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As eleições de 1975 e a Constituição de 1976

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Catarina

[Ano]
Catarina Ferreira Nº8,12ºD Área de Projecto Professora Ana Paula 2º Período (Ano Lectivo 2009/2010)

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As eleições de 1975 e a Constituição de 1976

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Índice
Introdução ........................................................................................................................................................... 4 O surgimento dos partidos políticos em 1974 .................................................................................................... 5 Início da Campanha para a Assembleia Constituinte ......................................................................................... 6 Campanha Eleitoral [Quarta-Feira, 2 de Abril] ................................................................................................. 7 Acordo consagra MFA ...................................................................................................................................... 7 Campanha ao rubro ......................................................................................................................................... 8 PS vence primeiras eleições .............................................................................................................................. 10 O voto é a arma do povo ................................................................................................................................ 10 Incidentes no 1º de Maio .................................................................................................................................. 12 PS desce à rua ................................................................................................................................................ 12 O verão de 1975................................................................................................................................................. 14 Golpe e contragolpe a 25 de Novembro ........................................................................................................ 15 Comandos anulam Polícia Militar e Pára-Quedistas .................................................................................. 15 O «Compromisso» Constitucional .................................................................................................................... 17 Constituição e evolução constitucional ............................................................................................................ 17 A consagração da III República ................................................................................................................... 18 A Constituição de 1976 e as revisões constitucionais de 1982 e de 1989 (a transição democrática) .................................................................................................................................................. 18 A revisão constitucional de 1982 e as modificações nas relações entre o poder político e a instituição militar ....................................................................................................................................... 24 O Poder Central ................................................................................................................................................. 29 O Triângulo Conflitual da Instabilidade: Eanes, Soares e Sá Caneiro (1976-1980) ......................................... 30 Conclusão ........................................................................................................................................................... 32 Bibliografia ......................................................................................................................................................... 33 Relatórios das aulas ........................................................................................................................................... 34

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Espero que a leitura seja do seu agrado. 4|Página . Neste trabalho vou abordar o período compreendido entre 1975 (até ao fim do PREC) e meados dos anos 80. que se caracteriza pela separação das esferas militar e civil do Estado. a partir de um tema proposto pela Professora. quando se realizam as revisões constitucionais. portanto.Introdução Este trabalho foi realizado no âmbito da disciplina de Área de Projecto. De referir que apenas será abordado os aspectos políticos que marcaram esta época conturbada. No início refiro o período de 1974 apenas na tentativa de contextualizar o período em questão. Vou tratar. do período da nossa história referente à transição democrática.

alcançou 81 deputados. com cerca de 38% dos votos. o recém-criado PS. salvo o V Governo (Agosto de 1975). o PCP. que se auto-afirma como de centro-esquerda. constituída em 1970. e o novo PPD – isto além do MDP/CDE e da participação individual de membros da SEDES e de independentes.O surgimento dos partidos políticos em 1974 A 25 de Abril de 1974. e jovens técnicos que tinham colaborado na primeira fase do marcelismo. O I Governo Provisório civil. de orientação marxista-leninista radical (1 deputado). presididos pelo general Vasco Gonçalves (II a V) e pelo almirante Pinheiro de Azevedo (VI). Magalhães Mota e Francisco Balsemão) anunciaram a constituição de um novo partido – o Partido Popular Democrático. era a associação política mais influente. cujo secretário-geral era Álvaro Cunhal. o movimento unitário nascido das candidaturas de 1969 e 1973 (MDP) e vários pequenos partidos e movimentos. com 26%. Poucos dias após a revolução. três deputados da referida «ala liberal» (Sá Carneiro. o PPD. Os cinco executivos provisórios que se seguiram até à entrada em vigor da Constituição de 1976.1%). O PS. viriam a basear-se em idêntica composição.6%) e à União Democrática Popular. apenas apoiado pelo PCP e pelo MDP/CDE. por defensores da evolução gradual do regime. Além dos partidos com assento nos governos provisórios. entre cujos membros se contavam deputados da «ala liberal». Adelino da Palma-Carlos. as eleições para a Assembleia Constituinte (Abril de 1975) deram representação ao Partido do Centro Democrático Social. verifica-se que entre as organizações políticas existiam em actividade o PCP. quando o Programa do MFA previu que a formação de associações pacíficas constituiria o embrião de novos partidos políticos. o PCP conseguiu 30 representantes (12% dos votos) e o MDP/CDE teve 5 lugares (4. obteve 116 lugares. dirigido por Mário Soares. designadamente de obediência maoísta. de inspiração de democrata-cristã e centrista (16 deputados e 7. 5|Página . presidido pelo Prof. como Francisco Sá Carneiro. A Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES). formou-se com base nas grandes correntes político-ideológicas que viriam a transformar-se nos principais partidos da democracia: PS.

Iniciam-se contactos entre o Governo e o Episcopado. é um dos novos órgãos de poder. que era. não hesita em declarar que “Portugal alargou o campo do possível”. eu ainda era assistente”.” O filósofo francês dá a sua única entrevista colectiva. conta este. enquanto três partidos de extrema-esquerda – UDP. 60 da Armada e outros tantos da Força Aérea). Este é ponto que mais críticas suscita ao PS. Companheira de Sartre. Óscar Lopes. uma espécie de ‘MFA civil’ o qual teria a tarefa de construir. digamos. enfatiza. Louis Althusser. Em plena campanha eleitoral. D. avisa: “Torna-se evidente que o Governo não controla inteiramente a situação actual”. desejosos de observar o balão de ensaio lusitano. Sartre vem a convite do Instituto Francês do Porto e participa. Aos partidos é concedido um prazo de apenas dois dias para a apresentação de respostas. “Lembro-me que estava muita gente. e o patriarca de Lisboa. Em plena fase pró-chinesa. A disputa arranca com uma até então desconhecida “guerra” de cartazes. Sartre era um homem muito gentil e humilde. Simone de Beauvoir dá uma única entrevista.António Ribeiro. sargentos e praças e reúnem-se mensalmente. na rádio e na televisão. Vasco Gonçalves. A primeira Assembleia do MFA reúne-se a 7. com o MFA. na Casa da Imprensa. O texto estabelece a independência do poder militar face ao poder civil. O embaixador dos EUA em Lisboa dá uma insólita conferência de Imprensa para “pôr fim aos boatos” a seu respeito. “é mais do que o sufrágio directo”. A tentativa inclui uma cimeira entre o primeiro-ministro. mas lúcido. Continua o corrupio de intelectuais. em Lisboa. que a publica no Expresso. No mesmo dia. director do diário francês Libération. destinado a julgar os implicados no 11 de Março e constituído exclusivamente por militares.”. diz que “o sufrágio universal como modo de expressão do público está ultrapassado (…)” “Sou pela democracia directa”. Liga Comunista Internacionalista (LCI) e MES recusam o pacto. Serge July. mas pouco impressionado com os militares. Outra estreia absoluta é o tempo de antena. Victor Serge. ávida. de grandes qualidades humanas e inteligência muito aguda. O director. retém: “Ele já estava um pouco cego e trôpego. 6|Página . no sentido de resolver o conflito da Rádio Renascença. Ernest Mandel. de 65 anos. em entrevista ao jornal Le Figaro. Michel Foucault. mas o que ele queria era ouvir. Catedrático de Licenciaturas Modernas. saídos da conjuntura política posterior ao 11 de Março. O assunto principal é a formação de um Tribunal Militar Revolucionário. o Conselho de Revolução apresenta aos partidos o projecto de uma Plataforma de Acordo Constitucional. “Na altura. Frank Carlucci afiança que não esteve ligado ao 11 de Março e que não pertence à CIA. Juntamente com o Conselho da Revolução. Às primeiras eleições livres no último meio século apresentam-se 12 partidos. Andou sempre acompanhado e controlado por um dos secretários. que. a 4. Arnaldo Saraiva. à escritora e militante feminista Maria Teresa Horta. o Expresso passa a abrir as suas colunas à opinião de enviados especiais estrangeiros. chegaram Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Quando um jornalista pretende saber o que é preferível. numa sessão na Faculdade de Letras. Sartre discorda da dicotomia: “Será assim que a questão se deve pôr? Não será antes: revolução e eleições?” Fascinado com a Revolução. faz-se substituir por Arnaldo Saraiva. a 2. Constituído por 240 elementos (120 do Exército.Início da Campanha para a Assembleia Constituinte A campanha eleitoral para a Assembleia Constituinte tem início a 2 de Abril. Na edição de 5. Praticamente não falou. sugere a criação de um “movimento ‘apartidário’. inclui oficiais. eleições ou revolução. o encarregado maoísta de o orientar. que. o socialismo português”. Só no espaço de uma semana.

no primeiro minuto desse dia.” Válido por três a cinco anos. desde que houvesse eleições. A ideia. Magalhães Mota e Jorge Sá Borges – fixavam nas paredes da cidade os primeiros cartazes da propaganda eleitoral. resignados e mais ou menos coagidos. bem como alguns civis. Prossegue a campanha eleitoral. No dia seguinte. O principal teórico é César Oliveira.” Era a estratégia de Salgado Zenha. assim como a independência do poder militar em relação ao poder civil. As sequelas do frustrado golpe de direita prosseguem. partido da extrema-esquerda italiana. devido aos seus “ataques ao MFA”. em especial pelo 7|Página . lamenta. A maioria dos observadores não tem dúvidas em ver o pacto como uma imposição dos partidos. Apesar da diversidade de tendências. PCP. igualmente conotado com os comunistas. Luís de Barros. É consagrada constitucionalmente a existência do Concelho de Revolução e da Assembleia do MFA. no final de uma visita de uma semana. O Concelho de Revolução suspende. “foi logo aproveitada por alguns sectores do MFA”. e por representantes de seis partidos: PS. diz Álvaro Guerra em entrevista ao jornal República de 9 de Abril. a demissão de Ribeiro dos Santos é feita “sob pressão” do “plenário de trabalhadores”. Em causa está a tensão entre duas legitimidades: a eleitoral e a revolucionária. por ter escrito um editorial condenando propostas de fuzilamentos de oficiais implicados no 11 de Março. a primeira campanha eleitoral politicamente livre em 48 anos. um dissidente do MES. “morto pelo fascismo em 11 de Março de 1975”. Nas vésperas. constitui uma das muitas formas de traição criptocapitalista. de “ter apelado ao voto em branco. Como refere Mário Mesquita (Portugal. Vinte Anos de Democracia). demitira-se dias antes de director adjunto de Informação da RTP. A entrevista é a primeira denúncia frontal da escalada do PCP nos principais órgãos de comunicação social. Acordo consagra MFA A Sibéria é grande e Estaline é o seu profeta. PPD. ao arranque da campanha para a eleição dos deputados que hão-de redigir a Constituição. o acordo deverá “integrar a futura Constituição”. Nas suas memórias (Os anos Decisivos). em nome do Concelho de Revolução. surgindo no cabeçalho ao lado do novo director. A grande novidade é o apelo ao voto em branco. a que Soares rendera. assegura.” Uma lápide confere à parada do quartel o nome do soldado Joaquim Carvalho Luís. No dia seguinte. os fotógrafos captam o momento em que três das principais figuras do PPD – Francisco Pinto Balsemão. 2 de Abril] Às zero horas do dia 2 de Abril começou. Em Lisboa. MDP/CDE e FSP. a imprensa parece de acordo: o primeiro partido a colar cartazes foi o PPD e o primeiro a organizar um comício foi o PS. Vasco Gonçalves definira o alcance do pacto: “Não poderíamos perder por via eleitoral o que tanto tem custado a ganhar ao povo português. fala às tropas do regimento: “ Insistir (…) no regresso às casernas. o tempo de antena da FEC. que “é falso dizer que a liberdade e a democracia estão ameaçadas em Portugal”. outros. em todo o País. A Plataforma de Acordo Constitucional é assinada a 11 pelo Presidente da República. Uma delegação da Lotta Continua. No livro Ditadura e Revolução. identificando tal voto a um voto no MFA”.Campanha Eleitoral [Quarta-Feira. fazem-no convictos e entusiasmados. em protesto contra a substituição das chefias em plena campanha eleitoral. são detidos mais 28 oficiais e sargentos envolvidos. O comandante. Mário Soares presidiu em Faro. Mário Soares explica por que assinou: “Estava disposto a aceitar tudo. por cinco dias. um partido da extremaesquerda maoísta. mas também o erro. próximos do PS. A anterior direcção era formada por José Ribeiro dos Santos e José Carlos Vasconcelos. José Saramago toma posse como director adjunto do DN. CDS. coronel Leal de Almeida. o RAL 1 comemora o dia da unidade. Uns. Jornalista e escritor ligado ao PS. o historiador assume a autoria. A 9.

