pelo CDS. os direitos sociais. sem grandes sobressaltos. no plano nacional. o sentido personalista. a nova ordem jurídico-institucional reflectiu assim. n. que as revisões constitucionais tenham sido oportunidade para estabilizar – pacífica e gradualmente – a ordem jurídica democrática e para consolidar o Estado de direito.º.«o socialismo».º. Trata-se de um texto «não neutro» quanto à necessidade de transformações. a Reforma Agrária e as organizações populares de base pelo PCP. a verdade é que se notam as influências dos diversos partidos políticos com assento na Assembleia Constituinte: os direitos. a um tempo. o socialismo. os rumos e vicissitudes desse contínuo afrontamento entre sistemas. Se é certo que há um encontro dos princípios liberal-democrático e socialista. a esta situação – abrindo caminho ao predomínio das instituições civis e do Estado de direito.º1). e para um objectivo histórico de maior justiça social e de igualdade de oportunidades . do contributo do PPD e do CDS. nº1). Sendo certo que em 1975 e em 1976 foram celebrados dois pactos entre o MFA e os partidos políticos. numa lógica pluralista. as autonomias regionais e locais e as garantias jurisdicionais pelo PPD. uma organização política. Constituição e evolução constitucional Nascida sob o signo de uma revolução sem sangue. para a afirmação da democracia pluralista-representativa. a III República portuguesa não pôde furtar-se ao legado de quase cinco décadas de totalitarismo e isolamento internacional. os aspectos colectivistas.O «Compromisso» Constitucional A Constituição de 2 de Abril de 1976 foi inspirada por ideais democráticos e socializantes. assente no respeito dos direitos e liberdades fundamentais. participando os partidos «nos órgãos baseados no sufrágio universal e directo de acordo com a sua representatividade eleitoral» (art. PPD e CDS. «a liberdade de associação compreende o direito de constituir ou participar em associações e partidos políticos e de.

a aprovação da Constituição fixou os contornos iniciais do regime. . do equilíbrio entre poderes e da paz cívica. consagrando direitos fundamentais. sistema de governo misto.1976-1982 (vigência do texto originário da Constituição da República Portuguesa/primeira revisão constitucional). Entre o derrube da ditadura e a consumação e aprofundamento da opção europeia. em apenas 12 anos passou-se da supressão dos elementos característicos da ditadura (desmantelamento do aparelho repressivo. Medidas de excepção típicas de situações pós-revolucionárias (como o saneamento da função pública ou a restrição de direitos políticos de responsáveis da ditadura) foram integradas transitoriamente no texto constitucional Embora com o cunho próprio de uma ordem constitucional que proclamava como objectivo supremo a transição par um socialismo sui generis. . pode-se identificar nesta evolução um padrão global e cinco específicos ciclos de evolução: 18 | P á g i n a . consenso quanto à caracterização desses períodos de evolução. desde logo. foi delineamento da Constituição política que atingiu expressão menos frágil o compromisso político entre os diversos partidos que participaram no processo constituinte. definindo e programando transformações da organização económica e social. dissolução dos organismos corporativos. restauração das liberdades e direitos fundamentais) à aproximação crescente entre o regime constitucional português e as democracias existentes nos demais Estados comunitários. garantias de alternância política. unidade do Estado/autonomias regionais) como numerosos mecanismos de salvaguarda do pluralismo político. inscrevem-se quatro etapas de transformação: . cuja valia se comprovou ao longo dos anos. Vertiginosamente. da liberdade de sufrágio.1982-1986 (primeira revisão constitucional/adesão à CEE). descentralização política e administrativa). como positivo (opção pelo estado de direito democrático.1974-1976 (ruptura com a ordem totalitária/aprovação da lei fundamental pela Assembleia Constituinte). Esse compromisso reflectiu-se tanto no plano negativo (rejeição das componentes fundamentais do modelo institucional da Constituição de 1933 e da confusão partido/Estado própria do figurino soviético). separação de poderes/interdependência. A Constituição de 1976 e as revisões constitucionais de 1982 e de 1989 (a transição democrática) O papel da Constituição Portuguesa na consolidação da democracia é simultaneamente um papel central e rodeado de controvérsia. Se se pretender determinar quais os principais ciclos de evolução da nossa recente vida constitucional. eleições livres. Na opinião de António Vitorino. democracia representativa/ participação cívica. mecanismos de democracia participativa. assegurando a coexistência entre órgãos representativos emanados do sufrágio popular e estruturas como o Conselho da Revolução e as forças emanadas (então autónomas em relação ao poder civil e com missões de intervenção política). A consagração da III República Em 2 de Abril de 1976.A primeira fase da transição democrática portuguesa (assente na dupla recusa da «normalização» e do modelo da democracia popular) decorreu em circunstâncias que propiciaram tanto soluções antecipadoras de grandes sínteses (liberdade/igualdade. decerto não haverá. advogado e político português. pluripartidarismo. licenciado em Direito.

