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EDIÇÃO Nº2582 20/06


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BRASIL

Cerco aos hackers


A PF segue no encalço dos criminosos que violaram as conversas
mantidas entre o ex-juiz Sergio Moro e integrantes da Lava Jato. Pistas
estão sendo seguidas no Brasil e no exterior, e os policiais acreditam
estarem próximos de alcançar os cabeças do grupo
Germano Oliveira

20/06/19 - 19h00 - Atualizado em 21/06/19 - 20h04

Desde que o site The Intercept Brasil revelou as trocas de mensagens privadas entre
o ministro da Justiça, Sergio Moro, e os procuradores da Lava Jato em Curitiba, o Brasil
acompanha apreensivo à divulgação, em doses homeopáticas, do teor das
interceptações – fruto da violação de celulares de autoridades brasileiras. O
constrangimento ao qual foram expostos os integrantes da Lava Jato e o ex-juiz que
se tornou símbolo do combate à corrupção no País pode mudar de lado. A Polícia
Federal planeja-se para, nas próximas semanas, tentar emitir uma contundente
resposta ao que classi ca de ação orquestrada perpetrada por criminosos de alto
calibre. Sob a coordenação do diretor-geral Maurício Valeixo, a PF acredita ter se
aproximado dos hackers que invadiram a privacidade dos procuradores e expuseram
as vísceras da Lava Jato. Em investigações preliminares, os agentes da Polícia Federal
já identi caram conexões no Brasil, em especial em Santa Catarina, e no exterior, com
o suposto envolvimento de agentes na Rússia e até em Dubai, nos Emirados Árabes.
Segundo agentes ouvidos por ISTOÉ, a PF pode estar perto de alcançar os
responsáveis pelo hackeamento ilegal, o que, se con rmado, constituiria uma bomba
capaz de provocar uma reviravolta no caso.

“Há um movimento claro para


anular condenações e impedir
investigações”

“Um grupo organizado se valeu de


métodos criminais para a quebra
do sigilo de autoridades” Sergio
Moro, ministro da Justiça

As pistas da principal linha de


NA NUVEM O ministro Sergio Moro saiu-se bem na
investigação levam à Rússia. É sabatina do Senado na quarta-feira 19. Deltan
onde reside o americano Edward Dallagnol (ao lado) comemorou (Crédito:Divulgação)
Snowden, notório aliado do
jornalista Glenn Greenwald, dono
do site The Intercept Brasil. Em 2013, Snowden se aproximou dos irmãos bilionários
Nikolai e Pavel Durov, que criaram o Telegram, um sistema de comunicação por
mensagens similar ao Whatsapp. A PF suspeita que Snowden possa estar por trás do
esquema de bisbilhotagem e divulgação das mensagens de membros do Ministério
Público Federal. Recentemente, Snowden elogiou o Telegram por sua resiliência na
Rússia, depois que o governo proibiu o aplicativo e pressionou para que liberasse o
acesso às mensagens privadas dos usuários. Na PF, há quem acredite que o
americano refugiado na Rússia possa ter se valido de recentes contatos com os Durov
para ter acesso aos diálogos envolvendo as autoridades brasileiras.
Condinome: “lucky12345”

A partir da investigação sobre os passos de Snowden, informantes do Brasil na Rússia


puxaram um outro o do novelo: o que leva a Evgeniy Mikhailovich Bogachev, de 33
anos. Criador do vírus Cryptolocker e do ardiloso código Zeus, ele é procurado pelo
FBI americano por crimes cibernéticos. Um rastreamento identi cou que Slavic ou
“lucky12345”, como é conhecido, teria recebido US$ 308 mil em bitcoins (a moeda
virtual). Resta saber se o depósito foi realmente a contrapartida nanceira por ele ter
participado do processo de quebra do sigilo telefônico dos procuradores. O dinheiro
teria circulado pelo Panamá antes de chegar a Anapa, na Rússia, onde foi
transformado em rublos. Na última semana, o nome do agente russo veio à tona pela
primeira vez através de um per l anônimo no twitter. Embora parecesse inverossímil
num primeiro momento, por conter erros de gra a e tradução, ISTOÉ con rmou que a
PF segue sim o rastro da pista, considerada importante pelos agentes hoje à frente do
caso. Em especial, pelos indícios de que Slavic, uma espécie de laranja no esquema,
possa estar ligado a Snowden. Um relatório de segurança da Ucrânia aponta que
“lucky12345” atua sob a supervisão de uma unidade da espionagem russa.
Mas por que os bilionários irmãos Nikolai e Pavel Durov, do Telegram, se aliariam a
Snowden e Slavic na tentativa de desquali car a principal operação de combate à
corrupção da história recente do Brasil? Agentes da PF colheram informações que os
levam a crer que os Durov, atualmente abrigados em Dubai, podem ter agido com
motivações puramente ideológicas. Adeptos do islã, eles teriam cado enfurecidos
com a proverbial predileção do presidente Jair Bolsonaro por Israel em detrimento
aos árabes. Em abril, depois de recebido com honras pelo premiê Benjamin
Netanyahu, o presidente anunciou a criação de um escritório de negócios em
Jerusalém “para a promoção de comércio, investimentos e intercâmbio” bilaterais.
Netanyahu saudou a abertura de um gabinete brasileiro na cidade e pediu que aquele
fosse o primeiro passo para a abertura da embaixada brasileira em Jerusalém – o que
provocou a ira dos islâmicos e, consequentemente, dos Durov. Bolsonaro, ao alcançar
o poder, foi o principal bene ciário da Lava Jato, conduzida por Moro. Desmoralizar o
juiz e a Lava Jato signi caria enfraquecer o bolsonarismo e trazer a esquerda lulista de
volta ao jogo. Con rmada a tese, Greenwald teria sido a ponta nal da operação
comandada pelo trio Snowden, Slavic e Durov.