marítimo e aéreo) e electricidade. “A minha filha Isabel era o meu motorista. falsa e perigosa. transportes (ferroviário. A 12. “Foi um esforço tremendo. daqueles três territórios coloniais pela Índia. No mesmo dia. estreara-se o semanário A Rua. o dirigente do PPD. pela força. O Concelho de Ministros decide. é o ponto final no diferendo criado com a anexação. com base naquela sondagem. todos os ganhos alcançados. Vasco Gonçalves aproveita para falar com Mário Soares sobre as eleições. relativo ao reconhecimento da soberania sobre Goa. as eleições “não vão representar realmente a vontade do povo. altamente gratificante e com alguns lances dramáticos”. a repressão dos actos de sabotagem económica por parte do patronato. conduzida por Augusto Carvalho. No final de uma reunião do Concelho de Ministros. A cronologia O Pulsar da Revolução regista que. e crítica. bem como da Siderurgia Nacional. concedia um terceiro lugar honroso”. de que eu fazia parte com o José Sasportes e o Francisco Agarez. ainda não tem realmente o poder de análise”. Para este influente membro do Conselho de Revolução. Não tínhamos segurança. bem como as “rústicas irrigadas de área superior a 50 hectares”. Outros decretos contemplam o novo regime do arrendamento rural. Seria. O 25 de Abril é declarado o novo Dia de Portugal e feriado obrigatório. Daí.comandante Ramiro Correia. recorda Soares. Na mesma edição. À margem das eleições. dirigido por Manuel Maria Múrias. Os militares. chama-se Jornal Novo. Ministro sem Pasta e sem função específica no IV Governo. numa entrevista ao semanário de que é director: “Essa identificação que agora se faz aí entre o voto em branco e o voto no MFA parece-me forçada. “não só tinha o PS na mão. mas esclarece que “ninguém deveria votar em branco”. Sem tradição democrática. um Renault 16. a nacionalização das empresas do sector petrolífero. de extremadireita. têm um inquérito. tal é o propósito do Jornal Novo. Ainda mais clara é a afirmação de que “nós não fizemos uma Revolução (…) para que numa parvoíce eleitoral percamos. a 15. e são cada vez mais. Francisco Pinto Balsemão. a eleição é marcada para 30 de Junho. digamos. expropriar as “propriedades de sequeiro de área superior a 500 hectares”. os partidos investem tudo. o general refuta. dotada de poderes soberanos e constituintes. nem experiência eleitoral. de um momento para o outro. O primeiro jornal diário criado depois de 25 de Abril (1974) surge a 17 de Abril de 1975. Ao PS. Dirigido por Artur Portela Filho. a 18. afirma. vermelho” – hoje exposto no museu de Cortes. Quando este lhe manifesta a sua convicção de que o PS vai ganhar. o Diário do Governo publica o decreto que define as normas a que deve obedecer a eleição de uma assembleia representativa do povo de Cabo Verde. reclamam uma imprensa livre. um dos estrategos da 5ª Divisão. No mesmo dia. os media ainda não publicam sondagens à opinião pública. Eu e no Francisco trabalhávamos numa empresa de publicidade que tinha 8|Página . a necessidade do pacto. o Expresso publica uma extensa entrevista com Rosa Coutinho. fixado no editorial. Mário Soares beneficia dessa situação para se dedicar “quase exclusivamente” às eleições – como explica em Ditadura e Revolução. como a quase certeza da vitória eleitoral”.” Campanha ao rubro À entrada da última semana de campanha eleitoral. Utilizávamos o meu próprio automóvel. atribuído ao Centro de Estudos de Administração e Desenvolvimento. porque ele. que dava vitória ao MDP/CDE. O jornalista e escritor Portela Filho recorda: “A ideia partiu de um grupo restrito. Soares dá a sua “primeira grande volta a Portugal”. Publicado ainda o tratado entre a Índia e Portugal. A Igreja intervém na campanha. “são congelados os bens de alguns administradores do grupo Champalimaud”. No final. a actividade legislativa é intensa. e profissional”. E a 21. “Em segundo lugar. em 1961. uma táctica de avestruz”. porém. “Tentar responder a quantos. Na semana anterior. surgiria o PCP. a folha oficial traz o diploma que cria o provedor de Justiça. incluindo rebentamento de uma bomba em Ponta Delgada. coitado. Damão e Diu. a Assembleia Plenária do Episcopado apela ao voto como um dever.

” Da redacção fazem parte nomes como Mário Mesquita. europeu. por outro lado. de tendência socialista. democrática e independente. Artur Portela recorda que só assumiu a direcção depois de se terem malogrado duas outras soluções que ele próprio propôs: Eduardo Lourenço e Vitorino Magalhães Godinho.contactos com a Confederação da Indústria Portuguesa (CIP). objectivos consagrados no estatuto editorial. sem nenhuma influência no conteúdo e aspectos editoriais. a ideia. António Mega Ferreira e Alexandre Pomar. Diogo Pires Aurélio. Participam representantes de 165 empresas e 26 unidades militares. vaga.” Portela rejeita a ideia de uma dependência do jornal face àquela organização patronal: “A administração nunca teve influência nos conteúdos editoriais. A mais famosa é uma reprodução dos painéis de Nuno Gonçalves em que todas as caras são de Mário Soares. imprecisa. moderno. mesmo ausente. Surgiu a ideia de eles financiarem um jornal crítico. Rejeita. O objectivo fixado é “a conquista do poder pela classe operária e pelos soldados e marinheiros a partir dos locais de trabalho”. cosmopolita.” O Congresso Nacional de Trabalhadores Pró-Conselhos Revolucionários reúne-se a 19 e 20. 9|Página . muito divulgada. de uma ligação do jornal à CIP: “A administração sempre foi discreta. aberto. presidida por Vasco de Mello. A iniciativa é dinamizada pelo PRP/BR um partido defensor da luta armada. Inovadora é a fotomontagem que ilustra regularmente a capa.

” Oposta é a avaliação de Freitas do Amaral. Uma delegação do MFA. escreve em O Antigo Regime e a Revolução. de 7. desloca-se a Cuba. reúnem-se em casa de Jorge Sampaio. Vale a intervenção de Rui Pena. onde há quem apela ao voto em branco.” Ao falar da Madrugada de 26. o presidente dirige-se ao país. O tema dominante da semana. Soares reconhece que as eleições foram “um ponto de honra do MFA”. O jornal reage energicamente e promove uma conferência de Imprensa. Incluindo o MFA. É uma declaração de princípios.9% e 116 deputados.8%). O Expresso antecipa a saída para 25 e publica um editorial na primeira página. realizadas a 25 de Abril. chefiada pelo coronel Varela Gomes. “Foi uma vitória histórica! Esperava um excelente resultado. foi “uma decepção profunda – e dolorosa (…) Era um péssimo resultado”. Um dos temas é a Rádio Renascença. O centro de operações é na Fundação Gulbenkian e o principal pivô da RTP é o Carlos Cruz. O acto eleitoral fundador da democracia política é coberto por cerca de um milhar de jornalistas estrangeiros. Fiquei com uma força formidável. O resultado do CDS. exclamou enfurecido: Mas que raio de partido é este. A participação é impressionante: 91. somando os nulos.16%. é incluída nas acções de “preparação da opinião pública”. seja o carácter absurdo de tal tentativa incriminatória. perfazem 6. Soares lembra que fez “declarações muito prudentes”.5%). Uma entrevista com o general Spínola.9%. de uma herdade em Aveiras de Cima. como muitos camaradas meus pediam. monsenhor José Maria Sensi. publicada em Janeiro. “Quando cheguei à Gulbenkian. “Não pedi a substituição do Governo nem reclamei o lugar de primeiro-ministro. a votar em qualquer dos 12 partidos”. César Oliveira conta (Os Dias Decisivos) que Nuno Brederode Santos e Nuno Portas são enviados à Comissão que ultima o texto. jornalistas e outros trabalhadores. Costa Gomes recebe o núncio apostólico. ainda por cima.1%) e a UDP (0. Nas vésperas.6%). a 23 de Abril.PS vence primeiras eleições O voto é a arma do povo A 22 de Abril são divulgados dois relatórios: o do 28 de Setembro e o preliminar (mas que viria a ser o único) do 11 de Março. o MDP/CDE (4. alguns membros do grupo conhecido como ex-MES. No mesmo dia. Seguem-se o PPD (26. chega a vez. não aconselha. E foi”. o Concelho de Revolução estava um bocado caído. a que se manterá fiel: “ Como jornal independente e apartidário que é. a que comparecem a direcção (Francisco Balsemão. com 37. Percebi logo que o PS tinha vencido. são as eleições para a Assembleia Constituinte. mas manifesta a esperança de que os resultados conduzam a uma “clarificação” e a “modificações na coligação”. O PS é o grande vencedor. Trinta anos depois. Na véspera do sufrágio. preocupados com a eventualidade do relatório incriminar o PS.4%). que “dando um murro na mesa. seja o erro político que consistia em incriminar dirigentes de um partido indispensável à da democracia”. São rejeitadas todas as alegações e garantida “a independência do jornal”. “a vontade popular é a verdadeira fonte de poder político”. como é óbvio. que irá dar origem à Cooperativa Agrícola Torre Bela – um ícone da esquerda radical. mas sugere-se uma ligação do Expresso à intentona. Ninguém lhes fica indiferente. que está sempre a discutir se vale a pena existir?” 10 | P á g i n a . Apela à escolha “entre os partidos autênticos que não barram a via socialista e que nos prometem o pluralismo essencial ao exercício da liberdade”. com o objectivo de “explicar. provável vencedor das eleições. Do relatório nada consta dobre o PS. o CDS (7. recorda Mário Soares. porém. Para Costa Gomes. Na vaga de ocupações de terras.66% dos eleitores inscritos. Freitas e outros dirigentes interrogam-se mesmo “se valeria a pena continuar com o partido”. o PCP (12. Augusto de Carvalho e Marcelo Rebelo de Sousa). Os grandes derrotados são o MDP e os defensores do voto em branco – que. para as comemorações do primeiro aniversário da revolução. e.