o ainda existente hoje em dia. . nos temos previstos no próprio Programa do Movimento das Forças Armadas. económico e social envolvente. representado pelo Conselho da Revolução (o primeiro pacto MFA/partidos em Abril de 1975 e o segundo em Fevereiro de 1976. a expressão do centro político e moderado personificada na UCD. o mundo experimentava os primeiros períodos de recessão económica internacional após o progresso alcançado durante a década de sessenta. .Do outro lado. a Constituição foi assumida pelos seus «pais fundadores» como um texto compromissório. no mínimo. . Numa síntese necessariamente incompleta pode-se dizer que a Constituição de 1976 é definida na sua versão originária pelos seguintes elementos fundamentais: a) Um carácter marcadamente ideológico dos seus Princípios Fundamentais e de inúmeros normativos constitucionais inspirados em ideologias políticas de sinal divergente e cuja conciliação no mesmo texto constitucional em diversos momentos se revelou difícil ou. A aprovação da Constituição conferiu aos partidos que mais tinham contribuído para a sua elaboração um papel proeminente na vida política nacional desde então até hoje. de base interpartidária.primeiro: a luta pela Constituição e a consolidação do sistema de partidos (1974-1975). A elaboração da Constituição durante o período de 1975/1976 esteve sujeita a duas diferentes espécies de envolventes de ordem externa: .segundo: a «normalização democrática» depois da aprovação da Constituição (1976-1978) . tivesse lugar no dia 25 de Abril de 1975. enquanto em Portugal o ambiente de tipo revolucionário acabou por reforçar o sistema de partidos de transição. Neste aspecto não se pode negar o contraste evidente entre o caso português e a transição espanhola: aqui. uma revolução acentuadamente reformista acabou afinal por sacrificar o seu principal protagonista. por contraste. assente principalmente na relação das duas forças políticas que entre si disputaram a área política central (o PS e o PSD).quinto: a consumação do referido padrão geral pela aprovação da segunda revisão constitucional centrada principalmente em questões económicas e ideológico-programáticas. nas suas características fundamentais. e o sistema partidário definido em 1975 é ainda. o que se verificou ao longo de cinco distintos e conturbados ciclos de evolução: . numa altura que. ..o padrão geral pode ser caracterizado pelo papel progressivamente menos relevante da luta política em torno da Constituição na vida política contemporânea portuguesa. A própria existência e o concreto papel de uma Constituição em 1974 e 1975 ocupou um plano principal na luta política desses anos. por um pendor do sistema partidário «descaído» sobre a esquerda do espectro político e pelas exacerbadas expectativas populares de obtenção de benefícios sociais e económicos imediatos decorrentes da abertura provocada pelo novo regime democrático. caracterizado pelo exacerbamento das definições ideológicas e pela procura de identidade própria dos partidos políticos. a inegável influência do meio político.quarto: a primeira revisão constitucional centrada na organização do poder político e o progressivo reforço da componente civil do sistema democrático (1983-1986).terceiro: a controvérsia constitucional (1979-1982). onde o partido então maioritário (o PS) tinha tentado conciliar convergências com o PSD por um lado e com o PCP por outro.De um lado. relevaram de forma determinante para a sua elaboração os acordos celebrados entre os partidos políticos representados na Assembleia Constituinte e o Movimento das Forças Armadas. definidas em função das concretas matérias (com o primeiro 19 | P á g i n a . sobretudo em torno da preocupação de assegurar que as eleições para uma Assembleia Constituinte. b) Sem embargo. tensa e conflitual. depois dos acontecimentos do 25 de Novembro de 1975). eleições essas que constituíram relevante factor de genuína avaliação democrática de representatividade dos partidos políticos na sociedade portuguesa numa fase de transição de um regime autoritário para um regime plenamente democrático.

à dissolução do Parlamento. mas dotado de um complexo de poderes legislativos assinalável. da planificação democrática da economia e do papel da reforma agrária. sociais e culturais de inspiração diversa. . os termos da subsequente luta política a propósito da natureza e da função da Constituição. com órgãos também emergentes do sufrágio popular. . c) A consagração de um amplo catálogo de Direitos Fundamentais e a consagração de uma especial vinculação do ordenamento jurídico aos seus valores.consagrou-se um regime com um Parlamento extremamente dependente do protagonismo partidário e dotado de um relevante papel no domínio da função legislativa e da função de direcção e controlo político. 20 | P á g i n a .partido especialmente na sistemática constitucional e no domínio dos Direitos Fundamentais. onde manifestamente se pretendeu sobrelevar a componente da representatividade da vontade popular sobre a da governabilidade. e. significativamente. segundo um modelo de autogoverno das magistraturas. entre a vontade destes e os compromissos por eles assumidos perante o MFA no segundo pacto de 1976. .consagrou-se a eleição directa e por sufrágio universal do Presidente da República (por contraponto ao regime do Estado Novo na sua fase posterior a 1958). convivendo com um Governo dependente de uma dupla fiança (do Presidente da República e do Parlamento em simultâneo). na tradição do regime da Constituição de 1933. f) A ideia do poder constituinte sobre a sua própria função ficou plasmada. por um lado. . d) Uma organização económica concebida pela Constituição como «de transição» e «em transição». questão que desempenhou um relevante papel na controvérsia constitucional subsequente.acolheu-se um sistema eleitoral para a Assembleia da república de representação proporcional segundo o método da média mais alta de Hondt. por outro. e) Um modelo de «duplo compromisso». no domínio da iniciativa económica pública (com uma especial garantia de irreversibilidade das nacionalizações efectuadas após 1974). conferindo-se assim ao Chefe do Estado um complexo relevante de poderes próprios. assente num assinalável pendor estatista. à sua garantia e efectivação. consideradas regiões autónomas.acolheram-se na Constituição formas de autonomia política e legislativa das regiões dos Açores e da Madeira. com o segundo no plano dos Princípios Fundamentais e da Organização Económica). de base electiva e de novo de acordo com a matriz da representação proporcional e prevista a criação de uma nova instância administrativa no continente (a região).foi consagrado um modelo de poder local democrático assente nas tradicionais divisões administrativas (município e freguesia). entre os próprios partidos políticos. por último. de que resultou um sistema de «checks and balances» de tipo semipresidencial (ou de parlamentarismo racionalizado). de órgão de consulta e de condicionamento da acção do Presidente da República (designadamente no plano da nomeação do Governo e da dissolução do Parlamento) e de garante do «espírito da Revolução». A conjugação destes limites com a decisão de não submeter a Constituição aprovada pela Assembleia Constituinte a um referendo popular condicionaram.foi assim conferido ao Conselho da Revolução (representante do MFA e assente na legitimidade revolucionária) um papel órgão de governo próprio das Forças Armadas. entre uma legitimidade revolucionária emergente do golpe de Abril e a legitimidade democrática decorrente do sufrágio directo e universal): . . ao veto político e à iniciativa de fiscalização preventiva da constitucionalidade dos diplomas legislativos). na consagração num artigo da Constituição de limites materiais (explícitos) ao futuro poder de revisão. sujeito a um relevante condicionamento da componente militar (apontando-se para a convivência. exercidos «a se» ou enquanto Presidente do Conselho da Revolução (designadamente os poderes referentes à nomeação e exoneração do Governo. .finalmente consagraram-se garantias de independência dos juízes e tribunais que administram a justiça em nome do povo. expresso na função de garantia da Constituição mediante o controlo da constitucionalidade dos diplomas normativos. durante um período entendido como «de transição». englobando não só os direitos civis e políticos de tipo clássico mas também uma ampla gama de direitos económicos.