Não custa lembrar que Greenwald e Snowden foram parceiros num trabalho
desenvolvido em 2013 e que expôs dados secretos da Agência de Segurança Nacional
(NSA), do governo dos EUA. O material interceptado por Snowden, também de forma
ilegal, foi divulgado por Greenwald no jornal inglês The Guardian e em outros jornais
pelo mundo afora, como O Globo, no Brasil. Graças aos documentos vazados, o
jornalista ganhou os prêmios Pulitzer e Esso. Pressionado a divulgar detalhes de sua
operação, Snowden acabou se asilando na Rússia, onde passou a ser protegido pelo
presidente Vladimir Putin. Enquanto que Greenwald se refugiou no Brasil, casando-se
com o brasileiro David Miranda, atual deputado federal pelo PSOL e acabou xando
residência no Rio de Janeiro, de onde opera o The Intercept Brasil. Atualmente,
Snowden é presidente da Freedom of the Press Foundation. Um dos co-fundadores é
Greenwald. Na última semana, a PF considerou realizar uma operação de busca e
apreensão dos computadores do dono do The Intercept e conduzi-lo para prestar
depoimento, mas fontes ligadas ao ministro entenderam que esse fato poderia
transformar o jornalista em mártir e o governo ainda corria o risco de ser acusado de
cercear a liberdade de imprensa.

Trabalho de pro ssional

Algo é certo: a PF já sabe que o acesso ilegal ao aplicativo Telegram dos procuradores
não foi realizado por amadores. “Não foi uma ação de um adolescente por trás de um
computador. Tratou-se de um trabalho feito por uma organização criminosa
altamente especializada”, endossou Moro em depoimento que prestou no Senado na
quarta-feira 19. De fato, segundo fontes da PF, o trabalho de hackers na quebra de
sigilo de celulares e computadores foi coisa de pro ssional. Além de envolver
equipamentos caríssimos que alcançam a casa dos milhões de dólares, fogem
completamente do padrão de hackers de menor poder destrutivo, conhecidos como
“defacements”, que se notabilizaram por fazer as chamadas “pichações políticas” em
sites e organizar malfadados ataques a transações bancárias. No dia 4, o suposto
hacker tentou se passar pelo ministro da Justiça enviando uma mensagem a um
funcionário do gabinete de Moro, depois de ativar uma conta no Telegram.
O DESIGNADO O delegado Maurício Valeixo, diretor-geral da PF, está à frente da operação
destinada a encontrar os responsáveis pela violação das conversas (Crédito:Divulgação)

Sem descartar as pistas que surgem pelo caminho, na última semana, a PF adicionou
uma organização criminosa que operava em Santa Catarina ao rol dos suspeitos. Na
terça-feira 18, a PF desencadeou a operação “Chabu” (vulgo “deu errado”) em
Florianópolis, com o cumprimento de sete mandados de prisão e 23 de busca e
apreensão. O objetivo foi a desarticulação de uma quadrilha que vinha quebrando
sigilos de autoridades no estado para o vazamento de operações policiais e ações de
órgãos públicos. Para a PF, a quadrilha pode estar envolvida na operação de
hackeamento dos celulares dos procuradores do Paraná.

Para a PF, Nikolai e Pavel Durov, do Telegram, teriam se aliado a Snowden, Slavic e
Greenwald por razões ideológicas

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Entre os presos, está o delegado da PF Fernando Amaro de Moraes Caieron e o
policial rodoviário federal Marcelo Roberto Paiva Winter, ambos especializados em
crimes cibernéticos e trá co de drogas. Foram presos ainda o prefeito de
Florianópolis, Gean Loureiro (sem partido), e o ex-chefe da Casa Civil Luciano Veloso
Lima. Todos eles utilizavam a estrutura da empresa Nexxera, de tecnologia, para
cometer as ilegalidades. Segundo fontes ligadas ao diretor-geral da PF, Maurício
Valeixo, a análise dos documentos apreendidos será decisiva para apontar a
existência do elo do grupo com os hackers da Lava Jato. Assim como a conexão Brasil-
Rússia-Dubai, o elucidamento do caso parece estar próximo. Quem acompanha as
investigações assegura: se os indícios encontrados até agora se con rmarem, a PF
estará bem perto mudar o rumo do rumoroso episódio que monopolizou as atenções
dos brasileiros nas últimas semanas.

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