é por isso que somos o MFA. observa (A Revolução e o Nascimento do PPD). só que “o MFA age como se as eleições não alterassem nada”. deixa os vencedores gelados: “Não temos confiança nos partidos políticos existentes (…) e por isso continuamos. Para António Reis (em Portugal – 20 Anos de Democracia). No próprio dia. Horas depois. insistem em menorizar as eleições.Importantes sectores militares.” Marcelo Rebelo de Sousa estreia-se como comentador eleitoral. contudo. “os portugueses davam o primeiro sinal claro e insofismável da via que pretendiam seguir”. Otelo frisa que “as pessoas não vão votar conscientemente”. 11 | P á g i n a . “É evidente a viragem à direita”.

O major em causa era Campos Andrada que. onde Soares defende a realização de eleições nas autarquias e nos sindicatos. Salgado Zenha e Marcelo Curto. Os socialistas reagem e retiram-se do estádio. Soares e Zenha são recebidos por Costa Gomes e Vasco Gonçalves. recusou a social-democracia”. mas que o Governo confirma no lugar. ligado ao MDP/CDE. Hoje. No desfile incorporaram-se militantes do PPD e dos grupos maoístas AOC e PCP (m-1). realiza-se a 5 uma cimeira entre o PS e o PCP. o PS. O Jornal. convoca um desfile autónomo. “se declarou contrário à entrada fosse de quem fosse na tribuna. desemboca no estádio com o mesmo nome. Outros fundadores são José Carlos Vasconcelos. “por uma maioria de dois terços. Uma das primeiras consequências do sufrágio é o pedido de demissão do governador de Ponta Delgada. comandante Calvão Borges. Um comunicado da Intersindical confirma: “O nosso dirigente não permitiu a entrada o dr. O PS percebeu que era um excelente pretexto para começar a separar as águas”. o sindicalista José Gomes é quem lhes barra o caminho. Na Emissora Nacional. Ao chegarem ao estádio. o decreto reconhece a “Intersindical Nacional como a confederação geral dos sindicatos portugueses”. Uma delegação. “o PPD e o CDS são os grandes derrotados”. lúcido. a multidão apupa o jornal. Segundo o relato do Expresso.Incidentes no 1º de Maio PS desce à rua Numa análise às eleições. o MFA conclui que “o povo votou o socialismo” mas que. criador. Manuel Beça Múrias. Entretanto. que participe nesta apaixonante tarefa de ajudar a construir a nossa revolução democrática. conta. Cáceres Monteiro. o ministro do Trabalho promove 12 | P á g i n a . que se destacam ao exigirem “Nem Kissinger. os socialista são recebidos com hostilidade e até com alguma violência. na Rua Braamcamp. segundo um documento da Comissão Política do CR. O 1º de Maio é celebrado em todo o país. entre socialistas e comunistas” (Ditadura e Revolução). Afonso Praça. na Rua São Pedro de Alcântara. mas aprovada por unanimidade pelo então Conselho dos Vinte (precursor do CR). Por seu lado. Propriedade dos próprios jornalistas. com destaque para a manifestação de Lisboa. em protesto contra os incidentes de véspera. livre. no que é acompanhado por vários directores. A “manif” termina na sede do PS. no dia 1 saíra um novo semanário. admite-se como provável que a rádio do Estado fique na órbita da 5ª Divisão. que. António Borges Coutinho. que na semana anterior vencera as eleições. afastado das lides sindicais e políticas. só suplantada por outra que perdurará: “É preciso respeitar a vontade popular”. A seu ver. a pedido desde. essa foi “a primeira grande confrontação de rua. enquanto. ligado aos sectores esquerdistas”. Nos meios políticos. Judas considera que “esse 1º de Maio marca o início da ruptura do PS com o resto da esquerda. estes elegem como director Joaquim Letria. vivo. é impedida de entrar em tribuna. temendo consequências desagradáveis para o PR”. alegre. tal como na jornada inesquecível de 1974. No editorial. No rescaldo do 1º de Maio. Ao passar em frente da sede do DN. A “lei da unicidade sindical” é publicada a 30 de Abril. pede a demissão. No dia seguinte. após o que o PS convoca a sua primeira manifestação de rua. “Quem deu ordem para não deixar entrar Mário Soares foi o major responsável da segurança da tribuna. socialista e portuguesa”. constituída por Mário Soares. Mário Soares. propõe-se fazer “um jornalismo independente. o presidente. Muitíssimo contestada pelos socialistas. José Silva Pinto. Para Soares. saúda o Expresso. desapaixonado. “Central sindical só por via eleitoral” é uma das palavras de ordem mais gritadas.” José Luís Judas era um dos principais dirigentes da Inter e assistiu a tudo. Na falta de um acordo entre os promotores. nem Brejnev”. por “não haver lugar nos camarotes para os partidos divisionistas”.

uma conferência de Imprensa. a 5. 13 | P á g i n a . a constituição do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP). O seu presidente é António Spínola. que classifica “como um acto contra-revolucionário”. diz Costa Martins. As duas principais cronologias sobre o PREC assinalam. Em tempo de “batalha da produção”. não se compreende o frequente recurso à greve.

quando os existentes moldaram acontecimentos e traçaram os contornos das opções tomadas. Finalmente. O alvo eram os “barbudos”. esta coesão. como formas sociais integradoras dos diferentes grupos sociais e o anticomunismo alimentava. de militares e de interesses que veio a impor-se no 25 de Novembro de 1975 teve grande apoio nestas dinâmicas. para se revezarem. por exemplo. A política agrária foi. assim. se retomassem disputas e rearranjos em detrimento do consenso ideológico que haviam marcado o Verão de 1975. Nem há que fazê-lo dado o modo como se optou por abordar assuntos. como quando faltaram para permitir ao novo. para o que contribuíam também os rumores e as notícias que chegavam dos campos do Sul dobre as ocupações de terras e pequenos agricultores. O Estado e as suas políticas pouco conseguiam influir nas dinâmicas locais. o económico foi subordinada à ideologia e ao político no comando dos processos sociais. consolidar-se e persistir. de sindicatos e de outras organizações e instituições identificadas com a esquerda. o que se passou na Batalha. o móbil dos assaltantes era «matar os comunistas um a um» e «maltratavam os grevistas. sobre as orientações dos Governos. Dois bons exemplos. em camiões. que. As comunidades rurais funcionavam. Convém. que aflorou nestas unidades. O aglomerado de forças políticas. iam buscar outras às freguesias. Do que antecede não se tiram conclusões. No verão de 1975. A turba dos assaltos e das acções de rua era geralmente a população agrícola e rural das aldeias e lugares.» Depois do 25 de Novembro o clima de violência foi-se atenuando e as primeiras eleições autárquicas (Dezembro de 1976) conduziram a que. No primeiro caso a falta de reflexão sobre a ligação das famílias agricultoras aos fluxos monetários de previdência rural e dos salários ganhos nos mercados de trabalho da indústria e dos serviços conduziu à incapacidade de perspectivas estas dimensões políticas do Estado. a vila foi ocupada por essas pessoas. 14 | P á g i n a . Nessas dinâmicas. Contribuiu. os que traziam fato tipo blue jeans (vistos como não conformistas) e camisas de cor vermelha. explicitar três fios que percorrem a análise feita. que emergiu nalguns processos e movimentos. O primeiro. e sucederam-se os distúrbios e os desacatos nas vilas e cidades do Norte e do Centro de Portugal. com a democracia representativa. até finais de 1976. como atrás de viu. a nível local. destas presenças e ausências relacionam-se com a agricultura familiar e com as unidades de produção dos trabalhadores da Reforma Agrária. haviam alimentado o Estado Novo. Foi. “os cabeludos”. multiplicaram-se os fogos florestais de origem criminosa e os ataques bombistas. «Os invasores da vila eram camponeses enquadrados por um grupo de negociantes alugadores de tractores e comerciantes. em que a Igreja Católica teve um papel central. No segundo exemplo. Nas aldeias do Centro e do Norte do país reacenderam-se as bandeiras que. regista-se o peso dos modelos e ideias que se sentiu tanto pela sua presença. O pretexto para o início dos motins foi «desalojar os empregados grevistas que ocupavam um pequeno hotel de luxo». entre os quais tinham descoberto “um estrangeiro” (empregado originário do Norte do País que vivia no concelho há cinco anos)». uma interveniente menor na questão social das aldeias do Centro e Norte do país. de novo. e é o segundo fio. O sinal de ajuntamento era dado pelo toque do sino. muitos dos contornos destas unidades derivaram dos modelos herdados e simultaneamente houve uma incapacidade de delinear a compatibilização da democracia directa. é o facto de as relações de forças que se estabelecem regional e mesmo localmente terem prevalecido com frequência.O verão de 1975 Com o 11 de Março mudou o curso político e abriu-se um período em que as relações de forças que se estabeleceram local e regionalmente se sobrepuseram às decisões tomadas em Lisboa. que «aconteceu 48 horas de distúrbios graves. no plano ideológico. para o clima de violência que se gerou. de novo. Durante dois dias. promovendo autênticas cruzadas ideológicas e apoiando as organizações terroristas. acumularam-se os assaltos a sedes do Partido Comunista. os quais provocaram vários feridos». como acontece sempre que a aldeia julga pressentir um perigo imediato. no entanto.

Os pára-quedistas de Tancos. ao Presidente. “para amanha”. o Governo decide entrar em greve. recusam a passagem à situação de licença e colocam-se às ordens do Copcon. comandantes de várias unidades repudiam com veemência a nomeação de Vasco Lourenço. o que faz Otelo mudar de opinião. O jornal A Capital anuncia a formação. sendo estes soldados – ou se for preciso aos próprios trabalhadores. interrompendo uma viagem a vários países socialistas. Otelo avalia a hipótese no Copcon e dispõe-se a deixar aquele cargo desde que seja para um oficial de sua confiança. Esta decisão é comunicada. é o centro de múltiplas reuniões militares. enfatizada por uma paralisação de trabalho na cintura industrial de Lisboa e em todo o Alentejo. A nomeação de Vasco Lourenço para o lugar de Otelo. Manifestação em Belém. já chega! Não gosto de ser sequestrado. entre as quais avulta a substituição de Otelo por Vasco Lourenço à frente da Região Militar de Lisboa. ao serviço da classe operária (…) pela vitória da Revolução Socialista”. é uma coisa que me chateia. desta feita no distrito de Castelo Branco. em O CR e a Transição para a Democracia em Portugal. É reclamada a presença de Costa Gomes. lê-se numa moção. “Estou farto de brincadeiras…” – desabafa Pinheiro de Azevedo aos jornalistas. O capitão Cabral e Silva lê um manifesto de “oficiais revolucionários”: “O poder popular nunca será verdadeiramente poder se não for armado. “Organizados. Uma portaria legaliza o horário de trabalho da panificação. Por proposta de Pinheiro de Azevedo. comandantes de 12 das 16 unidades põem em causa a reunião da véspera do Copcon e avisam Otelo que 15 | P á g i n a . No Regimento de Comandos. integra dissidentes do MÊS como Jorge Sampaio. como condição. a 20. Vasco Lourenço recebe. baptizada de Intervenção Socialista (IS). Em comunicado. nunca de direita”. Acabemos com as conversas!” – escreve o capitão Duran Clemente no DN de 19. que. Reunidos no Copcon. o Executivo explica que resolveu “suspender o exercício da sua actividade” até que Costa Gomes lhe garanta “as condições indispensáveis”. em plenário. outra expropria mais 96 prédios rústicos no distrito de Portalegre. Este apresenta. A reforma Agrária prossegue: uma nova portaria determina a expropriação de mais 89 prédios rústicos. de punho fechado. perante as câmaras da RTP. Além disso. “A única alternativa para a presente crise é uma alternativa de esquerda. Exercícios de fogos reais decorrem na Arrábida e deflagra uma bomba na livraria do DN no Chiado. apoiada pelo PCP e extremaesquerda.200 pára-quedistas de Tancos à situação de licença. para breve. o precioso apoio dos comandantes das regiões militares do Norte e do Sul. a 21. prontamente desmentido por Costa Gomes. cujo discurso desagrada aos manifestantes. contra a greve do Governo. Este transmite a Costa Gomes a sua mudança de posição. exige Gomes da Costa que ponha termo à “desordem”. daremos as armas aos trabalhadores. Várias unidades aprovam moções de repúdio pela tentativa de afastamento de Otelo. Governo da Esquerda”. que revela a sua discordância. a 22. dos soldados-recrutas do Ralis. na sede da região de Lisboa. O general Morais da Silva determina a passagem de 1. “Fui sequestrado duas vezes. como governador militar de Lisboa. o que leva Vasco Lourenço a renunciar o cargo. Mário Soares avista-se com elementos dos Nove e é equacionada a possibilidade de o Governo entrar em greve. “Todos parecem acreditar ma iminência de um golpe de Estado”. anunciam. escreve Inácia Rezola. Álvaro Cunhal considera que o VI Governo Provisório deve dar lugar a um VII Governo Provisório. Juramento de bandeira. sempre ao lado do povo. utilizavam uma nova “fórmula revolucionária”: “Juramos estar sempre.” Sá Carneiro reclama uma “reestruturação das mais altas cúpulas militares” e Álvaro Cunhal regressa a Lisboa. um “golpe militar de direita”. o que evita uma nova manifestação em São Bento. ligados ao PCP.” O CR toma várias decisões de sinal contrário.Golpe e contragolpe a 25 de Novembro Comandos anulam Polícia Militar e Pára-Quedistas Matutinos do dia 18 de Novembro. Jaime Neves informa dos preparativos desenvolvidos pelos moderados e. de uma nova associação política. que Otelo o apoie juntos das unidades da região.