em princípio. e o Partido Socialista. uma revisão da Constituição através de negociações parlamentares. c) A organização económica excessivamente baseada na acção do Estado e que comportava sérias discriminações contra a propriedade privada bem como contra a iniciativa privada. Francisco Sá Carneiro. se comprometeu. Mas esta era precisamente uma das questões centrais da própria discórdia interna ao Partido Socialista. mas também nos domínios económico e social. até ao termo da primeira legislatura da Assembleia da República e até à primeira revisão constitucional). Esta questão foi definitivamente resolvida depois das eleições presidenciais de 1980. ou. Mário Soares acabaria por ganhar o Congresso do Partido em Maio de 1981. Aqueças eleições determinaram a constituição do Parlamento de uma maioria relativa do PS. embora na generalidade dos casos fossem consequências de negociações entre socialistas e social-democratas. o CDS e a facção ligada a Mário Soares no PS. na própria metodologia de revisão constitucional e na recusa da aceitação da teoria do «pecado original» da Constituição. A contestação da Constituição protagonizada pelos partidos da Aliança Democrática assentou em três ordens de argumentos principais: a) O ambiente político não-democrático que rodeara o processo de elaboração da Constituição (o seu «pecado original» para o PSD e para o CDS) e que tinha marcado impressivamente o seu texto: uma tal situação só poderia ser ultrapassada ou pela elaboração de uma nova Constituição. a abolição do protagonismo militar: existia um claro acordo sobre esta questão entre o PSD. em 1976. no sentido de recusar qualquer tipo de «referendo» constitucional. Os socialistas recusaram frontalmente o «referendo» de revisão constitucional e defenderam. não apenas nos aspectos políticos e institucionais. e. com as primeiras eleições para o Parlamento e para a Presidência da República. PSD e CDS) e a maioria dos membros do Conselho da Revolução. dando protecção especial à planificação central estatal e generalizando a interferência pública na vida económica. nos termos da própria Constituição no contexto de um «período de transição» (destinado. e as segundas levaram à Chefia do Estado o general Ramalho Eanes. mas eram imprescindíveis à maioria de dois terços dos deputados necessária para efectivar a revisão. que sempre esteve contra qualquer alteração substancial da Constituição. além da maioria dos membros do Conselho da Revolução. por isso. Essas leis expressavam. sendo reeleito seu secretário-geral. mesmo antes da campanha.A «normalização democrática» pós-Revolução começou. Entre 1976 e 1978 o Parlamento aprovou algumas das leis mais importantes para a consolidação do regime democrático após a aprovação da Constituição (verificada em 2 de Abril de 1976). assim. uma vez que o candidato vencedor. face ao apoio à sua recandidatura do Partido Socialista. o general Eanes. CDS e PPM) em Dezembro de 1979 e caracterizou-se principalmente pelo reforço da controvérsia constitucional sob a liderança do então primeiro-ministro e líder do PSD. A controvérsia protagonizada essencialmente pela direita parlamentar e pelos socialistas assentou assim principalmente nos seguintes aspectos: . pelo menos. O terceiro período começou com a vitória eleitoral da Aliança Democrática (PSD. em função das suas maiorias de aprovação diversificadas. um acto «refundacional» do regime. uma vez que não existia nenhum partido maioritário. foi possível forjar no Parlamento um acordo 21 | P á g i n a . b) As características não-democráticas da organização política se 1974/1975 e a sua matriz «de transição» e em si mesma transitória. em virtude principalmente da existência do Conselho de Revolução e dos seus poderes relevantes que haviam limitado a capacidade de livre decisão política dos governos apoiados e legitimados pelo voto popular desde 1976. uma vez que se encontravam na oposição. que à data representava o acordo possível entre os três maiores partidos democráticos (PS. . o possível consenso parlamentar. por uma profunda revisão da Constituição de 1976 através de uma subsequente aprovação por referendo popular. a prolongar-se por quatro anos.primeiro.segundo. Opunha-se a estes objectivos da então Aliança Democrática o Partido Comunista. em alternativa. que lhe dariam um papel decisivo.

No plano económico: . embora tenha deixado inalteradas algumas disposições programáticas que revelavam um certo encantamento pela liderança económica do Estado. (aliás em questões essenciais defrontando oposição maioritária dentro do próprio grupo parlamentar socialista). social e ideológica não se figurava fácil. A primeira revisão da Constituição neutralizou temporariamente a controvérsia constitucional nos aspectos políticos e institucionais. em virtude da recusa do Partido Socialista em negociar nessa altura uma profunda modificação do sistema económico constitucional. era absolutamente necessário centrar esforços no objectivo prioritário que havia elegido – a revisão das regras atinentes à organização do poder político.aboliu o Conselho da Revolução. . e numa perspectiva de síntese dos seus elementos essenciais. cooperativa e autogestionária. cuja revisão foi apresentada como consequência directa da então abolida condicionante militar no exercício do poder político democrático. Para a liderança de Mário Soares. mas com poderes suficientes de crise político-institucional (tais como o poder de dissolver o Parlamento e de convocar as subsequentes eleições). acima de tudo. . com excepção de algumas disposições de menor alcance. a revisão de 1982: . e. .a revisão aboliu a maioria dos elementos que se baseavam na ideia de que o sistema económico constitucional era meramente transitório. . No plano político. entre outros). Após a primeira revisão constitucional pode-se dizer que. o principal objectivo da luta política democrática consistiu no reforço da componente civil e da vertente parlamentar do regime. o PS e o CDS decorria do objectivo central de conferir uma certa proeminência à componente parlamentar do regime (os governos passavam a depender primordial e quase exclusivamente da relação de forças partidárias no Parlamento. não obstante a política dos sucessivos governos desde 1978 estar cada vez mais afastada nas medidas concretas adoptadas e na sua retórica desse tipo de modelo.terceiro. um certo «modelo terminal» de organização económica baseado na iniciativa estatal.redefiniu consequentemente o sistema de governo. no decorrer dos quatro anos seguintes. por isso. embora desde o preciso momento da sua conclusão (Setembro de 1982) tenha ficado claro que se tratava de uma revisão «a meio caminho» entre a «guerra aberta» sobre a Constituição e a desejável «paz constitucional» ainda não alcançada. a revisão deixou inalterados os normativos que pretendiam prevenir eventuais retrocessos na construção do socialismo (principalmente o preceito que proibia a privatização das empresas públicas e nacionalizadas após 1974. Esta fase 22 | P á g i n a . ficou claro que o acordo básico entre o PSD. depois de um período caracterizado por uma assinalável condicionante de tipo militar e de um «medir de forças» entre a dinâmica partidária centrada no Parlamento e a afirmação de uma leitura «presidencializante» da Constituição expressa na conduta do então Presidente da República. uma espécie de «poder moderador» permanente da vida política (daí o poder de veto político e o direito de iniciativa de fiscalização preventiva da constitucionalidade. e as normas referentes à planificação económica e à reforma agrária). no que respeita à organização económica a controvérsia substituiu mesmo após a revisão constitucional 1982.os elementos programáticos e ideológicos da Constituição. necessitava de obter um acordo equilibrado dentro do seu próprio partido o que. agora todo ele assente na exclusiva legitimidade democrática. sujeito a uma inevitável evolução em direcção ao socialismo. sobre as temáticas de ordem económica. permanecem inalterados. especialmente certos princípios de inspiração mais marcadamente socialista. não podendo o Presidente da República demitir o Governo a não ser em situações-limite de crise institucional grave) e concebia a instituição presidencial sobretudo como uma «instância de salvaguarda» do regular funcionamento das instituições políticas.embora mantendo o modelo semipresidencial.de base entre o PS e a Aliança Democrática que viabilizou a primeira revisão da Constituição em Agosto de 1982. especialmente na extinção do Conselho de Revolução. salvaguardando as suas características principais enquanto sistema de tipo semipresidencial ou de parlamentarismo racionalizado.

assim. a organização económica: a) A segunda revisão adoptou expressamente um modelo de economia mista. mas também por se tratar do principal crítico das leituras «presidencializantes» do anterior titular do cargo. pelo menos em termos significativos no plano nacional. Nesta fase já não se tratou de uma «controvérsia global» sobre a legitimidade da Constituição no seu conjunto. menos relevante e não foi retomada. A controvérsia sobre os temas ideológicos e programáticos foi. o tema principal da segunda revisão constitucional foi. sendo aceite como natural que a mesma assentasse em negociações parlamentares a ocorrerem nos prazos previstos pela própria Constituição. em 1987. abrangendo sobretudo as áreas económicas e ideológicas da Lei Fundamental. 23 | P á g i n a . de acordo com as regras que caracterizam o tipo de economias dos países da CEE.ª revisão no tocante à forma de designação dos respectivos juízes (dez escolhidos pelo Parlamento por uma maioria de dois terços e os restantes três cooptados pelos dez iniciais). desde as eleições parlamentares de 1985. b) Estabilizou o regime constitucional referente à lei eleitoral para a Assembleia da República. ou seja. tornando as futuras alterações da definição dos círculos eleitorais dependentes da votação favorável de uma maioria de dois terços dos deputados. neste período assistimos à renovação da controvérsia sobre a questão constitucional. a tese do «pecado original» da Constituição. muito embora com características diferentes das da fase anterior. ao contrário da primeira. De facto. d) Institucionalizou-se o «referendo» deliberativo para matérias não-constitucionais. da primeira maioria parlamentar de um só partido (o PSD liderado por Aníbal Cavaco Silva). em vez da regra anterior da maioria simples. Antes do mais. Contudo. mas apenas de uma «controvérsia parcial». cinco anos após a primeira revisão. na regulação da protecção dos dados pessoais face à informática e na consagração de um princípio de «administração aberta» que exprime uma melhor garantia dos direitos dos administrados (para além da ampliação das condições de acesso ao contencioso administrativo). sem dúvida.culminou quer com a eleição do Presidente Mário Soares em 1986. no reforço dos direitos de petição e de acção popular. Uma revisão que nascia. mantendo-se inalterados os «checks and balances» dos poderes dos órgãos de soberania definidos em 1982 após a extinção do Conselho de Revolução. ratificou o acordo a que se havia chegado em 1982 sobre a organização do poder político: a) Não houve modificações relevantes no modelo político global. nem o PSD nem o CDS defenderam a necessidade de um «referendo» para proceder à reforma da Constituição. que tinha sido uma das questões mais controversas na 1. é possível dizer que a segunda revisão é essencialmente complementar da primeira. Por outro lado. c) Ratificou a existência e a composição do Tribunal Constitucional. a segunda revisão completou a primeira no capítulo dos Direitos Fundamentais. sociais e culturais. Neste contexto. quer com a constituição. não só por ser o primeiro Presidente da República civil em cinquenta anos em Portugal (numa eleição em que todos os candidatos eram civis). a partir de Setembro de 1987. No entanto. Depois do Governo do «bloco central» (PS/PSD – 1983/1985) tornara-se claro que os socialistas estavam disponíveis para cooperarem numa segunda revisão constitucional que pudesse completar a primeira. e todos os partidos políticos começaram a preparar-se efectivamente para as negociações parlamentares que inevitavelmente iriam ter lugar num futuro próximo. despida da controvérsia quanto à própria metodologia. na retórica envolvente dos discursos partidários sobre a revisão. centrada principalmente nas disposições sobre a organização económica e sobre os direitos dos trabalhadores. em especial na integração dos direitos dos consumidores enquanto direitos económicos.

a segunda revisão suprimiu praticamente todos os preceitos de cariz ideológico e programático que suscitavam controvérsia. todos do CDS. Amaro Costa utiliza a fundo as relações externas no âmbito da NATO para imprimir a sua influência na reorganização dos ramos das Forças Armadas. em 1983. de forma directa ou indirecta. a fim de se permitir um crescimento efectivo da capacidade do consumo privado. ainda que escasso à luz das necessidades e das carências com que elas se debatem… Em segundo lugar. Azevedo Coutinho e Diogo Freitas do Amaral. de acordo com preocupações relacionadas com a designada «crise fiscal» do Estado moderno. Com efeito. Sabendo-se que é nula. e) Deixou inalterados os direitos dos trabalhadores e introduziu algumas modificações em certas normas da constituição social (principalmente dobre a saúde e a segurança social). finalmente. Já no que diz respeito à aplicação da Lei da Defesa. das despesas de funcionamento de vários sectores da defesa nacional. abolindo assim o princípio da «irreversibilidade das nacionalizações» e consagrando concomitantemente um conjunto de princípios a que deverão obedecer as reprivatizações. em discurso proferido no Mosteiro da Batalha. anuncia. Amaro da Costa aproveita plenamente a arma do Orçamento do Estado para dar um peso político excessivo ao MDN e faz deste o centro principal da preparação do lançamento da candidatura presidencial de Soares Carneiro. em Janeiro de 1980. em termos reais. e no que diz respeito à utilização da arma orçamental. c) Tornou mais flexível o sistema de planeamento económico. tudo foi feito durante a formação do Governo PS/PSD. na alteração das relações entre o poder político e a instituição militar. em termos reais. especialmente todas as referências ao socialismo e outras expressões que. adaptando-o a algumas regras referentes ao regime de acesso aos fundos comunitários. Em primeiro lugar. Amaro Costa apresenta-se consciente do seu manejo. a 9 de Abril de 1980.b) Permitiu em sede constitucional a privatização total das empresas públicas nacionalizadas após 1974. perante as mais altas individualidades militares. se poderiam considerar de inspiração marxista. Numerosas e diferentes pressões foram levadas a efeito para impedir a nomeação de um socialista como ministro da Defesa. A revisão constitucional de 1982 e as modificações nas relações entre o poder político e a instituição militar Os Governos da Aliança Democrática e a preparação da revisão constitucional no domínio militar Os Governos da AD assumiram especiais responsabilidades na preparação da revisão constitucional e na elaboração da Lei de Defesa Nacional. Amaro Costa não deixa de pretender agir na preparação das novas relações a estabelecer entre o poder político e a instituição militar. estão indissoluvelmente ligados a essa preparação. Assim. para 1980. A primeira grande oportunidade de controlo por parte da AD vai aparecer com a chegada de Amaro da Costa a ministro da Defesa Nacional. É ele que o diz: 24 | P á g i n a . a proposta de acréscimo do consumo da administração central. Finalmente. d) Procedeu a uma clara subavaliação do papel da reforma agrária no contexto global da política agrícola. Os nomes de Adelino Amaro da Costa. para que fosse um elemento do PSD a implementá-la. ou seja. fácil é compreender que nos encontramos perante um projecto de apoio financeiro às Forças Armadas portuguesas de sentido fortemente positivo. em 1980. antes de o fazer na Assembleia da República que: … O Governo entendeu propor à Assembleia da República que aprove um acréscimo de quatro por cento.