o PS organiza comícios numa dezena de capitais de distrito. que pretendem levá-los para Tancos. E não avançando. e que se prolongou por 260 dias. pelo que foi aprovada por maioria”. O regimento de comandos. em apoio do manifesto dos oficiais revolucionários. chefiado pelo tenente-coronel Ramalho Eanes. É o fim do PREC – o Processo Revolucionário em Curso. De acordo com a acta. Paralisação de duas horas na cintura industrial de Lisboa. No fim-de-semana. lamenta José Saramago. lido ás 4h da madrugada de 25. Em resposta militares ligados aos Nove. agricultores levantam barricadas em Rio Maior e impedem a circulação na Estrada Nacional nº1. neutraliza. com Soares a reclamar de Costa Gomes o fim das ambiguidades. Em resposta. A pouco e pouco. os pára-quedistas da Base Escola ocupam as bases aéreas de Tancos. Pela primeira vez desde o 25 de Abril. as unidades rebeldes. contra quem quer que seja que desencadeie acções de rebelião armada ou guerra civil”. clarificado o poder militar – com o afastamento e prisão de numerosos oficiais “gonçalvistas” e “revolucionários” –. Na gare de Alcântara são aguardados por camaradas seus. Pouco depois. O Ralis controla os acessos à autoestrada do Norte e o aeroporto da Portela. O CR volta a reunir-se para apreciar a nomeação de Vasco Lourenço. o país retoma a normalidade possível. contra a nomeação de Vasco Lourenço e a desmobilização dos pára-quedistas. “A revolução não avança. Monte Real e Montijo. o contingente segue para a base da Ota. 16 | P á g i n a . com “suspensão parcial das garantias constitucionais”. a jornada culminaria na Fonte Luminosa. em Lisboa.“deve ouvir os seus homens”. confirma a nomeação de Vasco Lourenço para comandante da Região de Lisboa e promete “uma decidida acção militar. “É hora de avançar”. e que se prolonga por uma semana. meio milhar de pára-quedistas vindos de Luanda. e a Escola Prática de administração Militar (EPAM) ocupa os estúdios da RTP. iniciado na noite de 11 de Março. Chegam a Lisboa. uma a uma. a 23. Após alguma tensão. organizados em torno dos conselheiros Melo Antunes e Vasco Lourenço. desencadeiam uma série de acções a partir de um posto de comando da Amadora. dizem os SUV. O Presidente da República prorroga por mais 90 dias a sessão da Assembleia Constituinte. é declarado o estado de sítio na região de Lisboa. chegou-se ao consenso de que a nomeação deveria ser mantida. que fazem 3 mortos. morre”. comandado por Jaime Neves. Na Polícia Militar há mesmo confrontos. na sua coluna no DN de 24. Um comunicado.

o sentido personalista. PCP e PPD. a esta situação – abrindo caminho ao predomínio das instituições civis e do Estado de direito.«o socialismo». a verdade é que se notam as influências dos diversos partidos políticos com assento na Assembleia Constituinte: os direitos. Trata-se de um texto «não neutro» quanto à necessidade de transformações. liberdades e garantias e a democracia política resultam da confluência PS. Se é certo que há um encontro dos princípios liberal-democrático e socialista. os aspectos colectivistas. do encontro PS. as autonomias regionais e locais e as garantias jurisdicionais pelo PPD. a autogestão e o planeamento foram defendidos pelo PS. os rumos e vicissitudes desse contínuo afrontamento entre sistemas. sem grandes sobressaltos. caracterizado pela separação das esferas militares e civil do Estado e pela existência do Conselho da Revolução. de cada um dos lados do muro de Berlim. Sendo certo que em 1975 e em 1976 foram celebrados dois pactos entre o MFA e os partidos políticos. e para um objectivo histórico de maior justiça social e de igualdade de oportunidades . da lei e da justiça. a III República portuguesa não pôde furtar-se ao legado de quase cinco décadas de totalitarismo e isolamento internacional. Estes vários contributos são evidentes e dão ao texto constitucional de 1976 uma conformação poliédrica e aberta. do entendimento PS-PCP. os direitos sociais.117. PPD e CDS. a verdade é que a revi~são constitucional de 1982 pôs termo. que consagraram um período de transição. na qual os partidos políticos desempenharam uma função importante na representação e na participação cívicas. em 1982 e 1989. 51. uma organização política. assente no respeito dos direitos e liberdades fundamentais. «a liberdade de associação compreende o direito de constituir ou participar em associações e partidos políticos e de. nº1). a um tempo.º. 17 | P á g i n a . no qual adquirem um elevado grau de concretização aspectos como os respeitantes ao conteúdo dos direitos. para a afirmação da democracia pluralista-representativa. a defesa das nacionalizações. e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a livre iniciativa económica pelo CDS. numa lógica pluralista. no plano nacional.º1). consagrando. Segundo a própria Constituição. Delineada e revista nos momentos finais um ciclo histórico que antecipou politicamente a entrada noutro século. por via de um compromisso complexo. dois sistemas. concorrer democraticamente para a formação da vontade popular e a organização do poder político» (art. o património útil do constitucionalismo liberal e republicano português. liberdades e garantias dos cidadãos e alguns princípios essenciais relativos à estrutura da economia e da sociedade. participando os partidos «nos órgãos baseados no sufrágio universal e directo de acordo com a sua representatividade eleitoral» (art. no entanto.º. os ensinamentos da experiência ditatorial liberticida (1926-1974) e alguns dos melhores frutos do debate constitucional europeu do pós-guerra (designadamente no tocante à opção por um Estado-Providência e à consagração do semipresidencialismo). duas mundividências. n. a nova ordem jurídico-institucional reflectiu assim. através deles. que as revisões constitucionais tenham sido oportunidade para estabilizar – pacífica e gradualmente – a ordem jurídica democrática e para consolidar o Estado de direito. As cristalizações normativas alcançadas no decurso do processo aberto pelo 25 de Abril não deixaram de colher.O «Compromisso» Constitucional A Constituição de 2 de Abril de 1976 foi inspirada por ideais democráticos e socializantes. do contributo do PPD e do CDS. que se tem adaptado bem à evolução das realidades – permitindo. Constituição e evolução constitucional Nascida sob o signo de uma revolução sem sangue. social e económica orientada. duas visões da Constituição. nem escapar à influência das clivagens que então rigidamente opunham. o socialismo. a Reforma Agrária e as organizações populares de base pelo PCP.

licenciado em Direito. do equilíbrio entre poderes e da paz cívica. a aprovação da Constituição fixou os contornos iniciais do regime. Vertiginosamente. consagrando direitos fundamentais. A Constituição de 1976 e as revisões constitucionais de 1982 e de 1989 (a transição democrática) O papel da Constituição Portuguesa na consolidação da democracia é simultaneamente um papel central e rodeado de controvérsia. advogado e político português. decerto não haverá.1974-1976 (ruptura com a ordem totalitária/aprovação da lei fundamental pela Assembleia Constituinte). separação de poderes/interdependência. pluripartidarismo.A primeira fase da transição democrática portuguesa (assente na dupla recusa da «normalização» e do modelo da democracia popular) decorreu em circunstâncias que propiciaram tanto soluções antecipadoras de grandes sínteses (liberdade/igualdade. desde logo. em apenas 12 anos passou-se da supressão dos elementos característicos da ditadura (desmantelamento do aparelho repressivo. pode-se identificar nesta evolução um padrão global e cinco específicos ciclos de evolução: 18 | P á g i n a . descentralização política e administrativa). garantias de alternância política. como positivo (opção pelo estado de direito democrático.1976-1982 (vigência do texto originário da Constituição da República Portuguesa/primeira revisão constitucional). . Na opinião de António Vitorino. consenso quanto à caracterização desses períodos de evolução. unidade do Estado/autonomias regionais) como numerosos mecanismos de salvaguarda do pluralismo político.1982-1986 (primeira revisão constitucional/adesão à CEE). inscrevem-se quatro etapas de transformação: . eleições livres. Esse compromisso reflectiu-se tanto no plano negativo (rejeição das componentes fundamentais do modelo institucional da Constituição de 1933 e da confusão partido/Estado própria do figurino soviético). mecanismos de democracia participativa. restauração das liberdades e direitos fundamentais) à aproximação crescente entre o regime constitucional português e as democracias existentes nos demais Estados comunitários. Medidas de excepção típicas de situações pós-revolucionárias (como o saneamento da função pública ou a restrição de direitos políticos de responsáveis da ditadura) foram integradas transitoriamente no texto constitucional Embora com o cunho próprio de uma ordem constitucional que proclamava como objectivo supremo a transição par um socialismo sui generis. foi delineamento da Constituição política que atingiu expressão menos frágil o compromisso político entre os diversos partidos que participaram no processo constituinte. cuja valia se comprovou ao longo dos anos. Entre o derrube da ditadura e a consumação e aprofundamento da opção europeia. . sistema de governo misto. assegurando a coexistência entre órgãos representativos emanados do sufrágio popular e estruturas como o Conselho da Revolução e as forças emanadas (então autónomas em relação ao poder civil e com missões de intervenção política). definindo e programando transformações da organização económica e social. da liberdade de sufrágio. dissolução dos organismos corporativos. democracia representativa/ participação cívica. Se se pretender determinar quais os principais ciclos de evolução da nossa recente vida constitucional. A consagração da III República Em 2 de Abril de 1976.