a AD revelava conhecer bem o papel das eleições presidenciais na escolha de um militar que comandaria as Forças Armadas e asseguraria um certo tipo de relações entre a instituição militar e o poder político. a consolidação e o fortalecimento das instituições democráticas no nosso País (…) sem ambiguidades nem tergiversações. embaixador dos EUA em Lisboa. a dar o meu apoio. em princípios do ano de 1976. a eleição presidencial e a revisão constitucional estão intimamente ligadas entre si e à questão militar: Desde sempre me inclinei. o período de reestruturação das Forças Armadas portuguesas assente na ajuda externa proveniente de países da NATO.«Preparar. a um candidato que fosse uma personalidade militar (…). na certeza de que está assim contribuindo para evitar vazios ou improvisações perigosas no momento em que. em Fevereiro de 1976. se a chefia do Estado for ocupada não por um civil. o comando supremo das Forças Armadas. Amaro da Costa utilizou a fundo a arma das alianças internacionais de Portugal. a activação da Brigada Mista Independente. Estávamos em Abril de 1980. O Governo não se furta a ele. conseguiria conter em Portugal as veleidades anti-ocidentais. Inaugura-se. constituiu uma mudança significativa no enlace entre as Forças Armadas portuguesas com as missões militares da Aliança Atlântica até então estabelecidas através da Armada. essa normalização é também um dever. entre outras razões pela hipertrofia Ada sua dimensão no teatro de operações africano.» Para essa relação nova entre o poder político democrático e a instituição militar irá ter muita importância a eleição presidencial de Dezembro de 1980 e a revisão constitucional após o fim da primeira legislatura. à reedição do método que levou à escolha do general Ramalho Eanes como candidato em 1976. na qual desempenhou papel decisivo o entendimento entre o general Eanes. findo o período de transição. e que teve então a sua principal expressão na activação da Brigada Mista Independente do Exército. Ora. chefe do Estado-Maior do Exército. como cidadão e como político. mantendo-se o ramo do Exército praticamente desactivado. responde: A meu ver. Penso que se poderá realizar uma mais fácil. Em Terceiro lugar. mas próximas eleições presidenciais. o general António Soares Carneiro reúne características que o permitem antever como um Presidente da República capaz de assegurar dignamente a chefia do Estado português. a Armada o ramo das FA portuguesas com maior empenhamento operacional nas missões da NATO. Para Amaro da Costa. posto perante a questão concreta da possível candidatura do general Soares Carneiro. Acresce que a constituição dessa brigada. dava uma grande oportunidade de reconversão e de modernização do ramo Exército após a Guerra Colonial. mas por um militar bem inserido na instituição (…) A tese de um candidato militar (…) não corresponde. para orientar o enquadramento da instituição militar portuguesa através do MDN. apesar de tudo. Através de Amaro Costa. com efeito. em 1980. prevista para actuar fora das fronteiras portuguesas no flanco sul da NATO. se estabeleça uma relação nova entre o poder político democrático e a instituição militar. Mas é o preço da conduta desse ramo. 25 | P á g i n a . desde já. o Exército será credor de uma prioridade na reconversão das missões militares que não será do agrado dos outros ramos nem das antigas oligarquias portuguesas. Amaro Costa. mais segura e mais profunda condução do País para uma vida constitucional integralmente democrática e representativa sem vínculos de acento revolucionário. Pela importância política que havia adquirido após o derrube da ditadura e pela forma como. nomeadamente a NATO. Era. pois. e Frank Carlucci.