uma revolução acentuadamente reformista acabou afinal por sacrificar o seu principal protagonista. eleições essas que constituíram relevante factor de genuína avaliação democrática de representatividade dos partidos políticos na sociedade portuguesa numa fase de transição de um regime autoritário para um regime plenamente democrático. representado pelo Conselho da Revolução (o primeiro pacto MFA/partidos em Abril de 1975 e o segundo em Fevereiro de 1976. . de base interpartidária. a inegável influência do meio político.. nos temos previstos no próprio Programa do Movimento das Forças Armadas. A elaboração da Constituição durante o período de 1975/1976 esteve sujeita a duas diferentes espécies de envolventes de ordem externa: .primeiro: a luta pela Constituição e a consolidação do sistema de partidos (1974-1975). o que se verificou ao longo de cinco distintos e conturbados ciclos de evolução: . definidas em função das concretas matérias (com o primeiro 19 | P á g i n a .terceiro: a controvérsia constitucional (1979-1982).Do outro lado. por contraste. no mínimo. tensa e conflitual. numa altura que.De um lado. e o sistema partidário definido em 1975 é ainda. . A própria existência e o concreto papel de uma Constituição em 1974 e 1975 ocupou um plano principal na luta política desses anos. tivesse lugar no dia 25 de Abril de 1975. económico e social envolvente. depois dos acontecimentos do 25 de Novembro de 1975). Neste aspecto não se pode negar o contraste evidente entre o caso português e a transição espanhola: aqui. enquanto em Portugal o ambiente de tipo revolucionário acabou por reforçar o sistema de partidos de transição. sobretudo em torno da preocupação de assegurar que as eleições para uma Assembleia Constituinte. relevaram de forma determinante para a sua elaboração os acordos celebrados entre os partidos políticos representados na Assembleia Constituinte e o Movimento das Forças Armadas. por um pendor do sistema partidário «descaído» sobre a esquerda do espectro político e pelas exacerbadas expectativas populares de obtenção de benefícios sociais e económicos imediatos decorrentes da abertura provocada pelo novo regime democrático. o mundo experimentava os primeiros períodos de recessão económica internacional após o progresso alcançado durante a década de sessenta. . .quinto: a consumação do referido padrão geral pela aprovação da segunda revisão constitucional centrada principalmente em questões económicas e ideológico-programáticas. A aprovação da Constituição conferiu aos partidos que mais tinham contribuído para a sua elaboração um papel proeminente na vida política nacional desde então até hoje.segundo: a «normalização democrática» depois da aprovação da Constituição (1976-1978) . b) Sem embargo.quarto: a primeira revisão constitucional centrada na organização do poder político e o progressivo reforço da componente civil do sistema democrático (1983-1986). onde o partido então maioritário (o PS) tinha tentado conciliar convergências com o PSD por um lado e com o PCP por outro. a Constituição foi assumida pelos seus «pais fundadores» como um texto compromissório. assente principalmente na relação das duas forças políticas que entre si disputaram a área política central (o PS e o PSD). caracterizado pelo exacerbamento das definições ideológicas e pela procura de identidade própria dos partidos políticos. nas suas características fundamentais. o ainda existente hoje em dia. Numa síntese necessariamente incompleta pode-se dizer que a Constituição de 1976 é definida na sua versão originária pelos seguintes elementos fundamentais: a) Um carácter marcadamente ideológico dos seus Princípios Fundamentais e de inúmeros normativos constitucionais inspirados em ideologias políticas de sinal divergente e cuja conciliação no mesmo texto constitucional em diversos momentos se revelou difícil ou. a expressão do centro político e moderado personificada na UCD.o padrão geral pode ser caracterizado pelo papel progressivamente menos relevante da luta política em torno da Constituição na vida política contemporânea portuguesa.

A conjugação destes limites com a decisão de não submeter a Constituição aprovada pela Assembleia Constituinte a um referendo popular condicionaram. com o segundo no plano dos Princípios Fundamentais e da Organização Económica). no domínio da iniciativa económica pública (com uma especial garantia de irreversibilidade das nacionalizações efectuadas após 1974). onde manifestamente se pretendeu sobrelevar a componente da representatividade da vontade popular sobre a da governabilidade. de base electiva e de novo de acordo com a matriz da representação proporcional e prevista a criação de uma nova instância administrativa no continente (a região). d) Uma organização económica concebida pela Constituição como «de transição» e «em transição».finalmente consagraram-se garantias de independência dos juízes e tribunais que administram a justiça em nome do povo. entre a vontade destes e os compromissos por eles assumidos perante o MFA no segundo pacto de 1976. . assente num assinalável pendor estatista. por um lado. convivendo com um Governo dependente de uma dupla fiança (do Presidente da República e do Parlamento em simultâneo). f) A ideia do poder constituinte sobre a sua própria função ficou plasmada.foi assim conferido ao Conselho da Revolução (representante do MFA e assente na legitimidade revolucionária) um papel órgão de governo próprio das Forças Armadas. conferindo-se assim ao Chefe do Estado um complexo relevante de poderes próprios. segundo um modelo de autogoverno das magistraturas. . na consagração num artigo da Constituição de limites materiais (explícitos) ao futuro poder de revisão. com órgãos também emergentes do sufrágio popular. significativamente. durante um período entendido como «de transição». questão que desempenhou um relevante papel na controvérsia constitucional subsequente. c) A consagração de um amplo catálogo de Direitos Fundamentais e a consagração de uma especial vinculação do ordenamento jurídico aos seus valores. entre os próprios partidos políticos.acolheram-se na Constituição formas de autonomia política e legislativa das regiões dos Açores e da Madeira. .partido especialmente na sistemática constitucional e no domínio dos Direitos Fundamentais. exercidos «a se» ou enquanto Presidente do Conselho da Revolução (designadamente os poderes referentes à nomeação e exoneração do Governo. englobando não só os direitos civis e políticos de tipo clássico mas também uma ampla gama de direitos económicos.consagrou-se um regime com um Parlamento extremamente dependente do protagonismo partidário e dotado de um relevante papel no domínio da função legislativa e da função de direcção e controlo político. e) Um modelo de «duplo compromisso». na tradição do regime da Constituição de 1933. mas dotado de um complexo de poderes legislativos assinalável. entre uma legitimidade revolucionária emergente do golpe de Abril e a legitimidade democrática decorrente do sufrágio directo e universal): . . os termos da subsequente luta política a propósito da natureza e da função da Constituição. . por outro. e. consideradas regiões autónomas. de que resultou um sistema de «checks and balances» de tipo semipresidencial (ou de parlamentarismo racionalizado). da planificação democrática da economia e do papel da reforma agrária. de órgão de consulta e de condicionamento da acção do Presidente da República (designadamente no plano da nomeação do Governo e da dissolução do Parlamento) e de garante do «espírito da Revolução». sociais e culturais de inspiração diversa.acolheu-se um sistema eleitoral para a Assembleia da república de representação proporcional segundo o método da média mais alta de Hondt. expresso na função de garantia da Constituição mediante o controlo da constitucionalidade dos diplomas normativos. por último. sujeito a um relevante condicionamento da componente militar (apontando-se para a convivência.consagrou-se a eleição directa e por sufrágio universal do Presidente da República (por contraponto ao regime do Estado Novo na sua fase posterior a 1958). ao veto político e à iniciativa de fiscalização preventiva da constitucionalidade dos diplomas legislativos). 20 | P á g i n a . à sua garantia e efectivação. .foi consagrado um modelo de poder local democrático assente nas tradicionais divisões administrativas (município e freguesia). à dissolução do Parlamento.

uma vez que o candidato vencedor. ou. Opunha-se a estes objectivos da então Aliança Democrática o Partido Comunista. em alternativa. no sentido de recusar qualquer tipo de «referendo» constitucional. com as primeiras eleições para o Parlamento e para a Presidência da República. Entre 1976 e 1978 o Parlamento aprovou algumas das leis mais importantes para a consolidação do regime democrático após a aprovação da Constituição (verificada em 2 de Abril de 1976). em 1976. uma vez que se encontravam na oposição. PSD e CDS) e a maioria dos membros do Conselho da Revolução. um acto «refundacional» do regime. mas eram imprescindíveis à maioria de dois terços dos deputados necessária para efectivar a revisão. mesmo antes da campanha. o CDS e a facção ligada a Mário Soares no PS. que sempre esteve contra qualquer alteração substancial da Constituição. em função das suas maiorias de aprovação diversificadas. Mário Soares acabaria por ganhar o Congresso do Partido em Maio de 1981. Francisco Sá Carneiro. a prolongar-se por quatro anos. o possível consenso parlamentar. sendo reeleito seu secretário-geral. e as segundas levaram à Chefia do Estado o general Ramalho Eanes. Aqueças eleições determinaram a constituição do Parlamento de uma maioria relativa do PS. por isso. se comprometeu. Essas leis expressavam. mas também nos domínios económico e social.primeiro. embora na generalidade dos casos fossem consequências de negociações entre socialistas e social-democratas. c) A organização económica excessivamente baseada na acção do Estado e que comportava sérias discriminações contra a propriedade privada bem como contra a iniciativa privada. uma vez que não existia nenhum partido maioritário. o general Eanes.segundo. b) As características não-democráticas da organização política se 1974/1975 e a sua matriz «de transição» e em si mesma transitória. em princípio. CDS e PPM) em Dezembro de 1979 e caracterizou-se principalmente pelo reforço da controvérsia constitucional sob a liderança do então primeiro-ministro e líder do PSD. a abolição do protagonismo militar: existia um claro acordo sobre esta questão entre o PSD. Esta questão foi definitivamente resolvida depois das eleições presidenciais de 1980. que lhe dariam um papel decisivo. O terceiro período começou com a vitória eleitoral da Aliança Democrática (PSD. pelo menos. assim. até ao termo da primeira legislatura da Assembleia da República e até à primeira revisão constitucional). na própria metodologia de revisão constitucional e na recusa da aceitação da teoria do «pecado original» da Constituição.A «normalização democrática» pós-Revolução começou. em virtude principalmente da existência do Conselho de Revolução e dos seus poderes relevantes que haviam limitado a capacidade de livre decisão política dos governos apoiados e legitimados pelo voto popular desde 1976. além da maioria dos membros do Conselho da Revolução. que à data representava o acordo possível entre os três maiores partidos democráticos (PS. face ao apoio à sua recandidatura do Partido Socialista. e o Partido Socialista. foi possível forjar no Parlamento um acordo 21 | P á g i n a . por uma profunda revisão da Constituição de 1976 através de uma subsequente aprovação por referendo popular. dando protecção especial à planificação central estatal e generalizando a interferência pública na vida económica. uma revisão da Constituição através de negociações parlamentares. e. A contestação da Constituição protagonizada pelos partidos da Aliança Democrática assentou em três ordens de argumentos principais: a) O ambiente político não-democrático que rodeara o processo de elaboração da Constituição (o seu «pecado original» para o PSD e para o CDS) e que tinha marcado impressivamente o seu texto: uma tal situação só poderia ser ultrapassada ou pela elaboração de uma nova Constituição. Os socialistas recusaram frontalmente o «referendo» de revisão constitucional e defenderam. Mas esta era precisamente uma das questões centrais da própria discórdia interna ao Partido Socialista. A controvérsia protagonizada essencialmente pela direita parlamentar e pelos socialistas assentou assim principalmente nos seguintes aspectos: . . não apenas nos aspectos políticos e institucionais. nos termos da própria Constituição no contexto de um «período de transição» (destinado.