pois as condições pactuais são o contributo revolucionário para a nova Constituição (…) Este acordo constitucional é. de Fevereiro de 1976. Só Otelo Saraiva de Carvalho dará expressão militar a diferente tendência. desposa o Plano-Guia MFA/Povo em que se propõe um novo tipo de regime político assente no poder popular e na democracia directa. No Pacto Interpartidário ente a AD e o Partido Socialista residiu o essencial da revisão constitucional: tratouse de diminuir os poderes de iniciativa institucional do Presidente da República (nomeação e demissão do primeiroministro. em 25 de Novembro de 1975. segundo a qual Portugal necessitava sobre tudo de meios aeronavais. perante responsáveis da Aliança Atlântica. constituída pela aliança interpartidária atrás mencionada. A maior consequência do período de transição foi o estabelecimento de uma osmose entre a instituição militar e o poder político destinada a vigorar num prazo de tempo limitado. em simbiose fecunda entre as vias revolucionárias e eleitoral. desde Rosa Coutinho e Vasco Gonçalves até Melo Antunes e Vítor Alves. Pode hoje dizer-se ter sido a existência deste período de transição um dos factores que permitiram o entendimento entre o Partido Socialista. as Forças Armadas tivessem optado pela defesa de um regime de democracia política pluralista. mas a acção do general Lemos Ferreira não terá sido menor do que a de Amaro da Costa na altura. Tribunal Constitucional. a 2 de Junho de 1975. no Verão de 1975. O período de transição foi considerado necessário pelo general Costa Gomes no discurso que proferiu na sessão inaugural da Assembleia Constituinte. tratou-se de extinguir o Conselho da Revolução e de distribuir as suas funções por diversos órgãos – Conselho de Estado. que consagrava a influência militar no plano político sem limite de tempo.que se impusera. Para todas estas modificações funcionou uma maioria de mais de dois terços dos deputados. Governo e Assembleia da República. O essencial dessa revisão resumiu-se nesse autêntico pacto interpartidário de 1982 em substituição do II Pacto MFA – Partidos de Fevereiro de 1976. a passagem de Amaro da Costa pela pasta da Defesa demonstrou a grande plasticidade da situação político-militar e a importância da MD na orientação das Forças Armadas. um esquema de segurança e um contributo revolucionário. nos seguintes termos: Queremos que a nossa revolução progrida para um socialismo pluripartidário. embora bastante mais tarde. às sublevações em unidades da Força Aérea e ao radicalismo político na altura vigente na Armada. Conseguirá a Força Aérea também alguma ajuda externa no referente a aviões de combate e sobretudo de transporte. Esta tese irá ser sistematicamente defendida pelo ministro da Defesa no decorrer do ano de 1980 nas reuniões internacionais e Amaro da Costa irá fixar como objectivo da sua acção externa a aquisição de três fragatas para a Armada. um fecundo padrão que marca a originalidade da revolução socialista portuguesa. o Partido Social Democrata e o Centro Democrático Social para a revisão constitucional de 1982. Pela primeira vez desde a queda da ditadura. nomeação e demissão dos chefes militares). vistos estes como derivados da influência militar na vida política portuguesa. quando. chegando a receber algumas promessas nesse sentido. em 1974. Em suma. ainda aí determinaram os 26 | P á g i n a . não seriam as Forças Armadas a determinar o tipo de relacionamento com o poder político. Se bem que com o II Pacto MFA/Partidos. pois. Coube a Amaro da Costa a defesa e execução da tese contrária. A revisão constitucional de 1982: do Pacto MFA – Partidos ao Pacto Interpartidário CDS – PSD – PS A concepção de um período de transição após as eleições para a Assembleia Constituinte em 1975 cedo se apoderou da maior parte dos estrategos militares.

As poucas declarações individuais não tiveram. a 5 de Novembro de 1982. entendimento centrado sobre o fim da influência militar na vida política portuguesa e a instauração de um regime político de partidos. tivemos seis constituições. De facto. A «paz constitucional» não é das mais relevantes características políticas da nossa vida pública. a criação do Tribunal Constitucional. Para todas estas questões haverá entendimento entre o Governo AD e o Partido Socialista. mas critica certas soluções encontradas para a revisão constitucional. a 2. em Setembro de 1982. quando recebe a lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas. Pode mesmo falar-se de alheamento da instituição militar face ao processo da revisão constitucional. duas alterações fundamentais à Constituição da República – a extinção do Conselho da Revolução e a atribuição da competência para nomear e exonerar os chefes de Estado-Maior ao PR. criada pela Assembleia da República em 1981. sob proposta do Governo. será que podemos dizer eu a controvérsia em torno da Constituição terá acabado após a segunda revisão constitucional? Existirá finalmente uma verdadeira estabilidade no «arco constitucional» em Portugal. e até Novembro não se pronuncia sobre ela. De imediato. aprovou anteontem. a única cautela tomada sobre o fim do período de transição pelos estrategos responsáveis do II Pacto MFA/Partidos consubstanciou-se num tópico do protocolo eleitoral entre o Presidente da República e o PS.ª revisão teve o voto favorável do PS. 27 | P á g i n a . em 1989. Declarou então: A Assembleia da República.termos da sua inserção no sistema de poder. que. logo o ministro da Defesa. Todas estas constituições portuguesas estiveram sempre sob pressão política muito significativa. em 1982. elaborado no Verão de 1980 e no qual se garantia a manutenção dos poderes presidenciais após a revisão constitucional. a 1. a Lei da Revisão Constitucional que fora aprovada pela Assembleia em Junho do mesmo ano. contestadas ou rejeitadas mesmo por diversos protagonistas políticos e por distintos sectores sociais. no legítimo exercício dos seus poderes de revisão constitucional.ª revisão teve mais uma vez o voto favorável do PS. qualquer efeito na orientação dos trabalhos da comissão parlamentar da revisão constitucional. Freitas do Amaral. Como nota final. do PSD e do CDS? A história política portuguesa mostra que. o PR promulga. uma vez que sabemos quem em 1976. Assim. de características eminentemente parlamentares. o ministro da Defesa equaciona três dos problemas levantados pela extinção do CR: o destino a dar ao serviço de apoio deste. do PSD e do PCP. É de salientar que os militares que se haviam rodeado de tantas precauções no processo constituinte em 1975 não foram além de algumas declarações individuais no período preparatório da revisão constitucional. pronunciou importante discurso através da RTP. uma vez que visavam legitimar novos regimes políticos emergentes em situações de rotura constitucional e por isso foram. 1836. aliás. em geral. em 16 de Julho de 1982. do PSD e do CDS e que. o general ramalho Eanes dirige-se aos portugueses num discurso em que não menciona qualquer aspecto da Lei de revisão constitucional relacionado com as Forças Armadas. por maioria qualificada superior a dois terços dos deputados. em distintos momentos históricos. Os militares e a revisão constitucional de 1982 Paradoxalmente. sujeitas a intensas controvérsias. cinco das quais com origem em acontecimentos de tipo revolucionário (1822. Só o faz no início desse mês. a guarda dos arquivos da antiga polícia política da ditadura. e face às relações entre o poder político e as Forças Armadas em particular. a Constituição teve o voto favorável do PS. desde o período liberal no início do século passado. 1933 e 1976) e apenas uma (a de 1826) não teve origem revolucionária (tendo sido outorgada pelo Rei). ao passo que agora vão assistir ao evoluir da consolidação do Pacto Interpartidário entre a AD e o PS.