em virtude da recusa do Partido Socialista em negociar nessa altura uma profunda modificação do sistema económico constitucional. .de base entre o PS e a Aliança Democrática que viabilizou a primeira revisão da Constituição em Agosto de 1982. Esta fase 22 | P á g i n a . especialmente na extinção do Conselho de Revolução. .terceiro. permanecem inalterados. o principal objectivo da luta política democrática consistiu no reforço da componente civil e da vertente parlamentar do regime. embora tenha deixado inalteradas algumas disposições programáticas que revelavam um certo encantamento pela liderança económica do Estado. No plano político. . especialmente certos princípios de inspiração mais marcadamente socialista. Para a liderança de Mário Soares. não podendo o Presidente da República demitir o Governo a não ser em situações-limite de crise institucional grave) e concebia a instituição presidencial sobretudo como uma «instância de salvaguarda» do regular funcionamento das instituições políticas. um certo «modelo terminal» de organização económica baseado na iniciativa estatal. entre outros). (aliás em questões essenciais defrontando oposição maioritária dentro do próprio grupo parlamentar socialista). por isso.os elementos programáticos e ideológicos da Constituição. No plano económico: . não obstante a política dos sucessivos governos desde 1978 estar cada vez mais afastada nas medidas concretas adoptadas e na sua retórica desse tipo de modelo. social e ideológica não se figurava fácil. a revisão deixou inalterados os normativos que pretendiam prevenir eventuais retrocessos na construção do socialismo (principalmente o preceito que proibia a privatização das empresas públicas e nacionalizadas após 1974. uma espécie de «poder moderador» permanente da vida política (daí o poder de veto político e o direito de iniciativa de fiscalização preventiva da constitucionalidade. cooperativa e autogestionária. no decorrer dos quatro anos seguintes. salvaguardando as suas características principais enquanto sistema de tipo semipresidencial ou de parlamentarismo racionalizado. o PS e o CDS decorria do objectivo central de conferir uma certa proeminência à componente parlamentar do regime (os governos passavam a depender primordial e quase exclusivamente da relação de forças partidárias no Parlamento.a revisão aboliu a maioria dos elementos que se baseavam na ideia de que o sistema económico constitucional era meramente transitório. . e. no que respeita à organização económica a controvérsia substituiu mesmo após a revisão constitucional 1982. sujeito a uma inevitável evolução em direcção ao socialismo.embora mantendo o modelo semipresidencial. A primeira revisão da Constituição neutralizou temporariamente a controvérsia constitucional nos aspectos políticos e institucionais. e as normas referentes à planificação económica e à reforma agrária). ficou claro que o acordo básico entre o PSD. cuja revisão foi apresentada como consequência directa da então abolida condicionante militar no exercício do poder político democrático. agora todo ele assente na exclusiva legitimidade democrática. embora desde o preciso momento da sua conclusão (Setembro de 1982) tenha ficado claro que se tratava de uma revisão «a meio caminho» entre a «guerra aberta» sobre a Constituição e a desejável «paz constitucional» ainda não alcançada. depois de um período caracterizado por uma assinalável condicionante de tipo militar e de um «medir de forças» entre a dinâmica partidária centrada no Parlamento e a afirmação de uma leitura «presidencializante» da Constituição expressa na conduta do então Presidente da República.redefiniu consequentemente o sistema de governo. com excepção de algumas disposições de menor alcance. necessitava de obter um acordo equilibrado dentro do seu próprio partido o que. e numa perspectiva de síntese dos seus elementos essenciais. Após a primeira revisão constitucional pode-se dizer que. acima de tudo. a revisão de 1982: .aboliu o Conselho da Revolução. sobre as temáticas de ordem económica. era absolutamente necessário centrar esforços no objectivo prioritário que havia elegido – a revisão das regras atinentes à organização do poder político. mas com poderes suficientes de crise político-institucional (tais como o poder de dissolver o Parlamento e de convocar as subsequentes eleições).

culminou quer com a eleição do Presidente Mário Soares em 1986. a tese do «pecado original» da Constituição. assim. tornando as futuras alterações da definição dos círculos eleitorais dependentes da votação favorável de uma maioria de dois terços dos deputados. sem dúvida. cinco anos após a primeira revisão. em 1987.ª revisão no tocante à forma de designação dos respectivos juízes (dez escolhidos pelo Parlamento por uma maioria de dois terços e os restantes três cooptados pelos dez iniciais). nem o PSD nem o CDS defenderam a necessidade de um «referendo» para proceder à reforma da Constituição. sendo aceite como natural que a mesma assentasse em negociações parlamentares a ocorrerem nos prazos previstos pela própria Constituição. na regulação da protecção dos dados pessoais face à informática e na consagração de um princípio de «administração aberta» que exprime uma melhor garantia dos direitos dos administrados (para além da ampliação das condições de acesso ao contencioso administrativo). 23 | P á g i n a . a segunda revisão completou a primeira no capítulo dos Direitos Fundamentais. Neste contexto. c) Ratificou a existência e a composição do Tribunal Constitucional. centrada principalmente nas disposições sobre a organização económica e sobre os direitos dos trabalhadores. b) Estabilizou o regime constitucional referente à lei eleitoral para a Assembleia da República. na retórica envolvente dos discursos partidários sobre a revisão. ao contrário da primeira. d) Institucionalizou-se o «referendo» deliberativo para matérias não-constitucionais. não só por ser o primeiro Presidente da República civil em cinquenta anos em Portugal (numa eleição em que todos os candidatos eram civis). ratificou o acordo a que se havia chegado em 1982 sobre a organização do poder político: a) Não houve modificações relevantes no modelo político global. de acordo com as regras que caracterizam o tipo de economias dos países da CEE. da primeira maioria parlamentar de um só partido (o PSD liderado por Aníbal Cavaco Silva). e todos os partidos políticos começaram a preparar-se efectivamente para as negociações parlamentares que inevitavelmente iriam ter lugar num futuro próximo. mas também por se tratar do principal crítico das leituras «presidencializantes» do anterior titular do cargo. Uma revisão que nascia. em vez da regra anterior da maioria simples. a organização económica: a) A segunda revisão adoptou expressamente um modelo de economia mista. neste período assistimos à renovação da controvérsia sobre a questão constitucional. No entanto. Nesta fase já não se tratou de uma «controvérsia global» sobre a legitimidade da Constituição no seu conjunto. quer com a constituição. ou seja. despida da controvérsia quanto à própria metodologia. Antes do mais. menos relevante e não foi retomada. Depois do Governo do «bloco central» (PS/PSD – 1983/1985) tornara-se claro que os socialistas estavam disponíveis para cooperarem numa segunda revisão constitucional que pudesse completar a primeira. mas apenas de uma «controvérsia parcial». mantendo-se inalterados os «checks and balances» dos poderes dos órgãos de soberania definidos em 1982 após a extinção do Conselho de Revolução. Contudo. De facto. pelo menos em termos significativos no plano nacional. desde as eleições parlamentares de 1985. muito embora com características diferentes das da fase anterior. a partir de Setembro de 1987. abrangendo sobretudo as áreas económicas e ideológicas da Lei Fundamental. é possível dizer que a segunda revisão é essencialmente complementar da primeira. que tinha sido uma das questões mais controversas na 1. A controvérsia sobre os temas ideológicos e programáticos foi. sociais e culturais. no reforço dos direitos de petição e de acção popular. o tema principal da segunda revisão constitucional foi. Por outro lado. em especial na integração dos direitos dos consumidores enquanto direitos económicos.

adaptando-o a algumas regras referentes ao regime de acesso aos fundos comunitários. todos do CDS. Finalmente. em 1983. tudo foi feito durante a formação do Governo PS/PSD. de acordo com preocupações relacionadas com a designada «crise fiscal» do Estado moderno. em 1980. Amaro da Costa aproveita plenamente a arma do Orçamento do Estado para dar um peso político excessivo ao MDN e faz deste o centro principal da preparação do lançamento da candidatura presidencial de Soares Carneiro. finalmente. e no que diz respeito à utilização da arma orçamental. ou seja. Os nomes de Adelino Amaro da Costa. a fim de se permitir um crescimento efectivo da capacidade do consumo privado. perante as mais altas individualidades militares. antes de o fazer na Assembleia da República que: … O Governo entendeu propor à Assembleia da República que aprove um acréscimo de quatro por cento. em termos reais. Amaro Costa utiliza a fundo as relações externas no âmbito da NATO para imprimir a sua influência na reorganização dos ramos das Forças Armadas. e) Deixou inalterados os direitos dos trabalhadores e introduziu algumas modificações em certas normas da constituição social (principalmente dobre a saúde e a segurança social). fácil é compreender que nos encontramos perante um projecto de apoio financeiro às Forças Armadas portuguesas de sentido fortemente positivo. c) Tornou mais flexível o sistema de planeamento económico. Sabendo-se que é nula. na alteração das relações entre o poder político e a instituição militar. Já no que diz respeito à aplicação da Lei da Defesa. É ele que o diz: 24 | P á g i n a . estão indissoluvelmente ligados a essa preparação. em Janeiro de 1980. d) Procedeu a uma clara subavaliação do papel da reforma agrária no contexto global da política agrícola. Em primeiro lugar. Amaro Costa não deixa de pretender agir na preparação das novas relações a estabelecer entre o poder político e a instituição militar. para 1980. Amaro Costa apresenta-se consciente do seu manejo. a segunda revisão suprimiu praticamente todos os preceitos de cariz ideológico e programático que suscitavam controvérsia. se poderiam considerar de inspiração marxista. a proposta de acréscimo do consumo da administração central. Azevedo Coutinho e Diogo Freitas do Amaral. abolindo assim o princípio da «irreversibilidade das nacionalizações» e consagrando concomitantemente um conjunto de princípios a que deverão obedecer as reprivatizações. Assim. Numerosas e diferentes pressões foram levadas a efeito para impedir a nomeação de um socialista como ministro da Defesa.b) Permitiu em sede constitucional a privatização total das empresas públicas nacionalizadas após 1974. ainda que escasso à luz das necessidades e das carências com que elas se debatem… Em segundo lugar. em termos reais. Com efeito. especialmente todas as referências ao socialismo e outras expressões que. para que fosse um elemento do PSD a implementá-la. a 9 de Abril de 1980. A revisão constitucional de 1982 e as modificações nas relações entre o poder político e a instituição militar Os Governos da Aliança Democrática e a preparação da revisão constitucional no domínio militar Os Governos da AD assumiram especiais responsabilidades na preparação da revisão constitucional e na elaboração da Lei de Defesa Nacional. anuncia. em discurso proferido no Mosteiro da Batalha. A primeira grande oportunidade de controlo por parte da AD vai aparecer com a chegada de Amaro da Costa a ministro da Defesa Nacional. das despesas de funcionamento de vários sectores da defesa nacional. de forma directa ou indirecta.