de três desafios principais: a) O desafio da estabilidade política. as quais. em tornos dos quais só a evolução da luta política poderá determinar um concreto desfecho com projecção no texto constitucional. assente no compromisso originário. sem postularem para tal adaptação uma rotura com o «modelo genético» de 1976. os limites materiais do poder de revisão contidos no texto da Lei Fundamental. No entanto. Do que fica expresso resulta que o consenso constitucional alcançado em 1989 ficará dependente. Não será. Segundo: a segunda revisão constitucional baseou-se num princípio de «desregulação constitucional». continuamos ainda. possibilitam a convivência de «leituras governativas» de sinal distinto. Ambas as revisões permitiram demonstrar a «adaptabilidade» do texto constitucional à evolução da conjuntura política. Uma revisão muito menos dramática e mais pontual do que as anteriores. é de entender que. cada um deles apoiado por diferentes sectores da sociedade portuguesa. sendo mais consensuais. b) O desafio de corresponder às reais expectativas de ordem social do povo português. contudo.Não obstante. assente na cooperação entre o Presidente e a maioria parlamentar (de que dimana o Governo). não obstante a profundidade das alterações introduzidas nas duas revisões constitucionais. a resposta à questão colocada pode tentativamente procurar-se em torno de três tópicos de análise. 28 | P á g i n a . Mas esta «pluralização do programa económico constitucional» não corresponde nem a uma preocupação de «neutralidade» da Lei Fundamental desta sede. criadas pela efectiva melhoria das condições de vida decorrente da primeira fase da integração europeia e por vários anos de crescimento económico continuado. foi mantido nas duas revisões constitucionais. mas também porque o seu elemento definitório. agora que a prática política concreta demonstrou que mesmo com um sistema eleitoral assinalavelmente proporcional o eleitorado gerou por vontade própria e em dois distintos momentos maiorias absolutas (de votos e de mandatos) de um só partido. Pelo contrário. e não apenas num mero conceito formalista. perante a mesma Constituição. Primeiro: do texto original da Constituição. nem tão pouco a um sentido de substituição do modelo original por outro que se lhe contrapusesse em termos de exclusão. tendo sido observado em ambos os casos. no sentido de que designadamente nas áreas económicas a Constituição deveria oferecer aos governos a possibilidade de usufruírem de uma escolha flexível e ampla das políticas a prosseguir para alcançar os objectivos económicos de ordem geral constantes da própria Lei Fundamental. sem dúvida. económica e social envolvente. ainda que formalmente de acordo e dentro das regras da própria Constituição. Terceiro: haverá de certeza uma terceira revisão da Constituição. não só por razões de ordem formal que se prendem com a expressa preocupação de os legisladores das revisões se manterem no quadro emergente da Lei Fundamental de 1976. mas que teria ocorrido em Portugal uma espécie de «transição» (pacífica) de um sistema constitucional para outro. na sua evolução concreta. Mas ainda e inevitavelmente caracterizada por uma certa tensão nos debates. apenas 45 de 300 artigos permanecem inalterados: há mesmo quem afirme que já não se trata propriamente da mesma Constituição. O que se ampliou foi o espectro das escolhas possíveis dentro de grandes balizas constitucionais. ousado antecipar que a matéria da organização do poder político voltará então a estar no centro das atenções dos legisladores da futura revisão. é generalizada a ideia de que a «questão constitucional» tem vindo a perder a sua projecção e o seu lugar central na luta política contemporânea em Portugal. mas ambos legitimados pelo sufrágio directo e universal. se tivermos em linha de conta as propostas dos partidos políticos que não foram acolhidas nem na primeira nem na segunda revisão constitucional e que constituem «cadernos reivindicados» em aberto. previsivelmente dentro de cinco anos.

ao consagrar o sistema eleitoral proporcional pela média mais alta de Hondt. ao adoptar um sistema semipresidencialista. da preocupação pela definição da arquitectura institucional do novo regime para a dupla preocupação pela definição quer de condições políticas de estabilidade e equilíbrio no funcionamento das novas instituições. por outro. aquando a vigência da Constituição é. por outro lado. Uma busca condicionada pelo cruzamento entre factores conjunturais de ordem institucional e de ordem económica. superado a dificuldade de formação de coligações ou executivos minoritários duradouros pela via de uma inusitada concentração de votos no partido e na personalidade que melhor souberam aproveitar os benefícios da conjuntura económica. Poderá mesmo dizer-se que. operou uma sábia divisão de poderes ao mais alto nível do Estado. foi o cruzamento daquelas duas ordens de factores que determinou as sucessivas alterações na composição partidária do Executivo até ao repetido triunfo da fórmula do governo monopartidário de maioria absoluta do PSD. este. a oportunidade e o modo com os presidentes da república fizeram o uso da competência constitucional de dissolução do Parlamento. num convite implícito à formação de governos de coligação. a saber por um lado. graças a um afortunado calendário eleitoral e a alguma inegável habilidade estratégica: o Partido SocialDemocrata e o seu líder. pois. Intérpretes privilegiados dessa dupla preocupação foram Eanes e Soares. Por um lado. soube escolher para a presidência da República e para o Governo representantes de correntes políticas de sinais opostos ou divergentes. tornou difíceis as maiorias monopartidárias. quer de estratégias para a solução de crise económico-financeira. assim. criando. tendo. A história do exercício do poder central. Cavaco Silva. pois. Com efeito. e. um obstáculo institucional à tentação de um presidencialismo do primeiro-ministro. mais do que a competência própria de cada governo ou o grau de simpatia inspirada pelas alternativas ideológico-programáticas sujeitas ao juízo dos eleitores. A experiência de funcionamento deste sistema de presos e contrapesos encontrou um poderoso aliado no comportamento do próprio eleitorado. em momentos-chave da evolução política entretanto registada. sob pena de riscos de instabilidade política. O eixo da vida política portuguesa deslocou-se. a história da busca de fórmulas mais ou menos estáveis de governação por parte dos partidos vencedores dos sucessivos actos eleitorais. com vista a um rápido desenvolvimento do País no âmbito do processo de integração europeia. as incidências no comportamento do eleitorado dos efeitos dos ciclos de crise ou de expansão da economia. 29 | P á g i n a .O Poder Central A Constituição de 1976 estabeleceu um prudente sistema de pesos e contrapesos para o exercício do poder central. Por outro lado. ou de parlamentarismo mitigado.