Em Terceiro lugar. a um candidato que fosse uma personalidade militar (…). Era. constituiu uma mudança significativa no enlace entre as Forças Armadas portuguesas com as missões militares da Aliança Atlântica até então estabelecidas através da Armada. posto perante a questão concreta da possível candidatura do general Soares Carneiro. o comando supremo das Forças Armadas. se a chefia do Estado for ocupada não por um civil. chefe do Estado-Maior do Exército. Mas é o preço da conduta desse ramo. e que teve então a sua principal expressão na activação da Brigada Mista Independente do Exército. conseguiria conter em Portugal as veleidades anti-ocidentais. nomeadamente a NATO.«Preparar. responde: A meu ver. a eleição presidencial e a revisão constitucional estão intimamente ligadas entre si e à questão militar: Desde sempre me inclinei. Pela importância política que havia adquirido após o derrube da ditadura e pela forma como. em 1980. o período de reestruturação das Forças Armadas portuguesas assente na ajuda externa proveniente de países da NATO. a activação da Brigada Mista Independente. a dar o meu apoio. apesar de tudo. mas por um militar bem inserido na instituição (…) A tese de um candidato militar (…) não corresponde. a consolidação e o fortalecimento das instituições democráticas no nosso País (…) sem ambiguidades nem tergiversações. a Armada o ramo das FA portuguesas com maior empenhamento operacional nas missões da NATO. com efeito. mantendo-se o ramo do Exército praticamente desactivado. na certeza de que está assim contribuindo para evitar vazios ou improvisações perigosas no momento em que. prevista para actuar fora das fronteiras portuguesas no flanco sul da NATO. como cidadão e como político. Ora. Penso que se poderá realizar uma mais fácil. se estabeleça uma relação nova entre o poder político democrático e a instituição militar. 25 | P á g i n a . embaixador dos EUA em Lisboa. para orientar o enquadramento da instituição militar portuguesa através do MDN. Estávamos em Abril de 1980. Acresce que a constituição dessa brigada. pois. e Frank Carlucci. a AD revelava conhecer bem o papel das eleições presidenciais na escolha de um militar que comandaria as Forças Armadas e asseguraria um certo tipo de relações entre a instituição militar e o poder político. Amaro da Costa utilizou a fundo a arma das alianças internacionais de Portugal. Para Amaro da Costa. em Fevereiro de 1976. Inaugura-se. mas próximas eleições presidenciais. dava uma grande oportunidade de reconversão e de modernização do ramo Exército após a Guerra Colonial. o Exército será credor de uma prioridade na reconversão das missões militares que não será do agrado dos outros ramos nem das antigas oligarquias portuguesas.» Para essa relação nova entre o poder político democrático e a instituição militar irá ter muita importância a eleição presidencial de Dezembro de 1980 e a revisão constitucional após o fim da primeira legislatura. em princípios do ano de 1976. na qual desempenhou papel decisivo o entendimento entre o general Eanes. entre outras razões pela hipertrofia Ada sua dimensão no teatro de operações africano. essa normalização é também um dever. mais segura e mais profunda condução do País para uma vida constitucional integralmente democrática e representativa sem vínculos de acento revolucionário. Amaro Costa. o general António Soares Carneiro reúne características que o permitem antever como um Presidente da República capaz de assegurar dignamente a chefia do Estado português. desde já. findo o período de transição. Através de Amaro Costa. O Governo não se furta a ele. à reedição do método que levou à escolha do general Ramalho Eanes como candidato em 1976.

pois as condições pactuais são o contributo revolucionário para a nova Constituição (…) Este acordo constitucional é. Pode hoje dizer-se ter sido a existência deste período de transição um dos factores que permitiram o entendimento entre o Partido Socialista. O período de transição foi considerado necessário pelo general Costa Gomes no discurso que proferiu na sessão inaugural da Assembleia Constituinte. A maior consequência do período de transição foi o estabelecimento de uma osmose entre a instituição militar e o poder político destinada a vigorar num prazo de tempo limitado. em simbiose fecunda entre as vias revolucionárias e eleitoral. Tribunal Constitucional. desposa o Plano-Guia MFA/Povo em que se propõe um novo tipo de regime político assente no poder popular e na democracia directa. Se bem que com o II Pacto MFA/Partidos. vistos estes como derivados da influência militar na vida política portuguesa. de Fevereiro de 1976. às sublevações em unidades da Força Aérea e ao radicalismo político na altura vigente na Armada. um esquema de segurança e um contributo revolucionário. O essencial dessa revisão resumiu-se nesse autêntico pacto interpartidário de 1982 em substituição do II Pacto MFA – Partidos de Fevereiro de 1976. mas a acção do general Lemos Ferreira não terá sido menor do que a de Amaro da Costa na altura. Esta tese irá ser sistematicamente defendida pelo ministro da Defesa no decorrer do ano de 1980 nas reuniões internacionais e Amaro da Costa irá fixar como objectivo da sua acção externa a aquisição de três fragatas para a Armada. embora bastante mais tarde. um fecundo padrão que marca a originalidade da revolução socialista portuguesa. em 1974. que consagrava a influência militar no plano político sem limite de tempo. ainda aí determinaram os 26 | P á g i n a . no Verão de 1975. pois. chegando a receber algumas promessas nesse sentido. nomeação e demissão dos chefes militares). A revisão constitucional de 1982: do Pacto MFA – Partidos ao Pacto Interpartidário CDS – PSD – PS A concepção de um período de transição após as eleições para a Assembleia Constituinte em 1975 cedo se apoderou da maior parte dos estrategos militares. Coube a Amaro da Costa a defesa e execução da tese contrária. segundo a qual Portugal necessitava sobre tudo de meios aeronavais. Pela primeira vez desde a queda da ditadura. No Pacto Interpartidário ente a AD e o Partido Socialista residiu o essencial da revisão constitucional: tratouse de diminuir os poderes de iniciativa institucional do Presidente da República (nomeação e demissão do primeiroministro. a 2 de Junho de 1975. tratou-se de extinguir o Conselho da Revolução e de distribuir as suas funções por diversos órgãos – Conselho de Estado. em 25 de Novembro de 1975. desde Rosa Coutinho e Vasco Gonçalves até Melo Antunes e Vítor Alves. Governo e Assembleia da República. Em suma. quando. não seriam as Forças Armadas a determinar o tipo de relacionamento com o poder político. Só Otelo Saraiva de Carvalho dará expressão militar a diferente tendência. perante responsáveis da Aliança Atlântica.que se impusera. Conseguirá a Força Aérea também alguma ajuda externa no referente a aviões de combate e sobretudo de transporte. constituída pela aliança interpartidária atrás mencionada. Para todas estas modificações funcionou uma maioria de mais de dois terços dos deputados. o Partido Social Democrata e o Centro Democrático Social para a revisão constitucional de 1982. as Forças Armadas tivessem optado pela defesa de um regime de democracia política pluralista. nos seguintes termos: Queremos que a nossa revolução progrida para um socialismo pluripartidário. a passagem de Amaro da Costa pela pasta da Defesa demonstrou a grande plasticidade da situação político-militar e a importância da MD na orientação das Forças Armadas.

27 | P á g i n a . em Setembro de 1982. sob proposta do Governo. a 5 de Novembro de 1982. a guarda dos arquivos da antiga polícia política da ditadura. a Lei da Revisão Constitucional que fora aprovada pela Assembleia em Junho do mesmo ano. em 1989. de características eminentemente parlamentares. Para todas estas questões haverá entendimento entre o Governo AD e o Partido Socialista. sujeitas a intensas controvérsias. uma vez que sabemos quem em 1976. em geral. tivemos seis constituições. aliás. mas critica certas soluções encontradas para a revisão constitucional.ª revisão teve mais uma vez o voto favorável do PS. do PSD e do CDS? A história política portuguesa mostra que. em distintos momentos históricos. desde o período liberal no início do século passado. elaborado no Verão de 1980 e no qual se garantia a manutenção dos poderes presidenciais após a revisão constitucional. Como nota final. Declarou então: A Assembleia da República. criada pela Assembleia da República em 1981. em 16 de Julho de 1982. o general ramalho Eanes dirige-se aos portugueses num discurso em que não menciona qualquer aspecto da Lei de revisão constitucional relacionado com as Forças Armadas. Só o faz no início desse mês. no legítimo exercício dos seus poderes de revisão constitucional. e face às relações entre o poder político e as Forças Armadas em particular. De facto. a criação do Tribunal Constitucional. pronunciou importante discurso através da RTP. quando recebe a lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas. a única cautela tomada sobre o fim do período de transição pelos estrategos responsáveis do II Pacto MFA/Partidos consubstanciou-se num tópico do protocolo eleitoral entre o Presidente da República e o PS. por maioria qualificada superior a dois terços dos deputados. Pode mesmo falar-se de alheamento da instituição militar face ao processo da revisão constitucional. em 1982. uma vez que visavam legitimar novos regimes políticos emergentes em situações de rotura constitucional e por isso foram. ao passo que agora vão assistir ao evoluir da consolidação do Pacto Interpartidário entre a AD e o PS. logo o ministro da Defesa. 1933 e 1976) e apenas uma (a de 1826) não teve origem revolucionária (tendo sido outorgada pelo Rei). entendimento centrado sobre o fim da influência militar na vida política portuguesa e a instauração de um regime político de partidos. a Constituição teve o voto favorável do PS. duas alterações fundamentais à Constituição da República – a extinção do Conselho da Revolução e a atribuição da competência para nomear e exonerar os chefes de Estado-Maior ao PR. cinco das quais com origem em acontecimentos de tipo revolucionário (1822. qualquer efeito na orientação dos trabalhos da comissão parlamentar da revisão constitucional. Freitas do Amaral. É de salientar que os militares que se haviam rodeado de tantas precauções no processo constituinte em 1975 não foram além de algumas declarações individuais no período preparatório da revisão constitucional. a 2. contestadas ou rejeitadas mesmo por diversos protagonistas políticos e por distintos sectores sociais. que. De imediato. o PR promulga. a 1. Assim. do PSD e do CDS e que. Os militares e a revisão constitucional de 1982 Paradoxalmente. 1836. A «paz constitucional» não é das mais relevantes características políticas da nossa vida pública. o ministro da Defesa equaciona três dos problemas levantados pela extinção do CR: o destino a dar ao serviço de apoio deste.ª revisão teve o voto favorável do PS. do PSD e do PCP. Todas estas constituições portuguesas estiveram sempre sob pressão política muito significativa. aprovou anteontem.termos da sua inserção no sistema de poder. e até Novembro não se pronuncia sobre ela. será que podemos dizer eu a controvérsia em torno da Constituição terá acabado após a segunda revisão constitucional? Existirá finalmente uma verdadeira estabilidade no «arco constitucional» em Portugal. As poucas declarações individuais não tiveram.

Mas esta «pluralização do programa económico constitucional» não corresponde nem a uma preocupação de «neutralidade» da Lei Fundamental desta sede. O que se ampliou foi o espectro das escolhas possíveis dentro de grandes balizas constitucionais. assente na cooperação entre o Presidente e a maioria parlamentar (de que dimana o Governo). cada um deles apoiado por diferentes sectores da sociedade portuguesa. Pelo contrário. económica e social envolvente. continuamos ainda. Uma revisão muito menos dramática e mais pontual do que as anteriores. nem tão pouco a um sentido de substituição do modelo original por outro que se lhe contrapusesse em termos de exclusão. sem dúvida. ainda que formalmente de acordo e dentro das regras da própria Constituição. não obstante a profundidade das alterações introduzidas nas duas revisões constitucionais. em tornos dos quais só a evolução da luta política poderá determinar um concreto desfecho com projecção no texto constitucional. a resposta à questão colocada pode tentativamente procurar-se em torno de três tópicos de análise. mas ambos legitimados pelo sufrágio directo e universal. os limites materiais do poder de revisão contidos no texto da Lei Fundamental. ousado antecipar que a matéria da organização do poder político voltará então a estar no centro das atenções dos legisladores da futura revisão. sem postularem para tal adaptação uma rotura com o «modelo genético» de 1976. agora que a prática política concreta demonstrou que mesmo com um sistema eleitoral assinalavelmente proporcional o eleitorado gerou por vontade própria e em dois distintos momentos maiorias absolutas (de votos e de mandatos) de um só partido. mas também porque o seu elemento definitório. Primeiro: do texto original da Constituição. não só por razões de ordem formal que se prendem com a expressa preocupação de os legisladores das revisões se manterem no quadro emergente da Lei Fundamental de 1976. de três desafios principais: a) O desafio da estabilidade política. e não apenas num mero conceito formalista. assente no compromisso originário. as quais. Ambas as revisões permitiram demonstrar a «adaptabilidade» do texto constitucional à evolução da conjuntura política. é de entender que. na sua evolução concreta. perante a mesma Constituição. Terceiro: haverá de certeza uma terceira revisão da Constituição. 28 | P á g i n a . b) O desafio de corresponder às reais expectativas de ordem social do povo português. foi mantido nas duas revisões constitucionais. Mas ainda e inevitavelmente caracterizada por uma certa tensão nos debates. Não será. criadas pela efectiva melhoria das condições de vida decorrente da primeira fase da integração europeia e por vários anos de crescimento económico continuado. se tivermos em linha de conta as propostas dos partidos políticos que não foram acolhidas nem na primeira nem na segunda revisão constitucional e que constituem «cadernos reivindicados» em aberto. contudo. no sentido de que designadamente nas áreas económicas a Constituição deveria oferecer aos governos a possibilidade de usufruírem de uma escolha flexível e ampla das políticas a prosseguir para alcançar os objectivos económicos de ordem geral constantes da própria Lei Fundamental. possibilitam a convivência de «leituras governativas» de sinal distinto. Do que fica expresso resulta que o consenso constitucional alcançado em 1989 ficará dependente. sendo mais consensuais. No entanto. é generalizada a ideia de que a «questão constitucional» tem vindo a perder a sua projecção e o seu lugar central na luta política contemporânea em Portugal. mas que teria ocorrido em Portugal uma espécie de «transição» (pacífica) de um sistema constitucional para outro. apenas 45 de 300 artigos permanecem inalterados: há mesmo quem afirme que já não se trata propriamente da mesma Constituição.Não obstante. tendo sido observado em ambos os casos. Segundo: a segunda revisão constitucional baseou-se num princípio de «desregulação constitucional». previsivelmente dentro de cinco anos.