que visava satisfazer os anseios de desenvolvimento e justiça social gerados pela revolução. Hesitação essa a que se juntava uma manifesta incapacidade para superar um certo espírito de triunfalismo auto-suficiente com que iniciara a sua governação. tenta não sacudir a pressão de que se vê alvo. a consciência generalizada das dificuldades herdadas da ditadura conservadora e do processo revolucionário e agravadas pela crise económica internacional. o Governo dava mostras de uma paralisante hesitação. a Constituição da República Portuguesa. por seu lado. com a estabilidade mínima necessária ao progressivo restabelecimento da autoridade do Estado.O Triângulo Conflitual da Instabilidade: Eanes. não esconde no discurso de 25 de Abril desse ano a incomodidade que lhe começa a causar o estilo de governação de Soares. através do seu grupo parlamentar. liberdades e garantias constitucionais através de um imenso labor legislativo. O PS. em que se distinguiu o ministro da Justiça. consolidando as novas instituições e regulamentando os direitos. Pouco passava das 5 horas da manhã quando um petardo destruiu completamente um carro frente ao Hotel Liz. a confiança depositada por uma extensa maioria na personalidade do novo presidente da República. o líder do PSD. a poucos metros do centro do PCP. 2 de Abril: É aprovada na Assembleia Constituinte. Com efeito. 16 de Fevereiro: A vaga de terrorismo alarma a Comissão Nacional de Eleições. uma plataforma de convergência com o CDS. sobretudo. em Abril de 1977. Apercebendo-se rapidamente das virtualidades a prazo de uma tal situação. levando-o a descurar o diálogo coma aposição e os parceiros sociais e. obteve um certo êxito no que toca ao primeiro objectivo. enredado na contradição entre uma política moderadamente expansionista. 14 de Maio: Na Avenida da liberdade um atentado bombista faz um morto (jovem de 15 anos) e seis feridos. aconselhavam um período de acalmia. passara facilmente a prova da investidura parlamentar. Soares e Sá Caneiro (1976-1980) O primeiro Governo Constitucional. ainda fortemente abalada pela fragmentação do PREC. 25 de Abril: Têm lugar as primeiras eleições para a Assembleia da República. 23 de Abril: O Movimento Anticomunista Português (MAP) reivindica a autoria do ataque bombista à Embaixada de Cuba. Almeida Santos. de Freitas do Amaral. A ausência de uma alternativa no quadro parlamentar saído da recente consulta eleitoral. mas viu a sua actuação saldada num relativo fracasso no que respeita ao segundo objectivo. Sá Carneiro. da responsabilidade do PS e liderado por Mário Soares. conhecido militante . a menosprezar a importante posição institucional do presidente Eanes. celebrando pouco depois. que procurava. Poderá dizer-se que este primeiro Governo. evitar o agravamento dos desequilíbrios financeiros. procura num primeiro momento influenciar o presidente no sentido de o distanciar do governo de Soares e encarar a alternativa de um governo de salvação nacional e de competências. propondo ao PSD negociações para a aprovação de duas leis de regime com vista à definição das regras de jogo no difícil terreno 30 | P á g i n a 1976 28 de Janeiro: O PCP afirma que ocorreram mais de 300 atentados desde Maio de 1975. no mínimo. dois feridos e um prédio de dois andares totalmente destruído. Eanes. e uma política de restrições orçamentais e de controlo do défice da balança de transacções correntes. em resultado da explosão de uma bomba incendiária na residência de António Ribeiro Teixeira. o general Eanes. que solicita a máxima vigilância para as sedes dos partidos. que contribuía para o crescendo das oposições à sua direita como à sua esquerda. e dos equilíbrios financeiros indispensáveis à expansão da economia. 21 de Maio: Um morto.

tudo corria pior. ao mesmo tempo que se distancia criticamente de Eanes. que iria por à prova os mecanismos institucionais previstos para obviar a tais situações. com o indispensável aval do Fundo Monetário Internacional (FMI). 31 | P á g i n a . já na frente económica. um organismo particularmente exigente nas condições a preencher pelos países que se viam obrigados a recorrer. mas recusando. presidente da República. presidente da República. Se. à revelia da vontade de Sá Carneiro. da liderança do seu partido e 16 de Julho: Mário Soares é inicia um processo de capitalização de apoios à direita através da indigitado primeiro-ministro pelo agitação da bandeira de uma revisão constitucional antecipada. partidos. graças ao acordo estabelecido entre os dois do Campo (Santo Tirso). de um apoio parlamentar alargado. Soares opta por propor uma moção de confiança à Assembleia da República. pelo contrário. Necessitando. na frente política. o PS parecia ter readquirido algum controlo da situação. irão desencadear 14 de Julho: O general Ramalho uma forte reacção por parte deste último. em consequência. qualquer coligação governamental. pela qual visava transformar o PSD no eixo de uma alternativa futura. Demite-se. De tal forma que se tornara inevitável recorrer a vultosos empréstimos internacionais.económico: a lei de delimitação dos sectores vedados à iniciativa privada e a lei de bases da Reforma Agrária. Estava aberta a primeira crise governamental do novo regime constitucional. que via assim Eanes toma posse como comprometida a sua estratégia de ruptura com o governo do PS. Não o consegue e o seu governo cai a 7 de Dezembro de 1977. em São Martinho Verão de 1977. ao mesmo tempo. num tal quadro. Aprovadas ambas no do MDP/CDE. na esperança de evitar um voto negativo cruzado do PCP com os partidos à sua direita.

nomeadamente a nível de político. Gostei imenso de elaborar este trabalho de pesquisa. e perceber de que modo estes contribuíram para a elaboração da Constituição de 1976. 32 | P á g i n a . embora com algumas alterações realizadas. com épocas caracterizadas como conturbadas e de grande instabilidade. É sempre bom saber um pouco do passado para compreender a política actual. Consegui reforçar o que conhecia relativamente às posições e ideologias dos partidos políticos portugueses. que foi fortemente marcado pelas influências militares.Conclusão Com a realização deste trabalho proposto adquiri vários conhecimentos. uma vez que passei a conhecer um pouco mais do passado político do nosso país. É curioso o facto de a constituição actual ser a de 1976. Espero que também tenha gostado deste trabalho.

Bibliografia 20 anos de Democracia. por António Vitorino O País em Revolução. Círculo de Leitores Os dias loucos do PREC. Expresso e Público 33 | P á g i n a . da autoria de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira. coordenação J.Brandão de Brito. Círculo de Leitores História Contemporânea de Portugal.M.

08.02. Organização de ideias e planificação do trabalho a desenvolver.2010 Distribuição dos temas e das tarefas por todos os elementos do grupo. nomeadamente em livros trazidos pela professora.02. 01.01.Relatórios das aulas 18. 25. 05.2010 Recolha de informação útil para o desenvolvimento do trabalho.2010 Continuação do trabalho realizado na aula anterior.01.01.02.2010 Não estive presente na aula. 12.01. 22.2010 Análise de toda a pesquisa recolhida e selecção da mesma. 29.02.2010 Início da orientação do trabalho escrito.2010 Início da pesquisa para a elaboração do trabalho.2010 Conclusão do trabalho realizado na aula anterior. 34 | P á g i n a .

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