a história da busca de fórmulas mais ou menos estáveis de governação por parte dos partidos vencedores dos sucessivos actos eleitorais. 29 | P á g i n a . Com efeito. aquando a vigência da Constituição é. e. este. por outro lado. ao consagrar o sistema eleitoral proporcional pela média mais alta de Hondt. O eixo da vida política portuguesa deslocou-se. Cavaco Silva. mais do que a competência própria de cada governo ou o grau de simpatia inspirada pelas alternativas ideológico-programáticas sujeitas ao juízo dos eleitores. tornou difíceis as maiorias monopartidárias. pois. Intérpretes privilegiados dessa dupla preocupação foram Eanes e Soares. Por um lado. Poderá mesmo dizer-se que. em momentos-chave da evolução política entretanto registada. por outro.O Poder Central A Constituição de 1976 estabeleceu um prudente sistema de pesos e contrapesos para o exercício do poder central. criando. Por outro lado. ao adoptar um sistema semipresidencialista. A experiência de funcionamento deste sistema de presos e contrapesos encontrou um poderoso aliado no comportamento do próprio eleitorado. operou uma sábia divisão de poderes ao mais alto nível do Estado. Uma busca condicionada pelo cruzamento entre factores conjunturais de ordem institucional e de ordem económica. as incidências no comportamento do eleitorado dos efeitos dos ciclos de crise ou de expansão da economia. assim. um obstáculo institucional à tentação de um presidencialismo do primeiro-ministro. soube escolher para a presidência da República e para o Governo representantes de correntes políticas de sinais opostos ou divergentes. sob pena de riscos de instabilidade política. graças a um afortunado calendário eleitoral e a alguma inegável habilidade estratégica: o Partido SocialDemocrata e o seu líder. quer de estratégias para a solução de crise económico-financeira. foi o cruzamento daquelas duas ordens de factores que determinou as sucessivas alterações na composição partidária do Executivo até ao repetido triunfo da fórmula do governo monopartidário de maioria absoluta do PSD. tendo. a saber por um lado. pois. A história do exercício do poder central. da preocupação pela definição da arquitectura institucional do novo regime para a dupla preocupação pela definição quer de condições políticas de estabilidade e equilíbrio no funcionamento das novas instituições. superado a dificuldade de formação de coligações ou executivos minoritários duradouros pela via de uma inusitada concentração de votos no partido e na personalidade que melhor souberam aproveitar os benefícios da conjuntura económica. num convite implícito à formação de governos de coligação. com vista a um rápido desenvolvimento do País no âmbito do processo de integração europeia. a oportunidade e o modo com os presidentes da república fizeram o uso da competência constitucional de dissolução do Parlamento. ou de parlamentarismo mitigado.

Eanes. não esconde no discurso de 25 de Abril desse ano a incomodidade que lhe começa a causar o estilo de governação de Soares. propondo ao PSD negociações para a aprovação de duas leis de regime com vista à definição das regras de jogo no difícil terreno 30 | P á g i n a 1976 28 de Janeiro: O PCP afirma que ocorreram mais de 300 atentados desde Maio de 1975. a poucos metros do centro do PCP. obteve um certo êxito no que toca ao primeiro objectivo. consolidando as novas instituições e regulamentando os direitos. procura num primeiro momento influenciar o presidente no sentido de o distanciar do governo de Soares e encarar a alternativa de um governo de salvação nacional e de competências. uma plataforma de convergência com o CDS.O Triângulo Conflitual da Instabilidade: Eanes. a confiança depositada por uma extensa maioria na personalidade do novo presidente da República. 23 de Abril: O Movimento Anticomunista Português (MAP) reivindica a autoria do ataque bombista à Embaixada de Cuba. Apercebendo-se rapidamente das virtualidades a prazo de uma tal situação. dois feridos e um prédio de dois andares totalmente destruído. que solicita a máxima vigilância para as sedes dos partidos. evitar o agravamento dos desequilíbrios financeiros. que visava satisfazer os anseios de desenvolvimento e justiça social gerados pela revolução. o líder do PSD. a Constituição da República Portuguesa. através do seu grupo parlamentar. A ausência de uma alternativa no quadro parlamentar saído da recente consulta eleitoral. 14 de Maio: Na Avenida da liberdade um atentado bombista faz um morto (jovem de 15 anos) e seis feridos. da responsabilidade do PS e liderado por Mário Soares. ainda fortemente abalada pela fragmentação do PREC. a consciência generalizada das dificuldades herdadas da ditadura conservadora e do processo revolucionário e agravadas pela crise económica internacional. no mínimo. conhecido militante . 25 de Abril: Têm lugar as primeiras eleições para a Assembleia da República. mas viu a sua actuação saldada num relativo fracasso no que respeita ao segundo objectivo. Almeida Santos. de Freitas do Amaral. tenta não sacudir a pressão de que se vê alvo. liberdades e garantias constitucionais através de um imenso labor legislativo. Sá Carneiro. Poderá dizer-se que este primeiro Governo. 16 de Fevereiro: A vaga de terrorismo alarma a Comissão Nacional de Eleições. em resultado da explosão de uma bomba incendiária na residência de António Ribeiro Teixeira. a menosprezar a importante posição institucional do presidente Eanes. e uma política de restrições orçamentais e de controlo do défice da balança de transacções correntes. Hesitação essa a que se juntava uma manifesta incapacidade para superar um certo espírito de triunfalismo auto-suficiente com que iniciara a sua governação. passara facilmente a prova da investidura parlamentar. em que se distinguiu o ministro da Justiça. celebrando pouco depois. por seu lado. sobretudo. Com efeito. o general Eanes. Pouco passava das 5 horas da manhã quando um petardo destruiu completamente um carro frente ao Hotel Liz. 21 de Maio: Um morto. que contribuía para o crescendo das oposições à sua direita como à sua esquerda. 2 de Abril: É aprovada na Assembleia Constituinte. em Abril de 1977. levando-o a descurar o diálogo coma aposição e os parceiros sociais e. Soares e Sá Caneiro (1976-1980) O primeiro Governo Constitucional. que procurava. O PS. o Governo dava mostras de uma paralisante hesitação. enredado na contradição entre uma política moderadamente expansionista. aconselhavam um período de acalmia. com a estabilidade mínima necessária ao progressivo restabelecimento da autoridade do Estado. e dos equilíbrios financeiros indispensáveis à expansão da economia.

um organismo particularmente exigente nas condições a preencher pelos países que se viam obrigados a recorrer. num tal quadro. graças ao acordo estabelecido entre os dois do Campo (Santo Tirso). Necessitando. ao mesmo tempo que se distancia criticamente de Eanes. de um apoio parlamentar alargado. que iria por à prova os mecanismos institucionais previstos para obviar a tais situações. com o indispensável aval do Fundo Monetário Internacional (FMI). Aprovadas ambas no do MDP/CDE. Soares opta por propor uma moção de confiança à Assembleia da República. o PS parecia ter readquirido algum controlo da situação. pelo contrário. tudo corria pior. presidente da República. Se. presidente da República. à revelia da vontade de Sá Carneiro. da liderança do seu partido e 16 de Julho: Mário Soares é inicia um processo de capitalização de apoios à direita através da indigitado primeiro-ministro pelo agitação da bandeira de uma revisão constitucional antecipada. De tal forma que se tornara inevitável recorrer a vultosos empréstimos internacionais. na esperança de evitar um voto negativo cruzado do PCP com os partidos à sua direita. partidos. já na frente económica. mas recusando. em São Martinho Verão de 1977. na frente política. ao mesmo tempo. que via assim Eanes toma posse como comprometida a sua estratégia de ruptura com o governo do PS.económico: a lei de delimitação dos sectores vedados à iniciativa privada e a lei de bases da Reforma Agrária. pela qual visava transformar o PSD no eixo de uma alternativa futura. qualquer coligação governamental. Não o consegue e o seu governo cai a 7 de Dezembro de 1977. Estava aberta a primeira crise governamental do novo regime constitucional. irão desencadear 14 de Julho: O general Ramalho uma forte reacção por parte deste último. em consequência. 31 | P á g i n a . Demite-se.

embora com algumas alterações realizadas. É sempre bom saber um pouco do passado para compreender a política actual. Gostei imenso de elaborar este trabalho de pesquisa. É curioso o facto de a constituição actual ser a de 1976. Espero que também tenha gostado deste trabalho. uma vez que passei a conhecer um pouco mais do passado político do nosso país. nomeadamente a nível de político. 32 | P á g i n a . com épocas caracterizadas como conturbadas e de grande instabilidade. Consegui reforçar o que conhecia relativamente às posições e ideologias dos partidos políticos portugueses. e perceber de que modo estes contribuíram para a elaboração da Constituição de 1976. que foi fortemente marcado pelas influências militares.Conclusão Com a realização deste trabalho proposto adquiri vários conhecimentos.

coordenação J. Círculo de Leitores Os dias loucos do PREC.Brandão de Brito.M.Bibliografia 20 anos de Democracia. Círculo de Leitores História Contemporânea de Portugal. Expresso e Público 33 | P á g i n a . por António Vitorino O País em Revolução. da autoria de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

2010 Início da orientação do trabalho escrito. 08. 01. 22.2010 Análise de toda a pesquisa recolhida e selecção da mesma. 29. 25.Relatórios das aulas 18.02.02.2010 Conclusão do trabalho realizado na aula anterior.2010 Distribuição dos temas e das tarefas por todos os elementos do grupo.2010 Início da pesquisa para a elaboração do trabalho. Organização de ideias e planificação do trabalho a desenvolver.02.2010 Continuação do trabalho realizado na aula anterior. 34 | P á g i n a .2010 Não estive presente na aula.01. 05.2010 Recolha de informação útil para o desenvolvimento do trabalho.01.01. 12.01.02. nomeadamente em livros trazidos pela professora.

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